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Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

Mahabharata

Volume 2

 

Capítulo 30

Aflição Não É Coisa Nova

Balarama e Krishna vieram com Seu séqüito para a moradia dos Pandavas na floresta. Profundamente angustiado com o que viu, Balarama disse a Krishna:

"Ó Krishna, parece que virtude e maldade produzem frutos contrários nesta vida. Pois veja, o malévolo Duryodhana governa seu reino vestido de seda e ouro, enquanto o virtuoso Yudhisthira vive na floresta e se veste com cascas de árvores. Ao ver tal prosperidade sem mérito e privação sem motivo, as pessoas perdem sua fé em Deus. O louvor da virtude nos shastras parece mera falsidade quando vemos os resultados de bem e mal neste mundo. Como Dhritarastra justificará sua conduta e se defenderá quando estiver face a face com o deus da morte? Até mesmo as montanhas e a Terra choram com a visão dos imaculados Pandavas a morar nas florestas com a abençoada Draupadi, nascida do fogo de sacrifício".

Satyaki, que estava sentado perto, disse: "Ó Balarama, não é hora para lamentação. Temos de esperar até que Yudhisthira nos peça para cumprirmos nosso dever com os Pandavas? Enquanto Você e Krishna e todos Seus outros parentes estiverem vivos, por que os Pandavas devem desperdiçar seus anos preciosos na floresta? Vamos reunir nossas forças e atacar Duryodhana. Com o exército dos Vrishnis, temos força suficiente para destruir os Kauravas. Por que, e qual a necessidade de frustrar o manejo do arco fanfarrão de Karna e cortar sua cabeça. Vamos matar Duryodhana e seus aliados no campo de batalha e entregar o reino a Abhimanyu se os Pandavas quiserem manter sua palavra e permanecerem na floresta. Isto é bom para eles e digno de nós como homens de valor".

Vasudeva, que ouvia com atenção, disse: "O que você disse é verdade. Mas os Pandavas não gostarão de receber das mãos de outros aquilo que conquistaram pelo seu próprio mérito. Draupadi sozinha, nascida numa dinastia de heróis, nem quer ouvir falar sobre isso. Yudhisthira nunca abandonará o caminho da justiça por amor ou medo. Quando o período estipulado para o exílio acabar, os reis de Panchala, Kekaya e Chedi, bem como Nós mesmos, uniremos nossas forças para ajudar os Pandavas conquistarem seus inimigos".

Yudhisthira ficou muito feliz com essas palavras de Krishna. Ele disse: "Sri Krishna conhece minha mente. A verdade é maior do que o poder ou a prosperidade e tem de ser preservada a todo custo e não o reino. Quando Ele quiser que lutemos, verá que estaremos prontos para lutar. Os heróis da dinastia Vrishni podem retornar agora com a certeza de que nos encontraremos novamente quando o tempo estiver maduro". Com essas palavras, Yudhisthira se despediu Deles.

Arjuna ainda estava fora no Himalaia e a ansiedade e a impaciência de Bhima ficaram terrivelmente insuportáveis. Ele disse a Yudhisthira:

"Você sabe que nossa vida depende de Arjuna. Ele já está fora há muito tempo, e não tivemos notícias dele. Se ele se foi por nossa causa, nem o rei de Panchala, nem Satyaki nem mesmo Sri Krishna poderão nos salvar, e eu mesmo não posso sobreviver a essa perda. Tudo isso se deve àquele insano jogo de dados, nossos pesares e sofrimentos, bem como a crescente força de nossos inimigos. Morar na floresta não é dever prescrito para um kshatriya. Devemos chamar Arjuna imediatamente e empreender a guerra contra os filhos de Dhritarastra, com a ajuda de Sri Krishna. Eu só ficarei satisfeito quando os demoníacos Shakuni, Karna e Duryodhana estiverem mortos. Depois que esse dever específico for cumprido, você poderá, se quiser, voltar para a floresta e viver uma vida de ascetismo. Não é pecado matar por uso da estratégia um inimigo que apelou para a estratégia. Ouvi dizer que o Atharva-veda tem encantos que podem comprimir o tempo e reduzir sua extensão. Se pudéssemos, com isso, comprimir treze anos em treze dias, e teríamos toda razão para fazer isso, permitiria que no décimo quarto dia, eu mate Duryodhana".

Ao ouvir essas palavras de Bhima, Dharmaputra o abraçou com afeição e tentou acalmar seu ímpeto. "Querido irmão, quando o período de treze anos acabar, Arjuna, o herói, com seu arco Gandiva, e você mesmo lutarão e matarão Duryodhana. Seja paciente até lá. Duryodhana e seus seguidores, que se afundaram em pecado, não podem escapar. Esteja certo disso". Enquanto os pesarosos irmãos debatiam dessa forma, o grande sábio Brihadaswa chegou no eremitério dos Pandavas e foi recebido com as devidas honras.

Depois de algum tempo, Yudhisthira disse a ele: "Venerável sábio, nossos inimigos trapaceiros nos chamaram para esse jogo de dados e nos enganaram, assim levaram nosso reino e riqueza, e exilaram meus heróicos irmãos, bem como Panchali e eu mesmo, na floresta. Arjuna, que nos deixou faz muito tempo para conseguir armas divinas, não voltou ainda e nós temos muita saudade dele. Ele voltará com armas divinas? E quando ele voltará? Com certeza, nunca houve ninguém mais neste mundo que sofre com tanta tristeza como eu".

O grande sábio respondeu: "Não deixe sua mente se afundar em tristeza. Arjuna voltará com armas divinas e conquistará seus inimigos no devido curso do tempo. Você disse que não tem mais ninguém no mundo tão triste como você. Isso não é verdade, apesar de todos, testados pela adversidade, terem inclinação para reivindicar a superioridade na tristeza, pois aquilo que sentimos é maior do que aquilo que vemos ou ouvimos falar. Você ouviu falar sobre o rei Nala de Nishadha? Ele passou por muito mais sofrimento na floresta do que você. Ele foi enganado num jogo de dados por Pushkara. Ele perdeu sua riqueza e reino e teve de ir para o exílio na floresta. Com menos sorte do que você, ele não tinha a companhia de seus irmãos ou brâmanes. A influência do demônio Kali, o espírito da Era da escuridão, retirou sua discriminação e bom senso. E sem saber o que fazia, abandonou sua esposa que o acompanhou, e vagueou pela floresta, solitário e quase louco. Agora, compare o seu estado com o dele. Você tem a companhia de seus heróicos irmãos e esposa dedicada, e tem o apoio de alguns brâmanes sábios em sua adversidade. Sua mente é sadia e sóbria. A autopiedade é natural, mas você não está assim tão mal".

O sábio narrou então a vida de Nala que compõe vinte e oito capítulos do grande épico. O sábio concluiu com essas palavras:

"Ó Pandava, Nala foi testado com sofrimentos mais aflitivos do que os seus, ainda assim ele triunfou sobre todos e sua vida terminou feliz. Você tem o alívio dum intelecto não nublado e a sociedade dos seus mais queridos e próximos. Você passa a maior parte de seu tempo na contemplação exaltada de dharma e na conversa com brâmanes que são bem versados nos Vedas e Vedantas. Suporte suas provações e sofrimento com firmeza, pois são o destino da pessoa e não peculiar de você".

Assim o sábio Brihadaswa consolou Yudhisthira.

 

Capítulo 31

Agastya

Os brâmanes que estavam com Yudhisthira em Indraprastha o acompanharam na floresta. Era difícil manter um estabelecimento tão grande.

Certo tempo depois que Arjuna foi em sua busca pela pashupata, um sábio brâmane chamado Lomasha veio à morada dos Pandavas.

Ele aconselhou Yudhisthira a minimizar sua comitiva antes de sair em peregrinação pois seria muito difícil mover dum lugar a outro com um grande cortejo.

Yudhisthira, que há muito sentia essa dificuldade, anunciou a seus seguidores que eles não eram acostumados a dificuldade e vida dura com pouca comida e o tinham acompanhado só por lealdade, agora podiam voltar a Dhritarastra ou, se preferissem, para Drupada, o rei de Panchala.

Depois, com o séqüito bem reduzido, os Pandavas partiram em peregrinação a lugares sagrados, e aprenderam as histórias e tradições de cada um deles. A história de Agastya é uma delas.

Agastya, certa vez, viu alguns espíritos ancestrais que balançavam a cabeça para baixo, e perguntou a eles quem eram e como ficaram naquela situação desagradável.

Eles responderam: "Caro filho, somos seus ancestrais. Se não pagar sua dívida conosco por se casar e ter filhos, não haverá ninguém depois de você para nos oferecer oblações. Por isso, recorremos a essa austeridade, para persuadi-lo a nos salvar desse risco".

Quando Agastya ouviu isso, decidiu se casar.

O monarca do reino de Vidarbha não tinha filhos, por isso era muito preocupado. Ele recorreu a Agastya para conseguir sua bênção. Quando lhe deu a bendição, Agastya anunciou ao rei que ele seria pai de uma linda filha, e ele estipulou, que lhe seria dada em casamento.

Logo, a rainha deu à luz uma menina que foi chamada Lopamudra. Ela cresceu e se tornou uma donzela de tão rara beleza e encanto que ficou célebre no mundo kshatriya. Mas nenhum príncipe ousava cortejá-la com medo de Agastya.

Mais tarde, o sábio Agastya veio a Vidarbha e demandou a mão da filha do rei. O rei ficou relutante em dar a princesa criada com tanta delicadeza em casamento a um sábio que vivia uma vida primitiva de habitante da floresta mas ao mesmo tempo temia a ira do sábio se dissesse não, e ficou mergulhado em tristeza.

Lopamudra, muito preocupada, descobriu a causa da infelicidade do pai e expressou sua prontidão, bem como seu desejo, de casar com o sábio.

O rei ficou aliviado, e o casamento de Agastya e Lopamudra foi celebrado devidamente. Quando a princesa se preparou para acompanhar o sábio, ele mandou que ela abandonasse suas roupas caras e jóias valiosas.

Sem questionar, Lopamudra distribuiu suas jóias e roupas reais para suas companheiras e atendentes, assim, ela se vestiu com pele de veado e cascas de árvores, e acompanhou o sábio com alegria.

Durante o tempo que Lopamudra e Agastya passaram na prática de austeridade e meditação em Gangadwara, surgiu um forte e permanente amor entre eles. Com a vida conjugal, a modéstia de Lopamudra diminuiu devido à falta de privacidade dum eremitério na floresta. E num dia, com vergonha e humildade, ela revelou sua mente a seu marido.

Ela disse: "Meu desejo é ter a cama real, as belas roupas e as jóias valiosas que eu tinha quando estava no palácio de meu pai e que você também tenha roupas e ornamentos esplêndidos. Assim poderemos aproveitar a vida com o coração feliz".

Agastya respondeu com um sorriso: "Eu não tenho nem a riqueza nem os recursos para prover o que você quer. Não somos mendigos que moram na floresta"?

Mas Lopamudra conhecia o poder místico de seu senhor yogi, e disse: "Senhor, você é todo poderoso pela força de suas austeridades. Você pode obter toda fortuna do mundo num instante se simplesmente desejar".

Agastya disse que era assim sem dúvida, mas, se ele gastasse suas austeridades em obter coisas de tão pouca importância como riqueza, chegariam à mingua muito rápido.

Ela respondeu: "Não é isso que quero. Eu desejo que você ganhe o recurso ordinário suficiente para vivermos com tranqüilidade e conforto".

Agastya concordou e saiu como um brâmane comum para mendigar de vários reis. Agastya foi até um rei que tinha a fama de ser muito rico. O sábio disse ao rei: "Eu vim em busca de riqueza. Dê-me o que procuro, sem causar qualquer perda ou dano a outros".

O rei apresentou um quadro verdadeiro da renda e gasto do estado, e disse a ele que estava livre para pegar o que achasse adequado. O sábio viu na contabilidade que não havia saldo disponível.

O gasto dum estado sempre tende a ser igual à sua renda. E parece que era assim antigamente também.

Ao ver isso, Agastya disse: "Aceitar qualquer presente desse rei, será sofrimento para os cidadãos. Por isso, vou procurar noutro lugar". O sábio estava pronto para partir quando o rei disse que também o acompanharia, e os dois partiram para outro estado, onde também encontraram os negócios do mesmo jeito.

Assim, Vyasa estabelece e ilustra a máxima de que um rei não deve taxar seus súditos mais do que o necessário para o gasto público verdadeiro, e se alguém aceitar como presente qualquer coisa da renda pública, aumentará o peso sobre os cidadãos na mesma medida.

Agastya achou melhor ir até o malévolo asura Ilvala e tentar a sorte. Ilvala e seu irmão Vatapi cultivavam um ódio implacável pelos brâmanes. E tinham um plano curioso para matá-los. Ilvala convidava um brâmane, com hospitalidade efetiva, para um banquete.

Com seu poder mágico, ele transformava seu irmão em cabrito e matava esse suposto cabrito para servir a carne ao convidado. Naquela época, os brâmanes costumavam comer carne. Quando o banquete terminava, Ilvala invocava seu irmão Vatapi para sair, pois ele sabia a arte de chamar os mortos que havia matado de volta à vida.

E Vatapi, que entrava como comida nas entranhas do pobre brâmane, brotava de dentro dele saudável e inteiro, e abria seu caminho com uma risada diabólica, e é claro que matava o convidado assim.

Dessa forma, muitos brâmanes morreram. Ilvala ficou muito feliz quando soube que Agastya estava nas redondezas, pois achava que ali estava um bom brâmane para cair em suas mãos.

Assim, ele lhe deu as boas vindas e preparou o banquete de costume. O sábio comeu com muito gosto Vatapi transformado em cabrito, e só faltava Ilvala chamar Vatapi para a cena de dilaceração. E, como de costume, Ilvala repetiu a fórmula mágica e gritou: "Vatapi saia"!

Agastya sorriu, esfregou suavemente seu estômago e disse: "Ó Vatapi, seja digerido pelo meu estômago para a paz e o bem do mundo". Ilvala gritou de novo, e repetidamente com medo frenético: "Vatapi saia"!

Não houve resposta e o sábio explicou a razão. Vatapi foi digerido. A mágica foi usada muitas vezes.

O asura se prostrou perante Agastya e entregou-lhe as riquezas que procurava. Assim o sábio conseguiu satisfazer o desejo de Lopamudra. Agastya perguntou a ela se preferia ter dez bons filhos comuns ou um filho super bom com a força de dez.

Lopamudra respondeu que preferia um filho excepcionalmente virtuoso e sábio. A história continua quando ela foi abençoada com um filho tão talentoso.

Certa vez, Vindhya ficou com inveja do monte Meru e tentou aumentar sua estatura, e obstruiu o Sol, a Lua e os planetas. Sem conseguir evitar esse perigo, os deuses procuraram a ajuda de Agastya. O sábio foi até a cordilheira Vindhya e disse:

"Melhor das montanhas, pare de crescer enquanto eu atravesso você no meu caminho para o sul e depois retorne para o norte. Depois que eu voltar, você poderá crescer à vontade. Espere até lá". Como a cordilheira Vindhya respeitava Agastya, atendeu seu pedido.

Agastya nunca mais voltou para o norte, mas se estabeleceu no sul, assim, Vindhya tem seu crescimento suspenso até hoje. Essa é a história narrada no Mahabharata.

 

Capítulo 32

Rishyashringa

É um erro achar que é fácil para uma pessoa levar uma vida de castidade se foi criada em ignorância completa sobre prazeres sensuais. A virtude guardada apenas pela ignorância é muito insegura como ilustra a história seguinte. O Ramayana também conta, mas não com tantos detalhes.

Vibhandaka, que era brilhante como Brahma, o criador, vivia com seu filho Rishyashringa na floresta. Este nunca se encontrou com qualquer mortal, homem ou mulher, exceto seu pai.

Certa vez, o estado de Anga sofreu uma terrível carestia. As plantações secaram devido à falta de chuva e as pessoas morriam por falta de comida. Todos os seres vivos sofriam. Romapada, o rei do país, aproximou-se dos brâmanes para receber conselhos sobre algum meio para salvar o reino da fome.

Os brâmanes responderam: "Melhor dos reis, há um jovem sábio chamado Rishyashringa que vive uma vida de castidade perfeita. Convide-o para seu reino. Ele adquiriu o poder, por suas austeridades, de trazer chuva e abundância onde quer que ele esteja".

O rei discutiu com os conselheiros da corte sobre uma forma de trazer Rishyashringa do eremitério do sábio Vibhandaka. E conforme o conselho deles, ele reuniu as cortesãs mais atraentes da cidade e confiou-lhes a missão de trazer Rishyashringa para Anga.

As damas ficaram num dilema. Num lado, temiam desobedecer o rei. Noutro, também temiam a ira do sábio. Finalmente, elas se prepararam para ir, com confiança na Providência para ajudá-las, na realização duma boa ação para salvar a terra atacada pela fome.

Elas foram devidamente bem equipadas antes que seu empreendimento partisse para o eremitério na floresta. A líder desse grupo de cortesãs construiu um belo jardim dentro dum grande barco, com árvores e plantas artificiais, e com uma imitação de ashrama no centro.

Ela atracou o barco num rio perto do eremitério de Vibhandaka, e as cortesãs foram em visita ao eremitério com os corações palpitantes. Para a sorte delas, o sábio não estava em casa. Assim, perceberam que era o momento oportuno e mandaram uma das damas mais lindas para o filho do sábio.

Então, ela disse a Rishyashringa: "Grande sábio, você está bem? Tem raízes e frutas suficientes? As penitências dos rishis na floresta procedem com satisfação? A glória de seu pai cresce constantemente? Seu estudo dos Vedas progride"? Era assim que os rishis costumavam se cumprimentar naquele tempo.

O jovem penitente nunca viu antes uma forma humana tão bela nem ouviu uma voz tão meiga.

O anseio do instinto por sociedade, especialmente pelo sexo oposto, mesmo sem ver nenhuma mulher antes, começou a trabalhar dentro de sua mente no momento que se deparou com aquela forma graciosa.

Ele pensou que ela era um jovem sábio como ele, e sentiu uma estranha alegria irreprimível que surgia da sua alma. Ele respondeu, com seus olhos fixos no interlocutor:

"Você parece um brahmachari brilhante. Quem é você? Eu me prostro a você. Onde fica seu eremitério? Quais austeridades você pratica"? e prestou a ela as oferendas de costume.

Ela disse a ele: "Meu ashrama fica a uma distância de três yojanas daqui. Trouxe frutas para você. Não sou digno de receber suas reverências, mas retribuirei sua recepção e saudação como é nosso costume". Ela o abraçou com ternura, deu-lhe doces para comer, enfeitou-o com colares de flores perfumadas e serviu-lhe bebidas.

Ela o abraçou novamente, e disse que essa era sua forma de saudação para convidados de honra. Ele achou isso muito agradável.

Pouco depois, com medo que o sábio Vibhandaka voltasse, a cortesã se despediu de Rishyashringa ao dizer que era hora de realizar o sacrifício agnihotra e saiu gentilmente do eremitério.

Quando Vibhandaka voltou para o eremitério, ficou chocado ao ver o local tão desleixado com doces espalhados por todos os lados, pois a limpeza não foi feita. As plantas e arbustos pareciam arrancados e amassados.

A face de seu filho não tinha o lustre de costume mas parecia nublada e perturbada por uma tempestade de paixão. Os deveres simples cotidianos do eremitério foram negligenciados.

Vibhandaka ficou irritado e perguntou a seu filho: "Querido menino, por que você não coletou a lenha do fogo sagrado? Quem quebrou essas belas plantas e arbustos? Você ordenhou a vaca? Alguém veio aqui para lhe servir? Quem lhe deu esse colar de flores estranho? Por que você está tão preocupado"?

O simples e ingênuo Rishyashringa respondeu: "Um brahmachari de forma esplêndida veio aqui. Eu não consigo descrever seus brilho e beleza ou a doçura de sua voz. Meu eu interior se encheu com uma felicidade e afeição indescritíveis quando ouvi sua voz e olhei em seus olhos. Quando ele me abraçou, que parece ser seu cumprimento de costume, experimentei uma alegria que nunca senti antes, nem mesmo quando comi as frutas mais doces", então ele descreveu para seu pai a forma, beleza e os feitos de seu belo visitante.

Rishyashringa acrescentou melancólico: "Meu corpo parece queimar de desejo em ter a companhia daquele brahmachari e eu quero ir e encontrá-lo e trazê-lo aqui de alguma forma. Como posso explicar-lhe sobre sua devoção e brilho? Meu coração palpita para vê-lo"?

Quando Rishyashringa expressou abertamente os anseios e perturbações que até então lhe eram estranhos, Vibhandaka entendeu o que aconteceu. Ele disse: "Filho, não foi um brahmachari que você viu, mas um demônio malicioso que tentou, como fazem os demônios, nos enganar e obstruir nossas penitências e austeridades. Eles recorrem a muitos tipos de trapaças e estratégias com esse propósito. Não deixe que se aproximem de você".

Depois disso, Vibhandaka procurou em vão durante três dias na floresta os vilões que causaram aquele dano, e voltou frustrado em seu objetivo.

Noutra ocasião, quando Vibhandaka saiu do eremitério para colher raízes e frutas, a cortesã veio novamente com muita gentileza ao local onde Rishyashringa estava sentado. Tão logo a viu à distância, Rishyashringa saltou e correu para encontrá-la arrebatado, assim como a água represada jorra dum reservatório que teve um vazamento.

Mesmo sem esperar ser convidado, Rishyashringa chegou perto dela e depois das saudações costumeiras, disse: "Ó brilhante brahmachari, antes que meu pai volte, vamos ao seu eremitério".

Isso era tudo que ela esperava e trabalhou para. E os dois juntos entraram no barco, que foi feito para parecer um eremitério. Logo que o jovem sábio entrou, o barco desancorou e flutuou suavemente com seu passageiro bem vindo para o reino de Anga.

Como é de se esperar, o jovem sábio teve uma viagem muito agradável e interessante, e quando chegou em Anga, com certeza, sabia muito mais sobre o mundo e seus costumes do que quando estava na floresta.

A chegada de Rishyashringa alegrou Romapada infinitamente, e levou seu convidado bem vindo até os luxuosos aposentos internos preparados especialmente para ele.

Como profetizado pelos brâmanes, a chuva começou a cair no instante em que Rishyashringa pôs seus pés no país. Os rios e lagos encheram e as pessoas ficaram felizes. Romapada deu sua filha Shanta em casamento a Rishyashringa.

Apesar de tudo terminar como planejado, o rei estava com sua mente inquieta, pois temia que Vibhandaka viesse à procura de seu filho e pronunciasse uma maldição contra ele.

Assim, ele pensou em abrandar Vibhandaka e mandou revestir o caminho que tomaria com gado e semelhantes, e instruiu os pastores a dizerem que eram servos de Rishyashringa e vieram para honrar o pai de seu mestre e colocarem-se a seu serviço.

Sem encontrar seu filho em nenhum lugar do eremitério, o furioso Vibhandaka achou que isso podia ser obra do rei de Anga.

Ele atravessou os rios e as vilas do caminho e marchou até a capital do rei como se fosse queimá-lo com sua ira. Mas em cada estágio da jornada ele via grandes rebanhos que pertenciam a seu filho e era bem vindo com muito respeito pelos serventes de seu filho, seu humor de ira passou gradualmente à medida que se aproximava da capital.

Quando chegou à capital, foi recebido com grande honra e levado ao palácio do rei onde viu seu filho sentado num estado semelhante ao rei dos deuses no céu. Ele viu ao lado dele sua esposa, a princesa Shanta, cuja grande beleza o acalmou e agradou.

Vibhandaka abençoou o rei. Ele deu a seguinte ordem a seu filho: "Faça tudo para agradar este rei. Depois que nascer um filho, venha e fique comigo na floresta". Rishyashringa fez conforme seu pai lhe mandou.

Lomasha concluiu a história com essas palavras dirigidas a Yudhisthira: "Como Damayanti e Nala, Sita e Rama, Arundhati e Vasistha, Lopamudra e Agastya, e Draupadi e você mesmo, Shanta e Rishyashringa se estabeleceram na floresta em período integral e passaram suas vidas em amor mútuo e adoração a Deus. Aqui é o eremitério onde Rishyashringa viveu. Banhem-se nessas águas e se purifiquem". Os Pandavas se banharam lá e realizaram suas práticas de devoção.

 

Capítulo 33

Penitência Infrutífera

No curso de sua peregrinação, os Pandavas chegaram no eremitério de Raibhya nas margens do rio Ganges.

Lomasha lhes contou a história do lugar: "Este é o ghat onde Bharata, o filho de Dasharatha, tomou banho. Estas águas purificaram Indra do pecado de matar Vritra injustamente. Aqui também Sanat-kumara se tornou uno com Deus. Aditi, a mãe dos deuses, ofereceu oblações nesta montanha e orou para ser abençoada com um filho. Ó Yudhisthira, suba esta montanha sagrada e os infortúnios, que colocaram uma nuvem em sua vida, desaparecerão. Ira e paixão serão lavadas se você tomar banho nas águas correntes deste rio".

Então Lomasha descreveu extensamente com muitos detalhes a santidade do local.

Ele começou a seguinte história: "Yavakrida, filho dum sábio, encontrou a destruição aqui neste lugar".

Ele continuou: "Havia dois brâmanes eminentes que viviam em seus eremitérios, chamados Bharadwaja e Raibhya, que eram amigos queridos. Raibhya e seus dois filhos, Paravasu e Arvavasu, aprenderam os Vedas e se tornaram eruditos famosos. Bharadwaja se dedicou plenamente à adoração a Deus. Ele tinha um filho chamado Yavakrida que via com ciúme e ódio os brâmanes que não respeitavam seu pai renunciado da mesma forma como faziam com o sábio Raibhya. Yavakrida praticou severas austeridades para assim despertar a compaixão de Indra, que apareceu e perguntou-lhe por que mortificava tanto sua carne".

Yavakrida respondeu: "Quero ser erudito nos Vedas mais do que qualquer outro foi antes. Quero ser um grande homem culto. Faço estas austeridades para realizar esse desejo. Leva muito tempo e dá muito trabalho aprender os Vedas dum professor. Pratico austeridades para adquirir esse conhecimento diretamente. Abençoe-me".

Indra sorriu e disse: "Ó brâmane, você está no caminho errado. Volte para casa, procure um preceptor adequado e aprenda os Vedas dele. Austeridade não é o caminho para aprender. O caminho é estudo e somente estudo". Com essas palavras, Indra desapareceu. Mas o filho de Bharadwaja não desistiu.

Ele seguiu seu curso de austeridades com ainda mais rigor, para o terror e a aflição dos deuses. Indra se manifestou outra vez perante Yavakrida e o advertiu novamente:

"Você seguiu o caminho errado para adquirir conhecimento. Seu pai aprendeu os Vedas com estudo paciente e você também pode. Vá e estude os Vedas. Desista dessa mortificação fútil do seu corpo".

Yavakrida não deu atenção a essa segunda advertência de Indra e declarou desafiante que se sua prece não fosse atendida, cortaria seus membros um por um e os ofereceria como oblações no fogo. Não, ele nunca desistiria.

Assim continuou sua penitência. Numa manhã, durante suas austeridades, quando foi tomar banho no Ganges, viu um velho brâmane esquelético na margem, concentrado no trabalho de jogar punhados de areia na água.

Yavakrida perguntou: "Senhor, o que você faz"? O velho respondeu: "Vou construir uma barragem neste rio. Depois, punhado após punhado, quando eu construir uma barragem de areia aqui, as pessoas poderão atravessar o rio bem fácil. Veja como é difícil atravessá-lo agora. Trabalho muito útil, não é"?

Yavakrida riu e disse: "Que tolo é você de achar que pode construir uma barragem sobre este rio poderoso com simples punhados de areia! Desperte e faça algum outro trabalho mais útil".

O velho disse; "Será que meu projeto é mais tolo que o seu de dominar os Vedas não por estudo mas sim por austeridades"? Yavakrida agora entendeu que o velho era Indra. Mais humilde desta vez, Yavakrida suplicou com sinceridade que Indra lhe desse o aprendizado como bênção pessoal.

Indra o abençoou e animou Yavakrida com as seguintes palavras:

"Está bem, eu lhe concedo a bênção que procura. Vá e estude os Vedas; você se tornará sábio".

 

Capítulo 34

O Fim de Yavakrida

Yavakrida estudou os Vedas e se tornou sábio. Assim ficou mais vaidoso com a idéia de que adquiriu o conhecimento dos Vedas pela bênção de Indra e não pela tutela humana.

Bharadwaja não gostou disso e temia que seu filho se arruinasse por menosprezar Raibhya. Ele sentiu a necessidade de alertá-lo. Ele disse: "Os deuses concedem bênçãos a pessoas tolas que praticam penitências com persistência, do mesmo modo que tóxicos são vendidos aos tolos por dinheiro. Isso leva à perda do autocontrole, e conduz à deturpação da mente e posterior destruição". Assim ilustrou seu conselho com uma narração antiga, como se segue.

Antigamente, havia um célebre sábio chamado Baladhi. Ele tinha um filho cuja morte precoce o deixou muito angustiado. Então, praticou penitências rigorosas para ter um filho que nunca encontrasse a morte.

Os deuses disseram ao sábio que isso nunca aconteceria, pois a raça humana é obrigatoriamente mortal, e tem que haver um limite para a vida humana. Eles pediram a ele para determinar seu próprio limite.

O sábio respondeu: "Nesse caso, concedam que a vida do meu filho persista até que essa montanha exista". A bênção lhe foi assim concedida e ele foi devidamente abençoado com um filho chamado Medhavi.

Medhavi cresceu vaidoso com a idéia de que estava livre da morte para sempre, pois viveria enquanto a montanha existisse, assim se comportava com arrogância em relação a todos.

Certo dia, esse homem vaidoso desrespeitou um grande sábio chamado Dhanushaksha. De imediato, o sábio o amaldiçoou para que se transformasse em cinzas, mas a maldição não fez efeito em Medhavi que permaneceu em perfeita saúde.

Ao ver isso, o sábio de alma elevada ficou confuso e então se lembrou do dom recebido por Medhavi em seu nascimento. Dhanushaksha assumiu a forma dum enorme búfalo selvagem com o poder de suas penitências e chifrou a montanha até desmanchá-la em pedaços, assim Medhavi caiu morto.

Bharadwaja concluiu a história com essa advertência solene a seu filho: "Aprenda sabedoria dessa história antiga. Não se arruíne com vaidade. Cultive autocontrole. Não transgrida os limites da boa conduta e não desrespeite o grande Raibhya".

Era primavera. As árvores e os arbustos estavam lindos com flores e toda a floresta estava deslumbrante, colorida e com o doce canto dos pássaros.

Toda a terra parecia estar sob o encanto do deus do amor. A esposa de Paravasu passeava sozinha num jardim perto do eremitério de Raibhya. Ela perecia mais do que humana, na doce união de sua beleza, coragem e pureza.

Nesse momento, Yavakrida passou por lá e ficou tão arrebatado por seu encanto que perdeu o juízo e o controle e ficou como um animal enfurecido pela luxúria.

Ele a abordou e aproveitou a vantagem de seu medo, vergonha e desconcerto para arrastá-la até um lugar solitário onde violou sua pessoa.

Raibhya voltou a seu eremitério. Encontrou sua nora a chorar, humilhada e inconsolável, assim soube do vergonhoso ultraje sofrido por ela e foi tomado por uma fúria implacável. Ele arrancou um cabelo de sua cabeça e o ofereceu ao fogo com a pronúncia dum mantra.

De imediato, uma donzela, tão linda como sua nora, emergiu do fogo de sacrifício.

O sábio puxou outro cabelo de seu tufo emaranhado e ofereceu como oblação. Um fantasma terrível surgiu do fogo. O sábio ordenou a eles que matassem Yavakrida. Os dois se prostraram à ordem.

Enquanto Yavakrida executava seus rituais matinais, o espírito feminino chegou perto dele e com sorrisos e tentações fez com que abaixasse a guarda, assim fugiu com seu pote d'água, o fantasma masculino correu em direção a ele com a lança erguida.

Yavakrida se levantou com medo. Ele sabia que seus mantras não teriam efeito até que se purificasse com água, assim procurou seu pote d'água. Quando viu que não estava lá, correu até uma lagoa atrás de água mas a lagoa estava seca. Ele foi até uma nascente próxima, que também secou quando ele se aproximou.

Não tinha água para ele em nenhum lugar. O terrível demônio o perseguia por toda parte e Yavakrida fugiu por sua vida, com o demônio ardente em seus calcanhares. Seu pecado consumiu o poder de suas vigílias e jejuns. Por último, ele procurou refúgio na sala de sacrifícios de seu pai.

O homem meio cego que guardava o eremitério o impediu pois não conseguiu reconhecer Yavakrida, assim, corrompido com medo mortal, ele tentou forçar sua entrada. Nesse momento, o demônio o alcançou e o matou com sua lança.

Quando Bharadwaja voltou a seu eremitério, deparou-se com o cadáver de seu filho e concluiu que o desrespeito a Raibhya o conduziu a esse destino cruel.

"Ai de mim! Meu filho, você morreu por causa de seu orgulho e vaidade. Não foi um grande erro tentar aprender os Vedas duma forma não recorrida por nenhum brâmane? Por que se comportou assim para ser amaldiçoado dessa forma? Raibhya, que causou a morte de meu único filho, seja morto por um de seus filhos"! Assim, arrebatado pela raiva e angústia, o sábio amaldiçoou Raibhya.

Ao recobrar o controle logo depois, ele exclamou em agonia: "Ai de mim! Os únicos abençoados são os que não têm filhos. Eu não apenas perdi meu único filho, como também na loucura de meu pesar amaldiçoei meu amigo e companheiro. Qual a utilidade de continuar minha vida"? Ele cremou o corpo de seu filho e morreu ao se jogar na pira funeral.

 

Capítulo 35

Mero Conhecimento Não É Suficiente

O rei Brihadyumna, um discípulo do sábio Raibhya, executou um grande sacrifício no qual solicitou a seu mestre que deixasse seus dois filhos Paravasu e Arvavasu serem ordenados. Com a permissão de seu pai, os dois foram felizes para a capital do rei.

Certo dia enquanto o sacrifício era preparado, Paravasu desejou ir ver sua esposa e, depois de andar sozinho toda noite, chegou no eremitério antes do amanhecer. Perto do eremitério, ele viu no crepúsculo o que parecia uma fera de rapina a devorar sua presa, assim arremessou sua arma em direção a ela, e a matou.

Mas para seu terror e pesar, ele descobriu que tinha matado seu próprio pai vestido com peles, ao confundi-lo com um habitante selvagem da floresta. Ele realizou que o erro fatal foi pelo efeito da maldição de Bharadwaja.

Quando executou com pressa os rituais funerais de seu pai, foi até Arvavasu e lhe contou a dolorosa ocorrência. Ele disse: "Mas esse infortúnio não deve interferir no sacrifício do rei. Por favor, faça os rituais por mim como expiação pelo pecado que cometi involuntariamente. Existe, misericordiosamente, expiação para pecados cometidos em ignorância. Se você puder ser meu substituto aqui para se submeter à expiação, eu poderei ir e ajudar na condução do sacrifício do rei. Eu posso realizar sem ajuda, que é algo que você ainda não pode fazer".

O irmão virtuoso concordou e disse: "Você pode ajudar o sacrifício do rei. Eu farei a penitência para livrá-lo da terrível mancha por ter matado um pai e um brâmane".

O virtuoso Arvavasu, dessa forma, assumiu os ritos expiatórios em favor de seu irmão. Assim feito, ele foi para a corte do rei encontrar seu irmão e ajudar no sacrifício.

O pecado de Paravasu não foi lavado pois expiação não pode ser feita por procuração. Assim, sua mente foi manchada com desígnios malévolos.

Com ciúme da radiação da face de seu irmão, Paravasu decidiu desonrá-lo e lançar uma injustiça à sua pessoa, e dessa forma, quando Arvavasu entrou no salão, Paravasu exclamou alto para que o rei pudesse ouvir:

"Esse homem cometeu o pecado de matar um brâmane, como pode entrar aqui neste lugar sagrado de sacrifício"?

Arvavasu negou indignado a acusação mas ninguém acreditou nele, e ele foi vergonhosamente expulso do salão de sacrifício por ordem do rei.

Arvavasu protestou sua inocência repetidamente. "Foi meu irmão quem cometeu o pecado mas mesmo assim foi por causa dum engano. Eu o salvei pois executei os rituais expiatórios".

Isso piorou ainda mais sua situação pois ninguém acreditou que a expiação que ele havia se submetido não era para o crime que havia cometido e todos pensaram que ele fez uma acusação falsa contra seu irmão inocente, para seus outros pecados.

O virtuoso Arvavasu, acusado falsamente dum crime monstruoso, também foi difamado como mentiroso, assim se retirou para a floresta em desespero para encontrar justiça no mundo e se sujeitou a rigorosas austeridades.

Os deuses ficaram benevolentes e lhe perguntaram: "Ó alma virtuosa, que bênção você procura"? Pensamento elevado e meditação profunda nesse meio tempo causaram a limpeza de seu coração de toda a ira pela conduta de seu irmão, e portanto, ele pediu apenas que seu pai pudesse voltar à vida e que seu irmão pudesse se livrar da maldade e dos pecados que cometeu.

Os deuses concederam essa prece.

Lomasha narrou essa história a Yudhisthira perto do local do eremitério de Raibhya e disse: "Ó Pandavas, tomem banho aqui e lavem suas paixões neste rio sagrado".

Arvavasu e Paravasu eram filhos de um grande sábio erudito. Os dois aprenderam a seus pés e também se tornaram eruditos eminentes.

Mas conhecimento é uma coisa e virtude é outra bem diferente. Claro que a pessoa deve saber a diferença entre bem e mal, se quiser procurar o bem e se afastar do mal. Mas esse conhecimento deve saturar cada pensamento e influenciar cada ato da vida da pessoa.

Então de fato conhecimento se torna virtude. O conhecimento que é meramente informação tão indigesta abarrotada na mente, não pode instigar a virtude.

É como uma mostra externa como nossas roupas e não nossa parte real.

 

Capítulo 36

Ashtavakra

Certo dia enquanto os Pandavas peregrinavam pelos locais sagrados na floresta, chegaram ao eremitério de personagens imortalizados nos Upanishads. Lomasha contou a Yudhisthira a história daquele lugar.

Udalaka, grande sábio e mestre do Vedanta, tinha um discípulo chamado Kagola, que era virtuoso e devotado mas não tinha muito conhecimento. Por isso, os outros discípulos costumavam rir e zombar dele.

Udalaka, entretanto, não se importava com a falta de erudição de seu discípulo mas na realidade apreciava suas virtudes, devoção e boa conduta, assim deu sua filha Sujata em casamento a ele.

O casal foi abençoado com um filho. Uma criança geralmente herda as características de seus pais. Mas pela boa sorte, o neto de Udalaka puxou seu avô em vez de seu pai e conhecia os Vedas mesmo quando ainda estava dentro do ventre da mãe.

Quando Kagola cometia erros, como costumava fazer sempre que recitava os Vedas, a criança no ventre mexia seu corpo de dor, isso fez com ele tivesse oito dobras arqueadas em seu corpo quando nasceu.

Por causa dessas oito dobras, ele ganhou o nome Ashtavakra, que significa "oito dobras arqueadas". Kagola, num dia fatídico, provocou uma discussão polêmica com Vandi, o sábio da corte de Mithila, como foi derrotado, teve que se afogar.

Nesse meio tempo, Ashtavakra cresceu e se tornou um erudito muito elevado mesmo em sua adolescência, e quando fez doze anos de idade, já tinha completado seu estudo dos Vedas e Vedanta.

Certo dia, Ashtavakra soube que Janaka, o rei de Mithila, executava um grande sacrifício e como de costume os sábios reunidos debatiam os shastras.

Ashtavakra partiu para Mithila, acompanhado de seu tio Svetaketu. No caminho para o local do sacrifício em Mithila, eles se encontraram com o rei e seu séqüito.

Os guardas do rei marchavam na frente e gritavam: "Saiam do caminho. Dêem passagem para o rei". Ashtavakra em vez de sair do caminho disse aos guardas:

"Ó guardas reais, mesmo o rei, se for justo, tem que sair e dar passagem para o cego, o deficiente físico, o belo sexo, pessoas que carregam peso e brâmanes sábios nos Vedas. Essa é a regra estabelecida nas escrituras".

O rei, surpreso com essas palavras sábias do menino brâmane, aceitou a exatidão da repreensão e abriu caminho, assim disse a seus guardas: "O que esse menino brâmane diz é verdade. Fogo é fogo seja pequeno ou grande e tem o poder de queimar".

Ashtavakra e Svetaketu entraram no salão de sacrifício. O porteiro os parou e disse: "Meninos não podem entrar. Só homens idosos versados nos Vedas podem entrar no salão de sacrifício".

Ashtavakra respondeu: "Não somos meninos comuns. Nós observamos os votos necessários e aprendemos os Vedas. Quem dominou as verdades do Vedanta não julga outro por meras considerações de idade ou aparência".

O porteiro disse: "Pare. Termine sua jactância inútil. Como você, um simples menino, aprendeu e realizou o Vedanta"?

O menino disse: "Você quer dizer que não sou como uma grande cabaça sem nenhuma substância em seu interior? Tamanho não é indicação de conhecimento ou valor, nem idade. Um homem idoso muito alto pode ser um velho alto tolo. Deixe-me passar".

O porteiro disse: "Com certeza, você não é velho, nem alto, apesar de falar como os sábios idosos. Vá embora".

Ashtavakra respondeu: "Porteiro, cabelos grisalhos não provam a maturidade da alma. O verdadeiro homem maduro é aquele que aprendeu os Vedas e os Vedangas, dominou seu núcleo e realizou sua essência. Estou aqui para encontrar o pandita da corte, Vandi. Informe ao rei Janaka do meu desejo".

Nesse momento, o rei veio até ali e reconheceu com facilidade Ashtavakra, o menino sábio precoce que tinha encontrado antes.

O rei perguntou: "Você sabe que meu pandita da corte, Vandi, derrotou com argumentos muitos outros grandes acadêmicos antes e fez com que fossem jogados no oceano? Isso não o intimida para essa aventura perigosa"?

Ashtavakra respondeu: "Seu acadêmico eminente não encontrou até então alguém como eu, que sou perito nos Vedas e no Vedanta. Ele se tornou arrogante e vaidoso com vitórias fáceis contra bons homens que não eram acadêmicos verdadeiros. Eu vim aqui para pagar a dívida com meu pai, que foi derrotado por esse homem e teve que se afogar, como ouvi de minha mãe. Eu não tenho dúvida que vou vencer Vandi, quem você verá despedaçado como uma carroça quebrada. Por favor, chame-o".

Ashtavakra encontrou Vandi. Eles começaram uma tese de debate e partiram para a argumentação, cada um empregava seu conhecimento mais elevado com perspicácia para confundir o outro. E no fim, a assembléia em unanimidade declarou a vitória de Ashtavakra e a derrota de Vandi.

O pandita da corte de Mithila abaixou sua cabeça e pagou a penalidade de se afogar no oceano e ir para a morada de Varuna. Então o espírito de Kagola, o pai de Ashtavakra, obteve a paz e regozijou a glória de seu filho.

O autor do épico nos instrui com essas palavras saídas da boca de Kagola: "Um filho não tem de ser como seu pai. Um pai que é fraco fisicamente pode ter um filho muito forte e um pai ignorante pode ter um filho erudito. É errado estimar a grandeza de uma pessoa pela aparência física ou idade. As aparências externas são enganosas". O que prova que o não letrado Kagola não era desprovido de bom senso.

 

Capítulo 37

Bhima e Hanuman

Draupadi costumava reclamar com freqüência: "Esta floresta Kamyaka não é tão bela sem Arjuna. Eu não acho nenhuma alegria na vida com a ausência de Arjuna".

Os outros Pandavas compartilhavam a tristeza de Draupadi com a separação de Arjuna, que tinha ido ao Himalaia em busca de armas divinas.

Bhimasena disse a Draupadi: "Abençoada senhora, sinto o mesmo em relação a Arjuna e o que você diz me deixa emocionado com amor e simpatia. Com a ausência de Arjuna, esta bela floresta parece desolada. Minha mente não pode conhecer a paz sem ver Arjuna. Sahadeva, como você se sente"?

Sahadeva disse: "Este eremitério parece vazio sem Arjuna. Deveríamos experimentar uma mudança de cenário para ver se conseguimos suportar melhor a dor de separação".

Yudhisthira se dirigiu a seu sacerdote Dhaumya e disse: "Mandei meu irmão mais novo Arjuna conquistar armas divinas. Esse intrépido e hábil herói ainda não voltou. Nós o mandamos ao Himalaia para obter de Indra, o rei dos deuses, armas com as quais possamos vencer Bhisma, Drona, Kripa e Asvathama, pois é certeza que esses heróis lutarão no lado dos filhos de Dhritarastra. Karna conhece o segredo das armas divinas, e seu maior desejo é lutar com Arjuna. Mandei Arjuna conseguir a graça de Indra e obter armas dele pois os heróis Kauravas não podem ser derrotados por outros meios. Por tê-lo mandado a uma missão tão difícil, não podemos viver aqui felizes, pois sentimos a falta dele em todos nossos abrigos de costume. Eu quero ir para outro lugar, pois isso fará com que suportemos melhor a separação. Você pode sugerir onde podemos ir"?

Dhaumya descreveu muitas florestas e lugares sagrados. Os Pandavas fizeram o circuito por todos esses lugares para aliviar até certo ponto a dor da separação.

Assim passaram muitos anos em peregrinação e ouviram as tradições que santificam cada santuário. Draupadi se sentia exausta com freqüência por atravessar montanhas e florestas. Bhima, algumas vezes com a ajuda de seu filho Ghatotkacha, fazia os serviços básicos e os encorajava, assim tornava o trabalho deles mais fácil.

No curso de sua peregrinação pela região do Himalaia, chegaram numa floresta terrível onde a trilha era fechada e íngreme.

Yudhisthira estava preocupado e disse a Bhima que o caminho causaria muito desgaste a Draupadi mas ele seguiria acompanhado por Nakula e o sábio Lomasha.

Ele sugeriu que Bhima e Sahadeva ficassem para trás em Gangadwara com Draupadi. Bhima não concordou. Ele disse que a dor de separação de Arjuna deveria ter ensinado seu irmão o quanto sofreria se fosse separado de Sahadeva, Draupadi e Bhima.

Além do mais, Bhima não poderia deixar Yudhisthira sozinho nesta floresta infestada de rakshasas, demônios e animais selvagens. O caminho era difícil mas ele poderia carregar facilmente Draupadi pelas partes mais difíceis. Ele poderia carregar Nakula e Sahadeva também.

Quando Bhima disse essas palavras, Yudhisthira o abraçou e o abençoou assim desejou que ele aumentasse sua força física. Draupadi sorriu e disse a Yudhisthira: "Ninguém precisa me carregar. Eu posso andar. Não fique ansioso por minha causa".

Eles chegaram em Kulinda, reino de Subahu, no Himalaia, onde aceitaram as honras prestadas pelo rei e descansaram por algum tempo. Depois, foram para a encantadora floresta Narayanashrama onde descansaram.

Certo dia, uma brisa que soprava do nordeste trouxe uma bela flor para perto de Draupadi. Draupadi a pegou em suas mãos e ficou tão encantada com sua fragrância e beleza que a mostrou com enlevo a Bhima.

"Venha e veja esta flor. Que fragrância doce! Que encantadora! Eu vou dá-la a Yudhisthira. Traga algumas flores desta espécie. Vamos cultivar esta planta em nossa floresta Kamyaka". Draupadi correu para dar a flor a Yudhisthira.

Ansioso para agradar sua amada Draupadi, Bhima foi à procura daquela planta. Assim, foi sozinho na direção donde a fragrância perecia vir com a brisa, sem perder nenhum momento com as feras selvagens que atravessavam seu caminho.

Até que chegou num jardim de árvores floridas no pé duma montanha, onde ele avistou um enorme macaco que brilhava como o fogo ardente, e estava deitado através de seu caminho como um obstáculo.

Ele tentou afugentar o animal de seu caminho com gritos. Mas ele apenas abriu seus olhos pela metade e balbuciou: "Estou indisposto por isso que me deitei aqui. Por que você me acordou? Você é um ser humano inteligente e eu sou um mero animal. É próprio para seres humanos racionais terem compaixão pelos animais como criaturas inferiores. Temo que você seja ignorante sobre o que é certo e o que é errado. Quem é você? Aonde você quer ir? Não é possível seguir adiante no caminho desta montanha pois é um caminho dos deuses. Seres humanos não podem ir além deste limite. Coma o que quiser das frutas deste local e se você for esperto, vá embora em paz".

Bhima, sem estar acostumado a tratamento tão dócil, ficou furioso e gritou: "Quem é você, seu macaco, que fala dum jeito tão sofisticado? Eu sou um herói kshatriya, um descendente da dinastia Kuru e um filho de Kunti. Saiba que sou filho do deus do vento. Saia do caminho agora ou me impeça para seu próprio risco".

Ao ouvir essas palavras, o macaco simplesmente sorriu e disse: "Eu sou, como você disse, um macaco, mas você será destruído se tentar forçar a passagem".

Bhima disse: "Não quero o seu conselho e não é problema seu se eu me deparar com a destruição. Levante-se e saia do caminho senão eu vou tirá-lo".

O macaco respondeu: "Não tenho forças para me levantar, pois sou apenas um macaco muito velho. Se você quer passar a todo custo, pule sobre mim".

Bhima disse: "Assim seria bem fácil mas as escrituras proíbem. Senão eu pularia sobre você e a montanha de uma vez só, como Hanuman que atravessou o oceano".

O macaco exclamou com se estivesse surpreso: "Ó melhor dos homens, quem é esse Hanuman que atravessou o oceano? Se você sabe essa história, conte-me".

Bhima rugiu e disse: "Você nunca ouviu falar de Hanuman, meu irmão mais velho, que atravessou o oceano, com cem yojanas de extensão, para procurar e encontrar Sita, a esposa de Rama? Eu sou igual a ele em força e valentia. Bem, isso é conversa suficiente, agora levante e saia do caminho, e não me provoque pois posso machucá-lo".

O macaco respondeu: "Ó herói poderoso, tenha paciência. Seja amável por ser forte, e tenha compaixão pelos idosos e fracos. Não tenho forças para me levantar pois estou debilitado pela idade avançada. Como você tem escrúpulos de pular sobre mim, faça a gentileza de passar ao lado da minha cauda e assim abrir seu caminho".

Orgulhoso por causa de sua imensa força, Bhima pensou em puxar o macaco pela cauda e abrir seu caminho. Mas para seu espanto, não pôde movê-lo nem um milímetro sequer apesar de empregar toda sua força.

Ele cerrou seus dentes e comprimiu cada músculo até os tendões estalarem, assim ficou coberto de suor. Mesmo assim, não conseguiu mover aquela cauda nem um milímetro, nem um pouco para cima ou para baixo ou para os lados. Envergonhado, ele baixou sua cabeça e perguntou de forma humilde:

"Quem é você? Perdoe-me e me revele se é um Siddha, deus ou Gandharva". Bhima, assim como a maioria dos homens fortes, tinha muito respeito quando se deparava com alguém mais forte do que ele, por isso falou como um discípulo que se dirige a seu mestre.

Hanuman respondeu: "Ó Pandava de braços poderosos, saiba que sou seu irmão, esse mesmo Hanuman, filho do deus do vento, que você mencionou agora a pouco. Se você prosseguir nesse caminho, que é a estrada para o mundo espiritual onde os Yakshas e Rakshasas vivem, vai se deparar com o perigo e por isso eu o detive. Nenhum humano pode ultrapassar este ponto e sobreviver. Mas este aqui é o córrego onde poderá encontrar em seus penhascos a planta Saugandhika que procura".

Bhima ficou tomado pelo encanto: "Eu me considero a pessoa mais afortunada pois fui abençoado com a graça de poder encontrar meu irmão. Eu gostaria de ver a forma na qual você cruzou o oceano", e se prostrou perante Hanuman.

Hanuman sorriu e começou a aumentar o tamanho de seu corpo e ficou em pé com firmeza assim como uma montanha parece preencher o horizonte.

Bhima ficou emocionado ao ver de verdade aquela forma divina de seu irmão mais velho, cuja mera descrição o tinha deixado maravilhado. Ele cobriu seus olhos, incapaz de suportar a luz brilhante que radiava daquela figura.

Hanuman disse: "Bhima, na presença de meus inimigos, meu corpo pode crescer ainda mais". E Hanuman contraiu seu corpo, assim assumiu sua forma anterior. Então, ele abraçou Bhimasena com muito carinho.

Bhagavan Vyasa diz que Bhima se sentiu plenamente revigorado e se tornou muito mais forte do que antes pelo abraço de Hanuman.

Hanuman disse: "Ó herói, vá para sua casa. Pense em mim sempre que precisar. Eu senti a mesma emoção ao abraçá-lo como antigamente quando tive a grande fortuna de tocar o corpo divino do Senhor Rama. Peça qualquer bênção que desejar".

Bhima disse: "Abençoados são os Pandavas pois tive a grande boa ventura de vê-lo. Com a inspiração de sua força é certeza que venceremos nossos inimigos".

Hanuman deu a seguinte bênção especial a seu irmão:

"Quando você rugir no campo de batalha como um leão, minha voz se juntará à sua e infligirá terror nos corações de seus inimigos. Eu estarei presente no estandarte da quadriga de seu irmão Arjuna. Vocês serão vitoriosos".

Hanuman apontou para Bhima o córrego próximo onde cresciam as flores Saugandhika que ele veio procurar.

Isso fez com que Bhima se lembrasse de Draupadi imediatamente que esperava pelo seu retorno, assim colheu as flores e voltou para ela sem demora.

 

Capítulo 38

Não Sou Um Grou

Certa vez, o sábio Markandeya veio visitar os Pandavas. Yudhisthira na ocasião falava sobre as virtudes do belo sexo e disse:

"Qual é a maravilha maior neste mundo do que a paciência e a castidade da mulher? Ela dá à luz uma criança depois de cuidá-la com tanto carinho dentro de seu ventre com mais amor do que sua própria vida. Ela a traz ao mundo com muita dor e ansiedade, daí em diante seu único pensamento é a saúde e a felicidade dela. Com muita afeição e perdão, a mulher desculpa e continua a amar mesmo um marido que a despreza, odeia e a sujeita a todos os tipos de misérias. Que estranho"!

Ao ouvir isso, Markandeya lhe contou uma história confidencial.

Havia um brâmane chamado Kaushika que cumpria seu voto de brahmacharya com muita firmeza e devoção.

Certo dia, ele sentou em baixo duma árvore para recitar os Vedas. Um grou, empoleirado no topo da árvore, sujou sua cabeça com seus dejetos. Ele olhou para cima, e com seu olhar irado matou o pássaro que caiu no chão morto.

O brâmane ficou comovido ao ver o pássaro morto deitado no chão.

Como seria terrível se os desejos fossem automaticamente satisfeitos, se cada precipitação ou fúria fizesse efeito de imediato! Quanto haveria para se arrepender ou ter remorso depois! Para nossa sorte, os nossos desejos dependem de circunstâncias externas para se realizarem, isso nos salva de muitos pecados e lamentação.

Kaushika lamentou que o pensamento perverso que surgiu em sua mente num momento de fúria matou um pássaro inocente. Algum tempo depois, ele foi mendigar como de costume.

Assim, ficou na frente duma casa para receber sua esmola. A dona da casa lavava a louça nesse momento. Kaushika esperou na expectativa de que ela o atenderia depois de terminar seu trabalho.

Nesse meio tempo, o dono da casa voltou, cansado e faminto, e a esposa teve que atender suas necessidades, lavar e secar seus pés para lhe servir a comida.

Com essa preocupação, pareceu que ela se esqueceu do mendigo que esperava lá fora. Depois que seu esposo foi cuidado e alimentado, ela levou doações para o mendigo.

Ela disse: "Peço desculpas por fazê-lo esperar tanto. Por favor me perdoe".

Kaushika, que fervia de raiva, disse: "Senhora, você me fez esperar tanto tempo. Essa indiferença não é justa".

A mulher disse ao brâmane: "Ó melhor dos brâmanes, perdoe-me por gentileza. Eu servia meu esposo, por isso a demora".

O brâmane retrucou: "É correto e próprio atender o esposo, mas também um brâmane não pode ser desprezado. Parece que você é uma mulher arrogante".

Ela disse: "Não fique bravo comigo e lembre-se que o fiz esperar somente porque servi meu marido devidamente. Eu não sou um grou para ser morta por um pensamento violento e sua ira não pode fazer mal a uma mulher que se devota ao serviço de seu esposo".

O brâmane ficou surpreso. Ele ficou abismado como a mulher sabia do incidente com o grou.

Ela continuou: "Ó grande pessoa, você não sabe o segredo do dever, e você também não tem consciência de que a ira é o maior inimigo que habita dentro da pessoa. Perdoe a demora em atendê-lo. Vá para Mithila e receba instruções sobre o segredo da vida de bem com Dharmavyadha que vive nessa cidade".

O brâmane ficou pasmo. Ele disse: "Eu mereço sua repreensão justa que me fará bem. Que você tenha tudo de bom". Com essas palavras, ele foi para Mithila.

Kaushika chegou em Mithila e procurou a residência de Dharmavyadha, a qual pensou que fosse algum eremitério solitário longe do barulho e alvoroço da vida popular.

Ele andou por ruas magníficas entre casas e jardins daquela grande cidade e finalmente chegou num açougue, onde um homem vendia carne. Sua surpresa foi grande quando soube que aquele homem era Dharmavyadha.

O brâmane ficou chocado além dos limites e permaneceu distante com muito desgosto. Subitamente, o açougueiro se levantou de sua cadeira, foi até o brâmane e perguntou: "Venerável senhor, você está bem? Foi aquela casta senhora brâmane que o mandou até mim"?

O brâmane ficou perplexo.

"Venerável senhor, sei porque você veio. Vamos para minha casa", disse o açougueiro que levou o brâmane para sua casa, onde viu uma família feliz e ficou muito impressionado com a devoção que o açougueiro servia sua família.

Kaushika teve aulas com aquele açougueiro sobre dharma, vocação humana e dever. Depois disso, o brâmane voltou para sua casa e começou a cuidar de seus pais, um dever que ele sempre negligenciou antes.

A moral dessa história contundente sobre Dharmavyadha contada com tanta habilidade por Srila Vyasadeva no Mahabharata, é igual aos ensinamentos do Gita. As pessoas alcançam a perfeição com o cumprimento honesto de qualquer ocupação que se destine a ela na vida, e isso é a verdadeira adoração a Deus que cria e penetra tudo. (Bhagavad-gita, 18, 45-46).

45. Por seguir as qualidades de seu trabalho, todo ser humano pode chegar a ser perfeito. Agora, escute de Mim a respeito de como fazer isto.
46. Mediante a adoração ao Senhor, que é a fonte de todos os seres e é onipresente, a pessoa pode atingir a perfeição na execução de seu próprio dever.

A ocupação pode ser aquela que a pessoa nasce na sociedade ou que foi imposta a ela pelas circunstâncias ou que foi aceita por opção. O que realmente importa é o espírito de sinceridade e lealdade com que ela realiza seu trabalho da vida.

Srila Vyasadeva enfatiza essa grande verdade ao fazer um brâmane erudito, que não sabia disso, aprender dum açougueiro, que vivia isso em sua humilde e desprezada vida.

 

Capítulo 39

Os Malvados Nunca Ficam Satisfeitos

Muitos brâmanes visitaram os Pandavas durante seu exílio. E um deles, ao voltar para Hastinapura, foi ver Dhritarastra, que o recebeu com as devidas honras.

O brâmane lhe contou como os Pandavas, nascidos príncipes, estavam, pelo destino cruel, à mercê do vento e do sol, e sofriam grandes privações.

Dhritarastra ficou provavelmente triste ao ouvir isso. Mas o que o perturbava mais eram as conseqüências para seus filhos. Será que Yudhisthira continuaria a conter o justamente furioso Bhima em repressão?

Dhritarastra temia que a ira dos Pandavas, confinada tanto tempo, um dia poderia romper seus limites, transbordar e causar uma devastação violenta.

O rei com muita ansiedade ponderou assim: "Arjuna e Bhima com certeza tentarão nos punir. Shakuni, Karna, Duryodhana e Dushasana de visão curta estão pendurados precariamente numa árvore à procura duma colméia quando em baixo tem um abismo com a ira de Bhima, aberto para receber sua destruição".

O rei cego seguiu seu pensamento: "Ai de mim, por que nos tornamos uma presa da avareza? Não foi porque a pobreza nos levou a isso! Por que seguimos o caminho da injustiça? Em vez de aproveitar nossa riqueza sem limites com satisfação, sucumbimos à luxúria do poder e possessão, e cobiçamos o que não era nosso. O erro produz apenas essa colheita amarga! Arjuna voltou do céu com armas divinas. O que pode seduzir alguém do céu de volta à Terra além da ânsia por vingança? E nós merecemos isso"!

Esses pensamentos o assombravam e não o deixavam em paz.

Apesar de Dhritarastra estar assim preocupado, Shakuni, Karna e Duryodhana estavam levianamente felizes e tinham muito prazer na congratulação exaltada um com outro sobre sua prosperidade.

Karna e Shakuni disseram a Duryodhana: "O reino que estava nas mãos de Yudhisthira agora é nosso. Não precisamos mais queimar de ciúme".

Duryodhana respondeu: "Ó Karna, tudo isso é verdade, mas seria a maior alegria de todas ver com meus próprios olhos o sofrimento dos Pandavas e causar o clímax da tristeza deles com uma ostentação de nossa felicidade. A única forma de aperfeiçoar nossa felicidade é ir para a floresta e ver a aflição dos Pandavas, mas meu pai não vai dar sua permissão", e Duryodhana derramou lágrimas por causa da crueldade de seu pai por negar-lhe esse prazer.

Ele disse novamente: "O rei tem medo dos Pandavas, pois pensa que eles estão dotados com o poder de austeridades. Ele nos proibiu de ir para a floresta e nos encontrarmos com eles, para que não soframos nenhum perigo. Mas eu digo, tudo que fizemos até agora foi trabalho perdido, sem a visão dos sofrimentos de Draupadi, Bhima e Arjuna na floresta. Esta vida de ócio à toa é um tormento para mim sem esse grande prazer. Shakuni e você têm que achar um jeito de obter o consentimento do rei para que possamos ir à floresta ver o sofrimento dos Pandavas".

Na manhã seguinte, Karna foi até Duryodhana com uma cara alegre e anunciou que havia encontrado uma forma de superar a dificuldade.

Ele disse: "O que você acha de irmos até nossas fazendas em Dwaitavana para o inventário anual das vacas? O rei com certeza não vai se opor a isso". Shakuni e Duryodhana aplaudiram essa brilhante idéia e mandaram o líder dos vaqueiros ao rei para assegurar sua permissão.

Mas o rei não consentiu. Ele disse: "Caçar é bom para príncipes. Também é benéfico fazer o inventário das vacas. Mas eu sei que os Pandavas moram nessa floresta. Não é aconselhável vocês irem lá. Não posso concordar em mandá-los a um lugar perto da casa de Bhima e Arjuna quando ainda há motivo de ira e rivalidade".

Duryodhana disse: "Eu não vou chegar perto deles. Ao contrário, vamos tomar muito cuidado para evitá-los". O rei respondeu:

"Por mais cuidadosos que vocês sejam, existe o perigo só na proximidade. Também, não é certo se intrometer na aflição dos Pandavas em sua vida na floresta. Algum dos seus soldados pode transgredir e ofender, o que causará perturbação. Alguém mais pode ir no lugar de vocês para contar o gado".

Shakuni disse: "Ó rei, Yudhisthira conhece e segue o caminho de dharma. Ele prometeu numa assembléia pública que os Pandavas cumpririam sua palavra. Os filhos de Kunti não expressarão nenhuma inimizade conosco. Não se oponha a Duryodhana que gosta de caçar. Deixe que ele volte depois de fazer o inventário das vacas. Eu também o acompanharei e cuidarei para que nenhum de nós chegue perto dos Pandavas".

O rei, super pressionado como de costume, disse: "Bem, façam o que quiserem". Um coração cheio de ódio não conhece o que é contentamento. Ódio é um fogo cruel, que extorque o combustível donde vive e cresce.

 

Capítulo 40

A Desonra de Duryodhana

Os Kauravas chegaram em Dwaitavana com um grande exército e muitos seguidores. Duryodhana e Karna foram sem esconder a alegria só de pensar em poderem se regalar com a visão da triste situação dos Pandavas.

Eles acamparam em casas de campo luxuosas num local que ficava a seis quilômetros da moradia dos Pandavas. Eles inspecionaram os rebanhos de vacas e fizeram o inventário.

Depois de contar as vacas, touros e bezerros, eles se divertiram com a dança, a caça, os esportes silvestres e outros entretenimentos organizados para eles.

Durante a caça, Duryodhana e seu séqüito chegaram numa bela lagoa perto do eremitério dos Pandavas e ordenou que montassem um acampamento na margem.

Chitrasena, o rei dos Gandharvas, e sua comitiva já estavam acampados na vizinhança da lagoa e impediram os homens de Duryodhana a montarem seu acampamento.

Eles retornaram a Duryodhana e reclamaram dum príncipe mesquinho que estava lá com sua comitiva e lhes causou problema.

Duryodhana ficou aborrecido com essa presunção e ordenou que seus homens voltassem, expulsassem o príncipe Gandharva e montassem as tendas. Os soldados voltaram ao lago e tentaram executar suas ordens mas viram que os Gandharvas eram muitos para eles e tiveram que bater em retirada.

Quando Duryodhana soube disso, ficou muito irado e marchou com um grande exército para destruir os inimigos audaciosos que tentaram impedir seu prazer. Houve uma grande luta entre os Gandharvas e o exército de Duryodhana.

No início, a luta estava a favor dos Kauravas. Mas a mesa virou rapidamente quando Chitrasena, o rei dos Gandharvas, reuniu suas tropas e começou a usar suas armas mágicas.

Karna e os outros heróis Kauravas perderam suas quadrigas e armas, e tiveram que bater em retirada com pressa e ignomínia. Duryodhana ficou sozinho no campo de batalha mas foi capturado de imediato por Chitrasena, que o colocou em sua quadriga com as mãos e pés amarrados, e tocou seu búzio em sinal de vitória.

Os Gandharvas levaram muitos Kauravas proeminentes presos. O exército Kaurava fugiu em todas as direções e alguns fugitivos se esconderam no eremitério dos Pandavas.

Bhima ouviu a notícia da derrota e captura de Duryodhana com deleite e diversão. Ele disse a Yudhisthira: "Esses Gandharvas fizeram o nosso trabalho. Duryodhana que veio aqui para nos zombar, teve o que mereceu. Eu quero agradecer nosso amigo Gandharva"!

Mas Yudhisthira o reprovou: "Querido irmão, ainda não é hora de você se regozijar. Os Kauravas são nossos parentes do mesmo sangue, e a humilhação deles, nas mãos de estranhos, é nossa. Não podemos virar as costas e aceitar isso com desprezo. Temos que resgatá-los".

Bhima não achou isso muito razoável. Ele disse: "Por que devemos salvar esse pecador que tentou nos queimar vivos na casa de cera? Por que você tem que sentir pena do indivíduo que envenenou minha comida, amarrou minhas mãos e pés e tentou me afogar no rio? Que sentimento fraterno podemos ter realmente por esses biltres desprezíveis que arrastaram Draupadi pelo cabelo até a assembléia para desonrá-la"?

Nesse momento, um grito de agonia de Duryodhana chegou até eles enfraquecido com a distância, e Yudhisthira, muito comovido, sobrepôs a objeção de Bhima e mandou seus irmãos irem resgatar os Kauravas.

Obediente à sua ordem, Bhima e Arjuna reuniram as forças espalhadas dos Kauravas e desafiaram os Gandharvas para batalha. Mas Chitrasena não queria lutar com os Pandavas, com a aproximação deles, liberam Duryodhana e os outros prisioneiros, e disse que apenas queria ensinar uma lição a esses Kauravas arrogantes.

Os Kauravas desonrados voltaram a Hastinapura com pressa, com Karna que foi tirado da batalha e se juntou a eles no caminho.

Duryodhana, com muita vergonha e depressão, achou que teria sido melhor ser morto por Chitrasena e anunciou que jejuaria até a morte.

Ele disse a Dushasana: "Receba a coroa e governe o reino. Não posso continuar a viver depois de me tornar motivo de escárnio para meus inimigos".

Dushasana protestou sua incapacidade para ser rei, assim segurou os pés de seu irmão e chorou. Karna não pôde tolerar a angústia do irmão.

Karna disse: "Isso não é digno de heróis da dinastia Kuru. Qual a utilidade de simplesmente desmoronar com a angústia? Isso deixará nossos inimigos mais felizes. Veja os Pandavas. Eles não recorreram a jejuns apesar da desgraça que sofreram".

Shakuni interveio e disse: "Ouçam as palavras de Karna. Por que você diz que vai abandonar sua vida quando o reino usurpado dos Pandavas é todo seu para sua satisfação? Jejuar não adianta nada, pois se você se arrepende de tudo que fez até agora, deve fazer as pazes com os Pandavas e devolver-lhes seu reino".

Quando Duryodhana ouviu isso, sua natureza demoníaca recobrou ascendência, pois devolver o reino aos Pandavas era para ele centenas de vezes pior do que a derrota ou a desonra. Ele gritou: "Eu vou vencer os Pandavas".

Karna disse; "É assim que um rei fala".

E acrescentou: "Qual o sentido de morrer? Você só pode fazer algo útil se estiver vivo".

Quando voltavam para casa, Karna disse: "Eu juro a você por tudo que é sagrado, quando o período estipulado de treze anos terminar, eu matarei Arjuna em batalha". Então, ele tocou sua espada como prova de seu juramento.

 

Capítulo 41

A Fome de Sri Krishna

Enquanto os Pandavas moravam na floresta, Duryodhana celebrou um grande sacrifício com muita pompa e esplendor.

Ele queria realizar o sacrifício Rajasuya, mas os brâmanes lhe disseram que não poderia fazer isso enquanto Yudhisthira e Dhritarastra estivessem vivos, e o aconselharam a realizar o sacrifício conhecido como Vaishnava no lugar.

Ele seguiu o conselho e celebrou o Vaishnava com grande esplendor. Mas quando a cerimônia terminou, os cidadãos começaram a comentar entre si que o sacrifício de Duryodhana não tinha chegado nem à décima sexta parte do Rajasuya de Yudhisthira em grandiosidade.

Os amigos de Duryodhana, por outro lado, elogiaram-no e o sacrifício que tinha celebrado, que compararam aos realizados por Yayati, Mandhata, Bharata e outros.

Os aduladores da corte não economizavam elogios. Karna disse a Duryodhana que seu Rajasuya foi apenas adiado até os Pandavas serem derrotados e mortos em batalha e repetiu que sua parte seria matar Arjuna.

"Até que eu mate Arjuna", disse ele, "não comerei carne nem beberei vinho, nem recusarei qualquer pedido de qualquer pessoa que me pedir algo". Assim foi o voto solene feito por Karna no meio da assembléia.

Os filhos de Dhritarastra ficaram encantados ao ouvir o voto do grande herói Karna e gritaram de alegria. Eles sentiram como se os Pandavas já tivessem sido mortos.

Espiões revelaram aos Pandavas na floresta a notícia do juramento feito por Karna. Yudhisthira ficou muito preocupado, pois tinha opinião formada sobre o poder de Karna.

Karna nasceu com uma armadura divina e era sem dúvida um herói poderoso. Certa manhã, logo antes da hora de acordar, Yudhisthira teve um sonho.

Muitos de nossos sonhos acontecem ou no começo ou no fim de nosso sono. Ele sonhou que as feras da floresta vieram até ele e suplicaram para que não as destruísse todas, mas se mudasse para outra floresta. Muito comovido, ele mudou para outra floresta com seus irmãos.

Nossos ancestrais tinham consciência que a vida selvagem na floresta tinha que ser preservada.

Certo dia, o sábio Durvasa foi visitar Duryodhana com seus dez mil discípulos. Como conhecia o temperamento do sábio, Duryodhana se dedicou intensamente a fazer tudo em relação à recepção de convidados e foi tão generoso em sua hospitalidade que o sábio ficou muito grato, assim quis lhe dar alguma bênção.

Duryodhana sentiu muito alívio em ter escapado da fúria do sábio, e quando quis lhe dar uma bênção, ele achou que era uma ótima oportunidade para lançar a ira do sábio sobre os Pandavas, e disse: "Você nos abençoou, grande sábio, por aceitar nossa hospitalidade. Nossos irmãos estão na floresta. Por favor, visite-os para que também recebam essa honra e alegria". E sugeriu ao visitante para ir lá numa hora quando acabaram de comer toda a comida, pois sabia que não sobraria nada para convidados inesperados.

O sábio, que sempre gostava de testar as pessoas, consentiu com o pedido de Duryodhana.

Duryodhana tinha certeza de que os Pandavas, que viviam precariamente na floresta, não tinham condições de alimentar e entreter o sábio com seus seguidores, e sofreriam alguma maldição terrível daquele visitante altamente precipitado pela falta de hospitalidade deles. Isso lhe proporcionaria muito mais felicidade do que qualquer benefício que pudesse pedir para si quando o sábio lhe ofereceu. Assim, Durvasa foi com seus discípulos até os Pandavas como foi o desejo de Duryodhana, na hora que eles descansavam depois da refeição do meio-dia.

Os irmãos deram as boas vindas ao sábio, com as devidas saudações e honras. Então o sábio disse: "Voltaremos logo. Nossa refeição deve estar pronta até lá, pois estamos com fome", e saiu com seus discípulos em direção ao rio.

Como resultado das austeridades de Yudhisthira no começo de sua estada na floresta, o deus do Sol lhe deu o Akshayapatra, um recipiente mágico que produzia um suprimento de comida que nunca falhava.

Quando deu esse presente, o deus disse: "Com isso, porei a seu dispor durante doze anos a quantidade de comida necessária para seu consumo diário. Até que todos sejam servidos e Draupadi tenha tomado sua parte, depois o recipiente ficará vazio nesse dia".

Dessa forma, os brâmanes e outros convidados eram servidos primeiro. Depois os irmãos Pandavas tomavam suas refeições. Finalmente, Draupadi tinha a sua parte.

Quando Durvasa chegou no local, todos eles, inclusive Draupadi, já tinham feito suas refeições e por isso o recipiente estava vazio e desprovido de seu poder por aquele dia.

Draupadi ficou muito aflita e quase perdida com a impossibilidade de providenciar comida quando o sábio e seus discípulos voltassem de suas abluções. Na cozinha, ela orou sinceramente a Sri Krishna para ajudá-la em sua situação desesperada e livrá-la da ira do sábio.

De imediato, Sri Krishna apareceu perante ela, e disse: "Estou com muita fome, traga-Me alguma coisa para comer sem demora, aí então Eu falarei sobre outras coisas".

Era um beco sem saída. Parecia que o amigo de quem ela esperava ajuda tinha ido para o lado do inimigo! Ela chorou muito confusa: "Ai de mim! por que Você me tenta dessa forma, ó Krishna? O poder do recipiente dado pelo Sol está esgotado por hoje. E o sábio Durvasa chegou. O que farei? O sábio com seus discípulos estarão aqui logo e como se isso não fosse suficiente, Você também vem nesta conjuntura e diz que está com fome".

Sri Krishna disse: "Estou terrivelmente faminto e quero comida, sem desculpas. Traga o recipiente e deixe-Me ver por Mim mesmo". Draupadi o trouxe para Ele. Um pedacinho de vegetal e um grão de arroz estavam grudados na borda do recipiente.

Sri Krishna os comeu com satisfação, pois os aceitou como Sri Hari, a Alma do Universo. Draupadi ficou muito envergonhada com seu relaxamento em não ter limpado o recipiente direito sem nenhum resto. Um pouquinho sobrou e foi compartilhado com Vasudeva!

Sri Krishna parecia repleto de satisfação depois de comer o grão solitário e chamou Bhima. Pediu que ele fosse ao rio e convidasse o venerável sábio pois a comida estava pronta e esperava por eles.

Bhimasena, muito intrigado, mas pleno de fé em Sri Krishna, correu até o rio onde Durvasa e seus seguidores se banhavam.

Eles ficaram muito surpresos ao ver que sua extrema fome tinha dado lugar a uma satisfação agradável. Todos eles estavam com a mesma sensação de pessoas que banquetearam muito bem.

Os discípulos disseram ao sábio: "Nós viemos para cá depois de pedir a Yudhisthira para preparar comida para nós, mas nos sentimos bem alimentados e satisfeitos sem capacidade para comer qualquer coisa a mais".

Durvasa sabia o que tinha ocorrido e disse a Bhima: "Nós já tomamos nossas refeições. Peça a Yudhisthira para nos perdoar". Então, o grupo foi embora.

A explicação é que todo universo está contido em Sri Krishna, Sua satisfação com um único grão de arroz satisfez naquele momento a fome de todos os seres, inclusive o sábio.

 

Capítulo 42

A Lagoa Encantada

O período estipulado de doze anos estava para acabar.

Certo dia, um veado se esfregava contra um pilão de acender fogo dum brâmane pobre, e quando se virou para ir embora, o pilão ficou preso em seus chifres, assim o animal espantado fugiu descontrolado pela floresta.

Naquela época, fósforos não eram conhecidos e o fogo era aceso com a fricção mecânica de pedaços de madeira.

"Ai de mim! O veado fugiu a correr com meu acendedor de fogo. Como farei o sacrifício de fogo"? gritava o brâmane que correu em direção aos Pandavas para ajudá-lo em sua dificuldade.

Os Pandavas perseguiram o animal, mas era um veado mágico, que corria muito com grandes pulos e saltos, e atraiu os Pandavas para longe dentro da floresta e depois desapareceu. Fatigados pela perseguição fútil, os Pandavas sentaram muito abatidos em baixo duma árvore asvattha.

Nakula suspirou: "Não conseguimos prestar nem mesmo esse insignificante serviço ao brâmane. Como nos degradamos"! Disse ele com tristeza.

Bhima disse: "Isso mesmo. Quando Draupadi foi arrastada para a assembléia, devíamos ter matado aqueles desgraçados. Por que não fizemos isso tivemos que sofrer todas essas perturbações"? E olhou para Arjuna com tristeza.

Arjuna concordou: "Suportei em silêncio a jactância ofensiva e vulgar daquele filho de cocheiro, e não fiz nada. Por isso merecemos cair nesta situação lamentável".

Yudhisthira notou com pesar que todos eles perderam sua alegria e coragem. Ele pensou que ficariam mais contentes com alguma coisa para fazer. Ele estava atormentado com muita sede e assim disse a Nakula: "Irmão, suba nessa árvore e veja se há alguma lagoa ou rio aqui perto.

Nakula subiu na árvore, olhou em volta e disse: "A uma pequena distância, vejo plantas aquáticas e grous. Deve haver água lá com certeza".

Yudhisthira o mandou até lá para trazer algo para beber.

Nakula ficou feliz quando chegou no local e viu que havia uma lagoa ali. Ele estava com muita sede e pensou em primeiro matar sua sede antes de pegar água em sua aljava para seu irmão. Mas pouco antes de pôr sua mão na água transparente, ouviu uma voz que disse:

"Não tenha pressa. Esta lagoa me pertence. Ó filho de Madri, responda minha pergunta e depois beba a água".

Nakula ficou surpreso, mas tomado por sua sede intensa e descuido sobre o aviso, bebeu a água. De imediato, dominado por uma tontura irresistível, ele caiu, com toda aparência de morto.

Surpreso por Nakula não ter voltado, Yudhisthira mandou Sahadeva ver o que tinha acontecido. Quando Sahadeva chegou na lagoa e viu seu irmão caído no chão, ficou curioso em ver se tinha acontecido algum mal a ele. Mas antes de verificar o ocorrido, correu irresistivelmente para a água a fim de saciar sua sede ardente.

A voz foi ouvida novamente: "Ó Sahadeva, esta lagoa é minha. Responda minhas perguntas e só depois poderá saciar sua sede".

Como Nakula, Sahadeva também não atendeu o aviso. Ele bebeu a água e de imediato caiu no chão.

Confuso e preocupado que Sahadeva também não retornou, Yudhisthira mandou Arjuna ver se os irmãos tinham se deparado com algum perigo. "E traga água", acrescentou, pois estava com muita sede.

Arjuna foi bem rápido. Ele viu os dois irmãos deitados mortos perto da lagoa. Ficou chocado com a visão e pensou que foram mortos por algum inimigo de tocaia.

Apesar do coração partido de tristeza e ardente com desejo de vingança, todos seus sentimentos se afogaram numa sede monstruosa, o que o impulsionou sem resistência à lagoa fatal. Novamente, a voz foi ouvida: "Responda minha pergunta antes de beber a água. Esta lagoa é minha. Se me desobedecer, vai acompanhar seus irmãos".

A fúria de Arjuna não tinha limites. Ele gritou: "Quem é você? Venha e fique perante mim, e eu o matarei", e atirou flechas de ponta afiada na direção da voz. O ser invisível riu com sarcasmo: "Suas flechas só ferem o ar. Responda minhas perguntas que depois poderá saciar sua sede. Se beber a água sem fazer isso, morrerá".

Muito aborrecido, Arjuna controlou sua mente para encontrar e agarrar esse ardiloso inimigo. Mas primeiro tinha que matar sua sede terrível. Sim, a sede era o inimigo que tinha de matar primeiro. Assim, bebeu a água e também caiu morto.

Depois de esperar ansiosamente, Yudhisthira se dirigiu a Bhima: "Querido irmão, Arjuna, o grande herói, também não voltou. Deve ter acontecido alguma coisa terrível com nossos irmãos, pois nossos astros estão ruins. Faça o favor de procurá-los e seja rápido. Também traga água pois morro de sede". Bhima, com muita ansiedade, correu sem dizer uma palavra.

Podemos imaginar sua fúria e aflição quando viu seus três irmãos deitados mortos lá. Ele pensou: "Isso é com certeza trabalho dos Yakshas. Vou caçá-los e matá-los. Mas, estou com tanta sede, primeiro vou beber água para poder lutar melhor com eles". Então, ele foi até a lagoa.

A voz gritou: "Bhimasena, cuidado. Você só pode beber depois de responder minhas perguntas. Você morrerá se desprezar minhas palavras".

"Quem é você para me ordenar"? Gritou Bhima, que bebeu a água com avidez e olhou em volta em desafio. Quando fez isso, seu grande poder pareceu que escorregou dele como uma roupa. E ele também caiu morto entre seus irmãos.

Sozinho, Yudhisthira lamentou cheio de ansiedade e sede. "Será que sofreram alguma maldição ou vagueiam pela floresta em vão à procura de água ou será que desmaiaram e morreram de sede"?

Sem poder suportar esses pensamentos e levado ao desespero por uma sede excessiva, ele foi à procura de seus irmãos e da lagoa.

Yudhisthira procedeu na mesma direção que seus irmãos tomaram por trilhas infestadas de javalis selvagens, cheias de veados pintados e grandes pássaros silvestres. Até que chegou numa bela campina verde, que cercava uma lagoa de água cristalina, um néctar para seus olhos.

Mas quando viu seus irmãos deitados como mastros de bandeiras sagradas atiradas pela balburdia depois dum festival, incapaz de conter sua angústia, levantou sua voz e chorou. Ele bateu nas faces de Bhima e Arjuna deitados imóveis e silenciosos e lamentou:

"Será que este é o fim de nossos votos? Logo quando nosso exílio está para terminar, vocês foram levados embora. Até mesmo os deuses me abandonaram em meu infortúnio"!

Enquanto olhava para seus membros tão fortes, agora tão desamparados, pensou com tristeza quem seria tão poderoso para matá-los. E refletiu com desespero: "Meu coração com certeza deve ser feito de aço por não quebrar depois de ver Nakula e Sahadeva mortos. Por que motivo devo continuar a viver neste mundo"?

Então um senso de mistério veio a ele, pois isso poderia ser uma ocorrência anormal. O mundo não tinha heróis que pudessem vencer seus irmãos. Além disso, não havia ferimentos em seus corpos que pudessem lhes tirar a vida, e suas faces eram de pessoas que dormem em paz e não de quem morreu com raiva.

Também, não havia marcas de pegadas de algum inimigo. Com certeza, havia algum encanto sobre isso. Ou, poderia ser um ardil de Duryodhana? Será que ele envenenou a água? Então, Yudhisthira também foi até a lagoa, na sua vez de ser atraído à água por uma sede desgastante.

De imediato, a voz sem forma o avisou como antes: "Seus irmãos morreram porque não obedeceram à minha ordem. Não os acompanhe. Primeiro, responda minhas perguntas e depois mate sua sede. Esta lagoa é minha".

Yudhisthira sabia que essas palavras só poderiam ser dum Yaksha e adivinhou o que aconteceu com seus irmãos. Assim, viu uma possibilidade de reparar a situação.

Ele disse à voz sem corpo: "Por favor, faça suas perguntas". A voz fez as perguntas rapidamente uma após a outra.

O Yaksha perguntou: "O que faz o Sol brilhar todos os dias"?

Yudhisthira respondeu: "O poder do brahman".

O Yaksha perguntou: "O que salva uma pessoa em perigo"?

Yudhisthira respondeu: "A coragem salva uma pessoa em perigo".

O Yaksha perguntou: "Pelo estudo de qual ciência uma pessoa se torna sábia"?

Yudhisthira respondeu: "Não pelo estudo do shastra que uma pessoa se torna sábia. É pela associação com o grandioso em sabedoria que ela obtém sabedoria".

O Yaksha perguntou: "O que é mais nobre do que a Terra que sustenta"?

Yudhisthira respondeu: "A mãe que educa os filhos a quem deu à luz é mais nobre e tem mais sustentação do que a Terra".

O Yaksha perguntou: "O que é mais alto do que o céu"?

Yudhisthira respondeu: "O pai".

O Yaksha perguntou: "O que é mais rápido do que o vento".

Yudhisthira respondeu: "A mente".

O Yaksha perguntou: "O que é mais seco do que a palha espalhada".

Yudhisthira respondeu: "Um coração ferido pela mágoa".

O Yaksha perguntou: "O que favorece um viajante"?

Yudhisthira respondeu: "Conhecimento".

O Yaksha perguntou: "Quem é o amigo daquele que permanece em casa"?

Yudhisthira respondeu: "A esposa".

O Yaksha perguntou: "Quem acompanha uma pessoa quando ela morre"?

Yudhisthira respondeu: "Dharma. É só isso que acompanha a alma em sua jornada solitária depois da morte".

O Yaksha perguntou: "Qual é o maior recipiente"?

Yudhisthira respondeu: "A Terra, que contém tudo dentro dela, é o maior recipiente".

O Yaksha perguntou: "O que é a felicidade"?

Yudhisthira respondeu: "Felicidade é o resultado da boa conduta".

O Yaksha perguntou: "O que é que uma pessoa abandona e se torna querida por todos"?

Yudhisthira respondeu: "Orgulho, por abandoná-lo, a pessoa se torna querida por todos".

O Yaksha perguntou: "Qual é a perda que gera alegria e não tristeza"?

Yudhisthira respondeu: "Ira, quando a deixamos, não somos mais sujeitos à tristeza".

O Yaksha perguntou: "O que é que quando se abandona, a pessoa se torna rica".

Yudhisthira respondeu: "Desejo, quando se abandona, torna a pessoa rica".

O Yaksha perguntou: "O que torna a pessoa um brâmane verdadeiro? Nascimento, boa conduta ou sabedoria? Responda decisivamente".

Yudhisthira respondeu: "Nascimento e sabedoria não tornam a pessoa um brâmane. Só a boa conduta faz isso. Por mais sábia que a pessoa seja, ela não será um brâmane se for escrava de maus hábitos. Mesmo se for versada nos quatro Vedas, a pessoa de má conduta cai na classe mais baixa".

O Yaksha perguntou: "O que existe de mais espantoso no mundo"?

Yudhisthira respondeu: "Todos os dias, as pessoas vêem criaturas partirem para a morada de Yama e ainda assim, as que ficam, tentam viver para sempre. Isto é mesmo o que existe de mais espantoso".

Assim, o Yaksha fez muitas perguntas e Yudhisthira respondeu todas.

No fim, o Yaksha perguntou: "Ó rei, um dos seus irmãos mortos pode reviver agora. Quem você deseja reviver? Ele voltará à vida".

Yudhisthira pensou um pouco e respondeu: "Que este de olhos como a pétala da flor de lótus e de tez como a nuvem, com amplo tórax e braços longos, Nakula, deitado como um ébano caído, levante".

O Yaksha ficou satisfeito com isso e perguntou a Yudhisthira: "Por que você escolheu Nakula em preferência a Bhima que tem a força de dezesseis mil elefantes? Ouvi dizer que Bhima é muito querido por você. E por que não Arjuna, cujo poder nos braços é a sua proteção? Diga-me por que escolheu Nakula em vez desses dois".

Yudhisthira respondeu: "Ó Yaksha, dharma é o único escudo duma pessoa e não Bhima ou Arjuna. Se dharma for nulo, a pessoa se arruína. Kunti e Madri eram as duas esposas de meu pai. Eu estou vivo, um filho de Kunti, por isso ela não está em luto pleno. Para que a balança da justiça possa estar equilibrada, pedi que o filho de Madri, Nakula, revivesse". O Yaksha ficou satisfeito com a imparcialidade de Yudhisthira e concedeu-lhe que todos seus irmãos voltassem à vida.

Ele era Yama, o senhor da Morte, que assumiu a forma do veado e do Yaksha para que pudesse ver seu filho Yudhisthira e testá-lo. Ele abraçou Yudhisthira e o abençoou.

Yama disse: "Faltam poucos dias para completar o período estipulado do seu exílio na floresta. O décimo terceiro ano também passará. Nenhum de seus inimigos será capaz de descobrir vocês. Você cumprirá sua obrigação com sucesso", ao dizer isso, desapareceu.

Os Pandavas tiveram, sem dúvida, que passar por todos os tipos de problemas durante seu exílio, mas os ganhos também não são desprezíveis. Foi um período de disciplina severa e provações constantes de onde emergiram mais fortes e mais nobres.

Arjuna voltou de tapasya com armas divinas e fortalecido pelo contato com Indra. Bhima também encontrou seu irmão Hanuman perto da lagoa onde as flores Saugandhika brotavam e obteve dez vezes mais força pelo abraço dele. Depois de encontrar seu pai Yama, o senhor de dharma, na lagoa encantada, Yudhisthira brilhou com um esplendor dez vezes maior.

"As mentes daqueles que ouvem a história sagrada do encontro de Yudhisthira com seu pai, nunca irão atrás do mal. Nunca procurarão criar intrigas entre amigos ou cobiçar a riqueza de outros. Nunca serão vítimas da luxúria. Nunca terão apego indevido por coisas transitórias". Assim falou Vaisampayana para Janamejaya depois que narrou esta história do Yaksha. Que este mesmo benefício aconteça aos leitores desta história recontada por nós.

 

Capítulo 43

Serviço Doméstico

"Ó brâmanes, fomos enganados pelos filhos de Dhritarastra, expulsos de nosso reino e reduzidos à pobreza. Mesmo assim passamos esses anos contentes e com alegria na floresta. O décimo terceiro ano de exílio começou, e com ele chegou a hora de deixarmos vocês. Pois temos que passar os próximos doze meses incógnitos para os espiões de Duryodhana. Deus sabe o dia que nascerá no qual nos veremos juntos novamente, sem medo ou esconderijo. Agora, abençoem-nos antes de partirmos. E que possamos escapar de sermos notados por aqueles que desejam nos trair para os filhos de Dhritarastra, tanto por medo ou pela esperança de recompensa".

Assim falou Yudhisthira aos brâmanes que viviam com os Pandavas até o momento. Sua voz ficou embargada de emoção enquanto falava essas palavras.

Dhaumya o consolou. Ele disse: "Partir é duro, e os perigos são muitos e grandes. Mas você é inteligente e sábio demais para se abalar ou se intimidar. Vocês têm que se disfarçar. Indra, o senhor dos deuses, quando importunado pelos demônios, disfarçou-se como um brâmane e viveu incógnito no país de Nishadha. Escondido a salvo dessa forma, ele se organizou para destruir seus inimigos. Vocês têm que fazer o mesmo. Não foi Mahavishnu, o Senhor do Universo, que se tornou uma criança no ventre de Aditi, sofreu nascimento humano, e tomou o reino do imperador Bali para a salvação do mundo? Não foi o Senhor Narayana, o refúgio das pessoas, que entrou na arma de Indra e derrotou Vritra, o rei asura? Não foi o deus do fogo que se escondeu nas águas para o bem dos deuses? Não é a Lua que fica fora da visão todo dia? Não foi o Senhor Vishnu, o Deus onipresente, que descendeu como filho de Dasharatha e passou longos anos a sofrer muitas aflições com o propósito de matar Ravana? As grandes almas no passado tiveram disfarces santificados para bons propósitos. Vocês também, da mesma forma, conquistarão seus inimigos e ganharão prosperidade".

Yudhisthira se despediu dos brâmanes e deu permissão aos membros de sua comitiva para voltarem para casa. Os Pandavas foram a um lugar secreto na floresta e discutiram sua linha de ação futura. Yudhisthira perguntou a Arjuna com tristeza: "Você é bem versado com os modos do mundo. Qual seria o melhor lugar para passarmos o décimo terceiro ano"?

Arjuna respondeu: "Ó grande rei, você sabe que Yama, o senhor da Morte, nos abençoou. Nós vamos passar os doze meses juntos facilmente sem sermos descobertos. Há muitos países encantadores para escolhermos onde passar nossa permanência, países como Panchala, Matsya, Shalva, Videha, Balika, Dasharha, Shurasena, Kalinga, e Magadha. E claro, todos para você escolher. Mas se eu arriscar uma opinião, o país Matsya do rei Virata é o melhor, muito próspero e encantador".

Yudhisthira respondeu: "Virata, o rei de Matsya, é muito poderoso e nos ama muito. Possui juízo maduro e é devotado à prática da virtude. Ele não será comprado ou amedrontado por Duryodhana. Concordo que será melhor vivermos incógnitos no reino de Virata".

Arjuna disse: "Assim seja, ó rei, que trabalho você procurará na corte de Virata"?

Quando fez essa pergunta, Arjuna ficou muito triste com a idéia de Yudhisthira, o grande e honesto rei, que realizou o sacrifício Rajasuya, ter que se disfarçar e prestar serviço.

Yudhisthira respondeu: "Penso em pedir a Virata que me aceite em seu serviço como um cortesão. Eu poderia entretê-lo com minha conversação e minha perícia nos dados. Aceitarei o hábito de sannyasi e o deixarei ocupado em harmonia com minha habilidade em ler presságios e conhecimento de astrologia, bem como dos Vedas, Vedangas, ética, política e outras ciências. Claro que terei de tomar cuidado, mas não fiquem apreensivos em relação a mim. Direi a ele que fui um amigo íntimo de Yudhisthira e aprendi essas coisas quando tive o privilégio de estar com ele. Ó Bhima, que fará você, que venceu e matou Baka e Hidimba, na corte de Virata? Você nos salvou quando matou Jatasura. Bravura e poder transbordam em você. Que disfarce pode esconder sua poderosa personalidade e capacitá-lo a viver desconhecido no país de Matsya"? Yudhisthira estava em lágrimas quando fez essa pergunta a Bhima.

Bhima respondeu com um sorriso: "Ó rei, penso em prestar serviço como cozinheiro na corte de Virata. Sei que tenho um grande apetite e que também sou um exímio cozinheiro. Vou agradar Virata com preparações de finas iguarias como ele nunca saboreou antes. Vou cortar madeira na floresta e trazer montões de lenha. Vou encantar o rei também por lutar e derrotar os lutadores que vierem à sua corte".

Yudhisthira ficou ansioso ao ouvir isso com medo de que a desgraça cairia sobre eles se Bhima se empenhasse em competições de luta livre. De imediato, Bhima falou para acalmar seus temores:

"Não vou matar ninguém. Poderei dar um bom tranco em qualquer lutador que merecer isso, mas não vou matar ninguém. Posso conter touros enfurecidos, búfalos e outros animais selvagens e assim entreter o rei Virata".

Depois disso, Yudhisthira se dirigiu a Arjuna: "Qual profissão você sugere para aceitar? Como você pode esconder seu valor astronômico"?

Quando Yudhisthira fez essa pergunta, não pôde conter a narração do brilhante heroísmo de Arjuna. Ele falou da glória de seu irmão em vinte versos. Bem, quem merece elogios senão Arjuna?

Arjuna respondeu: "Venerável irmão, vou me esconder num disfarce de eunuco e servir as damas da corte. Esconderei sob uma capa as cicatrizes nos meus braços feitas pelas fricções constantes da corda do arco. Quando rejeitei as propostas amorosas de Urvashi com base de que ela era como uma mãe para mim, ela me amaldiçoou com a perda da masculinidade. Mas pela graça de Indra, a maldição teria efeito só por um ano, e o tempo seria da minha escolha. Vou servir com a perda da masculinidade neste ano. Usarei braceletes feitos de conchas, trançarei meu cabelo como uma mulher, e me vestirei com trajes femininos, e me ocuparei em trabalhos triviais nos aposentos íntimos da rainha de Virata. Vou ensinar as damas canto e dança. E vou procurar trabalho como se tivesse sido servo de Draupadi na corte de Yudhisthira". Ao dizer isso, Arjuna se voltou a Draupadi e sorriu.

Yudhisthira estava em lágrimas. "Ai de mim! Será que o destino decretou que ele, que é igual a Sri Krishna em fama e bravura, um descendente da linhagem Bharata, que se posiciona tão alto como o monte Meru, tem que ir e procurar emprego com Virata como um eunuco nos aposentos íntimos da rainha", disse ele angustiado.

Yudhisthira se voltou a Nakula e perguntou em qual trabalho se ocuparia, então lembrou Madri, a mãe de Nakula, e lágrimas rolaram de seus olhos.

Nakula respondeu: "Vou trabalhar nos estábulos do rei Virata. Minha mente se deleita em treinar e cuidar de cavalos. Porque eu conheço o coração dos cavalos e conheço seus males e a cura. Não posso apenas cavalgar e domar cavalos mas também arreá-los e dirigi-los numa quadriga. Direi que cuidei dos cavalos dos Pandavas e não tenho dúvida de que Virata me aceitará em seu serviço".

Yudhisthira perguntou a Sahadeva: "Você, que tem a inteligência de Brihaspati, o sacerdote e preceptor dos deuses, e o conhecimento de Shukra, o mestre dos asuras, que trabalho aceitará"?

Sahadeva respondeu: "Deixe Nakula cuidar dos cavalos. Eu vou pastorear as vacas. Cuidarei do gado de Virata contra a devastação de doenças e dos ataques de feras selvagens".

"Ó Draupadi", mas Yudhisthira não encontrou palavras para lhe perguntar o que propunha fazer. Ela era mais querida para ele do que sua própria vida, digna de toda reverência e proteção, e parecia um sacrilégio falar sobre serviço. Ela era uma princesa, filha dum rei, de nascimento nobre, criada com carinho. Yudhisthira entrou em choque de vergonha e desespero.

Draupadi viu sua angústia e falou essas bravas palavras: "Ó melhor dos reis, não se aflija nem fique em ansiedade por minha causa. Eu serei uma sairamdhra na corte da rainha de Virata, a companheira e auxiliar das princesas. Preservarei minha liberdade e castidade, pois a acompanhante e auxiliar duma princesa tem esse direito e pode exercê-lo. Passarei meus dias nessas tarefas suaves como pentear o cabelo e entreter as mulheres da corte com conversas triviais. Eu encenarei que servi a princesa Draupadi na corte de Yudhisthira e pedirei emprego à rainha. Assim permanecerei desconhecida para outros".

Yudhisthira elogiou a coragem de Draupadi e disse: "Ó pessoa auspiciosa, você fala como alguém digno de sua família".

Depois que os Pandavas decidiram dessa forma, Dhaumya os abençoou e os aconselhou assim: "Quem está empenhado no serviço dum rei deve ser sempre vigilante. Devem servir sem falar demais. Devem dar conselhos só quando requisitados, e nunca se intrometer. Devem elogiar o rei em ocasiões adequadas. Todas as coisas, por menor que sejam, devem ser feitas após informar o rei, que é um verdadeiro fogo em forma humana. Não chegue muito perto dele, e nem pareça que o evita. Mesmo se uma pessoa for da confiança do rei e tiver muita autoridade, deve se comportar como se fosse ser despedida de imediato. É uma tolice ter muita confiança num rei. Não se deve sentar no transporte, assento ou quadriga dum rei, com a presunção de sua afeição. O servente do rei deve ser sempre ativo e ter autocontrole. Não deve ser exaltado em excesso, nem deprimido indevidamente, quando for honrado ou desonrado pelo rei. Não deve revelar os segredos a ele confiado, nem deve receber nada na forma de presente dos cidadãos. Não deve ter inveja de outros serventes. O rei pode colocar idiotas em posições de autoridade, e deixar de lado os inteligentes. Tais caprichos devem ser ignorados. Não se deve ser muito atencioso com as damas da corte. Não deve haver a menor sugestão de indelicadeza na conduta em relação a elas".

Dhaumya então abençoou os Pandavas: "Vivam portanto com paciência durante um ano, no serviço ao rei Virata, e depois, vocês passarão o resto de seus dias em alegria, depois de recobrar seu trono perdido".

 

Capítulo 44

Virtude Defendida

Yudhisthira pôs o hábito de sannyasi. Arjuna se transformou num eunuco. Os outros também se disfarçaram. Mas nenhum disfarce conseguiu tirar o encanto natural, graça e nobreza de presença deles.

Quando foram até o rei Virata à procura de emprego, eles pareciam que nasceram para comandar e não para servir. Ele hesitou a princípio em ocupá-los como empregados mas cedeu à sua solicitação urgente e finalmente os indicou aos postos que pretendiam.

Yudhisthira se tornou o companheiro do rei e passava seus dias no jogo de dados com ele. Bhima trabalhou como chefe dos cozinheiros. Ele também entretinha o rei em lutas com lutadores famosos pela força que vinham à corte, e por domar animais selvagens.

Arjuna assumiu o nome Brihamnala e ensinava dança, canto e instrumentos musicais à princesa Uttará, filha de Virata, e às damas. Nakula cuidava dos cavalos e Sahadeva cuidava das vacas e touros.

A princesa Draupadi que deveria, se o destino fosse menos cruel, ser servida por muitas criadas, agora tinha que passar seus dias no serviço a Sudeshna, a rainha de Virata. Ela morava nos aposentos íntimos do palácio como dama de honra e acompanhante, e se ocupava em tarefas triviais.

Kichaka, irmão de Sudeshna, era o comandante chefe do exército de Virata e era a ele que o velho rei Virata devia seu poder e prestígio. Kichaka tinha tanta influência que as pessoas costumavam dizer que Kichaka era o verdadeiro rei do país Matsya e o velho Virata era rei só de nome.

Kichaka era muito vaidoso por seu poder e influência sobre o rei. Ele ficou tão caído pela beleza de Draupadi que concebeu uma paixão incontrolável por ela. E ele era tão convencido sobre seu encanto pessoal e poder que nunca lhe ocorreu que ela, apesar de ser uma simples criada, pudesse resistir à sua vontade. Ele fez propostas de amor a ela, que a deixaram muito aborrecida.

Draupadi era muito tímida para falar sobre isso com Sudeshna ou outros. Ela contou que seus esposos eram Gandharvas que matariam misticamente quem tentasse desonrá-la.

Sua boa conduta e brilho fizeram com que todos acreditassem em sua história sobre os Gandharvas. Mas Kichaka não se amedrontava com tanta facilidade e tentou seduzir Draupadi com persistência.

Sua perseguição se tornou tão intolerável que finalmente ela reclamou com a rainha Sudeshna, e implorou pela proteção dela. Kichaka, é claro, tinha muita influência sobre sua irmã, e sem nenhuma vergonha confidenciou a ela sobre sua paixão ilícita por sua criada e pediu ajuda para satisfazer seu desejo.

Ele demonstrou que morria de desejo: "Estou tão atormentado, desde que me encontrei com sua criada, que não consigo dormir nem descansar. Você tem que salvar minha vida por encontrar alguma forma de fazê-la aceitar minhas investidas favoravelmente". A rainha tentou dissuadi-lo mas Kichaka não lhe deu ouvidos. E finalmente Sudeshna concordou. Ambos combinaram um plano para surpreender Draupadi.

Numa noite, prepararam muitos doces e bebidas inebriantes na casa de Kichaka e organizaram um grande banquete. Sudeshna chamou Sairamdhrika para seu lado, deu-lhe uma bela jarra de ouro e a mandou buscar uma jarra de vinho na casa de Kichaka.

Draupadi hesitou em ir à casa do apaixonado Kichaka naquela hora e suplicou que alguém mais fosse em seu lugar das suas muitas criadas, mas Sudeshna não concordou. Ela fingiu estar brava e disse com aspereza: "Vá, você tem que ir. Não posso mandar ninguém mais", e a pobre Draupadi teve que obedecer.

Os temores de Draupadi foram justificados. Quando chegou na casa de Kichaka, esse patife, enlouquecido pela luxúria e vinho, começou a importuná-la com súplicas urgentes e solicitações.

Ela rejeitou seus pedidos e disse: "Por que você, que pertence a uma nobre família real, procura por mim, nascida em classe baixa? Por que você segue o caminho errado? Por que se aproxima de mim, uma senhora casada? Você morrerá. Meus protetores, os Gandharvas, vão matá-lo com muita fúria".

Quando Draupadi não concordou com suas súplicas, Kichaka a agarrou pelo braço e a puxou. Ela pôs a jarra no chão e chorou, depois se soltou com um puxão violento e fugiu, mas foi perseguida freneticamente pelo enlouquecido Kichaka.

Ela fugiu para a corte em altos gritos. Mas até mesmo lá, inebriado não apenas pelo vinho, mas até mais pelo seu poder e influência, Kichaka a perseguiu e a chutou na presença de todos com todo tipo de palavras abusivas.

Todos tinham medo do todo poderoso comandante chefe e ninguém tinha a ousadia suficiente para impedi-lo.

Draupadi não pôde suportar a aflição e ira que sentiu com o pensamento de seu desamparo sob o insulto intolerável a ela oferecido.

Sua angústia profunda a fez esquecer do perigo que aconteceria com os Pandavas se fossem descobertos prematuramente. Ela procurou Bhima naquela noite e o acordou, assim desabafou todo seu sentimento de agonia por causa da injúria.

Depois de contar a ele como Kichaka a perseguiu tão brutamente e a insultou, ela apelou com comoção a Bhima por proteção e vingança. Ela disse com a voz embargada com soluços:

"Não posso suportar mais isso. Você tem que matar esse desgraçado de imediato. Para o bem de vocês, para ajudá-los a cumprir sua promessa, eu sirvo numa função trivial e até preparo pasta de sândalo para Virata. Eu não me importo com isso, até agora, eu só servi vocês e sua mãe Kunti, quem eu amo e honro. Mas agora, tenho que servir esses desgraçados, com medo em todo momento de algum ultraje infame. Não que eu me importe com trabalho pesado, veja minhas mãos". E ela mostrou suas mãos, que estavam rachadas e manchadas por causa das tarefas triviais.

Bhima com muito respeito passou as mãos dela em sua face e olhos, e sem fala por causa da angústia, pena e amor, enxugou as lágrimas dela. Finalmente, ele recobrou sua voz e disse com gravidade:

"Não me importo com a promessa de Yudhisthira ou o conselho de Arjuna. Não me importo com o que aconteça mas farei como você disse. Vou matar Kichaka e seu bando aqui e agora"! E ele se levantou.

Mas Draupadi alertou Bhima para não se precipitar. Eles conversaram e finalmente decidiram que Kichaka deveria ser enganado para vir sozinho à noite a um lugar reservado no salão de dança onde se encontraria com Bhima que esperaria por ele disfarçado como mulher, no lugar de Draupadi.

Na manhã seguinte, Kichaka renovou suas atenções odiosas e disse a Draupadi com jactância: "Ó Sairamdhrika, eu a joguei no chão e a chutei na presença do rei. Alguém ali veio em sua ajuda? Virata é só o rei de nome deste país Matsya. Mas eu, comandante chefe, sou o verdadeiro soberano. Agora, não seja tola, venha e aproveite a vida comigo, com todas as honras reais. Eu serei seu servo devotado". E ele implorou, berrou e adulou, enquanto a devorava com seus olhos avermelhados pela luxúria.

Draupadi fingiu concordar e disse: "Kichaka, acredite, não consigo mais resistir a suas solicitações. Mas nenhum de seus companheiros ou irmãos deve saber sobre nossa relação. Se você jurar sinceramente que vai manter esse segredo de outros, eu concordo com seu pedido".

Kichaka concordou com muito prazer sobre a condição e prometeu a ela ir sozinho a um lugar combinado naquela mesma noite.

Ela disse: "As mulheres têm suas aulas de dança durante o dia no salão de dança e depois voltam a seus aposentos à noite. Não tem ninguém no salão de dança à noite. Vá para lá essa noite. Eu vou esperar você lá. Você terá o que deseja de mim".

Kichaka festejou de alegria. Naquela noite, Kichaka tomou seu banho, passou perfume e se arrumou, assim foi ao salão de dança que para sua alegria estava com as portas abertas, onde entrou suavemente.

Com a meia luz do ambiente, ele viu alguém deitado num sofá lá dentro, sem dúvida era Sairamdhrika. Ele apalpou seu caminho no escuro, e pôs suas mãos com suavidade na pessoa deitada no divã.

Ora bolas! Não era a forma suave de Sairamdhrika que ele tocou mas sim a estrutura de ferro de Bhima, que pulou para cima dele como um leão avança sobre sua presa e o derrubou no chão. Mas apesar de toda surpresa, Kichaka não era covarde, e começou a lutar por sua vida.

Eles se envolveram numa terrível luta, Kichaka sem dúvida pensava que tinha se envolvido com algum dos esposos Gandharvas. Não era uma luta desigual, pois naquele tempo, Bhima, Balarama e Kichaka eram famosos por estarem no mesmo nível de força e habilidade na luta livre.

O combate entre Bhima e Kichaka foi como a luta entre Vali e Sugriva. No fim, Bhima matou Kichaka, então triturou e amassou seu corpo que foi transformado num monte de carne sem forma.

Depois, ele deu a boa notícia da punição de Kichaka a Draupadi, então voltou com pressa para sua cozinha, tomou banho, passou polpa de sândalo pelo corpo e dormiu com satisfação.

Draupadi acordou os guardas da corte e disse a eles: "Kichaka veio me molestar, e como eu o avisei antes, meus esposos Gandharvas vieram e o fizeram em pedaços. Seu comandante chefe, que caiu vítima da luxúria, foi morto. Olhem para ele". E ela mostrou a eles os restos mortais de Kichaka, que foram reduzidos a uma massa tão sem forma que não tinha mais aparência humana.

 

Capítulo 45

A Defesa de Matsya

O destino de Kichaka transformou Draupadi num objeto de temor para o povo de Virata. "Essa mulher, tão bela que captura todos corações, é tão perigosa quanto é encantadora, pois os Gandharvas a protegem. Ela é um grande perigo para as pessoas da cidade e os membros da nobreza real, pois os Gandharvas podem se deter em qualquer um por causa de sua ira ciumenta. Seria melhor mandá-la para fora da cidade". Com esse pensamento, os cidadãos foram até Sudeshna e imploraram que ela banisse Draupadi.

Sudeshna disse a Draupadi: "Você é sem dúvida uma dama muito virtuosa, mas faça a gentileza de deixar nossa cidade. Já estou saturada de você".

Só faltava mais um mês para completar o período estipulado para viverem incógnitos e Draupadi implorou com insistência em ter a permissão de permanecer só por mais um mês quando então seus esposos Gandharvas realizariam seus objetivos e estariam prontos para levá-la com eles.

Os Gandharvas ficariam muito agradecidos ao rei Virata e seu reino. Gratos ou não, os Gandharvas poderiam ser letais se irritados, e Sudeshna estava com muito medo de Draupadi para recusar seu pedido.

No começo do décimo terceiro ano, os espiões de Duryodhana, sob suas ordens expressas, procuraram os Pandavas em todos locais de esconderijo possíveis.

Depois de vários meses de busca inútil, eles relataram seu fracasso a Duryodhana e acrescentaram que os Pandavas deviam estar mortos por causa das privações.

Então, chegou a notícia de que Kichaka foi morto numa luta individual por algum Gandharva por causa duma mulher.

Só existiam duas pessoas que podiam matar Kichaka, e Bhima era uma delas. Por isso, suspeitaram que Bhima pudesse ser o tal Gandharva vingativo que matou Kichaka. Duryodhana também suspeitou que a dama causa da morte fosse Draupadi. Ele expressou suas dúvidas numa assembléia aberta.

Ele disse: "Suspeito que os Pandavas estejam na cidade de Virata. Agora, ele é um dos reis mais teimosos para agradar nossos amigos. Seria muito bom invadir o seu país e levar embora suas vacas. Se os Pandavas estiverem escondidos lá, eles certamente irão lutar conosco para retribuir a hospitalidade de Virata e assim poderemos descobri-los facilmente. Se pudermos descobri-los lá e podemos assegurar antes do tempo estipulado, eles terão de ir para a floresta novamente por mais doze anos. Se, por outro lado, os Pandavas não estiverem lá, não há nada a perder".

O rei Susharma, soberano de Trigarta, apoiou com entusiasmo, e disse: "O rei de Matsya é meu inimigo, e Kichaka me causou muitos problemas. A morte de Kichaka deve ter enfraquecido Virata consideravelmente. Dêem-me permissão para atacar Virata agora".

Karna apoiou essa proposta. Eles chegaram à decisão unânime de que Susharma atacaria Matsya pelo sul e forçaria o exército de Virata se deslocar para defender o sul. Duryodhana, com o exército Kaurava, lançaria um ataque surpresa sobre Virata pelo lado norte, que estaria relativamente sem defesa.

Susharma invadiu Matsya pelo sul, apreendeu o gado, e destruiu os jardins e campos pelo caminho. Os pastores do gado correram desesperados para Virata, que agora desejou muito que Kichaka estivesse vivo, pois se livraria dos invasores com facilidade. Quando disse isso a Kanka (nome que Yudhisthira assumiu na corte de Virata), este disse: "Ó rei, não se preocupe. Apesar de ser um eremita, sou perito na arte da guerra. Porei uma armadura, subirei numa quadriga e expulsarei seus inimigos. Por favor, instrua seu tratador de cavalos Dharmagranthi, seu chefe de cozinha Valala e seu vaqueiro Tantripala para pegarem quadrigas e nos ajudar. Ouvi dizer que são grandes guerreiros. Faça a gentileza de ordenar que nos dêem as quadrigas e armas necessárias".

Com prazer, Virata estava somente com muito desejo de aceitar a oferta. As quadrigas foram preparadas. Todos os Pandavas exceto Arjuna foram com o exército de Virata para enfrentarem Susharma e seus homens.

Travou-se uma batalha aterradora entre os exércitos de Virata e Susharma, com muitas perdas de vidas em ambos os lados. Susharma atacou Virata e cercou sua quadriga, assim o obrigou a descer e lutar a pé.

Susharma capturou Virata e o prendeu cativo em sua quadriga. Com a captura de Virata, o exército de Matsya perdeu o entusiasmo e começou a se espalhar em todas direções, quando Yudhisthira ordenou a Bhima para atacar Susharma, libertar Virata e reunir as forças espalhadas de Matsya.

Com essas palavras de Yudhisthira, Bhima ia arrancar uma árvore, mas Yudhisthira o impediu e disse: "Sem esses truques, por favor, e nenhum grito de guerra ou sua identidade será revelada. Lute como todo mundo em sua quadriga com seus arcos e flechas".

Bhima seguiu as instruções, subiu na quadriga e atacou o inimigo, assim libertou Virata e capturou Susharma. As forças dispersas de Matsya foram reunidas em novas formações, assim atacaram e derrotaram o exército de Susharma.

Logo que a notícia da derrota de Susharma chegou na cidade, as pessoas festejaram com júbilo. Decoraram a cidade e foram dar as boas vindas ao rei vitorioso em seu retorno.

Quando faziam as preparações para receber o rei Virata, o grande exército de Duryodhana chegou pelo norte, e começou a destruir as fazendas de gado nos limites da cidade.

O exército Kaurava em sua marcha militar cercou as incontáveis vacas que estavam lá. O líder dos pastores correu para a cidade e disse ao príncipe Uttara: "Ó príncipe, os Kauravas invadiram com seu exército e roubaram nossas vacas. O rei Virata foi para o sul lutar contra o exército Trigarta. Estamos em desespero pois não há ninguém para nos proteger. Você é o filho do rei e procuramos por sua proteção. Suplicamos, venha e recupere as vacas pela honra de sua família".

Quando o líder dos pastores fez essa reclamação a Uttara na presença do povo e especialmente das mulheres do palácio, o príncipe se sentiu animado com valentia e disse com orgulho:

"Se apenas puder conseguir alguém que seja meu cocheiro. Vou recuperar as vacas sozinho. Bem, minhas façanhas bélicas serão dignas de serem vistas e o povo verá que há muito pouca diferença entre eu e Arjuna".

Quando Uttara disse essas palavras, Draupadi estava nos aposentos íntimos e deve ter sorrido consigo mesma.

Ela correu até a princesa Uttará e disse: "Ó princesa, o país sofre um grande perigo. Os pastores reclamaram com o jovem príncipe que o exército Kaurava avança para nossa cidade pelo norte e capturou fazendas de gado e as vacas nos arredores. O príncipe está ansioso para lutar com eles e precisa dum cocheiro. Será que algo tão insignificante pode impedir o caminho da vitória e glória? Eu lhe digo que Brihamnala foi cocheiro de Arjuna. Quando estive a serviço da rainha dos Pandavas, ouvi sobre esse fato e também sei que Brihamnala aprendeu a arte do arco e flecha com Arjuna. Ordene imediatamente que Brihamnala vá e dirija a quadriga do príncipe".

Arjuna como Brihamnala fingiu não ser familiar com a armadura e promoveu uma gargalhada pelo seu embaraço ao colocá-la.

As mulheres do palácio riram de seus temores e lhe disseram novamente para não ter medo pois Uttara cuidaria dele.

Arjuna gastou algum tempo com essa diversão, mas quando arreou os cavalos, pôde-se ver, pelo menos, que ele era um exímio cocheiro. E quando segurou as rédeas, parecia que os cavalos o adoravam e obedeciam.

"O príncipe será vitorioso. Vamos despojar o inimigo de suas vestes adornadas e distribuí-las a vocês como prêmio da vitória". Essas foram as últimas palavras de Brihamnala às mulheres do palácio, a quadriga levou o príncipe com rapidez em direção à batalha.

 

Capítulo 46

O Príncipe Uttara

Uttara, filho de Virata, partiu com entusiasmo da cidade em sua quadriga com Brihamnala como seu cocheiro e ordenou que este dirigisse rapidamente para o local onde os Kauravas cercaram as vacas.

Assim, os cavalos foram guiados em sua velocidade máxima. Até que avistaram o exército Kaurava, no primeiro vislumbre parecia uma linha coberta por uma nuvem de poeira que subia até o céu.

Quando chegaram mais perto, Uttara viu o grande exército em batalha comandado por Bhisma, Drona, Kripa, Duryodhana e Karna. Com essa visão, sua coragem, que secou gradualmente durante a corrida rápida para o campo, tinha quase esgotado. Sua boca ficou seca e seus pêlos se arrepiaram.

Todos seus membros tremiam. Ele fechou os olhos com as duas mãos para se livrar da visão aterradora. Ele disse: "Como eu posso, sozinho, atacar um exército? Não tenho tropas, pois o rei, meu pai, levou todas as forças disponíveis e deixou a cidade desprotegida. É um absurdo pensar que um homem sozinho possa lutar contra um exército inteiro bem equipado, comandado por guerreiros de renome mundial! Ó Brihamnala, vire a quadriga e volte".

Brihamnala riu e disse: "Ó príncipe, você partiu da cidade pleno de determinação bravia e as damas esperam grandes feitos de você. Os cidadãos também colocaram sua confiança em você. Sairamdhrika me elogiou e eu vim por causa do seu pedido. Se voltarmos sem recuperar as vacas, seremos a causa da risada de todos. Não vou voltar a quadriga. Vamos permanecer firmes e lutar. Não tenha medo". Com essas palavras, Brihamnala começou a dirigir a quadriga em direção ao inimigo e eles chegaram bem perto deles.

A aflição de Uttara dava pena. Ele disse com a voz estremecida: "Eu não posso fazer isso, simplesmente não posso. Deixe os Kauravas partirem com as vacas, e se as mulheres rirem, deixe elas. Eu não me importo. Qual o sentido em lutar com pessoas que são incomensuravelmente mais fortes do que nós? Não seja tolo! Volte a quadriga. Senão, vou pular fora e correr de volta". Com essas palavras Uttara largou seus arcos e flechas, pulou fora da quadriga e começou a fugir em direção à cidade, enlouquecido pelo pânico.

Isso não deve ser visto como algo que nunca aconteceu. Nem o pânico de Uttara em sua primeira batalha, de jeito nenhum, é estranho.

O medo é um sentimento de instinto muito forte, apesar de poder ser superado pela força de vontade ou por motivos de força maior como amor, vergonha ou ódio, ou mais simplesmente, por disciplina.

Até mesmo homens que posteriormente se destacaram por feitos heróicos confessaram que sentiram algo como pânico pavoroso, na primeira vez que entraram no fogo da batalha. Uttara não era de forma nenhuma um covarde excepcional, pois lutou até cair esgotado em Kurukshetra.

Arjuna perseguiu o príncipe fujão, gritava para ele parar e se comportar como um kshatriya. O cabelo trançado do cocheiro começou a dançar e suas roupas começaram a balançar à medida que perseguia Uttara. O príncipe fugia daqui para lá na tentativa de escapar das mãos que o deteriam.

Quem estava no exército Kaurava, e pôde assistir esse espetáculo, achou muito divertido. Drona ficou intrigado com a visão de Brihamnala, se bem que vestido fantasticamente, parecia um homem vestido como mulher e curiosamente o fez lembrar de Arjuna.

Quando comentou sobre isso, Karna disse: "Como esse pode ser Arjuna? Qual o problema se for ele mesmo? O rei deixou seu filho sozinho na cidade e foi com todo seu exército lutar contra Susharma. O jovem príncipe trouxe o servente das damas do palácio como seu cocheiro. É isso".

O pobre Uttara implorava a Brihamnala que o deixasse ir e prometeu uma fortuna considerável se fizesse isso. Ele apelou à sua piedade: "Sou o único filho da minha mãe. Sou uma criança que cresceu no colo da minha mãe. Estou com muito medo".

Mas, Brihamnala queria salvá-lo de si mesmo, e não o deixou ir. Ele o perseguiu, capturou e o arrastou para dentro da quadriga à força.

Uttara começou a soluçar e disse: "Como fui tolo em me vangloriar! Ai de mim! O que vai ser de mim"?

Arjuna disse suavemente, para acalmar o temor do príncipe: "Não tenha medo. Eu lutarei contra os Kauravas. Ajude-me por cuidar dos cavalos e dirigir a quadriga, que eu farei o resto. Confie em mim, fugir não traz nenhum benefício. Vamos expulsar o inimigo e recuperar suas vacas. Você receberá toda a glória". Com essas palavras, levantou o príncipe na quadriga, pôs as rédeas em suas mãos e pediu a ele para dirigir a quadriga até uma árvore perto do campo de sepultamento.

Drona, que observava tudo com muita atenção, descobriu que o cocheiro vestido fantasticamente era Arjuna e compartilhou seu conhecimento com Bhisma.

Duryodhana se voltou para Karna e disse: "Por que devemos nos preocupar com quem é ele? Mesmo se for Arjuna, vai estar em nossas mãos, pois se for descoberto, fará com que os Pandavas voltem para a floresta por mais doze anos".

Logo quando chegaram na árvore, Brihamnala mandou o príncipe descer da quadriga, subir na árvore e pegar as armas que estavam escondidas ali. O príncipe disse alarmado e angustiado. "O povo diz que nesta árvore fica pendurado o cadáver duma velha caçadora. Como que vou tocar num corpo morto? Como você me pede para fazer isso"?

Arjuna disse: "Não é um cadáver, príncipe. Eu sei que ela esconde as armas dos Pandavas. Suba na árvore com coragem e as traga aqui. Não demore".

Ao perceber que não adiantava resistir, Uttara subiu na árvore como Brihamnala lhe pediu e pegou, com muita aflição, o saco amarrado que estava lá e desceu.

Quando abriu o saco de couro, ele viu armas tão brilhantes como o Sol. Uttara ficou abismado com a visão das armas brilhantes e cobriu seus olhos.

Ele juntou sua coragem e as tocou. O toque parece que lhe deu um fluxo de esperança e alta coragem. Ele perguntou com ardor: "Ó cocheiro, que maravilha! Você disse que esses arcos, flechas e espadas pertencem aos Pandavas. Eles foram expulsos de seu reino e exilados na floresta. Você os conhece? Onde estão eles"?

Então, Arjuna lhe contou em resumo como todos eles estavam na corte de Virata. Ele disse: "Kanka, que serve o rei, é Yudhisthira. Valala, o cozinheiro que prepara pratos tão gostosos para seu pai, é ninguém mais do que o próprio Bhima. Sairamdhrika, que por insultá-la Kichaka foi morto, é Draupadi. Dharmagranthi, que cuida dos cavalos e Tantripala, o pastor das vacas, são Nakula e Sahadeva respectivamente. Eu sou Arjuna. Não tenha medo. Ó príncipe, você logo me verá derrotar os Kauravas mesmo na presença de Bhisma, Drona e Asvathama, e recuperar as vacas. Você também ganhará renome e será uma lição para você".

Então, Uttara juntou suas mãos e disse: "Ó Arjuna, como sou afortunado de poder vê-lo com meus próprios olhos! Portanto, Arjuna é o herói vitorioso cujo contato pessoal me deu ânimo e coragem. Perdoe os erros que cometi devido à ignorância".

À medida que se aproximavam da tropa dos Kauravas, Arjuna contou alguns de seus feitos heróicos para que Uttara não perdesse sua coragem recentemente desperta. Quando chegaram na frente dos Kauravas, ele desceu, prestou reverências, orou a Deus, tirou os braceletes de concha de seus braços e colocou luvas de couro.

Então, ele amarrou seus cabelos esvoaçantes com um pano, levantou-se voltado para o leste, meditou em sua armadura, subiu na quadriga e regozijou-se com o sentimento familiar de seu famoso arco Gandiva. Ele pôs a corda nele e a vibrou fortemente três vezes cujo som agudo ecoou por todos os lados.

Ao ouvirem o som, os heróis do exército Kaurava comentaram entre si: "Isso é com certeza a voz do Gandiva". Quando Arjuna subiu na quadriga com toda sua estatura divina e tocou seu búzio Devadatta, o exército Kaurava ficou alarmado e se ouviu um grito frenético de que os Pandavas chegaram.

A história de Uttara, que falou com jactância nos aposentos das damas e correu em pânico com a visão da organização hostil, não foi apresentada no Mahabharata apenas como um episódio cômico.

É da natureza humana ordinária olhar com desprezo para níveis inferiores de conduta na habilidade. O rico despreza o pobre, o gracioso despreza o simples, e o forte despreza o fraco. Os corajosos menosprezam os covardes. Mas Arjuna não é um homem ordinário. Ele é uma grande alma e um herói verdadeiro que sentiu ser seu dever como homem forte e bravo ajudar outros a se elevarem acima de suas fraquezas.

Por saber que a natureza o dotou com coragem e bravura desde o nascimento, e que as possuía para nenhuma exibição especial de sua parte, ele tinha a verdadeira humildade daqueles que são realmente grandes. E ele fez o que pôde para dar coragem a Uttara e torná-lo digno de sua linhagem real. Assim é a característica nobre de Arjuna. Ele nunca abusou de sua força e poder. Um de seus muitos nomes é Bibhatsu, que significa aquele que se retrai em fazer um ato indigno, e ele viveu assim.

 

Capítulo 47

Promessa Cumprida

A quadriga de Arjuna fez um grande estrondo no seu caminho, parecia que fazia a Terra tremer. Os corações dos Kauravas palpitaram quando ouviram o zunido do arco Gandiva.

"Nosso exército tem que se organizar bem e com cuidado. Arjuna chegou", disse Drona com ansiedade. Duryodhana não gostou nem um pouco da honra feita a Arjuna por Drona com sua ansiedade.

Ele disse a Karna: "O juramento dos Pandavas era que passariam doze anos na floresta e o ano seguinte sem serem descobertos. O décimo terceiro ano ainda não acabou. Arjuna se revelou antes da hora. Por que então devemos dar espaço ao medo? Os Pandavas terão de voltar para a floresta por mais doze anos. Drona sofre com o medo dos muito eruditos. Vamos deixá-lo na retaguarda e avançar para a batalha".

Karna concordou e disse: "O entusiasmo dos nossos soldados não está na batalha e eles tremem de medo. Eles dizem que o homem, em pé com tanto orgulho, com o arco na mão, na quadriga que corre em nossa direção, é Arjuna. Mas por que ter medo mesmo se fosse Parashurama? Eu mesmo deterei o guerreiro que avança e cumprirei minha palavra com vocês, e lutarei com ele, com certeza, mesmo se todos os outros ficarem para trás. Eles devem levar embora as vacas do rei de Matsya enquanto eu, sozinho, vou lhes dar proteção, empenhado no combate contra Arjuna", e Karna, como de costume, começou a tocar sua trombeta pessoal.

Quando Kripa ouviu essas palavras de Karna, disse: "Isso é pura tolice. Devemos nós todos fazer um ataque combinado contra Arjuna. Essa é a nossa única chance de sucesso. Portanto, não se vanglorie em enfrentá-lo sozinho e sem ajuda".

Karna ficou furioso. Ele disse: "O acharya sempre se deleita em cantar elogios para Arjuna e exaltar seu poder. Se ele faz isso por medo ou por afeição excessiva pelos Pandavas, eu não sei. Quem estiver com medo, não precisa lutar, pode olhar apenas, enquanto os outros, que são fiéis ao sal que comem, empenham-se na batalha. Eu, comigo mesmo, um mero soldado, que amo meus amigos e odeio meus inimigos, ficarei aqui e lutarei. Que ocupação têm aqui, homens versados nos Vedas, que amam e elogiam seus inimigos"? Disse isso com um sorriso sarcástico.

Asvathama, filho de Drona e sobrinho de Kripa, não pôde ouvir sem se incomodar com esse sarcasmo contra seus professores veneráveis. Ele disse a Karna com severidade: "Nós ainda não levamos o rei de volta para Hastinapura, e a batalha ainda tem que ser ganha. Sua jactância é presunção inútil. Pode ser que não somos kshatriyas e que pertençamos à classe dos que recitam os Vedas e os shastras. Mas não fui capaz de encontrar em nenhum shastra que seja digno de honra um rei que captura reinos por trapacear no jogo de dados. Mesmo aqueles, que lutam e conquistam reinos, não se vangloriam tão alto a respeito disso. E não consigo ver o que você fez para ser tão orgulhoso desse jeito. O fogo é silencioso e ainda assim cozinha os alimentos. O Sol brilha mas não em si mesmo. Da mesma forma, a mãe Terra sustenta todas as coisas, móveis e imóveis, e suporta seu próprio peso sem tudo isso, só com um sussurro. Que direito tem a elogio o kshatriya que conquistou o reino de outro ilicitamente num jogo de dados? Tomar o reino dos Pandavas com trapaça não é mais glorioso do que espalhar armadilhas para pássaros ingênuos. Ó Duryodhana, ó Karna, em qual batalha vocês heróis derrotaram os Pandavas? Vocês arrastaram Draupadi para a assembléia. Têm orgulho disso? Vocês destruíram a dinastia Kaurava como um imbecil sem cérebro derruba uma árvore de sândalo pela atração por sua fragrância. Uma luta com Arjuna, vocês verão, é uma coisa muito diferente do que jogar um dado. O Gandiva vai atirar flechas afiadas e não quadras e duplas como no jogo de dados. Tolos vaidosos, vocês acham que Shakuni pode, pela mera trapaça, furtar uma vitória em batalha para vocês"?

Os líderes do exército Kaurava perderam a paciência e começaram uma alta batalha de palavras. Ao ver isso, o patriarca ficou muito triste e disse:

"A pessoa sábia não insulta seus professores. Deve-se entrar numa batalha somente depois dum cálculo cuidadoso de tempo, lugar e circunstância. Mesmo pessoas sábias perdem seu equilíbrio com freqüência sobre suas próprias situações. Irritado pela ira, mesmo Duryodhana que é geralmente tão sensível falha em reconhecer que o guerreiro que se encontra perante nosso exército tão bravamente é Arjuna. Seu intelecto ficou obscurecido pela ira. Ó Asvathama, suplico que não se importe com os comentários ofensivos de Karna. Você deve considerá-los simplesmente para colocar os preceptores em seu melhor espírito e os instigarem à ação. Não é hora para nutrir inimizade ou semear divergência. Drona, Kripa e Asvathama devem esquecer e perdoar. Onde os Kauravas poderão encontrar no mundo inteiro, heróis superiores a Drona, o preceptor, e seu filho Asvathama, que combinam em si a erudição Védica e a bravura kshatriya? Nós sabemos que ninguém mais além de Parashurama pode se igualar a Drona. Nós só vamos vencer Arjuna se nos unirmos e lutarmos juntos contra ele. Vamos nos comprometer com a tarefa que temos em nossa frente. Se brigarmos entre nós, não conseguiremos enfrentar Arjuna".

Assim falou o patriarca. Acalmados por suas nobres palavras, os sentimentos irados se apaziguaram. Bhisma se voltou para Duryodhana e continuou:

"Melhor dos reis, Arjuna chegou. O período estipulado de treze anos terminou ontem. Seu cálculo está errado, como aqueles versados na ciência dos movimentos planetários lhe dirão. Eu sabia que o período acabou quando Arjuna soou seu búzio. Reflita um pouco antes de entrar em batalha. Se você quiser fazer as pazes com os Pandavas, agora é o momento para isso. O que você procura, uma paz honrada e justa ou uma guerra mutuamente destrutiva? Pondere bem e faça a sua escolha".

Duryodhana respondeu: "Venerável senhor, eu não desejo a paz. Eu não darei nem mesmo uma vila para os Pandavas. Vamos nos preparar para a guerra".

Então Drona disse: "Deixe o príncipe Duryodhana levar um quarto do exército para protegê-lo e retornar a Hastinapura. Deixe outro quarto cercar as vacas e capturá-las. Se voltarmos sem capturar as vacas será resultado de reconhecimento da derrota. Com o resto do exército, nós cinco enfrentaremos Arjuna".

As forças dos Kauravas se enfileiraram conforme as instruções na formação de batalha. Arjuna disse: "Ó Uttara, não vejo a quadriga de Duryodhana ou Duryodhana. Vejo Bhisma em pé, vestido com armadura. Eu acho que Duryodhana leva as vacas embora para Hastinapura. Vamos persegui-lo e recuperar as vacas". Com essas palavras, Arjuna saiu da frente do exército Kaurava e foi atrás de Duryodhana e das vacas.

Quando ia assim, ele cumprimentou seus professores e o velho patriarca com muito respeito, por sacar seu arco Gandiva e atirar flechas para que caíssem perto dos pés deles.

Depois de saudá-los com essa reverência de forma heróica, ele partiu e perseguiu Duryodhana. Arjuna alcançou o local onde as vacas estavam reunidas e pôs para correr as forças saqueadoras.

Então, ele se voltou para os pastores e lhes pediu para levarem as vacas para os estábulos, o que fizeram com muita alegria. Arjuna então perseguiu Duryodhana. Ao ver isso, Bhisma e os outros guerreiros Kauravas correram para resgatá-lo, assim, cercaram Arjuna e atiraram flechas contra ele.

Arjuna conduziu um combate maravilhoso. Primeiro, ele enfrentou Karna e o tirou da batalha. Depois disso, ele atacou e derrotou Drona. Ao ver Drona esgotado de fatiga, Asvathama entrou na luta e atacou Arjuna, o que deu a Arjuna uma oportunidade de deixar Drona se retirar do campo de batalha.

Então, aconteceu um terrível combate entre Asvathama e Arjuna. Quando Asvathama ficou fatigado, Kripa o libertou e manteve o ataque contra Arjuna.

Mas Kripa também sustentou a derrota e todo o exército foi disperso e fugiu de medo. Apesar de reunido e trazido de volta ao ataque por Bhisma, Drona e outros, não havia mais força para luta neles. Finalmente, eles saíram do campo, depois de uma gloriosa luta entre Bhisma e Arjuna, que como foi dito, os próprios deuses vieram assistir.

A tentativa de impedir a perseguição de Duryodhana por Arjuna então falhou e logo Arjuna alcançou Duryodhana e o atacou violentamente. Duryodhana foi derrotado e fugiu do campo de batalha, mas não muito, porque quando Arjuna o insultou por covardia, ele se voltou como uma serpente e recomeçou a luta.

Bhisma e outros o cercaram e o protegeram. Arjuna lutou e finalmente, empregou uma arma mística que fez todos eles caírem inconscientes no campo de batalha. Enquanto estavam nessa situação, ele tirou suas vestimentas. A captura das vestes do inimigo era sinal de vitória decisiva naquela época.

Arjuna disse: "Ó Uttara, dê a volta nos cavalos. Nossas vacas foram recuperadas. Nossos inimigos fugiram. Ó príncipe, volte para seu reino, adorne sua pessoa com pasta de sândalo e enfeites de flores".

No caminho de volta, Arjuna depositou as armas como antes na árvore e se vestiu mais uma vez como Brihamnala. Ele mandou mensageiros com antecedência para anunciar na cidade que Uttara teve uma vitória gloriosa.

 

Capítulo 48

A Desilusão de Virata

Depois de derrotar Susharma, rei de Trigarta, Virata voltou para sua capital envolvido pela aclamação de seu povo. Quando chegou em seu palácio, viu que Uttara não estava lá e as mulheres da corte lhe disseram exultadas que Uttara partiu para conquistar os Kauravas.

Elas não tinham dúvida de que seu gracioso príncipe poderia conquistar o mundo inteiro. Mas o coração do rei palpitou com essa notícia, pois tinha ciência da tarefa impossível que o jovem príncipe criado com delicadeza assumiu com um acompanhante não melhor que um eunuco.

Ele chorou: "Meu filho amado com tanto carinho deve estar morto agora", deprimido pela angústia. Então, ele ordenou que seus ministros reunissem e enviassem uma força potente ao máximo para resgatar Uttara, caso estivesse vivo ainda e trazê-lo de volta. Batedores também foram enviados imediatamente para descobrirem sobre o destino e localização de Uttara.

Dharmaputra, disfarçado como o sannyasi Kanka, tentou confortar Virata por lhe assegurar que o príncipe não sofreria nenhum mal pois Brihamnala foi junto com ele como seu cocheiro. Ele disse: "Você não sabe sobre ela. Eu sei. Quem quer que lute numa quadriga dirigida por ela, tem a vitória assegurada. Além do mais, a notícia da derrota de Susharma deve ter chegado lá e os Kauravas devem ter recuado".

Nesse meio tempo, os mensageiros da corte chegaram do campo de batalha com as boas notícias de que Uttara derrotou as forças Kaurava e recobrou o rebanho.

Parecia ser bom demais, mesmo para um pai afetuoso, mas Yudhisthira o assegurou com um sorriso. Ele disse: "Não tenha dúvida, ó rei. O que os mensageiros dizem deve ser verdade. Quando Brihamnala saiu como cocheiro, o sucesso era certo. Não há nada de extraordinário na vitória de seu filho. Eu soube que até mesmo o cocheiro de Indra ou o de Krishna não se igualam a Brihamnala".

Isso pareceu um absurdo para Virata, mas ele estava muito feliz para se aborrecer. Ele deu presentes de jóias valiosos e outras riquezas aos mensageiros que trouxeram as boas novas e ordenou uma comemoração pública. Ele proclamou: "Meu sucesso sobre Susharma não foi nada. A vitória do príncipe foi a verdadeira vitória. Que se ofereçam preces de ação de graças em todos locais de adoração. Que todas as ruas principais sejam decoradas com flâmulas e os cidadãos saiam em procissão ao toque de música triunfal. Façam todos os preparativos para receber, de forma adequada, meu menino de coração de leão".

Virata enviou ministros, soldados e donzelas da corte para as boas vindas a seu filho, em seu retorno triunfante. Quando o rei se retirou a seus aposentos íntimos, pediu a Sairamdhrika para trazer os dados. Ele disse a Kanka: "Não consigo conter minha alegria. Venha, vamos jogar", e se sentou para jogar com Yudhisthira.

Eles conversavam enquanto jogavam e naturalmente o rei estava radiante pela grandeza e habilidade de seu filho. "Veja a glória de meu filho, Bhuminjaya. Ele fez os famosos guerreiros Kauravas fugirem".

"Sim". Yudhisthira respondeu com um sorriso. "Seu filho é muito afortunado realmente, sem a melhor boa sorte, como poderia assegurar que Brihamnala dirigisse sua quadriga"?

Virata estava bravo com essa glorificação persistente de Brihamnala e com a diminuição de Uttara. Ele gritou: "Por que você, uma e outra vez tagarela sobre o eunuco"?

"Quando falo sobre a vitória de meu filho, você discursa sobre a habilidade de cocheiro do eunuco, como se tivesse alguma importância". A ira do rei só aumentou quando Kanka protestou: "Eu sei o que digo. Brihamnala não é uma pessoa ordinária. A quadriga que ela dirige nunca encontra a derrota, e quem quer que esteja nela, tem o sucesso assegurado, sem importar o quanto seja difícil".

Agora, essa afronta perversa não pôde ser suportada, e Virata num surto de ira jogou o dado no rosto de Yudhisthira e em seguida deu um soco no queixo de Yudhisthira. Yudhisthira ficou ferido e o sangue escorreu de sua face.

Sairamdhrika que estava perto, enxugou o sangue com a borda de sua roupa e espremeu numa taça de ouro. Por que esse exagero todo? Por que você guarda o sangue nessa taça"? Ordenou o rei furioso, que ainda estava irritado.

"O sangue dum sannyasi não deve cair no chão, ó rei", respondeu Sairamdhrika. "As chuvas não cairão em seu reino por tantos anos quanto o número de gotas de sangue que caírem no chão. Por isso, eu recolhi o sangue nesta taça. Temo que você não conheça a grandeza de Kanka".

Nesse momento, o porteiro anunciou: "Uttara e Brihamnala chegaram. O príncipe espera por uma audiência com o rei". Virata se levantou excitado e disse: "Peça para ele entrar, peça para ele entrar". E Yudhisthira sussurrou para o sentinela: "Faça Uttara entrar sozinho. Brihamnala deve ficar de fora".

Ele fez isso para prevenir uma catástrofe, pois sabia que Arjuna seria incapaz de controlar sua ira quando visse o ferimento na face de seu irmão. Ele não toleraria ver Dharmaputra ferido por ninguém, exceto num combate justo.

Uttara entrou e prestou as devidas homenagens a seu pai real. Quando se virou para reverenciar Kanka, ficou horrorizado em ver sua face que sangrava, pois agora ele sabia que Kanka era o grande Yudhisthira.

Ele gritou: "Ó rei, quem foi que causou esse ferimento nessa grande personalidade"?

Virata olhou para seu filho e disse: "Por que esse exagero todo sobre isso. Eu o agredi por minimizar de forma inoportuna e invejosa sua pessoa enquanto eu estava num oceano de felicidade com a notícia da sua vitória gloriosa. Toda vez que eu mencionava você, esse brâmane desafortunado exaltava seu cocheiro, o eunuco, e dava a vitória a ele. Isso foi realmente muito estúpido, e me arrependo de feri-lo, mas não vale a pena falar mais sobre isso".

Uttara ficou perturbado de medo, e disse: "Ai de mim! Você cometeu um grande erro. Caia aos pés dele agora mesmo, pai, e rogue por perdão ou seremos destruídos, desde a raiz até os galhos".

Virata, para quem tudo isso era inexplicável, ficou intrigado sem saber o que fazer. Mas Uttara estava tão ansioso e perturbado que se abaixou, prestou reverências a Yudhisthira e pediu o seu perdão.

Depois, Virata abraçou seu filho, fez com que sentasse, e disse: "Meu menino, você é um verdadeiro herói. Estou com uma febre de impaciência para ouvir tudo de você. Como você derrotou o exército Kaurava? Como você recuperou o rebanho"?

Uttara abaixou sua cabeça e disse: "Não conquistei nenhum exército, e não recuperei nenhuma vaca. Tudo foi trabalho dum príncipe divino. Ele assumiu a nossa causa, salvou-me da destruição, fez os soldados Kauravas fugirem e trouxe o rebanho de volta. Eu não fiz nada".

O rei mal podia acreditar no que ouviu. Ele perguntou: "Onde está esse príncipe divino. Devo ver e agradecer o herói que resgatou meu filho e expulsou meus inimigos. Eu darei minha filha, Uttará, em casamento a ele. Vá e o convide para entrar".

"Ele desapareceu por enquanto", respondeu o príncipe, "mas acho que ele voltará hoje ou amanhã". Uttara falou desse jeito porque Arjuna era um príncipe divino de verdade e no momento tinha desaparecido em Brihamnala.

No salão de reuniões de Virata, todos os cidadãos principais estavam reunidos para celebrar a vitória do rei e do príncipe. Kanka, Valala, o cozinheiro, Brihamnala, Tantripala e Dharmagranthi, que foram responsáveis pelas vitórias, chegaram também e entraram no salão, e para a surpresa de todos, sentaram entre os príncipes sem convite.

Alguns explicaram essa conduta ao dizer que, depois de tudo, essa gente humilde prestou um serviço inestimável num momento crítico e mereciam reconhecimento verdadeiro.

Virata entrou no salão. Ao ver o sannyasi Kanka, o cozinheiro e os outros sentados em lugares reservados para príncipes e nobres, o rei perdeu seu controle e começou a gritar alto sobre seu descontentamento.

Quando acharam que tiveram diversão suficiente, os Pandavas revelaram sua identidade para o espanto de todos presentes. Virata ficou fora de si com a alegria de pensar que eram os príncipes Pandavas e Panchali que o serviram todos esses dias disfarçados. Ele abraçou Kanka com gratidão exuberante e fez uma entrega formal de seu reino e tudo que possuía a ele, e claro que recebeu tudo de volta imediatamente com agradecimentos. Virata também insistiu que deveria dar sua filha em casamento a Arjuna.

Mas Arjuna disse: "Não, isso não é correto, pois a princesa aprendeu dança e música comigo. Eu, como seu professor, estou na posição de pai dela". Entretanto, ele concordou em aceitá-la como esposa de seu filho Abhimanyu.

Nesse momento, chegaram mensageiros do malévolo e traiçoeiro Duryodhana com uma mensagem para Yudhisthira. Eles disseram: "Ó filho de Kunti, Duryodhana sente muito que devido à ação precipitada de Dhananjaya, vocês terão de voltar para a floresta. Ele deixou ser reconhecido antes do fim do décimo terceiro ano e portanto, de acordo com seu compromisso, vocês têm que morar na floresta por mais doze anos".

Dharmaputra riu e disse: "Mensageiros, voltem rápido para Duryodhana e digam-lhe para se informar melhor. O venerável Bhisma e outros versados nos astros vão dizer a ele sem dúvida que os treze anos completos terminaram antes de suas forças ouvirem novamente o zunido do arco de Dhananjaya, e fugirem de medo".

 

Capítulo 49

Recebimento de Conselhos

O décimo terceiro ano durante o qual os Pandavas tinham que ficar incógnitos chegou ao fim.

Sem ter mais a obrigação de ficarem disfarçados, deixaram a capital de Virata como os Pandavas mesmo e se estabeleceram abertamente em Upaplavya, outro lugar no território de Matsya. De lá, mandaram emissários para chamar seus amigos e parentes.

De Dwaraka, vieram Balarama e Krishna com a esposa de Arjuna, Subhadra, e seu filho Abhimanyu, acompanhados de vários guerreiros Yadavas. O som das trombetas e búzios era alto e longo quando o príncipe de Matsya e os Pandavas foram receber Janardhana.

Indrasena e muitos outros como ele, que no começo do ano anterior deixaram os Pandavas na floresta, se juntaram a eles novamente com suas quadrigas em Upaplavya. O príncipe de Kashi e o soberano de Shaibya chegaram com suas forças.

Drupada, príncipe de Panchala, também estava lá com três divisões, e trouxe consigo Shikhandi, os filhos de Draupadi e seu irmão Dristadyumna. Tinham muitos outros príncipes reunidos em Upaplavya, bem querentes dos Pandavas.

O casamento de Abhimanyu com a princesa Uttará foi solenizado de acordo com os rituais Védicos perante essa reunião ilustre de heróis amistosos. Quando as celebrações do casamento terminaram, eles se reuniram em conclave no salão da assembléia de Virata.

Krishna se sentou ao lado de Yudhisthira e Virata, enquanto Balarama e Satyaki se sentaram ao lado de Drupada. Quando o alvoroço acalmou, todos os olhos se voltaram para Krishna, que então Se levantou para falar.

Krishna disse à assembléia silenciosa: "Todos vocês sabem a história da grande trapaça onde Yudhisthira foi enganado no tabuleiro de jogo e desprovido de seu reino, e exilado com seus irmãos e Draupadi para a floresta. Durante treze anos, os filhos de Pandu suportaram com paciência seu tormento no cumprimento de sua palavra empenhada. Ponderem bem e aconselhem um curso, que esteja de acordo com dharma e contribua para a glória e bem estar tanto dos Pandavas como dos Kauravas. Pois, Dharmaputra não deseja nada que não possa reclamar justamente. Ele não deseja nada além do bem, mesmo para os filhos de Dhritarastra que o enganaram e lhe causaram uma injúria dolorosa. Ao darem seu conselho, tenham em mente a fraude e maldade dos Kauravas bem como a honorável magnanimidade dos Pandavas. Planejem um acordo justo e honrado. Não sabemos o que Duryodhana tem em mente. Eu acho que devemos mandar um emissário capaz e justo até ele para persuadi-lo a um acordo pacífico com a restituição de metade do reino a Yudhisthira".

Balarama então Se levantou para Se dirigir à assembléia. Ele disse: "Vocês ouviram Krishna. A solução que Ele propôs é sábia e justa. Eu a endosso como boa tanto para Duryodhana como para Dharmaputra. Se os filhos de Kunti puderem ter seu reino de volta por um acordo pacífico não poderia ser melhor para eles, os Kauravas e todos envolvidos. Só assim haverá felicidade e paz na Terra. Alguém deve ir transmitir a Duryodhana o desejo de Yudhisthira para um acordo pacífico e trazer a resposta dele, alguém que tenha influência e habilidade suficientes para trazer a paz e o bom entendimento. O enviado deve obter a cooperação de Bhisma, Dhritarastra, Drona e Vidura, Kripa e Asvathama, e até mesmo de Karna e Shakuni se possível, para assegurar o apoio aos filhos de Kunti. Deve ser alguém, que em hipótese nenhuma, dará vazão à ira. Dharmaputra, com ciência plena sobre as conseqüências, apostou seu reino e o perdeu, de forma obstinada e com desprezo à persuasão dos amigos. Plenamente ciente de que não era páreo para o habilidoso Shakuni, jogou assim mesmo. Agora, ele não pode reclamar, mas apenas suplicar por seus direitos. O enviado adequado deve ser alguém que não seja briguento mas de índole pacífica, apesar de toda dificuldade em conseguir um acordo pacífico. Príncipes, Eu desejo que vocês se aproximem de Duryodhana com muita diplomacia e façam as pazes com ele. Vamos evitar um confronto armado por todos os meios em nosso poder. Somente aquilo que resulta da paz vale a pena. Da guerra, nada mais além do erro pode surgir".

A posição de Balarama era que Yudhisthira sabia o que fazia quando jogou e perdeu seu reino e agora não podia reclamá-lo como seu direito.

O cumprimento das condições do exílio só deu aos Pandavas sua liberdade pessoal e não seu reino, tem que ser dito, eles não têm que cumprir outro termo de exílio na floresta. Mas isso não lhes deu o direito de ter seu reino de volta.

Dharmaputra só poderia suplicar pelo retorno do que perdeu e não reclamar como direito. Balarama não apreciava um conflito armado entre descendentes da mesma família e sustentou justamente que a guerra só conduziria ao desastre.

As palavras de Balarama transcritas pelo poeta são uma grande verdade.

Satyaki, o guerreiro Yadava, que ouviu Balarama falar assim, não pôde se conter. Ele se levantou irado e falou indignado:

"As palavras de Balarama não me atingem nem ao mínimo de forma justa. Qualquer um pode, se habilidoso o suficiente, fazer um apelo plausível para qualquer caso, mas nem toda habilidade do mundo pode converter errado em certo ou injustiça em justiça. Tenho que protestar contra a postura de Balarama, que me enche de desgosto. Nunca vemos numa única e mesma árvore, um galho curvado cheio de frutas e outro saliente vazio e inútil? Assim, desses dois irmãos, Krishna fala palavras que exalam o espírito de dharma enquanto a atitude de Balarama é indigna. Se vocês aceitarem o que não há dúvida de que os Kauravas trapacearam Yudhisthira e tomaram sua parte do reino, por que então, permitir que eles fiquem com isso é tão injusto como confirmar a um ladrão a posse de seu roubo! Qualquer um que encontre falta em Dharmaputra, faz isso com medo covarde de Duryodhana, não por qualquer motivo idôneo. Ó príncipes, perdoem minhas palavras duras. Não foi por sua própria vontade mas porque os Kauravas o pressionaram e convidaram, que o novato e relutante Dharmaputra jogou com um jogador desonesto aquele jogo repleto de desastre. Por que devemos nos curvar e suplicar a Duryodhana, agora que ele cumpriu suas obrigações? Yudhisthira não é um mendigo e não precisa mendigar. Ele cumpriu sua palavra bem como seus irmãos também, doze anos em exílio na floresta e doze meses depois disfarçados de acordo com seu compromisso. Ainda assim, Duryodhana e seus associados, vergonhosamente e desonestamente, questionaram o desempenho. Eu derrotarei esses vilões impudentes em batalha e eles terão que pedir perdão a Yudhisthira ou encontrar sua destruição. Como uma guerra justa pode ser errada de qualquer forma? Não é nenhum pecado matar inimigos que pegaram suas armas e lutaram. Suplicar ao inimigo, que é incorrer em desgraça. Se Duryodhana deseja a guerra, ele vai tê-la e nós estaremos bem prontos para isso. Que não haja demora e que comecemos os preparativos. Duryodhana não vai dividir o território sem uma guerra e é tolice perder tempo".

O coração de Drupada ficou em júbilo com as palavras resolutas de Satyaki. Ele se levantou e disse: "Satyaki está certo e eu o apóio. Palavras suaves não trarão Duryodhana de volta à razão. Vamos continuar nossos preparativos para a guerra e que nossos amigos sejam avisados sem perda de tempo para trazerem suas forças. Mandem avisos imediatamente para Shalya, Dristaketu, Jayasena e Kekaya. É claro que devemos mandar um mensageiro adequado a Dhritarastra. O sábio brâmane, que conduz as cerimônias religiosas em minha corte, pode ir para Hastinapura, com confiança. Vamos instruí-lo bem sobre o que deve dizer para Duryodhana e como deve transmitir a mensagem a Bhisma, Dhritarastra e Dronacharya".

Quando Drupada terminou, Vasudeva (Krishna, o filho de Vasudeva) Se levantou e Se dirigiu a Drupada:

"O que você sugere é prático e também está de acordo com o código real. Balarama e Eu somos ligados aos Kauravas e aos Pandavas com os mesmos laços de afeição. Nós viemos aqui para o casamento da princesa Uttará, e agora vamos voltar para Nossa cidade. Vocês são grandiosos entre os príncipes da Terra, bem como em idade e sabedoria, e dignos de aconselharem todos. Dhritarastra também tem vocês em alta estima, como seus amigos de infância, da mesma forma como Drona e Kripa. Portanto, somente será certo, vocês instruírem o brâmane mensageiro para sua missão de paz. Se ele falhar em persuadir Duryodhana a corrigir seu erro, preparem-se para o conflito inevitável, Meus amigos, e Nos avisem".

A conferência terminou e Krishna partiu para Dwaraka com Seu pessoal. Os Pandavas e seus aliados continuaram com seus preparativos. Enviaram mensageiros a todos os príncipes amigos que se ocuparam em mobilizar seus exércitos respectivos.

Nesse meio tempo, Duryodhana e seus irmãos não ficaram ociosos. Eles também começaram a se preparar para o conflito iminente e mandaram avisos a seus amigos para deixarem seus contingentes prontos para a guerra.

A notícia desses preparativos em ambos os lados se espalhou por toda a Terra. O poeta diz: "O rápido ir e vir constante de príncipes causou um grande tumulto em toda parte. A Terra tremeu sob a marcha pesada das legiões militares".

Parece que até mesmo naquela época, as preparações militares eram da mesma forma como são feitas hoje em dia.

Drupada chamou seu brâmane e disse a ele: "Você conhece a capacidade intelectual de Duryodhana bem como as qualidades dos Pandavas. Vá até ele como emissário dos Pandavas. Os Kauravas enganaram os Pandavas com o consentimento de seu pai, Dhritarastra, que não ouviu o conselho sábio de Vidura. Mostre ao velho e fraco rei, que é mal guiado por seu filho, o caminho de dharma e da sabedoria. Você verá que Vidura é um grande aliado para essa tarefa. Sua missão pode conduzir a diferenças de opinião entre os estadistas mais velhos como Bhisma, Drona e Kripa, bem como entre os senhores da guerra. E, se isso acontecer, levará algum tempo para essas diferenças acalmarem, que será tempo ganho para os Pandavas a fim de completarem os preparativos da guerra. Enquanto você estiver na capital de Duryodhana nas conferências sobre paz, os preparativos para a guerra deles sofrerão um atraso, o que será bom para o lado dos Pandavas. Se, por um milagre, você for capaz de voltar com bons termos do acordo de paz, será muito melhor. Eu não acho que Duryodhana vá concordar com um acordo de paz. Mesmo assim, mandar alguém numa missão de paz será vantajoso para nós".

Em dezembro de 1941, os japoneses estavam em negociações de paz com os americanos e, logo no término dessa conferência, atacaram os americanos de surpresa em Pearl Harbor e destruíram suas forças navais que ali estavam.

As instruções de Drupada para o brâmane mostram que essa não é uma técnica nova. E que, mesmo antigamente, o mesmo método era seguido em relação a negociações, e mesmo no trabalho sincero pela paz, e ao mesmo tempo nos preparativos com muito vigor para a guerra iminente, promovia-se a condução de conferências de paz com o objetivo de criar discórdia nas forças inimigas. Não existe nada de novo embaixo do Sol!

 

Capítulo 50

O Cocheiro de Arjuna

Depois de mandar o brâmane de Drupada para Hastinapura na missão de paz, os Pandavas mandaram avisos, ao mesmo tempo, para os príncipes a fim de favorecer sua causa, reunir as forças de todos e ficarem prontos para a guerra. Para Dwaraka, Arjuna foi pessoalmente.

Ciente por meio de seus espiões sobre os eventos que aconteciam, Duryodhana também não ficou ocioso. Quando soube que Vasudeva (Krishna) estava de volta à Sua cidade de residência, partiu para Dwaraka em sua quadriga, tão rápido quanto seus cavalos mais velozes pudessem levá-lo. Os dois então, Arjuna e Duryodhana, chegaram em Dwaraka no mesmo dia.

Krishna dormia profundamente. Como eram Seus parentes próximos, Arjuna e Duryodhana podiam entrar em Seu quarto de dormir. Lá, ambos esperaram Krishna acordar. Duryodhana que entrou primeiro, sentou-se numa poltrona decorada que ficava na cabeceira da cama, enquanto Arjuna ficou no pé da cama com as mãos postas em postura de reverência.

Quando Mahadeva acordou, Seus olhos viram Arjuna que estava em Sua frente, e Ele o recebeu com uma calorosa saudação. Virou-Se para Duryodhana e o saudou também, depois perguntou o que os trouxeram a Dwaraka. Duryodhana foi o primeiro a falar.

Ele disse: "Parece que a guerra entre nós vai acontecer em breve. Se acontecer mesmo, Você tem que me apoiar. Arjuna e eu somos queridos por Você igualmente. Nós dois reivindicamos um parentesco igual com Você. Você não pode afirmar que um de nós é mais próximo de Você do que o outro. Eu cheguei aqui antes de Arjuna. A tradição diz que aquele que chega primeiro tem a preferência. Janardhana, Você é o maior entre os maiores; portanto, é Seu dever dar exemplo aos outros. Confirme com Sua conduta, o dharma tradicional e lembre que fui o primeiro a chegar".

Purushottama (Krishna) respondeu: "Filho de Dhritarastra, pode ser que você chegou primeiro, mas foi o filho de Kunti que vi imediatamente quando acordei. Se você foi o primeiro a chegar, Arjuna foi o primeiro que capturou minha visão. Portanto, mesmo a esse respeito, suas reivindicações para Mim são iguais, e Eu sou obrigado a dar assistência aos dois lados. Quando se distribui favores, o costume tradicional é começar com o mais novo dos recebedores. Por isso, vou oferecer a escolha a Arjuna primeiro. Os homens de Minha tribo Narayana são iguais a Mim em batalha e constituem uma tropa enorme, e quase invencível. Na Minha distribuição de assistência, eles estão num lado, e Eu estou sozinho no outro lado. Mas Eu não portarei nenhuma arma e não tomarei parte na luta real".

Krishna Se voltou para Arjuna e disse: "Partha, pense bem. Você Me quer, sozinho e desarmado, ou você prefere o poder do exército Narayana? Exerça o direito de escolher primeiro que a tradição dá a você como o mais jovem".

Krishna mal acabou de falar quando Arjuna disse com reverência e sem hesitar: "Eu ficarei feliz se Você ficar conosco, apesar de que não portará nenhuma arma".

Duryodhana mal pôde se conter de alegria pois pensou que a escolha de Arjuna foi estúpida. Muito contente, optou pela ajuda do exército de Vasudeva e seu pedido foi atendido. Satisfeito com a aquisição duma força poderosa, Duryodhana foi até Baladeva e Lhe contou a história.

Quando terminou de falar, o poderoso Balarama disse: "Duryodhana, devem ter lhe contado tudo o que Eu disse durante o casamento da filha de Virata. Eu defendi sua causa e argumentei com tudo que pudesse ser dito a seu favor. Eu digo a Krishna com freqüência que temos laços iguais com os Kauravas e os Pandavas. Mas minhas palavras falharam em convencê-Lo. Estou desamparado. É impossível para Eu ficar do lado oposto a Krishna. Não vou ajudar Partha, e não posso suportar você contra Krishna. Duryodhana, você vem numa linhagem ilustre, que é respeitada por todos os príncipes da Terra. Bem, se tem que haver a guerra, comporte-se de acordo com o código kshatriya", disse Ele.

Duryodhana voltou a Hastinapura com muita vitalidade e disse consigo mesmo: "Arjuna se fez de tolo. O grande exército de Dwaraka vai lutar do meu lado e a boa vontade de Balarama também está comigo. Vasudeva está abandonado sem um exército".

Krishna perguntou a Arjuna com um sorriso, quando ficaram sozinhos: "Dhananjaya, por que fez esta escolha tola, deu preferência a Mim sozinho e desarmado no lugar da força do Meu exército plenamente equipado e com todos seus grandes heróis".

Arjuna respondeu:

"Minha ambição é alcançar a glória igual à Sua. Você tem o poder e a habilidade para enfrentar todos os príncipes da Terra e suas tropas em batalha sozinho e de mãos vazias. Eu sinto que também posso fazer isso. Portanto, desejo que vencerei a batalha com Você na direção de minha quadriga, desarmado. Eu desejava isso há muito tempo e hoje, Você satisfez meu desejo".

Vasudeva sorriu novamente e proclamou esta bênção: "Você tenta competir Comigo? Que você tenha sucesso". Pois Ele ficou muito satisfeito com a decisão de Arjuna. Esta é a história secreta de como Krishna Se tornou o cocheiro de Arjuna.

 

Capítulo 51

Shalya Contra Seus Sobrinhos

Shalya, o soberano de Madradesha, era irmão de Madri, a mãe de Nakula e Sahadeva. Ele soube que os Pandavas estavam acampados na cidade de Upaplavya e faziam preparativos para a guerra.

Ele reuniu um exército muito grande e partiu para aquela cidade para se juntar aos Pandavas. O exército de Shalya era tão grande que quando parava para descansar, o acampamento se estendia a uma distância de vinte e cinco quilômetros.

A notícia de que Shalya e seu exército marchavam chegou a Duryodhana. Então, ele decidiu que Shalya tinha que se juntar ao seu lado de qualquer jeito, assim instruiu seus oficiais para oferecerem a ele e seu grande exército todas as facilidades e tratá-los com hospitalidade suntuosa.

Segundo as instruções de Duryodhana, várias casas de repouso foram erguidas em vários locais ao longo do caminho, nas quais, Shalya e seus homens eram tratados com hospitalidade suntuosa. Comida e bebida eram providenciadas generosamente.

Shalya ficou muito satisfeito com toda a atenção dada a ele mas assumiu que seu sobrinho, Yudhisthira, organizou tudo isso. O exército de Shalya marchava avante, e a Terra tremia com seus passos pesados.

Ficou tão satisfeito com a hospitalidade, que chamou os serventes um dia e disse a eles:

"Eu tenho que retribuir a vocês todos que trataram a mim e meus soldados com tanta dedicação e atenção. Por favor, digam ao filho de Kunti que tem de me deixar fazer isso, e tragam-me o consentimento dele".

Os serventes foram e contaram a seu senhor, Duryodhana, o ocorrido. Duryodhana que estava o tempo todo sem ser notado com o grupo de serventes de Shalya e seus soldados, de imediato aproveitou essa oportunidade e se apresentou perante Shalya, e disse que estava muito honrado por Shalya aceitar a hospitalidade Kaurava.

Isso fez com que Shalya ficasse perplexo pois até então não suspeitava da verdade, e ficou impressionado pelo cavalheirismo de Duryodhana com a generosa hospitalidade real por um partidário dos Pandavas.

Muito comovido, ele exclamou: "Como você é nobre e generoso! Como posso retribuí-lo"?

Duryodhana respondeu: "Você e suas forças têm que lutar no meu lado. Essa é a recompensa que lhe peço".

Shalya ficou atônito.

Os Puranas que sempre pregam a boa conduta, às vezes, narram situações onde a conduta, que não está de acordo com dharma, parece desculpada. Será que é certo, alguém pode perguntar, livros religiosos parecem justificar o errado?

Um pouco de reflexão fará a pessoa entender a matéria com a iluminação adequada. É necessário trazer à tona o fato de que mesmo grandes pessoas sábias e boas estão sujeitas a cometerem erros.

Por isso, os Puranas, apesar de sempre procurarem induzir dharma, contêm narrativas que mostram como, neste mundo material, até mesmo boas pessoas às vezes pecam contra dharma, como se atraídas sem resistência a fazerem isso.

Isso é para trazer à tona a verdade de que não importa o quanto a pessoa seja educada, humildade e vigilância constantes são absolutamente necessárias se quiser evitar o mal.

Por que então os grandes autores dos Épicos Sagrados descrevem os deslizes de Rama no Ramayana e de Yudhisthira no Mahabharata?

Qual a necessidade de mencioná-los e então elaborar argumentos para explicá-los, e assim confundir as mentes das pessoas?

Não é que outros descobriram os deslizes, e Vyasa e Valmiki tiveram que defender seus heróis. Vyasa e Valmiki são pessoas especiais, avataras do Supremo Senhor, com a missão de passarem para escrita este Conhecimento Transcendental. Os passatempos transcendentais da Suprema Personalidade de Deus servem para atrair a mente das pessoas comuns, purificar seu coração e elevá-las ao plano da Consciência de Krishna, onde se desperta o Amor Puro adormecido pelo Supremo Senhor.

Os trechos que tratam dos deslizes tocam profundamente a mente do leitor, o que serve como uma advertência solene sobre as armadilhas que esperam para tragar os descuidados.

Eles dirigem a mente para a humildade e a vigilância, e fazem realizar a necessidade de orientação divina. Por isso, os Puranas destacam que mesmo grandes pessoas cometem erros e agem indevidamente. A narração é para alertar o leitor, e não para seduzi-lo ao mau caminho.

Como o Supremo Senhor, Sri Krishna, explica no Srimad Bhagavad-gita (7.14):

daivi hy esa guna-mayi
mama maya duratyaya
mam eva ye prapadyante
mayam etam taranti te

14. Esta Minha energia divina, que consiste dos três modos da natureza material, é difícil de superar. Mas aqueles que se rendem a Mim podem superá-la facilmente.

E também no Capítulo Quatro do Srimad Bhagavad-gita:

vita-raga-bhaya-krodha
man-maya mam upasritah
bahavo jnana-tapasa
puta mad-bhavam agatah

10. Muitas pessoas no passado que se livraram do apego, do temor e da ira, por estarem completamente absortas em Mim, e abrigadas em Mim, purificaram-se por meio do conhecimento sobre Mim, e assim, todas elas alcançaram o amor transcendental por Mim.

tad viddhi pranipatena
pariprasnena sevaya
upadeksyanti te jnanam
jnaninas tattva-darsinah

34. Trate de aprender a verdade por se aproximar de um mestre espiritual. Inquira com submissão e preste serviço a ele. O ser auto-realizado pode dar o conhecimento a você pois ele vê a verdade.

Duryodhana disse: "Você é equânime com nós dois. Eu devo significar para você do mesmo modo que os Pandavas. Portanto, você tem que concordar em me ajudar".

Shalya respondeu: "Assim seja". Lisonjeado pela recepção esplêndida de Duryodhana, Shalya desertou os Pandavas que eram dignos de seu amor e estima, e deu sua palavra para lutar no lado de Duryodhana, o que mostra o perigo em aceitar a hospitalidade de reis.

Shalya achou que não era correto recuar sem se encontrar com Yudhisthira, então disse a Duryodhana: "Duryodhana, acredite em mim. Eu lhe dei minha palavra de honra. Entretanto, tenho que me encontrar com Yudhisthira e contar a ele o que eu fiz".

Duryodhana respondeu: "Vá, veja-o e volte logo. E não se esqueça de sua promessa comigo".

"Boa sorte a você. Volte ao seu palácio. Eu não o trairei". Depois de dizer isso, Shalya foi para a cidade de Upaplavya onde Yudhisthira estava acampado.

Os Pandavas receberam o soberano de Madra com muita pompa. Nakula e Sahadeva ficaram muito felizes em verem seu tio a quem os Pandavas narraram todas suas dificuldades e sofrimentos.

Quando começaram a falar sobre obter sua ajuda na guerra que era iminente, Shalya relatou a história de sua promessa a Duryodhana.

Yudhisthira realizou de imediato que foi um erro achar que a ajuda de Shalya estava garantida, e assim deixar Duryodhana ultrapassá-los.

Yudhisthira tentou esconder seu desapontamento ao máximo e se dirigiu a Shalya assim:

"Grande guerreiro, você é obrigado a cumprir sua promessa feita a Duryodhana. Você está no mesmo nível de Vasudeva em combate, e Karna terá você como seu cocheiro quando tentar tirar a vida de Arjuna no campo de batalha. Será que você será a causa da morte de Arjuna? Ou será que você vai salvá-lo? Sei que não posso pedir isso a você honestamente. Ainda assim eu peço".

Shalya respondeu: "Meu rapaz, fui enganado para dar minha palavra a Duryodhana, e terei que me confrontar com vocês na batalha. Mas quando Karna for atacar Arjuna, se eu for o cocheiro dele, você verá que ele irá para a batalha desanimado, e Arjuna será salvo. Não tenha medo. As injúrias e insultos, que foram impostos a Draupadi e todos vocês, logo serão uma lembrança vingada. Daqui em diante, a boa sorte estará com vocês. Ninguém pode evitar ou alterar o que foi ordenado pelo destino. Eu agi errado. Perdoem-me".

 

Capítulo 52

Vritra

Indra, o senhor das três regiões do universo, certa vez estava tão inebriado pelo poder que se esqueceu completamente dos modos de cortesia que os deuses observavam até então.

Quando Brihaspati, o preceptor dos deuses, principal em todos os ramos do conhecimento, e venerado tanto pelos deuses como pelos asuras, veio à sua corte, Indra não se levantou de seu trono para receber o acharya ou pediu a ele que se sentasse e não prestou as honras de costume.

Com essa grande presunção, Indra persuadiu a si mesmo para acreditar que os shastras permitiam a ele, como o rei em sua corte, a prerrogativa de receber visitantes sentado. Brihaspati ficou magoado com a descortesia de Indra e, por atribuir isso à arrogância da prosperidade, deixou a assembléia em silêncio.

Indra logo realizou a estupidez de sua conduta e, sentiu que teria problemas por desagradar o acharya, pensou em se retratar com ele por cair a seus pés e pedir desculpas.

Mas não pôde fazer isso, pois Brihaspati, em sua ira, se fez invisível. Isso minou a idéia de Indra.

Quando Brihaspati se foi, o poder de Indra começou a diminuir, enquanto o dos asuras aumentou, o que encorajou estes a atacarem os deuses. Então Brahma, com pena dos deuses sitiados, aconselhou-os a aceitarem um novo acharya.

Assim, disse a eles: "Vocês, com a tolice de Indra, perderam Brihaspati. Vão até o filho de Twashta, Visvarupa, e peçam a essa nobre alma para ser seu preceptor, e ficará tudo bem com vocês".

Animados com essas palavras, os deuses procuraram o jovem penitente Visvarupa e fizeram seu pedido a ele: "Apesar de jovem em idade, você é bem versado nos Vedas. Faça-nos a honra de ser nosso mestre".

Visvarupa concordou, e para a grande vantagem dos deuses, como resultado de sua orientação e ensino, foram salvos do tormento dos asuras.

A mãe de Visvarupa era do clã asura dos Daityas, o que fazia Indra considerar Visvarupa com muita suspeita. Ele temia que por causa de seu nascimento, Visvarupa não pudesse ser leal e sua suspeita aumentava cada vez mais.

Muito apreensivo por causa do perigo que sofreria desse descendente dos inimigos dos deuses, Indra pensou em enfeitiçá-lo para cair no erro com as tentações de sua corte e assim enfraquecê-lo espiritualmente. Mas Visvarupa não sucumbiu.

O carinho ardiloso e sedutor das moças lindíssimas de Indra não fizeram efeito no jovem asceta. Ele permaneceu fiel ao seu voto de celibato. Quando Indra viu que seu plano de sedução falhou, ele deu vazão a pensamentos assassinos e num dia, matou Visvarupa com sua vajrayudha.

A história segue com o mundo que sofreu terríveis conseqüências por causa desse pecado de Indra. Como resultado, partes da Terra se tornaram desertos e inúteis para o cultivo, mulheres foram afetadas com seus problemas físicos peculiares da menstruação, e a água poluída com espuma também é devido a isso.

Twashta com muita ira e pesar por causa do assassinato cruel de seu filho por Indra, desejou vingar sua morte e realizou um grande sacrifício. Das chamas do sacrifício, surgiu Vritra, o inimigo mortal de Indra.

Twashta o mandou contra o líder dos deuses, e disse: "Inimigo de Indra, que você seja forte e que mate Indra". Aconteceu um grande combate entre os dois no qual Vritra se saiu vitorioso em primeira mão.

Com Indra em desvantagem no combate, os rishis e deuses procuraram refúgio no grande Senhor Vishnu que lhes ofereceu proteção e disse a eles: "Não tenham medo, Eu entrarei na vajrayudha de Indra e assim ele ganhará a batalha no final". Assim, voltaram confortados.

Eles foram até Vritra e disseram: "Por favor, faça as pazes com Indra. Vocês dois são iguais em poder e bravura".

Vritra respondeu com respeito: "Ó incensuráveis, como Indra e eu podemos nos tornar amigos? Perdoem-me. Não pode haver amizade entre rivais pela supremacia. Dois grandes poderosos não podem coexistir, como vocês sabem".

Os rishis responderam: "Não cultive essas dúvidas. Duas boas almas podem ser amigas e sua amizade acontece sempre depois da hostilidade".

Vritra gritou e disse: "Bem, então eu vou parar de lutar. Mas eu não confio em Indra. Ele pode me pegar desprevenido. Portanto, eu peço a seguinte bênção a vocês, Indra não poderá tirar minha vida nem de dia nem de noite, nem com armas secas ou com armas molhadas, nem com pedra nem com madeira nem com metais, e nem com flechas".

"Assim seja", disseram os rishis e os deuses.

As hostilidades cessaram. Mas os temores de Vritra foram confirmados. Indra só fingiu ser amigo de Vritra, e o tempo todo, esperava uma oportunidade adequada para matá-lo.

Numa noite, ele se encontrou com Vritra numa praia e começou a atacá-lo com seu raio. O combate terrível se estendeu por muito tempo, até que Vritra orou ao Senhor Vishnu e disse a Indra: "Ó mais vil entre os homens, por que você não usa a infalível vajrayudha? Consagrada com Hari, use-a contra mim que eu serei abençoado por Hari".

Indra mutilou Vritra por cortar seu braço direito, mas intrépido, este arremessou para seu lado esquerdo sua maça de ferro e atacou seu adversário que também cortou seu outro braço. Então Vritra engoliu Indra. Quando Indra desapareceu na boca de Vritra, foi muito grande a comoção dos deuses.

Mas Indra não estava morto. Ele rasgou o ventre de Vrita e saiu em direção à praia. Então, direcionou seu raio para a água, que formou uma grande onda de espuma que atingiu e encobriu Vritra. Vishnu tinha entrado na espuma da onda, e se transformou numa arma mortal, assim o poderoso Vritra foi morto. O longo combate terminou dessa forma, e o mundo afligido teve um suspiro de alívio. Mas para Indra em si, o fim da guerra só lhe trouxe ignomínia pois sua vitória foi assegurada por meio do pecado e do engano, e ele teve que se esconder devido à extrema vergonha.

O desaparecimento de Indra causou aos deuses e rishis uma grande aflição. Pois um povo sem rei ou conselho de estado para governá-los não pode prosperar. Assim, eles foram até o bom e poderoso rei Nahusha e lhe ofereceram a coroa.

"Perdoem-me, não posso ser seu rei. Quem sou eu para aspirar o trono de Indra? Como poderei protegê-los? É impossível", ele recusou humildemente. Mas eles insistiram, e disseram: "Não hesite. Seja nosso rei consagrado. Todo o mérito e potência de nossas penitências serão seu e serão um complemento para o seu poder. O poder e energia de qualquer um em que colocar seus olhos será transferido para você e assim você será invencível". Assim, com poder em excesso, ele concordou. Revolução não é algo novo. Esta história mostra isso, mesmo no mundo dos deuses, houve uma revolução que conduziu ao destronamento de Indra e o estabelecimento de Nahusha como rei em seu lugar. A história da queda de Nahusha também é instrutiva.

 

Capítulo 53

Nahusha

O pecado do assassinato criminoso de Vritra fez Indra cair de sua alta posição e o tornou um fugitivo. Nahusha se tornou o rei dos deuses em seu lugar. Nahusha começou bem, ajudado pelo mérito e fama ganhos quando foi rei na Terra. Depois, ele caiu no mau caminho.

A ascensão ao reinado dos deuses o encheu de arrogância. Ele perdeu sua humildade e ficou repleto de desejos ilícitos.

Nahusha se entregou livremente aos prazeres celestiais o que o levou a pensamentos indomáveis e lascivos. Certo dia, ele viu a esposa de Indra e ficou apaixonado por ela. Dominado por maus pensamentos, ele falou em tom de comando aos deuses reunidos:

"Por que Shachidevi, a esposa do rei dos deuses não veio a mim, venha para mim? Não sou eu o rei dos deuses agora? Mandem-na para minha casa logo".

Quando soube disso, a esposa de Indra ficou indignada. Com medo e angústia, ela foi até Brihaspati e lamentou: "Preceptor, salve-me dessa pessoa malvada".

Brihaspati lhe ofereceu proteção. Ele disse: "Não tema, Indra voltará em breve. Fique aqui comigo. Você recuperará seu esposo". Quando Nahusha soube que Shachidevi não concordou em satisfazer sua vontade e que procurou e obteve abrigo sob o teto de Brihaspati, ficou extremamente irado.

O aborrecimento do rei aterrorizou os deuses. Eles protestaram: "Rei dos deuses, não fique bravo. Sua ira deixará o mundo triste. Shachidevi é esposa de outro, não a cobice. Não se desvie do caminho da justiça".

Mas, o apaixonado Nahusha não lhes deu ouvidos. E disse a eles com sarcasmo: "Quando Indra se encheu de luxúria por Ahalya, onde estavam seus princípios de justiça e boa conduta? Por que vocês não o preveniram então, e por que me impedem agora? O que vocês fizeram quando ele assassinou Visvarupa tão vergonhosamente quando este estava em penitência, e onde estava seu horror virtuoso quando ele matou Vritra por meio do engano? O único destino de Shachidevi é vir e viver comigo, e para o bem de vocês, vão e a façam reconciliar minha proposta e a deixem sob meus cuidados. Portanto, vão e façam isso agora", ordenou Nahusha.

Os deuses amedrontados decidiram falar sobre o assunto com Brihaspati, e tentar convencê-lo de alguma forma a trazer Shachidevi para Nahusha. Eles foram todos juntos até Brihaspati e lhe contaram o que Nahusha disse, e imploraram para Shachidevi se submeter aos desejos de Nahusha.

Com isso, a casta Shachidevi tremeu de vergonha e medo, e gritou: "Meu Deus! Não posso fazer isso. Eu procurei refúgio em você. Ó brâmane, proteja-me".

Brihaspati a consolou e disse: "Aquele, que trai alguém que procurou seu refúgio, encontrará a destruição. A própria terra não deixará brotar a semente que ele semeou. Não vou abandoná-la. O fim de Nahusha se aproxima. Não tenha medo".

Ele indicou uma forma de escapar de sua situação difícil com a sugestão de que ela deveria implorar por mais tempo, e a perspicaz Shachidevi entendeu a sugestão e foi com coragem para o palácio de Nahusha.

Logo que Nahusha a viu, depois que o orgulho e a luxúria tiraram seu bom senso, ficou fora de si de alegria e disse: "Ó bela mulher, não tema. Sou o senhor dos três mundos. Não é nenhum pecado você se tornar minha esposa".

Ao ouvir as palavras desse homem pervertido, a virtuosa Indrani, esposa de Indra, tremeu por um momento. Logo recobrou sua postura e respondeu: "Rei dos deuses, antes de eu ser sua, tenho um pedido a fazer. Indra está vivo ou morto? Se ele estiver vivo, onde está? Se, depois de pesquisar e procurar por ele, eu não encontrá-lo, não incorrerei em nenhum pecado e poderia me tornar sua esposa com a consciência limpa".

Nahusha disse: "O que você disse é verdade. Vá e procure por ele e certifique-se de voltar. Lembre-se da sua palavra empenhada". Depois de dizer isso, ele a mandou de volta para a casa de Brihaspati.

Os deuses foram até o grande Vishnu e reclamaram sobre Nahusha. Eles disseram: "Senhor, foi Seu poder que matou Vritra mas Indra arca com o pecado, e envergonhado e temeroso em aparecer nesse estado contaminado, ele se escondeu. Suplicamos que nos indique uma forma de liberá-lo".

Narayana disse em resposta: "Façam com que ele Me adore. Ele será purificado do pecado e o malévolo Nahusha encontrará sua destruição".

Shachidevi orou à deusa da castidade, e pela graça dela, chegou no lugar onde Indra estava escondido. Indra se reduziu ao tamanho dum átomo e se escondeu na fibra do caule duma flor de lótus no lago Manasarovara. Ele fazia penitência nesse estado a esperar por dias melhores. Shachidevi não conseguiu se controlar com a tristeza de ver a situação de seu esposo e rompeu em lágrimas. Ela lhe contou sobre seus problemas.

Indra lhe falou palavras de encorajamento. Ele disse: "O fim de Nahusha está próximo. Vá até ele e diga-lhe que você consente com sua proposta. Peça a ele para vir à sua casa num palanquim carregado por ascetas. Assim Nahusha será destruído".

Shachidevi foi e fingiu concordar com a proposta de Nahusha como Indra lhe pediu. Cheio de alegria que ela retornou para ele com esse humor complacente, o tolo Nahusha explodiu de alegria: "Ó abençoada, sou seu escravo e pronto para fazer o que você mandar. Você foi fiel à sua palavra".

"Sim, eu voltei. Você será meu esposo. Tenho um pedido para lhe fazer, é algo que quero muito. Você não é o senhor do mundo? Meu desejo é que você venha à minha casa majestosamente num estilo maior que o de Vishnu, ou Rudra, ou dos asuras. Que o seu palanquim seja carregado pelos sete rishis. Eu ficarei muito feliz e o receberei com as melhores boas vindas", disse ela.

Nahusha caiu na armadilha. "Que grande idéia! Sua imaginação é maravilhosa. Deixa-me muito satisfeito. É muito correto que os grandes rishis me carreguem, pois sou abençoado com o poder de absorver a energia daqueles que ponho meu olhar. Farei exatamente como você pediu", disse ele, e a mandou de volta para casa. O apaixonado Nahusha chamou os rishis e os ordenou que o carregassem em seus ombros.

Com esse sacrilégio, os três mundos ficaram horrorizados e tremeram. Mas o pior veio quando o palanquim foi carregado. Inflamado com pensamentos de que a bela Shachidevi esperava por ele, Nahusha ficou impaciente para chegar logo. Assim, ele começou gritar com os rishis carregadores de seu palanquim para irem mais rápido. E ele foi tão longe em sua perversão insana que chutou Agastya, um dos carregadores, e dizia, "sarpa, sarpa". (Sarpa significa mover e também uma serpente). A insanidade da luxúria e arrogância alcançou seu clímax.

"Ó mais vil entre os vis, que você caia do céu e se torne uma sarpa na Terra", o rishi bramiu essa maldição em sua ira. De imediato, Nahusha caiu de cabeça para baixo, do céu, e se tornou um píton na selva e teve que esperar por vários milhares de anos para sua liberação. Indra foi restituído em seu trono. Ele voltou a ser o rei dos deuses e o suplício de Shachidevi terminou.

Com a narração desta história dos sofrimentos de Indra e sua esposa a Yudhisthira e Draupadi em Upaplavya, seu tio Shalya tentou confortá-los.

"A vitória aguarda o paciente. Aqueles, cuja prosperidade os faz arrogantes, se deparam com a destruição. Você, seus irmãos e Draupadi passaram por incontáveis sofrimentos como Indra e sua esposa. Suas provações terminarão em breve e vocês recuperarão seu reino. Os malévolos Karna e Duryodhana serão destruídos como Nahusha foi", disse Shalya.

 

Capítulo 54

A Missão de Sanjaya

Os Pandavas estavam acampados em Upaplavya no território de Virata. De lá, eles mandaram emissários a todos os soberanos amigáveis. Chegavam contingentes de todas as partes da Terra, e logo, os Pandavas tinham uma força poderosa com sete divisões. Os Kauravas da mesma forma reuniram um exército de onze divisões.

Naquela época, como agora, uma divisão consistia de todos os armamentos reunidos juntos de acordo com a prática militar estabelecida. Naquele tempo, uma divisão consistia de 21.870 quadrigas, um número igual de elefantes, o triplo de cavalos e o quíntuplo de soldados a pé, e todos equipados com todos os tipos de armas e outros assessórios bélicos.

As quadrigas eram os carros blindados da Antigüidade, e os elefantes, treinados especialmente para a guerra, correspondiam aos tanques de guerra da era contemporânea.

O brâmane mensageiro de Drupada chegou na corte de Dhritarastra. Depois da recepção de costume e das perguntas de cortesia, o mensageiro se dirigiu à assembléia reunida em nome dos Pandavas:

"A lei é eterna e de validade inerente. Vocês sabem disso e não preciso expor isso a vocês. Dhritarastra e Pandu são os dois filhos de Vichitravirya, e segundo nossa tradição, os dois têm o mesmo direito sobre a propriedade de seu pai. Apesar disso, os filhos de Dhritarastra se apoderaram do reino inteiro, enquanto os Pandavas ficaram sem sua parte da herança comum. Não há justificativa para isso. Descendentes da dinastia Kuru, os Pandavas desejam a paz. Eles estão prontos para esquecer os sofrimentos que foram submetidos e deixar o passado para trás. Eles não desejam recorrer à guerra, porque sabem que a guerra não traz nenhum benefício mas só a destruição. Dêem a eles, portanto, aquilo que é direito deles. Isso estaria de acordo tanto com a justiça como com o acordo conseguido previamente. Que não haja demora".

Depois desse apelo do mensageiro, o sábio e bravo Bhisma falou. Ele disse: "Pela graça de Deus, os Pandavas estão salvos e bem. Apesar de conseguirem o apoio de muitos príncipes e estarem fortes o suficiente para a batalha, eles não têm inclinação para guerra. Ainda assim, eles procuram a paz. Restituir-lhes sua propriedade e a única coisa certa a ser feita".

Bhisma não tinha acabado ainda quando Karna interrompeu furioso, e se dirigiu ao mensageiro: "Ó brâmane, tem alguma novidade no que você disse? Por que o suplício de contar sempre a mesma velha história? Como Yudhisthira pode reclamar a propriedade que perdeu no tabuleiro de jogo? Se, agora, Yudhisthira deseja alguma coisa, tem que implorar como um presente! Ele prefere essa reclamação absurda com arrogância confiado no poder de seus aliados, particularmente Matsya e Panchala. Eu lhe digo que nada pode ser tirado de Duryodhana com ameaças. Os Pandavas deveriam viver incógnitos durante o décimo terceiro ano e quebraram sua palavra de honra, portanto, têm que ir para a floresta por mais doze anos e voltar depois".

Bhisma interveio: "Filho de Radha, você fala com estupidez. Se não fizermos como esse mensageiro nos pediu, a guerra cairá sobe nós e com certeza seremos derrotados. E Duryodhana e todos nós estaremos condenados à destruição". A desordem e excitação na assembléia fez Dhritarastra intervir.

Ele disse ao mensageiro: "Tenho em mente o bem do mundo e consideração ao bem estar dos Pandavas, por isso decidi mandar Sanjaya até eles. Por favor, volte imediatamente e diga isso a Yudhisthira".

Então Dhritarastra chamou Sanjaya de lado e o instruiu assim: "Sanjaya, vá até os filhos de Pandu e transmita-lhes meus cumprimentos com afeto e minhas boas recomendações a Krishna, Satyaki e Virata. Dê minhas recomendações a todos os príncipes reunidos lá. Vá até lá em meu nome e fale pacificamente para assegurar que evitemos a guerra".

Sanjaya foi até Yudhisthira em sua missão de paz. Depois das saudações iniciais, Sanjaya falou a Yudhisthira no meio de sua corte: "Dharmaputra, é minha boa fortuna poder vê-lo novamente com meus olhos. Rodeado de príncipes, você parece com o próprio Indra. Essa visão alegra meu coração. O rei Dhritarastra lhe manda as melhores recomendações e deseja que esteja bem e feliz. O filho de Ambika (Dhritarastra) detesta toda essa conversa sobre guerra. Ele deseja sua amizade e anseia pela paz".

Quando Dharmaputra ouviu Sanjaya dizer isso, sentiu-se feliz e respondeu: "Se for assim, os filhos de Dhritarastra estão salvos, bem como todos nós escapamos duma grande tragédia. Eu também desejo só a paz e detesto a guerra. Se nosso reino nos for devolvido, apagaremos toda memória dos sofrimentos que passamos".

Sanjaya falou novamente: "Os filhos de Dhritarastra são perversos. Desconsideram o aviso de seu pai e as palavras sábias do patriarca, eles continuam tão pervertidos como sempre. Mas você não deve perder a paciência. Yudhisthira, você sempre se porta com boa conduta. Vamos evitar o grande mal da guerra. Será que a felicidade pode ser obtida com as possessões obtidas na guerra? Que benefício podemos colher dum reino ganho depois de matar nossos próprios parentes? Portanto, não inicie as hostilidades. Mesmo se for para ganhar o mundo inteiro limitado pelo oceano, a velhice e a morte são inevitáveis. Duryodhana e seus irmãos são tolos. Mas isso não é motivo para você se desviar da retidão ou perder a paciência. Mesmo se eles não devolverem seu reino, você não deve abandonar o caminho supremo de dharma".

Yudhisthira respondeu: "Sanjaya, o que você disse é verdade. A retidão é a melhor das posses, mas será que agimos errado? Krishna conhece as complexidades da retidão e dharma. Ele deseja o bem de ambos os lados. Eu farei o que Vasudeva ordenar".

Krishna disse: "Eu desejo o bem estar dos Pandavas. Eu desejo também que Dhritarastra e seus filhos sejam felizes. É um assunto muito difícil. Acho que posso resolver esse caso se for pessoalmente a Hastinapura. Se Eu conseguir a paz dos Kauravas em termos que não entrem em conflito com o bem estar de todos, nada mais Me fará mais feliz, bem como os Pandavas. Se Eu conseguir fazer isso, os Kauravas serão resgatados das presas da morte. Assim, conseguirei algo bom e conveniente. Mesmo se houver um acordo pacífico e os Pandavas recuperarem o que é de direito deles, ainda assim servirão Dhritarastra lealmente. Eles não querem nada além disso. Mas também estão preparados para a guerra se necessário. Dessas duas alternativas, paz e guerra, Dhritarastra pode escolher o que lhe agradar".

E Yudhisthira disse a Sanjaya: "Sanjaya, volte para a corte Kaurava e diga ao filho de Ambika essa minha mensagem: 'Não foi por sua generosidade que obtivemos uma parte do reino quando éramos jovens? Você, que me fez rei uma vez, não deve nos negar nossa parte agora e nos levar a uma vida de mendigos que vivem da caridade de outros. Querido tio, há muito espaço suficiente no mundo tanto para nós como para os Kauravas. Não deixe que haja antagonismo, portanto, entre nós'. Você deve fazer esse pedido em meu nome a Dhritarastra. Transmita ao patriarca meu amor e consideração, e peça-lhe para estabelecer uma forma de assegurar que seus netos vivam felizes e em amizade. Transmita a mesma mensagem a Vidura também. Vidura é a melhor pessoa para ver o que é bom para todos nós e aconselhar de acordo. Explique o assunto a Duryodhana e diga-lhe em meu nome: 'Meu querido irmão, você nos fez, que somos príncipes do reino, viver na floresta, vestir cascas de árvores. Você insultou e arrastou nossa esposa que chorava na assembléia de príncipes. Nós toleramos tudo isso com paciência. Devolva-nos, pelo menos agora, o que nos pertence justamente. Não cobice o que pertence a outros. Nós somos cinco. Para nós cinco, dê pelo menos cinco vilas e faça as pazes conosco. Assim ficaremos contentes'. Diga isso a Duryodhana, Sanjaya. estou preparado para a paz bem como para a guerra".

Depois que Yudhisthira disse essas palavras, Sanjaya se despediu de Keshava e dos Pandavas, e voltou para Hastinapura.

 

Capítulo 55

Nem Uma Ponta de Agulha de Território

Depois de mandar Sanjaya para os Pandavas, Dhritarastra, cheio de ansiedade, não pôde dormir nem um instante naquela noite. Ele foi até Vidura e passou a noite toda em conversa com ele.

Vidura disse: "Dar aos Pandavas sua parte do reino é o plano mais seguro. Só isso fará bem aos dois lados. Trate os Pandavas e seus filhos com a mesma afeição, Nesse caso, o curso certo é também o mais sábio".

Vidura aconselhou Dhritarastra dessa forma extensamente.

Na manhã seguinte, Sanjaya voltou a Hastinapura. E prestou contas com detalhes sobre tudo que aconteceu na corte de Yudhisthira.

Sanjaya disse: "Principalmente, Duryodhana deve saber o que Arjuna disse: 'Krishna e eu vamos destruir Duryodhana e seus seguidores, desde a raiz até a copa. Não cometa nenhum engano sobre isso. O arco Gandiva está impaciente para a guerra. A corda do meu arco zune mesmo sem meu toque e na minha aljava, as flechas espiam impacientes e perguntam quando? Quando? Sanjaya, astros malignos fizeram o tolo Duryodhana procurar a guerra contra mim e Krishna. Nem mesmo Indra e os deuses podem nos derrotar'. Assim falou Dhananjaya".

Bhisma aconselhou Dhritarastra contra se opor ao poder combinado de Arjuna e Krishna. Bhisma disse: "Karna, que se vangloria repetidamente que vai matar os Pandavas, não é igual nem a décima sexta parte dos Pandavas. Seus filhos se dirigem à destruição, ouça essas palavras. Quando Arjuna retraiu o ataque de seus filhos à capital de Virata e humilhou seu orgulho, o que Karna foi capaz de fazer? Quando os Gandharvas levaram seu filho prisioneiro, onde o invencível Karna resistiu? Não foi Arjuna quem fez os Gandharvas recuarem"? Assim Bhisma insultou Karna e alertou os Kauravas.

"O que o patriarca Bhisma diz é a única coisa correta de se fazer", disse Dhritarastra. "Todos os homens sábios dizem o mesmo, e eu sei que o melhor é procurar a paz. Mas o que posso fazer? Esses tolos farão do seu próprio jeito, sem importar o quanto eu proteste".

Duryodhana, que ouvia tudo isso, levantou-se. "Pai, não se preocupe e não estremeça sobre nossa segurança. Nós sabemos o quanto somos fortes. Que vamos vencer é certeza. Yudhisthira também sabe disso, pois abandonou toda a esperança por um reino e mendiga por cinco vilas. Não fica claro por isso que ele já está apavorado com nossas onze divisões? Como os Pandavas podem enfrentar nossas onze divisões? Por que então você duvida de nossa vitória"? Duryodhana disse a seu pai para tentar animá-lo.

Dhritarastra disse: "Meu filho, não vamos entrar em guerra. Fique satisfeito com metade do reino. Será suficiente se governarmos bem essa metade". Duryodhana não agüentava mais. "Os Pandavas não receberão nem mesmo uma ponta de agulha de território", ele exclamou, e deixou a corte. A corte rompeu com a excitação conseqüente.

Vamos relatar o que os Pandavas conversavam entre si. Depois que Sanjaya partiu de Upaplavya para Hastinapura, Yudhisthira disse a Krishna: "Vasudeva, Sanjaya é o alter ego de Dhritarastra. Eu adivinhei o que está na mente de Dhritarastra com o discurso dele. Dhritarastra tenta assegurar a paz sem nos dar nenhum território. Na minha simplicidade, fiquei contente no começo quando Sanjaya falou. Mas logo ficou claro que minha alegria não tinha fundamento. Ele então assumiu o meio termo e falou que desejava a paz. Mas as palavras que terminaram seu discurso parecem que nos confiaram à submissão, mesmo se nossos direitos justos fossem negados. Dhritarastra não agiu corretamente conosco. A crise se aproxima. Não há ninguém além de Você para nos proteger. Fiz minha oferta de que ficaríamos satisfeitos com cinco vilas apenas. Os malévolos Kauravas rejeitaram até isso. Como podemos tolerar esse grau de intransigência? Só Você pode nos aconselhar nesta crise. Ninguém além de Você sabe qual é o nosso dever e pode nos guiar em dharma bem como em ciência política".

Krishna disse em resposta: "Para o bem de ambos, Eu decidi ir para Hastinapura. Irei para a corte de Dhritarastra e tentarei assegurar seus direitos sem guerra. Se minha missão for bem sucedida, será para o bem do mundo".

Yudhisthira disse: "Krishna, imploro que não vá. Que benefício pode haver em ir até o inimigo agora? O perverso Duryodhana manterá sua estupidez. Não acho bom Você ir para o meio desses homens inescrupulosos. Não podemos deixar que Você arrisque Sua segurança, pois os Kauravas não recuarão por nada".

Krishna respondeu: "Dharmaputra, sei como Duryodhana é mau. Mas ainda assim devemos fazer todas as tentativas para uma solução pacífica para não darmos chance ao mundo de nos acusar que não fizemos todo o possível para evitar a guerra. Não devemos omitir nada, sem importar quanto frágil é nossa esperança de sucesso. Não tema sobre Minha segurança, pois se os Kauravas fizerem a Mim, um mensageiro da paz, qualquer ameaça de dano corpóreo, Eu os reduzirei a cinzas".

Yudhisthira disse: "Você é onisciente. Você conhece nossos corações bem como os deles. Não há ninguém melhor do que Você para explicar matérias e na arte da persuasão".

Krishna disse: "Sim, conheço ambos. Sua mente sempre agarra a justiça e a deles sempre mergulha no ódio, inveja e inimizade. Farei tudo que puder para assegurar o resultado, pois sei o que vocês anseiam, um acordo estabelecido sem guerra mesmo se for bem pequeno para vocês. Os sinais são nefastos e prognosticam a guerra. Ainda assim, o dever demanda que façamos todas as tentativas pela paz".

Ao dizer isso, Krishna se despediu dos Pandavas e conduziu Sua quadriga para Hastinapura.

 

Capítulo 56

A Missão de Krishna

Satyaki acompanhou Govinda (Krishna) para Hastinapura. Antes de partir em Sua jornada, Krishna teve uma discussão confidencial com os Pandavas. Mesmo o poderoso Bhima, por incrível que pareça, apoiou um acordo pacífico.

"Não vamos deixar a dinastia ser destruída. A paz é muito mais preferível", disse ele. O poeta Vyasa faz questão de citar Bhima a fim de mostrar que os grandes guerreiros de verdade desejam a paz, e que procurar a paz não é um sinal de medo.

Mas Draupadi não conseguia esquecer sua humilhação. Segurou suas tranças com as mãos e ficou em pé perante Krishna, com a voz trêmula de angústia, ela disse: "Madhusudana, olhe para as minhas tranças e faça o que a honra exige que se faça. Não pode haver paz com honra. Mesmo se Arjuna e Bhima são contra a guerra, meu pai, apesar de tão velho, irá para a batalha, apoiado por meus filhos. Mesmo se meu pai ficar de fora, meus filhos com o filho de Subhadra, Abhimanyu, em seu comando, lutarão contra os Kauravas. Eu, para o bem de Dharmaputra, durante esses treze anos, reprimi a chama da ira dentro de mim. Não consigo me conter mais". E ela soluçou com a lembrança do grande ultraje que sofreu.

Krishna ficou comovido e disse; "Não chore. Os filhos de Dhritarastra não darão ouvidos às Minhas palavras de paz. Eles vão cair, e seus corpos virarão comida de cães selvagens e chacais. Você viverá para nos ver vitoriosos e o insulto que sofreu será plenamente punido, e isso também, em breve". Draupadi ficou satisfeita.

Madhava (Krishna) parou durante a noite na cidade de Kuchasthala. Quando chegou a notícia da visita de Krishna , a cidade ficou em grande excitação.

Dhritarastra ordenou que a cidade fosse decorada e os preparativos para a recepção de Janardhana foram feitos com entusiasmo total. Dhritarastra deu ordens de que o palácio de Dushasana, maior e mais belo que o de Duryodhana, fosse preparado e posto à disposição de Krishna e Sua comitiva, e grandes tendas foram levantadas em vários lugares no caminho para a cidade, onde a quadriga de Krishna passaria.

Dhritarastra consultou Vidura. Ele lhe disse: "Organize que Govinda receba presentes de quadrigas e elefantes. Outros tipos de presentes também devem estar prontos".

Mas Vidura disse: "Govinda não pode ser comprado com presentes. Dê a Ele o que veio procurar na terra dos Kurus. Ele não vem aqui à procura dum acordo de paz? Torne isso possível. Você não pode satisfazer Madhava com outros presentes".

Quando Govinda chegou em Hastinapura, os cidadãos se aglomeraram em tal número nas ruas decoradas que Sua quadriga só podia andar muito devagar. Ele foi primeiro ao palácio de Dhritarastra e depois seguiu para a casa de Vidura. Kuntidevi se encontrou com Ele lá.

Com a lembrança do sofrimento de seus filhos e sobrepujada pela angústia, ela chorou. Krishna a consolou, despediu-se dela e foi para o palácio de Duryodhana.

Duryodhana deu as boas vindas a Govinda e O convidou para jantar, mas Krishna disse com um sorriso: "Emissários só comem depois que sua missão for cumprida. Você pode dar um banquete quando Meu trabalho aqui estiver terminado".

Assim, rejeitou o convite de Duryodhana e voltou para casa de Vidura para descansar.

Vidura e Krishna se aconselharam mutuamente. Vidura Lhe disse que a arrogância de Duryodhana era devido à sua confiança de que ninguém poderia derrotá-lo enquanto Bhisma e Drona, como ele sabia, estavam atados a um compromisso moral de não abandoná-lo, por serem sustentados por ele.

Vidura disse que seria um erro para Govinda apenas entrar na corte desse homem malévolo. Todos, que conheciam Duryodhana e seus irmãos, temiam que eles conspirariam, por meio de fraude e engano, contra a vida de Krishna.

"O que você diz a respeito de Duryodhana é verdade. Eu vim aqui sem a menor esperança de que serei capaz de assegurar um acordo pacífico, mas apenas para que o mundo não ponha a culpa em Mim. Não tema por Minha vida", disse Krishna.

Na manhã seguinte, Duryodhana e Shakuni vieram até Krishna e O informaram que Dhritarastra esperava por Ele. Govinda foi para a corte junto com Vidura.

Quando Vasudeva entrou na corte, a grande assembléia de reis se levantou. Depois de saudar os mais velhos com mãos postas e com uma palavra ou um sorriso a outros, Krishna Se sentou. Após as saudações iniciais, Govinda Se levantou, e voltado para Dhritarastra, explicou o objetivo de Sua visita. Ele deixou claro o que os Pandavas queriam.

"Dhritarastra, não traga ruína para seu povo. Você considera ruim o que é bom para você e como bom o que é ruim. É seu dever conter seus filhos. Os Pandavas estão preparados para a guerra mas desejam a paz. Eles querem viver felizes sob você. Trate-os como seus filhos também e planeje uma solução honrada, e o mundo o aclamará", disse Krishna.

Dhritarastra disse: "Meus amigos sabem que não tenho culpa. Eu desejo justamente o que Madhava afirmou, mas sou impotente. Meus filhos perversos não me ouvem. Krishna, eu Lhe suplico que aconselhe Duryodhana".

Krishna Se voltou para Duryodhana e disse: "Você é descendente duma linha nobre. Siga o caminho de dharma. Seus pensamentos atuais são indignos e próprios de pessoas de baixo nascimento. Por sua causa, essa famosa linhagem está em perigo de ser destruída. Se você considerar a razão e a justiça, os Pandavas pessoalmente estabelecerão Dhritarastra como o rei, e você é o herdeiro evidente. Faça as pazes com eles por lhes dar metade do reino".

Bhisma e Drona também pressionaram Duryodhana a aceitar o conselho de Govinda. Mas o coração de Duryodhana não pôde ser amaciado. "Tenho pena de Dhritarastra e Gandhari quem Duryodhana condena ao luto e à desolação por seus maus feitos", disse Vidura.

Dhritarastra disse mais uma vez a seu filho: "Se você não ouvir o conselho de Govinda, nossa dinastia perecerá".

Drona e Bhisma também tentaram persuadir Duryodhana repetidamente e tirá-lo do erro. Duryodhana ficou furioso com todos devido a essa pressão que sofreu sobre esse assunto de concordar com uma solução pacífica. Ele se levantou, e disse:

"Madhusudana, Você me julga mal devido a Seu amor pelos Pandavas. Os outros aqui também me culpam, mas não acho que eu seja aquele que deve ser culpado sobre esse assunto. Os Pandavas, por sua própria vontade, apostaram seu reino no jogo, e derrotados, perderam justamente. Como posso ser responsável por isso? Quando perderam o jogo, tiveram de ir para a floresta como compromisso de honra. Qual é a minha falta se eles querem o combate e desejam nos matar? Eu não cederei a ameaças. Quando eu era jovem, os mais velhos nos causaram um mal penoso por darem aos Pandavas, não sei por que, uma parte do reino do qual eles não tinham nem uma sombra de direito. Eu concordei com isso, mas eles perderam no jogo. Eu me recuso a devolver a eles. Em última instância, eu não tenho culpa. Eu não darei aos Pandavas nem um centímetro de terra, nem mesmo uma ponta de agulha de terra"!

Quando Duryodhana disse isso, ainda não admitia seu erro, Govinda riu e disse: "O jogo foi organizado de forma fraudulenta por você em conspiração com Shakuni, e depois você insultou Draupadi numa assembléia de príncipes. E ainda assim, você tem a impudência de dizer que não cometeu nenhum erro", e o lembrou das outras perversidades que infligiu aos Pandavas.

Dushasana e outros ao verem que Bhisma e outros aceitavam as acusações de Krishna contra Duryodhana disse: "Irmão, parece que essas pessoas têm um plano para amarrá-lo com cordas e entregá-lo aos Pandavas. Vamos sair daqui", e Duryodhana, acompanhado por seus irmãos, saíram da corte.

Govinda Se dirigiu à corte novamente e disse: "Cavalheiros, os Yadavas e Vrishnis vivem felizes, agora que Kamsa e Shishupala estão mortos. Para salvar um povo inteiro, às vezes é necessário sacrificar um indivíduo. Não acontece em algumas ocasiões que uma vila é abandonada para que o país seja salvo? Temo que vocês terão de sacrificar Duryodhana se quiserem salvar sua dinastia. Este é o único jeito".

Dhritarastra disse a Vidura: "Traga a perspicaz Gandhari aqui. É possível que talvez Duryodhana a ouça". Gandhari foi chamada, e veio até a corte, Duryodhana também foi chamado.

Duryodhana, com seus olhos vermelhos de raiva, voltou à corte, e Gandhari tentou por todos os meios em seu alcance trazê-lo de volta à razão. Duryodhana disse "Não", e saiu novamente do salão.

Ele e seus amigos conspiraram para prender Krishna. Esta notícia chegou até a corte. Govinda, que já tinha previsto tudo isso, sorriu e desvendou Sua divindade.

O cego Dhritarastra, pela graça de Krishna, recobrou sua visão temporariamente, e foi capaz de ver Krishna em Sua Forma Universal (Visvarupa). (Ver Capítulo Onze do Bhagavad-gita).

"Ó Pundarikaksha (Krishna, que tem olhos como a pétala da flor de lótus), ao ver Sua Visvarupa, não desejo ver nada mais. Eu Lhe peço para voltar a ser cego", disse Dhritarastra, e assim se tornou cego novamente. "Todos os nossos esforços falharam. Duryodhana é obstinado", disse Dhritarastra a Govinda.

E Krishna Se levantou e, com Satyaki e Vidura em cada um de Seus lados, deixou a corte.

Ele foi direto até Kunti. Ele contou a ela o que aconteceu, e ela Lhe pediu para transmitir suas bênçãos a seus filhos.

Ela disse: "Chegou a hora, pela qual uma mulher kshatriya dá à luz filhos. Que Você proteja meus filhos"!

Uma mãe kshatriya traz filhos ao mundo para serem sacrificados na guerra. Purushottama (Krishna, o Ser Supremo) subiu em Sua quadriga e correu em direção a Upaplavya. A guerra era certeza.

 

Capítulo 57

Apego e Dever

Qualquer vestígio de esperança que pode ter havido sobre um acordo pacífico quando Krishna foi para Hastinapura se extinguiu quando Ele voltou e narrou o ocorrido. Kunti estava muito angustiada com pesar quando soube que haveria guerra até a morte.

Ela refletiu: "Como posso pôr meus pensamentos na língua e dizer aos meus filhos: 'Tolerem os insultos. Não vamos pedir nenhum território e vamos assim evitar a guerra'? Como meus filhos aceitarão aquilo que é contrário à tradição kshatriya"?

Ela pensou: "Ao mesmo tempo, o que pode ser ganho pela matança mútua na guerra e qual felicidade pode ser obtida depois da destruição da dinastia? Como posso enfrentar este dilema"? Assim, ela estava atormentada pelo prospecto da destruição total por um lado e os clamores da honra kshatriya do outro.

"Como meus filhos derrotarão os três poderosos combinados, Bhisma, Drona e Karna? Eles são guerreiros que nunca se depararam com a derrota. Quando penso neles, minha mente treme. Não me importo com os outros. Esses três são os únicos do exército Kaurava capazes de lutar com os Pandavas com qualquer esperança de matá-los. Desses, Dronacharya pode se conter em matar meus filhos por amor ou por não desejar enfrentar seus próprios discípulos em batalha. O patriarca com certeza não deseja matá-los. Mas Karna é o inimigo principal dos Pandavas. Ele está ansioso em satisfazer Duryodhana por matar meus filhos. Karna é um grande guerreiro perito nas artes marciais. Quando penso nele em combate contra meus outros filhos, meu coração se consome com agonia assim como um feixe de lenha no fogo. Chegou a hora para eu procurar Karna e lhe contar a verdade sobre seu nascimento, pois ao saber, ele será obrigado a abandonar a causa de Duryodhana".

Atormentada por esses pensamentos ansiosos sobre seus filhos, Kunti foi até a margem do Ganges onde Karna costumava oferecer suas preces diárias.

Karna estava lá, absorto em suas práticas de devoção. Com a face voltada para o leste e mãos postas, ele estava absorto em meditação profunda. Kunti ficou quieta atrás dele e esperou.

Karna meditava e estava desatento sobre tudo até que sentiu os raios quentes do Sol em suas costas.

Quando terminou suas preces, Karna olhou para trás e viu Kunti em pé que segurava a borda de seu sari sobre sua cabeça para se proteger do Sol ardente.

A rainha de Pandu e mãe dos príncipes Pandavas que deveria estar ali a esperar com paciência que ele terminasse suas preces, deixou-o muito confuso e surpreso.

"O filho de Radha e do cocheiro Adhiratha se prostra perante você. Sou seu servo. O que posso fazer por você, ó rainha"? perguntou Karna, de acordo com a etiqueta tradicional de cumprimento com respeito.

Kuntidevi disse: "Karna, você não é filho de Radha, nem do seu pai cocheiro. Não pense que você é uma pessoa da casta dos cocheiros. Você é filho de Surya nascido do ventre de Pritha com sangue real, mais tarde conhecida como Kunti. Que a boa fortuna esteja com você"!

Então, ela lhe contou a história de seu nascimento. Kunti disse: "Você que nasceu com armadura e brincos de ouro, sem saber que os Pandavas são seus irmãos, juntou-se a Duryodhana e começou a odiá-los. Viver na dependência dos filhos de Dhritarastra não condiz a você. Junte-se a Arjuna e seja um dos reis do reino. Que você e Arjuna derrubem os malvados! O mundo inteiro ficará a seus pés. Sua fama se estenderá para muito longe e amplamente, como a dos irmãos Balarama e Krishna. Rodeado por seus cinco irmãos, seu esplendor brilhará como o de Brahma entre os deuses. Em situações de perplexidade, deve-se fazer o que dá satisfação aos parentes amados. Este é o dharma mais elevado segundo as escrituras".

Quando sua mãe falou assim para ele no fim de sua devoção ao deus do Sol, Karna sentiu um sinal em seu coração que o deus do Sol endossou o pedido de Kunti. Mas ele se conteve e considerou que o deus do Sol fazia um teste sobre lealdade e firmeza mental. Ele não deveria ser pego deficiente.

Com muita força de vontade, ele controlou junto as tentações do interesse pessoal e a prontidão da afeição natural. Ele disse com tristeza mas firmemente: "O que você disse, querida mãe, é contrário a dharma. Se eu me desviar do caminho do dever, farei muito mais mal a mim do que qualquer inimigo possa me fazer no campo de batalha. Você me destituiu de todo meu direito de nascença como um kshatriya quando me atirou, um bebê indefeso, no rio. E agora, você me fala sobre meus deveres como kshatriya. Você me negou o amor materno, que abençoa toda a vida. E agora, com o pensamento no bem de seus outros filhos, você me conta essa história. Se eu me juntar aos Pandavas agora, será que o mundo não vai proclamar que fiz isso de medo? Eu comi o sal dos filhos de Dhritarastra, conquistei a confiança deles como seu campeão, e apreciei toda consideração e bondade que me mostraram. E agora você quer que eu, quando a batalha está para começar, seja desleal com meu sal e vá para os Pandavas. Os filhos de Dhritarastra me vêem como a arca que irá capacitá-los a cruzar o oceano da guerra. Eu mesmo os incitei a essa guerra. Como posso desertá-los agora? Como posso ser um vil traidor e ingrato desprezível? O que na vida, e além dela, poderia valer um preço como esse? Mãe querida, preciso pagar minha dívida, sem dúvida, com a vida, senão, não serei melhor do que um ladrão comum, que furtei minha comida durante todos esses anos. Eu usarei com certeza todos os meus seguidores contra seus filhos nessa guerra. Não posso enganá-la. Por favor, perdoe-me".

Ele continuou: "Ainda assim, não posso deixar o pedido de minha mãe sem ser atendido completamente. A diferença é comigo e Arjuna. Ou ele ou eu deve morrer nessa guerra. Eu não matarei seus outros filhos, seja lá o que façam contra mim. Mãe de filhos guerreiros, você terá ainda cinco filhos. Ou eu ou Arjuna sobreviverá essa guerra. E com os outros quatro, você ainda terá cinco".

Quando Kunti ouviu seu primeiro filho falar com firmeza, fiel ao código kshatriya, seu coração ficou cheio de sentimentos tumultuados e contrários, sem confiar em si mesma para falar. Ela o abraçou e partiu em silêncio.

Ela pensou: "Quem pode ir contra o que foi ordenado pela providência. Pelo menos, ele prometeu não ferir meus quatro filhos. Isso é suficiente. Que Deus o abençoe", e ela voltou para casa.

 

Capítulo 58

O Generalíssimo dos Pandavas
e
O Generalíssimo dos Kauravas

Govinda chegou em Upaplavya e contou aos Pandavas o que aconteceu em Hastinapura.

"Falei com insistência sobre o que era certo e também bom para eles. Mas, foi tudo em vão. Agora não há outro meio, nenhuma outra alternativa para a guerra. O tolo Duryodhana não aceitou o conselho dado a ele por todos os mais velhos da assembléia. Agora temos que nos preparar para a guerra sem demora. Kurukshetra espera pelo holocausto".

"Não há mais esperança de paz", disse Yudhisthira a seus irmãos, e deu ordens para a direção de suas forças, na formação de batalha.

Eles organizaram o exército numa formação de sete divisões e indicaram Drupada, Virata, Dristadyumna, Shikhandi, Satyaki, Chekitana e Bhimasena no comando de cada divisão. Então, consideraram quem deveria ser indicado como o Comandante Supremo.

Yudhisthira se dirigiu a Sahadeva e disse: "Temos que selecionar um desses sete para ser o Comandante Supremo. Deve ser alguém capaz de enfrentar o grande Bhisma, que pode reduzir seus inimigos a cinzas. Tem que ser alguém que saiba dispor suas forças conforme as circunstâncias requeiram de tempo em tempo. Quem você acha que é o mais adequado para essa responsabilidade"?

Antigamente, a prática era que os mais jovens eram consultados primeiro, antes dos mais velhos. Isso dava entusiasmo e autoconfiança aos mais jovens. Se os mais velhos fossem consultados primeiro, não seria possível que os outros falassem com liberdade, e mesmo diferenças de opinião honestas poderiam gerar desrespeito.

"Vamos estabelecer como nosso Comandante Supremo o rei de Virata que nos ajudou quando vivemos em disfarce e agora com seu apoio reclamamos nossa parte do reino", respondeu Sahadeva.

"Para mim, parece melhor que Drupada seja o generalíssimo, porque, em idade, sabedoria, coragem, nascimento e poder, ele é supremo", disse Nakula.

"Drupada, o pai de Draupadi, aprendeu a arte do arco e flecha com Bharadwaja, e espera um confronto com Drona durante muito tempo. Ele é muito respeitado por todos os reis, e nos apóia, como se fôssemos seus próprios filhos. Ele deve liderar nosso exército contra Drona e Bhisma".

Dharmaputra então pediu a opinião de Dhananjaya. "Eu acho que Dristadyumna deveria ser nosso líder no campo de batalha. O herói tem controle dos sentidos e nasceu para trazer o fim de Drona. Somente Dristadyumna pode resistir às flechas de Bhisma cuja habilidade como arqueiro fez o grande Parashurama recuar. Ele é a única pessoa capaz de ser nosso comandante. Não penso em ninguém mais", respondeu Arjuna.

Bhimasena disse: "Ó rei, o que Arjuna disse é verdade, porém os rishis e mais velhos disseram que Shikhandi veio ao mundo para matar Bhisma. Minha inclinação é dar o comando a Shikhandi cuja face radiante é como a de Parashurama. Eu acho que ninguém mais pode derrotar Bhisma".

Yudhisthira finalmente pediu a opinião de Keshava. "Os guerreiros mencionados, cada um deles, são dignos da seleção", disse Krishna. "Qualquer um deles deixaria os Kauravas cheios de medo. Com todas as considerações, Eu endosso a escolha de Arjuna. Consagrem Dristadyumna então como seu Comandante Supremo".

Assim, Dristadyumna, o ilustre filho de Drupada, que conduziu Draupadi no swayamvara e a deu para Arjuna, que durante treze longos anos preocupou-se com o insulto que sua irmã sofreu na corte de Duryodhana, e que esperava uma oportunidade para vingar a injúria, foi consagrado como o Comandante Supremo do exército Pandava.

O rugido de leão dos guerreiros, o soar dos búzios e conchas e o trombetear dos elefantes encheram o ar. Com a aclamação de guerra que fez o céu estrondar, o exército Pandava entrou em Kurukshetra em formação marcial.

Bhisma ficou no comando do exército Kaurava. Duryodhana se prostrou em reverência a ele, e disse:

"Que você fique satisfeito em nos liderar e alcance vitória e fama como Kartikeya que liderou os devas. Nós o seguiremos como os bezerros seguem o touro chefe".

O patriarca respondeu: "Assim seja. Mas vocês têm que entender, qual é o meu pensamento verdadeiro sem nenhuma dúvida. Os filhos de Pandu são para mim o mesmo que vocês, filhos de Dhritarastra. Para cumprir minha promessa a vocês, vou liderar o exército e realizar meu dever. Dez mil guerreiros morrerão por dia por minhas flechas no campo de batalha. Mas não posso matar os filhos de Pandu. Essa guerra não teve minha aprovação. Exceto matar os Pandavas, cumprirei todas minhas obrigações na batalha".

O patriarca concluiu: "Mais uma coisa. O filho de Surya, que vocês têm em alta estima, opõe-se à minha liderança e discorda das minhas idéias. Já que estão tão preocupados, peçam a ele para assumir a liderança do exército e conduzir a batalha desde o início, não farei nenhuma objeção".

Bhisma não gostava de Karna nem de suas atitudes.

Karna respondeu com arrogância: "Ficarei de fora enquanto Bhisma viver, e participarei só depois que ele se for. Então, enfrentarei Arjuna e o matarei".

Duryodhana aceitou a condição exigida por Bhisma e o nomeou Generalíssimo de suas forças, que marcharam como uma grande inundação para Kurukshetra.

 

Capítulo 59

Balarama

Balarama, o ilustre irmão de Krishna, visitou os Pandavas, em seu acampamento. Halayudha (Balarama, aquele que carrega um arado), vestido em azul celeste, entrou majestosamente como um leão. Yudhisthira, Krishna e os outros deram uma calorosa saudação ao guerreiro de ombros largos. Ele se prostrou a Drupada e Virata, e o visitante Se sentou ao lado de Dharmaputra.

"Vim para Kurukshetra", disse Ele, "quando soube que os descendentes de Bharata se deixaram levar pela cobiça, ira e ódio e as conferências de paz fracassaram, e a guerra foi declarada".

Tomado pela emoção, Ele parou por um momento e depois continuou: "Dharmaputra, uma terrível destruição vai acontecer. A terra ficará como um pântano de sangue com corpos mutilados espalhados! É um destino maligno que enlouqueceu o mundo kshatriya para se reunir aqui e encontrar sua destruição. Eu disse a Krishna várias vezes: 'Duryodhana é igual para Nós como os Pandavas. Não devemos tomar partido em suas disputas tolas'. Mas Ele não Me deu ouvidos. Sua grande afeição por Dhananjaya desviou Krishna e Ele está com você nesta guerra que como vejo, Ele aprovou. Como Krishna e Eu podemos ficar em lados opostos? Bhima e Duryodhana são meus dois pupilos, tenho consideração e amor iguais pelos dois. Como então vou apoiar um contra o outro? Nem posso suportar ver os Kauravas serem destruídos. Portanto, não tenho nada a ver com esta guerra, essa conflagração que consumirá tudo. Esta tragédia me fez perder todo interesse por este mundo e portanto, Eu vou peregrinar pelos lugares sagrados".

Depois de falar assim contra essa guerra calamitosa, o irmão de Krishna deixou o lugar, com Seu coração cheio de tristeza e com Sua mente à procura do consolo divino.

Este episódio de Balarama, que Se mantém fora da guerra do Mahabharata, é uma ilustração das situações perplexas nas quais pessoas boas e honestas se deparam com freqüência.

Forçado a escolher entre dois cursos de ação igualmente justificáveis mas contrários, o indivíduo infeliz é preso nas garras dum dilema. Somente as pessoas honestas se encontram nessa situação. As desonestas da Terra não têm esses problemas, por serem guiadas unicamente por seus próprios apegos e desejos, ou seja, pelo seu interesse egoísta.

Não são assim as grandes pessoas que renunciaram todo desejo egoísta. Testemunhamos as grandes provações, no Mahabharata, nas quais Bhisma, Vidura, Yudhisthira e Karna foram colocados.

Nós lemos no épico como solucionaram suas várias dificuldades. Suas soluções não estão de acordo com um único modelo moral mas refletem várias individualidades. A conduta de cada um foi uma reação de sua personalidade e caráter ao impacto das circunstâncias.

Os críticos e expositores modernos às vezes se esquecem deste fator básico e procuram medir tudo na mesma escala, o que é muito errado. Podemos nos beneficiar pelo modo como, no Ramayana, Dasharatha, Kumbhakarna, Maricha, Bharata e Lakshmana reagiram às dificuldades que tiveram de enfrentar.

Da mesma forma, a neutralidade de Balarama na guerra do Mahabharata é uma lição. Somente dois príncipes ficaram fora da guerra. Um é Balarama e o outro é Rukma, o soberano de Bhojakata. A história de Rukma, cuja irmã mais nova se casou com Krishna, é contada no próximo capítulo.

 

Capítulo 60

Rukmini

Bhishmaka, o rei de Vidarbha, teve cinco filhos e uma única filha, Rukmini, uma princesa de beleza, encanto e força de caráter inigualáveis.

Por ouvir sobre Krishna e Seu renome, ela desejou se unir a Ele em matrimônio, e este desejo crescia intensamente a cada dia. Seus familiares aprovavam a idéia, todos exceto seu irmão mais velho Rukma, o herdeiro legítimo, que detestava Krishna.

Rukma pressionou seu pai para não dar Rukmini em casamento ao soberano de Dwaraka, mas em vez disso, casá-la com Shishupala, o rei de Chedi. Como o rei era velho, Rukma se tornou a voz predominante e parecia que Rukmini ia ser obrigada a casar com Shishupala à força.

Rukmini, cujo coração pertencia a Krishna plenamente por ser uma encarnação de Srimati Radharani, estava desconsolada. Ela temia que Seu pai fosse impotente contra Seu irmão dominador e não poderia impedir o casamento infeliz.

Rukmini reuniu todo seu poder mental e resolveu encontrar alguma maneira possível de tirá-La dessa situação. Ela pediu o conselho dum brâmane, assim abandonou todo Seu recato de donzela casta, e o mandou como Seu emissário a Krishna, com a missão de explicar os problemas a Seu amado e pedir ajuda.

O brâmane seguiu então para Dwaraka e contou a Krishna sobre a situação triste de Rukmini bem como Sua súplica, e deu a Ele a carta que Rukmini mandou. A carta dizia o seguinte:

"Meu coração já aceitou Você como senhor e mestre. Eu imploro a Você portanto que venha e Me socorra antes que Shishupala Me leve à força. Isso não pode suportar nenhuma demora, portanto, Você tem que estar aqui amanhã. As forças de Shishupala, bem como de Jarasandha, vão enfrentá-Lo, e Você tem que vencer antes de Me conquistar. Que Você seja o herói triunfante e Me capture! Meu irmão resolveu Me casar com Shishupala e, como parte da cerimônia de casamento, Eu irei ao templo junto com Meu séqüito para oferecer preces a Parvati. Este será o melhor momento para Você chegar e Me resgatar. Se Você não aparecer, Eu porei um fim à Minha vida para que assim Eu possa Me unir a Você pelo menos em Minha próxima vida".

Krishna leu isso e imediatamente montou em Sua quadriga. Com a ordem do rei, Kundinapura, a capital de Vidarbha, foi decorada deslumbrantemente e os preparativos para o casamento da princesa com Shishupala estavam com todo entusiasmo.

O noivo eleito e seus associados, todos inimigos jurados de Krishna, já estavam reunidos na capital. Balarama soube da partida súbita e secreta de Krishna, pelo Seu poder divino.

Ele adivinhou que era por causa da filha do rei de Vidarbha, e ansioso com medo de que Krishna corria perigo sozinho devido a inimigos mortais que estavam sedentos por Seu sangue, Ele rapidamente reuniu uma grande força e marchou para Kundinapura.

Rukmini deixou Seus aposentos e, acompanhada pelo Seu séqüito, foi em procissão ao templo, onde o serviço divino era feito.

"Ó Devi", implorou Rukmini que orou por sua intercessão. "Eu Me prostro perante você que conhece Minha devoção. Faça com que Krishna possa Me desposar".

Quando saiu do templo, Rukmini avistou a quadriga de Krishna e correu na direção dela como uma agulha atraída por um imã. Ela correu até Ele e entrou em Sua quadriga. E Krishna fugiu com Ela, para o espanto de todos presentes.

Os serventes correram até Rukma, o herdeiro legítimo, e contaram o ocorrido. "Não vou voltar sem matar Janardhana", jurou Rukma, e saiu em perseguição a Krishna com uma grande força.

Mas, nesse momento, Balarama chegou com Seu exército, e houve uma grande batalha entre as duas forças antagônicas na qual o inimigo foi finalmente derrotado. Balarama e Krishna voltaram para casa triunfantes, onde o casamento de Rukmini com Krishna foi celebrado com os rituais de costume.

O derrotado Rukma ficou envergonhado para voltar a Kundinapura e construiu bem ao lado da batalha contra Krishna e ele uma nova cidade, Bhojakata, de onde ele governou.

Quando soube sobre a batalha de Kurukshetra, Rukma foi para lá com uma enorme força. Pois achava que assim poderia conquistar a amizade de Vasudeva, e ofereceu ajuda aos Pandavas.

"Ó Pandavas", disse ele a Dhananjaya, "as forças inimigas são muito grandes. Vim para ajudá-los. Dêem-me a ordem que atacarei qualquer setor da formação do inimigo que vocês quiserem. Tenho forças para atacar Drona, Kripa ou mesmo Bhisma. Eu lhes darei a vitória. Só me digam o que desejam".

Dhananjaya se voltou a Vasudeva e riu.

"Ó soberano de Bhojakata", disse Arjuna, "não temos medo do tamanho das forças inimigas. Não precisamos da sua ajuda e particularmente não a desejamos. Você pode ir embora ou ficar, como bem quiser".

Com isso, Rukma ficou cheio de ira e vergonha, e foi ao acampamento de Duryodhana com seu exército. "Os Pandavas recusaram minha ajuda oferecida". Disse ele a Duryodhana. "Minhas forças estão ao seu dispor".

"Não foi depois que os Pandavas rejeitaram sua ajuda que você veio aqui"? Exclamou Duryodhana, e acrescentou; "Não estou tão necessitado que precise apreciar os dejetos deles".

Rukma, depois de amaldiçoar ambos os lados, voltou para seu reino sem tomar parte na batalha. A neutralidade na guerra pode ser de vários tipos.

Pode surgir por objeção consciente à guerra ou pode ser por mera vaidade e interesse egoísta. Ainda outros podem ficar de fora por covardia ou preguiça extrema.

Em vez de agir conforme dharma, ele pensou em glória pessoal, e nenhum lado o quis.

 

Capítulo 61

Não Cooperação

Era o dia anterior ao início da grande batalha. O patriarca, agora o Generalíssimo Kaurava, estava com Duryodhana para tentar inspirá-lo com seu próprio espírito heróico e entusiasmo.

Bhisma falou sobre a força, habilidade e bravura dos guerreiros enfileirados no lado Kaurava. Duryodhana se entusiasmou. Nesse momento, Karna se tornou o objeto da conversa deles.

Bhisma disse: "Karna conquistou sua afeição, mas eu não conto muito com ele. Eu não gosto de seu ódio mortal pelos Pandavas, e ele é muito arrogante. Não há limite para a arrogância dele, e ele gosta muito de menosprezar os outros. Eu não o considero entre o grau mais elevado dos guerreiros da Terra. Além do mais, ele se desfez da armadura divina com que nasceu. Portanto, ele não é de muita serventia para me apoiar nesta batalha. A maldição de Parashurama também está com ele. Seu domínio sobre as armas sobrenaturais vai falhar quando chegar a sua hora de necessidade, pois não conseguirá se lembrar dos mantras. E o combate que acontecerá entre ele e Arjuna provará que será fatal para Karna".

Assim falou Bhisma sem medir as palavras, o que foi extremamente desagradável para Duryodhana e Karna. Para piorar ainda mais, Drona concordou com o patriarca e disse:

"Karna é cheio de orgulho e presunção, que farão com que ele seja negligente com os pequenos detalhes da estratégia, e por causa do descuido, ele sofrerá derrota".

Furioso com essas palavras, Karna se voltou ao patriarca com olhos flamejantes. Ele disse: "Você senhor, sempre me menosprezou por mera antipatia e inveja, e nunca perdeu uma oportunidade de me humilhar, apesar de eu nunca dar motivo. Suportei todos os seus insultos e provocações por causa de Duryodhana. Você diz que não vou ser muito útil nesta guerra iminente. Deixe-me dizer-lhe qual é a minha firme convicção, é você, e não eu, que fará os Kauravas fracassarem. Por que esconder seus verdadeiros sentimentos? A realidade é que você não tem verdadeiro afeto por Duryodhana, mas ele não sabe disso. Como me odeia, você tenta se intrometer entre eu e Duryodhana para torná-lo contra mim. Além do mais, em seu julgamento pervertido, você minimiza minha força e me põe para baixo. Você não se comporta mais como um kshatriya digno. Só a idade não confere um título de honra e respeito entre guerreiros, somente a bravura faz isso. Desista de envenenar nossas relações".

Então, Karna se voltou para Duryodhana, e disse:

"Ilustre guerreiro, pense bem e cuide do seu bem pessoal. Não tenha muita confiança no patriarca. Ele tenta semear discórdia em nossas fileiras. Sua avaliação sobre mim danificará sua causa. Por me colocar para baixo, ele tenta reprimir meu entusiasmo. Ele ficou caduco e seu tempo terminou. A arrogância dele não deixa que tenha consideração por mais ninguém. A idade tem que ser respeitada e a experiência é útil, mas como os shastras nos alertam, há um ponto quando a idade se torna senilidade e a maturidade vira apodrecimento e decadência. Você nomeou Bhisma como seu Generalíssimo que, sem dúvida, ganhará fama pelos feitos heróicos de outros. Mas eu não portarei armas enquanto ele estiver no comando. Só depois que ele cair, eu farei isso".

A pessoa arrogante nunca tem consciência de sua própria arrogância. Quando acusado disso, ela acusa o denunciante da mesma falta. Seu julgamento é deturpado e ela considera um crime de qualquer um que aponte seu defeito. Isto é muito bem ilustrado neste episódio.

Bhisma controlou sua ira e respondeu: "Filho de Surya, estamos numa crise e é por isso que você não cessou de viver neste momento. Você tem sido o gênio do mal dos Kauravas". Duryodhana estava deprimido.

Ele disse: "Filho de Ganga, preciso da ajuda de vocês dois. Os dois farão feitos de grande heroísmo, não tenho dúvida. Com o romper da alvorada, a batalha começa. Que não haja briga entre amigos, com o inimigo em força total perante nós"!

Mas Karna foi inflexível em que não pegaria em armas enquanto Bhisma estivesse no comando supremo. Duryodhana evidentemente cedeu a Karna e tolerou que ele cumprisse sua ameaça.

Karna ficou de fora nos primeiros dez dias de batalha, apesar de todos seus homens participarem. No final do décimo dia, quando o grande Bhisma caiu deitado no campo de batalha todo coberto por flechas, Karna foi até ele, prostrou-se com reverência, pediu perdão e suas bênçãos, que ele aceitou.

Depois disso, Karna cooperou e ele mesmo propôs Drona como o comandante das forças Kauravas em sucessão a Bhisma. Quando Drona também caiu, Karna assumiu o comando e liderou as forças Kauravas.

 

Capítulo 62

Os Ensinamentos de Krishna

Srimad Bhagavad-gita

Tudo estava pronto para a batalha. Os guerreiros de ambos os lados se reuniram e juraram solenemente honrar as regras tradicionais da guerra.

O código de conduta em guerra e os métodos de combate variam de tempos em tempos. Só com a compreensão do que era vigente sobre a guerra na época do Mahabharata que podemos entender o Épico. De outra forma, a história será confusa em alguns trechos.

Com o que se segue, o leitor poderá fazer alguma idéia sobre as regras de guerra que eram seguidas na batalha de Kurukshetra. Todos os dias, a batalha terminava com o pôr-do-sol, e os inimigos se misturavam juntos como amigos.

Os combates individuais só aconteciam entre iguais e ninguém podia usar métodos que não estivessem de acordo com dharma. Um cavaleiro só podia atacar outro cavaleiro, não alguém a pé.

Do mesmo modo, quadrigas, tropas de elefantes e homens de infantaria só podiam se enfrentar em combate com opositores inimigos em número igual.

Aqueles que procuravam abrigo ou se rendiam eram salvos da execução. Nem alguém que num momento não estivesse em combate, não podia dirigir suas armas para outro que estivesse em combate.

Era errado matar alguém que estivesse desarmado ou cuja atenção estivesse voltada para outra coisa, ou recuasse, ou perdesse sua armadura. E nenhum projétil podia ser direcionado a auxiliares que não lutavam, ou aqueles que sopravam os búzios ou tocavam tambores.

Assim eram as regras que os Kauravas e os Pandavas declararam solenemente que seguiriam.

A passagem do tempo testemunhou muitas mudanças na mentalidade humana sobre o que é certo e errado. Nada é excluído no ataque das guerras modernas.

Não apenas existem munições feitas para atingirem animais inocentes como cavalos, camelos e mulas, bem como grupos de resgate médico, e não combatentes de todas idades e sexos, que são destruídos sem piedade.

Às vezes, as convenções estabelecidas eram transgredidas mesmo na guerra do Mahabharata.

Vemos claramente na história que transgressões ocasionais aconteceram por algum motivo ou outro. Mas, no geral, as regras aceitas de guerra honorável e humana foram observadas em ambos os lados da batalha de Kurukshetra. E as violações ocasionais eram vistas como criminosas e vergonhosas.

Bhisma se dirigiu aos príncipes sob seu comando, e disse: "Heróis, vocês têm uma oportunidade gloriosa. Na frente de vocês, estão os portões do céu plenamente abertos. O prazer de viver com Indra e Brahma espera por vocês. Sigam o caminho de seus ancestrais e cumpram o dharma kshatriya. Lutem com alegria e obtenham fama e grandeza. Um kshatriya não deseja morrer de doença ou velhice no seu leito mas prefere morrer no campo de batalha", e os príncipes responderam com a ordem para o soar de suas trombetas e com os gritos de vitória dos Kauravas.

O estandarte de Bhisma brilhava com a palmeira e cinco estrelas. No de Asvathama, a cauda do leão flutuava no ar.

No estandarte dourado de Drona, o pote dos ascetas e o arco brilhavam, e a naja da famosa bandeira de Duryodhana dançava orgulhosamente com os capelos estendidos.

A bandeira de Kripa tinha um touro, enquanto a de Jayadratha portava um javali selvagem. Da mesma forma, os outros em todo campo de batalha apresentavam um grande aparato de bandeiras.

Ao ver as forças Kauravas reunidas em formação marcial, Yudhisthira deu as seguintes ordens a Arjuna:

"A força do inimigo é muito grande. Como nosso exército é menor, nossa tática deve ser a concentração em vez do desdobramento que só nos enfraquecerá. Organize nossas forças então em formação de agulha".

Nesse momento, quando Arjuna viu os homens reunidos em ambos os lados para matança mútua, pelo desejo de Krishna, ele ficou muito comovido e confuso. Então, Krishna falou com ele, Suas famosas Instruções Eternas, para remover sua ansiedade e acabar com suas dúvidas.

Srimad Bhagavad-gita

Os Ensinamentos Divinos de Krishna para Arjuna nesse momento são o Srimad Bhagavad-gita, onde o Supremo Senhor, Sri Krishna, manifesta Sua misericórdia magnânima para o benefício de todo o Universo. Como Ele mesmo explica no Capítulo Nove:

raja-vidya raja-guhyam
pavitram idam uttamam
pratyaksavagamam dharmyam
su-sukham kartum avyayam

1. O Senhor Supremo disse: Meu querido Arjuna, porque você não Me inveja, Eu transmito a você esta sabedoria que é a mais secreta, e ao conhecê-la se aliviará das misérias da existência material.

2. Este conhecimento é o rei da educação, o mais secreto de todos os segredos. É o conhecimento mais puro, e porque dá a percepção direta do eu mediante a iluminação, é a perfeição da religião. É eterno e se realiza alegremente.

O Bhagavad-gita é reconhecido mundialmente (e universalmente) como um dos Tesouros Supremos da literatura mundial. É a Palavra de Deus ao vivo e em cores. Como explicou nosso amado Srila Bhaktirakshaka Sridhar Deva Goswami Maharaj Paramahamsa Thakur Mahashaya: "O Tesouro Oculto do Doce Absoluto". Srila Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada Paramahamsa Thakur Mahashaya, o irmão querido de Srila Sridhar Maharaj, presenteou o mundo com este Tesouro maravilhoso em 1971 com o seu "Bhagavad-gita As It Is", editado em português no Brasil em 1976 como "O Bhagavad-gita Como Ele É", agora publicado em forma condensada completa na Internet como "Bhagavad-gita Como Ele É", também pela graça de Srila Prabhupada. (http://www.nitaigaura.com.br/gita_br.html).

O Bhagavad-gita é os ensinamentos de Krishna sobre o Amor Divino da devoção, que liberam todos os seres do cativeiro material e de toda ilusão, ignorância e sofrimento.

Arjuna e Krishna

Citamos os quatro versos do Capítulo Dez "A Opulência do Absoluto" que são considerados o resumo do Gita:

OS QUATRO VERSOS QUE RESUMEM O GITA

Verso 8
aham sarvasya prabhavo
mattah sarvam pravartate
iti matva bhajante mam
budha bhava-samanvitah

8. Eu sou a fonte de todos os mundos materiais e espirituais. Tudo emana de Mim. Os sábios que sabem disto perfeitamente, dedicam-se a Meu serviço devocional e Me adoram com todo seu coração.

Iluminação de Srila Prabhupada:
"Um acadêmico erudito que estudou os Vedas perfeitamente e tem informação de autoridades como o Senhor Chaitanya, e sabe como aplicar esses ensinamentos, pode compreender que Krishna é a origem de tudo tanto no mundo material quanto no mundo espiritual, e porque sabe disso perfeitamente, fica fixo firmemente no serviço devocional ao Supremo Senhor. Ele nunca pode ser desviado por nenhuma quantidade de comentários absurdos ou por tolos. Toda literatura Védica concorda que Krishna é a fonte de Brahma, Shiva e todos os outros semideuses. O Atharva Veda (Gopala-tapani Upanishad 1.24) afirma, yo brahmanam vidadhati purvam yo vai vedams ca gapayati sma krsnah: "No princípio, foi Krishna quem instruiu Brahma sobre o conhecimento Védico e quem disseminou o conhecimento Védico no passado". O Narayana Upanishad (1) afirma ainda mais, atha puruso ha vai narayano 'kamayata prajah srjeyeti: "Então, a Suprema Personalidade Narayana desejou criar os seres vivos". Novamente, é dito, narayanad brahma jayate, narayanad prajapatih prajayate, narayanad indro jayate, narayanad astau vasavo jayante, narayanad ekadasa rudra jayante, narayanad dvadasadityah: "De Narayana, nasce Brahma, e de Narayana, os patriarcas também nascem. De Narayana, nasce Indra, de Narayana, os oito Vasus nascem, de Narayana, os onze Rudras nascem, de Narayana, os doze Adityas nascem".
Os mesmos Vedas afirmam, brahmanyo devaki-putrah: "O filho de Devaki, Krishna, é a Suprema Personalidade de Deus". (Narayana Upanishad 4). Também é dito:

eko vai narayana asin na brahma na isano napo nagni samau neme
dyav-aprthivi na naksatrani na suryah sa ekaki na ramate tasya
dhyanantah sthasya yatra chandogaih kriyamanastakadi-samjnaka
stuti-stomah stomam ucyate.

"No início da criação, havia somente a Suprema Personalidade Narayana. Não havia Brahma, nem Shiva, nem fogo, nem Lua, nem estrelas no céu, nem Sol. Havia somente Krishna, que cria tudo e desfruta tudo". (Maha Upanishad 1).
O Maha Upanishad afirma que o Senhor Shiva nasceu do mais alto, o Supremo Senhor Krishna, e os Vedas dizem que o Supremo Senhor, criador de Brahma e Shiva, que deve ser adorado. Krishna também diz no Moksha-dharma:

prajapatim ca rudram capy
aham eva srjami vai
tau hi mam na vijanito
mama maya-vimohitau

"Os patriarcas, Shiva e os outros são criados por Mim, apesar de não saberem que foram criados por Mim, pois estão iludidos por Minha energia ilusória". O Varaha Purana também afirma:

narayanah paro devas
tasmaj jatas caturmukhah
tasmad rudro 'bhavad devah
sa ca sarva-jnatam gatah

"Narayana é a Suprema Personalidade de Deus, Dele, Brahma nasceu, de quem Shiva nasceu".
O Senhor Krishna é a fonte de todas gerações, e Ele é chamado de a mais eficiente causa de tudo. Ele diz que porque "tudo nasce de Mim, Eu sou a fonte original de tudo. Tudo está sob Mim, ninguém está acima de Mim". Não há nenhum controlador supremo além de Krishna. A pessoa que entende Krishna dessa forma por meio do mestre espiritual autêntico e da literatura Védica, que dedica toda sua energia na Consciência de Krishna, torna-se uma verdadeira pessoa sábia. Só um tolo considera Krishna como um ser humano ordinário. Uma pessoa consciente de Krishna não deve se confundir por tolos, ela deve evitar todos comentários e interpretações não autorizadas do Bhagavad-gita e prosseguir na Consciência de Krishna com determinação e firmeza".

Verso 9
mac-citta mad-gata-prana
bodhayantah parasparam
kathayantas ca mam nityam
tusyanti ca ramanti ca

9. Os pensamentos de Meus devotos puros permanecem em Mim; suas vidas estão rendidas a Mim, e eles obtêm grande satisfação e bem-aventurança pois se iluminam uns aos outros e conversam sobre Mim.

Iluminação de Srila Prabhupada:
"Os devotos puros, cujas características se mencionam aqui, ocupam-se completamente no serviço transcendental carinhoso ao Senhor. Suas mentes não podem se afastar dos pés de lótus de Krishna. Suas práticas são unicamente sobre temas transcendentais. Os sintomas dos devotos puros se descrevem especificamente neste verso. Os devotos do Senhor Supremo se ocupam vinte e quatro horas por dia em glorificar os passatempos do Senhor Supremo. Seus corações e almas estão constantemente absortos em Krishna e se satisfazem em discutir sobre Ele com outros devotos.
Na etapa preliminar do serviço devocional, eles saboreiam o prazer transcendental do serviço em si, e na etapa madura se situam em realidade no amor a Deus. Uma vez situados nessa posição transcendental, podem saborear a perfeição mais elevada que o Senhor exibe em Sua morada. O Senhor Chaitanya compara o serviço devocional transcendental com a germinação de uma semente no coração da entidade vivente.
Há inumeráveis seres vivos que viajam pelos distintos planetas do universo, e entre todos eles, poucos são suficientemente afortunados para conhecer um devoto puro e receber a oportunidade de compreender o serviço devocional. Esse serviço devocional é exatamente como uma semente que se planta no coração de uma entidade vivente, e se ela continua o processo de ouvir e cantar: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare, Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare, essa semente frutifica, como a semente de uma árvore frutifica quando regada regularmente. A planta espiritual do serviço devocional continua a crescer regularmente até que ultrapassa a cobertura do universo material e entra no brilho brahmajyoti do céu espiritual.
Ali, essa planta também cresce mais e mais até que atinge o planeta mais elevado, que se chama Goloka Vrindavana, o planeta supremo de Krishna. Finalmente, a planta se refugia sob os pés de lótus de Krishna e descansa lá. Gradualmente, tal como uma planta dá frutos e flores, essa planta do serviço devocional também produz frutos, e o processo de regar continua na forma de cantar e ouvir. Essa planta do serviço devocional se descreve por completo no Chaitanya-charitamrita. Nele se explica que quando a planta inteira se refugia sob os pés de lótus do Senhor Supremo, a pessoa se absorve plenamente no amor a Deus; então, não pode viver nem sequer por um momento sem estar em contato com o Senhor Supremo, como um peixe não pode viver fora da água. Em tal estado de relação com o Senhor Supremo, o devoto obtém as qualidades transcendentais de verdade.
O Srimad Bhagavatam também é repleto dessas narrações sobre o relacionamento entre o Supremo Senhor e Seus devotos, portanto, o Srimad Bhagavatam é muito apreciado pelos devotos. Em Sua narração, não há nada sobre atividades materiais, prazer sensual ou liberação. O Srimad Bhagavatam é a única narração onde a natureza transcendental do Supremo Senhor e Seus devotos é plenamente descrita. Por isso, as almas realizadas na Consciência de Krishna têm prazer contínuo em ouvir tais literaturas transcendentais, do mesmo modo como um rapaz e uma moça jovens têm prazer em estarem juntos".

Verso 10
tesam satata-yuktanam
bhajatam priti-purvakam
dadami buddhi-yogam tam
yena mam upayanti te

10. Aos que estão constantemente consagrados a Mim e Me adoram com amor extático, Eu lhes dou a inteligência mediante a qual podem vir a Mim.

Iluminação de Srila Prabhupada:
"A palavra buddhi-yogam é muito significativa neste verso. Lembramos que no Capítulo Dois, nas instruções para Arjuna, o Senhor disse que falou sobre vários temas e que o instruiria sobre o caminho de buddhi-yoga. Agora, Ele explica buddhi-yoga. Buddhi-yoga em si é ação em Consciência de Krishna, que é a inteligência mais elevada. Buddhi significa inteligência, e yoga significa atividades místicas ou elevação mística. Quando a pessoa tenta voltar ao Lar, de volta ao Supremo, e se dedica plenamente à Consciência de Krishna com serviço devocional, sua ação se chama buddhi-yoga. Em outras palavras, buddhi-yoga é o processo pelo qual a pessoa se livra do enredamento deste mundo material. A meta última do progresso é Krishna. As pessoas não sabem disso, por isso, a companhia dos devotos e do mestre espiritual autêntico é muito importante. A pessoa tem que entender que o objetivo é Krishna, e quando o objetivo é estabelecido, o caminho então é lento mas atravessado progressivamente, e a meta última é alcançada.
Quando a pessoa conhece o objetivo da vida mas está apegada a atividades lucrativas, atua em karma-yoga. Quando sabe que o objetivo é Krishna, mas sente prazer na especulação mental para compreender Krishna, atua em jñana-yoga. E quando conhece o objetivo e procura Krishna plenamente em Consciência de Krishna e serviço devocional, atua em bhakti-yoga, ou buddhi-yoga, que é o yoga completo. Esse yoga completo é o estágio de perfeição mais elevado da vida.
A pessoa pode ter um mestre espiritual autêntico e pode estar apegada a alguma organização espiritual, ainda assim, se não for inteligente o suficiente para progredir, Krishna, dentro dela, dá instruções para que possa finalmente chegar até Ele sem dificuldade. A qualificação é que a pessoa deve sempre se dedicar à Consciência de Krishna e prestar todos tipos de serviço com amor e devoção. Ela deve realizar algum tipo de trabalho para Krishna, e esse trabalho deve ser com amor. Se o devoto for inteligente o bastante, fará progresso no caminho da auto-realização. Se a pessoa é sincera e devotada às atividades do serviço devocional, o Senhor lhe dá a chance de progredir e finalmente alcançá-Lo".

Verso 11
tesam evanukampartham
aham ajnana-jam tamah
nasayamy atma-bhavastho
jnana-dipena bhasvata

11. Devido à Minha intensa compaixão por eles, Eu que moro dentro de seus corações, destruo, com a brilhante lâmpada do conhecimento, a escuridão nascida da ignorância.

Iluminação de Srila Prabhupada:
"Quando Senhor Chaitanya estava em Benares na propagação do cantar de Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare, Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare, milhares de pessoas O seguiam. Prakashananda, um acadêmico erudito muito influente e sábio de Benares naquela época, criticou o Senhor Chaitanya por ser um sentimentalista. Alguns filósofos criticam os devotos porque acham que a maioria dos devotos está na escuridão da ignorância e são filosoficamente sentimentalistas ingênuos. Na realidade, esse não é o caso. Há acadêmicos eruditos muito e muito sábios que explicaram a filosofia da devoção, mas mesmo se um devoto não aproveitar essa literatura ou a de seu mestre espiritual, se for sincero em seu serviço devocional, recebe ajuda do Senhor em pessoa dentro do seu coração. Por isso, o devoto sincero dedicado à Consciência de Krishna não pode ser sem conhecimento. A única qualificação é que a pessoa realize serviço devocional em Consciência de Krishna plena.
Os filósofos modernos pensam que não se pode ter conhecimento puro sem ajuda do discernimento. Para eles, o Senhor deu esta resposta: Aqueles que se ocupam no serviço devocional puro, ainda que careçam de suficiente educação, ou inclusive, não tenham suficiente conhecimento dos princípios Védicos, são ajudados pelo Deus Supremo, tal como se afirma neste verso.
O Senhor diz para Arjuna que basicamente não é possível compreender a Verdade Suprema, a Verdade Absoluta, a Suprema Personalidade de Deus, simplesmente por especulação, pois a Verdade Absoluta é tão grande que não é possível alcançá-La apenas com o esforço mental. A pessoa pode continuar a especular por muitos milhões de anos, mas se não for devota, se não for uma amante da Verdade Suprema, nunca compreenderá Krishna ou a Verdade Absoluta. A Verdade Suprema, Krishna, só fica satisfeita com o serviço devocional, e pode Se revelar no coração do devoto puro pela Sua energia inconcebível. O devoto puro sempre tem Krishna dentro do seu coração, por isso, ele é como o Sol que dissipa toda escuridão da ignorância. Essa é a misericórdia especial dada ao devoto puro por Krishna.
Por causa da contaminação da associação material durante muitos e muitos milhões de vidas, o coração da pessoa está sempre coberto com a poeira do materialismo, mas quando se ocupa no serviço devocional e canta constantemente Hare Krishna, a poeira é limpa rapidamente e a pessoa se eleva à plataforma do conhecimento puro. A meta última Vishnu só pode ser alcançada por esse canto e serviço devocional, não por especulação mental ou argumento. O devoto puro não precisa se preocupar com as necessidades da vida, não deve ficar ansioso porque quando remove a escuridão de seu coração, tudo é provido automaticamente pelo Supremo Senhor, pois Ele fica muito satisfeito com o serviço devocional amoroso do devoto. Essa é a essência dos ensinamentos do Gita. Com o estudo do Bhagavad-gita, a pessoa pode se tornar uma alma plenamente rendida ao Supremo Senhor e se dedicar ao serviço devocional puro. Quando o Senhor toma conta, a pessoa se torna plenamente livre de todos tipos de esforços materialistas".

Krishna instrui Arjuna

 

Capítulo 63

Yudhisthira Pede Bênção

Krishna instrui Arjuna no meio dos dois exércitos

Tudo estava pronto para a batalha começar. Nesse momento tenso, ambos exércitos olharam espantados para Yudhisthira, o firme e bravo filho de Pandu, que subitamente tirou sua armadura e pôs de lado suas armas. Desceu de sua quadriga e foi a pé em direção aos comandantes das forças Kauravas.

"O que Yudhisthira vai fazer"? Todos perguntavam, intrigados por essa atitude súbita e silenciosa do Pandava.

Dhananjaya também ficou perplexo, pulou de sua quadriga e correu em direção a Yudhisthira. Os outros irmãos e Krishna também se juntaram a ele.

Eles temiam que Yudhisthira, rendeu-se à sua inclinação natural, e decidiu de súbito tentar a paz sob qualquer condição e ia em frente para anunciar isto.

"Rei, por que você se aproxima das linhas inimigas dessa forma estranha? Você não nos disse nada. O inimigo está pronto para a guerra, seus soldados vestiram as armaduras e suas armas estão levantadas. Mas você tirou sua armadura e deixou suas armas de lado, e segue adiante desatento e a pé. Diga-nos o que vai fazer". Assim falou Arjuna a Dharmaputra. Mas Yudhisthira estava absorto em seu pensamento e seguiu em frente silenciosamente.

Então Vasudeva, que conhece o coração das pessoas, sorriu e disse: "Ele vai até os mais velhos pedir as bênçãos deles antes de começar este terrível combate. Ele acha que não é certo iniciar tal procedimento grave sem tomar essas bênçãos e permissão formal. Ele vai até o patriarca e pedirá sua bênção e depois de Dronacharya. Por isso que vai desarmado. É certo que ele faça isso. Ele conhece a etiqueta. É somente assim que vamos nos despedir nesta batalha".

Os homens do exército de Duryodhana, quando viram Yudhisthira se aproximar com as mãos postas numa atitude humilde, pensaram: "Aí vem o Pandava à procura de paz, apavorado com nossa força. Com certeza, esse homem traz desgraça para a casta kshatriya. Por que esse covarde nasceu entre nós"? Assim, eles falavam entre si, e insultavam Dharmaputra apesar de contentes com a perspectiva de assegurarem a vitória sem terem que lutar.

Yudhisthira andou entre as linhas de soldados armados da cabeça aos pés e foi direto em direção a Bhisma, então se curvou, tocou seus pés em saudação, e disse:

"Patriarca, permita que comecemos a batalha. Nós ousamos entrar em combate com você, nosso inconquistável e incomparável patriarca. Nós queremos a sua bênção antes de começar o combate".

O patriarca respondeu: "Filho, nascido na dinastia dos Bharatas, você agiu dignamente e de acordo com o código de conduta. Fico muito feliz em ver isto. Lute que você terá a vitória. Não sou um agente livre. Estou preso à minha obrigação com o rei e tenho que lutar no lado dos Kauravas. Mas você não será derrotado".

Depois de obter a permissão e bênção do patriarca, Yudhisthira foi até Drona, deu a volta nele e se prostrou, conforme a regra, ao acharya, que também lhe deu as bênçãos e disse:

"Tenho obrigações inevitáveis com os Kauravas, ó filho de Dharma. Nossos interesses de vestimenta nos escravizam e se tornam nossos senhores. Por isso fiquei preso aos Kauravas. Lutarei no lado deles. Mas a vitória será sua".

Yudhisthira da mesma forma se aproximou e obteve as bênçãos de Kripacharya e seu tio Shalya, e retornou para as linhas dos Pandavas.

A batalha começou, inicialmente com combates individuais entre os líderes principais armados com armas iguais. Bhisma e Partha, Satyaki e Kritavarma, Abhimanyu e Brihatbala, Duryodhana e Bhima, Yudhisthira e Shalya, e Dristadyumna e Drona assim se empenharam em grandes combates.

Da mesma forma, milhares de outros guerreiros lutaram severamente conforme as regras de guerra daquele tempo.

Além desses numerosos combates individuais entre guerreiros renomados, houve também luta indiscriminada entre os soldados comuns. O nome dado a essa luta livre com carnificina promíscua é "sankula-yuddha". A batalha de Kurukshetra testemunhou muitas dessas lutas "sankula" onde inumeráveis soldados lutaram e morreram na luxúria insana da batalha. O campo de batalha ficou cheio de soldados mortos, cocheiros, elefantes e cavalos. O solo se tornou um pântano sangrento no qual as quadrigas se moviam com dificuldade. As batalhas modernas não têm tais coisas como os combates individuais. É tudo "sankula".

Os Kauravas lutaram sob o comando de Bhisma por dez dias. Depois dele, Drona assumiu o comando. Quando Drona morreu, Karna o sucedeu no comando. Karna caiu no fim do décimo sétimo dia de batalha. E Shalya conduziu o exército Kaurava durante o décimo oitavo e o último dia.

Na última parte da batalha, cometeram-se muitos atos selvagens e covardes. Cavalheirismo e regras de guerra são duros de perecer, pois há uma nobreza inata na natureza humana. Mas surgem situações difíceis e tentações que as pessoas são muito fracas para suportar, especialmente quando estão exaustas com a luta e deturpadas pelo ódio e derramamento de sangue.

Mesmo grandes homens cometem erros e suas faltas depois se tornam maus exemplos para outros, e dharma começa a ser desprezado cada vez mais fácil e com freqüência. Assim, a violência gera e nutre adharma (irreligião) e afunda o mundo na maldade.

 

Capítulo 64

Primeiro Dia de Batalha

Duryodhana e Drona

Dushasana liderava as forças Kauravas e Bhimasena fazia o mesmo no lado dos Pandavas. O barulho da batalha produzia um grande estrondo que preenchia o céu. Os tambores e timbales, trombetas, chifres e búzios faziam o céu ressoar com seu clamor.

Cavalos relinchavam, elefantes de ataque barriam e os guerreiros bradavam seus rugidos de leão. Flechas voavam no ar como meteoros ardentes. Pais e filhos, tios e sobrinhos matavam uns aos outros esquecidos da antiga afeição e dos laços de sangue. Era uma carnificina insana e terrível. Na tarde do primeiro dia de batalha, o exército Pandava estava muito abatido. Onde quer que a quadriga de Bhisma passava, era como a dança do destruidor. Abhimanyu não pôde tolerar isto e atacou o patriarca. Quando o guerreiro mais velho e o mais novo se confrontaram na batalha, os deuses vieram assistir o combate. O estandarte de Abhimanyu que mostrava a árvore karnikara dourada balançava em sua quadriga.

Kritavarma foi ferido por uma de suas flechas e Shalya foi atingido cinco vezes. O próprio Bhisma foi atingido nove vezes pelos dardos de Abhimanyu. O cocheiro de Durmukha foi ferido por uma das flechas com borda de espada de Abhimanyu e sua cabeça degolada rolou no chão.

Outra quebrou o arco de Kripa. Os feitos de Abhimanyu fizeram chover flores que os deuses jogavam de cima. Bhisma e o guerreiro que o apoiava exclamaram: "Realmente, é um filho digno de Dhananjaya"!

Então, os guerreiros Kauravas fizeram um ataque combinado contra o jovem valente. Mas ele permaneceu firme contra todos. Ele defendeu com as suas, todas as flechas disparadas por Bhisma.

Uma de suas flechas bem atiradas derrubou o estandarte de palmeira do patriarca abaixo. Ao ver isso, Bhimasena ficou muito feliz e soltou um grande rugido de leão que inspirou mais ainda seu valente sobrinho. Muito grande também foi a felicidade do patriarca, ao ver a bravura do jovem herói. Sem querer, ele foi obrigado a usar todo seu poder contra o rapaz. Virata, seu filho Uttara, Dristadyumna, o filho de Drupada, e Bhima vieram para aliviar o jovem herói e atacaram o patriarca que teve de voltar sua atenção a eles.

Uttara, o filho de Virata, montou num elefante e fez um ataque feroz contra Shalya. Os cavalos da quadriga de Shalya foram mortos pisoteados e então ele atirou uma lança contra Uttara. Ela atingiu o alvo certeiramente e perfurou seu peito.

O arpão que segurava caiu de sua mão e ele rolou no chão morto. Mas o elefante não recuou. Continuou o ataque até que Shalya cortou sua tromba e o feriu em vários lugares com flechas. Então, ele emitiu um alto barrito e caiu morto. Shalya subiu no carro de Kritavarma.

O filho de Virata, Sveta, viu Shalya matar seu irmão mais novo. Sua ira cresceu como o fogo alimentado por manteiga. E ele dirigiu sua quadriga em direção a Shalya. Imediatamente, sete guerreiros em quadriga vieram apoiar Shalya e protegê-lo de todos os lados.

As flechas choviam em Sveta e os projéteis voavam no ar como raios nas nuvens. Sveta se defendeu maravilhosamente. Ele aparava as flechas com as suas e cortava as lanças à medida que corriam em direção a ele. Os guerreiros dos dois lados ficaram admirados em verem a habilidade demonstrada por Sveta. Duryodhana não perdeu tempo e mandou forças para liberar Shalya. Quando houve uma grande batalha. Milhares de soldados morreram, e numerosas eram as quadrigas que quebraram e os cavalos e elefantes que morreram. Sveta foi bem sucedido em fazer os homens de Duryodhana fugirem, então ele avançou e atacou Bhisma.

O estandarte de Bhisma foi posto abaixo por Sveta. Bhisma, em troca, matou os cavalos e o cocheiro de Sveta. Depois disso, eles atiraram lanças um no outro e lutaram.

Sveta pegou sua maça, girou e atirou na quadriga de Bhisma que se espatifou em pedaços. Mas o patriarca, que previu o golpe mesmo antes da maça ser atirada contra a quadriga, pulou fora. Do chão, ele puxou a corda de seu arco até a orelha e atirou uma flecha fatal em Sveta. Sveta foi ferido e caiu morto. Dushasana soprou sua trombeta e dançou de alegria. Isto foi seguido dum grande ataque ao exército Pandava por Bhisma.

As forças dos Pandavas sofreram muito no primeiro dia de batalha. Dharmaputra ficou tomado de apreensão, e a felicidade de Duryodhana não tinha limites. Os irmãos vieram até Krishna e começaram consultas ansiosas.

Krishna disse a Yudhisthira: "Ó principal dos Bharatas, não tema. Deus o abençoou com irmãos valentes. Por que você tem que se distrair com qualquer dúvida? Aqui está Satyaki, aqui está Virata, Drupada e Dristadyumna, alem de Mim mesmo. Qual o motivo para você ficar abatido? Você se esqueceu que Shikhandi espera por sua vítima predestinada Bhisma"? Assim, Krishna consolou Yudhisthira.

Krishna e Arjuna soam Seus Búzios Transcendentais

 

Capítulo 65

O Segundo Dia

A Quadriga Divina de Krishna e Arjuna

Como o exército Pandava não teve sorte no primeiro dia de batalha, Dristadyumna, o Generalíssimo, planejou meios para evitar a repetição disso. No segundo dia, o exército foi organizado cuidadosamente e tudo foi feito para inspirar confiança.

Duryodhana, cheio de vaidade por causa do sucesso no primeiro dia, se levantou no meio de seu exército e se dirigiu a seus guerreiros.

Ele disse com voz bem alta: "Heróis com armaduras, nossa vitória está assegurada. Lutem e não se preocupem com suas vidas".

O exército Kaurava, liderado por Bhisma, fez um forte ataque contra as forças dos Pandavas, quebraram sua formação e mataram um grande número de guerreiros.

Arjuna se voltou para Krishna, seu cocheiro, e disse: "Se continuarmos assim, nosso exército vai ser destruído totalmente pelo patriarca. A menos que matemos Bhisma, temo que não poderemos salvar o nosso exército".

"Dhananjaya, então se apronte. Lá está a quadriga do patriarca", respondeu Krishna, que conduziu a quadriga direto em direção a ele.

A quadriga correu em frente com grande velocidade. O patriarca atirou suas flechas como boas vindas ao desafio. Duryodhana ordenou que seus homens protegessem o patriarca com toda a vigilância e nunca deixá-lo exposto a nenhum perigo.

Dessa forma, todos os guerreiros, apoiaram o patriarca e imediatamente intervieram, e atacaram Arjuna que, entretanto, lutou sem nenhuma preocupação.

Como é bem sabido, só tinham três no lado Kaurava capazes de enfrentar Arjuna com qualquer chance de sucesso, o patriarca Bhisma, Drona e Karna. Arjuna acabou com os guerreiros facilmente, que vieram apoiar Bhisma.

A forma como ele manejava seu grande arco nessa ocasião, arrebatou a admiração de todos os grandes generais na batalha. Sua quadriga reluzia em grande velocidade de lá para cá e dispersava as fileiras hostis como raios bifurcados, tão ligeiro que o olho doía ao acompanhar a carreira.

O coração de Duryodhana bateu forte quando assistiu esse combate. Sua confiança no grande Bhisma começou a ficar abalada.

Duryodhana disse: "Filho de Ganga, parece que mesmo com você e Drona vivos e na luta, essa combinação irresistível de Arjuna e Krishna destruirá nosso exército inteiro. Karna cuja devoção e lealdade por mim são muito genuínas ficou de lado e não luta por mim só por sua causa. Acho que vou ser enganado se você não agir rapidamente para destruir Phalguna (Arjuna)".

Os deuses desceram para ver o combate entre Bhisma e Arjuna. Eles eram dois dos maiores guerreiros da Terra. Ambas as quadrigas eram puxadas por corcéis brancos.

Dos dois lados voavam flechas incontáveis. Seta batia com seta no ar e às vezes um projétil do patriarca atingia o peito de Arjuna, e o de Madhava (Krishna). E o sangue que escorria de Madhava fazia com que ficasse mais belo ainda pois parecia uma árvore palasa jovem em total florescência com flores carmesins.

A ira de Arjuna aumentou quando viu seu amado cocheiro ferido, assim ele puxava seu arco e atirava flechas bem miradas no patriarca. Os combatentes eram iguais e a batalha continuou feroz por muito tempo.

A movimentação das quadrigas era tão próxima uma da outra e se moviam tão rápido que não era possível dizer onde estava Arjuna e onde estava Bhisma. Só os estandartes podiam ser distinguidos.

Enquanto essa cena maravilhosa acontecia numa parte do campo, noutro lugar, uma terrível batalha era travada entre Drona e seu inimigo de nascença, Dristadyumna, o filho do rei dos Panchalas e irmão de Draupadi.

O ataque de Drona foi muito forte e Dristadyumna estava ferido gravemente. Mas este revidou com igual vigor e com um sorriso de ódio, ele atirava fechas e lançava outros projéteis contra Drona.

Drona se defendia com muita habilidade. Ele aparava os projéteis afiados e as maças pesadas arremessados contra ele com suas flechas e os quebrava em pedaços quando ainda voavam no ar.

O arco de Dristadyumna quebrou várias vezes, atingido pelas flechas de Drona. Uma das flechas de Drona matou o cocheiro do príncipe de Panchala. Então, Dristadyumna pegou uma maça, pulou da quadriga e correu para o ataque a pé.

Drona atirou uma flecha que derrubou a maça no chão. Dristadyumna então sacou sua espada e correu em frente como um leão que vai atacar um elefante. Mas Drona novamente o desarmou e impediu seu avanço.

Aí então, Bhima, que viu a situação do príncipe de Panchala, atirou uma chuva de flechas em Drona, e trouxe Dristadyumna em segurança para sua quadriga.

Duryodhana que viu isso mandou as forças de Kalinga atacarem Bhimasena. Bhima matou um grande número de guerreiros Kalingas. Como a Morte em pessoa, ele se movia entre seus inimigos e os derrubava no chão. Foi uma destruição tão feroz que o exército inteiro tremeu de medo.

Quando Bhisma viu isso, veio para salvar os Kalingas. Satyaki, Abhimanyu e outros guerreiros vieram para apoiar Bhima. Uma das flechas de Satyaki derrubou o cocheiro e os cavalos da quadriga de Bhisma, que ficou sem controle, e correu com Bhisma para fora do campo de batalha.

O exército Pandava ficou com um tremendo entusiasmo quando a quadriga de Bhisma correu desgovernada para fora do campo. Eles aproveitaram a situação e fizeram um ataque feroz contra o exército Kaurava.

O exército Kaurava sofreu uma grande perda nesse dia de batalha como resultado dos feitos heróicos de Arjuna. Os generais do exército Kaurava ficaram muito perturbados e todo o entusiasmo do dia anterior desapareceu.

Eles esperavam ansiosamente pelo pôr-do-sol quando a batalha terminaria. Quando o Sol se pôs no oeste, Bhisma disse a Drona: "É bom parar o combate agora. Nosso exército está desmotivado e fatigado".

No lado dos Pandavas, Dhananjaya e os outros voltaram para seu acampamento com muita alegria, acompanhados pela música das bandas. No fim, do segundo dia de batalha, os Kauravas estavam no mesmo humor dos Pandavas do dia anterior.

 

Capítulo 66

O Terceiro Dia de Batalha

Na manhã do terceiro dia de batalha, Bhisma organizou seu exército em formação de águia, que ele mesmo liderou, enquanto Duryodhana e suas forças protegiam a retaguarda. O cuidado foi tão grande com cada mínimo detalhe que os Kauravas estavam certos de que não aconteceria nenhuma desgraça com eles neste dia.

Os Pandavas também organizaram suas forças com muita perícia. Dhananjaya e Dristadyumna decidiram a favor duma formação de lua crescente do seu exército para enfrentar com eficiência a formação de águia das forças inimigas.

Bhima ficou na ponta direita da lua crescente e Arjuna na esquerda, como líderes das respectivas divisões. A batalha começou. Todos os exércitos entraram em combate de imediato e o sangue correu em torrentes, a poeira levantada pelas quadrigas, cavalos e elefantes subiu tanto que encobriu o Sol.

O ataque de Dhananjaya foi violento mas o inimigo permaneceu firme. Os Kauravas fizeram um contra-ataque concentrado na posição de Arjuna. Arpões, lanças e outros projéteis voavam no ar e brilhavam como raios bifurcados numa tempestade de relâmpagos.

Os dardos cobriram a quadriga de Arjuna assim como uma grande nuvem de gafanhotos. Mas com habilidade admirável, ele ergueu uma fortaleza móvel em volta de sua quadriga com as flechas atiradas num fluxo interminável de seu famoso arco.

Em outro ponto da batalha, Shakuni liderou uma grande força contra Satyaki e Abhimanyu. A quadriga de Satyaki foi feita em pedaços e ele teve que subir na quadriga de Abhimanyu, assim os dois lutaram em cima da mesma quadriga.

Eles conseguiram destruir as forças de Shakuni. Drona e Bhisma atacaram a divisão de Dharmaputra juntos, e Nakula e Sahadeva se juntaram a seu irmão em oposição à ofensiva de Drona.

Bhima e seu filho Ghatotkacha atacaram a divisão de Duryodhana e nesse dia de batalha, o filho parece que superou seu grande pai em bravura.

Os dardos de Bhima atingiram Duryodhana e ele caiu desmaiado em sua quadriga. Seu cocheiro conduziu a quadriga rapidamente para fora da cena. Ele temia que as forças Kauravas ficassem desmoralizadas por completo se vissem que o príncipe estava incapacitado.

Mas mesmo essa manobra criou uma grande confusão. Bhimasena aproveitou plenamente a posição e causou um grande dano às forças Kauravas que fugiam.

Drona e Bhisma que viram a derrota e confusão do exército Kaurava vieram rapidamente para restaurar a confiança. As forças dispersas foram reunidas e Duryodhana foi visto novamente na liderança delas.

Duryodhana disse ao patriarca: "Como você pôde tolerar isso, olhar enquanto nossas forças são dispersas e forçadas a uma fuga vergonhosa? Temo que você seja muito bom com os Pandavas. Por que não me diz francamente: 'Eu amo os Pandavas, Dristadyumna e Satyaki são meus amigos e não posso atacá-los ou matá-los'. Você tinha que expor a situação explicitamente para mim. Com certeza, esses homens não se igualam a você. E se você estivesse concentrado, poderia acabar com eles facilmente. Agora mesmo, será bem melhor se você e Drona me contarem com franqueza sobre isso".

A humilhação da derrota e o conhecimento de que o patriarca desaprovava sua conduta fizeram Duryodhana falar com tanta amargura. Mas Bhisma apenas sorriu e disse: "Não fui bem franco no meu conselho a você? Você rejeitou esse aviso quando decidiu entrar em guerra. Tentei prevenir a guerra mas, agora que ela veio, cumpro meus compromissos com você com todo meu poder. Sou um homem idoso e o que faço é totalmente no meu limite extremo".

Ao dizer isso, o patriarca retomou suas operações. A mudança dos eventos na tarde foi tão a seu favor que os Pandavas felizes, agora ficaram um pouco desamparados.

Eles não esperavam que Bhisma reunisse suas forças e os atacasse novamente. Mas, atormentado pela repreensão de Duryodhana, o patriarca correu enfurecido pelo campo assim como o fogo destruidor.

Ele reuniu seus homens e fez o ataque mais severo contra o exército Pandava até o momento. Este achou que o patriarca se multiplicou em vários Bhismas que lutavam em vários pontos. De tão rápido que era seu movimento naquela tarde.

Aqueles que o enfrentavam eram derrubados e morriam como insetos no fogo. O exército Pandava foi quebrado totalmente e começou a se dispersar. Vasudeva, Partha e Shikhandi tentaram restaurar a ordem e a confiança com muito empenho, mas sem sucesso.

Krishna disse: "Dhananjaya, a hora crítica chegou. Tenha certeza de não hesitar em seu dever de matar em batalha Bhisma, Drona e todos os outros amigos, parentes e mais velhos respeitáveis. Você se comprometeu com isso e agora tem que cumprir sua palavra. Senão, nosso exército estará perdido sem salvação. Você tem que atacar o patriarca agora".

Arjuna disse: "Dirija então".

Enquanto a quadriga de Dhananjaya corria em direção a Bhisma, encontrou uma calorosa recepção do patriarca, que a cobriu de flechas.

Mas, Arjuna dobrou seu arco e disparou três setas que quebraram o arco do patriarca. Bhisma pegou outro arco que também teve o mesmo destino. O coração do patriarca se encheu de felicidade ao ver a habilidade de Arjuna na arte do arco e flecha.

"Ave, bravo guerreiro"! Aplaudiu o patriarca, mas mesmo assim, pegou outro arco e disparou flechas na quadriga de Arjuna sem errar o alvo.

Krishna não ficou feliz na forma como Arjuna conduzia esse ataque. O arco do patriarca funcionava ferozmente. Mas as mãos de Arjuna não faziam o melhor de si, pois seu coração não estava nisso.

Ele tinha muita consideração pelo seu grandioso patriarca. Krishna pensou, se Arjuna continuar assim, o exército que já foi severamente desmoralizado, será finalmente destruído e tudo estará perdido.

Krishna dirigia a quadriga com muita perícia, mas mesmo assim, tanto Ele como Arjuna foram alvejados várias vezes pelas flechas de Bhisma.

A ira de Janardhana (Krishna) aumentou. "Não vou mais tolerar isso, Arjuna. Eu mesmo vou matar Bhisma se você não fizer"! Ele exclamou, largou as rédeas, pegou Seu disco, pulou da quadriga e correu em direção a Bhisma.

Bhisma estava longe de ficar perturbado com isso. Ao contrário, sua face se expandiu de alegria extática. "Venha, venha, ó Senhor de olhos de lótus"! Ele exclamou.

"Eu me prostro a Você, ó Madhava. Senhor do Universo, Você desceu da quadriga por minha causa? Eu Lhe ofereço minha vida. Se eu for morto por Você, serei glorificado nos três mundos. Dê-me esta bênção. Que Suas mãos tirem a minha vida e eu seja salvo por toda a eternidade".

Arjuna ficou perturbado ao ver isso. Ele pulou da quadriga e correu atrás de Krishna. Quando O alcançou com muita dificuldade, implorou a Krishna para voltar.

"Não perca Sua paciência comigo. Desista e prometo que não hesitarei mais", disse ele, e persuadiu Krishna para voltar. As rédeas da quadriga estavam nas mãos de Krishna novamente. Arjuna atacou as forças Kauravas com tanta fúria que milhares foram mortos por ele.

Os Kauravas sofreram uma severa derrota na tarde do terceiro dia. Enquanto voltavam aos seus acampamentos sob a luz de tochas, eles diziam um ao outro: "Quem pode se igualar a Arjuna? Não há nada de estranho em ele ser vitorioso". De tão maravilhosa que foi a bravura de Arjuna nesse dia.

(Recomendamos a leitura do Srimad Bhagavatam Primeiro Canto, Capítulo Nove, "O Desaparecimento de Bhismadeva na Presença do Senhor Krishna").

 

Capítulo 67

O Quarto Dia

A descrição dos detalhes da batalha, que é o evento principal do Mahabharata, é para a boa compreensão do caráter dos nobres heróis.

Com o raiar do dia, Bhisma organizou as forças Kauravas novamente. Rodeado por Drona, Duryodhana e os outros, o patriarca parecia muito com o grande Indra, que porta sua arma de raio, rodeado pelos devas.

O exército Kaurava, com suas quadrigas, elefantes e cavalos todos organizados em formação de batalha e prontos para o combate, representava a aparência do céu numa grande tempestade de trovões.

O patriarca deu as ordens para o ataque. Arjuna em sua quadriga, com o estandarte de Hanuman a esvoaçar, observava os movimentos hostis, e também ficou pronto.

A batalha começou. Asvathama, Bhurishrava, Shalya, Chitrasena e o filho de Chala cercaram Abhimanyu e o atacaram. O guerreiro lutou como um leão que enfrentava cinco elefantes. O filho de Chala foi morto.

O próprio Chala entrou na luta e junto com Shalya, fizeram um forte ataque contra Dristadyumna. O arco deste se partiu em dois com um projétil afiado atirado por Shalya.

Abhimanyu viu isso e mandou uma chuva de flechas sobre Shalya que o deixou em tamanho perigo que Duryodhana e seus irmãos correram para ajudar Shalya. Bhimasena também apareceu em cena nesse momento.

Quando Bhima levantou sua maça para o alto, os irmãos de Duryodhana perderam a coragem. Duryodhana quando viu isso, ficou extremamente irado, e de imediato, atacou Bhima com uma grande força de elefantes.

Assim que viu os elefantes a correr em sua direção para o ataque, ele desceu de sua quadriga, com a maça de ferro em punho, e os atacou com tamanha violência que eles se espalhavam por todos os lados com um grande estrondo, o que causou uma grande desordem nas fileiras Kauravas.

O ataque de Bhima contra os elefantes foi como o massacre devastador de Indra contra as montanhas aladas. Os elefantes massacrados ficavam no chão como grandes morros. Os que escapavam corriam em pânico e causavam um grande dano no exército Kaurava, ao pisotearem inumeráveis soldados em sua corrida frenética. Duryodhana, então, ordenou um ataque massivo contra Bhima.

Mas ele permaneceu firme como uma rocha e logo, os guerreiros Pandavas chegaram e se juntaram a ele. Várias flechas de Duryodhana atingiram o peito de Bhima e ele subiu em sua quadriga novamente.

"Vishoka, chegou a hora da satisfação", disse Bhima a seu cocheiro. "Vejo vários filhos de Dhritarastra na minha frente, prontos para serem derrubados como frutas maduras numa árvore. Segure bem as rédeas e dirija. Vou despachar esses desgraçados para o reino de Yama". As flechas de Bhima teriam matado Duryodhana várias vezes se não fosse sua armadura.

Oito irmãos de Duryodhana foram mortos por Bhima nesse dia de batalha. Duryodhana lutou ferozmente. O arco de Bhima foi quebrado por uma das flechas de Duryodhana. Bhima pegou outro arco novo e atirou uma flecha com borda de faca que cortou o arco de Duryodhana em dois.

Sem se abalar com isso, Duryodhana pegou um novo arco e atirou uma flecha certeira que atingiu Bhima no peito com tal força que ele cambaleou e caiu sentado.

Os guerreiros Pandavas então atiraram uma grande chuva de flechas contra Duryodhana. Ghatotkacha, que viu seu pai sentado e atordoado pela força do golpe, ficou muito furioso e atacou o exército Kaurava, que não foi capaz de suportar seu massacre.

"Não podemos enfrentar esse Rakshasa hoje", disse Bhisma a Drona. "Nossos homens estão esgotados. O crepúsculo está perto, e à noite, os Rakshasas ficam mais fortes com a escuridão. Vamos tratar de Ghatotkacha amanhã".

O patriarca ordenou que seu exército se retirasse para a noite. Duryodhana se sentou pensativo em sua tenda, com os olhos cheios de lágrimas. Ele perdeu muitos irmãos nesse dia de batalha.

Dhritarastra exclamou: "Sanjaya, todos os dias, você me dá nada além de más notícias. Sua narração sempre foi de tristeza, derrota e perda de entes queridos! Não consigo suportar mais isso. Qual estratégia pode salvar meu povo? Como podemos vencer essa luta? Na verdade, estou com muito medo. Parece que o destino é mais poderoso do que o esforço humano".

Sanjaya respondeu: "Rei, tudo isso não foi resultado da sua própria tolice? Qual a utilidade da aflição? Como posso manufaturar boas notícias para você? Você tem que ouvir a verdade com firmeza".

"Ai! As palavras de Vidura se tornam realidade", disse o velho rei cego, tomado por um grande pesar.

 

Capítulo 68

O Quinto Dia

Sanjaya narra tudo que acontece a Dhritarastra

"Sou como um náufrago dum navio destroçado que tenta se salvar por nadar num oceano agitado pela tempestade. Eu realmente afundarei, esmagado por esse mar de tristeza".

Quando Sanjaya relatava os acontecimentos da grande batalha repetidamente, Dhritarastra se lamentava assim, incapaz de suportar sua tristeza.

Ele disse: "Bhima vai matar todos meus filhos. Não acho que haja alguém com habilidade suficiente em nosso exército para proteger meus filhos da morte. Não foi Bhisma, Drona, Kripa e Asvathama que olharam sem se importarem quando nosso exército fugiu de pavor? Qual será o plano deles na verdade? Quando e como eles vão ajudar Duryodhana? Como meus filhos escaparão da destruição"?

Ao dizer isso, o velho rei cego rompeu em lágrimas.

Sanjaya disse: "Acalme-se rei. Os Pandavas se apóiam na força duma causa justa. Por isso, eles vencem. Seus filhos são bravos mas sua mentalidade é maligna. Portanto, a sorte não os favorece. Eles cometeram uma grande injustiça contra os Pandavas, e eles colhem o resultado do que plantaram com seus pecados. Os Pandavas não vencem por encantos ou magia. Eles lutam conforme a prática kshatriya. Sua causa é justa, eles têm o poder. Os amigos o aconselharam, mas você desprezou os conselhos. Vidura, Bhisma, Drona e eu tentamos detê-lo em seu curso tolo, mas você não ouviu e continuou. Como uma pessoa doente tola que se recusa a tomar um remédio amargo, você se recusou com obstinação a seguir nosso conselho, que teria salvado seu povo, e preferiu agir conforme o desejo de seu filho tolo. Você está deprimido agora. Na noite passada, Duryodhana fez a mesma pergunta a Bhisma, que você me fez agora. E Bhisma deu a mesma resposta que eu lhe dei agora".

Quando a luta acabou na noite do quarto dia, Duryodhana foi até a tenda de Bhisma, prostrou-se com respeito, e disse:

"Patriarca, o mundo sabe que você é um guerreiro que não sabe o que é medo. O mesmo é o caso de Drona, Kripa, Asvathama, Kritavarma, Sudakshina, Bhurishrava, Vikarna e Bhagadatta. A morte não é terror para esses veteranos. Não há dúvida que a habilidade desses guerreiros é sem limite, do mesmo modo como a sua. Todos os Pandavas combinados não podem derrotar nenhum de vocês. Qual é então o mistério por trás dessa derrota diária de nosso exército pelos filhos de Kunti"?

Bhisma respondeu: "Príncipe, ouça com atenção. Eu o aconselhei em todas as ocasiões e lhe disse o que é bom para você. Mas, você sempre se recusou em seguir o que os seus mais velhos o aconselharam a fazer. Mais uma vez, eu lhe digo que o melhor para você é fazer as pazes com os filhos de Pandu. Para o seu bem, assim como para o bem do mundo, esse é o único curso que deve ser seguido. Vocês pertencem à mesma casa real, e podem desfrutar deste vasto reino juntos. Eu lhe dei este conselho, mas você desprezou e fez um grande mal aos Pandavas, fruto que você colhe agora. Os Pandavas são protegidos por Krishna pessoalmente. Como você espera a vitória? Mesmo agora, não é tarde para fazer as pazes e esta é a fórmula para governar seu reino, tornar os Pandavas, seus poderosos irmãos, amigos em vez de inimigos. A destruição espera por você, se você insultar Dhananjaya e Krishna, que não são nada menos do que Nara e Narayana em pessoa".

Duryodhana saiu e foi para sua tenda, mas não conseguiu dormir naquela noite.

A batalha recomeçou na manhã seguinte. Bhisma organizou as forças Kauravas numa formação poderosa. O mesmo fez Dristadyumna com o exército Pandava.

Bhima ficou na frente das linhas de ataque como de costume. E Shikhandi, Dristadyumna e Satyaki ficaram na retaguarda, para guardarem com segurança o corpo principal, auxiliados por outros generais.

Dharmaputra e seus irmãos gêmeos lideravam a retaguarda. Bhisma curvou seu arco e atirou suas flechas. O exército Pandava sofreu muito com o ataque do patriarca.

Dhananjaya viu isso e retaliou com flechas ardentes miradas em Bhisma. Duryodhana foi até Drona e reclamou amargurado como de costume.

Drona o repreendeu severamente: "Príncipe obstinado, você fala sem compreender. Você é ignorante sobre o poder dos Pandavas. Nós fazemos o melhor que podemos".

O forte ataque de Drona contra o exército Pandava foi demais para Satyaki que defendia, então Bhima voltou sua atenção para Drona. A batalha ficou mais ardente ainda. Drona, Bhisma e Shalya fizeram um ataque combinado contra Bhima.

Shikhandi apoiou Bhima por atirar uma chuva de flechas contra Bhisma. À medida que Shikhandi avançava, Bhisma desviava. Pois Shikhandi nasceu como mulher, e os princípios de Bhisma não permitiam que ele atacasse uma mulher.

No fim, esta mesma objeção provou ser a causa da morte de Bhisma. Quando Drona viu Bhisma recuar, ele atacou Shikhandi ferozmente e o obrigou a se retirar.

Houve uma batalha promíscua durante toda a manhã do quinto dia, e a matança foi terrível. Na tarde, Duryodhana mandou uma grande força atacar Satyaki.

Mas Satyaki a destruiu completamente e avançou para atacar Bhurishrava. Bhurishrava, que também era um oponente poderoso, obrigou os homens de Satyaki a lutar, e pressionou Satyaki com tanta fúria que este ficou em perigo.

Quando os dez filhos de Satyaki viram a situação de seu pai, tentaram libertá-lo com um ataque contra Bhurishrava, mas Bhurishrava intrépido, enfrentou o ataque combinado e não se abalou. Suas setas certeiras quebraram as armas deles e todos foram mortos, espalhados no chão como várias árvores altas que foram atingidas por raios. Satyaki, furioso de raiva e pesar, dirigiu sua quadriga numa velocidade alucinante para matar Bhurishrava.

As quadrigas dos dois guerreiros colidiram e se espatifaram em pedaços. E os guerreiros se enfrentaram cara a cara com espada e escudo num combate individual desesperado.

Então, Bhima veio, pegou Satyaki à força para dentro de sua quadriga e fugiu. Pois Bhima sabia que Bhurishrava era um esgrimista sem rival, e ele não queria que Satyaki fosse morto.

Arjuna matou milhares de guerreiros naquela tarde. Os soldados, despachados contra ele por Duryodhana, morriam como mariposas no fogo. Quando o sol se escondeu e Bhisma deu as ordens para cessar a luta, os príncipes do exército Pandava cercaram Arjuna e o aclamaram com altos brados de admiração e vitória.

Os exércitos dos dois lados se retiraram do campo, junto com os cavalos e elefantes cansados.

 

Capítulo 69

O Sexto Dia

Conforme a ordem de Yudhisthira, Dristadyumna organizou o exército Pandava em formação makara (peixe) para o sexto dia de batalha. O exército Kaurava foi organizado em formação krauncha (garça).

Da mesma forma, os exercícios físicos ou posturas (asanas) também têm nomes similares. Vyuha é o nome genérico duma formação de batalha. Qual vyuha era melhor para uma ocasião particular, dependia do que era necessário para os planos de ataque ou defesa de cada dia.

Qual deveria ser a potência e composição da organização das forças era decidida conforme a situação que se desenvolvia a cada momento.

O sexto dia foi marcado por uma matança prodigiosa, mesmo na primeira parte da manhã. O cocheiro de Drona foi morto e o próprio Drona pegou as rédeas dos cavalos e usou seu arco ao mesmo tempo.

Ele causou uma grande destruição. Ele se locomovia como o fogo num monte de algodão. As formações dos dois exércitos foram logo dissolvidas e a luta indiscriminada e ardente continuou. O sangue corria em torrentes e o chão ficou coberto por corpos mortos de soldados, elefantes e cavalos, e dos escombros das quadrigas.

Bhimasena penetrou nas linhas do inimigo para encontrar os irmãos de Duryodhana e acabar com eles. Eles, por sua vez, não esperaram para serem achados, mas correram em direção a ele, num ataque combinado por todos os lados. Ele foi atacado por Dushasana, Durvishaha, Durmata, Jaya, Jayasena, Vikarna, Chitrasena, Sudarshana, Charuchitra, Suvarma, Dushkarna e outros, todos juntos.

Bhimasena, que não sabia o que era medo, se levantou e enfrentou todos. Eles queriam levá-lo preso e ele, matá-los todos ali mesmo.

O combate aterrador começou, parecido com a batalha antiga entre os deuses e asuras. Subitamente, o filho de Pandu perdeu a paciência, pulou de sua quadriga com a maça em punho, e foi direto a pé para cima dos filhos de Dhritarastra, com muita pressa para matá-los.

Quando Dristadyumna viu a quadriga de Bhima desaparecer nas linhas inimigas, ficou muito alarmado e correu para prevenir um desastre. Ele alcançou o veículo de Bhima mas viu que estava ocupado só pelo cocheiro e Bhima não estava lá. Com lágrimas nos olhos, ele perguntou ao cocheiro: "Vishoka, onde está Bhima que é mais querido por mim do que minha própria vida"? Dristadyumna naturalmente pensou que Bhima tinha caído.

Vishoka se prostrou e disse ao filho de Drupada: "O filho de Pandu me pediu para esperar aqui e, sem esperar minha resposta, correu em frente a pé com a maça na mão para as fileiras inimigas".

Com o temor de que Bhima seria derrotado e morto, Dristadyumna dirigiu sua quadriga para dentro das linhas inimigas à procura de Bhimasena, cujo caminho estava marcado com os corpos dos elefantes mortos.

Quando Dristadyumna encontrou Bhima, ele o viu cercado por todos os lados pelos inimigos que lutavam de suas quadrigas. Bhima estava em pé na frente deles, com a maça em punho, cheio de ferimentos, e exalava fogo.

Dristadyumna o abraçou, o botou em sua quadriga e começou a tirar as setas que atingiram seu corpo. Duryodhana agora ordenou que seus guerreiros atacassem Bhimasena e Dristadyumna, e não esperassem que eles atacassem ou desafiassem.

Em obediência, fizeram um ataque combinado apesar de não estarem inclinados a se empenharem em mais luta. Dristadyumna tinha uma arma secreta, que ganhou de Dronacharya, então a disparou e fez as forças inimigas ficarem entorpecidas.

Mas então Duryodhana entrou na briga e disparou armas para contra-atacar o efeito da arma de Dristadyumna. Somente aí, os reforços mandados por Yudhisthira chegaram.

Uma força de doze quadrigas com seu grupo liderado por Abhimanyu chegou na cena para apoiar Bhima.

Dristadyumna ficou muito aliviado quando viu isso. Bhimasena também tinha se recuperado nesse momento e estava pronto para retomar a luta.. Ele subiu na quadriga de Kekaya e assumiu sua posição junto com os outros.

Drona, entretanto, estava terrível naquele dia. Ele matou o cocheiro e os cavalos de Dristadyumna e espatifou sua quadriga, e o filho de Drupada teve que procurar um lugar no veículo de Abhimanyu. As forças dos Pandavas começaram a ceder, e Drona foi aclamado pelo exército Kaurava.

Uma luta massiva com matança indiscriminada continuou naquele dia. Num momento, Bhima e Duryodhana se encontraram cara a cara. A costumeira troca de palavras duras aconteceu e foi seguida por um grande combate de arco e flecha.

Duryodhana foi atingido e caiu inconsciente. Kripa o salvou com grande habilidade e o levou embora em sua quadriga. Bhisma veio pessoalmente ao local nesse momento e conduziu o ataque que dispersou as forças Pandavas.

O Sol se punha, mas a batalha continuou por mais uma hora ainda, e foi um combate terrível, muitos milhares morreram. Então o dia de batalha terminou. Yudhisthira ficou feliz de ver Dristadyumna e Bhima voltarem vivos para o acampamento.

 

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(Última Edição: 21-mai-2016 )

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