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Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

Mahabharata

 

Para Crianças

(e adultos também)

 

Volume 1

 

Todas as glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Mahabharata

de

Chakravarti Rajagopalachari

Bhavan's Book University
Bharatiya Vidya Bhavan
Kulapati K. M. Munshi Marg
Bombaim - Índia

31ª Edição em Inglês - 1990

Versão em Português
Visvavandya Dasa
São Paulo, segunda-feira, 8 de setembro de 2008
(Sri Radhashtami)

 

 

Todas as glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Índice

 

 

Sobre o Autor

 

 

Nota do Tradutor

1

-

Ganapati, o Escrevente

2

-

Devavrata

3

-

O Voto de Bhisma

4

-

Amba e Bhisma

5

-

Devayani e Kacha

6

-

O Casamento de Devayani

7

-

Yayati

8

-

Vidura

9

-

Kunti Devi

10

-

A Morte de Pandu

11

-

Bhima

12

-

Karna

13

-

Drona

14

-

O Palácio de Cera

15

-

A Fuga dos Pandavas

16

-

A Morte de Bakasura

17

-

O Swayamvara de Draupadi

18

-

Indraprastha

19

-

Os Pássaros Saranga

20

-

Jarasandha

21

-

A Morte de Jarasandha

22

-

A Primeira Homenagem

23

-

Shakuni Entra em Cena

24

-

O Convite

25

-

A Aposta

26

-

A Provação de Draupadi

27

-

A Ansiedade de Dhritarastra

28

-

A Promessa de Krishna

29

-

Pashupata

30

-

Aflição Não É Coisa Nova

31

-

Agastya

32

-

Rishyashringa

33

-

Penitência Infrutífera

34

-

O Fim de Yavakrida

35

-

Mero Conhecimento Não É Suficiente

36

-

Ashtavakra

37

-

Bhima e Hanuman

38

-

Não Sou Um Grou

39

-

Os Malvados Nunca Ficam Satisfeitos

40

-

A Desonra de Duryodhana

41

-

A Fome de Sri Krishna

42

-

A Lagoa Encantada

43

-

Serviço Doméstico

44

-

Virtude Defendida

45

-

A Defesa de Matsya

46

-

O Príncipe Uttara

47

-

Promessa Cumprida

48

-

A Desilusão de Virata

49

-

Recebimento de Conselho

50

-

O Cocheiro de Arjuna

51

-

Shalya Contra Seus Sobrinhos

52

-

Vritra

53

-

Nahusha

54

-

A Missão de Sanjaya

55

-

Nem Uma Ponta de Agulha de Território

56

-

A Missão de Krishna

57

-

Apego e Dever

58

-

O Generalíssimo dos Pandavas

59

-

Balarama

60

-

Rukmini

61

-

Não Cooperação

62

-

Os Ensinamentos de Krishna

63

-

Yudhisthira Pede Bênção

64

-

O Primeiro Dia de Batalha

65

-

O Segundo Dia

66

-

O Terceiro Dia de Batalha

67

-

O Quarto Dia

68

-

O Quinto Dia

69

-

O Sexto Dia

70

-

O Sétimo Dia

71

-

O Oitavo Dia

72

-

O Nono Dia

73

-

O Falecimento de Bhisma

74

-

Karna e o Patriarca

75

-

Drona no Comando

76

-

Capturar Yudhisthira Vivo

77

-

O Décimo Segundo Dia

78

-

O Bravo Bhagadatta

79

-

Abhimanyu

80

-

A Morte de Abhimanyu

81

-

A Tristeza do Pai

82

-

O Rei de Sindhu

83

-

Armadura Emprestada

84

-

Os Pressentimentos de Yudhisthira

85

-

A Esperança Afetuosa de Yudhisthira

86

-

Karna e Bhima

87

-

Promessa Respeitada

88

-

O Fim de Bhurishrava

89

-

Jayadratha Morto

90

-

O Falecimento de Drona

91

-

A Morte de Karna

92

-

Duryodhana

93

-

Os Pandavas Repreendidos

94

-

Asvathama

95

-

Vingança Cumprida

96

-

Quem Pode Consolar?

97

-

A Agonia de Yudhisthira

98

-

Yudhisthira Consolado

99

-

Inveja

100

-

Utanga

101

-

Meio Quilo de Farinha

102

-

Yudhisthira Reina

103

-

Dhritarastra

104

-

O Desaparecimento de Dhritarastra

105

-

O Desaparecimento do Senhor Krishna

106

-

Os Pandavas Voltam ao Lar, de Volta ao Supremo

107

-

A Retirada da Dinastia Yadu

108

-

O Julgamento Final de Yudhisthira

 

 

Glossário

 

Sobre o Autor

Chakravarti Rajagopalachari foi uma grande personalidade da vida pública indiana, popularmente conhecido como "Rajaji" ou "C. R.", grande patriota, político astuto, intelectual incisivo e um dos maiores estadistas. Foi amigo íntimo de Mahatma Gandhi e grande batalhador pela liberdade. Prestou grandes serviços à nação como primeiro ministro de Madras, governador da Bengala Ocidental, Ministro da Casa Civil, e o primeiro governador-geral da Índia, e é uma grande referência para a vida contemporânea.

Seus livros como "Marcus Aurelius", "Bhagavad-gita" e "Upanishads" são muito populares. Também, escreveu vários outros como "Ramayana" e "Bhaja Govindam". Mas em seu Mahabharata, ele expressa sua habilidade refinada em contar histórias com a moral aplicada aos tempos modernos. As histórias foram escritas originalmente em Tamil, e traduzidas para o inglês na maior parte pelo próprio Rajaji, que conseguiu preservar a beleza e o espírito da grande obra original num inglês agradável e simples.

A primeira edição em inglês do Mahabharata de Chakravarti Rajagopalachari foi em 1950 em Madras, Índia. Ele dividiu a obra em 106 histórias (capítulos). Sua intenção era contar as histórias para as crianças poderem apreciar.

Chakravarti Rajagopalachari deixou este mundo em 1972 com 94 anos de idade.

 

Todas as glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nota do Tradutor

Esta versão em português do Mahabharata acontece somente pela graça de meu amado Gurudeva, Sua Divina Graça Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Srila Prabhupada, Paramahamsa Thakur Mahashaya, aquele que presenteou o mundo com a Consciência de Krishna, pela graça de Sri Chaitanya Mahaprabhu.

Esta versão também foi elaborada plenamente de acordo com os Ensinamentos de Sua Divina Graça Srila Prabhupada, no padrão Gaudiya Vaishnava de Sriman Mahaprabhu. Por isso, algumas partes foram modificadas desta forma.

O Mahabharata original é composto de 1.500.000 versos em sânscrito, pelo grande sábio Sri Srimad Krishna-Dwaipayana Vyasa (Srila Vyasadeva), que é a encarnação literária do Senhor Krishna, que concedeu todo o Conhecimento Védico à humanidade de kali-yuga. Esta é uma versão condensada e escrita para crianças. Mas os adultos com certeza também podem apreciar o benefício desta Leitura Transcendental.

Sri Krishna é a Suprema Personalidade de Deus original e primordial, eterno, pleno de conhecimento, pleno de bem-aventurança, a fonte de todas as outras encarnações, a causa de todas as causas, a origem de tudo o que existe. Tudo acontece por Sua vontade suprema. Tudo vem de Deus, tudo é energia de Deus, tudo pertence a Deus, Ele é o dono de tudo, pois é o Criador, como está no primeiro verso do Brahma-Samhita:

isvarah paramah krsnah
sac-cid-ananda-vigrahah
anadir adir govindah
sarva-karana-karanam

"Krishna, conhecido como Govinda, é a Suprema Personalidade de Deus. Ele tem um corpo transcendental, eterno, perfeito, onipotente, onisciente, onipresente e bem-aventurado. Ele é a origem de tudo. Ele não tem nenhuma origem, e Ele é a causa primordial de todas as causas".

Como o próprio Supremo Senhor, Sri Krishna, explica no Srimad Bhagavad-gita, Capítulo Três (Karma-yoga):

19. Portanto, a pessoa deve atuar como uma questão de dever, sem se apegar aos frutos das atividades, porque se trabalhar sem apego, a pessoa alcança o Supremo.

20. Inclusive reis como Janaka e outros alcançaram a etapa da perfeição mediante a execução dos deveres prescritos. Portanto, deve executar seu trabalho unicamente para educar as pessoas em geral.

21. As pessoas comuns seguem os passos de um grande homem, qualquer que seja a ação que este execute, e quaisquer que sejam as normas que ele estabeleça mediante seus atos exemplares, serão seguidas por todo mundo.

22. Ó Arjuna! Não há trabalho prescrito para Mim dentro dos três sistemas planetários. Nem necessito nada, nem tenho que obter nada; ainda assim, Eu Me ocupo no trabalho.

23. Pois se Eu não Me ocupasse no trabalho, ó Arjuna (Partha), certamente todas pessoas seguiriam Meus passos.

24. Se Eu deixasse de trabalhar, então todos estes mundos iriam à ruína. Eu também seria a causa de população não desejada e, por conseguinte, destruiria a paz de todos os seres conscientes.

Balarama e Krishna

Krishna é a Suprema Personalidade de Deus, Ele é a causa da Natureza Material, e tudo acontece por Sua vontade suprema. Krishna nunca é tocado ou influenciado pela Energia Material, pois Ele é o Senhor de Maya. Mas por Sua misericórdia infinita, Ele vem pessoalmente a este mundo material, para resgatar os seres caídos de volta ao Lar, de volta ao Supremo. Como Ele mesmo explica no Bhagavad-gita (4,6-9):

ajo 'pi sann avyayatma
bhutanam isvaro 'pi san
prakrtim svam adhisthaya
sambhavamy atma-mayaya

6. Mesmo que Eu não tenha nascimento e Meu corpo transcendental nunca se deteriore, e mesmo que Eu seja o Senhor de todos seres conscientes, ainda assim, Eu apareço em cada milênio na Minha forma original transcendental.

yada yada hi dharmasya
glanir bhavati bharata
abhyutthanam adharmasya
tadatmanam srjamy aham

7. Sempre que acontece um declínio da prática religiosa, e onde quer que seja, ó Arjuna (descendente de Bharata), e um aumento predominante da irreligião, nesse momento, Eu descendo pessoalmente.

paritranaya sadhunam
vinasaya ca duskrtam
dharma-samsthapanarthaya
sambhavami yuge yuge

8. Eu venho pessoalmente milênio após milênio a fim de redimir os piedosos e aniquilar os malvados, assim como para restabelecer os princípios da religião.

janma karma ca me divyam
evam yo vetti tattvatah
tyaktva deham punar janma
naiti mam eti so 'rjuna

9. Ó Arjuna! Aquele que conhece a natureza transcendental do Meu advento e atividades nunca volta a nascer neste mundo material após deixar este corpo, mas alcança Minha morada eterna.

vita-raga-bhaya-krodha
man-maya mam upasritah
bahavo jnana-tapasa
puta mad-bhavam agatah

10. Muitas pessoas no passado que se livraram do apego, do temor e da ira, por estarem completamente absortas em Mim, e abrigadas em Mim, purificaram-se por meio do conhecimento sobre Mim, e assim, todas elas alcançaram o amor transcendental por Mim.

ye yatha mam prapadyante
tams tathaiva bhajamy aham
mama vartmanuvartante
manusyah partha sarvasah

11. Na medida em que se rendem a Mim, Eu recompenso a todas pessoas. Ó Arjuna (filho de Pritha)! Cada qual segue Meu caminho em todos os aspectos.

Assim, Krishna apareceu aqui neste planeta há cinco mil anos, aproximadamente, e veio com todos Seus companheiros transcendentais, energias, devotos, semideuses e tudo mais. Krishna e Seu irmão Balarama são a Suprema Personalidade de Deus original. Mas vieram para resgatar os seres caídos, aliviar o peso demoníaco do planeta e restabelecer os princípios religiosos verdadeiros. Por isso, Eles agiam como pessoas comuns, para dar exemplo. Claro que apesar de agirem como pessoas comuns, nunca vão ser pessoas comuns.

Balarama e Krishna

A História do Mahabharata não é uma história comum, ou mitologia, ou um romance fictício. É uma história real, que aconteceu realmente, e faz parte dos passatempos eternos e transcendentais da Suprema Personalidade de Deus. Todos os personagens são seres eternos, companheiros transcendentais do Supremo Senhor, que vêm junto com Ele, a fim de auxiliar nesses passatempos.

Agora, com certeza, esta História Sagrada do Mahabharata acontece em algum outro planeta de algum outro universo material.

O objetivo da publicação desta versão em português é dar às pessoas a oportunidade de ouvirem, cantarem e lembrarem estes passatempos transcendentais do Supremo Senhor. E assim purificarem sua existência com o aumento da fé e da compreensão a respeito da Consciência de Krishna, e despertarem seu amor puro por Krishna.

O Srimad Bhagavad-gita é o auge destes ensinamentos divinos. Quando Krishna manifesta todo Conhecimento Divino da Consciência de Krishna, por Sua misericórdia sem causa magnânima, para o benefício de todos os seres condicionados aqui nesta Sua Natureza Material. Portanto, o estudo sincero do Bhagavad-gita é fundamental e primordial para o avanço na Consciência de Krishna.

(http://www.nitaigaura.com.br/gita_br.html).

O Srimad Bhagavatam afirma (Bhag. 1.7.6-7):

"As misérias materiais dos seres vivos, que são supérfluas para eles, podem ser mitigadas pelo processo de religação do serviço amoroso devocional ao Senhor Krishna. Mas a massa em geral não sabe disso, por isso, o sábio Vyasadeva compilou a Literatura Védica, que está em relação com a Verdade Absoluta".

"Pela simples recepção auditiva (ou leitura) desta Literatura Védica, o sentimento amoroso pelo serviço devocional ao Senhor Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, desperta imediatamente para extinguir o fogo ardente da lamentação, ilusão e medo".

E como diz o famoso Verso Dez deste mesmo Capítulo (Bhag. 1.7.10):

suta uvaca
atmaramas ca munayo
nirgrantha apy urukrame
kurvanty ahaitukim bhaktim
ittham-bhuta-guno harih

"Todos os tipos de atmaramas (aqueles que sentem prazer no atma, eu espiritual), especialmente os que estão no caminho da auto-realização, apesar de estarem livres de todos tipos de dependência material, desejam prestar serviço devocional puro à Suprema Personalidade de Deus. Isso significa que o Senhor possui qualidades transcendentais e portanto pode atrair todos, inclusive os seres liberados".

Também outro verso famoso (Bhag. 1.5.11):

tad-vag-visargo janatagha-viplavo
yasmin prati-slokam abaddhavaty api
namany anantasya yaso 'nkitani yat
srnvanti gayanti grnanti sadhavah

"Essas narrações que estão repletas das descrições das glórias transcendentais do nome, fama, formas, passatempos, etc. do Supremo Senhor ilimitado estão cheias de palavras que destroem os pecados das vidas impiedosas da civilização mal dirigida deste mundo. Essas literaturas transcendentais, mesmo compostas imperfeitamente, são ouvidas, cantadas e aceitas por pessoas purificadas que são perfeitamente honestas".

Os últimos capítulos do livro original foram substituídos pelos Capítulos do Srimad Bhagavatam de Sua Divina Graça Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaja Prabhupada que é a autoridade autêntica sobre o assunto. Insistimos enfaticamente no estudo dos Livros transcendentais deixados por Sua Divina Graça como o Bhagavad-gita Como Ele É e o Srimad Bhagavatam. Os Capítulos do Srimad Bhagavatam foram traduzidos da Edição original em inglês, sem as ditas "correções" posteriores.

Agradeço aos nobres leitores pela indicação dos erros eventuais, para que possam ser corrigidos. E mais Néctar está a caminho, pela graça de Srila Prabhupada.

Boa leitura!

Visvavandya Dasa

São Paulo, segunda-feira, 8 de setembro de 2008
(Sri Radhashtami)

 

Todas as glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Mahabharata

Volume 1

Kurukshetra - Quadriga de Krishna e Arjuna

 

Capítulo 1

Ganapati, O Escrevente

Senhor Ganapati

Bhagavan Vyasa, o célebre compilador dos Vedas, é filho do grande sábio Parashara. Foi ele quem presenteou o mundo com o grande épico Mahabharata.

Sri Narada instrui Srila Vyasadeva

Depois de conceber o Mahabharata, ele pensou como daria essa história sagrada ao mundo. Assim, meditou em Brahma, o Criador, que se manifestou perante ele. Vyasa o saudou com reverência e orou com mãos postas:

"Senhor, eu concebi uma obra excelente, mas não consigo pensar em alguém que possa escrever enquanto dito".

Srila Vyasadeva e Sri Ganapati

Brahma exaltou Vyasa e disse: "Salve grande sábio, invoque Ganapati e peça-lhe para ser seu escrevente". Após dizer isso, desapareceu. O sábio Vyasa meditou em Ganapati que apareceu diante dele. Vyasa o recebeu com o devido respeito e pediu por sua ajuda:

"Senhor Ganapati, eu vou ditar a história do Mahabharata e imploro que fique feliz em ser o escrevente".

Ganapati respondeu: "Muito bem, farei como você deseja. Mas minha pena não deve parar enquanto eu escrever. Assim, você tem que ditar sem pausa ou hesitação. Eu só vou escrever nessa condição".

Vyasa concordou porém se precaveu com uma contra-proposta: "Assim seja, mas você tem que entender o significado do que eu ditar antes de escrever".

Ganapati sorriu e concordou com a condição. Dessa forma, o sábio começou a cantar a história do Mahabharata. De vez em quando, ele compunha algumas estrofes complexas que faziam Ganapati parar para pensar, e nesse intervalo, Vyasa compunha várias outras estrofes mentalmente. Desse jeito, o Mahabharata foi escrito por Ganapati sob o ditado de Vyasa.

Srila Vyasadeva e Sri Ganapati

Tudo isso aconteceu muito antes da descoberta da imprensa, quando a memória dos sábios era o único depósito dos livros. Vyasa ensinou este grande épico primeiramente a seu filho Shuka. Mais tarde, apresentou-o a muitos outros discípulos. Se não fizesse isso, talvez o livro não chegasse às futuras gerações.

A tradição fala que Narada contou a história do Mahabharata aos Devas (semideuses), enquanto Shuka a ensinou aos Gandharvas, Rakshasas e Yakshas (outros seres celestiais). Sabemos que o virtuoso e erudito Vaisampayana, um dos discípulos principais de Vyasa, revelou o Épico para benefício da humanidade. Janamejaya, filho do grande rei Parikshit, realizou um grande sacrifício onde convidou Vaisampayana para narrar a história. Em seguida, a história, contada por Vaisampayana, foi recitada por Suta na floresta de Naimisha numa assembléia de sábios liderados pelo rishi Shaunaka.

Suta se dirigiu à assembléia: "Eu tive a grande sorte de ouvir a história do Mahabharata composta por Vyasa para ensinar à humanidade dharma (religião pura) e os outros propósitos da vida. Terei prazer em narrar a vocês". Ao ouvir isso, os ascetas sentaram-se avidamente em volta dele.

Suta continuou: "Eu ouvi a história principal do Mahabharata e seus episódios narrativos quando foram contados por Vaisampayana no sacrifício realizado pelo rei Janamejaya. Depois disso, fiz peregrinações extensivas por vários locais sagrados bem como no campo onde aconteceu a grande batalha descrita no épico. Agora vim aqui para me encontrar com todos vocês". Assim, ele continuou a narrar a história completa do Mahabharata naquela grande assembléia.

Quando o grande rei Shantanu morreu, Chitrangada tornou-se o rei de Hastinapura e foi sucedido por Vichitravirya que teve dois filhos, Dhritarastra e Pandu. Como o mais velho nasceu cego, Pandu, o irmão mais novo, assumiu o trono. Durante seu reinado, Pandu cometeu uma certa ofensa e teve que se refugiar na floresta com suas duas esposas onde passaram muitos anos em penitência.

Nessa época na floresta, as duas esposas de Pandu, Kunti e Madri, deram à luz cinco filhos que ficaram famosos como os cinco Pandavas. Pandu morreu quando ainda estavam na floresta. Os sábios criaram os cinco Pandavas em seus primeiros anos de vida.

Quando Yudhisthira, o mais velho, fez dezesseis anos de idade, os sábios os levaram de volta a Hastinapura e os entregaram aos cuidados do nobre patriarca Bhisma.

Em pouco tempo, os Pandavas dominaram os Vedas e o Vedanta bem como todas as outras artes, especialmente as pertencentes aos kshatriyas (guerreiros da classe militar). Os Kauravas, filhos do cego Dhritarastra, ficaram com ciúmes dos Pandavas e tentaram prejudicá-los de várias maneiras.

Finalmente, Bhisma, o chefe da família, interveio para promover o entendimento mútuo e a paz entre eles. A partir daí, os Pandavas e os Kauravas começaram a reinar separadamente em suas capitais respectivas, Indraprastha e Hastinapura.

Algum tempo depois, teve um jogo de dados entre os Kauravas e os Pandavas de acordo com o código de honra dos kshatriyas na época. Shakuni, que jogou pelos Kauravas, derrotou Yudhisthira. Em conseqüência, os Pandavas foram exilados por um período de treze anos. Eles deixaram o reino e foram para a floresta com sua devotada esposa Draupadi.

Conforme as regras do jogo, os Pandavas tinham que passar doze anos exilados na floresta e o décimo terceiro ano, incógnitos. Quando retornaram e reclamaram a Duryodhana por sua herança paterna, ele, que já tinha usurpado o reino deles nesse período, recusou-se a devolver. A guerra veio em conseqüência. Os Pandavas derrotaram Duryodhana e recuperaram seu patrimônio.

Os Pandavas governaram o reino por trinta e seis anos. Depois passaram a coroa para seu neto Parikshit, e retornaram à floresta com Draupadi, onde viveram em voto de pobreza plena.

Essa é a essência da história do Mahabharata. Neste épico antigo e maravilhoso da Índia, há narrações ilustrativas e ensinamentos sublimes, além da descrição do excelente caráter divino dos Pandavas. O Mahabharata é de fato um verdadeiro oceano repleto de inumeráveis pérolas e jóias preciosas. Ele é, junto com o Ramayana, uma fonte viva da ética e cultura da Índia milenar.

 

Capítulo 2

Devavrata

"Você tem que ser minha mulher, quem quer que você seja". Disse o rei Shantanu à deusa Ganga que apareceu perante ele em forma humana, e inebriava seus sentidos com um encanto sobre-humano.

O rei ofereceu veementemente em troca do amor dela seu reino, sua fortuna, tudo que possuía, sua própria vida.

Ganga respondeu: "Salve rei, eu serei sua esposa, mas sob algumas condições. Nem você nem mais ninguém nunca deve me perguntar quem eu sou, ou de onde eu vim. Você nunca deve me impedir de fazer qualquer coisa, seja boa ou ruim, nem deve ficar zangado comigo por causa disso. Você nunca deve dizer nada que me desagrade. Se agir em contrário, vou abandoná-lo imediatamente. Você concorda"?

O rei apaixonado jurou a ela sua promessa, e ela se tornou sua esposa e viveu com ele.

O coração do rei foi cativado por sua modéstia e graça, bem como o amor sincero que ela lhe dedicava. O rei Shantanu e Ganga viveram uma vida de felicidade perfeita, esquecidos da passagem do tempo.

Ela deu à luz vários filhos; cada recém-nascido, ela levava ao Ganges e atirava no rio, e depois voltava para o rei com um sorriso na face.

Shantanu ficava horrorizado e angustiado com tal conduta perversa, mas sofria em silêncio, ciente de sua promessa. Freqüentemente, ele imaginava quem era ela e de onde ela veio, e por que agia como uma bruxa assassina, mesmo assim, preso por sua palavra, e pelo seu amor extremo por ela, não pronunciava qualquer palavra de desaprovação ou condenação.

Assim, ela matou sete filhos. Quando nasceu o oitavo e ela foi jogá-lo no rio Ganges, Shantanu não pôde agüentar mais.

Ele gritou: "Pare, pare, por que você pratica esse assassinato horrendo e antinatural de seus próprios bebês inocentes"? Com essa explosão, o rei a conteve.

Ela respondeu: "Salve grande rei, você esqueceu sua promessa, pois seu coração está fixo em seu filho, e você não precisa mais de mim. Eu vou embora. Eu não matarei esta criança, mas ouça a minha história antes de me julgar. Estou muito constrangida de ter que fazer este papel odioso por causa da maldição de Vasistha. Eu sou a deusa Ganga, adorada por humanos e deuses. Vasistha amaldiçoou os oito Vasus para nascerem no mundo dos humanos, e comovido pelas súplicas deles depois, pediu que eu fosse a mãe deles. Eu os gerei para você, e foi para o seu bem que assim foi feito. Pois você irá aos reinos celestiais superiores por esse serviço prestado aos oito Vasus. Eu vou criar este filho para você durante algum tempo e o devolverei como meu presente a você".

Após dizer essas palavras, a deusa desapareceu com a criança. Essa criança mais tarde ficou famosa como Bhisma. Os Vasus foram amaldiçoados por Vasistha num dia festivo quando foram passear com suas esposas numa montanha onde ficava o retiro de Vasistha no caminho. Um deles avistou a vaca de Vasistha, Nandini, que pastava ali.

Sua beleza divina o atraiu e ele a apontou para as damas. Todas elogiaram com alvoroço a graciosidade do animal, e uma delas pediu a seu esposo para pegar a vaca para ela.

Ele respondeu: "Qual a necessidade que nós, devas, temos do leite de vaca? Essa vaca pertence ao sábio Vasistha que é o dono de todo este lugar. Humanos com certeza se tornarão imortais ao beber seu leite. Mas não tem nenhuma vantagem para nós, pois já somos imortais. Será que vale a pena provocar a ira de Vasistha só para satisfazer um capricho"?

Mas ela não se convenceu. "Eu tenho uma amiga querida no mundo mortal, é para ela que fiz o pedido. Nós podemos fugir com a vaca antes de Vasistha voltar. Você tem que fazer isso por mim, porque eu quero muito". Finalmente, seu marido concordou. Todos os Vasus se juntaram para pegar a vaca com seu bezerro, e fugiram.

Quando Vasistha voltou para seu ashrama, não achou a vaca e o bezerro que eram indispensáveis para seus rituais diários.

Em pouco tempo, pelos seus poderes místicos, ele entendeu tudo que aconteceu. Tomado pela ira, ele bradou uma maldição para os Vasus. A única riqueza do sábio era sua austeridade, assim desejou que eles nascessem no mundo dos humanos. Quando os Vasus tomaram conhecimento da maldição, ficaram muito arrependidos, só que tarde demais, eles foram apelar para a misericórdia do sábio e implorar por seu perdão.

Vasistha disse: "A maldição tem que acontecer de qualquer forma. Prabhasa, o Vasu que capturou a vaca, terá vida longa no mundo com toda glória, mas os outros ficarão livres da maldição logo no nascimento. Minha palavra não pode ser quebrada, mas vou aliviar a maldição dessa forma".

Depois disso, Vasistha voltou a se concentrar em suas austeridades, cujos efeitos se enfraqueceram levemente por causa de sua ira. Sábios que praticam austeridades adquirem o poder de amaldiçoar, mas cada exercício desse poder reduz seu saldo de mérito.

Os Vasus sentiram-se aliviados e foram procurar a deusa Ganga, assim suplicaram a ela: "Nós imploramos que você seja a nossa mãe. Nós pedimos para o nosso bem que você desça à Terra e se case com um homem digno. Jogue-nos na água assim que nascermos e nos libere da maldição". A deusa atendeu a prece deles, veio para a Terra e se tornou esposa de Shantanu.

Depois que a deusa Ganga deixou Shantanu e desapareceu com a oitava criança, o rei abandonou todos prazeres sensuais e governou o reino com um espírito de ascetismo. Num certo dia, ele andava pelas margens do Ganges quando avistou um menino que tinha a beleza e forma de Devendra, o rei dos deuses.

O menino se divertia e atirava uma fileira de flechas para fazer um dique e represar as águas do Ganges, brincava com o poderoso rio como uma criança brinca com sua mãe indulgente. O rei ficou maravilhado com a visão, quando a deusa Ganga se revelou a ele e apresentou o menino como seu próprio filho.

Ela disse: "Salve rei, este é o oitavo filho que gerei para você. Eu o criei até agora. Seu nome é Devavrata. Ele domina as artes marciais e se iguala a Parashurama em poder. Ele é mestre nos Vedas e no Vedanta por ser discípulo de Vasistha, e é mestre nas artes e ciências conhecidas como Shukra. Receba de volta esta criança que é um grande arqueiro e estadista mestre".

Ela abençoou o menino, deu-o a seu pai, o rei, e desapareceu.

 

Capítulo 3

O Voto de Bhisma

O rei recebeu com muita alegria no coração e no seu reino o brilhante e jovem príncipe Devavrata e coroou-o como Yuvaraja, seu sucessor legítimo.

Passaram-se quatro anos. Certo dia, o rei passeava pelas margens do Yamuna quando de repente o ar se encheu com um perfume fragrante tão sublime que ele foi procurar a origem, até que se deparou com uma donzela muito encantadora que parecia uma deusa. Um sábio tinha dado a ela uma bênção de que emanaria um perfume divino de seu corpo, que agora impregnava toda a floresta.

Desde quando a deusa Ganga o deixou, o rei se manteve com os sentidos controlados, mas a visão dessa donzela tão divinamente bela abalou seu autocontrole e produziu em seu íntimo um desejo ardente incontrolável. Ele pediu a ela que fosse sua esposa.

A donzela respondeu: "Sou uma pescadora, a filha do líder dos pescadores. Faça o favor de falar com ele e pedir seu consentimento". A voz dela era tão meiga quanto sua forma.

O pai dela era um homem astuto.

Ele disse: "Salve rei, não há dúvida que esta donzela, como todas outras, tem que se casar com alguém, e você com certeza é digno dela. Ainda assim terá que me fazer uma promessa antes de tê-la".

Shantanu respondeu: "Se for só uma promessa, eu concordo".

O líder dos pescadores disse: "O filho que nascer desta donzela será o rei depois de você".

Apesar de enlouquecido pela paixão, o rei não pôde fazer essa promessa e deixar de lado o divino Devavrata, filho de Ganga, que é o herdeiro legítimo da coroa.

Era um prêmio que não poderia ser ganho sem vergonha. Assim, ele voltou à sua capital, Hastinapura, triste com seu desejo reprimido. Ele não revelou o assunto a ninguém e sofreu em silêncio.

Um dia, Devavrata perguntou a seu pai: "Pai, você tem tudo que deseja. Por que está assim tão triste? Por que você parece se isolar num sofrimento secreto"?

O rei respondeu: "Meu querido filho, o que você disse é verdade. Sofro uma tortura mental com dor e ansiedade. Você é meu único filho e está sempre preocupado com as ambições militares. A vida no mundo é incerta e as guerras são incessantes. Se acontecer alguma adversidade a você, nossa família será extinta. Claro que você vale por cem filhos. Ainda assim, os sábios versados nas escrituras dizem que no mundo transitório ter apenas um filho é o mesmo que não ter nenhum filho. Não é bom que a perpetuação de nossa família dependa apenas duma única vida, e acima de qualquer outra coisa, eu desejo a perpetuação da nossa família. Essa é a causa da minha angústia". O pai prevaricou de vergonha em revelar a história completa a seu filho.

O inteligente Devavrata percebeu que havia alguma causa secreta para a condição mental de seu pai, e ao questionar o cocheiro do rei, soube do encontro com a donzela pescadora nas margens do rio Yamuna. Ele foi até o líder dos pescadores e pediu a mão de sua filha em nome de seu pai.

O pescador foi respeitoso, porém firme: "Minha filha tem condições verdadeiras de ser a esposa do rei. Por que seu filho não pode ser rei? Você foi corado como seu herdeiro legítimo e vai suceder seu pai naturalmente. Esse é o impedimento no caminho".

Devavrata respondeu: "Eu dou minha palavra que o filho nascido dessa donzela será o rei. E eu renuncio ao meu direito de herdeiro legítimo em favor dele", e dessa forma ele fez um juramento.

O líder dos pescadores disse: "Salve o melhor da dinastia Bharata, você fez o que ninguém mais nascido com sangue real fez até então. Você é um herói de verdade. Você pode levar minha filha pessoalmente ao rei, seu pai. Porém, ouça o que vou lhe dizer com paciência pois falo como o pai da moça.

Não tenho dúvida que você cumprirá sua palavra, mas como vou saber se seus filhos renunciarão a seu direito de nascimento? Seus filhos serão naturalmente heróis poderosos como você, e será muito difícil resistir se eles quiserem conquistar o reino à força. Essa é a dúvida que me atormenta".

Quando ouviu essa pergunta difícil feita pelo pai da moça, Devavrata, que desejava satisfazer o desejo do rei, fez a sua renúncia suprema. Ele jurou com mãos postas ao pai da donzela: "Eu nunca vou me casar e vou me dedicar a uma vida de castidade contínua".

Depois que ele pronunciou essas palavras de renúncia, os deuses choveram flores sobre ele, e gritaram, "Bhisma", "Bhisma", que ressoou no céu. "Bhisma" significa aquele que se submeteu a um voto terrível e cumpriu. O nome se tornou o célebre epíteto de Devavrata a partir desse momento. O filho de Ganga levou a donzela Satyavati para seu pai.

Shantanu teve dois filhos com Satyavati, Chitrangada e Vichitravirya, que assumiram o trono um após o outro. Vichitravirya teve dois filhos, Dhritarastra e Pandu, que nasceram respectivamente de suas duas rainhas, Ambika e Ambalika.

Os filhos de Dhritarastra, cem em número, eram conhecidos como os Kauravas. Pandu teve cinco filhos que ficaram famosos como os Pandavas. Bhisma viveu muito, honrado por todos como o nobre patriarca até o fim da famosa batalha em Kurukshetra.

A Árvore Genealógica

Shantanu

com Ganga

com Satyavati

Bhisma

Chitrangada

Vichitravirya

   

c/ Ambika

c/ Ambalika

   

Dhritarastra

Pandu

   

Kauravas

Pandavas

 

Capítulo 4

Amba e Bhisma

Chitrangada, o filho de Satyavati, foi morto numa batalha por um Gandharva. Como não deixou filhos, seu irmão, Vichitravirya, era o herdeiro legítimo e foi devidamente coroado rei. E como era menor, Bhisma governou o reino em seu nome até alcançar a maioridade.

Quando Vichitravirya chegou na adolescência, Bhisma foi procurar uma noiva para ele. Pois tinha ouvido falar que as filhas do rei de Kashi iriam escolher seus maridos conforme os costumes tradicionais dos kshatriyas, assim foi consegui-las para seu irmão.

Os governantes de Kosla, Vanga, Pundra, Kalinga e outros príncipes e nobres foram para o swayamvara (torneio) em Kashi, todos com o melhor de si. As princesas eram muito famosas por sua beleza e virtudes, seria uma competição ardente para ganhá-las.

Bhisma era muito famoso entre os kshatriyas como guerreiro poderoso. Primeiro, todos pensaram que o herói determinado veio meramente para assistir as festividades do swayamvara. Mas quando descobriram que ele também era um pretendente, as jovens princesas ficaram muito desapontadas. Elas não sabiam que ele veio em nome de seu irmão, Vichitravirya.

Os príncipes começaram a insultar Bhisma: "Esse excelentíssimo e sábio descendente da dinastia Bharata se esquece que é muito velho e também esquece de seu voto de celibato. O que esse velho senhor veio fazer neste swayamvara? Ele não tem vergonha"? As princesas que iam escolher seus maridos mal olhavam para o velho senhor, e o desdenhavam.

Bhisma começou a ficar irado. Ele desafiou todos os príncipes presentes ao mesmo tempo para um duelo e derrotou todos juntos. E pondo as três princesas em sua quadriga, partiu para Hastinapura.

Mas antes de prosseguirem muito, Shalva, o rei de Saubala, que estava apaixonado por Amba, interceptou-o e o desafiou. Pois essa princesa tinha escolhido Shalva como marido mentalmente. Shalva foi derrotado após uma breve luta, sem nenhum espanto, pois Bhisma era um arqueiro inigualável. Mas a pedido da princesa, Bhisma poupou sua vida.

Depois de chegar em Hastinapura com as princesas, Bhisma fez os preparativos para seu casamento com Vichitravirya. Quando todos estavam reunidos para o casamento, Amba zombou de Bhisma e se dirigiu a ele: "Salve filho de Ganga, você sabe o que está definido nas escrituras. Eu escolhi mentalmente Shalva, o rei de Saubala, como meu esposo. Você me trouxe aqui à força. Por saber disso, faça o que deve ser feito, você que é versado nas escrituras".

Bhisma admitiu a força de sua objeção e a mandou para Shalva com uma escolta apropriada. O casamento de Ambika e Ambalika, as duas irmãs mais novas, com Vichitravirya foi devidamente solenizado.

Amba foi muito feliz para Shalva e contou-lhe tudo o que aconteceu: "Eu escolhi você mentalmente como meu esposo desde o início. Bhisma me mandou de volta a você. Case comigo de acordo com as escrituras".

Shalva respondeu: "Bhisma me derrotou na frente de todos, e levou você embora. Eu estou arruinado. Por isso, não posso mais aceitar você como minha esposa. Volte para ele e faça o que ele mandar". Com essas palavras, Shalva a mandou de volta para Bhisma.

Ela voltou para Hastinapura e contou a Bhisma o que aconteceu. O patriarca tentou convencer Vichitravirya a se casar com ela. Mas Vichitravirya recusou terminantemente a se casar com uma donzela cujo coração tinha sido dado a outro.

Amba voltou para Bhisma e pediu a ele que se casasse com ela pois não havia outro recurso. Era impossível Bhisma quebrar seu juramento, mas ficou com muita pena de Amba. E depois de algumas tentativas em vão de convencer Vichitravirya a mudar de idéia, ele disse a ela que não tinha outro jeito senão voltar para Shalva de novo e tentar persuadi-lo.

Antes de qualquer coisa, ela era muito orgulhosa para fazer isso, e morou em Hastinapura por muitos anos. Finalmente, em completo desespero, ela foi até Shalva, mas ele foi inflexível na recusa.

A bela Amba com olhos de lótus passou seis anos amargos em tristeza e desespero. Seu coração endureceu com tanto sofrimento e toda sua meiguice se transformou num ódio rancoroso e aterrador contra Bhisma que era a causa da ruína de sua vida.

Ela procurou em vão por um campeão entre os príncipes para lutar e matar Bhisma, e vingar sua honra, mas mesmo os melhores guerreiros tinham medo de Bhisma e não davam atenção a seu apelo.

Por último, ela recorreu a duras penitências para obter a graça do senhor Subrahmanya. Ele apareceu amavelmente perante ela e deu a ela uma guirlanda de flores de lótus sempre frescas, e disse que qualquer um que usasse a guirlanda seria o inimigo de Bhisma.

Amba pegou a guirlanda e novamente procurou entre todos os kshatriyas algum que aceitasse a guirlanda como um presente do Senhor de seis faces e como paladino de sua causa. Mas ninguém tinha a coragem para enfrentar Bhisma.

Senhor Parashurama

Finalmente, ela foi ao rei Drupada que se recusou a atendê-la. Daí, ela pendurou a guirlanda no portão do palácio de Drupada e foi para a floresta. Ela encontrou alguns ascetas a quem contou sua pesarosa história. Eles a aconselharam para procurar Parashurama e suplicar por Sua ajuda. Ela seguiu o conselho deles.

Depois de ouvir sua história triste, Parashurama ficou comovido e disse: "Querida filha, o que você quer? Posso pedir a Shalva para se casar com você, se desejar"?

Amba disse: "Não, eu não quero isso. Eu não quero me casar mais, nem ter um lar, ou felicidade. Só me resta uma única coisa na vida, vingança de Bhisma. O único bem que desejo é a morte de Bhisma".

Parashurama, comovido com a angústia dela junto com seu ódio mortal pela raça kshatriya, abraçou sua causa e lutou com Bhisma. Foi um combate longo e equilibrado entre os dois maiores guerreiros mestres de artes marciais da era. Mas no fim, Parashurama teve que admitir a derrota. Ele disse a Amba: "Fiz tudo que eu pude e falhei. Renda-se à mercê de Bhisma. É tudo que resta a você".

Consumida pela angústia e ódio, e movida pela paixão da vingança, Amba foi para o Himalaia e praticou rigorosas austeridades para obter a graça de Shiva, agora que todos os recursos humanos de ajuda se esgotaram. Shiva apareceu perante ela e concedeu-lhe uma bênção, de que em seu próximo nascimento ela mataria Bhisma.

Amba ficou impaciente por esse renascimento que lhe daria a satisfação de seu coração. Ela fez uma pira e entrou dentro do fogo, assim despejou o fogo de seu coração dentro do fogo ardente da pira.

Pela graça do Senhor Shiva, Amba nasceu filha do rei Drupada. Alguns anos após seu nascimento, ela viu a guirlanda de flores sempre frescas que ainda permanecia pendurada no portão do palácio e intocada por causa do medo. Ela a pôs em seu pescoço. Seu pai Drupada ficou aterrorizado com sua audácia, pois achava que despertaria a ira de Bhisma sobre ele.

Ele mandou sua filha embora da capital para o exílio na floresta. Ela praticou austeridades na floresta e depois de muito tempo, adquiriu o poder de se transformar em homem, e ficou famoso como o guerreiro Shikhandi.

Com Shikhandi como seu escudo, Arjuna atacou Bhisma na batalha de Kurukshetra. Bhisma sabia que Shikhandi tinha nascido mulher, e de acordo com seu código de honra kshatriya, nunca lutaria com ele sob qualquer circunstância.

Foi assim que Arjuna pôde lutar escoltado por Shikhandi e vencer Bhisma, especialmente porque Bhisma sabia que sua longa e exaustiva provação na Terra havia chegado ao fim e conseqüentemente tinha que ser derrotado.

À medida que as flechas perfuravam Bhisma em sua última luta, ele destacava aquelas que entravam mais fundo e dizia: "Esta é uma flecha de Arjuna e não de Shikhandi". Assim caiu esse grande guerreiro.

 

Capítulo 5

Devayani e Kacha

No começo do universo, houve uma dura guerra entre os deuses e os demônios, (devas contra asuras), para o domínio dos três mundos (inferior, intermediário e superior). Ambos beligerantes tinham preceptores ilustres. Brihaspati eminente conhecedor dos Vedas era o guia espiritual dos devas, enquanto os asuras se apoiavam no conhecimento profundo de Shukracharya.

Os asuras tinham a vantagem formidável que somente Shukracharya possuía o segredo de sanjivini, chamar os mortos de volta à vida. Assim, os asuras que morriam na batalha eram trazidos de volta à vida, uma e outra vez, e continuavam a lutar contra os devas. Os devas portanto estavam em grande desvantagem nessa longa e dura guerra com seus inimigos naturais.

Eles procuraram Kacha, filho de Brihaspati, e pediram sua ajuda. Ele teria que ganhar a confiança de Shukracharya e o persuadir a aceitá-lo como discípulo. Depois de admitido em sua intimidade e confiança, teria que obter de qualquer forma o segredo de sanjivini e remover aquele grande empecilho que causava tanto sofrimento aos devas.

Kacha atendeu ao pedido e foi se encontrar com Shukracharya que morava na capital de Vrishaparva, o rei dos asuras. Kacha foi para a casa de Shukra, e depois das saudações devidas, disse a ele: "Eu sou Kacha, neto do sábio Angira e filho de Brihaspati. Sou um brahmachari (estudante celibatário) que procura conhecimento sob sua tutela".

A lei dizia que um professor sábio não podia recusar um aluno digno que o procurasse para ser educado. Portanto, Shukra concordou e disse: "Kacha, você pertence a uma boa família. Eu aceito você como meu aluno, com muita satisfação, pois assim poderei expressar meu respeito por Brihaspati".

Kacha passou muitos anos com Shukracharya, fazia seus deveres com perfeição na residência de seu mestre. Shukracharya tinha uma filha encantadora, Devayani, que gostava muito dele. Kacha se dedicou a agradá-la e servi-la com música, dança, brincadeiras e conseguiu ganhar a afeição dela, porém sem detrimento de seus votos de brahmacharya (celibato).

Quando os asuras souberam disso, ficaram preocupados pois suspeitavam que a intenção de Kacha era de alguma forma roubar o segredo sanjivini de Shukracharya. Assim se preveniram naturalmente para evitar tal calamidade.

Certo dia, quando Kacha estava ocupado em pastorear o gado de seu mestre, os asuras o raptaram, esquartejaram em vários pedaços e deram sua carne aos cães. Quando o gado voltou sem Kacha, Devayani ficou preocupada, e correu para seu pai e reclamou chorando: "O sol se pôs, seu sacrifício de fogo noturno já foi feito, e Kacha ainda não voltou para casa. O gado voltou sozinho. Tenho medo que algo ruim aconteceu a Kacha. Eu não posso viver sem ele".

O pai afeiçoado empregou a arte sanjivini e invocou o jovem morto a aparecer. Kacha voltou à vida imediatamente e cumprimentou o mestre com sorrisos. Perguntado por Devayani sobre o motivo de sua demora, ele disse a ela que pastoreava o gado quando os asuras vieram e o mataram. Como voltou à vida ele não sabia, mas estava de volta à vida, e aqui estava ele.

Numa outra ocasião, Kacha foi colher flores na floresta para Devayani, e novamente os asuras o pegaram e mataram. Fizeram uma pasta do seu corpo e misturaram com a água do mar. Como não voltava depois de um longo tempo, Devayani foi a seu pai como antes, que trouxe Kacha de volta à vida com seu poder sanjivini, e ouviu dele tudo que aconteceu.

Pela terceira vez, os asuras mataram Kacha e muito espertos dessa vez, queimaram seu corpo, misturaram as cinzas com vinho e serviram a Shukracharya que bebeu sem desconfiar de nada. Mais uma vez as vacas voltaram para casa sem seu pastor, e mais uma vez Devayani se aproximou de seu pai com seu apelo desesperado por Kacha.

Shukracharya tentou consolar sua filha em vão: "Apesar de eu trazer Kacha de volta à vida várias vezes, parece que os asuras estão decididos a matá-lo. Na real, a morte é o destino de todos, não é certo que uma alma sábia como você lamente por causa disso. Você tem sua vida inteira pela frente para poder aproveitá-la, você é jovem e linda, e tem a boa vontade do mundo a seu favor".

Devayani amava Kacha profundamente, e desde que o mundo é mundo, palavras sábias nunca curaram a dor do luto. Ela disse: "Kacha, o neto de Angira e filho de Brihaspati, era um rapaz imaculado, que era devotado e incansável em seu serviço. Eu o amava muito, e agora que ele foi morto, minha vida se tornou vazia e insuportável. Então eu vou seguir o caminho dele". E Devayani começou a jejuar. Shukracharya, desolado com o sofrimento de sua filha, ficou muito irado com os asuras, e percebeu que seu pecado hediondo de assassinar um brahmana seria um golpe violento na boa fortuna deles.

Ele empregou a arte sanjivini e chamou Kacha. Pelo poder de sanjivini, Kacha voltou à vida mas estava disperso no vinho dentro do corpo de Shukracharya e por isso não pôde sair, apenas respondeu de onde estava.

Shukracharya exclamou espantado: "Ó brahmachari, como você entrou dentro de mim? Isso também foi obra dos asuras? Isso é muito ruim e me dá vontade de matar os asuras imediatamente, e de me juntar aos devas. Mas me conte toda a história".

Kacha narrou tudo, apesar de toda inconveniência imposta por sua posição.

Vaisampayana continuou: "O elevado e austero Shukracharya de grandeza inestimável ficou irado com a trapaça feita com seu vinho, e proclamou para o benefício da humanidade": "A virtude abandonará a pessoa que por falta de conhecimento beber vinho. Ela será objeto do escárnio de todos. Essa é a minha mensagem à humanidade, que deve ser considerada como uma injunção imperativa das escrituras". Depois, voltou-se à sua filha Devayani e disse: "Querida filha, tem um problema para você resolver. Para Kacha viver, ele tem que rasgar meu estômago para poder sair, o que significa a minha morte. Sua vida só pode ocorrer com a minha morte".

Devayani começou a chorar e disse: "Ai de mim! É morte para mim de qualquer forma. Pois se você também morrer, eu não sobreviverei". Shukracharya procurou uma forma de resolver o problema. A solução real relampejou em sua mente.

Ele disse a Kacha: "Ó filho de Brihaspati, agora entendo o seu objetivo em vir aqui e você realmente conseguiu! Eu tenho que trazê-lo de volta à vida para o bem de Devayani, mas igualmente para o bem dela, eu não posso morrer. A única solução é iniciá-lo na arte Sanjivini para que possa me trazer de volta à vida depois que eu morrer quando for aberta uma saída através das minhas entranhas para você. Você usará o conhecimento que lhe darei e me reviverá, para que Devayani não sofra pela falta de nenhum de nós dois".

Assim, Shukracharya ensinou a arte Sanjivini a Kacha. Imediatamente, Kacha saiu do corpo de Shukracharya, assim como a lua cheia emerge de uma nuvem, enquanto o grande preceptor caiu morto e dilacerado.

Mas Kacha imediatamente trouxe Shukracharya de volta à vida com seu novo dom Sanjivini. Kacha prostrou-se para Shukracharya e disse: "O professor que dá conhecimento ao ignorante é um pai. Além disso, como eu saí de seu corpo, você é minha mãe também".

Kacha continuou por muitos anos sob a tutela de Shukracharya. Quando o período de seu voto terminou, ele se despediu de seu mestre para retornar ao mundo dos deuses.

Quando ia partir, Devayani falou com ele humildemente: "Ó neto de Angira, você conquistou meu coração por sua conduta impecável, suas grandes conquistas e nobreza de nascença. Eu amo você com muita ternura, mesmo quando seguia seriamente seu voto brahmachari. Agora, você tem que corresponder ao meu amor e me fazer feliz por se casar comigo. Tanto Brihaspati quanto você são plenamente dignos de serem honrados por mim".

Naquele tempo, não era incomum que mulheres brâmanes inteligentes e cultas expressassem seu pensamento com franqueza honorável. Mas Kacha disse: "Ó pessoa imaculada, você é filha do meu mestre e sempre digna do meu respeito. Tive minha vida de volta ao nascer do corpo de seu pai. Portanto, sou seu irmão. Não é próprio que você, minha irmã, peça para se casar comigo".

Devayani tentou persuadi-lo em vão. "Você é filho de Brihaspati e não do meu pai. Se eu fui a causa da sua volta à vida, é porque eu amava você, e sempre o amei como meu esposo. Não é bom que você despreze alguém como eu, impecável e devotada a você".

Kacha respondeu: "Não tente me persuadir à ilegalidade. Você está muito mais atraente do que nunca, enrubescida com ira. Mas eu sou seu irmão. Dê-me adeus. Sirva perfeitamente, sempre e continuamente, meu mestre Shukracharya".

Com essas palavras, Kacha despediu-se gentilmente e procedeu ao reino de Indra, o rei dos deuses. Shukracharya consolou sua filha.

 

Capítulo 6

O Casamento de Devayani

Numa tarde quente, Devayani e as filhas de Vrishaparva, o rei dos asuras, brincavam agradavelmente na floresta e foram descansar nas águas refrescantes dum lago silvestre, deixaram suas roupas na margem antes de entrar na água. Um vento forte misturou as roupas num monte embolado, e quando elas vieram pegá-las, aconteceram trocas naturais. A princesa Sarmishtha, filha do rei, pôs as roupas de Devayani, que ficou brava e reclamou com sarcasmo sobre o inconveniente da filha de um discípulo usar as roupas da filha do mestre.

Essas palavras foram ditas em tom de brincadeira, mas a princesa Sarmishtha ficou muito irada e disse com arrogância: "Você não sabe que seu pai se curva humildemente com reverência ao meu pai real todos os dias? Você não é a filha de um mendigo que vive sob a generosidade de meu pai? Você se esquece que eu sou da casta nobre que orgulhosamente dá, enquanto você vem da casta que mendiga e recebe, como se atreve a falar assim comigo".

Sarmishtha continuou e ficava cada vez mais irada na medida em que falava, até o ponto da agressão física, assim deu um tapa na face de Devayani e a empurrou dentro dum poço seco. As donzelas asuras pensaram que Devayani tinha morrido e voltaram para o palácio.

Devayani não morreu com a queda no poço mas ficou em uma situação triste pois não conseguia escalar o poço para sair. O imperador Yayati da dinastia Bharata caçava na floresta e por uma grande sorte chegou ao lugar onde estava o poço, à procura de água para saciar sua sede. Quando olhou dentro do poço, ele viu algo brilhante, e ao olhar mais perto, ficou surpreso ao ver uma linda donzela deitada no fundo do poço.

Ele perguntou: "Quem é você, linda donzela, com brincos brilhantes e unhas vermelhas? Quem é seu pai? Qual é sua linhagem? Como caiu dentro do poço"? Ela respondeu: "Sou a filha de Shukracharya. Ele não sabe que eu caí neste poço. Tire-me daqui", e estendeu sua mão. Yayati pegou sua mão para ajudá-la a sair do poço.

Devayani não queria voltar à capital do rei dos asuras. Ela não se sentia segura para voltar, pois lembrava continuamente a conduta de Sarmishtha. Ela disse a Yayati: "Você pegou uma donzela por segurar em sua mão direita, e por isso deve se casar com ela. Eu percebo que você tem tudo para ser digno de me esposar".

Yayati respondeu: "Alma adorável, eu sou um kshatriya e você, uma donzela brahmana. Como posso me casar com você? Como Shukracharya, digno de ser o mestre de todo o universo, permitirá que sua filha seja esposa dum kshatriya como eu? Venerável dama, volte para casa". Após dizer essas palavras, Yayati retornou à sua capital.

Uma donzela kshatriya podia se casar com um brahmana, segundo a tradição antiga, mas era considerado um erro se uma donzela brahmana se casasse com um kshatriya. O mais importante era manter intacto o status da mulher. Pois anuloma, ou o ato da mulher se casar com um homem de classe superior, era legítimo enquanto o contrário, ou pratiloma, casar-se com um homem de classe inferior, é proibido pelo shastra.

Devayani não tinha intenção de voltar para casa. Assim, ficou na floresta sob a sombra de uma árvore com muita tristeza. Shukracharya amava Devayani mais do que a si próprio. Depois de esperar muito pelo retorno de sua filha que tinha ido brincar com suas amigas, ele mandou uma mulher procurar por ela.

A mensageira conseguiu encontrá-la finalmente depois de uma cansativa busca perto da árvore onde estava sentada em depressão, com os olhos vermelhos de raiva e mágoa. Ela perguntou o que tinha acontecido.

Devayani disse: "Amiga, vá imediatamente e diga a meu pai que nunca mais pisarei na capital de Vrishaparva", e a mandou de volta a Shukracharya.

Extremamente afligido pela triste situação de sua filha, Shukracharya foi rapidamente ao seu encontro.

Ele a abraçou e disse: "É por causa de suas próprias ações, boas ou más, que as pessoas ficam felizes ou infelizes. As virtudes e vícios dos outros não nos afetarão nem um pouco". Assim tentou consolar sua filha com essas palavras sábias.

Ela respondeu com tristeza e rancor: "Pai, deixe meus méritos e falhas de lado pois são da minha conta. Mas me diga se está certo quando Sarmishtha, a filha de Vrishaparva, disse que você é simplesmente um menestrel que canta odes para reis? Ela me chamou de filha dum mendigo que vive das esmolas ganhas com adulação. E não satisfeita com esse ultraje arrogante, ela me esbofeteou e me empurrou dentro dum poço aqui perto. Não posso mais permanecer em mais nenhum território do pai dela". E Devayani começou a chorar.

Shukracharya defendeu-se com orgulho e disse: "Devayani, você não é filha dum menestrel da corte. Seu pai não vive às custas de adulação. Você é filha de alguém que é reverenciado por todo o mundo. Indra, o rei dos deuses, sabe disso, e Vrishaparva não ignora a dívida que tem comigo. Mas nenhuma pessoa digna exalta seus próprios méritos, e não vou dizer mais nada a meu respeito. Levante-se, você é uma jóia sem igual entre as mulheres, que traz prosperidade à sua família. Seja paciente. Vamos voltar para casa".

Bhagavan Vyasa ensina a humanidade nessa passagem com as seguintes palavras de recomendação ditas por Shukracharya à sua filha:

"A pessoa que conquista o mundo é aquela que supera o abuso de seus vizinhos. Aquela que controla sua ira é como um cavaleiro que domina um cavalo indomado, o verdadeiro condutor e não apenas aquele que segura as rédeas mas deixa o cavalo ir para onde quer. Aquela que desprende sua ira como a serpente o lamaçal, é a verdadeira heroína. Aquela que não se perturba apesar dos maiores tormentos impostos por outros, realizará seu objetivo. Aquela que nunca fica irada é superior ao ritualista que executa perfeitamente e com fervor durante cem anos os sacrifícios ordenados nas escrituras. Servos, amigos, irmãos, cônjuges, filhos, virtude e verdade abandonam a pessoa que dá vazão à sua ira. A pessoa sábia não leva em conta as palavras de moças e rapazes".

Devayani disse a seu pai com humildade: "Eu sou realmente uma menina, mas acho que não tão jovem para se beneficiar com essa grande verdade ensinada por você. Mesmo assim, não é próprio viver com pessoas sem senso de decência e decoro. A pessoa sábia não fica na companhia daqueles que falam mal de sua família. Não importa o quanto sejam ricas, pessoas mal-educadas são as verdadeiras chandalas (párias) sem classe. As virtuosas não devem se misturar com elas. Minha mente arde com a ira provocada pelos insultos da filha de Vrishaparva. As feridas causadas por armas podem cicatrizar com o tempo, queimaduras se curam gradualmente, mas feridas causadas por palavras permanecem doloridas durante toda a vida".

Shukracharya foi até Vrishaparva e com os olhos fixos bem sério disse:

"Rei, apesar dos pecados da pessoa não serem punidos imediatamente, é certo que mais cedo ou mais tarde vão destruir o gérmen da prosperidade. Kacha, o filho de Brihaspati, era um brahmachari que conquistou seus sentidos e nunca cometeu nenhum pecado. Ele me serviu com fidelidade e nunca se desviou do caminho da virtude. Seus assessores tentaram matá-lo. Eu tolerei isso. Minha filha, que tem sua honra elevada, teve que ouvir palavras de desonra pronunciadas por sua filha. Além disso, ela foi empurrada dentro de um poço por sua filha. Ela não pode mais permanecer em seu reino. Sem ela, eu também não posso mais viver aqui. Portanto, eu vou embora do seu reino".

O rei dos asuras ficou muito aborrecido ao ouvir essas palavras e disse: "Eu não sabia dessas acusações postas em minha porta. Se você me abandonar, vou entrar no fogo e morrer".

Shukracharya respondeu: "Eu me importo mais com a felicidade da minha filha do que o destino de você e dos seus asuras, pois ela é aquilo que eu mais prezo e amo, muito mais do que minha própria vida. Se você conseguir apaziguá-la, então ficará tudo bem. De outro modo, eu irei embora".

Vrishaparva e seu séqüito foram até a árvore onde Devayani ficou e atiraram-se a seus pés em súplica.

Devayani era teimosa e disse: "Sarmishtha disse que eu sou filha dum mendigo por isso deve ser minha serviçal e me obedecer na casa onde meu pai me der em casamento".

Vrishaparva consentiu e pediu a seus auxiliares para trazerem sua filha Sarmishtha.

Sarmishtha reconheceu seu erro e ajoelhou-se em submissão. Ela disse: "Seja como minha companheira Devayani deseja. Meu pai não deve perder seu preceptor por um erro cometido por mim. Eu serei sua serva". Devayani foi acalmada e voltou para a casa de seu pai.

Numa outra ocasião, Devayani encontrou-se com Yayati, e repetiu seu pedido de que ele deveria se casar com ela pois tinha pegado em sua mão direita. Yayati repetiu sua objeção de novo, pois um kshatriya como ele não podia se casar legalmente com uma brahmana. Finalmente, ambos foram a Shukracharya e pediram seu consentimento para o casamento. Esse foi um exemplo de casamento pratiloma que aconteceu num caso excepcional. Os shastras sem dúvida prescrevem o que é direito e proíbem o que é errado mas um casamento que se tornou efetivo não pode ser invalidado.

Yayati e Devayani passaram muitos dias felizes. Sarmishtha ficou como criada dela. Num dia, Sarmishtha se encontrou com Yayati em segredo e pediu-lhe com insistência para ser sua esposa também. Ele atendeu ao pedido dela e se casaram sem o conhecimento de Devayani.

Mas Devayani descobriu e naturalmente ficou muito brava. Ela foi reclamar com seu pai, e Shukracharya aborrecido amaldiçoou Yayati com velhice prematura.

Yayati assim atacado com senilidade bem no auge de sua masculinidade, suplicou com humildade pelo perdão de Shukracharya, que não tinha esquecido do salvamento de Devayani no poço, e por fim cedeu.

Ele disse: "Salve rei, você perdeu a glória da juventude. A maldição não pode voltar atrás, mas se conseguir convencer alguém a trocar sua juventude com sua velhice, a troca será efetiva". Assim, ele abençoou Yayati e se despediu.

 

Capítulo 7

Yayati

O imperador Yayati foi um dos ancestrais dos Pandavas. Ele não conhecia derrota. Seguia as instruções das Escrituras Sagradas (shastras), adorava os deuses e venerava seus ancestrais com devoção intensa. Ele ficou famoso como um governante dedicado ao bem-estar de seus súditos.

Mas como foi dito antes, ele ficou velho prematuramente devido à maldição de Shukracharya, por ter enganado sua esposa Devayani. Nas palavras do poeta do Mahabharata:

"Yayati alcançou a velhice que destrói a beleza e traz sofrimento". Não é necessário descrever o sofrimento da juventude seca de repente pela idade, onde os horrores da perda são acentuados pelas dores da recordação.

Yayati, que se viu velho de súbito, ainda era perseguido pelo desejo do prazer sensual. Ele teve cinco filhos lindos, todos virtuosos e realizados. Yayati os chamou e apelou comoventemente pela afeição deles:

"A maldição de seu avô Shukracharya me fez velho sem esperar e prematuramente. Eu não satisfiz as alegrias de minha vida. E por não saber o que me aguarda, vivo uma vida de restrição, até me nego aos prazeres permitidos. Um de vocês tem que carregar o peso da minha velhice e me dar sua juventude em troca. Aquele que concordar com isso e me conceder sua juventude será o soberano do meu reino. Eu desejo aproveitar a vida com o vigor total da juventude".

Ele perguntou primeiro ao filho mais velho. Esse filho respondeu: "Salve grande rei, mulheres e servos zombarão de mim caso eu aceite sua velhice. Eu não posso suportar isso. Peça aos meus irmãos mais novos que são muito mais queridos por você do que eu mesmo".

Quando perguntou ao segundo filho, ele se recusou polidamente com essas palavras: "Pai, você me pede para aceitar a velhice que destrói não apenas o vigor e a beleza mas também, como posso perceber, a sabedoria. Não sou forte o bastante para tal".

O terceiro filho respondeu: "Um homem velho não pode montar um cavalo ou um elefante. Sua voz falha. Que poderei fazer nesse estado lastimável? Eu não posso concordar".

O rei ficou bravo e desapontado com seus três filhos que se negaram a atender seu pedido, mas tinha esperança de uma resposta melhor com seu quarto filho, a quem ele disse: "Você tem que aceitar a minha velhice. Se você trocar sua juventude comigo, eu a devolverei a você depois de algum tempo e aceitarei a velhice de volta com a qual eu fui amaldiçoado".

O quarto filho implorou para ser perdoado pois isso era algo que ele não poderia consentir de jeito nenhum. Um idoso precisa da ajuda de outros até para manter seu corpo limpo, uma situação muito penosa. Não, ele amava muito seu pai mas não podia fazer isso.

Yayati ficou muito triste com a recusa dos quatro filhos. Ainda assim, sem perder a esperança, ele suplicou ao seu último filho que nunca tinha se oposto a nenhum pedido seu: "Você tem que me salvar. Sofro demais com esta velhice e suas rugas, debilidade e cabelos grisalhos como resultado da maldição de Shukracharya. É uma condenação muito penosa. Se você aceitar para si todas essas debilidades, eu aproveitarei a vida só um pouco mais e devolverei sua juventude, assim reassumirei minha velhice e todos seus pesares. Rogo que você não recuse como seus irmãos mais velhos fizeram".

Puru, o filho caçula, comovido pelo amor filial, disse: "Pai, eu dou a você com muita alegria minha juventude para aliviá-lo dos pesares da velhice e dos cuidados requeridos por esse estado. Seja feliz".

Ao ouvir essas palavras, Yayati o abraçou. No momento em que tocou seu filho, Yayati se tornou jovem. Puru, que aceitou a velhice de seu pai, governou o reino e obteve grande renome. Yayati aproveitou a vida por muito tempo, e não satisfeito, foi por último ao jardim de Kuvera onde passou muitos anos com uma jovem apsara (dançarina celestial).

Depois de longos anos gastos com esforços em vão para saciar o desejo pela indulgência, ele caiu na real.

Ao reencontrar Puru, ele disse: "Querido filho, o desejo sensual nunca se sacia com a indulgência, assim como o fogo alimentado com ghi (óleo de manteiga). Eu ouvi sobre isso, e li sobre isso, mas até agora, não tinha realizado. Nenhum objeto de desejo, milho, ouro, gado, mulheres, nada disso nunca satisfaz o desejo duma pessoa. Nós só alcançamos a paz com o equilíbrio mental em relação a gostos e aversões. Assim é o estado brahman (auto-realização). Pegue sua juventude de volta e governe bem o reino com sabedoria e bondade".

Com essas palavras, Yayati reassumiu sua velhice. Puru, que recobrou sua juventude, foi coroado rei por Yayati, que se retirou para a floresta. Ele passou seu tempo lá em vida austera, e no devido curso, alcançou o céu.

 

Capítulo 8

Vidura

O sábio Mandavya, que adquiriu poder mental e conhecimento das escrituras, passou seus dias em penitência e na prática da verdade.

Ele vivia num ashrama (retiro espiritual) na floresta perto da cidade. Certo dia, ele estava absorto em contemplação silenciosa na sombra de uma árvore fora de sua cabana de folhas, quando os soldados do rei perseguiam um bando de ladrões que fugia pela floresta.

Os fugitivos entraram no ashrama pois acharam que era um lugar conveniente para se esconderem. Eles puseram o saque num canto e se esconderam. Os soldados do rei chegaram no ashrama pelo rastro deles.

O comandante dos soldados perguntou a Mandavya, enlevado na profunda meditação, em tom imperioso: "Você viu os ladrões passarem? Para onde eles foram? Responda logo para podermos persegui-los e capturá-los".

O sábio, absorto no yoga, permaneceu em silêncio. O comandante repediu a pergunta com insolência. Mas o sábio não ouviu nada. Nesse meio tempo, alguns soldados entraram no ashrama e descobriram os bens roubados escondidos ali. Assim, avisaram o comandante. Todos entraram e acharam os bens roubados e os ladrões escondidos.

O comandante pensou: "Agora sei porque o brahmana fingiu ser um sábio silencioso. Ele é na verdade o chefe desses ladrões. Ele que liderou esse assalto". Então, ordenou que seus soldados guardassem o local, e foi contar ao rei que o sábio Mandavya foi pego com os bens roubados.

O rei ficou muito bravo com a audácia do chefe dos ladrões que vestiu o hábito dum sábio brahmana, para enganar as pessoas. Sem parar para verificar os fatos, ele ordenou que o terrível criminoso, como supunha, fosse empalado.

O comandante voltou ao retiro, empalou Mandavya e levou os objetos roubados para o rei.

O sábio virtuoso, apesar de empalado numa lança, não morreu. Por ele estar em yoga quando foi empalado, permaneceu vivo pelo poder do yoga. Sábios que viviam em outras partes da floresta chegaram em seu retiro e perguntaram a Mandavya como ele ficou nessa situação terrível.

Mandavya respondeu: "Quem devo culpar? Os servidores do rei, que protege o mundo, que me infligiram este castigo".

O rei ficou surpreso e aterrorizado quando soube que o sábio empalado ainda estava vivo e que havia outros sábios em volta dele na floresta. Ele foi com pressa para a floresta com seus servidores e ordenou que o sábio fosse tirado da lança imediatamente. Então, ele se prostrou a seus pés e implorou humildemente para ser perdoado pela ofensa cometida involuntariamente.

Mandavya não estava com raiva do rei. Ele foi direto a Dharma, o juiz divino, que estava sentado em seu trono, e perguntou a ele: "Que crime cometi para merecer essa tortura"?

O senhor Dharma (também conhecido como Yamaraja ou Dharmaraja, semideus encarregado da punição), que conhecia o grande poder do sábio, respondeu com toda a humildade: "Salve sábio. Você torturou pássaros e abelhas. Você não sabe que todas ações, boas ou más, mesmo pequenas, produzem seu resultado inevitavelmente, bom ou mau"?

Mandavya ficou surpreso com a resposta do deus Dharma e perguntou: "Quando cometi essa ofensa"? O senhor Dharma respondeu: "Quando você era criança".

Mandavya então proferiu uma maldição para Dharma: "Essa punição que você decretou está muito além dos limites para um erro cometido por uma criança em ignorância. Portanto, nasça como um mortal no mundo".

O senhor Dharma assim amaldiçoado pelo sábio Mandavya encarnou como Vidura que nasceu filho da criada de Ambalika, esposa de Vichitravirya, com ele.

A intenção desse episódio é mostrar que Vidura é encarnação de Dharma. As personalidades ilustres deste mundo consideram Vidura um mahatma que é inigualável em seu conhecimento sobre dharma, shastras e ciência política, bem como totalmente livre de apego e ira. Bhisma o nomeou conselheiro chefe do rei Dhritarastra, quando ainda era adolescente.

Vyasa afirmou que ninguém nos três mundos pode se igualar a Vidura em virtude e conhecimento. Quando Dhritarastra permitiu o jogo de dados, Vidura caiu a seus pés e protestou solenemente: "Ó rei e senhor, não posso aprovar essa ação. A rivalidade se estabelecerá entre seus filhos como resultado. Imploro, não permita isso".

Dhritarastra tentou dissuadir seu filho malévolo de várias formas. E lhe disse: "Não continue com esse jogo. Vidura não o aprova, o sábio Vidura de intelecto sublime que sempre deseja o nosso bem-estar. Ele diz que o jogo se destina a produzir um ódio aterrador que nos consumirá bem como o nosso reino".

Mas Duryodhana não atendeu a esse conselho. Levado pelo louco afeto por seu filho, Dhritarastra rendeu-se à vontade dele e enviou a Yudhisthira o convite fatal para o jogo.

 

Capítulo 9

Kunti Devi

Shura, o avô de Sri Krishna, era um ilustre descendente da dinastia Yadava. Sua filha Pritha era famosa por sua beleza e virtudes. Seu primo Kuntibhoja não tinha filhos, por isso Shura deu sua filha Pritha em adoção a ele. A partir daí, ela ficou conhecida como Kunti, devido ao nome de seu pai adotivo.

Quando Kunti era uma menina, o sábio Durvasa ficou por um tempo hospedado como convidado na casa de seu pai, e ela o serviu durante um ano com todo cuidado, paciência e devoção. Ele ficou tão agradecido a ela que lhe deu de presente um mantra divino. Ele disse: "Se você chamar qualquer semideus e pronunciar este mantra, ele se manifestará perante você e a abençoará com um filho igual a ele em glória".

Ele deu a ela essa bênção pois havia previsto com seu poder de yoga o infortúnio que estava reservado para seu futuro marido.

A curiosidade impaciente da juventude fez Kunti testar a veracidade e eficácia do mantra, assim ao pronunciá-lo invocou o deus do Sol, quem ela viu a brilhar no céu. Imediatamente, o céu ficou encoberto com nuvens escuras, que serviram de cobertura para o deus do Sol se aproximar da linda princesa Kunti, e ficou em pé diante dela a admirá-la com a alma ardente. Kunti, encantada com a gloriosa visão do visitante em sua frente, perguntou: "Salve senhor, quem é o senhor"?

O Sol respondeu: "Querida donzela, eu sou o Sol. Fui trazido aqui pelo encanto do mantra gerador de filho que você pronunciou".

Kunti estava aterrorizada e disse: "Sou uma menina não casada dependente de meu pai. Não estou preparada para ser mãe e não quero isso. Eu só queria testar o poder da bênção que me foi concedida pelo sábio Durvasa. Por favor, vá embora e perdoe essa minha tolice infantil". Mas o deus do Sol não podia voltar atrás por causa do poder do mantra sobre ele. Ela, do seu lado, estava apavorada de ser condenada pela sociedade. O deus do Sol entretanto a assegurou: "Você nunca será culpada. Após gerar meu filho, você recuperará sua virgindade".

Kunti engravidou pela graça do deus do Sol, quem concede luz e vida para o mundo. Nascimentos divinos acontecem imediatamente sem os nove meses da gestação mortal.

Ela deu à luz Karna que nasceu com armadura e brincos divinos, e era brilhante e belo como o Sol. Mais tarde, ele se tornou um dos maiores heróis do mundo. Depois que a criança nasceu, Kunti ficou virgem de novo como resultado da bênção concedida pelo Sol.

Ela pensou muito no que fazer com a criança. Para esconder seu erro, ela pôs a criança numa caixa selada e colocou-a para flutuar no rio. Aconteceu que um cocheiro sem filhos viu a caixa flutuante e a pegou, assim quando abriu, ficou surpreso e muito feliz ao encontrar dentro uma criança deslumbrantemente bela. Ele a levou para sua esposa que derramou todo seu amor de mãe sobre a criança. Assim Karna, o filho do deus do Sol, teve o destino de ser criado como filho dum cocheiro.

Quando chegou a época de Kunti se casar, Kuntibhoja convidou todos os príncipes da vizinhança para o swayamvara pois a princesa era muito famosa por sua extrema beleza e virtude. Kunti colocou o colar de flores no pescoço do rei Pandu, o ilustre representante da dinastia Bharata, cuja personalidade encobria o brilho de todos os outros príncipes presentes. O casamento foi devidamente solenizado e ela acompanhou seu esposo à sua capital Hastinapura.

Com o conselho de Bhisma e conforme o costume da época, Pandu se casou com sua segunda esposa Madri, irmã do rei de Madra. Antigamente, os reis se casavam com duas ou três esposas para assegurarem a progênie e não meramente para o prazer sensual.

 

Capítulo 10

A Morte de Pandu

Certo dia, o rei Pandu saiu para caçar. Um sábio e sua esposa também se divertiam na floresta e assumiram a forma de um casal de cervos. Pandu atirou uma flecha no macho, em ignorância do fato que era um sábio disfarçado. Com o ferimento mortal, o rishi amaldiçoou Pandu dessa forma: "Pecador, você encontrará a morte no momento em que saborear os prazeres da cama".

Pandu ficou arrasado com essa maldição e se retirou para a floresta com suas esposas depois de confiar seu reino a Bhisma e Vidura, e lá viveu uma vida de plena abstinência.

Kunti percebeu que Pandu desejava ter filhos, mas estava impedido devido à maldição do rishi sobre ele, então lhe contou a história do mantra que recebeu de Durvasa. Ele ordenou imediatamente a Kunti e Madri que usassem o mantra, e foi assim que os cinco Pandavas nasceram dos deuses com Kunti e Madri.

Eles nasceram e foram criados na floresta entre os ascetas. O rei Pandu viveu por muitos anos na floresta com suas esposas e filhos. Numa certa primavera, Pandu e Madri se esqueceram de seus pesares no arrebatamento da atração com a vida excitante em volta deles, as flores vibrantes, o verde, os pássaros e outras criaturas da floresta.

Apesar dos intensos e repetidos protestos de Madri, a determinação de Pandu se esgotou devido à encantadora influência da estação, e a maldição do sábio fez efeito de imediato, assim Pandu caiu, morto.

Madri não pode conter o seu pesar. E por se sentir responsável pela morte do rei, entrou na pira de seu esposo e se queimou, após implorar a Kunti para ficar e ser a mãe de seus dois gêmeos órfãos.

Os sábios da floresta levaram Kunti e os Pandavas desolados e em luto para Hastinapura e os confiaram a Bhisma.

Yudhisthira tinha dezesseis anos nessa época. Quando os sábios chegaram em Hastinapura e relataram a morte de Pandu na floresta, todo o reino foi tomado de tristeza. Vidura, Bhisma, Vyasa, Dhritarastra e outros executaram os rituais de funeral.

Todas as pessoas do reino lamentaram como uma perda pessoal. Vyasa disse a Satyavati, a avó: "O passado se foi de forma agradável, mas o futuro tem muita tristeza reservada. O mundo passou sua juventude como um sonho alegre e agora vai entrar em desilusão, pecado, tristeza e sofrimento. O tempo é inexorável. Você não precisa esperar para ver os sofrimentos e infortúnios que acontecerão com esta dinastia. O melhor para você é sair da cidade e passar o resto de seus dias em retiro na floresta". Satyavati concordou e foi para a floresta com Ambika e Ambalika. Essas três rainhas idosas passaram do ascetismo santo para as regiões superiores da bem-aventurança e se pouparam dos pesares de seus filhos.

 

Capítulo 11

Bhima

Os cinco filhos de Pandu e os cem filhos de Dhritarastra cresceram com alegria e diversão em Hastinapura. Bhima excedia todos em força física. Ele costuma maltratar Duryodhana e os outros Kauravas, batia neles e os arrastava pelo cabelo.

Grande nadador, ele mergulhava, nos lagos, com um ou mais deles imobilizados em seus braços, e ficava no fundo até eles quase se afogarem. Quando eles subiam numa árvore, ele ficava no chão e chacoalhava a árvore até fazê-los cair como frutas maduras.

Os corpos dos filhos de Dhritarastra estavam sempre doloridos com machucados em resultado das brincadeiras físicas de Bhima. Não é para menos que os filhos de Dhritarastra desenvolveram um ódio profundo por Bhima desde a infância.

Durante o crescimento dos príncipes, Kripacharya lhes ensinou a arte do arco e flecha, as artes marciais e outras que os príncipes devem saber. A inveja de Duryodhana em relação a Bhima deturpou sua mente e o fez cometer muitos atos impróprios.

Duryodhana estava muito preocupado. Seu pai era cego, por isso o reino foi governado por Pandu. Quando ele morrer, Yudhisthira, o herdeiro legítimo, seria o rei em seguida. Duryodhana pensou que como seu pai cego era muito incapaz, tinha que prevenir a ascensão de Yudhisthira ao trono, e idealizou um plano para matar Bhima.

Ele organizou o esquema para executar sua decisão, pois achava que o poder dos Pandavas se reduziria com a morte de Bhima.

Duryodhana e seus irmãos planejaram afogar Bhima no Ganges, aprisionar Arjuna e Yudhisthira, então tomar o reino e assumirem o governo. Assim, Duryodhana foi com seus irmãos e os Pandavas para nadarem no Ganges.

Depois das brincadeiras esportivas, eles dormiram em suas tendas, exaustos. Bhima tinha excedido mais que os outros e como sua comida foi envenenada, sentiu-se sonolento e adormeceu na margem do rio. Duryodhana o amarrou com cipós silvestres e o jogou no rio.

O malévolo Duryodhana preparou o local com vários cravos pontiagudos implantados no leito do rio. Isso feito de propósito para que Bhima fosse empalado nos cravos ao cair no fundo, e perdesse sua vida. Felizmente, não tinha nenhum cravo no lugar onde Bhima caiu. Cobras-d'água venenosas picaram seu corpo.

O efeito do veneno que ele ingeriu com a comida foi anulado pelo veneno das serpentes e Bhima não sofreu mal nenhum, e depois, o rio o jogou de volta para a margem.

Duryodhana pensou que Bhima tinha morrido quando foi jogado no rio infestado de serpentes venenosas e cheio de cravos. Assim, ele voltou para a cidade com o resto do grupo em grande alegria.

Quando Yudhisthira perguntou sobre o paradeiro de Bhima, Duryodhana disse que ele veio antes deles para a cidade.

Yudhisthira acreditou em Duryodhana e logo que chegou em casa, perguntou à sua mãe se Bhima estava lá.

Sua pergunta ansiosa teve a resposta de que Bhima não tinha voltado ainda, o que fez Yudhisthira suspeitar de alguma brincadeira de mau gosto feita contra seu irmão. Então, voltou para a floresta com seus irmãos e procuraram em toda parte. Mas não conseguiram encontrar Bhima. Voltaram para casa com muita tristeza.

Algum tempo depois, Bhima acordou e caminhou vagaroso de volta para casa. Kunti e Yudhisthira o receberam e abraçaram com muita alegria. Em conseqüência do veneno que entrou em seu organismo, Bhima ficou mais forte do que antes.

Kunti procurou Vidura e lhe contou em segredo:

"Duryodhana é mau e cruel. Ele tentou matar Bhima pois deseja governar o reino. Estou preocupada".

Vidura respondeu: "O que você disse é verdade, mas mantenha seus pensamentos para si mesma. Pois se o malévolo Duryodhana for acusado ou culpado, sua ira e ódio só aumentarão. Seus filhos são abençoados com vida longa. Você não precisa ter medo por causa disso".

Yudhisthira também avisou Bhima e disse: "Mantenha o silêncio sobre esse assunto. De agora em diante, temos que ser cautelosos e nos cuidar, e nos proteger".

Duryodhana ficou surpreso de ver Bhima voltar vivo. Sua inveja e ódio aumentaram. Ele lamentou profundamente e saiu a reclamar.

 

Capítulo 12

Karna

Os Pandavas e os Kauravas aprenderam as artes militares primeiro com Kripacharya e depois com Drona. Certo dia, foi marcado um teste para a exibição de suas habilidades com o uso das armas na presença da família real, bem como do público que foi convidado para assistir o desempenho de seus amados príncipes. Tinha uma grande multidão muito entusiasmada.

Arjuna demonstrou habilidade sobre-humana com suas armas e o grande público ficou arrebatado com admiração e afeição. A fronte de Duryodhana ficou escura de inveja e ódio.

Perto do final do dia, ouviu-se de repente um som que vinha da entrada da arena, alto e forte como um trovão, o som produzido pelo bater de braços poderosos em desafio. Todos os olhos se voltaram para aquela direção. Eles viram entrar através da multidão, que abriu caminho em silêncio temeroso, um jovem divino de quem parecia emanar luz e poder. Ele olhava orgulhoso em sua volta, fez um cumprimento negligente a Drona e Kripa, e andou firme em direção a Arjuna. Os irmãos, sem saberem, pela amarga ironia do destino, de seu sangue comum, estavam face a face, pois era Karna.

Karna se dirigiu a Arjuna com a voz tão profunda como um trovão estrondoso: "Arjuna, vou demonstrar muito mais habilidade do que você".

Com a permissão de Drona, Karna, o amante da guerra, ali mesmo na frente do público, duplicou todos os feitos de Arjuna com grande facilidade. A excitação de Duryodhana foi grande. Ele se atirou com seus braços em volta de Karna e disse: "Bem-vindo! Salve você de braços poderosos, quem a boa fortuna nos enviou. Eu e este reino dos Kurus estamos sob seu comando".

Karna disse: "Eu, Karna, sou muito grato, ó rei. Eu só desejo duas coisas, o seu amor e um combate individual com Partha (Arjuna)".

Duryodhana apertou Karna novamente contra seu peito e disse: "Minha prosperidade é toda para o seu prazer".

Enquanto o coração de Duryodhana derramava amor, uma fúria mortal preencheu Arjuna, que se sentiu afrontado. Ele mirou Karna seriamente, que estava em pé, firme como o pico de uma montanha, e recebia as saudações dos irmãos Kauravas, e disse: "Ó Karna, vou matá-lo imediatamente e enviá-lo para o inferno reservado aos intrusos não convidados e tagarelas inconvenientes".

Karna deu uma risada sarcástica: "Esta arena está aberta para todos, ó Arjuna, e não só para você. Poder é a sanção da soberania e a lei se baseia nisso. Mas o que adianta só falar, que é a arma dos fracos? Atire flechas em vez de palavras".

Assim desafiado, Arjuna, com a permissão de Drona, abraçou seus irmãos com pressa e se posicionou pronto para o combate. Enquanto Karna, deixou a companhia dos irmãos Kurus e o confrontou com a arma em punho.

Os pais divinos dos heróis tentaram encorajar sua prole e testemunhar esse combate mortal, assim Indra, o senhor das nuvens de raios, e Bhaskara, com seus raios infinitos, apareceram no céu ao mesmo tempo.

Quando viu Karna, Kunti o reconheceu como seu primeiro filho e desmaiou. Vidura pediu para as amas cuidarem dela, e assim que acordou., ficou tomada de angústia, sem saber o que fazer.

Quando estavam prestes a iniciar o combate, Kripa, conhecedor das regras de combate individual, parou entre os dois e se dirigiu a Karna:

"Este príncipe, que está pronto para lutar com você, é filho de Pritha e Pandu, e descendente da dinastia Kuru. Revele, ó de braços poderosos, sua ascendência e dinastia descendente que tornam ilustre o seu nascimento. Partha só poderá lutar com você depois de saber a sua linhagem, pois os príncipes com alto nascimento não podem entrar em combates individuais com qualquer aventureiro desconhecido".

Ao ouvir essas palavras, Karna abaixou sua cabeça como as pétalas duma flor de lótus sob o peso da água da chuva.

Duryodhana se levantou de imediato e disse: "Se o combate não pode acontecer só porque Karna não é um príncipe, isso pode ser solucionado facilmente. Eu corôo Karna como rei de Anga". Então, com o consentimento de Bhisma e Dhritarastra, realizou todos os ritos necessários e nomeou Karna soberano do reino de Anga, e lhe deu a coroa, as jóias e outras insígnias reais.

Naquele momento, quando o combate entre os jovens heróis parecia que ia começar, o velho cocheiro, Adhiratha, que era o pai adotivo de Karna, entrou na arena, com o bastão na mão e tremia de medo.

Logo que o viu, Karna, o recém coroado rei de Anga, abaixou sua cabeça e se ajoelhou em humildade com toda a reverência filial. O homem idoso o chamou de filho, abraçou-o com seus braços magros e trêmulos, e chorou de alegria com lágrimas de amor que molharam sua cabeça já úmida pela água da coroação.

Ao ver isso, Bhima bramiu uma risada alta e gritou: "Ó vejam, ele é só o filho dum cocheiro! Pegue o chicote de condutor que condiz com a sua ascendência. Você não é digno de ser morto pelas mãos de Arjuna. Nem deve governar Anga como um rei".

Com essa fala ultrajante, os lábios de Karna tremeram de angústia e sem fala, olhou em direção ao sol poente com um profundo suspiro.

Mas Duryodhana interrompeu indignado:

"Ó Vrikodara (Bhima), você é injusto ao falar assim. O valor é a marca de um kshatriya. Nem tem sentido delinear grandes heróis e grandes rios por suas origens. Posso citar muitos exemplos de grandes personalidades de nascimento humilde e eu sei que há dúvidas estranhas sobre a sua própria origem. Olhe para esse guerreiro, sua bela forma e porte, sua armadura e brincos, e sua habilidade com as armas. Claro que existe um mistério em relação a ele. Como pode um tigre nascer de um antílope? Você disse que ele não é digno de ser o rei de Anga? Eu acho que ele é capaz para governar o mundo inteiro".

Com uma fúria generosa, Duryodhana levou Karna em sua quadriga e partiu.

O Sol se pôs e a multidão se dispersou com tumulto. Vários grupos discutiam sob a luz de lâmpadas, alguns glorificavam Arjuna, outros, Karna, e outros ainda, Duryodhana, conforme suas predileções.

Indra previu que um combate final seria inevitável entre seu filho Arjuna e Karna. Assim, assumiu a forma de um brahmana e foi se encontrar com Karna, que tinha reputação de caridoso, e lhe pediu de esmola seus brincos e armadura. O deus do Sol já tinha avisado Karna num sonho que Indra tentaria enganá-lo dessa forma.

Mesmo assim, Karna não conseguia recusar nenhum presente que lhe fosse pedido. No mesmo instante, cortou os brincos e a armadura que nasceram com ele e lhes deu ao brahmana.

Indra, o rei dos deuses, ficou muito surpreso e feliz. Depois de aceitar o presente, elogiou Karna por ter feito o que ninguém mais faria, e envergonhado com generosidade, disse a Karna para pedir qualquer bênção que desejasse.

Karna respondeu: "Eu desejo obter a sua arma, a Shakti, que tem o poder de matar os inimigos". Indra concedeu a bênção, mas com uma condição fatídica, ele disse: "Você poderá usar esta arma contra um só inimigo apenas, e ela matará quem quer que ele seja. Mas depois dessa morte, esta arma não estará mais à sua disposição e retornará a mim". Ao dizer essas palavras, Indra desapareceu.

Karna foi até Parashurama e se tornou seu discípulo pois fingiu ser um brahmana para ele. Ele aprendeu com Parashurama o mantra para usar a arma suprema conhecida como brahmastra.

Certo dia, Parashurama estava deitado com a cabeça encostada no colo de Karna quando um verme escavador entrou dentro da coxa de Karna. Começou a sangrar e a dor era terrível. Mas Karna agüentou tudo sem mesmo tremer pois não queria perturbar o descanso de seu mestre. Parashurama acordou e viu o sangue que tinha escorrido da ferida.

Ele disse: "Caro aluno, você não é um brahmana. Só um kshatriya consegue ficar imóvel sob tortura física. Diga-me a verdade".

Karna confessou que mentiu ao se apresentar como brahmana e que de fato era filho dum cocheiro.

Parashurama com sua ira pronunciou a seguinte maldição para ele: "Porque você enganou seu guru, a brahmastra que você aprendeu vai falhar no momento fatal. Você não será capaz de lembrar o mantra quando chegar a sua hora".

Foi por causa dessa maldição, quando entrou em crise na sua última luta com Arjuna, que Karna não conseguiu lembrar do encanto da brahmastra, apesar de ter lembrado até o momento. Karna se tornou amigo fiel de Duryodhana e permaneceu leal aos Kauravas até o fim.

Depois da morte de Bhisma e Drona, Karna se tornou o líder do exército Kaurava e lutou com muito brilho por dois dias. No fim, a roda de sua quadriga ficou presa na lama, e teve de abandoná-la pois não conseguiu desatolar. E nessa situação, Arjuna o matou. Kunti ficou muito amargurada, e com muito remorso por ter escondido a verdade até então.

 

Capítulo 13

Drona

Drona, filho de um brahmana chamado Bharadwaja, após completar seus estudos dos Vedas e Vedangas, dedicou-se à arte do arco e flecha e se tornou um grande mestre.

Drupada, filho do rei de Panchala, que era amigo de Bharadwaja, foi colega de Drona no monastério, onde cresceu uma generosa intimidade juvenil entre os dois.

Drupada, com seu entusiasmo juvenil, costumava dizer a Drona que daria metade de seu reino a ele quando ascendesse ao trono. Depois de sua formatura, Drona se casou com a irmã de Kripa, e tiveram um filho chamado Asvathama.

Drona tinha um apego apaixonado pela esposa e filho, e por causa deles, desejava obter fortuna, algo que nunca havia ligado antes. Quando soube que Parashurama distribuiria sua fortuna para os brahmanas, foi primeiro a ele. Mas era tarde demais pois Parashurama já tinha dado toda fortuna e ia se retirar na floresta. Mas, preocupado em dar algo a Drona, Parashurama se ofereceu para ensinar-lhe o uso das armas, de que era mestre supremo.

Drona aceitou com alegria, e de grande arqueiro, que já era, passou a mestre insuperável da arte militar, digno de ser bem vindo como preceptor em qualquer principado, nesta era da guerra.

Enquanto isso, Drupada ascendeu ao trono de Panchala com a morte de seu pai. Com a lembrança de sua intimidade infantil e as afirmações de Drupada em querer servi-lo, até em compartilhar seu reino, Drona foi a ele com esperança de ser tratado generosamente.

Mas encontrou um rei bem diferente do estudante. Ao se apresentar como um velho amigo, Drupada não ficou contente em vê-lo e aceitou isso como uma presunção intolerável. Inebriado de poder e riqueza, Drupada disse: "Seu brahmana, como ousa me chamar de velho amigo? Qual amizade pode haver entre um rei coroado e um mendigo andarilho? Você deve ser muito tolo em presumir que algo do passado distante possa cobrar a amizade dum rei que governa um reino. Como um pobre pode ser amigo duma pessoa rica, ou um rude ignorante dum professor emérito, ou um covarde dum herói? A amizade só pode existir entre iguais. Um mendigo vagabundo não pode ser amigo dum soberano". Drona foi expulso do palácio com desprezo em seus ouvidos e uma ira ardente em seu coração.

Ele fez um juramento íntimo que puniria o rei arrogante pelo seu insulto e seu repúdio às promessas sagradas da amizade infantil. Seu próximo movimento à procura de emprego foi em direção a Hastinapura, onde passou alguns dias, em retiro, na casa de seu cunhado, Kripacharya.

Certo dia, os príncipes brincavam com uma bola fora dos limites da cidade, até que num momento do jogo, a bola caiu num poço, junto com o anel de Yudhisthira. Os príncipes foram olhar no poço e viram o anel que brilhava no fundo através da água limpa. Mas não conseguiram tirar o anel. Entretanto, não notaram um brahmana de pele escura que estava perto e os observava com um sorriso.

"Príncipes", ele os surpreendeu, "vocês são descentes da heróica dinastia Bharata. Por que não conseguem tirar a bola, como qualquer perito no uso de armas saberia fazer? Será que terei de fazer para vocês"?

Yudhisthira riu e disse em tom de brincadeira: "Salve brahmana, se conseguir tirar a bola, veremos que você come bem na casa de Kripacharya". Então Drona, o brahmana forasteiro, pegou uma folha de grama e atirou-a dentro do poço depois de recitar algumas palavras de poder para lançá-la como se fosse uma flecha.

A folha de grama disparou e fincou na bola. Depois, ele disparou uma sucessão de outras folhas de grama que fincavam uma na outra e formaram uma corrente, com a qual Drona recuperou a bola.

Os príncipes ficaram abismados e muito felizes, e pediram a ele para pegar o anel também. Drona pegou um arco emprestado, pôs uma flecha na corda e acertou em cheio bem no centro do anel, o ricochete da flecha atirou o anel para cima, e o brahmana o entregou ao príncipe com um sorriso.

Ao verem tudo isso, os príncipes ficaram admirados e disseram: "Nós o saudamos, ó brahmana. Quem é você? Podemos fazer algo por você"? E prestaram reverências a ele.

Ele disse: "Salve príncipes, vão até Bhisma e saibam dele quem eu sou".

Pela descrição dada pelos príncipes, Bhisma sabia que o brahmana não poderia ser outro além do famoso mestre Drona. Ele decidiu que Drona era a pessoa adequada para ministrar a educação avançada dos Pandavas e dos Kauravas. Assim, Bhisma o recebeu com honras distintas e o contratou para ser o instrutor dos príncipes no uso das armas.

Logo que os Kauravas e os Pandavas conseguiram dominar a ciência das armas, Drona mandou Karna e Duryodhana para capturar Drupada e trazê-lo vivo, como cumprimento do dever devido a ele como mestre.

Eles foram como ordenados por ele, mas não conseguiram realizar a tarefa. Então o mestre mandou Arjuna com a mesma missão. Ele derrotou Drupada em batalha e o trouxe cativo junto com seus ministros para Drona.

Então Drona se dirigiu a Drupada com um sorriso: "Grande rei, não tema por sua vida. Fomos companheiros em nossa infância mas você achou melhor esquecer isso e me desonrar. Você me disse que um rei só pode ser amigo de outro rei. Agora eu sou um rei, após conquistar seu reino. Mesmo assim pretendo recuperar minha amizade com você, por isso lhe dou metade do seu reino que se tornou meu por conquista. Seu credo é que a amizade só é possível entre iguais. E agora somos iguais, cada um com metade do seu reino".

Drona achou que fosse uma vingança suficiente pelo insulto que sofreu, libertou Drupada e o tratou com honra. Assim o orgulho de Drupada foi humilhado, mas o ódio nunca é extinto com retaliação, poucas coisas são piores de tolerar do que as dores da vaidade ferida, a paixão governante da vida de Drupada se tornou seu ódio por Drona e o desejo de vingança.

O rei realizou tapasya (penitências), jejuou e fez sacrifícios a fim de obter a bênção dos deuses e ter um filho capaz de matar Drona e uma filha para casar com Arjuna.

Seus esforços foram coroados com sucesso assim nasceu Dristadyumna que comandou o exército Pandava em Kurukshetra, e matou o até então inconquistável Drona ajudado por uma soma de circunstâncias, e nasceu Draupadi, a esposa dos Pandavas.

 

Capítulo 14

O Palácio de Cera

A inveja de Duryodhana começou a crescer com a visão da força física de Bhima e a destreza de Arjuna. Karna e Shakuni se tornaram os conselheiros maliciosos de Duryodhana no planejamento de ardis astuciosos.

Quanto ao pobre Dhritarastra, ele era um homem sábio sem dúvida e também amava os filhos de seu irmão, mas era fraco de espírito e louco de amor por seus próprios filhos. Por causa de seus filhos, a pior se tornava a melhor razão, e às vezes, ele seguia o caminho errado mesmo consciente.

Duryodhana tentou matar os Pandavas de várias formas. Foi pela ajuda secreta de Vidura, com desejo de salvar a família de cometer um grande pecado, que os Pandavas escaparam vivos.

Uma ofensa imperdoável dos Pandavas na visão de Duryodhana era que o povo da cidade os elogiava abertamente e declaravam uma e outra vez que Yudhisthira era o único capaz para ser o rei.

Em suas reuniões, as pessoas conversavam e argumentavam:

"Dhritarastra nunca deveria ser rei pois nasceu cego. Não é certo que ele continue agora com o reino em suas mãos. Bhisma também não pode ser o rei, por ser devotado à verdade e ao seu voto, não pode ser um rei. Por isso, Yudhisthira é o único que deve ser coroado rei. Ele é o único que pode governar a dinastia Kuru e o reino com justiça". As pessoas falavam assim por toda parte. Essas palavras eram como veneno para os ouvidos de Duryodhana, e faziam ele se retorcer e queimar de inveja.

Ele foi até Dhritarastra e reclamou amargurado com a fala do povo: "Pai, os cidadãos balbuciam tolices irrelevantes. Eles nem respeitam pessoas veneráveis como Bhisma e você. Eles dizem que Yudhisthira deve ser coroado rei imediatamente. Isso vai causar a nossa ruína. Você foi posto de lado por causa de sua cegueira, e seu irmão se tornou o rei. Se Yudhisthira deve suceder seu pai, como ficamos nós? Qual será a chance de nossa prole? Depois de Yudhisthira, o filho dele, o filho de seu filho e o filho seguinte serão os reis. Nós nos afundaremos em parentesco pobre, seremos dependentes deles até mesmo para comer. Viver no inferno seria melhor que isso"!

Após ouvir essas palavras, Dhritarastra ponderou e disse: "O que você disse é verdade. Ainda assim, Yudhisthira não se desviará do caminho da virtude. Ele ama todos. Ele herdou realmente todas virtudes excelentes de seu pai falecido. As pessoas o louvam e vão apoiá-lo, e todos ministros de estado e comandantes militares, a quem Pandu cativou com sua nobreza de caráter, vão abraçar sua causa. Quanto ao povo, eles idolatram os Pandavas. Não podemos nos opor a eles com qualquer chance de sucesso. Se agirmos com injustiça, os cidadãos vão se rebelar e vão nos matar ou nos exilar. Vamos nos cobrir apenas com ignomínia".

Duryodhana respondeu: "Seus temores não têm sentido. Bhisma no pior das hipóteses ficará neutro, enquanto Asvathama é fiel a mim, quer dizer que seu pai Drona e tio Kripa ficarão do nosso lado. Vidura não pode se opor a nós abertamente, mesmo por qualquer outro motivo, pois não tem poder. Mande os Pandavas imediatamente para Varanavata. Eu lhe digo a verdade solene que minha taça de sofrimento está cheia e não posso suportar mais. Perfura meu coração e me deixa sem dormir, e transforma minha vida num tormento. Depois de mandar os Pandavas para Varanavata vamos procurar fortalecer nosso lado".

Mais tarde, alguns políticos decidiram se juntar ao lado de Duryodhana e aconselhar o rei sobre o assunto. Kanika, ministro de Shakuni, era o líder deles, e disse: "Salve rei. Proteja-se contra os filhos de Pandu, pois sua bondade e influência são uma ameaça para você e os seus. Os Pandavas são filhos de seu irmão, quanto mais próximo o parentesco, mais perto e mortal o perigo. Eles são muito poderosos".

O ministro de Shakuni continuou: "Não fique com raiva de mim se eu disser que um rei tem que ser poderoso em ação tanto quanto em nome, pois ninguém acredita no poder que nunca é exibido. Assuntos de estado devem ser mantidos em segredo, e o aviso mais rápido para o público dum plano sensato é sua execução. Além do mais, males devem ser erradicados prontamente, pois um espinho que foi deixado dentro do corpo pode causar uma ferida infeccionada. Inimigos poderosos devem ser destruídos, mesmo um inimigo fraco não deve ser desprezado, pois uma pequena fagulha, se negligenciada, pode causar um incêndio florestal. Um inimigo poderoso tem que ser destruído com estratégia e é tolice ter pena dele. Ó rei, proteja-se contra os filhos de Pandu. Eles são muito poderosos".

Duryodhana falou para Dhritarastra sobre seu sucesso em assegurar participantes leais: "Eu comprei a boa vontade dos assessores reais com presentes de riqueza e honra. Eu conquistei seus ministros para a nossa causa. Se você mandar os Pandavas para Varanavata com sagacidade, a cidade e todo o reino ficarão do nosso lado. Eles não terão mais nenhum amigo de sobra aqui. Depois que o reino for nosso, eles não terão mais poder de dano, e talvez seja até possível deixarmos que eles voltem".

Quando vários disseram o que ele mesmo queria acreditar, a mente de Dhritarastra ficou abalada e ele concordou com os conselheiros de seu filho. É o que faltava para a conspiração ter efeito.

Os ministros passaram a elogiar Varanavata na presença dos Pandavas e falavam sobre a realização dum grande festival em homenagem a Shiva que aconteceria lá com toda pompa e esplendor.

Os Pandavas sem suspeitar foram persuadidos com facilidade, principalmente quando Dhritarastra também disse a eles em tom de muita afeição que deveriam ir com certeza e testemunharem as festividades, não apenas porque mereciam ir mas também porque as pessoas de lá estavam ansiosas em dar-lhes as boas vindas.

Os Pandavas se despediram de Bhisma e outros parentes e foram para Varanavata. Duryodhana ficou exaltado. Ele conspirou com Karna e Shakuni para matar Kunti e seus filhos em Varanavata. Eles mandaram Purochana, um ministro, para lá e lhe deram instruções secretas que ele se comprometeu a executar fielmente.

Antes dos Pandavas partirem para Varanavata, Purochana, fiel às suas ordens, adiantou-se bem até o local e organizou a construção dum belo palácio para a recepção deles. Materiais combustíveis como juta, goma-laca, ghi, óleo e gordura foram usados na construção do palácio. O material de emboço das paredes também era inflamável. Com astúcia, ele preencheu várias partes do prédio com coisas secas que podiam incendiar facilmente, e arrumou os assentos e camas nos locais mais combustíveis.

Todas as conveniências foram providenciadas para os Pandavas terem sua estadia na cidade sem temor, até a construção do palácio. Quando os Pandavas estivessem na casa de cera, a idéia era atear fogo à noite quando estivessem em sono profundo.

O amor e atenção ostensivos com que os Pandavas seriam recebidos e tratados eliminaria toda suspeita e o incêndio seria considerado um caso triste de puro acidente. Ninguém sonharia em culpar os Kauravas.

 

Capítulo 15

A Fuga dos Pandavas

Depois das despedidas formais dos mais velhos e de abraçar os amigos, os Pandavas partiram para Varanavata. Os cidadãos os acompanharam durante parte do caminho e voltaram para a cidade sem querer. Vidura evidentemente avisou Yudhisthira com palavras inteligíveis só para o príncipe:

"Escapa do perigo só a pessoa que previne as intenções dum inimigo astuto. Existem armas mais afiadas que as feitas de aço. E a pessoa sábia que escaparia da destruição deve saber os meios para se defender dela. A conflagração que devasta uma floresta não pode ferir um rato que se abriga num buraco ou um porco-espinho que cavouca a terra para se esconder. A pessoa inteligente sabe seu rumo por olhar as estrelas".

Apesar de iniciarem sua jornada na alegria dum dia ensolarado, agora prosseguiam sob uma nuvem escura de tristeza e ansiedade.

O povo de Varanavata ficou muito feliz em saber sobre a chegada dos Pandavas em sua cidade e lhes deram as boas vindas.

Após uma breve estadia em outras casas enquanto o palácio feito especialmente para eles ficava pronto, mudaram sob os cuidados de Purochana.

O palácio foi chamado de "Shivam", que significa prosperidade, numa terrível ironia para a armadilha mortal. Yudhisthira examinou todo o local minuciosamente sempre com o aviso de Vidura na mente, e percebeu que o prédio foi sem sombra de dúvida construído com material combustível.

Yudhisthira disse a Bhima: "Apesar de sabermos que o palácio é uma armadilha mortal, não podemos deixar que Purochana desconfie que conhecemos sua conspiração. Vamos sair fora no momento certo, a fuga será muito difícil se dermos chance a qualquer suspeita".

Assim ficaram naquela casa com muito cuidado para não despertar nenhuma suspeita. Nesse meio tempo, Vidura mandou um mineiro especialista que se encontrou com eles em segredo e disse: "Minha palavra de passe é o aviso secreto que Vidura lhes deu. Fui mandado para ajudá-los a se protegerem".

Isso, para indicar a Yudhisthira, e somente a ele, sobre o plano terrível de Duryodhana e como escapar do perigo. Yudhisthira disse que entendeu a intenção de Vidura e mais tarde comunicou a Kuntidevi.

A partir daí, o mineiro trabalhou em segredo durante vários dias, sem o conhecimento de Purochana, e completou uma saída subterrânea da casa de cera bem em baixo e através das paredes e vala, que corria em torno do palácio.

Purochana tinha seus aposentos no portal do palácio. Os Pandavas mantinham a vigília armada noturna, e durante o dia, costumavam ir caçar na floresta, por prazer para as aparências mas na verdade para se familiarizarem com os caminhos da floresta.

Como já foi dito, eles mantiveram com muito cuidado seu conhecimento sobre a malvada conspiração contra suas vidas. Por outro lado, Purochana, ansioso em acalmar toda suspeita e fazer o incêndio criminoso parecer um acidente, esperou um ano inteiro antes de levar a cabo o plano malévolo.

Finalmente, Purochana achou que tinha esperado o suficiente. E o atento Yudhisthira, percebeu que o momento fatídico havia chegado, chamou seus irmãos e disse a eles que agora ou nunca era a hora de escaparem.

Kuntidevi organizou um banquete suntuoso para o séqüito naquele dia. Sua idéia era acalmá-los para um sono bem alimentado durante a noite.

À meia-noite, Bhima ateou fogo em vários lugares do palácio. Kuntidevi e os irmãos Pandavas correram pela passagem subterrânea e apalpavam seu caminho através da escuridão. Enquanto isso, houve um incêndio estrondoso que consumiu todo o palácio, e uma multidão crescia com rapidez por toda volta, com os cidadãos apavorados em alta lamentação e desespero.

Alguns se apressavam em tentativas fúteis de extinguir a conflagração, e todos se juntaram em uníssono: "Ai de mim! Ai de mim! Isso é com certeza obra de Duryodhana, e ele matou os Pandavas imaculados"!

O palácio foi reduzido a cinzas. A residência de Purochana foi envolvida nas chamas antes que pudesse escapar, e ele foi vítima sem piedade de seu próprio plano malévolo.

O povo de Varanavata mandou a seguinte mensagem a Hastinapura: "O palácio onde os Pandavas moravam sofreu um incêndio e ninguém escapou com vida".

Vyasa descreveu belamente o estado mental de Dhritarastra: "Do mesmo modo como a água de uma piscina profunda é fria no fundo e quente na superfície, assim estava o coração de Dhritarastra ao mesmo tempo quente de alegria e gélido de tristeza".

Dhritarastra e seus filhos tiraram suas vestes reais em sinal de pesar pelos Pandavas que achavam terem sido consumidos pelo fogo. Eles se vestiram com roupas simples como fazem os parentes em luto e foram para o rio a fim de executarem os rituais funerais apropriados.

Nenhum comportamento para exibição de coração partido foi omitido. Notou-se que Vidura não estava tão triste como os outros, e isso foi atribuído a seu caráter filosófico. Mas o motivo verdadeiro, ele sabia que os Pandavas tinham escapado com segurança.

Quando parecia triste, ele de fato seguia a exaustiva jornada dos Pandavas em sua mente. Ao ver Bhisma afundado em tristeza, Vidura o animou em segredo por revelar a história da escapada bem sucedida deles.

Bhima viu que sua mãe e irmãos estavam exaustos por causa das vigílias noturnas bem como pelo medo e ansiedade. Assim ele carregou sua mãe nos ombros, pôs Nakula e Sahadeva nos quadris e segurou Yudhisthira e Arjuna com suas mãos.

Com essa carga pesada, ele andava a passos largos como um elefante altivo que abria seu caminho através da floresta e punha de lado os arbustos e árvores que obstruíam o caminho.

Quando chegaram no Ganges, havia um barco pronto para eles com um barqueiro que sabia o segredo. Eles atravessaram o rio na escuridão e entraram na floresta espessa, assim prosseguiram durante a escuridão da noite que os envolvia como uma mortalha e num silêncio quebrado horrivelmente pelos alaridos assustadores de animais selvagens.

Por último, esgotados pela fadiga, eles se sentaram sem agüentar mais as dores da sede e sem suportar a inércia da extrema fadiga. Kuntidevi disse: "Não me importo se os filhos de Dhritarastra estiverem aqui para me capturar, mas preciso estirar minhas pernas". Ela se deitou então e caiu em sono profundo.

Bhima forçou seu caminho pela floresta entrelaçada à procura de água na escuridão. Quando encontrou uma lagoa, ele molhou sua roupa, fez copos com folhas de lótus e trouxe água para sua mãe e irmãos que morriam de sede.

Então, enquanto os outros dormiam num esquecimento compassivo de sua aflição, Bhima permaneceu desperto sozinho absorto em reflexão profunda: "Por que os malvados Dhritarastra e Duryodhana tentam nos ferir desse jeito"? Por ser impecável, Bhima não conseguia entender o surgimento da perversidade nos outros, e ficou muito triste.

Os Pandavas continuaram sua marcha onde sofreram muitas dificuldades e passaram por vários perigos. Durante parte do caminho, carregavam sua mãe para melhorar a velocidade. Às vezes, cansados além da resignação heróica, paravam e descansavam. Às vezes, cheios de vida e com a gloriosa força da juventude, brincavam de corrida entre si.

Eles se encontraram com Bhagavan Vyasa no caminho. Todos lhe prestaram reverências e receberam encorajamento e conselho sábio dele.

Quando Kunti lhe contou sobre o pesar que caiu sobre eles, Vyasa a consolou com essas palavras: "Nenhuma pessoa virtuosa é forte o suficiente para viver em virtude o tempo todo, nem qualquer pessoa pecadora é má o suficiente para viver num lodaçal de pecado. A vida é um tecido entrelaçado e não existe ninguém no mundo que não tenha feito tanto o bem como o mal. Cada um e todos têm que suportar as conseqüências de suas ações. Não se renda à tristeza".

Assim, eles se vestiram com roupas de brâmanes, como Vyasa aconselhou, e foram para a cidade de Ekachakra onde permaneceram na casa dum brâmane à espera de dias melhores.

 

Capítulo 16

A Morte de Bakasura

Na cidade de Ekachakra, os Pandavas ficaram disfarçados de brâmanes, mendigavam sua comida nas ruas dos brâmanes e traziam o que conseguiam para sua mãe, que sempre esperava por seu retorno ansiosa. Se eles não voltavam na hora, ela ficava preocupada, e temia que algum mal pudesse ter ocorrido a eles.

Kunti dividia toda comida que traziam em duas porções iguais. Uma metade era para Bhima. A outra metade era para os outros irmãos e a mãe. Bhima, que nasceu do deus do vento, tinha muita força e um apetite voraz.

Vrikodara, um dos nomes de Bhima, quer dizer estômago de lobo, e todos sabem que um lobo parece estar sempre faminto. Não importa o quanto coma, sua fome nunca é bem satisfeita.

A fome insaciável de Bhima e a comida escassa que conseguiam em Ekachakra iam mal juntas. E a cada dia, ele emagrecia, o que causava muita tristeza à sua mãe e irmãos. Depois de algum tempo, Bhima conheceu um oleiro a quem ajudou trazer barro. O oleiro em retribuição lhe deu de presente um pote de barro grande que virou um objeto de brincadeira das crianças de rua.

Certo dia, quando os irmãos foram pedir esmolas, Bhima ficou atrás com sua mãe, pois ouviram lamentações em voz alta na casa do brâmane senhorio deles. Com certeza, a pobre família sofria uma grande calamidade e Kunti entrou na casa para saber a causa.

O brâmane e sua esposa mal conseguiam falar por causa do choro, no fim, ele disse à sua mulher: "Você é uma mulher desafortunada e tola, tem muito tempo e muitas vezes que eu quis sair desta cidade para sempre, e você nunca concordou. Você sempre dizia que nasceu e cresceu aqui, e ficaria aqui onde seus pais e parentes viveram e morreram. Como posso pensar em perder você, a companheira da minha vida, mãe amorosa, esposa que gerou meus filhos, além de ser tudo para mim? Não posso mandá-la para morrer enquanto vou ficar vivo. Esta menina nos foi dada por Deus em confiança para ser dada no devido tempo a um homem digno. É um crime sacrificá-la por ser um presente de Deus para a perpetuação da raça. Também é igualmente impossível permitir que este outro, nosso filho, seja morto. Como poderemos viver depois de enviar para a morte nosso único consolo da vida e nossa esperança futura? Se ele se for, quem vai fazer nossos rituais funerais e de nossos ancestrais? Ai de mim! Você não deu ouvidos às minhas palavras, e este é o fruto mortífero da sua perversidade. Se eu deixar minha vida, a menina e o menino vão morrer com certeza por falta dum protetor. O que devo fazer? É melhor que todos nós morramos juntos", e o brâmane caiu no soluço intenso.

A esposa respondeu: "Fui uma boa esposa para você, e cumpri meu dever por gerar uma filha e um filho para você. Você é capaz, e eu não, para criar e proteger nossos filhos. Do mesmo modo como as vísceras expostas são bicadas e apanhadas por aves de rapina, uma pobre viúva é presa fácil para pessoas malvadas e desonestas. Os cães brigam por um pano molhado no ghi, e ao puxarem para cá e para lá, rasgam em trapos enlameados. É melhor que eu seja dada ao rakshasa (espécie humana de demônio antropófago). A mulher que parte para o outro mundo enquanto seu esposo está vivo é realmente abençoada. Isso, como você sabe, é o que as escrituras afirmam. Por favor se despeça de mim. Cuide dos meus filhos. Fui feliz com você. Realizei muitas boas ações. Por minha devoção fiel a você, tenho certeza sobre o céu. A morte não aterroriza aquela que foi uma boa esposa. Depois que eu for, case-se com outra esposa. Agrade-me com um bravo sorriso, abençoe-me, e me mande para o rakshasa".

Depois de ouvir essas palavras de sua esposa, o brâmane a abraçou com afeição, e tomado pelo amor e coragem dela, chorou como uma criança. Quando conseguiu se acalmar, respondeu: "Ó minha nobre amada, que palavras são essas? Será que posso suportar viver sem você? O dever principal dum marido é proteger sua esposa. Serei um pecador lamentável com certeza se viver depois de entregá-la ao rakshasa, e sacrificar o amor bem como o dever".

A filha que ouvia essa conversação comovente, agora interveio aos soluços: "Por favor me ouçam, apesar de ser uma criança, e depois façam o que é certo. Somente eu que vocês devem descartar para o rakshasa. Com o sacrifício duma alma, que sou eu, vocês salvarão as outras. Permitam que eu seja o pequeno barco que vai levá-los através desse rio de calamidade. Além disso, uma mulher sem guardião se torna a diversão de pessoas más que a arrastam para cá e para lá. É impossível que eu proteja dois órfãos sozinhos, e eles morrerão na miséria assim como um peixe numa lagoa seca. Se vocês dois morrerem, tanto eu como meu pequeno irmão morreremos rapidamente sem proteção neste mundo cruel. Se nossa família puder ser salva da destruição com minha morte apenas, que boa morte seria a minha! Mesmo se pensarem só no meu bem-estar, devem me mandar para o rakshasa".

Com essas palavras bravas da pobre menina, os pais a abraçaram com ternura e choraram. Ao ver todos em lágrimas, o menino, não maior que um bebê, se levantou com os olhos brilhantes, e balbuciou: "Pai, não chore. Mãe, não chore. Irmã, não chore", e foi até cada um e se sentou no colo de cada um alternadamente.

Depois se levantou, pegou um pedaço de pau de lenha que brandiu de um lado para o outro, e disse com sua doce fala infantil: "Vou matar o rakshasa com este pau". A atitude do menino e sua fala fizeram eles sorrirem no meio de suas lágrimas, mas isso só aumentou seu grande pesar.

Kunti percebeu que era o momento para intervir, assim entrou e perguntou sobre a causa da tristeza deles, e se poderia fazer algo para ajudá-los.

O brâmane disse: "Mãe, é um sofrimento muito além da sua capacidade. Há uma caverna perto da cidade onde vive um rakshasa cruel e terrivelmente forte chamado Bakasura. Ele capturou esta cidade e o reino há treze anos. Desde então, ele mantém todos numa escravidão cruel. O kshatriya governador deste estado fugiu para a cidade de Vetrakiya e não pode nos proteger. Esse rakshasa costumava sair de sua caverna quando bem entendia e, louco de fome, matava e comia indiscriminadamente homens, mulheres e crianças desta cidade. Os cidadãos imploraram ao rakshasa para aceitar algum tipo de combinação em vez dessa matança promíscua. Eles imploraram: 'Não nos mate sem consideração só por capricho ou prazer. Uma vez por semana, nós vamos trazer para você bastante carne, arroz, coalhada e bebidas alcoólicas, e várias outras guloseimas. Vamos entregar a você tudo isso numa carroça puxada por dois bois dirigidos por um ser humano que será tirado duma casa de cada vez. Você pode comer tudo, o arroz com os bois e a pessoa, mas tem que parar com essa louca orgia de matança'. O rakshasa concordou com a proposta. A partir desse dia, esse forte rakshasa passou a proteger este reino de ataques estrangeiros e feras selvagens. Esse acordo acontece há muitos anos. Nunca se encontrou um herói para livrar o país dessa peste, pois o rakshasa derrotou e matou sem exceção todos os homens bravos que tentaram. Mãe, nosso soberano legítimo não pode nos proteger. Os cidadãos dum país, cujo rei é fraco, não devem se casar e ter filhos. Uma vida familiar digna, com cultura e felicidade doméstica, só é possível sob o governo dum rei bom e forte. Esposa, riqueza e outras coisas não estão a salvo, se não tiver um rei digno no governo dos cidadãos. E depois dum longo sofrimento com a visão da desgraça dos outros, chegou a nossa vez de mandar uma pessoa para o rakshasa. Não tenho recursos para comprar um substituto. Nenhum de nós pode suportar viver depois de mandar qualquer um de nós para a morte cruel, assim eu irei com minha família inteira até ele. Deixe esse glutão malvado devorar todos nós. Eu a atormentei com isso, mas você quis saber. Só Deus pode nos ajudar, mas perdemos a esperança até nisso".

As verdades políticas contidas na história de Ekachakra são sugestivas e dignas de nota. Kunti conversou com Bhima sobre o que aconteceu e voltou ao brâmane. Ela disse: "Meu bom homem, não se desespere. Deus é grande. Eu tenho cinco filhos. Um deles vai levar a comida ao rakshasa".

O brâmane pulou surpreso, mas balançou a cabeça em negativa e não quis aceitar o sacrifício do substituto. Kunti disse: "Ó brâmane, não tenha medo. Meu filho é dotado de poderes sobrenaturais derivados de mantras e vai matar o rakshasa com certeza, como eu mesma já vi várias vezes ele matar muitos outros rakshasas desses. Mas guarde em segredo, pois se for revelado, sua força pode ser reduzida a nada".

Kunti temia que a história pudesse se espalhar por toda parte, os homens de Duryodhana veriam a mão dos Pandavas, e achariam seu paradeiro. Bhima estava radiante de alegria e entusiasmo com o arranjo feito por Kunti.

Os outros irmãos voltaram para casa com doações. Dharmaputra (Yudhisthira) viu a face de Bhimasena radiante de alegria na qual era uma estranha faz muito tempo e deduziu que ele resolveu alguma aventura perigosa e perguntou a Kunti que lhe contou tudo.

Yudhisthira disse: "O que é isso? Será que não é precipitação e imprudência? Com confiança na força de Bhima, dormimos sem preocupação ou temor. Não é com a força de Bhima e com essa confiança que pretendemos recuperar o reino que foi usurpado por nossos inimigos enganadores? Não foi pela força de Bhima que escapamos do palácio de cera? E você quer arriscar a vida de Bhima que é nossa proteção presente e esperança futura? Temo que suas muitas provações embotaram seu juízo"!

Kuntidevi respondeu: "Queridos filhos, nós vivemos felizes durante muitos anos na casa deste brâmane. Dever, além de ser a maior virtude do ser humano, é retribuir o benefício que desfrutou por fazer o bem na sua vez. Conheço o heroísmo de Bhima e não tenho temores. Lembre quem nos carregou de Varanavata e quem matou o demônio Hidimba. É nosso dever servir esta família brâmane".

Os cidadãos vieram até a casa do brâmane com vários tipos de carnes, iguarias, potes de coalhada e bebidas alcoólicas tudo dentro duma carroça puxada por bois, Bhima subiu na carroça e foi para a caverna do rakshasa.

A carroça seguiu acompanhada por banda de música. Quando chegou no local de costume, os cidadãos voltaram a salvo, e deixaram Bhima sozinho na carroça. O local na frente do covil do rakshasa estava repleto de ossos, cabelo e chifres, e cheio de vermes e formigas. Bhima viu muitas mãos, pernas e cabeças mutiladas com que os pássaros de rapina faziam sua refeição. Bhima parou a carroça e começou a comer vorazmente toda a comida destinada ao rakshasa, e pensou consigo mesmo: "Tenho que comer toda a comida antes que seja esparramada na confusão da luta com o rakshasa. Além do mais, depois que eu matá-lo, estarei contaminado pelo contato com seu cadáver e não poderei comer a comida".

O rakshasa cujo humor já estava afetado com tanta demora ficou enfurecido quando viu o que Bhima fazia. Bhima também viu o rakshasa e o desafiou para uma luta. O rakshasa com seu corpo enorme, bigode, barba e cabelos vermelhos, e uma boca que ia de uma orelha a outra, correu para cima de Bhima que apenas sorriu tranqüilo, esquivou-se dos punhos cerrados e continuou a comer de costas para o rakshasa. O rakshasa desferiu vários socos potentes nas costas do adversário tão arrogante, mas Bhima nem se importou nem parou de comer. O rakshasa arrancou uma árvore e atirou em Bhima, que ainda nem se virou para ele e apenas desviou o projétil com sua mão esquerda e continuou a comer com a direita. Só depois que acabou, até o último pote de coalhada, e lavou sua boca, que ele se levantou com um ar de satisfação e enfrentou o rakshasa.

Um combate aterrador foi travado entre eles. Bhima brincou com o rakshasa, jogava no chão e levantava como bem entendia, como se fosse um mero boneco de pano. Finalmente, Bhima o jogou no chão, pôs seu joelho em suas costas e quebrou sua espinha. O rakshasa emitiu um terrível urro de dor e desespero, cuspiu sangue e morreu. Bhima arrastou a carcaça até os portões da cidade. Voltou para a casa do brâmane, tomou banho e contou à sua mãe a aventura do dia, para a grande alegria dela.

 

Capítulo 17

O Swayamvara de Draupadi

Quando os Pandavas viveram disfarçados de brâmanes na cidade de Ekachakra, a notícia do swayamvara de Draupadi, filha de Drupada, rei de Panchala, chegou até eles. Muitos brâmanes de Ekachakra planejavam ir para Panchala com a esperança de receberem as doações costumeiras e verem as festividades e pompa dum casamento real. Kunti, com seu instinto maternal, adivinhou o desejo dos filhos de irem para Panchala e conquistar Draupadi. Assim, disse a Yudhisthira: "Nós ficamos nesta cidade por muito tempo e já é hora de ir para outro lugar. Vimos essas montanhas e vales até nos cansarmos deles. As doações que nos dão diminuíram e não é bom atrasar sua diversão. Então vamos para o reino de Drupada famoso por ser justo e próspero". Kunti não tinha rival em matéria de bom senso e sagacidade, assim pôde prever habilmente os pensamentos de seus filhos e poupá-los do embaraço de se manifestarem.

Os brâmanes foram em grupos para assistirem o swayamvara e os Pandavas se misturaram a eles disfarçados de brâmanes. Depois de uma longa marcha, o grupo chegou na bela cidade de Drupada, e se hospedaram na casa dum oleiro como brâmanes obscuros sem importância.

Apesar de Drupada e Drona estarem aparentemente em paz, esse nunca pôde esquecer ou perdoar a humilhação que sofreu nas mãos deste. A idéia fixa de Drupada era dar sua filha em casamento para Arjuna.

Drona amava tanto Arjuna que mal podia olhar para o sogro de seu pupilo que era seu inimigo mortal. E se houvesse guerra, Drupada teria muito mais poder por ser sogro de Arjuna. Quando soube da destruição dos Pandavas em Varanavata, ficou muito triste porém mais tarde, com os rumores que haviam escapado, animou-se.

O salão do casamento estava belamente decorado e construído entre um conjunto de casas novas de alto padrão para acomodar os hóspedes e pretendentes do swayamvara. Havia uma programação de espetáculos e jogos esportivos para a diversão do público e festividades gloriosas por quatorze dias seguidos.

Um forte arco de aço foi posto no salão do casamento. O pretendente à mão da princesa teria que curvar o arco para pôr a corda e atirar uma flecha de aço através do orifício central dum disco girante num alvo situado bem alto.

Isso requeria força e habilidade quase super-humanas, e Drupada proclamou que o herói conquistador da sua filha teria que realizar essa proeza. Muitos príncipes valentes chegaram lá de todas as partes de Bharatavarsha (planeta Terra). Os filhos de Dhritarastra também estavam lá bem como Karna, Krishna, Shishupala, Jarasandha e Shalya.

Além dos pretendentes, havia um enorme ajuntamento de espectadores e visitantes. O barulho que tudo isso produzia parecia o bramido do oceano e sobre ele elevava-se o som auspicioso de música festiva com centenas de instrumentos.

Dristadyumna ia a cavalo na frente de sua irmã Draupadi sentada num elefante. Fresca com seu banho de núpcias auspicioso, e vestida em seda cintilante, Draupadi desmontou e entrou no salão do swayamvara o qual parecia preencher com a doçura de sua presença e beleza perfeita.

Com o colar de flores na mão, ela olhava com recato para os príncipes valentes, que por seu lado, olhavam para ela com admiração atônita, assim ela subiu na plataforma. Os brâmanes cantaram os mantras de costume e ofereceram oblações no fogo. Depois dos cânticos de invocação de paz e quando a música parou de tocar, Dristadyumna pegou Draupadi pela mão e a levou até o centro do salão.

Então, proclamou bem alto e claro: "Atenção todos os príncipes presentes nesta assembléia, aqui está o arco. Lá está o alvo e aqui estão as flechas. Aquele que atirar cinco flechas seguidas através do orifício da roda e acertar o alvo sem erro, se também for de boa família e presença, conquistará a minha irmã". Depois, narrou para sua irmã Draupadi o nome, descendência e descrição de vários pretendentes reunidos ali.

Muitos príncipes notáveis se levantaram um após o outro e tentaram em vão botar a corda no arco. Era muito pesado e rígido para eles, e voltavam para seus lugares confusos e envergonhados. Shishupala, Jarasandha, Shalya e Duryodhana estavam entre os aspirantes mal sucedidos. Quando Karna se adiantou, todo o público esperava que ele tivesse sucesso, mas ele falhou apenas por um fio de cabelo, a corda escapou e ricocheteou para trás, então o poderoso arco saltou de suas mãos como se fosse algo vivo.

Houve um grande clamor e gritos furiosos, alguns até diziam que era uma prova impossível feita apenas para humilhar os reis. De repente, todo barulho silenciou, pois um jovem dum grupo de brâmanes se levantou e foi em direção ao arco.

Era Arjuna que veio disfarçado de brâmane. Quando ele se levantou; rompeu-se um clamor selvagem da multidão. Os próprios brâmanes tinham opiniões divididas. Alguns estavam muito contentes por haver entre eles um jovem vigoroso o bastante para competir, enquanto outros, invejosos ou materialistas, diziam que era impertinência esse brahmachari entrar na competição quando heróis como Karna, Shalya e outros fracassaram.

Mas havia outros ainda que falavam de forma diferente pois notaram as proporções nobres e atléticas daquele rapaz. Eles diziam: "Nós achamos pela aparência dele que ele vai ganhar. Ele parece muito seguro de si e sabe com certeza o que quer. O brâmane pode ser mais fraco fisicamente, mas será que é só questão de força? E o poder das austeridades? Por que ele não pode tentar"? E o abençoaram.

Arjuna se aproximou do local onde estava o arco e perguntou a Dristadyumna: "Um brâmane pode tentar curvar o arco"?

Dristadyumna respondeu: "Salve melhor entre os brâmanes, minha irmã será a companheira de vida de qualquer um de boa família e presença que curvar o arco e acertar o alvo. Minha palavra está de pé e não haverá nenhuma volta atrás dela".

Então, Arjuna meditou em Narayana, o Deus Supremo, pegou o arco com suas mãos e colocou a corda com facilidade. Ele pôs uma flecha na corda e olhou em volta com um sorriso, enquanto a multidão se absorvia num silêncio encantado.

Depois, sem hesitar, ele atirou cinco flechas em seguida através do mecanismo girante bem no alvo que caiu no chão. A multidão ficou em tumulto e os instrumentos musicais ressoaram.

Arjuna conquista Draupadi

Os brâmanes que estavam na assembléia em grande número gritavam hinos de júbilo, e agitavam suas peles de veado com exaltação como se toda comunidade tivesse conquistado Draupadi. O alvoroço que se seguiu é indescritível.

Draupadi brilhava com sua jovem beleza. Sua face luzia de felicidade a escorrer de seus olhos que olhavam para Arjuna. Ela se aproximou dele e pôs o colar de flores em seu pescoço. Yudhisthira, Nakula e Sahadeva voltaram para a casa do oleiro com pressa a fim de darem a boa notícia imediatamente à sua mãe.

Bhima ficou sozinho na assembléia com temor de que os kshatriyas fizessem algum mal a Arjuna. Como foi previsto por Bhima, os príncipes ficaram irados. Eles disseram: "A prática de swayamvara, a escolha do noivo, não é adequada para brâmanes. Se essa donzela não se importa em casar com um príncipe, deve permanecer virgem e se queimar na pira. Como um brâmane pode se casar com ela"? Uma luta livre parecia iminente.

Bhima arrancou uma árvore pela raiz, tirou a folhagem e se posicionou armado com esse porrete formidável ao lado de Arjuna pronto para qualquer evento. Draupadi não dizia nada mas segurava o manto de pele de veado que vestia Arjuna.

Krishna, Balarama e outros procuraram acalmar os que criaram a confusão. Arjuna procedeu para a casa do oleiro acompanhado por Draupadi.

Enquanto Bhima e Arjuna levavam Draupadi para sua residência temporária, Dristadyumna os seguiu à distância, e sem ser visto por eles, observou tudo que aconteceu lá. Ele ficou pasmado e maravilhado com o que viu, e quando voltou, disse em segredo ao rei Drupada: "Pai, acho que eles são os Pandavas. Draupadi os acompanhou e segurava no manto de pele de veado daquele rapaz sem nenhuma vergonha. Eu também os segui, e vi todos os cinco e a venerável e augusta dama que, não tenho dúvida, era a própria Kunti".

Kunti e os Pandavas foram ao palácio a convite de Drupada. Dharmaputra confessou ao rei que eram os Pandavas. Também informou ao rei de sua decisão de se casarem com Draupadi todos juntos.

Drupada ficou muito feliz em saber que eram os Pandavas, o que acalmou toda ansiedade em relação ao inimigo Drona. Mas ficou pasmo e descontente ao ouvir que todos se casariam com Draupadi.

Drupada se opôs e disse: "Que perversão! Como essa idéia veio em sua cabeça, essa idéia imoral que vai contra os bons costumes da tradição".

Yudhisthira respondeu: "Ó rei, por favor nos perdoe. Numa época de grande perigo nós juramos que compartilharíamos tudo entre nós igualmente e não podemos quebrar esse juramento. Nossa mãe que nos ordenou assim". Finalmente, Drupada concordou e o casamento foi celebrado.

 

Capítulo 18

Indraprastha

Quando os incidentes que aconteceram no swayamvara em Panchala chegaram em Hastinapura, Vidura ficou contente. Ele foi até Dhritarastra imediatamente e disse: "Salve rei, nossa família ficou mais forte pois a filha de Drupada se tornou nossa nora. Nossa sorte está boa".

Dhritarastra pensou, devido à afeição cega por seu filho, que Duryodhana, também um dos pretendentes do swayamvara, conquistou Draupadi. Com essa impressão errada, ele respondeu: "Realmente, como você disse, estamos num bom período. Vá e traga Draupadi imediatamente. Vamos dar a Panchali uma calorosa recepção".

Vidura apressou-se para corrigir o erro. Ele disse: "Os Pandavas abençoados estão vivos e foi Arjuna quem conquistou a filha de Drupada. Os cinco Pandavas se casaram com ela juntos numa cerimônia conforme os Shastras (Escrituras Sagradas). Juntos com sua mãe Kuntidevi, estão felizes e bem sob os cuidados de Drupada".

Com essas palavras de Vidura, Dhritarastra ficou frustrado mas disfarçou seu desapontamento. Ele disse a Vidura com alegria aparente: "Ó Vidura, fico feliz com suas palavras. Os queridos Pandavas estão mesmo vivos? Nós lamentamos tanto a morte deles. Essa notícia que você me deu agora é como um bálsamo para o meu coração. Então a filha de Drupada se tornou nossa nora. Bom, bom, muito bom".

A inveja e o ódio de Duryodhana duplicaram quando soube que os Pandavas conseguiram escapar do palácio de cera e depois de um ano incógnitos, voltaram ainda mais fortes por causa da aliança com o poderoso rei de Panchala. Duryodhana e seu irmão Dushasana foram até seu tio Shakuni e se lamentaram: "Tio, estamos perdidos. Fomos passados para trás por confiarmos em Purochana. Nossos inimigos, os Pandavas, são mais espertos que nós, e também parece que a boa sorte os favorece. Dristadyumna e Shikhandi se tornaram seus aliados. O que vamos fazer"?

Karna e Duryodhana foram até o cego Dhritarastra. Duryodhana disse: "Você disse a Vidura que dias melhores chegaram para nós. Será que é um bom período para nós mesmo quando nossos inimigos naturais aumentaram tanto seu poder que agora vão nos destruir com certeza? Não conseguimos sucesso em nossa estratégia contra eles e o fato deles saberem é um perigo ainda maior. A situação chegou nesse ponto, ou nós os destruímos aqui e agora ou nós que vamos perecer. Faça o favor de nos instruir sobre esse assunto".

Dhritarastra respondeu: "Querido filho, o que disse é verdade. Entretanto, não podemos deixar que Vidura saiba. Tudo isso aconteceu porque eu falei com ele sobre o assunto. Deixem-me ouvir as sugestões que vocês têm sobre o que devemos fazer".

Duryodhana disse: "Estou tão perturbado que não me ocorre nenhum plano. Talvez, possamos aproveitar o fato dos Pandavas não terem nascido de uma única mãe e criar inimizade entre os filhos de Madri e os de Kunti. Também podemos tentar subornar Drupada para entrar no nosso lado. O fato de ter dado sua filha em casamento aos Pandavas não é um impedimento para que se torne nosso aliado. Não existe nada que não possa ser conquistado com o poder da riqueza".

Karna riu e disse: "Isso é conversa fútil".

Duryodhana continuou: "Devemos nos assegurar de que os Pandavas não venham aqui e demandem o reino que agora está em nossa posse. Podemos contratar alguns brâmanes para espalharem rumores convenientes na cidade de Drupada e bombardear os Pandavas com a informação de que sofrerão um perigo muito grande se vierem a Hastinapura. Assim eles ficarão com medo de vir para cá e estaremos a salvo, deles".

Karna respondeu: "Isso também é conversa fútil. Você não vai amedrontá-los assim".

Duryodhana continuou: "Não podemos criar discórdia entre eles com o uso de Draupadi? O casamento polígamo dela é muito conveniente para nós. Vamos criar dúvidas e ciúmes em suas mentes pelo trabalho de peritos na ciência do erotismo. Vamos ter sucesso com certeza. Podemos conseguir uma bela mulher para seduzir alguns dos filhos de Kunti e fazer Draupadi se voltar contra eles. Se Draupadi suspeitar de qualquer um deles, podemos convidá-lo a Hastinapura e usá-lo para que nosso plano prospere".

Karna também riu disso com escárnio. Ele disse: "Nenhuma das suas propostas é nem um pouco boa. Você não vai conquistar os Pandavas com estratégia. Quando eles estavam aqui e eram como pássaros imaturos sem asas desenvolvidas, percebemos que não pudemos enganá-los, e você acha que vamos conseguir enganá-los agora, quando adquiriram experiência e além do mais estão sob a proteção de Drupada. Eles adivinharam seus planos. Estratégia não vai funcionar daqui em diante. Você não conseguirá disseminar discórdia entre eles. Você não pode subornar o sábio e honorável Drupada. Ele não deixará os Pandavas por nada neste mundo. Draupadi também não pode ser voltada contra eles. Portanto, só há um jeito para nós, que é atacá-los antes que fiquem mais fortes e outros amigos se unam a eles. Temos que fazer um ataque surpresa contra os Pandavas e Drupada antes que Krishna se junte a eles com seu exército Yadava. Nós temos que seguir o caminho heróico apesar da nossa dificuldade, como é digno para kshatriyas. Ardis serão inúteis". Assim falou Karna. Dhritarastra não se convenceu. O rei então foi até Bhisma e Drona e pediu seu conselho.

Bhisma ficou muito feliz em saber que os Pandavas estavam vivos e bem como convidados do rei Drupada em Panchala, com cuja filha se casaram. Ao ser consultado sobre os passos a serem dados, Bhisma, sábio com o conhecimento maduro sobre certo e errado, respondeu:

"A conduta adequada é convidá-los de volta com boas vindas e dar metade do reino a eles. Os cidadãos do estado também desejam esse acordo. Essa é a única forma de manter a dignidade de nossa família. Existem muitos comentários depreciativos em relação a você e o incidente da casa de cera. Todas acusações, até todas suspeitas, vão se acalmar se você convidar os Pandavas e ceder metade do reino para eles. Este é o meu conselho".

Drona também deu o mesmo conselho e sugeriu o envio dum mensageiro para propor um acordo amigável e estabelecer a paz.

Karna ficou irado com essa sugestão. Ele era muito fiel a Duryodhana e não pôde suportar de jeito nenhum a idéia de dar uma parte do reino aos Pandavas. Ele disse a Dhritarastra:

"Fico surpreso ao ver Drona, que recebeu riqueza e honra de suas mãos, fazer uma sugestão dessas. Um rei deve ter espírito crítico em relação aos conselhos de seus ministros antes de aceitar ou rejeitar".

Com essas palavras de Karna, Drona com os olhos cheios de fúria disse: "Seu maldoso, você aconselhou o rei a ir pelo caminho errado. Se Dhritarastra não fizer o que Bhisma e eu aconselhamos, os Kauravas encontrarão com certeza sua destruição no futuro próximo".

Então Dhritarastra procurou o conselho de Vidura que respondeu:

"O conselho dado por Bhisma, patriarca de nossa dinastia, e Drona, o mestre, é sábio e justo e não deve ser desprezado. Os Pandavas também são seus filhos como Duryodhana e seus irmãos. Você precisa realizar que esses conselhos para prejudicar os Pandavas são daqueles destinados à destruição da dinastia. Drupada e seus filhos bem como Krishna e os Yadavas são aliados fiéis dos Pandavas. É impossível derrotá-los em batalha. O conselho de Karna é tolo e errado. A notícia se propagou amplamente de que tentamos matar os Pandavas na casa de cera, e nossa primeira obrigação é nos inocentarmos dessa culpa. Os cidadãos e o país inteiro estão felizes em saber que os Pandavas estão vivos e desejam vê-los novamente. Não dê ouvidos às palavras de Duryodhana. Karna e Shakuni são só dois jovens, ignorantes sobre ciência política e incompetentes para aconselhar. Siga o conselho de Bhisma".

No fim, Dhritarastra determinou que a paz fosse estabelecida por ceder metade do reino aos filhos de Pandu. Ele mandou Vidura ao reino de Panchala para trazer os Pandavas e Draupadi.

Vidura foi para a cidade do rei Drupada num veículo veloz e levou consigo vários tipos de jóias e outros presentes valiosos.

Vidura prestou os devidos respeitos ao rei Drupada e pediu-lhe em nome de Dhritarastra para mandar os Pandavas com Panchali a Hastinapura.

Drupada não confiava em Dhritarastra, mas respondeu simplesmente: "Os Pandavas podem fazer o que quiserem".

Vidura foi até Kuntidevi e se prostrou perante ela. Ela disse: "Filho de Vichitravirya, você salvou meus filhos. Portanto, eles são seus filhos. Eu confio em você. Farei como nos aconselhou". Ela também temia as intenções de Dhritarastra.

Vidura então assegurou: "Seus filhos nunca encontrarão a destruição. Eles herdarão o reino e adquirirão grande renome. Venha, vamos". Por último, Drupada também deu seu consentimento e Vidura voltou a Hastinapura com os Pandavas, Kunti e Draupadi.

Nas boas vindas jubilosas aos príncipes adorados que voltavam para casa após longos anos de exílio e provações, as ruas de Hastinapura foram borrifadas com água e decoradas com flores. Como foi decidido, cederam metade do reino aos Pandavas e Yudhisthira foi devidamente coroado rei.

Dhritarastra abençoou o novo rei coroado Yudhisthira e se despediu com essas palavras: "Meu irmão Pandu tornou este reino próspero. Que você seja um herdeiro digno do renome dele! O rei Pandu gostava de seguir os meus conselhos. E me amava da mesma forma. Meus filhos são malvados e orgulhosos. Eu estabeleci este acordo para que não haja disputa ou ódio entre vocês. Vá para Khandavaprastha e faça sua capital lá. Nossos ancestrais Pururava, Nahusha e Yayati governaram o reino de lá. Era nossa capital antiga. Restabeleça-a e seja famoso". Dhritarastra falou desse jeito afetuoso a Yudhisthira.

Os Pandavas renovaram a cidade em ruínas, construíram palácios e fortes, e mudaram seu nome para Indraprastha. Ela cresceu em riqueza e beleza e se tornou a admiração do mundo.

Os Pandavas governaram felizes lá por trinta e seis anos com sua mãe e Draupadi, e nunca se desviaram do caminho de dharma.

 

Capítulo 19

Os Pássaros Saranga

Os Puranas narram histórias onde animais e pássaros falam como os humanos, e algumas vezes dão conselhos sadios e até mesmo ensinam conhecimento espiritual. Mas as qualidades naturais dessas criaturas são habilmente feitas para espreitar através deste véu humano.

Uma das belas características da literatura dos Puranas é a alegre fusão entre natureza e realidade. Numa passagem engraçada do Ramayana, Hanuman, conhecido pela alta sabedoria e conhecimento, brincou com a alegria de macaquices quando imaginou que a bela dama que viu dentro do pátio de Ravana era Sita.

É comum entreter as crianças com histórias onde pássaros e animais falam. Mas as histórias dos Puranas se destinam a pessoas adultas, e nelas geralmente se fornece alguma base com explicações de animais que têm o dom da fala humana.

Geralmente, aproveitam-se casos em que essas criaturas foram seres humanos em suas vidas passadas. Como no caso do veado que foi um rishi (sábio) na vida anterior, e a raposa que foi um rei. A degradação subseqüente acontece devido a maldições.

Nesses casos, o veado atua como um veado mas fala como um rishi, e a raposa com sua natureza esperta se expressa com as características dum rei sábio e experiente. Pois as histórias sagradas são veículos interessantes das grandes verdades que transmitem.

Khandavaprastha, era uma floresta cheia de acidentes geográficos, mata cerrada com espinhos e aguilhões e repleta de ruínas e vestígios duma grande cidade morta, na verdade, era um lugar assustador quando passou a ser dos Pandavas.

Animais e pássaros selvagens moravam lá, e estava infestada com ladrões e bandidos. Krishna e Arjuna decidiram pôr fogo na floresta e construir uma nova cidade no lugar.

Um pássaro saranga vivia lá com suas quatro crias. O pássaro macho passeava pela floresta agradavelmente com outra fêmea e desprezava sua esposa e filhos. A mãe pássaro cuidava de seus filhinhos.

Quando a floresta incendiou com a ordem de Krishna e Arjuna e o fogo se propagou em todas direções, e fez seu trabalho de destruição, a preocupada mãe pássaro começou a se lamentar:

"O fogo chega cada vez mais perto e queima tudo, e vai chegar aqui logo e nos destruir. Todas criaturas da floresta estão desesperadas e o ar está cheio com a queda agonizante das árvores que caem. Pobres bebês sem asas! Vocês serão presas do fogo. O que posso fazer? Seu pai nos abandonou, e não tenho força suficiente para carregar todos vocês comigo".

Os filhos disseram à mãe que se lamentava dessa forma:

"Mãe, não se atormente por nossa causa. Deixe-nos com nosso destino. Se morrermos aqui, obteremos um bom nascimento em nossa próxima vida. Se deixar sua vida por nossa causa, nossa família será extinta. Voe para um lugar seguro, encontre outro macho e seja feliz. Você terá outros filhos logo e será capaz de nos esquecer. Mãe, reflita e faça o que é melhor para a nossa raça".

Apesar desse pedido determinado, a mãe não tinha como abandonar seus filhos. Ela disse: "Eu ficarei aqui e morrerei nas chamas com vocês".

Nos bastidores da história dos pássaros, um rishi chamado Mandapala teve uma longa vida fixa em seu voto de brahmacharya (celibato) perfeito, mas quando tentou entrar nas regiões superiores, o porteiro disse: "Aqui não tem lugar para um homem sem filhos", e o mandou de volta. Então, ele nasceu como o pássaro saranga e viveu com sua fêmea companheira chamada Jarita. Ela pôs quatro ovos. Então, ele abandonou Jarita e vagueou pela floresta com outra companheira, Lapita.

Os quatro ovos de Jarita chocaram em tempo e são os quatro filhotes mencionados. Como eram filhos de um rishi, puderam consolar e encorajar a mãe daquela forma.

A mãe pássaro disse a seus filhotes: "Tem um buraco de rato ao lado desta árvore. Vou colocá-los lá. Vocês podem entrar no buraco e escapar do fogo. Vou tapar a boca do buraco com terra e o fogo não vai atingi-los. Quando o fogo apagar, abrirei para vocês saírem".

Os filhotes não concordaram, e disseram: "O rato no buraco vai nos devorar. É melhor morrer nas chamas do que ser horrivelmente devorado pelos ratos".

A mãe tentou tranqüilizar os temores dos filhos e disse: "Vi uma águia devorar o rato. Portanto, não tem mais perigo para vocês no buraco".

Mas os filhos responderam: "Com certeza, outros ratos estão no buraco. Nosso perigo não acabou quando a águia matou só um rato. Por favor, salve sua vida e voe antes que o fogo nos alcance e esta árvore se incendeie. Não podemos entrar no buraco dos ratos. Por que deve sacrificar sua vida por nós? Como podemos merecer isso se não fizemos nada por você? Nós só lhe trouxemos tristeza desde que viemos a este mundo. Encontre outro macho e viva feliz".

O fogo que destruiu toda floresta, milagrosamente deixou os bebês pássaros intactos. Quando o fogo diminuiu, a mãe pássaro voltou e viu com espanto que seus filhotes estavam a salvo e gorjeavam alegremente. Ela os abraçou e ficou intensamente feliz.

Quando o fogo estava enfurecido, o pássaro macho, ansioso com a segurança de seus filhotes, expressou seus temores para sua nova amada Lapita. Ela o repreendeu com petulância. Depois de ouvir seus lamentos repetidos, ela disse: "É assim? Eu sei a sua intenção, sei que você quer voltar para Jarita pois já enjoou de mim. Por que dar a desculpa falsa do fogo e dos filhotes? Você mesmo me disse que os filhos de Jarita nunca morrerão no fogo, pois o deus do fogo lhe deu essa bênção. Você pode dizer a verdade e ir embora, se quiser, para sua amada Jarita. Eu serei apenas mais uma das muitas fêmeas de boa fé que foram traídas por machos indignos, e abandonada ao léu nesta floresta. Você pode ir".

Mandapala pássaro disse: "Sua presunção é uma inverdade. Eu nasci como pássaro para ter filhos e estou naturalmente ansioso por causa deles. Eu vou só para vê-los e voltarei para você". Depois de consolar sua nova companheira dessa forma, ele foi até a árvore onde Jarita ficava.

Jarita não deu atenção a seu marido e continuou absorta na alegria de encontrar seus filhotes vivos.

Então, ela se voltou a seu esposo e falou em tom de desprezo por que ele veio. Ele respondeu com afeição:

"Meus filhos estão felizes? Quem é o mais velho"?

Então Jarita respondeu com frieza: "Será que você se importa mesmo? Volte para ela por quem você me abandonou. Seja feliz com ela".

Mandapala filosofou: "Uma mulher não liga mais para seu esposo depois que se tornou mãe. Assim que funciona o mundo. Mesmo o impecável Vasistha foi ignorado por Arundhati".

 

Capítulo 20

Jarasandha

Os Pandavas governaram Indraprastha com toda glória. Aqueles que rodeavam Yudhisthira o induziam a realizar o sacrifício Rajasuya e assumir o título de imperador.

Yudhisthira procurou o conselho de Sri Krishna sobre isso. Quando Krishna soube que Dharmaputra queria vê-Lo, partiu em uma quadriga puxada por cavalos velozes e chegou em Indraprastha.

Yudhisthira disse: "Meu povo anseia que eu execute o sacrifício Rajasuya, mas como Você sabe, somente aquele que assegurar o respeito e fidelidade de todos reis, pode executar o sacrifício e conquistar o título de imperador. Por favor me aconselhe, Você não está entre aqueles cuja afeição os torna cegos e parciais. Nem Você é um dos que dão conselhos para agradar e cujo conselho é agradável em vez de verdadeiro ou benéfico".

Krishna respondeu: "Perfeitamente e é por isso que você não pode ser imperador enquanto o poderoso Jarasandha de Magadha estiver vivo e inconquistável. Ele conquistou muitos reis e os mantêm em escravidão. Todos kshatriyas, inclusive o temível Shishupala em pessoa, têm medo de sua bravura e são submissos a ele. Você nunca ouviu falar no malévolo Kamsa, filho de Ugrasena? Depois que ele se tornou genro e aliado de Jarasandha meu pessoal e Eu atacamos Jarasandha. Após três anos de luta contínua tivemos que reconhecer a derrota, então deixamos Mathura e mudamos para Dwaraka no oeste, e construímos uma nova cidade onde vivemos em paz e fartura. Mesmo se Duryodhana, Karna e outros não se oporem a você assumir o título de imperador, Jarasandha vai se opor com certeza. E o único jeito de superar sua oposição é derrotá-lo e matá-lo. Depois você poderá realizar o Rajasuya mas também resgatar e obter a aderência dos reis que languem em suas prisões".

Com essas palavras de Krishna, Yudhisthira disse: "Concordo. Sou apenas um dos muitos reis que governam seus reinos com honestidade e justiça, e vivem uma vida alegre sem ambições. É mera vaidade e presunção desejar se tornar imperador. Por que um rei não consegue ficar satisfeito com seu próprio reino? Portanto, eu rejeito este desejo de ser um imperador. E na verdade, esse título não me tenta nem um pouco. Meus irmãos são quem desejam isso. Quando Você mesmo está com medo de Jarasandha, que esperança podemos ter"?

Bhima não gostou nem um pouco desse espírito de contentamento covarde.

Bhima disse: "A ambição é a virtude mais nobre dum rei. Qual a vantagem de ser forte se não conhece a sua própria força? Não posso me conformar a viver uma vida de ócio inútil e contentamento. Aquele que deixa a indolência e emprega o meio político adequadamente, pode conquistar até quem é mais forte do que si mesmo. A força com o reforço da estratégia pode fazer muito com certeza. O que então não pode ser conquistado com a combinação da minha força física, a sabedoria de Krishna e a destreza de Arjuna? Podemos vencer o poder de Jarasandha se nós três nos unirmos e partirmos para isso sem dúvidas ou temores".

Krishna interrompeu: "Jarasandha deve ser morto com certeza e merece totalmente. Ele colocou injustamente oitenta e seis príncipes na prisão. Ele planeja imolar cem reis e espera se apoderar de mais quatorze. Se Bhima e Arjuna concordarem, Eu os acompanharei e juntos mataremos o rei com estratégia e libertaremos os príncipes prisioneiros. Gostei dessa sugestão".

Yudhisthira não ficou contente com esse conselho. Ele disse: "Isso pode significar na realidade o sacrifício de Bhima e Arjuna que são para mim como meus dois olhos, meramente para gratificar o desejo de ser imperador. Eu não gosto de mandá-los para essa missão perigosa. Eu prefiro muito mais abandonar toda essa idéia".

Arjuna disse: "De que vale a nossa existência sem feitos heróicos, nós que nascemos numa linhagem ilustre? Um kshatriya apesar de dotado com todas as outras boas qualidades não ficará famoso se não tiver atuação. Entusiasmo é a mãe do sucesso. Podemos ganhar fortuna se realizarmos nossos deveres com energia. Mesmo um homem forte pode falhar se, pelo cansaço, não empregar os meios que possui. O fracasso acontece, na grande maioria dos casos, devido à ignorância de sua própria força. Nós sabemos que somos fortes, e não temos medo de usar nossa força até o máximo. Por que Yudhisthira supõe que somos incapazes para essa tarefa? Quando estivermos velhos, será hora de assumir a veste açafrão, ir para a floresta e passar o resto de nossos dias em penitência e austeridade. Agora, devemos ter uma vida estrênua e realizar atos heróicos dignos da tradição da nossa dinastia".

Krishna ficou contente ao ouvir essas palavras e disse: "O que mais pode Arjuna, nascido de Kunti na dinastia Bharata, aconselhar? A morte chega para todos, tanto o herói quanto o indolente. Mas o dever principal de um kshatriya é ser fiel à sua dinastia e fé, e conquistar a glória por derrotar seus inimigos em batalha".

Finalmente, Yudhisthira concordou com a opinião unânime que era dever deles matar Jarasandha.

 

Capítulo 21

A Morte de Jarasandha

Brihadratha, comandante de três regimentos, governou o reino de Magadha e se tornou célebre como um grande herói. Ele se casou com as duas filhas gêmeas do rei de Kashi e prometeu a elas que não seria parcial com nenhuma das duas.

Brihadratha não foi abençoado com filhos durante muito tempo. Quando chegou na velhice, passou o governo do reino para seus ministros, foi para a floresta com suas duas esposas e se ocupou em austeridades.

Ele foi até o sábio Kaushika, da família Gautama, com uma grande tristeza no coração pela falta de filhos. O sábio ficou comovido com sua tristeza e perguntou o que ele desejava, ele respondeu:

"Não tive filhos por isso abandonei meu reino e vim para a floresta. Dê-me filhos".

O sábio estava comovido e quando pensava em como ajudar o rei, caiu uma manga em seu colo. Ele a pegou e a deu ao rei com a seguinte bênção: "Pegue-a. Seu desejo será satisfeito".

O rei cortou a fruta em duas metades e deu uma a cada esposa. Fez assim para manter sua palavra de ser imparcial com elas. Algum tempo depois que comeram a manga, as duas ficaram grávidas.

O parto aconteceu no devido tempo. Mas em vez de trazer a alegria esperada, os colocou num pesar muito maior do que antes. Pois cada uma delas deu à luz metade de uma criança. Cada metade era um bebê monstruoso que parecia um monte de carne.

Elas eram de fato duas partes complementares e iguais de um bebê, tinham um olho, uma perna, metade da face, uma orelha e assim por diante. Com muita amargura, pediram a seus ajudantes que amarrassem os pedaços horríveis num pano e jogassem fora.

Os ajudantes seguiram a ordem e jogaram o pacote de pano num monte de lixo na rua. Uma rakshasi canibal passou pelo local. Ela ficou atraída quando viu os dois pedaços de carne, e quando os pegou e os juntou, as duas metades se juntaram acidentalmente da forma correta. E imediatamente as duas partes se aderiram e se transformaram numa criança viva e perfeita em cada detalhe.

A rakshasi surpresa não quis matar a criança. Ela assumiu a forma de uma bela mulher e foi até o rei com a criança a quem apresentou, e disse: "Este é o seu filho".

O rei ficou imensamente feliz e o deu a suas duas esposas. Essa criança ficou conhecida como Jarasandha. Ele cresceu e se tornou um homem de imensa força física. Mas seu corpo tinha um ponto fraco, como foi juntado de duas partes separadas, também poderia ser separado novamente em dois, se a força suficiente fosse aplicada.

A verdade importante transmitida por esta história interessante é que duas partes separadas mesmo se colocadas juntas ainda permanecerão fracas, com a tendência de se separarem. Quando decidiram a conquista e morte de Jarasandha, Sri Krishna disse: "Hamsa, Hidimbaka, Kamsa e outros não são mais aliados de Jarasandha. Agora que ele está isolado, é o momento certo de matá-lo. É inútil lutar com exércitos. Ele deve ser provocado a um combate individual e morto".

De acordo com o código de honra daquela época, um kshatriya tinha que aceitar um desafio para um duelo com ou sem armas.

O último deles era uma luta até a morte com os punhos ou como na luta livre. Assim era a tradição kshatriya a qual Krishna e os Pandavas recorreram para matar Jarasandha.

Eles se disfarçaram como homens que aceitaram votos religiosos, vestidos com mantos de cascas de árvores e carregavam a palha darbha sagrada nas mãos. Assim entraram no reino de Magadha e chegaram na capital de Jarasandha.

Jarasandha estava perturbado por causa de presságios de mau agouro. Para se livrar do perigo ameaçador, ele realizou rituais próprios celebrados por sacerdotes, e fez jejuns e penitências.

Krishna, Bhima e Arjuna entraram no palácio desarmados. Jarasandha os recebeu com respeito pois sua aparência nobre indicava uma origem ilustre. Bhima e Arjuna não disseram nada em resposta a suas palavras de boas vindas pois queriam evitar dizerem mentiras.

Krishna falou em nome deles: "Estes dois observam um voto de silêncio no momento como parte de suas austeridades. Eles só podem falar depois da meia-noite". Jarasandha os entreteve no salão de sacrifício e voltou para o palácio.

Jarasandha costumava se encontrar com convidados nobres que aceitavam votos e conversava com eles conforme sua disponibilidade e conveniência, e assim os convidou para a meia-noite.

A conduta deles deixou Jarasandha desconfiado, e ele também observou que eles tinham nas mãos as cicatrizes feitas pela corda do arco e além do mais tinham a atitude altiva dos kshatriyas.

Quando Jarasandha exigiu a verdade deles, eles responderam com franqueza: "Somos seus inimigos e queremos um combate imediato. Você pode escolher qualquer um de nós para lutar com você".

Depois de tomar conhecimento de quem eram, Jarasandha disse: "Krishna, Você é um pastor de vacas e Arjuna é só um menino. Bhima é famoso por sua força física. Por isso, eu quero lutar com ele". Como Bhima estava desarmado, Jarasandha nobremente concordou em lutar com ele sem armas também.

Bhima e Jarasandha eram tão iguais em força física que lutaram um com outro por treze dias sem parar, sem descanso ou refresco, enquanto Krishna e Arjuna assistiam com uma alternância de esperança e ansiedade.

No décimo quarto dia, Jarasandha mostrou sinais de exaustão, e Krishna avisou Bhima de que havia chegado a hora de pôr um fim nele.

De uma vez, Bhima o levantou e o girou cem vezes no alto, jogou-o no chão, pegou suas pernas e rasgou seu corpo no meio em duas metades.

Bhima rugiu de exaltação. Os dois pedaços se juntaram de imediato e Jarasandha, feito inteiro novamente, levantou-se com o vigor da vida e atacou Bhima outra vez.

Bhima luta com Jarasandha

Bhima ficou horrorizado com essa visão, e ficou perdido sem saber o que fazer, quando viu Krishna apanhar uma palha, rasgá-la em duas partes, e jogar os pedaços em direções opostas.

Bhima entendeu a dica, e outra vez, rasgou Jarasandha no meio e atirou os dois pedaços em direções opostas, assim não puderam chegar perto e se juntarem. Isso fez com que Jarasandha encontrasse seu fim.

Os príncipes cativos foram libertados e o filho de Jarasandha foi coroado rei de Magadha. E Krishna, Bhima e Arjuna voltaram para Indraprastha.

Com a partida de Jarasandha, agora o caminho estava livre para o Rajasuya que os Pandavas realizaram com grande pompa e esplendor. Yudhisthira assumiu o título de imperador.

As celebrações foram manchadas apenas por um incidente. Quando chegou o encerramento das celebrações festivas, na hora de prestar a primeira homenagem, Shishupala se comportou com desrespeito na assembléia de príncipes e provocou uma luta com Krishna na qual ele foi morto. Essa é a história do próximo capítulo.

 

Capítulo 22

A Primeira Homenagem

Yudhisthira homenageia Krishna

A prática de sair em passeata duma assembléia em protesto contra algo, não é nada novo. Aprendemos no Mahabharata que esse tipo de passeata acontecia até mesmo na Antigüidade.

A Índia daquela época consistia de alguns estados independentes. Apesar de haver só um dharma e uma cultura em toda Terra, a autonomia de cada estado era escrupulosamente respeitada.

Ocasionalmente, algum monarca poderoso e ambicioso procurava o assento de seu colega rei para o seu domínio, que às vezes era dado sem questionar.

Depois de receber esse trono, ele realizava um grande sacrifício Rajasuya, o qual era assistido por todos os reis concordantes como sinal de reconhecimento da sua supremacia.

De acordo com o costume, os Pandavas convidaram os outros reis depois que mataram Jarasandha e executaram o Rajasuya.

Chegou a hora de prestar as homenagens da ocasião. Era costume prestar a primeira homenagem ao convidado que era considerado com o maior mérito para ter a primazia sobre todos os outros.

Surgiu a dúvida de quem deveria ser o primeiro homenageado. O patriarca tinha a opinião enfática de que Sri Krishna, o rei de Dwaraka, tinha que ser homenageado primeiro, que também era a opinião pessoal de Yudhisthira.

Yudhisthira seguiu o conselho e sob suas ordens, Sahadeva ofereceu a Sri Krishna as homenagens próprias da tradição. Shishupala, o rei de Chedi, que odiava Krishna como só a maldade pode odiar a bondade, não pôde tolerar isso.

Ele riu alto com desprezo e disse: "Que ridículo e injusto, mas não estou surpreso. O homem que pediu o conselho nasceu na ilegitimidade. (Uma alusão ofensiva aos filhos de Kunti). O homem que deu o conselho nasceu de alguém que sempre desce do alto para baixo. (Referência ao fato de Bhisma ser filho de Ganga, o rio que flui naturalmente das regiões superiores para as inferiores). E aquele que prestou as homenagens também nasceu ilegitimamente. E o que posso dizer do homem homenageado! Ele é um tolo de nascença e um pastor de vacas por linhagem. Estúpidos entretanto são os membros desta assembléia se não tiverem nada a dizer sobre isto! Isto não é lugar para um homem digno".

Alguns príncipes na assembléia aplaudiram Shishupala. Encorajado pelos aplausos, ele se dirigiu a Yudhisthira:

"Com tantos príncipes reunidos aqui, é uma vergonha que você preste a primeira homenagem a Krishna. Não oferecer respeito onde é devidamente correto e oferecer onde não é adequado são ofensas igualmente graves. É uma pena que com todas suas pretensões imperiais, seja ignorante sobre isso".

À medida que falava, ficava cada vez mais bravo, e continuou: "Você ignorou os vários reis e heróis que estão aqui pelo seu convite pessoal e com desprezo malicioso por todos eles, prestou homenagens reais a um rústico pastor de vacas, um mero ninguém. Vasudeva, o pai de Krishna, era um empregado trivial de Ugrasena. Nem sangue real Ele tem. Será que aqui é o lugar apropriado para exibir a sua parcialidade vulgar por Krishna, o filho de Devaki? Será que é digno dos filhos de Pandu? Seus filhos de Pandu, vocês são inexperientes, jovens inconseqüentes, totalmente ignorantes sobre a forma de conduzir uma assembléia real. Esse velho caduco Bhisma lhe deu um conselho estúpido, e fez você de tolo. Krishna, por quê? Krishna não é soberano de nada! Ó Yudhisthira, como você ousou fazer essa primeira homenagem infeliz nesta assembléia ilustre de reis? Ele nem tem o mérito da idade, e se você admira cabelos grisalhos, o pai Dele não está vivo? Você não pode tê-Lo homenageado como preceptor com certeza, pois seu preceptor é Drona que está aqui nesta assembléia. Será que é por ser um perito na execução de sacrifícios que O homenageou? Não pode ser, pois Vyasa, o grande mestre, está presente. Seria melhor se prestasse a primeira homenagem a Bhisma, apesar de velho caduco, tem o mérito de ser o homem mais velho da sua casa. O professor da sua família, Kripacharya, também está presente nesta assembléia. Como você pôde então prestar a primeira homenagem a esse pastor de vacas? Asvathama, o herói perito em todos shastras, está aqui. Como você escolheu Krishna e se esqueceu dele? Entre os príncipes reunidos aqui, está Duryodhana. Aqui também está Karna, o discípulo de Parashurama. Você o deixou de lado devido à sua parcialidade infantil, você escolheu Krishna para a primeira homenagem, Krishna que não é nem nobre, nem herói, nem educado, nem santo, nem mesmo branco, não passa dum pastor de vacas inferior! Assim você desonrou todos nós, que você convidou aqui. Caros reis, não é por medo que concordamos com Yudhisthira assumir o título de imperador. Nós pessoalmente não nos importamos muito se ele é amigo ou inimigo. Mas, depois de ouvir muita tagarelice sobre sua honestidade, queríamos ver ele empunhar a bandeira de dharma. Agora ele nos desonrou de propósito, depois de todo esse discurso sobre virtude e dharma. Que virtude ou dharma pode haver em dar a primazia da honra a esse vilão Krishna que matou Jarasandha de forma injusta? Daqui em diante, vocês têm que chamar Yudhisthira de injusto. Seu Krishna, que impudência de Sua parte aceitar essa homenagem sem merecer, que esses Pandavas mal-guiados prestaram a Você! Você Se esqueceu de quem é? Isso é como o escárnio de mostrar belas coisas a um cego ou oferecer uma donzela em casamento a um eunuco. Da mesma forma, essas honras reais para Você são um insulto. Agora fica evidente que o pretenso imperador Yudhisthira, o senil Bhisma, e seu colega Krishna são todos feitos da mesma coisa".

Depois que Shishupala falou essas duras palavras, levantou-se de seu assento, foi para a saída e chamou outros reis para se juntarem a ele em ressentimento pelo insulto. Muitos deles o seguiram.

Yudhisthira correu atrás deles e tentou apaziguá-los com palavras suaves de paz mas em vão, pois todos estavam muito bravos para serem apaziguados.

A vaidade agressiva de Shishupala cresceu até o estopim de uma briga, que resultou numa terrível luta entre Krishna e Shishupala, onde o último foi morto por Seu disco.

O Rajasuya foi devidamente celebrado e Yudhisthira reconhecido como imperador.

 

Capítulo 23

Shakuni entra em Cena

No encerramento do Rajasuya, os príncipes, sacerdotes e idosos, que se reuniram com esse propósito, partiram de volta para suas casas. Vyasa também veio se despedir. Dharmaputra se levantou e o recebeu com o devido respeito e sentou-se a seu lado.

O sábio disse: "Salve filho de Kunti, você recebeu o título de imperador o qual merece com eminência. Que a ilustre dinastia Kuru ganhe ainda mais glória com você. Despeça-se para que eu possa voltar ao meu retiro".

Yudhisthira tocou nos pés de seu progenitor e guru e disse: "Salve mestre, só você pode remover minhas apreensões. Sábios previram maus presságios sobre a ocorrência de eventos catastróficos. Essa previsão já aconteceu com a morte de Shishupala ou tem mais por vir"?

Bhagavan Vyasa respondeu: "Querido filho, está para acontecer muita tristeza e sofrimento por treze anos seguidos. Os presságios indicam a destruição da raça kshatriya e não acabaram com a morte de Shishupala. Muito longe disso. Centenas de reis morrerão, e a velha ordem das coisas passará. Essa catástrofe brotará da inimizade entre você com seus irmãos dum lado e seus primos, os filhos de Dhritarastra, do outro. Culminará numa guerra que causará na prática a aniquilação da raça kshatriya. Ninguém pode ir contra o destino. Seja firme e fixo na justiça. Seja vigilante e governe o reino, adeus". E Vyasa abençoou Yudhisthira. As palavras de Vyasa deixaram Yudhisthira muito triste e com uma grande repugnância pela ambição e vida mundana em si.

Ele informou seus irmãos sobre a previsão do inevitável desastre racial. A vida para ele parecia muito amarga e exaustiva, e seu destino em particular cruel e insuportável.

Arjuna disse: "Você é um rei e não é certo que fique agitado. Vamos enfrentar o destino com a fronte destemida e cumprir o nosso dever".

Yudhisthira respondeu: "Irmãos, que Deus nos proteja e nos dê sabedoria. De minha parte, aceito o voto de nunca falar com aspereza a meus irmãos ou a meus súditos pelos próximos treze anos. Evitarei todo pretexto para conflito. Nunca darei vazão à ira, que é a causa básica da inimizade. Será o meu dever não dar chance para ira ou pretexto de hostilidade. Assim aproveitaremos o aviso de Bhagavan Vyasa". Seus irmãos concordaram cordialmente.

O primeiro evento de uma série que culminou na matança devastadora no campo de batalha coberto de sangue em Kurukshetra, e o evento que foi a raiz do mal de tudo, foi o jogo de dados em que Yudhisthira foi trapaceado por Shakuni, que era o gênio diabólico de Duryodhana.

Por que o sábio e bom Yudhisthira se submeteu a ser persuadido para esse passo, que ele deveria saber sobre suas possibilidades maléficas?

A causa principal é que estava fixo em ficar em termos amigáveis com seus primos por não se opor à vontade deles. E um convite amigável para um jogo de dados não podia ser recusado sumariamente, pois a etiqueta daquela época tornava uma questão de honra aceitar um jogo de risco igual.

Por causa de sua extrema ansiedade em promover a boa vontade, deixou o campo aberto para a semente venenosa do ódio e morte. Este é um exemplo da futilidade dos planos humanos, por melhores intencionados ou sábios, sem a ajuda divina. Nossa melhor sabedoria é vã contra o destino, e se o destino for gentil, nossas próprias tolices virarão vantagem.

Enquanto Dharmaputra estava altamente preocupado com cuidado para evitar uma desavença a todo custo, Duryodhana queimava de inveja quando lembrava da prosperidade dos Pandavas que foi testemunha em sua capital durante o sacrifício Rajasuya.

Duryodhana viu uma riqueza sem precedentes, belíssimas portas de cristal transparente várias obras de arte primorosas no salão de assembléia dos Pandavas, tudo a sugerir grande prosperidade.

Ele também viu como os reis de vários países ficaram felizes em se tornarem aliados dos Pandavas. Isso causou nele um sofrimento intolerável. Ele estava tão absorto no pesar por causa da prosperidade dos Pandavas que não ouviu Shakuni de imediato ao seu lado, que falava com ele.

Shakuni perguntou: "Por que você suspira? Por que está atormentado com tanta tristeza"?

Duryodhana respondeu: "Yudhisthira, rodeado de seus irmãos, é como Indra, o rei dos deuses. Diante dos olhos de todos os reis reunidos, Shishupala foi morto e nenhum deles teve coragem para se adiantar e vingá-lo. Como os vaishyas que vivem do comércio, eles trocaram sua honra, jóias e riqueza pela boa vontade de Yudhisthira. Como posso evitar o sofrimento depois de ver tudo isso? Qual o bem de viver"?

Shakuni disse: "Duryodhana, os Pandavas são seus irmãos. Não é certo que você fique com ciúmes da prosperidade deles. Eles apenas desfrutam da sua herança legítima. Por sua boa fortuna, eles prosperaram e floresceram sem fazer nenhum mal a outros. Por que você tem que ter ciúmes? Como a força e felicidade deles pode diminuir sua grandeza? Seus irmãos e parentes estão a seu lado e obedecem você. Drona, Asvathama e Karna estão com você. Por que você se lamenta quando Bhisma, Kripa, Jayadratha, Somadatta e eu mesmo somos seus protetores? Você pode até mesmo conquistar o mundo inteiro. Não se entregue à lamentação".

Com essas palavras, Duryodhana disse: "Shakuni, é verdade que tenho muitos para me apoiar. Por que então não começamos a guerra e expulsamos os Pandavas de Indraprastha"?

Mas Shakuni disse: "Não. Isso não será fácil, mas sei um jeito para tirar Yudhisthira de Indraprastha sem luta ou derramamento de sangue".

Os olhos de Duryodhana brilharam, parecia muito bom para ser verdade. Ele perguntou incrédulo: "Tio, é possível dominar os Pandavas sem o sacrifício de nenhuma vida? Qual é o seu plano"?

Shakuni respondeu: "Yudhisthira gosta do jogo de dados mas não é habilidoso, e é ignorante sobre os truques e a oportunidade que oferece aos espertos. Se o convidarmos para um jogo, ele aceitará, pois seguirá a tradição dos kshatriyas. Eu conheço os truques do jogo e jogarei no seu lugar. Yudhisthira será como uma criança indefesa contra mim. Eu ganharei seu reino e fortuna para você sem derramar uma gota de sangue".

 

Capítulo 24

O Convite

Duryodhana e Shakuni foram até Dhritarastra. Shakuni iniciou a conversa. Ele disse: "Salve rei, Duryodhana está abatido com pesar e ansiedade. Você não dá atenção a seu sofrimento intolerável. Por que essa indiferença"?

Dhritarastra doido de amor por seu filho abraçou Duryodhana e disse: "Não entendo por que você está desolado. De tudo que existe, o que você já não desfruta? O mundo inteiro está a seus pés. Você está rodeado por todos tipos de prazeres como os deuses, por que então suspira com tanto sofrimento? Você aprendeu os Vedas, a arte do arco e flecha, e outras ciências com os melhores mestres. Como meu primogênito, você é o herdeiro do trono. O que mais você anseia? Diga-me"?

Duryodhana respondeu: "Pai, como qualquer outro, rico ou pobre, eu como e cubro minha nudez, mas acho a vida intolerável. De que vale viver uma vida assim"?

Então, ele revelou em detalhes a inveja e o ódio que consumiam sua vida e tiravam todo o seu sabor. Ele mencionou a prosperidade que viu na capital dos Pandavas, e isso era mais amargo do que a perda de tudo que possuía.

Ele rompeu: "Contentamento com sua própria sorte não é característica de um kshatriya. Medo e vergonha diminuem a dignidade de reis. Minha fortuna e prazeres não me satisfazem mais desde que testemunhei a muito maior prosperidade de Yudhisthira. Ó rei, os Pandavas cresceram, enquanto nós diminuímos".

Dhritarastra disse: "Meu querido filho, você é meu filho mais velho com minha esposa real e herdeiro da glória e grandeza de nossa famosa dinastia. Não cultive nenhum ódio pelos Pandavas. Tristeza e morte serão o único resultado do ódio entre parentes irmãos, especialmente quando eles são impecáveis. Diga-me porque você odeia o sincero e honesto Yudhisthira? A prosperidade dele não é nossa também? Nossos amigos são amigos dele. Ele não tem o menor ciúme ou ódio de nós. Você é igual a ele em heroísmo e linhagem. Por que você tem que ter inveja de seu irmão? Não. Você não pode ser invejoso". Assim falou o velho rei, apesar de adorar seu filho, ocasionalmente não hesitava em falar o que achava justo.

Duryodhana não gostou nem um pouco do conselho de seu pai, e sua resposta não foi muito respeitosa.

Ele respondeu: "O homem sem bom senso, mas afundado em conhecimento, é como uma concha de madeira imersa em comida saborosa a quem nem dá sabor nem beneficia. Você tem muito conhecimento sobre ciência política mas não tem nenhuma sabedoria de estadista, como seu conselho mostra claramente. O caminho do mundo é um e a administração do estado, outro bem diferente. Como disse Brihaspati: 'Perdão e contentamento, apesar de deveres das pessoas comuns, não são virtudes dum rei'. O dever dum kshatriya é a constante busca da vitória".

Duryodhana falou assim com citações de máximas políticas e exemplos, e fez a pior parecer a melhor razão.

Então Shakuni interveio e expôs em detalhes seu plano infalível de convidar Yudhisthira para um jogo de dados, derrotá-lo totalmente e despojar tudo que possui sem recorrer a exércitos.

O malvado Shakuni encerrou assim: "Você apenas terá que mandar um convite ao filho de Kunti para jogar um jogo de dados. Deixe o resto comigo".

Duryodhana acrescentou: "Shakuni ganhará para mim a fortuna dos Pandavas sem nenhuma luta, se você apenas concordar em convidar Yudhisthira".

Dhritarastra disse: "Sua sugestão não parece certa, Vamos perguntar a Vidura sobre isso. Ele nos aconselhará da forma correta".

Mas Duryodhana não quis saber de consultar Vidura. Ele disse a seu pai: "Vidura só nos dará as banalidades do moralismo ordinário, que não nos ajudará em nosso objetivo. A política dos reis deve ser bem diferente das boas máximas de escrituras, e o teste é bem sucedido em situações severas. Além do mais, Vidura não gosta de mim e é parcial com os Pandavas. Você sabe disso tanto quanto eu".

Dhritarastra disse: "Os Pandavas são fortes. Não acho inteligente criar antagonismo com eles. O jogo de dados só causará inimizade. As paixões resultantes do jogo não terão limites. Não devemos fazer isso".

Mas Duryodhana estava perturbado: "O estadista sábio se apóia em extinguir todo medo e se defender pelos seus próprios recursos. Será que não devemos forçar a situação enquanto ainda somos mais poderosos que eles? Essa é a verdadeira precaução. Uma oportunidade perdida pode não voltar nunca mais, e não é que inventamos o jogo de dados para prejudicar os Pandavas. É um passatempo antigo que os kshatriyas sempre praticaram, e se agora vamos nos servir disso para ganhar nossa causa sem derramamento de sangue, qual é o problema"?

Dhritarastra respondeu: "Querido filho, eu estou velho. Faça como quiser. Mas a linha que você seguiu não me agrada. Tenho certeza que você se arrependerá mais tarde. Assim trabalha o destino".

No fim, sem mais nenhum argumento, com extrema fadiga e sem esperança de dissuadir seu filho, Dhritarastra concordou, e ordenou aos ajudantes que preparassem um salão de jogos. Mesmo assim ele não suportou e foi consultar Vidura em segredo sobre o assunto.

Vidura disse: "Ó rei, isso sem dúvida nenhuma trará a ruína da sua dinastia por produzir um ódio insaciável".

Dhritarastra que não conseguiu se opor ao pedido de seu filho, disse: "Se a sorte nos favorecer não tenho temores sobre esse jogo. Do contrário, sorte contra nós, que podemos fazer? Pois o destino é todo poderoso. Vá e convide Yudhisthira em meu nome para vir jogar dados". Assim ordenado, Vidura foi até Yudhisthira com um convite.

Dhritarastra fraco de espírito, super pressionado, permitiu o desejo de seu filho por causa de seu apego por ele, apesar do fato dele saber que essa era a forma que o próprio destino atuava.

 

Capítulo 25

A Aposta

Quando viu Vidura, Yudhisthira perguntou com ansiedade: "Por que você está tão infeliz? Está tudo bem com os nossos parentes em Hastinapura? O rei e os príncipes estão bem"?

Vidura o comunicou sobre sua missão: "Todos estão bem em Hastinapura. Como vão todos vocês? Vim convidá-los em nome do rei Dhritarastra para virem conhecer o novo salão de jogos que foi construído. Eles construíram um belo salão de jogos assim como o de vocês. O rei gostaria que viesse com seus irmãos, para conhecerem tudo, jogar um jogo de dados e voltar à sua capital".

Yudhisthira procurou a opinião de Vidura: "Jogos com apostas criam discórdia entre kshatriyas. Quem é inteligente os evita se puder. Nós sempre nos abrigamos em seu conselho. O que nos aconselha a fazer"?

Vidura respondeu: "Todo mundo sabe que o jogo de dados é a causa básica de muitos males. Fiz o que pude para me opor a essa idéia. Mesmo assim o rei me ordenou que o convidasse e assim eu vim. Você pode fazer o que desejar".

Apesar desse aviso, Yudhisthira foi para Hastinapura com seus irmãos e séqüito. Talvez surja a dúvida por que o sábio Yudhisthira aceitou o convite.

Podem haver três motivos. Pessoas correm conscientemente em direção à sua ruína induzidas pela luxúria, jogo e bebida. Yudhisthira gostava de jogar. A tradição kshatriya tornava uma questão de etiqueta e honra não recusar um convite para um jogo de dados.

Tem a terceira razão também. Fiel ao voto que aceitou quando Vyasa o avisou sobre as disputas que surgiriam e produziriam a destruição da raça. Yudhisthira não daria chance alguma para desagradar ou contrariar com a recusa o convite de Dhritarastra.

Essas causas conspiraram com sua inclinação natural para fazer Yudhisthira aceitar o convite e ir para Hastinapura. Os Pandavas e seu séqüito ficaram num palácio magnífico reservado a eles.

Yudhisthira descansou no dia em que chegaram, e depois dos deveres cotidianos formais, foi para o salão de jogos na manhã seguinte.

Depois das trocas de saudações costumeiras, Shakuni anunciou a Yudhisthira que o pano para jogar estava aberto e o convidou para o jogo.

Yudhisthira disse primeiro: "Caro rei, jogo é ruim. Não é por heroísmo ou mérito que alguém ganha um jogo de azar. Asita, Devala e outros rishis que são bem versados em assuntos mundanos declararam que o jogo deve ser evitado pois oferece espaço para o engano. Eles também disseram que a conquista em batalha é o caminho correto para os kshatriyas. Você não é ignorante sobre isso".

Mas uma parte dele, com a fraqueza do gosto por jogo, estava em guerra com seu juízo, e bem no fundo do coração, Yudhisthira desejava jogar.

Vemos esse conflito na discussão com Shakuni. Shakuni de espírito mordaz percebeu essa fraqueza de imediato e disse: "Que há de errado no jogo? O que é de fato uma batalha? O que é até mesmo uma discussão entre acadêmicos védicos? O sábio consegue a vitória sobre o ignorante. O melhor vence em todos os casos. É apenas um teste de força ou habilidade, isso é tudo, e não há nada de errado nisso. Em conseqüência, em todo campo de atividade, o experiente derrota o iniciante, e é isso o que acontece num jogo de dados também. Mas se você está com medo, não precisa jogar. Mas não saia com essa desculpa esfarrapada de certo e errado".

Yudhisthira respondeu: "Bem, quem vai jogar comigo"?

Duryodhana disse: "A minha responsabilidade é achar o suporte na forma de riqueza e jóias para jogar o jogo. Meu tio Shakuni é quem vai jogar os dados na prática em meu lugar".

Yudhisthira se sentia seguro em derrotar Duryodhana nos dados mas Shakuni era outra história, pois Shakuni era um esperto famoso. Assim ele hesitou e disse: "Acho que não é costume alguém jogar no lugar de outro no jogo".

Shakuni retrucou com sarcasmo: "Entendo, você quer dar outra desculpa".

Yudhisthira enrubesceu, jogou a precaução para o alto, e respondeu: "Está bem, eu jogarei".

O salão estava totalmente lotado. Drona, Kripa, Bhisma, Vidura e Dhritarastra estavam lá sentados. Eles sabiam que o jogo acabaria mal e se sentaram tristes para testemunharem o que não puderam prevenir.

Os príncipes presentes assistiam o jogo com grande interesse e entusiasmo. Primeiro, eles apostaram jóias e depois ouro, prata e depois quadrigas e cavalos. Yudhisthira perdia continuamente.

Quando perdeu tudo isso, Yudhisthira apostou seus servos e os perdeu também. Empenhou seus elefantes e exércitos e também perdeu. Os dados jogados por Shakuni pareciam obedecer sua vontade em cada jogada.

Vacas, ovelhas, cidades, vilas e cidadãos e todas as outras propriedades, Yudhisthira perdeu. Ainda assim, entorpecido com o infortúnio, ele não parava.

Ele perdeu todos ornamentos pessoais de seus irmãos e dele mesmo bem como as roupas que usavam. A má sorte ainda o perseguia, ou melhor, a esperteza de Shakuni era demais para ele.

Shakuni perguntou: "Há algo mais que você possa oferecer como aposta"?

Yudhisthira disse: "Aqui está o belo Nakula lindo como o céu. Ele é uma das minhas riquezas. Eu o ponho como uma aposta".

Shakuni respondeu: "É mesmo? Ficaremos felizes em ganhar seu bem amado príncipe". Com essas palavras, Shakuni jogou os dados e o resultado foi o que ele previu.

A assembléia tremeu.

Yudhisthira disse: "Aqui está meu irmão Sahadeva. Ele é famoso por seu conhecimento infinito em todas as artes. É errado apostá-lo, mas mesmo assim eu aposto. Vamos jogar".

Shakuni jogou os dados com essas palavras: "Aqui, eu joguei e eu ganhei". Yudhisthira também perdeu Sahadeva.

O diabólico Shakuni temia que Yudhisthira parasse aí. Então provocou Yudhisthira com essas palavras: "Bhima e Arjuna, como são seus irmãos puros, sem dúvida são mais queridos por você do que os filhos de Madri. Você não vai oferecê-los, eu sei".

Yudhisthira, agora totalmente inquieto e apressado pela provocação sarcástica de que tinha vendido barato seus irmãos enteados, respondeu: "Imbecil, você quer nos dividir? Como pode você, que vive uma vida de maldade, entender a vida honrada que vivemos"?

Ele continuou: "Eu ofereço como aposta o sempre vitorioso Arjuna que navega com sucesso através de oceanos de batalha. Vamos jogar".

Shakuni respondeu: "Eu jogo os dados" e ele jogou. Yudhisthira perdeu Arjuna também.

A loucura teimosa do infortúnio contínuo levou Yudhisthira adiante e mais fundo. Com lágrimas nos olhos, ele disse: "Ó rei, Bhima, meu irmão, é nosso líder em batalha. Ele desfere terror no coração dos demônios e é igual a Indra; ele nunca pode sofrer qualquer desonra e ele é inigualável em força física no mundo inteiro. Eu o ofereço como aposta" e jogou e perdeu Bhima também.

O malvado Shakuni perguntou: "Há algo mais que você pode oferecer"?

Dharmaputra respondeu: "Sim. Aqui estou eu. Se você ganhar, eu serei seu escravo"?

"Veja. Eu ganhei". Ao dizer isso, Shakuni jogou os dados e ganhou. Depois disso, Shakuni se levantou no meio da assembléia e gritou os nomes dos cinco Pandavas, assim proclamou alto que eles se tornaram seus escravos legítimos.

A assembléia assistia num silêncio atordoante. Shakuni se voltou para Yudhisthira e disse: "Ainda tem uma jóia de sua propriedade que se você apostar pode obter a sua liberdade. Você não quer continuar o jogo e oferecer sua esposa Draupadi como aposta"?

Yudhisthira em desespero disse; "Eu a aposto", e estremeceu sem querer.

Houve uma aflição e agitação audíveis na parte do público onde os mais velhos sentavam. Logo, gritos altos de "Fora! Fora"! surgiram de todos os lados. Os mais emotivos choravam. Outros transpiravam, e achavam que o fim do mundo tinha chegado.

Duryodhana, seus irmãos e Karna gritavam de exaltação. Nesse grupo, somente Yuyutsu balançava a cabeça de vergonha e tristeza com um suspiro desgostoso. Shakuni jogou os dados e gritou novamente: "Eu ganhei".

Imediatamente, Duryodhana voltou-se para Vidura e disse: "Vá e traga Draupadi, a querida esposa dos Pandavas. De agora em diante, ela tem que varrer e limpar nossa casa. Que ela venha sem demora".

Vidura exclamou: "Você está tão louco que corre para sua própria destruição? Você está pendurado por uma linha fina num abismo sem fim! Inebriado com o sucesso, você não enxerga isso, mas vai tragá-lo"!

Depois de repreender Duryodhana dessa forma, Vidura virou-se para a assembléia e disse: "Yudhisthira não tem direito de apostar Panchali pois até então ele já perdeu sua própria liberdade e todos seus direitos. Eu vejo que a ruína dos Kauravas é iminente, e que, apesar do conselho de seus amigos e bem querentes, os filhos de Dhritarastra estão no caminho do inferno".

Duryodhana ficou furioso com essas palavras de Vidura e disse a Prathikami, seu cocheiro: "Vidura nos inveja e tem medo dos Pandavas. Mas você é diferente. Vá e traga Draupadi imediatamente".

 

Capítulo 26

A Provação de Draupadi

A Provação de Draupadi

Prathikami foi até Draupadi como ordenado por seu mestre. Ele disse a ela: "Ó venerável princesa, Yudhisthira caiu no encanto do jogo de dados e apostou e perdeu até você. Agora você pertence a Duryodhana. Eu vim pela ordem de Duryodhana para levá-la à sua casa para servir como empregada doméstica, onde será o seu emprego doravante".

Draupadi, a esposa do imperador que realizou o Rajasuya, estava pasmada, com essa mensagem estranha. Ela perguntou: "Prathikami, o que você disse? Que príncipe apostaria sua mulher? Ele não tem mais nada para empenhar"?

Prathikami respondeu: "É porque ele já perdeu todas as outras propriedades e como não sobrou nada, ele jogou e ofereceu você como aposta".

Então, ele contou toda a história de como Yudhisthira perdeu toda sua riqueza e a apostou no fim, depois de perder primeiro seus irmãos e si mesmo.

Apesar da notícia ser suficiente para quebrar o coração e matar a alma, mesmo assim, Draupadi recuperou logo sua firmeza, e com um clarão de fúria nos olhos, disse: "Ó cocheiro, volte. Pergunte a ele que jogou o jogo se perdeu primeiro ele mesmo, ou sua esposa. Faça essa pergunta aberta na assembléia. Volte com sua resposta e depois poderá me levar".

Prathikami foi até a assembléia e, voltado para Yudhisthira, fez a ele a pergunta de Draupadi.

Yudhisthira ficou sem fala.

Então Duryodhana mandou Prathikami trazer Panchali em pessoa para perguntar ao seu marido. Prathikami voltou até Draupadi e disse com humildade: "Princesa, o malévolo Duryodhana deseja que você vá para a assembléia e faça a sua pergunta pessoalmente".

Draupadi respondeu: "Não. Volte à assembléia, faça a pergunta e exija uma resposta".

Prathikami fez assim.

Enfurecido, Duryodhana se voltou a seu irmão Dushasana e disse: "Este homem é um tolo e está com medo de Bhima. Vá e traga Draupadi mesmo se tiver que arrastá-la até aqui".

Assim ordenado, o malvado Dushasana partiu de imediato com alegria para sua missão. Ele foi até o palácio onde Draupadi estava, e gritou: "Venha, por que você demora? Agora você é nossa. Não seja tímida, bela mulher. Seja agradável conosco, agora que foi conquistada por nós. Venha para a assembléia" e com sua impaciência, ele ameaçou pegá-la à força.

Panchali se levantou trêmula, com o coração perfurado de tristeza, e tentou fugir em refúgio nos aposentos internos da rainha de Dhritarastra. Dushasana foi atrás dela, pegou-a pelos cabelos e a arrastou até a assembléia.

É com arrepio de repugnância que narramos como os filhos de Dhritarastra se rebaixaram para cometer o mais vil de todos os atos.

Logo que chegou na assembléia, Draupadi controlou sua angustia e apelou aos mais velhos presentes ali:

"Como permitiram que eu fosse apostada pelo rei que caiu na armadilha do jogo e foi enganado por pessoas maldosas, peritas na arte? Desde que ele não era mais um homem livre, como poderia apostar qualquer outra coisa"?

Então, ela levantou seus braços e elevou seus olhos em lágrimas de agonia suplicante e gritou com a voz quebrada por soluços:

"Se vocês amaram e respeitaram as mães que os geraram e os amamentaram, se vocês prezam a honra de sua esposa ou irmã ou filha, se vocês acreditam em Deus e dharma, não me abandonem neste horror mais cruel do que a morte".

Com essa súplica de partir o coração, como um pobre cervo ferido de morte, os mais velhos balançaram suas cabeças de tristeza e vergonha. Bhima não conseguia se controlar mais. Seu coração inchado encontrou alívio num rugido de fúria que fez as paredes estremecerem, voltou-se para Yudhisthira e disse com amargura:

"Mesmo jogadores profissionais abandonados não apostam as meretrizes que vivem com eles, e você, pior do que eles, entregou a filha de Drupada à mercê desses biltres. Não posso tolerar esta injustiça. Você é a causa deste crime hediondo. Irmão Sahadeva, faça fogo. Eu vou queimar essas mãos dele que jogou os dados".

Arjuna entretanto repreendeu Bhima com brandura: "Você nunca falou assim antes. A conspiração que nossos inimigos planejaram também nos envolveu em suas teias e nos incita à ação má. Não podemos sucumbir e jogar o jogo deles. Cuidado".

Com um esforço super humano, Bhima controlou sua ira.

Vikarna, filho de Dhritarastra, não suportou presenciar a agonia de Panchali. Ele se levantou e disse: "Ó heróis kshatriyas, por que estão em silêncio? Sou apenas um jovem, eu sei, mas seu silêncio me obriga a falar. Atenção, Yudhisthira foi seduzido para este jogo por um convite de baixo conluio e ele apostou sua senhora quando não tinha direito de fazê-lo, pois ela não pertence apenas a Yudhisthira. Por esse motivo apenas, a aposta é ilegal. Além disso, Yudhisthira já tinha perdido sua liberdade, e como não era mais um homem livre, como poderia ter o direito de oferecê-la como aposta? E há mais uma objeção. Foi Shakuni quem a sugeriu como aposta, o que é contra as regras do jogo, nenhum jogador pode demandar uma aposta específica. Se considerarmos todos esses pontos, devemos admitir que não ganhamos Panchali legalmente. Essa é a minha opinião".

Quando Vikarna falou com toda essa coragem, a sabedoria que Deus deu aos membros daquela assembléia iluminou suas mentes. Houve um grande clamor e aplausos. Eles gritavam: "Dharma foi salvo! Dharma foi salvo"!

Nesse momento, Karna se levantou e disse:

"Ó Vikarna, você se esqueceu que há membros mais velhos nesta assembléia e estabeleceu a lei apesar de ser apenas um adolescente. Com sua ignorância e ousadia, você feriu a própria família que lhe deu o nascimento, assim como a chama gerada pela madeira arani destrói sua própria fonte, a lenha. É mau o pássaro que suja seu próprio ninho. Logo no começo, quando Yudhisthira era um homem livre, ele penhorou tudo que possuía, e isso, é claro, inclui Draupadi. Por isso, Draupadi já era propriedade de Shakuni. Não há mais nada a ser dito sobre este assunto. Mesmo as roupas que eles usavam agora são de propriedade de Shakuni. Ó Dushasana, pegue as roupas dos Pandavas e as vestes de Draupadi e dê tudo para Shakuni".

Ao ouvirem essas palavras cruéis de Karna, os Pandavas, perceberam que tinham de agüentar o teste de Dharma até o mais amargo fim, tiraram suas roupas para mostrar que estavam prontos para seguir o caminho da honra e justiça a todo custo.

A Provação de Draupadi

Ao ver isso, Dushasana foi até Draupadi e começou a puxar seu sari à força. Toda a ajuda mundana tinha falhado, sem ter mais onde se abrigar, Draupadi em sua angústia desesperada se entregou em plenitude à misericórdia do Supremo Senhor Sri Krishna em seu coração, assim fez sua prece de rendição total a Krishna:

"Ó Senhor do Mundo, Deus que eu adoro e confio, não me abandone nesta situação horrível. Você é meu único refúgio. Proteja-me". E assim se entregou ao Senhor.

Então, à medida que Dushasana fazia seu trabalho hediondo de puxar o sari de Draupadi para despi-la e os homens decentes estremeciam e desviavam o olhar, aí então, pela misericórdia do Senhor, um milagre aconteceu.

Dushasana puxava o sari avidamente para tentar despi-la em vão, pois à medida que ele puxava, um outro pedaço de sari novo em folha aparecia para cobrir o corpo de Draupadi, e logo se formou um monte de pano brilhante no meio da assembléia, até que Dushasana desistiu e se sentou com extrema fadiga.

A assembléia vibrou com esse milagre maravilhoso e as pessoas decentes louvaram Deus e choraram. Bhima com os lábios trêmulos, urrou com grande estrondo esse terrível juramento: "Que eu nunca vá para a morada sagrada de meus ancestrais se eu não rasgar o peito e beber o sangue do coração desse pecaminoso Dushasana, que é a vergonha da dinastia Bharata".

Imediatamente, ouviu-se o uivo de chacais. Asnos e pássaros carnívoros começaram a emitir brados dissonantes de todos os lados, como prognóstico de calamidades que acontecerão.

Dhritarastra realizou que esse incidente seria a causa da destruição de sua dinastia, e pelo menos uma vez, agiu com sabedoria e coragem. Ele chamou Draupadi para seu lado e tentou acalmá-la com palavras de carinho e afeição.

Então, voltou-se a Yudhisthira e disse: "Você é tão impecável que não pode ter nenhum inimigo. Perdoe com sua magnanimidade o mal feito por Duryodhana e apague tudo isso da sua memória. Pegue de volta seu reino e riqueza e tudo mais e seja livre e próspero. Volte para Indraprastha". E os Pandavas foram embora daquele salão maldito, confusos e atordoados, e viam um milagre em sua libertação repentina da calamidade. Mas era muito bom para persistir.

Depois que Yudhisthira e seus irmãos partiram, houve uma longa e furiosa discussão no palácio dos Kauravas. Incitado por Dushasana, Shakuni e outros, Duryodhana censurou seu pai por ter frustrado seus planos bem elaborados logo no limiar do sucesso.

Ele citou o aforismo de Brihaspati que nenhum artifício pode ser considerado errado se o seu objetivo for a destruição de inimigos formidáveis.

Ele falou em detalhes sobre a bravura dos Pandavas e expressou sua convicção de que a única forma de superar os Pandavas era a trapaça e obter vantagem com a altivez e senso de honra deles.

Nenhum kshatriya que se preze recusaria um convite para um jogo de dados. Duryodhana conseguiu que seu relutante pai louco de amor por ele aprovasse outro plano nefasto para seduzir Yudhisthira outra vez para um jogo de dados.

Assim, mandaram um mensageiro para Yudhisthira que já seguia para Indraprastha. Ele alcançou Yudhisthira antes que chegasse em seu destino e o convidou em nome do rei Dhritarastra para voltar.

Ao ouvir esse convite, Yudhisthira disse: "Bem e mal vêm do destino e não podem ser evitados. Se nós temos que jogar de novo, vamos jogar, isso é tudo. Um desafio nos dados não pode ser recusado em nome da honra. Eu tenho que aceitar". Na realidade, como Sri Vyasa afirma: "Nunca houve e nunca haverá um antílope de ouro! Mesmo assim, Rama perseguiu em vão um que parecia ser. Com certeza, quando calamidades são iminentes, o juízo é o primeiro a ser destruído".

Dharmaputra voltou para Hastinapura e entrou novamente num jogo de dados com Shakuni, apesar de todos na assembléia tentarem dissuadi-lo.

Ele parecia um mero peão movido pela mãe Kali para aliviar o peso do mundo.

A aposta do jogo era que o lado derrotado teria de ir com seus irmãos para o exílio na floresta e permanecer lá por doze anos e passar o décimo terceiro ano incógnito. Se fossem reconhecidos no décimo terceiro ano, teriam que ir para o exílio novamente por doze anos.

Nem é preciso dizer que Yudhisthira se encontrou com a derrota nessa ocasião também, e os Pandavas aceitaram os votos daqueles que vão para a floresta.

Todos os membros da assembléia baixaram suas cabeças de vergonha.

 

Capítulo 27

A Ansiedade de Dhritarastra

Quando os Pandavas partiram para a floresta, houve um grande clamor de lamentação do povo que se aglomerou nas ruas, e as pessoas subiam em telhados, torres e árvores para vê-los ir.

Os príncipes, que antes andavam em quadrigas de jóias ou em elefantes altivos acompanhados por música auspiciosa, agora andavam para longe de seu direito de herança com os pés descalços, acompanhados da multidão que chorava. Por todos os lados, vinha o choro: "Ó meu Deus! Ai de mim! Será que Deus não vê isso do Seu céu"?

O cego Dhritarastra mandou Vidura para ver e descrever a partida dos Pandavas para o exílio. Vidura respondeu: "Yudhisthira, o filho de Kunti, foi com sua cabeça coberta por um pano. Bhima foi atrás com seus olhos abaixados até os braços. Arjuna andava e espalhava a areia em seu caminho. Nakula e Sahadeva cobriram seus corpos com poeira e seguiam Yudhisthira de perto. Draupadi acompanhava Dharmaputra, seu cabelo despenteado cobria seu rosto e as lágrimas escorriam de seus olhos. Dhaumya, o sacerdote, foi junto com eles e cantava os hinos do Sama-veda, dirigidos a Yama, o senhor da Morte".

Quando ouviu essas palavras, Dhritarastra ficou com muito mais temor e ansiedade do que antes. Ele disse: "O que os cidadãos dizem"?

Vidura respondeu: "Ó grande rei, direi com suas próprias palavras o que os cidadãos de todas castas e todos credos falam: 'Nossos líderes nos abandonaram. Que vergonha os mais velhos da dinastia Kuru que toleraram tudo isso que aconteceu! O mesquinho Dhritarastra e seus filhos expulsaram os filhos de Pandu para a floresta'. Enquanto os cidadãos nos culpam dessa forma, os céus mostram sinais não auspiciosos de relâmpagos sem nuvens, grandes tremores de terra, e outros presságios de mau agouro".

Enquanto Dhritarastra e Vidura conversavam assim, o sábio celestial Narada apareceu de repente diante deles, e disse: "Daqui a quatorze anos a partir deste dia, os Kauravas serão extintos em resultado ao crime cometido por Duryodhana"! E desapareceu do local.

Duryodhana e seus companheiros ficaram apavorados e se aproximaram de Drona com uma súplica para nunca abandoná-los, seja o que acontecesse.

Drona respondeu com gravidade: "Eu acredito que os sábios Pandavas têm nascimento divino e são inconquistáveis. Ainda assim, o meu dever é lutar pelos filhos de Dhritarastra que se apóiam em mim e cujo sal, eu como. Eu vou me empenhar por eles com coração e alma. Mas o destino é todo poderoso. Os Pandavas com certeza retornarão do exílio, com fúria ardente. Eu tenho de saber o que é ira pois destronei e desonrei Drupada por causa da minha ira por ele. Vingativo implacável, ele fez sacrifícios para ser abençoado com um filho capaz de me matar. Dizem que Dristadyumna é esse filho. E como o destino providenciou, ele é cunhado e amigo leal dos Pandavas. E as coisas acontecem conforme predestinado. Suas ações tendem para a mesma direção e seus dias estão contados. Não percam tempo em fazer o bem enquanto podem; realizem grandes sacrifícios, aproveitem os prazeres sem pecado, dêem esmolas aos necessitados. O castigo vai destruir vocês no décimo quarto ano. Duryodhana, faça as pazes com Yudhisthira, este é o meu conselho para você. Mas, é claro, você fará o que bem entender".

Duryodhana não ficou nem um pouco feliz com essas palavras de Drona.

Sanjaya perguntou a Dhritarastra: "Ó rei, por que está tão preocupado"?

O rei cego respondeu: "Como posso saber o que é paz depois de prejudicar os Pandavas"?

Sanjaya disse: "O que disse é mesmo verdade. A vítima do destino adverso primeiro se torna pervertida, e perde por completo seu senso de certo e errado. Tempo, que tudo destrói, não pega uma clava e quebra a cabeça da pessoa, mas por destruir seu juízo, faz que aja com insanidade em direção à sua própria ruína. Seus filhos insultaram Panchali com indecência e se colocaram no caminho da destruição".

Dhritarastra disse: "Eu não segui o caminho sensato de dharma e estadista mas me sujeitei a ser mal guiado por meu estúpido filho e, como você disse, nós começamos a correr direto para o abismo".

Vidura costumava avisar Dhritarastra seriamente. Ele sempre lhe dizia: "Seu filho cometeu um grande erro. Dharmaputra foi enganado. Não é seu dever levar seus filhos para o caminho da virtude e tirá-los do vício? Você tem que ordenar agora mesmo que os Pandavas voltem para o reino que você deu a eles. Chame Yudhisthira de volta da floresta e faça as pazes com ele. Você deve até reprimir Duryodhana à força se ele não obedecer à razão".

No princípio, Dhritarastra ouvia com um silêncio triste quando Vidura falava assim, pois ele sabia que Vidura era uma pessoa muito mais sábia que ele. Mas gradualmente sua paciência diminuía com os repetidos sermões.

Num dia, Dhritarastra não conseguiu agüentar mais, e explodiu: "Ó Vidura, você sempre fala a favor dos Pandavas e contra meus filhos. Você não quer o nosso bem. Duryodhana nasceu dos meus quadris. Como posso abandoná-lo? De que adianta aconselhar tal conduta desnaturada? Perdi minha fé em você e não preciso mais de você. Você está livre para ir para os Pandavas se desejar". Então, ele virou as costas para Vidura, e entrou em seus aposentos.

Vidura sentiu com muita tristeza que a destruição da dinastia Kuru era certeza, assim aceitou as palavras de Dhritarastra e dirigiu uma quadriga com cavalos velozes até a floresta onde os Pandavas viviam.

Dhritarastra ficou ansioso com muito remorso. Ele refletiu consigo mesmo: "O que foi que eu fiz? Eu fortaleci Duryodhana mais ainda, ao mandar o sábio Vidura para os Pandavas".

Mais tarde, ele chamou Sanjaya e pediu-lhe para levar uma mensagem de arrependimento a Vidura onde implorava para perdoar as palavras insensatas dum pai infeliz, e voltasse.

Sanjaya foi com pressa até o retiro onde os Pandavas viviam e os encontrou vestidos com pele de veado, rodeados de sábios.

Ele também viu Vidura ali, a quem falou a mensagem de Dhritarastra e acrescentou que o rei cego morreria com o coração partido se ele não voltasse.

Vidura de bom coração, que era encarnação de Dharma, ficou comovido e voltou para Hastinapura.

Dhritarastra abraçou Vidura e a diferença entre eles foi lavada com as lágrimas da afeição mútua.

Certo dia, o sábio Maitreya veio à corte de Dhritarastra e foi bem recebido com grande respeito.

Dhritarastra suplicou por suas bênçãos e perguntou: "Ó senhor venerável, com certeza se encontrou com meus amados filhos, os Pandavas, em Kurujangala. Eles estão bem? A afeição mútua habitará nossa família sem qualquer diminuição"?

Maitreya disse: "Encontrei com Yudhisthira por acaso na floresta Kamyaka. Os sábios locais vieram para vê-lo. Eu soube dos eventos que ocorreram em Hastinapura, e me admiro de que tais coisas foram permitidas enquanto Bhisma e você mesmo estão vivos".

Depois, Maitreya viu Duryodhana que também estava na corte e o avisou, para o seu próprio bem, para não prejudicar mas sim fazer as pazes com os Pandavas, que não eram apenas poderosos em si próprios mas ligados a Krishna e Drupada.

O obstinado e imbecil Duryodhana simplesmente riu, bateu em suas coxas com menosprezo, arrastou o pé no chão e sem dar nenhuma resposta, virou-se e foi embora.

Maitreya ficou bravo, mirou Duryodhana e disse: "Você é tão arrogante que bate em suas coxas com menosprezo por alguém que quer o seu bem? Suas coxas serão quebradas pela maça de Bhima e você morrerá no campo de batalha". Ao ouvir isso, Dhritarastra saltou, caiu aos pés do sábio e implorou perdão.

Maitreya disse: "Minha maldição não funcionará se seu filho fizer as pazes com os Pandavas. De outra forma, terá efeito", e se retirou indignado da assembléia.

 

Capítulo 28

A Promessa de Krishna

Logo que a notícia da morte de Shishupala por Krishna chegou em seu amigo Shalva, ele ficou furioso e sitiou Dwaraka com uma poderosa força militar.

Krishna não tinha voltado para Dwaraka ainda, o velho avô Ugrasena era responsável pela defesa da cidade. O cerco descrito no Mahabharata parece muito com as guerras atuais.

Dwaraka era uma fortaleza construída com alta proteção de guarnições numa ilha provida com os melhores meios de defesa. No cerco, havia grandes tendas e barracas, boa comida em abundância e armas, e as tropas tinham a presença de muitos guerreiros ilustres.

Ugrasena declarou um racionamento estrito sobre o consumo e diversões em geral durante o período de sítio. Todas as pontes foram destruídas e o tráfego de navios foi bloqueado para os portos do reino.

Foram colocados cravos de ferro nas valas em redor da fortaleza e as muralhas foram restauradas.

Todas entradas da cidade foram protegidas com arame farpado, e alto controle de entrada e saída com palavras-chave. Assim, qualquer arranjo que pudesse fortalecer ainda mais a cidade que era invulnerável por natureza não foi esquecido.

Os soldados receberam aumento de salário. E os servidores voluntários eram testados com rigidez antes de aceitos como soldados.

O sítio foi tão severo que as tropas sofreram grandes privações. Quando Krishna voltou, ficou muito comovido em ver o sofrimento de Sua amada cidade, assim atacou e derrotou Shalva, e o obrigou a retirar o cerco imediatamente.

Foi só depois disso que Krishna soube dos eventos que aconteceram em Hastinapura, o jogo de dados e o exílio dos Pandavas. De imediato, Ele partiu para a floresta onde os Pandavas viviam.

Junto com Krishna, foram vários kshatriyas, como muitos das tribos Bhoja e Vrishni, Dristaketu, o rei de Chedi, e os Kekayas que eram todos fiéis aos Pandavas.

Todos estavam muito indignados com razão depois que souberam da perfídia de Duryodhana e bradavam que a Terra beberia o sangue dessas pessoas tão más.

Draupadi se aproximou de Sri Krishna e, com a voz afogada em lágrimas e quebrada por soluços, contou a história de sua aflição. Ela disse: "Fui arrastada para a assembléia quando estava vestida apenas com uma roupa simples. Os filhos de Dhritarastra me insultaram de forma ultrajante e exultavam com minha agonia. Eles acharam que eu virei sua escrava e me pegaram e trataram com tal. Mesmo Bhisma e Dhritarastra se esqueceram de meu berço e linhagem e da minha relação com eles. Ó Janardhana, até mesmo meus maridos não me protegeram da zombaria e insultos obscenos daqueles rufiões sórdidos. A força física de Bhima e o arco Gandiva de Arjuna também não estavam disponíveis. Sob tamanha provocação assim, mesmo os fracos encontrariam força e coragem para atacar o vil ofensor à morte. Os Pandavas são heróis renomados mas mesmo assim Duryodhana vive! Eu, a nora do imperador Pandu, fui arrastada pelo cabelo. Eu, a esposa de cinco heróis, fui desonrada. Ó Madhusudana, até mesmo Você me deserdou". Ela começou a tremer, sem poder continuar mais, pois entrou em convulsão pelo pesar.

Krishna ficou muito comovido e consolou Draupadi que chorava. Ele disse. "Aqueles que a atormentaram serão feridos à morte num charco de sangue duma batalha perdida. Enxugue seus olhos. Eu prometo solenemente que todos danos dolorosos que você sofreu serão amplamente punidos. Eu ajudarei os Pandavas de todas as formas. Você será a imperatriz. Os céus podem cair, o Himalaia pode romper em pedaços, a terra pode afundar ou o mar sem fim pode secar, mas, Eu lhe digo com sinceridade, Minha palavra ficará em pé. Eu prometo isto", e Krishna fez um juramento solene perante Draupadi.

Esse juramento, como será visto, está em perfeito acordo com o propósito dos avataras do Senhor, como as Escrituras declaram (Bg. 4.7-8):

"Ó descendente de Bharata, sempre e onde houver um declínio da religião pura, e um aumento predominante da irreligião, nesse caso, Eu descendo em pessoa".

"A fim de proteger os devotos e eliminar os impiedosos, e restabelecer a verdadeira religião pura, Eu advenho pessoalmente Era após Era".

Dristadyumna também consolou sua irmã e lhe contou como o castigo alcançaria os Kauravas.

Ele disse: "Eu matarei Drona, Shikhandi causará a queda de Bhisma. Bhima tirará a vida do malévolo Duryodhana e seus irmãos. Arjuna matará Karna, o filho do cocheiro".

Sri Krishna disse: "Quando essa calamidade atingiu vocês, Eu estava em Dwaraka. Se estivesse em Hastinapura, nunca teria permitido esse jogo de dados fraudulento que aconteceu. Mesmo não convidado, Eu teria ido lá e despertado Drona, Kripa e os outros mais velhos para seu senso de dever. Eu teria impedido, a todo custo, esse jogo de dados destrutivo. Enquanto Shakuni enganava vocês, Eu lutava contra o rei Shalva que sitiou Minha cidade. Só depois de derrotá-lo que soube do jogo de dados e a subseqüente história sórdida. Fico muito triste em não poder remover o sofrimento de vocês de imediato mas vocês sabem, alguma água se perde antes que a barragem seja restaurada".

Então, Krishna se despediu e voltou para Dwaraka com Subhadra, a esposa de Arjuna, e seu filho, Abhimanyu.

Dristadyumna voltou para Panchala e levou consigo os filhos de Draupadi.

 

Capítulo 29

Pashupata

No começo de sua estada na floresta, Bhima e Draupadi costumavam, em ocasiões, argumentar com Yudhisthira.

Eles pleiteavam que só a ira justa se adequava a um kshatriya e que paciência e tolerância sob menosprezo e insultos não eram dignos dele.

Eles citavam autoridades de peso e argumentavam com veemência em suporte à sua controvérsia. Yudhisthira respondia com firmeza que eles tinham de cumprir sua promessa e que a tolerância era a maior virtude de todas.

Bhima ardia de impaciência para atacar e matar Duryodhana imediatamente e conquistar o reino de volta. Ele achava que era indigno para guerreiros continuarem a viver mansamente na floresta.

Bhima disse a Yudhisthira: "Você fala como aqueles que recitam mantras Védicos e ficam satisfeitos com o som das palavras apesar de ignorantes sobre seu significado. Seu intelecto ficou confuso. Você nasceu como kshatriya mas não pensa e se comporta como um. Você se tornou um brahmana por temperamento. Você sabe, as Escrituras prescrevem severidade e empreendimento para um kshatriya. Não podemos deixar os malévolos filhos de Dhritarastra seguirem seu caminho. É em vão o nascimento dum kshatriya que não conquista seus inimigos traiçoeiros. Esta é a minha opinião, e para mim, se eu for para o inferno por matar um adversário traiçoeiro, esse inferno é paraíso. Sua tolerância nos queima mais que o fogo. Queima Arjuna e eu dia e noite, e nos deixa com insônia. Esses infames usurparam nosso reino por meio de fraude e gostam disso, enquanto você fica deitado como uma jibóia que faz a sesta. Você diz que temos de cumprir nossa promessa. Como pode o mundialmente famoso Arjuna viver incógnito? Será que o Himalaia pode ser escondido atrás dum punhado de grama? Como podem Arjuna, Nakula e Sahadeva, de coração de leão, viverem escondidos? Será que a famosa Draupadi pode andar sem ser reconhecida por outros? Mesmo se fizermos essas coisas impossíveis, o filho de Dhritarastra descobrirá com seus espiões. Assim, a promessa que fizemos é impossível de ser realizada, e nos foi imposta apenas para assegurar que ficaremos fora por outros treze anos. Os shastras também me apóiam quando afirmam que uma promessa roubada não é uma promessa. Um punhado de capim dado a um boi cansado é penitência suficiente como expiação por quebrar uma promessa dessa. Você tem que decidir matar nossos inimigos imediatamente. Não há dever mais elevado para um kshatriya".

Bhima nunca se cansava de forçar sua opinião. Draupadi também se referia à desonra que sofreu nas mãos de Duryodhana, Karna e Dushasana e citava autoridades das Escrituras que faziam Yudhisthira pensar com ansiedade.

Às vezes, ele respondia com máximas comuns de ciência política e se referia à força relativa das partes. Ele dizia: "Nossos inimigos têm aliados como os Bhurishravas, Bhisma, Drona, Karna e Asvathama. Duryodhana e seus irmãos são mestres em batalha. Muitos príncipes feudais, bem como monarcas poderosos, estão do lado deles agora. Bhisma e Drona, na verdade, não respeitam o caráter de Duryodhana, mas não o abandonarão e estão prontos para sacrificar suas vidas do lado dele no campo de batalha. Karna é um guerreiro bravo e habilidoso, bem versado no uso de todas as armas. O curso da guerra é imprevisível e o sucesso é incerto. Não há necessidade de precipitação". Assim, Yudhisthira gerenciava a dificuldade em restringir a impaciência dos Pandavas mais jovens.

Mais tarde, conforme o conselho de Vyasa, Arjuna foi para o Himalaia praticar austeridades com o propósito de conseguir armas dos Devas. Arjuna se despediu de seus irmãos e foi dizer adeus a Panchali.

Ela disse: "Ó Dhananjaya, que você prospere em sua missão. Que Deus lhe dê tudo que Kuntidevi esperou e desejou quando você nasceu. Nossa felicidade, vida, honra e prosperidade dependem de você. Volte depois de conseguir novas armas". Assim, Panchali o incentivou avante com palavras auspiciosas.

É notável que apesar da voz ser de Draupadi, a esposa, a bênção foi de Kunti, a mãe: "Que Deus lhe dê tudo que Kuntidevi esperou e desejou quando você nasceu".

Arjuna atravessou densas florestas e chegou no monte Indrakila, onde encontrou um velho brâmane. O asceta sorriu e falou com afeição a Arjuna:

"Filho, você se veste com armadura e carrega armas. Quem é você? Armas não têm utilidade aqui. O que você procura nessas vestes de kshatriya aqui nesta terra de ascetas e santos que conquistaram a ira e a paixão"? Era Indra, o rei dos deuses, que veio para ter o prazer de se encontrar com seu filho.

Arjuna se prostrou a seu pai e disse: "Eu procuro armamento. Abençoe-me com armas". Indra respondeu: "Ó Dhananjaya, qual a utilidade de armas? Peça prazeres ou queira ir aos mundos superiores para aproveitar a diversão celestial".

Arjuna respondeu: "Ó rei dos deuses, eu não procuro os prazeres dos mundos superiores. Eu cheguei aqui depois de deixar Panchali e meus irmãos na floresta. Eu procuro só armas".

Indra de mil olhos disse: "Se você for abençoado com a visão do Senhor Shiva, de três olhos, e obter a graça Dele, receberá armas divinas. Faça penitências para Shiva".

Ao dizer isso, Indra desapareceu. Então, Arjuna subiu o Himalaia e fez penitências para obter a graça de Shiva.

Shiva com Sua esposa divina Umadevi entraram na floresta disfarçados de caçadores numa corrida de perseguição.

A caçada ficava cada vez mais veloz e furiosa até que um javali selvagem correu em direção a Arjuna, que atirou uma flecha nele com seu arco Gandiva no mesmo instante em que o caçador Shiva o transpassou com uma seta de seu arco Pinaka.

Arjuna gritou alto: "Quem é você? Por que percorre esta floresta com sua esposa? Como ousa atirar numa caça que eu alvejei"?

O caçador respondeu em tom de desprezo: "Esta floresta, cheia de caça, pertence a nós, que vivemos aqui. Você não parece forte o suficiente para ser um mateiro. Seus membros e porte condizem com vida fácil luxuosa. Eu que devo perguntar o que você faz aqui". Ele também acrescentou que foi Seu dardo que matou o javali, e se Arjuna pensasse diferente era bem vindo para lutar sobre isso.

Nada poderia deixar Arjuna mais feliz. Ele saltou e fez chover flechas que eram como serpentes em Shiva. Para seu espanto, elas pareciam não ter efeito no caçador e caíam para trás sem ferir como uma chuva de tempestade que bate no pico duma montanha.

Quando não tinha mais flechas, ele atacou Shiva com seu arco. Mas parecia que não se importou com isso e arrancou o arco com facilidade das mãos de Arjuna, e começou a rir.

Arjuna, desarmado com facilidade humilhante por alguém que parecia ser um simples caçador da floresta, ficou desnorteado, quase sem acreditar. Mas destemido, ele sacou sua espada e continuou o combate.

A espada se espatifou em pedaços quando bateu na duríssima estrutura do caçador. Não havia mais nada a fazer além de agarrar o formidável desconhecido. Mas novamente ele foi derrotado.

O caçador o agarrou como se fosse um gancho de ferro e o trouxe para tão perto que Arjuna ficou totalmente indefeso. Vencido e derrotado, Arjuna procurou a ajuda divina com humildade e meditou em Shiva. Quando fez isso, um clarão de luz iluminou sua mente perturbada, e de imediato soube quem era o caçador na realidade.

Ele caiu aos pés do Senhor, e com a voz embargada de arrependimento e adoração, orou por perdão. "Eu o perdôo", disse Shiva com um sorriso e devolveu-lhe seu arco Gandiva, bem como as outras armas, que tinha perdido no combate. Ele também concedeu a Arjuna a maravilhosa pashupata, Sua arma suprema.

O corpo de Arjuna, ferido na luta desigual, foi restaurado e aperfeiçoado pelo toque divino do Senhor de três olhos, e se tornou cem vezes mais forte e brilhante do que era antes.

"Vá para o reino celestial e preste o devido respeito a seu pai, Indra", disse Shiva, e desapareceu da visão como o Sol poente.

Arjuna ficou tomado de alegria e exclamou: "Eu vi mesmo o Senhor face a face e fui abençoado com Seu toque divino? O que mais eu preciso"?

Nesse instante, Matali, o cocheiro de Indra, apareceu ali com sua quadriga e levou Arjuna para o reino dos deuses.

 

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