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Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

"Bhagavad-gita Como Ele É"

(Original Sem "Correções")

de

Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya

Prabhupada

(Volume 2)

 

 

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

Bhagavad-gita Como Ele É

(Original Sem "Correções")

Sridham Kurukshetra

de

Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya

Prabhupada com os Livros transcendentais

 

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

Bhagavad-gita Como Ele É

(Original Sem "Correções")

de

Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya

 

Capítulo 4

Conhecimento Transcendental

 

Os 3 mundos - Goloka Vrindavana, Vaikuntha e mundo material

 

Verso 1

sri bhagavan uvaca
imam vivasvate yogam
proktavan aham avyayam
vivasvan manave praha
manur iksvakave 'bravit

Tradução

O bem-aventurado Senhor disse: Eu ensinei esta ciência imperecível do yoga ao deus do Sol, Vivasvan, e Vivasvan a ensinou para Manu, o pai da humanidade, e Manu por sua vez a ensinou para Iksvaku.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Encontramos aqui a história do Bhagavad-gita traçada desde tempos remotos quando foi transmitido à classe real, os reis de todos planetas. A ciência se destina especialmente à proteção dos habitantes, por isso que a classe real deve entendê-la para que seja capaz de governar os cidadãos e protegê-los do cativeiro material da luxúria. A vida humana se destina ao cultivo do conhecimento espiritual, na relação eterna com a Suprema Personalidade de Deus, e os chefes executivos de todos estados e todos planetas são obrigados a transmitirem esta lição aos cidadãos por meio de educação, cultura e devoção. Em outras palavras, os chefes executivos de todos estados são destinados a propagarem a ciência da Consciência de Krishna para que as pessoas possam aproveitar esta grande ciência e seguirem um caminho bem sucedido, por utilizarem a oportunidade da forma humana de vida.

Neste milênio, o deus do Sol é conhecido como Vivasvan, o rei do Sol, que é a origem de todos planetas dentro do sistema solar. O Brahma-samhita (5.52) afirma:

yac-caksur esa savita sakala-grahanam
raja samasta-sura-murtir asesa-tejah
yasyajnaya bhramati sambhrta-kala-cakro
govindam adi-purusam tam aham bhajami

O senhor Brahma disse: "Que eu adore a Suprema Personalidade de Deus, Govinda (Krishna), que é a pessoa original e por cuja ordem, o Sol, que é o rei de todos planetas, assume imenso poder e calor. O Sol representa o olho do Senhor e percorre sua órbita em obediência à ordem Dele".

O Sol é o rei de todos planetas, e o deus do Sol (chamado Vivasvan no presente) governa o planeta Sol, que controla todos os outros planetas com o suprimento de calor e luz. Ele gira sob a ordem de Krishna, e o Senhor Krishna originalmente tornou Vivasvan Seu primeiro discípulo no entendimento da ciência do Bhagavad-gita. O Gita, portanto, não é um tratado especulativo para o acadêmico mundano insignificante mas um livro padrão de conhecimento que vem desde tempo imemorável.

No Mahabharata (Shanti-parva 348.51-52), podemos traçar a história do Gita como se segue:

treta-yugadau ca tato
vivasvan manave dadau
manus ca loka-bhrty-artham
sutayeksvakave dadau

iksvakuna ca kathito
vyapya lokan avasthitah

"No início de Treta-yuga (milênio), esta ciência da relação com o Supremo foi transmitida por Vivasvan a Manu. Manu, o pai da humanidade, transmitiu-a a seu filho Maharaja Iksvaku, o rei deste planeta Terra e patriarca da dinastia Raghu, na qual o Senhor Ramachandra apareceu". Portanto, o Bhagavad-gita existe na sociedade humana desde o tempo de Maharaja Iksvaku.

No momento presente, passamos justamente cinco mil anos de Kali-yuga, que dura 432.000 anos. Antes desta, foi Dwapara-yuga (800.000 anos), e antes foi Treta-yuga (1.200.000 anos). Assim, por volta de 2.005.000 anos atrás, Manu falou o Bhagavad-gita a seu discípulo e filho Maharaja Iksvaku, o rei do planeta Terra. A idade do Manu atual é calculada com uma duração aproximada de 305.300.000 de anos, dos quais já passaram 120.400.000 anos. Se aceitarmos o fato de que antes do nascimento de Manu, o Gita foi falado pelo Senhor a Seu discípulo o deus do Sol Vivasvan, o Gita foi falado numa estimativa aproximada pelo menos 120.400.000 de anos atrás; e existe na sociedade humana há dois milhões de anos. Foi falado pelo Senhor novamente para Arjuna cerca de cinco mil anos atrás. Essa é a estimativa aproximada da história do Gita, de acordo com o próprio Gita e de acordo com a versão do orador, o Senhor Sri Krishna. Foi falado ao deus do Sol Vivasvan porque ele também é um kshatriya e é o pai de todos kshatriyas que são descendentes do deus do Sol, ou os kshatriyas surya-vamsha. Porque o Bhagavad-gita é tão bom quanto os Vedas, pois é falado pela Suprema Personalidade de Deus, seu conhecimento é apaurusheya, sobre-humano. Como as instruções Védicas são aceitas como elas são, sem interpretação humana, o Gita deve portanto ser aceito sem interpretação mundana. Os argumentadores mundanos podem especular sobre o Gita de várias formas, mas isso não é o Bhagavad-gita como ele é. Por conseguinte, o Bhagavad-gita tem que ser aceito como ele é, através da sucessão discipular, e aqui é descrito que o Senhor falou para o deus do Sol, o deus do Sol falou para seu filho Manu, e Manu falou para seu filho Iksvaku.

Verso 2

evam parampara-praptam
imam rajarsayo viduh
sa kaleneha mahata
yogo nastah parantapa

Tradução

Esta ciência suprema foi assim recebida através da corrente de sucessão discipular, e os reis santos a compreenderam dessa forma. Mas no curso do tempo, a sucessão foi quebrada, e por isso a ciência como ela é pareceu estar perdida.

Iluminação de Srila Prabhupada:

É claramente afirmado que o Gita era destinado especialmente aos reis santos porque eles tinham que executar seu propósito no governo sobre os cidadãos. Com certeza, o Bhagavad-gita não se destina a pessoas demoníacas, que dissipam seu valor para benefício de ninguém e que imaginam todos tipos de interpretações de acordo com caprichos pessoais. Logo quando o propósito original foi disperso pelos motivos dos comentadores inescrupulosos, surgiu a necessidade de restabelecer a sucessão discipular. O Senhor em pessoa detectou cinco mil anos atrás que a sucessão discipular estava quebrada, e por isso Ele declarou que o propósito do Gita parecia estar perdido. Do mesmo modo, hoje em dia, também existem muitas edições do Gita (especialmente em inglês), mas quase todas elas não estão de acordo com a sucessão discipular autorizada. Existem inumeráveis interpretações dadas por muitos acadêmicos mundanos, mas quase todos não aceitam a Suprema Personalidade de Deus, Krishna, apesar de fazerem bons negócios com as palavras de Sri Krishna. Esse espírito é demoníaco, porque demônios não acreditam em Deus porém simplesmente desfrutam a propriedade do Supremo. Como há uma grande necessidade de uma edição do Gita em inglês, como foi recebido pelo sistema parampara (sucessão discipular), aqui se faz uma tentativa de satisfazer essa grande demanda. Bhagavad-gita, aceito como ele é, é uma grande bênção para a humanidade; mas se for aceito como um tratado de especulações filosóficas, é simplesmente uma perda de tempo.

Verso 3

sa evayam maya te 'dya
yogah proktah puratanah
bhakto 'si me sakha ceti
rahasyam hy etad uttamam

Tradução

Esta mesma ciência milenar do relacionamento com o Supremo hoje é revelada por Mim a você porque você é Meu devoto bem como Meu amigo; por isso pode entender o mistério transcendental desta ciência.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Existem duas classes de pessoas, chamadas devoto e demônio. O Senhor escolheu Arjuna como recipiente desta grande ciência por ele ser um devoto do Senhor, mas para o demônio não é possível entender esta grande ciência misteriosa. Existe um número de edições deste grande livro de conhecimento, e algumas delas têm comentários dos devotos e outras têm comentários dos demônios. Comentário de devotos é real, enquanto do demônio é inútil. Arjuna aceita Sri Krishna como a Suprema Personalidade de Deus, e qualquer comentário do Gita que segue os passos de Arjuna é serviço devocional real para a causa desta grande ciência. O demoníaco, entretanto, inventa algo a respeito de Krishna e desvia o público e os leitores em geral do caminho das instruções de Krishna. A pessoa deve tentar seguir a sucessão discipular de Arjuna, e assim receber o benefício.

Verso 4

arjuna uvaca
aparam bhavato janma
param janma vivasvatah
katham etad vijaniyam
tvam adau proktavan iti

Tradução

Arjuna disse: O deus do Sol Vivasvan é mais velho do que Você em nascimento. Como posso entender que no início Você ensinou esta ciência a ele?

Iluminação de Srila Prabhupada:

Arjuna é um devoto consagrado do Senhor, como então ele pôde não acreditar nas palavras de Krishna? O fato é que Arjuna não pergunta para si mesmo mas para todos que não acreditam na Suprema Personalidade de Deus ou para os demônios que não gostam da idéia de que Krishna deve ser aceito como a Suprema Personalidade de Deus; somente por eles que Arjuna inquire sobre esse assunto, como se ele próprio não fosse ciente sobre a Personalidade de Deus, ou Krishna. Como ficará evidente no Décimo Capítulo, Arjuna sabia perfeitamente bem que Krishna é a Suprema Personalidade de Deus, a fonte original de tudo e a última palavra em transcendência. Claro que Krishna também apareceu como filho de Devaki nesta Terra. Como Krishna permanece a mesma Suprema Personalidade de Deus, a pessoa original eterna, é muito difícil para uma pessoa ordinária entender. Por isso, para esclarecer esse assunto, Arjuna fez esta pergunta a Krishna para que Ele mesmo pudesse falar com autoridade. Que Krishna é a autoridade suprema é aceito por todo o mundo, não somente no presente, mas desde tempo imemorável, e somente os demônios O rejeitam. De qualquer forma, como Krishna é a autoridade aceita por todos, Arjuna fez esta pergunta a Ele para que Krishna descrevesse Si próprio sem ser retratado pelos demônios que sempre tentam distorcê-Lo de forma compreensível para os demônios e seus seguidores. É preciso que cada um, para seu próprio interesse, saiba a ciência de Krishna. Portanto, quando Krishna em pessoa fala sobre Si, é auspicioso para todos os mundos. Para os demônios, essas explicações de Krishna em pessoa podem parecer estranhas porque os demônios sempre estudam Krishna a partir de suas próprias plataformas, mas aqueles que são devotos apreciam de coração as afirmações de Krishna quando faladas por Krishna em pessoa. Os devotos sempre adorarão essas afirmações autorizadas de Krishna porque estão sempre ávidos para saberem mais e mais sobre Ele. Os ateus, que consideram Krishna como um homem ordinário, podem dessa forma chegarem a saber que Krishna é sobre-humano, Ele é sac-cid-ananda-vigraha, forma eterna de bem-aventurança e conhecimento, que Ele é transcendental, e que Ele está acima do domínio dos modos das natureza material e acima da influência de tempo e espaço. Um devoto de Krishna, como Arjuna, está sem dúvida acima de qualquer má interpretação sobre a posição transcendental de Krishna. Arjuna fazer esta pergunta ao Senhor é simplesmente uma tentativa do devoto desafiar a atitude ateísta de pessoas que consideram Krishna como um ser humano ordinário, sujeito aos modos da natureza material.

Verso 5

sri bhagavan uvaca
bahuni me vyatitani
janmani tava carjuna
tany aham veda sarvani
na tvam vettha parantapa

Tradução

O bem-aventurado Senhor disse: Tanto você quanto Eu já passamos por muitos e muitos nascimentos. Eu posso lembrar todos eles, mas você não pode, ó conquistador do inimigo!

Iluminação de Srila Prabhupada:

Temos a informação no Brahma-samhita (5.33) sobre muitas e muitas encarnações do Senhor. Lá, está afirmado:

advaitam acyutam anadim ananta-rupam
adyam purana-purusam nava-yauvanam ca
vedesu durlabham adurlabham atma-bhaktau
govindam adi-purusam tam aham bhajami

"Eu adoro a Suprema Personalidade de Deus, Govinda (Krishna), que é a pessoa original, absoluta, infalível e sem início. Apesar de Se expandir em formas ilimitadas, mesmo assim permanece o mesmo original, o mais velho, e a pessoa que sempre parece um jovem viçoso. Essas formas eternas, bem-aventuradas e plenamente conscientes do Senhor são geralmente compreendidas pelos melhores eruditos Védicos, mas são sempre manifestas para os devotos puros, virtuosos".

O Brahma-samhita (5.39) também afirma:

ramadi-murtisu kala-niyamena tisthan
nanavataram akarod bhuvanesu kintu
krsnah svayam samabhavat paramah puman yo
govindam adi-purusam tam aham bhajami

"Eu adoro a Suprema Personalidade de Deus, Govinda (Krishna), que está sempre situado em várias encarnações como Rama, Nrisimha, bem como em muitas encarnações secundárias, mas que é a Personalidade de Deus original conhecida como Krishna, e que também encarna pessoalmente".

Os Vedas também afirmam que o Senhor, apesar de ser único e inigualável, manifesta-Se em formas inumeráveis. Ele é como a pedra vaidurya, que muda de cor mas permanece a mesma. Todas essas múltiplas formas são compreendidas pelos devotos puros, imaculados, e não com o simples estudo dos Vedas (vedesu durlabham adurlabham atma-bhaktau). Devotos como Arjuna são companheiros constantes do Senhor, sempre que o Senhor encarna, os devotos companheiros também encarnam a fim de servir o Senhor com capacidades diferentes. Arjuna é um desses devotos, neste verso, entendemos que alguns milhões de anos atrás quando o Senhor falou o Bhagavad-gita para o deus do Sol Vivasvan, Arjuna, numa capacidade diferente, também estava presente. Mas a diferença entre o Senhor e Arjuna é que o Senhor lembra o incidente enquanto Arjuna não pode lembrar. Essa é a diferença entre o ser vivo parte e parcela e o Supremo Senhor. Apesar de Arjuna ser chamado aqui de herói poderoso que pode derrotar os inimigos, ele é incapaz de recordar o que aconteceu em seus vários nascimentos passados. Portanto, o ser vivo, por maior que seja na estimativa material, nunca pode ser igual ao Supremo Senhor. Qualquer um que é um companheiro constante do Senhor é certamente uma pessoa liberada, mas não pode ser igual ao Senhor. O Senhor é descrito no Brahma-samhita como infalível (achyuta), significa que Ele nunca Se esquece de Si mesmo, mesmo se estiver em contato material. Logo, o Senhor e o ser vivo nunca podem ser iguais em todos aspectos, mesmo se o ser vivo for liberado como Arjuna. Apesar de Arjuna ser um devoto do Senhor, algumas vezes ele esquece a natureza do Senhor, enquanto um não-devoto ou um demônio não pode compreender essa natureza transcendental. Por conseguinte, estas descrições do Gita não podem ser compreendidas por cérebros demoníacos. Krishna lembrava atos que foram realizados por Ele milhões de anos atrás, mas Arjuna não podia, apesar do fato de que tanto Krishna quanto Arjuna serem eternos por natureza. Também podemos notar aqui que o ser vivo esquece tudo por causa de sua mudança de corpo, mas o Senhor lembra porque não muda Seu corpo sac-cid-ananda. Ele é adwaita, significa que não existe distinção entre Seu corpo e Ele próprio. Tudo em relação a Ele é espiritual; enquanto a alma condicionada é diferente de seu corpo material. E, porque o corpo e o eu do Senhor são idênticos, Sua posição é sempre diferente do ser vivo ordinário, mesmo quando descende à plataforma material. Os demônios não podem se ajustar a essa natureza transcendental do Senhor, a qual o próprio Senhor explica no verso seguinte.

Verso 6

ajo 'pi sann avyayatma
bhutanam isvaro 'pi san
prakrtim svam adhisthaya
sambhavamy atma-mayaya

Tradução

Apesar de Eu ser não nascido e Meu corpo transcendental nunca deteriorar, e apesar de Eu ser o Senhor de todos seres sensíveis, ainda assim Eu apareço em cada milênio em Minha forma transcendental original.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O Senhor falou sobre a peculiaridade de Seu nascimento; apesar de que Ele possa parecer como uma pessoa ordinária, Ele lembra tudo de Seus muitos e muitos "nascimentos" passados, enquanto que a pessoa comum não pode lembrar o que fez algumas horas atrás. Se perguntarmos a alguém o que fez exatamente na mesma hora do dia anterior, será muito difícil para a pessoa comum responder imediatamente. Com certeza ela terá que varrer sua memória para recordar o que fez exatamente na mesma hora do dia anterior. Mesmo assim, com freqüência pessoas alegam ser Deus, ou Krishna. Não se deve deixar desviar por tais alegações sem sentido. Depois novamente, o Senhor explica Sua prakriti, ou Sua forma. Prakriti significa natureza, bem como swarupa, ou a própria forma do ser. O Senhor afirma que aparece em Seu próprio corpo. Ele não muda Seu corpo, do modo como o ser vivo comum muda de um corpo para outro. A alma condicionada pode ter um tipo de corpo no nascimento presente, mas terá um corpo diferente no próximo nascimento. No mundo material, o ser vivo não tem um corpo fixo, mas transmigra de um corpo para outro. O Senhor, entretanto, não é assim. Sempre que Ele aparece, faz no mesmo corpo original, por meio de Sua potência interna. Em outras palavras, Krishna aparece neste mundo material em Sua forma original eterna, com dois braços, que seguram uma flauta. Ele aparece exatamente em Seu corpo eterno, incontaminado por este mundo material. Apesar de Ele aparecer no mesmo corpo transcendental e ser o Senhor do universo, ainda assim parece que Ele nasce como um ser vivo ordinário. Apesar do fato de que o Senhor Krishna cresce da infância para a adolescência e da adolescência para a juventude, é muito espantoso que Ele nunca envelhece além da juventude. Na época da batalha de Kurukshetra, Ele tinha muitos netos em casa; ou em outras palavras, tinha bastante idade nos cálculos materiais. Mesmo assim, Ele parecia um jovem rapaz com vinte ou vinte e cinco anos de idade. Nunca vemos um quadro de Krishna idoso porque Ele nunca envelhece como nós, apesar de Ele ser a pessoa mais velha em toda a criação; passado, presente e futuro. Seu corpo e Sua inteligência nunca se deterioram ou mudam. Por conseguinte, é claro que apesar de Ele estar no mundo material, Ele é o mesmo não nascido, com forma eterna plena de bem-aventurança e conhecimento, e imutável em Seu corpo e inteligência transcendentais. Na verdade, Seu aparecimento e desaparecimento são como o nascer do Sol, que se movimenta perante nós, e depois desaparece de nossa visão. Quando o Sol fica fora de nossa visão, pensamos que o Sol se pôs, e quando o Sol está perante nossa visão, pensamos que o Sol está no horizonte. Na realidade, o Sol está sempre em sua posição fixa, mas por causa dos sentidos defeituosos e insuficientes, calculamos o aparecimento e o desaparecimento do Sol no céu. E, porque Seu aparecimento e desaparecimento são completamente diferentes de qualquer ser vivo comum, ordinário, é evidente que Ele é eterno, bem-aventurado e pleno de conhecimento por meio de Sua potência interna; e nunca é contaminado pela natureza material. Os Vedas também confirmam que a Suprema Personalidade de Deus é não nascida, mesmo assim parece nascer em Suas múltiplas manifestações. As literaturas Védicas suplementares também confirmam que apesar do Senhor parecer que nasce, mesmo assim Ele não muda de corpo. No Bhagavatam, Ele aparece perante Sua mãe como Narayana, com quatro mãos e com as decorações dos seis tipos de opulências plenas. Seu aparecimento em Sua forma original eterna é Sua misericórdia sem causa, segundo o dicionário Visvakosha. O Senhor tem consciência sobre todas Suas aparições e desaparições anteriores, mas o ser vivo comum esquece tudo sobre seu corpo passado logo que obtém outro corpo. Ele é o Senhor de todos seres vivos porque realiza atividades maravilhosas e sobre-humanas quando está nesta Terra. Portanto, o Senhor é sempre a mesma Verdade Absoluta e não tem diferença entre Sua forma e Seu eu, ou entre Sua qualidade e corpo. Pode surgir a dúvida sobre por que o Senhor aparece e desaparece deste mundo. Isso é explicado no verso seguinte.

Verso 7

yada yada hi dharmasya
glanir bhavati bharata
abhyutthanam adharmasya
tadatmanam srjamy aham

Tradução

Sempre e onde houver um declínio da prática religiosa, ó descendente de Bharata, e uma ascensão predominante da irreligião; nesse momento, Eu descendo pessoalmente.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A palavra srijami é muito significativa aqui. Srijami não pode ser usada no sentido de criação, porque, segundo o verso anterior, não existe criação da forma ou corpo do Senhor, pois todas as formas existem eternamente. Logo, srijami significa que o Senhor Se manifesta como Ele é. Apesar do Senhor aparecer num horário programado, a saber, no fim da Dwapara-yuga do vigésimo oitavo milênio do sétimo Manu em um dia de Brahma, mesmo assim Ele não tem nenhuma obrigação de seguir essas regras e regulamentos, porque é plenamente livre para agir de várias formas conforme Sua vontade. Assim, Ele aparece por Sua própria vontade sempre que há uma predominância da irreligiosidade e um desaparecimento da verdadeira religião. Os princípios da religião são estabelecidos pelos Vedas, e qualquer discrepância na matéria de executar propriamente as regras dos Vedas torna a pessoa irreligiosa. O Bhagavatam afirma que esses princípios são as leis do Senhor. Somente o Senhor pode manufaturar um sistema de religião. Os Vedas são aceitos como falados originalmente pelo Senhor para Brahma, dentro de seu coração. Portanto, os princípios de dharma, ou religião, são as ordens diretas da Suprema Personalidade de Deus (dharmam tu saksad bhagavat-pranitam). Esses princípios são claramente indicados em todo o Bhagavad-gita. O propósito dos Vedas é estabelecer esses princípios sob a ordem do Supremo Senhor, e o Senhor ordena diretamente, no fim do Gita, que o princípio mais elevado da religião é se render a Ele; e, sempre que esses princípios são perturbados pelos demoníacos, o Senhor aparece. No Bhagavatam, entendemos que o Senhor Buddha é uma encarnação de Krishna que apareceu quando o materialismo era violento e os materialistas usavam o pretexto da autoridade dos Vedas. Apesar de haver certas regras e regulamentos restritivos a respeito de sacrifícios de animais para propósitos específicos nos Vedas, pessoas com tendência demoníaca mesmo assim aderiram ao sacrifício animal sem referência aos princípios Védicos. O Senhor Buddha apareceu para parar esse absurdo e para estabelecer os princípios Védicos da não-violência. Assim, cada e todo avatara, ou encarnação do Senhor, tem uma missão específica, e todas são descritas nas escrituras reveladas. Ninguém deve ser aceito como um avatara a menos que esteja descrito nas escrituras. Não é um fato que o Senhor só aparece em solo indiano. Ele pode advir em pessoa em qualquer lugar e em todo lugar, e sempre que Ele desejar aparecer. Em cada e toda encarnação, Ele fala sobre religião na medida em que o povo específico pode entender sob suas circunstâncias particulares. Mas a missão é a mesma; conduzir as pessoas à consciência de Deus e obediência aos princípios da religião. Às vezes, Ele descende pessoalmente, e às vezes, Ele manda Seu representante fidedigno na forma de Seu filho, ou servo, ou Ele próprio em alguma forma disfarçada.

Os princípios do Bhagavad-gita foram falados para Arjuna, e para isso, a outras pessoas altamente elevadas, porque ele era altamente avançado em comparação com pessoas ordinárias em outras partes do mundo. Dois mais dois igual a quatro é um princípio matemático que é verdade tanto para o iniciante em aritmética quanto para o aluno avançado. Ainda assim, existem matemáticos inferiores e superiores. Portanto, em todas encarnações do Senhor, os mesmos princípios são ensinados, mas parecem ser superiores ou inferiores em circunstâncias variadas. Os princípios superiores da religião começam com a aceitação das quatro ordens e quatro estados da vida social, como será explicado mais tarde. Todo o propósito da missão das encarnações é despertar a Consciência de Krishna em toda parte. Essa consciência é manifesta e não-manifesta somente sob circunstâncias diferentes.

Verso 8

paritranaya sadhunam
vinasaya ca duskrtam
dharma-samsthapanarthaya
sambhavami yuge yuge

Tradução

A fim de liberar os piedosos e aniquilar os infames, bem como para restabelecer os princípios da religião, Eu advenho pessoalmente, milênio após milênio.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Segundo o Bhagavad-gita, sadhu (pessoa santa) é a pessoa em Consciência de Krishna. Uma pessoa pode parecer que é irreligiosa, mas se tiver as qualificações da Consciência de Krishna sinceramente e plenamente, deve ser aceita como um sadhu. E duskritam se aplica à pessoa que não se importa com a Consciência de Krishna. Esses infames, ou duskritam, são descritos como insensatos e os mais baixos da humanidade, mesmo se estiverem decorados com educação mundana; enquanto outra pessoa, que está cem por cento dedicada à Consciência de Krishna, é aceita como um sadhu, mesmo se essa pessoa não seja educada ou bem culta. No que diz respeito aos ateístas, não é necessário que o Supremo Senhor apareça em pessoa para destruí-los, como fez com os demônios Ravana e Kamsa. O Senhor tem muitos agentes que são bem competentes para aniquilar demônios. Mas o Senhor descende especialmente para agradar Seus devotos puros, que são sempre perseguidos pelos demoníacos. O demônio persegue o devoto, mesmo se este ocorrer de ser seu familiar. Apesar de Prahlada Maharaja ser filho de Hiranyakashipu, mesmo assim foi perseguido por seu pai; apesar de Devaki, a mãe de Krishna, ser irmã de Kamsa, ela e seu esposo Vasudeva foram perseguidos somente porque Krishna ia nascer deles. Assim, o Senhor Krishna apareceu primeiro para liberar Devaki, em vez de matar Kamsa, mas ambos os fatos foram realizados simultaneamente. Por isso, aqui se afirma que para liberar o devoto e aniquilar os demônios infames, o Senhor aparece em diferentes encarnações.

Krishnadasa Kaviraja afirma no Sri Chaitanya Charitamrita (Madhya 20.263-264) os seguintes versos que resumem esses princípios da encarnação:

srsti-hetu yei murti prapance avatare
sei isvara-murti 'avatara' nama dhare

mayatita paravyome sabara avasthana
visve avatari' dhare 'avatara' nama

"O avatara, ou encarnação do Supremo, descende do reino de Deus para a manifestação material. E a forma particular da Personalidade de Deus que descende desse modo se chama uma encarnação, ou avatara. Essas encarnações se situam no mundo espiritual, o reino de Deus. Quando descendem à criação material, assumem o nome avatara".

Existem vários tipos de avataras, como purushavataras, gunavataras, lilavataras, shaktyavesha avataras, manvantara-avataras e yugavataras; todos aparecem em horário programado por todo o universo. Mas o Senhor Krishna é o Senhor primordial, a fonte original de todos avataras. O Senhor Sri Krishna descende com o propósito específico de mitigar as ansiedades dos devotos puros, que ficam ansiosos por vê-Lo em Seus passatempos originais de Vrindavana. Assim, o propósito principal do avatara Krishna é satisfazer Seus devotos imaculados.

O Senhor afirma que Ele encarna pessoalmente em cada milênio. Isso indica que Ele também encarna na Era de Kali. Como o Srimad Bhagavatam afirma, a encarnação da Era de Kali é o Senhor Chaitanya Mahaprabhu, que propagou a adoração a Krishna por meio do movimento sankirtana (canto coletivo dos santos nomes) e propagou a Consciência de Krishna por toda a Índia. Ele predisse que essa cultura do sankirtana seria difundida em todo o mundo, de cidade em cidade e de vila em vila. O Senhor Chaitanya como a encarnação de Krishna, a Personalidade de Deus, é descrita secretamente e não diretamente nas partes confidenciais das escrituras reveladas, como Upanishads, Mahabharata, Bhagavatam, etc.. Os devotos do Senhor Krishna têm muita atração pelo movimento sankirtana do Senhor Chaitanya. Esse avatara do Senhor não mata os infames, e sim os libera com Sua misericórdia sem causa.

Verso 9

janma karma ca me divyam
evam yo vetti tattvatah
tyaktva deham punar janma
naiti mam eti so 'rjuna

Tradução

A pessoa que conhece a natureza transcendental de Meu aparecimento e atividades, depois que deixa o corpo, não nasce novamente neste mundo material, mas alcança Minha morada eterna, ó Arjuna.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A descida do Senhor de Sua morada transcendental já foi explicada no sexto verso. A pessoa que consegue entender a verdade sobre o aparecimento da Personalidade de Deus já está liberada do cativeiro material, e por isso retorna ao reino de Deus imediatamente depois de deixar seu presente corpo material. Essa liberação do ser vivo do cativeiro material não é nem um pouco fácil. Os impersonalistas e os yogis alcançam a liberação somente depois de muita dificuldade e muitos e muitos nascimentos. Mesmo assim, a liberação que alcançam, fusão no brahmajyoti impessoal do Senhor, é apenas parcial, e existe o risco de retornar novamente a este mundo material. Mas o devoto, simplesmente por entender a natureza transcendental do corpo e atividades do Senhor, alcança a morada do Senhor depois que este corpo termina e não corre o risco de retornar novamente a este mundo material. O Brahma-samhita (5.33) afirma que o Senhor tem muitas e muitas formas e encarnações: advaitam acyutam anadim ananta-rupam. Apesar de existirem muitas formas transcendentais do Senhor, ainda assim elas são a única e a mesma Suprema Personalidade de Deus. A pessoa tem que entender esse fato com convicção, apesar de ser incompreensível para acadêmicos mundanos e filósofos empíricos. Como os Vedas afirmam (Purusha-bodhini Upanishad):

eko devo nitya-lilanurakto
bhakta-vyapi hrdy antar-atma

"A Suprema Personalidade de Deus única está eternamente dedicada a muitas e muitas formas transcendentais em relacionamentos com Seus devotos imaculados". Essa versão Védica é confirmada neste verso do Gita pessoalmente pelo Senhor. A pessoa que aceita essa verdade com o poder da autoridade dos Vedas e da Suprema Personalidade de Deus e que não perde tempo em especulações filosóficas obtém o estágio de perfeição da liberação mais elevado. Simplesmente por aceitar essa verdade com fé, a pessoa pode, sem dúvida, alcançar a liberação. A versão Védica, tat tvam asi, na realidade se aplica a esse caso. Qualquer pessoa que entende o Senhor Krishna como o Supremo, ou que diz perante o Senhor: "Você é o mesmo Brahman Supremo, a Personalidade de Deus", é com certeza liberada instantaneamente, e conseqüentemente sua entrada na companhia transcendental do Senhor está garantida. Em outras palavras, esse devoto fervoroso do Senhor alcança a perfeição, e isso é confirmado pela seguinte declaração Védica (Swetasvatara Upanishad 3.8):

tam eva viditvati mrtyum eti
nanyah pantha vidyate 'yanaya

A pessoa pode alcançar o estágio perfeito da liberação do nascimento e morte por conhecer o Senhor, a Suprema Personalidade de Deus. Não existe outra alternativa porque qualquer pessoa que não entende o Senhor Krishna como a Suprema Personalidade de Deus está com certeza no modo da ignorância. Por conseguinte, simplesmente não alcançará a salvação, o que dizer de lamber a parte externa do pote de mel, ou por interpretar o Bhagavad-gita de acordo com a erudição mundana. Esses filósofos empíricos podem assumir posições muito importantes no mundo material, mas não são necessariamente elegíveis para liberação. Esses eruditos mundanos arrogantes têm que esperar pela misericórdia do devoto do Senhor. Portanto, a pessoa deve cultivar a Consciência de Krishna com fé e conhecimento, e desse modo alcançar a perfeição.

Verso 10

vita-raga-bhaya-krodha
man-maya mam upasritah
bahavo jnana-tapasa
puta mad-bhavam agatah

Tradução

Livres do apego, medo e ira, plenamente absortas em Mim e com o refúgio em Mim, muitas e muitas pessoas no passado se tornaram purificadas com o conhecimento sobre Mim; e assim todas alcançaram o amor transcendental por Mim.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Como descrito acima, é muito difícil para uma pessoa que é muito contaminada materialmente entender a natureza pessoal da Verdade Absoluta Suprema. Geralmente, pessoas que são muito apegas ao conceito corpóreo de vida estão tão absortas no materialismo que é quase impossível para elas entenderem que existe um corpo transcendental que é imperecível, pleno de conhecimento e bem-aventurança eterna. No conceito materialista, o corpo é perecível, pleno de ignorância e completamente miserável [sofredor]. Por isso, as pessoas em geral mantêm essa mesma idéia corpórea na mente quando são informadas sobre a forma pessoal do Senhor. Para essas pessoas materialistas, a forma da manifestação material gigantesca é suprema. Por conseguinte, elas consideram o Supremo como impessoal. E porque estão tão absortas materialmente, o conceito de retenção da personalidade depois da liberação da matéria as deixa aterrorizadas. Quando são informadas que a vida espiritual também é individual e pessoal, ficam com medo de serem pessoas novamente, e por isso naturalmente preferem um tipo de fusão no vazio impessoal. Geralmente, comparam os seres vivos a bolhas no oceano, que se fundem no oceano. Assim é a perfeição máxima da existência espiritual alcançada sem personalidade individual. Esse é um tipo de estágio de vida medroso, desprovido de conhecimento perfeito sobre existência espiritual. Além do mais, existem muitas pessoas que não conseguem entender existência espiritual de jeito nenhum. Atrapalhadas com tantas teorias e por contradições de vários tipos de especulação filosófica, elas ficam com aversão ou raiva e concluem estupidamente que não existe causa suprema e que tudo é vazio ultimamente. Pessoas assim estão em uma condição doentia de vida. Algumas pessoas são muito apegadas materialmente e por isso não dão atenção à vida espiritual, algumas delas querem se fundir na causa espiritual suprema, e outras delas desacreditam de tudo, com raiva de todos tipos de especulação espiritual por causa do desespero. Este último tipo de pessoa recorre ao abrigo de algum tipo de intoxicação, e suas alucinações afetadas às vezes são aceitas como visões espirituais. A pessoa tem que se livrar de todos os três estágios de apego pelo mundo material, negligência da vida espiritual, medo da identidade espiritual pessoal, e o conceito de vazio que baseia a frustração da vida. Para se livrar desses três estágios do conceito de vida material, a pessoa tem que se abrigar plenamente no Senhor, guiada pelo mestre espiritual fidedigno, e seguir as disciplinas e princípios reguladores da vida devocional. O último estágio da vida devocional se chama bhava, ou amor transcendental por Deus.

Segundo o Bhakti-rasamrita-sindhu (1.4.15-16), a ciência do serviço devocional:

adau sraddha tatah sadhu-sango 'tha bhajana-kriya
tato 'nartha-nivrttih syat tato nistha rucis tatah

athasaktis tato bhavas tatah premabhyudancati
sadhakanam ayam premnah pradurbhave bhavet kramah

"No começo, a pessoa deve ter um desejo preliminar de auto-realização. Isso a levará ao estágio de tentar se associar com pessoas que são elevadas espiritualmente. No próximo estágio, a pessoa se torna iniciada por um mestre espiritual elevado, e sob sua instrução, o devoto neófito começa o processo de serviço devocional. Pela execução do serviço devocional sob a guia do mestre espiritual, a pessoa se torna livre de todo apego material, alcança a constância na auto-realização, e adquire um gosto por ouvir sobre a Personalidade de Deus Absoluta, Sri Krishna. Esse gosto conduz a pessoa adiante para o apego pela Consciência de Krishna, que amadurece em bhava, ou estágio preliminar de amor transcendental por Deus. Amor real por Deus se chama prema, o estágio de perfeição mais elevado da vida". No estágio de prema, há uma dedicação constante ao serviço amoroso transcendental do Senhor. Assim, pelo processo brando do serviço devocional, sob a guia do mestre espiritual fidedigno, a pessoa pode alcançar o estágio mais elevado, livre de todo apego material, de todo medo da personalidade espiritual individual, e das frustrações resultantes da filosofia do vazio. Então a pessoa pode alcançar ultimamente a morada do Supremo Senhor.

Verso 11

ye yatha mam prapadyante
tams tathaiva bhajamy aham
mama vartmanuvartante
manusyah partha sarvasah

Tradução

Todas elas; na medida em que se rendem a Mim; Eu recompenso de acordo. Todos seguem Meu caminho em todos aspectos, ó filho de Pritha.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Todos procuram por Krishna em diferentes aspectos de Suas manifestações. Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, é realizado parcialmente em Seu brilho brahmajyoti impessoal e como a Superalma todo-penetrante que habita dentro de tudo, inclusive as partículas dos átomos. Mas Krishna só é realizado plenamente por Seus devotos puros. Por conseguinte, Krishna é o objeto da realização de todos, e assim qualquer um e cada um é satisfeito de acordo com seu próprio desejo de tê-Lo. No mundo transcendental também, Krishna reciproca com Seus devotos puros na atitude transcendental, justamente como o devoto O quer. Um devoto pode querer Krishna como o mestre supremo, outro como seu amigo pessoal, outro como seu filho, e outro ainda como seu amante. Krishna recompensa todos devotos igualmente, de acordo com suas diferentes intensidades de amor por Ele. No mundo material, as mesmas reciprocidades de sentimentos existem, e são igualmente compartilhadas pelo Senhor com os diferentes tipos de adoradores. Os devotos puros tanto aqui quanto na morada transcendental se associam com Ele em pessoa e são capazes de prestar serviço pessoal ao Senhor e assim obtêm bem-aventurança transcendental em Seu serviço amoroso. Para os que são impersonalistas e querem cometer suicídio espiritual com a aniquilação da existência individual do ser vivo, Krishna também ajuda por absorvê-los em Seu brilho. Esses impersonalistas não concordam em aceitar a Personalidade de Deus bem-aventurada e eterna; por conseguinte, não podem saborear a bem-aventurança do serviço pessoal transcendental ao Senhor, porque extinguiram sua individualidade. Alguns deles, que não estão nem mesmo situados na existência impessoal, retornam a este campo material para exibir seus desejos por atividades adormecidos. Não são admitidos nos planetas espirituais, mas recebem uma nova chance de atuarem nos planetas materiais. Para os trabalhadores lucrativos, o Senhor concede os resultados desejados de seus deveres prescritos, como o yajñesvara; e os que são yogis que procuram poderes místicos, são recompensados com esses poderes. Em outras palavras, todos são dependentes para o sucesso de Sua misericórdia somente, e todos tipos de processos espirituais são apenas diferentes degraus de sucesso no mesmo caminho. A menos, portanto, que a pessoa chegue à perfeição máxima da Consciência de Krishna, todas tentativas permanecem imperfeitas, como o Srimad Bhagavatam (2.3.10) afirma:

akamah sarva-kamo va
moksa-kama udara-dhih
tivrena bhakti-yogena
yajeta purusam param

"Se a pessoa for sem desejo (a condição dos devotos), ou desejar todos resultados lucrativos, ou estiver atrás de liberação, deve com todos esforços tentar adorar a Suprema Personalidade de Deus para a perfeição completa, que culmina na Consciência de Krishna".

Verso 12

kanksantah karmanam siddhim
yajanta iha devatah
ksipram hi manuse loke
siddhir bhavati karma-ja

Tradução

Pessoas neste mundo desejam sucesso nas atividades lucrativas, e por isso adoram os semideuses. Rapidamente, é claro, obtêm os resultados do trabalho lucrativo neste mundo.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Existe um grande equívoco sobre deuses ou semideuses neste mundo material, e pessoas com menos inteligência, apesar de passarem por grandes eruditos, aceitam esses semideuses como várias formas do Supremo Senhor. Realmente, os semideuses não são formas diferentes de Deus, mas são partes e parcelas diferentes de Deus. Deus é um, e as partes e parcelas são muitas. Os Vedas afirmam: nityo nityanam: Deus é um. isvarah paramah krsnah. O Deus Supremo é um, Krishna, e os semideuses são delegados com poderes para administrar este mundo material. Esses semideuses são todos seres vivos (nityanam) com vários graus de poder material. Não podem ser iguais ao Deus Supremo; Narayana, Vishnu, ou Krishna. Qualquer um que pensa que Deus e os semideuses estão no mesmo nível se chama ateísta, ou pashandi. Mesmo grandes semideuses como Brahma e Shiva não podem ser comparados ao Supremo Senhor. De fato, o Senhor é adorado por semideuses como Brahma e Shiva (siva-virinci-nutam). Mesmo assim, de forma bem curiosa, existem líderes humanos que são adorados por pessoas tolas sob a má interpretação do antropomorfismo e zoomorfismo. iha devatah indica uma pessoa poderosa ou semideus neste mundo material. Mas Narayana, Vishnu, ou Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, não pertence a este mundo. Ele está acima, ou transcendental, da criação material. Mesmo Sripada Shankaracharya, o líder dos impersonalistas, suporta que Narayana, ou Krishna, está além desta criação material. Entretanto, pessoas tolas (hrta-jnana) adoram os semideuses porque querem os resultados imediatos. Elas obtêm os resultados, mas não sabem que os resultados assim obtidos são temporários e destinados a pessoas menos inteligentes. A pessoa inteligente está em Consciência de Krishna, e não tem necessidade de adorar os semideuses triviais por algum benefício imediato e temporário. Os semideuses deste mundo material, bem como seus adoradores, desaparecerão com a aniquilação deste mundo material. As bênçãos dos semideuses são materiais e temporárias. Tanto o mundo material quanto seus habitantes, inclusive os semideuses, e seus adoradores, são bolhas no oceano cósmico. Neste mundo material, entretanto, a sociedade humana está louca atrás de coisas temporárias como opulência material da posse de terra, família e parafernália desfrutável. Para conseguir essas coisas temporárias, adoram os semideuses ou pessoas poderosas na sociedade humana. Se alguém consegue um ministério no governo por adorar um líder político, considera que alcançou uma grande graça. Todos portanto reverenciam os assim chamados líderes ou "pistolões" a fim de receber bênçãos temporárias, e realmente conseguem tais coisas. Tais pessoas tolas não estão interessadas na Consciência de Krishna para a solução permanente das dificuldades da existência material. Todas estão atrás do desfrute sensual, e para obter alguma pequena facilidade para o desfrute sensual, sentem atração por adorar seres vivos poderosos conhecidos como semideuses. Este verso indica que as pessoas são raramente interessadas na Consciência de Krishna. Elas são mais interessadas no desfrute material, e por isso adoram algum ser vivo poderoso.

Verso 13

catur-varnyam maya srstam
guna-karma-vibhagasah
tasya kartaram api mam
viddhy akartaram avyayam

Tradução

As quatro divisões da sociedade humana foram criadas por Mim de acordo com os três modos da natureza material e o trabalho designado a eles. E, apesar de Eu ser o criador desse sistema, você deve saber que ainda assim Eu sou o não-executor, pois sou imutável.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O Senhor é o criador de tudo. Tudo nasce Dele, tudo é sustentado por Ele, e tudo, depois da aniquilação, repousa Nele. Ele é portanto o criador das quatro divisões da ordem social, a começar pela classe de pessoas inteligentes, tecnicamente chamadas de brahmanas por estarem situadas no modo da bondade. Depois vem a classe administrativa, tecnicamente chamada de kshatriyas por estarem situadas no modo da paixão. Os comerciantes, chamados vaishyas, estão situados nos modos misturados da paixão e ignorância, e os shudras, ou classe operária, estão situados no modo ignorante da natureza material. Apesar de ter criado as quatro divisões da sociedade humana, o Senhor Krishna não pertence a nenhuma dessas divisões, porque Ele não é uma das almas condicionadas, das quais uma seção forma a sociedade humana. Sociedade humana é similar a qualquer sociedade animal, mas a fim de elevar os humanos do status animal, as quatro divisões mencionadas acima foram criadas pelo Senhor para o desenvolvimento sistemático da Consciência de Krishna. A tendência de uma pessoa em particular em direção ao trabalho é determinada pelos modos da natureza material que ela adquiriu. Esses sintomas de vida, de acordo com os diferentes modos da natureza material, são descritos no Capítulo Dezoito deste livro. Uma pessoa em Consciência de Krishna, entretanto, está acima até dos brahmanas, porque um brahmana por qualidade é obrigado a saber sobre Brahman, a Verdade Absoluta Suprema. A maioria deles se aproxima da manifestação do Brahman impessoal do Senhor Krishna, mas só quem transcende o conhecimento limitado de um brahmana e alcança o conhecimento sobre a Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, torna-se uma pessoa em Consciência de Krishna; ou, em outras palavras, um Vaishnava. Consciência de Krishna inclui conhecimento de todas várias expansões plenárias de Krishna, chamadas Rama, Nrisimha, Varaha, etc.. Entretanto, como Krishna é transcendental a esse sistema de quatro divisões da sociedade humana, a pessoa em Consciência de Krishna também é transcendental a todas divisões da sociedade humana, mesmo se considerarmos as divisões de comunidade, nação ou espécie.

Verso 14

na mam karmani limpanti
na me karma-phale sprha
iti mam yo 'bhijanati
karmabhir na sa badhyate

Tradução

Não existe nenhum trabalho que Me afete; nem Eu aspiro pelos frutos da ação. Quem entende essa verdade sobre Mim também não se torna enredado nas reações lucrativas do trabalho.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Do mesmo modo como existem leis constitucionais no mundo material com afirmação de que o rei não pode errar, ou que o rei não está sujeito às leis do estado, similarmente o Senhor, apesar de ser o criador deste mundo material, não é afetado pelas atividades do mundo material. Ele cria e permanece à distância da criação, enquanto os seres vivos ficam enredados nos resultados lucrativos das atividades materiais por causa de sua propensão a dominar os recursos materiais. O proprietário de um estabelecimento não é responsável pelas atividades certas ou erradas dos trabalhadores, porém os trabalhadores são responsáveis por si mesmos. Os seres vivos estão dedicados a suas respectivas atividades para o prazer sensual, e essas atividades não são ordenadas pelo Senhor. Para o avanço do prazer sensual, os seres vivos estão dedicados ao trabalho neste mundo, e aspiram a felicidade celestial depois da morte. O Senhor, como é satisfeito em Si mesmo, não tem atração pela dita felicidade celestial. Os semideuses celestiais são apenas Seus servos dedicados. O proprietário nunca deseja a felicidade de grau inferior como os empregados podem desejar. Ele está além das ações e reações materiais. Por exemplo, as chuvas não são responsáveis pelos diferentes tipos de vegetação que aparecem na terra, apesar de sem essas chuvas não ser possível a vegetação crescer. O smriti Védico confirma esse fato como se segue:

nimitta-matram evasau
srjyanam sarga-karmani
pradhana-karani-bhuta
yato vai srjya-saktayah

"Nas criações materiais, o Senhor é a única causa suprema. A causa imediata é a natureza material pela qual a manifestação cósmica é visível". Os seres criados são de muitas variedades, como semideuses, seres humanos e animais inferiores, e todos eles estão sujeitos às reações de suas atividades passadas boas ou más. O Senhor apenas dá a eles as facilidades adequadas para essas atividades e os regulamentos dos modos da natureza, mas Ele nunca é responsável pelas atividades passadas e presentes deles. O Vedanta-sutra (2.1.34) confirma, vaisamya-nairghrnye na sapeksatvat: O Senhor nunca é parcial com qualquer ser vivo. O ser vivo é responsável por seus próprios atos. O Senhor só dá e ele facilidades, através da agência da natureza material, a energia externa. Qualquer pessoa plenamente versada em todas complexidades dessa lei do karma, ou atividades lucrativas, não se torna afetada pelos resultados de suas atividades. Em outras palavras, quem entende essa natureza transcendental do Senhor, é uma pessoa experiente em Consciência de Krishna, e por isso nunca é sujeita às leis do karma. Quem não conhece a natureza transcendental do Senhor e pensa que as atividades do Senhor são destinadas a resultados lucrativos, como as atividades dos seres vivos ordinários, com certeza se torna enredada em reação lucrativa. Quem conhece a Verdade Suprema é uma alma liberada fixa em Consciência de Krishna.

Verso 15

evam jnatva krtam karma
purvair api mumuksubhih
kuru karmaiva tasmat tvam
purvaih purvataram krtam

Tradução

Todas almas liberadas desde tempos antigos agiram com essa compreensão e assim alcançaram liberação. Portanto, como os antigos, você deve cumprir seu dever com essa consciência divina.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Existem duas classes de pessoas. Algumas delas estão cheias de coisas materiais poluídas em seus corações, e algumas delas são livres materialmente. Consciência de Krishna é igualmente benéfica para essas duas pessoas. Aquelas que são cheias de coisas sujas podem adotar a linha da Consciência de Krishna para um processo gradual de limpeza, por seguirem os princípios reguladores do serviço devocional. Aquelas que já estão limpas das impurezas podem continuar a agir na mesma Consciência de Krishna para que outras possam seguir suas atividades exemplares e assim serem beneficiadas. Pessoas tolas ou principiantes na Consciência de Krishna freqüentemente querem se retirar das atividades sem terem conhecimento sobre a Consciência de Krishna. O desejo de Arjuna para se retirar do campo de batalha não foi aprovado pelo Senhor. A pessoa só tem que saber como agir. Retirar-se das atividades da Consciência de Krishna e permanecer distante para fazer uma exibição de Consciência de Krishna, é menos importante do que se dedicar à causa de Krishna no campo das atividades. Arjuna recebe o conselho aqui para agir em Consciência de Krishna, por seguir os passos dos discípulos prévios do Senhor, tais como o deus do Sol Vivasvan, como mencionado antes. O Supremo Senhor conhece todas Suas atividades passadas, bem como as pessoas que agiram em Consciência de Krishna no passado. Por isso que Ele recomenda os atos do deus do Sol, que aprendeu esta arte do Senhor alguns milhões de anos antes. Todos esses alunos do Senhor são mencionados aqui como pessoas liberadas do passado, dedicadas ao cumprimento dos deveres designados por Krishna.

Verso 16

kim karma kim akarmeti
kavayo 'py atra mohitah
tat te karma pravaksyami
yaj jnatva moksyase 'subhat

Tradução

Mesmo a pessoa inteligente fica confusa para determinar o que é ação e o que é inação. Agora, Eu vou explicar a você o que é ação e com esse conhecimento, será liberado de todos pecados.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Ação em Consciência de Krishna tem que ser executada de acordo com os exemplos dos devotos fidedignos anteriores. Isso é recomendado no verso 15. Por que essa ação não deve ser independente será explicado no texto a seguir.

Para agir em Consciência de Krishna, a pessoa tem que seguir a liderança de pessoas autorizadas que estão em uma linha de sucessão discipular como foi explicado no começo deste capítulo. O sistema da Consciência de Krishna foi narrado primeiro ao deus do Sol, o deus do Sol explicou a seu filho Manu, Manu explicou para seu filho Iksvaku, e o sistema circula nesta Terra desde esse tempo remoto. Assim, a pessoa tem que seguir os passos das autoridades prévias na linha de sucessão discipular. Senão, mesmo as pessoas mais inteligentes ficarão confusas sobre o padrão das ações em Consciência de Krishna. Por esse motivo, o Senhor decidiu instruir Arjuna sobre a Consciência de Krishna diretamente. Por causa da instrução direta do Senhor para Arjuna, qualquer um que siga os passos de Arjuna com certeza não ficará confuso.

É dito que uma pessoa não pode determinar os caminhos da religião simplesmente com conhecimento experimental imperfeito. Na realidade, os princípios da religião só podem ser estabelecidos pelo Senhor em pessoa. dharmam tu saksad bhagavat-pranitam (Bhag. 6.3.19). Ninguém pode manufaturar um princípio religioso com especulação imperfeita. Deve-se seguir os passos de grandes autoridades como Brahma, Shiva, Narada, Manu, os Kumaras, Kapila, Prahlada, Bhisma, Shukadeva Goswami, Yamaraja, Janaka, Bali Maharaja, etc.. Por meio da especulação mental, não se pode apurar o que é religião ou auto-realização. Portanto, devido à misericórdia sem causa por Seus devotos, o Senhor explica diretamente para Arjuna o que é ação e o que é inação. Somente a ação em Consciência de Krishna pode liberar a pessoa do enredamento da existência material.

Verso 17

karmano hy api boddhavyam
boddhavyam ca vikarmanah
akarmanas ca boddhavyam
gahana karmano gatih

Tradução

As complexidades da ação são muito difíceis de entender. Assim, a pessoa tem que saber propriamente o que é ação, o que é ação proibida, e o que é inação.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Se a pessoa for séria sobre liberação do cativeiro material, tem que entender as distinções entre ação, inação e ações desautorizadas. A pessoa tem que se aplicar nessa análise sobre ação, reação e ações pervertidas porque é uma matéria muito difícil. Para entender Consciência de Krishna e ação de acordo com os modos, a pessoa tem que aprender sua relação com o Supremo, i. e., quem aprendeu perfeitamente sabe que todo ser vivo é um servente eterno do Senhor e por conseguinte tem que agir em Consciência de Krishna. O Bhagavad-gita inteiro é direcionado a essa conclusão. Quaisquer outras conclusões, contra essa consciência e suas reações concomitantes, são vikarmas, ou ações proibidas. Para entender tudo isso, a pessoa tem que se associar a autoridades da Consciência de Krishna e aprender o segredo com elas; isso é tão bom quanto aprender diretamente do Senhor. Senão, mesmo a pessoa mais inteligente ficará confusa.

Verso 18

karmany akarma yah pasyed
akarmani ca karma yah
sa buddhiman manusyesu
sa yuktah krtsna-karma-krt

Tradução

Aquele que vê inação na ação, e ação na inação, é inteligente entre as pessoas, e está na posição transcendental, apesar de dedicado a todos tipos de atividades.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Uma pessoa que age em Consciência de Krishna está naturalmente livre das algemas do karma. Todas suas atividades são realizadas para Krishna; por isso, não desfruta ou sofre quaisquer efeitos do trabalho. Por conseguinte, é inteligente na sociedade humana, mesmo se estiver ocupada em todos tipos de atividades para Krishna. Akarma significa sem reação do trabalho. Os impersonalistas cessam as atividades lucrativas por medo, para que a ação resultante não seja um obstáculo no caminho da auto-realização, mas o personalista sabe muito bem sua posição como servente eterno da Suprema Personalidade de Deus. Assim se dedica às atividades da Consciência de Krishna. Porque tudo é feito para Krishna, ele desfruta somente a felicidade transcendental no cumprimento de seu serviço. Aqueles que estão dedicados nesse processo são conhecidos como sem desejo por desfrute sensual pessoal. O senso de servidão eterna a Krishna torna a pessoa imune a todos tipos de elementos reacionários do trabalho.

Verso 19

yasya sarve samarambhah
kama-sankalpa-varjitah
jnanagni-dagdha-karmanam
tam ahuh panditam budhah

Tradução

A pessoa é considerada como situada em pleno conhecimento quando cada ação sua é desprovida de desejo por desfrute sensual. Os sábios afirmam que é um trabalhador cuja ação lucrativa é queimada pelo fogo do conhecimento perfeito.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Somente a pessoa com pleno conhecimento pode entender as atividades da pessoa em Consciência de Krishna. Porque a pessoa em Consciência de Krishna é desprovida de todos tipos de propensões para o desfrute sensual, compreende-se que queimou as reações de seu trabalho com conhecimento perfeito sobre sua posição constitucional como servente eterna da Suprema Personalidade de Deus. É verdadeiramente sábio quem alcançou tal perfeição de conhecimento. Desenvolvimento desse conhecimento da servidão eterna ao Senhor é comparado ao fogo. Esse fogo, depois de aceso, pode queimar todos tipos de reações do trabalho.

Verso 20

tyaktva karma-phalasangam
nitya-trpto nirasrayah
karmany abhipravrtto 'pi
naiva kincit karoti sah

Tradução

Com o abandono de todo apego por resultados de suas atividades, sempre satisfeita e independente, ela realiza nenhuma ação lucrativa, apesar de dedicada a todos tipos de empreendimentos.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Essa liberdade do cativeiro das ações só é possível em Consciência de Krishna quando a pessoa faz tudo para Krishna. Uma pessoa consciente de Krishna age somente com amor puro pela Suprema Personalidade de Deus, e assim não tem atração pelos resultados da ação. Não tem apego nem mesmo por sua manutenção pessoal, porque tudo é deixado para Krishna. Nem tem ansiedade por assegurar as coisas, nem proteger as coisas que já estão em sua posse. Ela cumpre seu dever com o melhor de sua habilidade e deixa tudo para Krishna. Essa pessoa desapegada está sempre livre das ações resultantes de bem e mal; e é como se não fizesse nada. Esse é o sinal de akarma, ou ações sem resultados lucrativos. Qualquer outra ação, portanto, desprovida de Consciência de Krishna, prende o trabalhador, e esse é o aspecto real de vikarma, como explicado anteriormente.

Verso 21

nirasir yata-cittatma
tyakta-sarva-parigrahah
sariram kevalam karma
kurvan napnoti kilbisam

Tradução

Tal pessoa com discernimento age com mente e inteligência perfeitamente controladas, abandona todo senso de propriedade sobre suas posses e age somente para as necessidades básicas da vida. Por meio desse trabalho, ela não é afetada por reações pecaminosas.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A pessoa consciente de Krishna não espera resultados bons ou maus de suas atividades. Sua mente e inteligência estão plenamente controladas. Ela sabe que porque é parte e parcela do Supremo e portanto a parte por ela atuada, como uma parte e parcela do todo, não é por sua escolha mas escolhida para ela pelo Supremo e feita somente por meio da agência Dele. Quando a mão se move, não se move por sua livre vontade, mas pelo esforço do corpo inteiro. A pessoa consciente de Krishna está sempre encaixada no desejo supremo, não tem desejo por desfrute sensual pessoal. Move-se exatamente como a parte de uma máquina. Do mesmo modo como uma parte da máquina necessita de lubrificação e limpeza para manutenção, similarmente, a pessoa consciente de Krishna se mantém com seu trabalho, justamente para permanecer adequada à ação no serviço amoroso transcendental do Senhor. Ela é portanto imune a todas reações de seus empenhos. Como um animal, ela não tem propriedade até mesmo de seu próprio corpo. Um proprietário cruel de animal às vezes mata o animal de sua propriedade, mesmo assim o animal não protesta. Nem tem independência verdadeira. A pessoa consciente de Krishna, plenamente dedicada à auto-realização, tem muito pouco tempo para possuir falsamente qualquer objeto material. Para a manutenção do corpo e alma, ela não precisa de meios injustos para acumular dinheiro. Assim, ela não se torna contaminada por esses pecados materiais. Ela está livre de todas reações de suas ações.

Verso 22

yadrccha-labha-santusto
dvandvatito vimatsarah
samah siddhav asiddhau ca
krtvapi na nibadhyate

Tradução

Aquele que fica satisfeito com o ganho que vem por espontânea vontade, que está livre da dualidade e não inveja, que é firme tanto no sucesso quanto no fracasso, nunca se enreda, mesmo ao realizar ações.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Uma pessoa consciente de Krishna não faz muito esforço mesmo para manter seu corpo. Ela fica satisfeita com os ganhos obtidos por espontânea vontade. Ela não mendiga nem pede emprestado, mas trabalha honestamente na medida de sua força, e fica satisfeita com o que é obtido pelo trabalho honesto. Ela é portanto independente em sua subsistência. Ela não permite o serviço de ninguém para obstruir seu serviço pessoal em Consciência de Krishna. Entretanto, para o serviço do Senhor, pode participar de qualquer tipo de ação sem ficar perturbada pela dualidade do mundo material. A dualidade do mundo material é sentida em termos de calor e frio, ou sofrimento e felicidade. Uma pessoa em Consciência de Krishna está acima da dualidade porque não hesita em agir de qualquer forma para a satisfação de Krishna. Por isso é firme tanto no sucesso quanto no fracasso. Esses sinais são visíveis quando a pessoa está plenamente em conhecimento transcendental.

Verso 23

gata-sangasya muktasya
jnanavasthita-cetasah
yajnayacaratah karma
samagram praviliyate

Tradução

O trabalho da pessoa que é desapegada dos modos da natureza material e que está plenamente situada em conhecimento transcendental se funde inteiramente na transcendência.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Ao se tornar plenamente consciente de Krishna, a pessoa é liberada de todas dualidades e assim fica livre das contaminações dos modos materiais. Ela pode se tornar liberada porque conhece sua posição constitucional em relação a Krishna; e assim sua mente não pode arrastá-la da Consciência de Krishna. Por conseguinte, tudo que faz, ela faz para Krishna que é o Vishnu primordial. Portanto, todos seus trabalhos são tecnicamente sacrifícios porque sacrifício envolve a satisfação da Pessoa Suprema, Krishna. As ações resultantes de todo esse trabalho certamente se fundem na transcendência, e a pessoa não sofre efeitos materiais.

Verso 24

brahmarpanam brahma havir
brahmagnau brahmana hutam
brahmaiva tena gantavyam
brahma-karma-samadhina

Tradução

Uma pessoa que está plenamente absorta na Consciência de Krishna com certeza alcança o reino espiritual por causa de sua contribuição completa para atividades espirituais, nas quais a consumação é absoluta e o que se oferece é da mesma natureza espiritual.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Como as atividades em Consciência de Krishna podem conduzir a pessoa ultimamente ao objetivo espiritual é descrito aqui. Existem várias atividades em Consciência de Krishna, e todas elas serão descritas nos versos seguintes. Uma alma condicionada, enredada na contaminação material, com certeza age na atmosfera material, e ainda tem que sair desse ambiente. O processo pelo qual a pessoa pode sair da atmosfera material é Consciência de Krishna. Por exemplo, um paciente que sofre de um desarranjo intestinal causado pelo consumo excessivo de produtos lácteos é curado com outro produto do leite, chamado coalhada. A alma condicionada absorta materialmente pode ser curada com Consciência de Krishna como exposto aqui no Gita. Esse processo é geralmente conhecido como yajña, ou atividades (sacrifícios) destinadas unicamente à satisfação de Vishnu, ou Krishna. Quanto mais as atividades do mundo material são realizadas em Consciência de Krishna, ou para Vishnu somente, mais a atmosfera se torna espiritualizada pela absorção completa. Brahman quer dizer espiritual. O Senhor é espiritual, e os raios de Seu corpo transcendental são chamados brahmajyoti, Seu esplendor espiritual. Tudo que existe está situado no brahmajyoti, mas quando o jyoti fica coberto pela ilusão (maya) ou desfrute sensual, chama-se material. Esse véu material pode ser removido imediatamente pela Consciência de Krishna; assim, o oferecimento destinado à Consciência de Krishna, o agente consumidor dessa oferenda ou contribuição, o processo de consumação, o contribuinte, e o resultado; todos combinados; são Brahman, ou a Verdade Absoluta. A Verdade Absoluta coberta por maya se chama matéria. Matéria encaixada na causa da Verdade Absoluta recobra sua qualidade espiritual. Consciência de Krishna é o processo de conversão da consciência ilusória em Brahman, ou Supremo. Quando a mente fica plenamente absorta em Consciência de Krishna, é dito que está em samadhi, ou transe. Qualquer coisa feita nesse estado de consciência se chama yajña, ou sacrifício para o Absoluto. Nessa condição de consciência espiritual, o contribuinte, a contribuição, a consumação, o realizador ou líder da realização, e o resultado ou ganho último; tudo; torna-se uno com o Absoluto, o Brahman Supremo. Assim é o método da Consciência de Krishna.

Verso 25

daivam evapare yajnam
yoginah paryupasate
brahmagnav apare yajnam
yajnenaivopajuhvati

Tradução

Alguns yogis adoram perfeitamente os semideuses com a oferenda de vários sacrifícios a eles, e alguns deles oferecem sacrifícios ao fogo do Brahman Supremo.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Como foi descrito acima, uma pessoa dedicada à realização de deveres em Consciência de Krishna também é chamada yogi perfeito ou místico de primeira classe. Mas também existem outras, que realizam sacrifícios similares na adoração aos semideuses, e ainda há outras que sacrificam ao Brahman Supremo, ou o aspecto impessoal do Supremo Senhor. Assim existem diferentes tipos de sacrifício em termos de diferentes categorias. Essas categorias diferentes de sacrifício por diferentes tipos de realizadores só demarcam superficialmente variedades de sacrifício. Sacrifício de verdade significa satisfazer o Supremo Senhor, Vishnu, que também é conhecido como Yajña. Todas as diferentes variedades de sacrifício podem ser colocadas dentro de duas divisões primárias, chamadas sacrifício para posses mundanas e sacrifício em busca do conhecimento transcendental. Aqueles que estão em Consciência de Krishna sacrificam todas posses materiais para a satisfação do Supremo Senhor, enquanto outros, que querem alguma felicidade temporária, sacrificam suas posses materiais para a satisfação de semideuses como Indra, deus do Sol etc.. E outros, que são impersonalistas, sacrificam sua identidade com a fusão na existência do Brahman impessoal. Os semideuses são seres vivos poderosos indicados pelo Supremo Senhor para a manutenção e supervisão de todas funções materiais como aquecimento, água e luz do universo. Aqueles que se interessam por benefícios materiais adoram os semideuses com vários sacrifícios de acordo com os rituais Védicos. Eles são chamados bahv-isvara-vadi, ou crentes em muitos deuses. Mas outros, que adoram o aspecto impessoal da Verdade Absoluta e consideram as formas dos semideuses como temporárias, sacrificam seus egos individuais no fogo supremo e assim terminam suas existências individuais com a fusão na existência do Supremo. Esses impersonalistas gastam seu tempo em especulação filosófica para a compreensão da natureza transcendental do Supremo. Em outras palavras, os trabalhadores lucrativos sacrificam suas posses materiais para o desfrute material, enquanto os impersonalistas sacrificam suas designações materiais com a intenção de se fundirem na existência do Supremo. Para o impersonalista, o altar do fogo do sacrifício é o Brahman Supremo, e a oferenda é o eu consumido pelo fogo do Brahman. A pessoa consciente de Krishna, como Arjuna, entretanto, sacrifica tudo para a satisfação de Krishna, e assim todas suas posses materiais bem como seu próprio eu; tudo; é sacrificado para Krishna. Por isso, ela é o yogi de primeira classe; mas não perde sua existência individual.

Verso 26

srotradinindriyany anye
samyamagnisu juhvati
sabdadin visayan anya
indriyagnisu juhvati

Tradução

Alguns sacrificam o processo de ouvir e os sentidos no fogo da mente controlada, e outros sacrificam os objetos dos sentidos, como o som, no fogo do sacrifício.

Iluminação de Srila Prabhupada:

As quatro divisões da vida humana, a saber, o brahmachari, o grihastha, o vanaprastha, e o sannyasi, são todas destinadas a produzirem yogis perfeitos ou transcendentalistas. Como a vida humana não é destinada ao desfrute sensual como os animais, as quatro ordens da vida humana são organizadas para que a pessoa possa se tornar perfeita na vida espiritual. Os brahmacharis, ou estudantes sob o cuidado de um mestre espiritual fidedigno, controlam a mente com a abstenção do desfrute sensual. Eles são referidos neste verso como os que sacrificam o processo de ouvir e os sentidos no fogo da mente controlada. Um brahmachari só ouve palavras em relação com a Consciência de Krishna; ouvir é o princípio básico para o entendimento, e por isso o brahmachari puro se dedica plenamente a harer namanukirtanam, cantar e ouvir as glórias do Senhor. Ele evita as vibrações de sons materiais, e sua audição está dedicada à vibração sonora transcendental de Hare Krishna, Hare Krishna. Similarmente, os chefes de família, que têm alguma licença para o desfrute sensual, realizam esses atos com muita restrição. Vida sexual, intoxicação e comer carne são tendências gerais da sociedade humana, mas um chefe de família controlado não se entrega à vida sexual irrestrita e outros desfrutes sensuais. Por isso que o casamento com princípios da vida religiosa é corrente em toda sociedade humana civilizada porque esse é o caminho para a vida sexual controlada. Essa vida sexual controlada e desapegada também é um tipo de yajña porque o chefe de família controlado sacrifica sua tendência geral em direção ao desfrute sensual para a vida transcendental superior.

Verso 27

sarvanindriya-karmani
prana-karmani capare
atma-samyama-yogagnau
juhvati jnana-dipite

Tradução

Aqueles que são interessados em auto-realização, em termos do controle da mente e sentidos, oferecem as funções de todos sentidos, bem como a força vital (respiração), como oblações ao fogo da mente controlada.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O sistema de yoga concebido por Patañjali é mencionado aqui. No Yoga-sutra de Patañjali, a alma é chamada de pratyag-atma e parag-atma. Enquanto a alma estiver apegada ao desfrute sensual, é chamada parag-atma. A alma está sujeita às funções dos dez tipos de ar que funcionam dentro do corpo, e isso se percebe pelo sistema respiratório. O sistema de yoga de Patañjali instrui a pessoa sobre como controlar as funções do ar do corpo de forma técnica para que ultimamente as funções do ar interior se tornem favoráveis para a purificação da alma do apego material. Segundo esse sistema de yoga, pratyag-atma é a meta última. Esse pratyag-atma é a retirada das atividades na matéria. Os sentidos interagem com os objetos sensuais, como ouvido para audição, olhos para visão, nariz para olfato, língua para paladar, mão para tato, e todos eles ficam assim dedicados a atividades fora do eu. São chamadas de funções do prana-vayu. O apana-vayu vai para baixo, vyana-vayu age para comprimir e expandir, samana-vayu ajusta o equilíbrio, udana-vayu vai para cima; e quando a pessoa é iluminada, dedica tudo isso à busca pela auto-realização.

Verso 28

dravya-yajnas tapo-yajna
yoga-yajnas tathapare
svadhyaya-jnana-yajnas ca
yatayah samsita-vratah

Tradução

Existem outros, iluminados pelo sacrifício de suas posses materiais em severas austeridades, que aceitam votos estritos e praticam o yoga do misticismo óctuplo. E outros estudam os Vedas para o avanço no conhecimento transcendental.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Esses sacrifícios podem ser ajustados em várias divisões. Existem pessoas que sacrificam suas posses na forma de vários tipos de caridades. Na Índia, a classe mercantil rica ou ordens principescas abrem vários tipos de instituições de caridade como dharmashala, anna-kshetra, atithi-shala, anathalaya, vidya-pitha, etc.. Também em outros países, existem muitos hospitais, lares para idosos e fundações de caridade similares destinadas à distribuição de comida, educação e tratamento médico de graça para os pobres. Todas atividades de caridade se chamam dravyamaya-yajña. Existem outros que, para elevação superior da vida ou para a promoção aos planetas superiores do universo, aceitam voluntariamente muitos tipos de austeridades como chandrayana e chaturmasya. Esses processos impõem votos severos para a condução da vida sob certas regras rígidas. Por exemplo, no voto de chaturmasya, o candidato não se barbeia por quatro meses por ano (julho a outubro), não come certos alimentos, não come duas vezes por dia e não sai de casa. Esse sacrifício dos confortos da vida se chama tapomaya-yajña. Ainda existem outros que se dedicam a vários tipos de yogas místicos como o sistema Patañjali (para perfeições específicas). E alguns viajam aos locais santificados de peregrinação. Todas essas práticas se chamam yoga-yajña, sacrifício por um certo tipo de perfeição no mundo material. Existem outros que se dedicam ao estudo de diferentes literaturas Védicas, especialmente os Upanishads e Vedanta-sutras, ou a filosofia Sankhya. Tudo isso se chama swadhyaya-yajña, ou dedicação ao sacrifício dos estudos. Todos esses yogis se dedicam fervorosamente a vários tipos de sacrifício e buscam um status superior de vida. Consciência de Krishna, entretanto, é diferente disso porque é o serviço direto ao Supremo Senhor. Consciência de Krishna não pode ser obtida por nenhum dos tipos de sacrifícios mencionados acima porém pode ser alcançada somente pela misericórdia do Senhor e de Seu devoto fidedigno. Portanto, Consciência de Krishna é transcendental.

Verso 29

apane juhvati pranam
prane 'panam tathapare
pranapana-gati ruddhva
pranayama-parayanah
apare niyataharah
pranan pranesu juhvati

Tradução

Existem outros ainda que têm inclinação para o processo de restrição da respiração para permanecerem em transe, e praticam a parada do movimento da respiração que sai dentro da que entra, e da respiração que entra dentro da que sai, e assim no fim permanecem em transe, com a parada de toda a respiração. Alguns deles, reduzem o processo de alimentação, e oferecem a respiração que sai dentro do eu, como um sacrifício.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O sistema de yoga para controlar o processo de respiração se chama pranayama, e no começo, é praticado no sistema de hata-yoga por meio de várias posturas sentadas. Todos esses processos são recomendados para o controle dos sentidos e para o avanço na realização espiritual. Essa prática envolve o controle do ar dentro do corpo para habilitar a passagem simultânea em direções opostas. O ar apana vai para baixo, e o ar prana vai para cima. O pranayama-yogi pratica respiração no caminho oposto até que as correntes se neutralizem no puraka, equilíbrio. Similarmente, quando a respiração exalada é oferecida à respiração inalada, chama-se rechaka. Quando ambas correntes são paradas completamente, chama-se kumbhaka-yoga. Com a prática de kumbhaka-yoga, os yogis incrementam a duração de vida muitas e muitas vezes. Uma pessoa consciente de Krishna, entretanto, como está sempre situada no serviço amoroso transcendental ao Senhor, torna-se automaticamente a controladora dos sentidos. Seus sentidos, sempre dedicados ao serviço de Krishna, não têm chance de ficarem ocupados de outra forma. Assim, no fim da vida, ela é transferida naturalmente ao plano transcendental do Senhor Krishna; por conseguinte, não faz nenhuma tentativa para aumentar sua longevidade. Ele é elevada de uma vez para a plataforma da liberação. Uma pessoa consciente de Krishna começa no estágio transcendental, e é constante nessa consciência. Por isso, não existe queda, e finalmente ela entra na morada do Senhor sem demora. A prática de reduzir a alimentação é feita automaticamente quando a pessoa come só krishna-prasadam, ou alimento que foi oferecido primeiro ao Senhor. Redução do processo de alimentação é muito útil na matéria do controle sensual. E sem controle sensual não existe possibilidade de sair do enredamento material.

Verso 30

sarve 'py ete yajna-vido
yajna-ksapita-kalmasah
yajna-sistamrta-bhujo
yanti brahma sanatanam

Tradução

Todos esses executores que conhecem o significado do sacrifício se tornam limpos da reação pecaminosa, e, como saborearam o néctar dos resultados desse sacrifício, vão para a atmosfera eterna suprema.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Descobrimos na explicação anterior sobre diferentes tipos de sacrifício (a saber, sacrifício das posses pessoais, estudo do Vedas ou doutrinas filosóficas, e realização do sistema de yoga) que o objetivo comum de todos é o controle dos sentidos. Desfrute sensual é a causa raiz da existência material; portanto, a menos e até que a pessoa esteja situada na plataforma à parte do desfrute sensual, não há chance de se elevar à plataforma eterna de conhecimento pleno, bem-aventurança plena e vida plena. Essa plataforma é a atmosfera eterna, ou atmosfera Brahman. Todos sacrifícios mencionados acima ajudam a pessoa a ficar limpa das reações pecaminosas da existência material. Com esse avanço na vida, a pessoa não apenas se torna feliz e opulenta nesta vida, como também no fim, ele entra no reino eterno de Deus, tanto na fusão dentro do Brahman impessoal quanto na associação com a Suprema Personalidade de Deus, Krishna.

Verso 31

nayam loko 'sty ayajnasya
kuto 'nyah kuru-sattama

Tradução

Ó melhor da dinastia Kuru, sem sacrifício a pessoa nunca pode viver feliz neste planeta ou nesta vida; o que dizer na próxima?

Iluminação de Srila Prabhupada:

Seja qual for a forma de existência material que a pessoa esteja, ela é invariavelmente ignorante sobre sua situação real. Em outras palavras, existência no mundo material é devido às múltiplas reações de nossas vidas pecaminosas. Ignorância é a causa da vida pecaminosa, e vida pecaminosa é a causa da pessoa ser arrastada para a existência material. A forma humana de vida é a única saída pela qual a pessoa pode sair do enredamento. Os Vedas, portanto, dão a chance para que escapemos por indicar os caminhos da religião, conforto econômico, desfrute sensual regulado e, por último, o meio para sair da condição miserável inteiramente. O caminho da religião, ou os diferentes tipos de sacrifícios recomendados acima, resolve automaticamente nossos problemas econômicos. Com a realização de yajña, podemos ter comida suficiente, leite suficiente, etc.; mesmo se houver o dito aumento da população. Como o corpo está plenamente abastecido, naturalmente o próximo passo é satisfazer os sentidos. Os Vedas prescrevem, para isso, casamento sagrado para o desfrute sensual regulado. Dessa forma, a pessoa é elevada gradualmente à plataforma de alívio do cativeiro material, e a perfeição máxima da liberação é a associação com o Supremo Senhor. Perfeição se alcança com a realização de yajña (sacrifício), como descrito acima. Agora, se a pessoa não tem inclinação para realizar yajña de acordo com os Vedas, como pode esperar uma vida feliz? Existem diferentes graus de confortos materiais em vários planetas celestiais, e em todos casos, existe imensa felicidade para pessoas dedicadas a diferentes tipos de yajña. Mas o tipo mais elevado de felicidade que uma pessoa pode alcançar é ser promovida aos planetas espirituais com a prática da Consciência de Krishna. Uma vida de Consciência de Krishna é portanto a solução para todos problemas da existência material.

Verso 32

evam bahu-vidha yajna
vitata brahmano mukhe
karma-jan viddhi tan sarvan
evam jnatva vimoksyase

Tradução

Todos esses diferentes tipos de sacrifício são aprovados pelos Vedas, e todos eles nascem de diferentes tipos de trabalho. Por conhecê-los dessa forma, você será liberado.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Diferentes tipos de sacrifício, como discutido acima, são mencionados nos Vedas para servir a diferentes tipos de trabalhador. Porque as pessoas estão tão absortas no conceito corpóreo, esses sacrifícios são organizados para que a pessoa trabalhe ou com o corpo, a mente ou a inteligência. Mas todos eles são recomendados para trazer ultimamente a liberação do corpo. Isso é confirmado aqui pelo Senhor com Sua própria boca.

Verso 33

sreyan dravya-mayad yajnaj
jnana-yajnah parantapa
sarvam karmakhilam partha
jnane parisamapyate

Tradução

Ó castigador do inimigo, o sacrifício do conhecimento é maior do que o sacrifício das posses materiais. Ó filho de Pritha, depois de tudo, o sacrifício do trabalho culmina em conhecimento transcendental.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O propósito de todos sacrifícios é chegar ao status do conhecimento completo, depois, obter alívio das misérias materiais, e, ultimamente, dedicar-se ao serviço amoroso transcendental do Supremo Senhor (Consciência de Krishna). Entretanto, existe um mistério sobre todas essas diferentes atividades de sacrifício, a pessoa deve conhecer esse mistério. Sacrifícios às vezes assumem formas diferentes de acordo com a fé particular do executor. Quando a fé da pessoa alcança o estágio de conhecimento transcendental, o executor dos sacrifícios deve ser considerado mais avançado do que aqueles que simplesmente sacrificam posses materiais sem esse conhecimento, porque sem alcançar conhecimento, sacrifícios permanecem na plataforma material e não concedem benefício espiritual. Conhecimento verdadeiro culmina em Consciência de Krishna, o estágio mais elevado do conhecimento transcendental. Sem a elevação do conhecimento, sacrifícios são apenas atividades materiais. Quando, entretanto, elevam-se ao nível do conhecimento transcendental, todas essas atividades entram na plataforma espiritual. De acordo às diferenças de consciência, atividades de sacrifício às vezes se chamam karma-kanda, atividades lucrativas, e às vezes jñana-kanda, conhecimento em busca da verdade. É melhor quando o fim é conhecimento.

Verso 34

tad viddhi pranipatena
pariprasnena sevaya
upadeksyanti te jnanam
jnaninas tattva-darsinah

Tradução

Tente aprender a verdade exatamente por se aproximar de um mestre espiritual. Inquira dele com submissão e preste-lhe serviço. A alma auto-realizada pode lhe dar conhecimento porque ela vê a verdade.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O caminho da realização espiritual é sem dúvida difícil. Por isso o Senhor nos aconselha a nos aproximarmos de um mestre espiritual fidedigno na linha de sucessão discipular do próprio Senhor. Ninguém pode ser um mestre espiritual fidedigno sem seguir esse princípio da sucessão discipular. O Senhor é o mestre espiritual original, e uma pessoa na linha de sucessão discipular pode transferir a mensagem do Senhor como ela é para seu discípulo. Ninguém pode se realizar espiritualmente por manufaturar seu próprio processo, como é a moda dos pretensiosos tolos. O Bhagavatam (6.3.19) afirma, dharmam tu saksad bhagavat-pranitam, o caminho da religião é enunciado diretamente pelo Senhor. Portanto, especulação mental ou argumentação seca não pode ajudar a pessoa a progredir na vida espiritual. A pessoa tem que se aproximar de um mestre espiritual fidedigno para receber conhecimento. Esse mestre espiritual deve ser aceito com rendição plena, e a pessoa tem que servir o mestre espiritual como um servo trivial, sem prestígio falso. Satisfação do mestre espiritual auto-realizado é o segredo do avanço na vida espiritual. Perguntas e submissão constituem a combinação adequada para o entendimento espiritual. A menos que haja submissão e serviço, perguntas ao mestre espiritual sábio não farão efeito. A pessoa tem que ser capaz de passar no teste do mestre espiritual, e quando ele vê o desejo genuíno do discípulo, automaticamente abençoa o discípulo com o entendimento espiritual genuíno. Neste verso, tanto seguir cegamente quanto perguntas absurdas são condenados. A pessoa não deve apenas ouvir com submissão o mestre espiritual, mas também deve obter um entendimento claro dele, com submissão e serviço e perguntas. Um mestre espiritual genuíno por natureza é muito bondoso com seu discípulo. Assim, quando o aluno é submisso e sempre pronto a prestar serviço, a reciprocidade do conhecimento e perguntas se torna perfeita.

Verso 35

yaj jnatva na punar moham
evam yasyasi pandava
yena bhutany asesani
draksyasy atmany atho mayi

Tradução

E quando você aprender a verdade dessa forma, saberá que todos seres vivos são nada mais do que partes de Mim; e estão em Mim, e são Meus.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O resultado de receber conhecimento de uma alma auto-realizada, ou de quem conhece as coisas como elas são, é saber que todos seres vivos são partes e parcelas da Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna. O senso de uma existência separada de Krishna se chama maya (ma = não, ya = isto). Alguns pensam que não temos nada a ver com Krishna, que Krishna é apenas uma grande personalidade histórica e que o Absoluto é o Brahman impessoal. De fato, como o Bhagavad-gita afirma, esse Brahman impessoal é o brilho pessoal de Krishna. Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, é a causa de tudo. O Brahma-samhita afirma claramente que Krishna é a Suprema Personalidade de Deus, a causa de todas as causas. Mesmo as milhões de encarnações são somente Suas diferentes expansões. Similarmente, os seres vivos também são expansões de Krishna. Os filósofos Mayavadis pensam erroneamente que Krishna perde Sua própria existência separada em Suas muitas expansões. Esse pensamento é material por natureza. Temos experiência no mundo material que uma coisa, quando distribuída em fragmentos, perde sua identidade original. Mas os filósofos Mayavadis falham na compreensão de que absoluto significa que um mais um é igual a um, e que um menos um também é igual a um. Esse é o caso no mundo absoluto.

Devido à falta de conhecimento suficiente sobre a ciência absoluta, agora estamos cobertos pela ilusão, e por isso pensamos que somos separados de Krishna. Apesar de sermos partes separadas de Krishna, entretanto não somos diferentes Dele. A diferença corpórea dos seres vivos é maya, ou fato não real. Todos nós somos destinados a satisfazer Krishna. Somente por causa de maya, Arjuna pensou que o relacionamento corpóreo temporário com seus familiares era mais importante do que seu relacionamento eterno com Krishna. Todo o ensinamento do Gita é direcionado a esse fim: que um ser vivo, como Seu servidor eterno, não pode ser separado de Krishna, e que seu senso de ser uma identidade à parte de Krishna se chama maya. Os seres vivos, como partes e parcelas separadas do Supremo, têm um propósito a cumprir. Por esquecerem esse propósito, desde tempo imemorável, estão situados em diferentes corpos, como humanos, animais, semideuses, etc.. Essas diferenças corpóreas surgem do esquecimento do serviço transcendental ao Senhor. Mas quando a pessoa se dedica ao serviço transcendental por meio da Consciência de Krishna, torna-se imediatamente liberada desta ilusão. A pessoa só pode adquirir esse conhecimento puro do mestre espiritual fidedigno e assim evitar a desilusão de que o ser vivo é igual a Krishna. Conhecimento perfeito é que a Alma Suprema, Krishna, é o abrigo supremo de todos seres vivos, e abandonar esse abrigo, faz os seres vivos ficarem iludidos pela energia material, e imaginarem que têm identidade separada do Senhor. Assim, sob diferentes padrões de identidade material, tornam-se esquecidos de Krishna. Quando, entretanto, esses seres vivos iludidos se tornam situados na Consciência de Krishna, entende-se que estão no caminho da liberação, como confirmado no Bhagavatam (2.10.6): muktir hitvanyatha-rupam svarupena vyavasthitih. Liberação significa estar situado em sua posição constitucional como eterno servidor de Krishna (Consciência de Krishna).

Verso 36

api ced asi papebhyah
sarvebhyah papa-krt-tamah
sarvam jnana-plavenaiva
vrjinam santarisyasi

Tradução

Mesmo se você for considerado o maior pecador de todos pecadores, quando estiver situado no barco do conhecimento transcendental, será capaz de atravessar o oceano das misérias.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Entendimento correto sobre a posição constitucional da pessoa em relação a Krishna é tão bom que pode levantar a pessoa imediatamente da luta pela existência que acontece no oceano da ignorância. Este mundo material algumas vezes é considerado como um oceano de ignorância e outras vezes como uma floresta em chamas. No oceano, por mais hábil nadador que a pessoa seja, a luta pela existência é muito severa. Se alguém chega e levanta o nadador que se debate do oceano, é o maior salvador. Conhecimento perfeito, recebido da Suprema Personalidade de Deus, é o caminho da liberação. O barco da Consciência de Krishna é muito simples, mas ao mesmo tempo, o mais sublime.

Verso 37

yathaidhamsi samiddho 'gnir
bhasma-sat kurute 'rjuna
jnanagnih sarva-karmani
bhasma-sat kurute tatha

Tradução

Do mesmo modo como o fogo ardente transforma lenha em cinzas, ó Arjuna, o fogo do conhecimento queima em cinzas todas reações das atividades materiais.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Conhecimento perfeito sobre eu e Supereu e sua relação é comparado aqui ao fogo. O fogo não somente queima todas reações de atividades impiedosas, como também todas reações de atividades piedosas, e as transforma em cinzas. Existem muitos estágios de reação: reação na feitura, reação na frutificação, reação já alcançada, e reação a priori. Mas o conhecimento sobre a posição constitucional do ser vivo queima tudo em cinzas. Quando a pessoa está em conhecimento perfeito, todas reações, tanto a priori quanto a posteriori, são consumidas. Os Vedas afirmam (Brihad-aranyaka Upanishad 4.4.22), ubhe uhaivaisa ete taraty amrtah sadhv-asadhuni: "A pessoa supera ambas reações piedosas e impiedosas do trabalho".

Verso 38

na hi jnanena sadrsam
pavitram iha vidyate
tat svayam yoga-samsiddhah
kalenatmani vindati

Tradução

Neste mundo, não existe nada mais puro ou sublime do que conhecimento transcendental. Este conhecimento é o fruto maduro de todo o misticismo. E a pessoa que o alcançou desfruta o eu consigo mesma no devido curso do tempo.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Quando falamos de conhecimento transcendental, fazemos isso em termos de entendimento espiritual. Assim, não existe nada tão sublime e puro como conhecimento transcendental. Esse conhecimento é o fruto maduro do serviço devocional, e quando a pessoa está situada em conhecimento transcendental, não precisa procurar a paz em nenhum outro lugar, porque desfruta a paz dentro de si mesma. Em outras palavras, este conhecimento e paz culminam em Consciência de Krishna. Essa é a última palavra no Bhagavad-gita.

Verso 39

sraddhaval labhate jnanam
tat-parah samyatendriyah
jnanam labdhva param santim
acirenadhigacchati

Tradução

Uma pessoa sincera que está absorta no conhecimento transcendental e que domina seus sentidos obtém rapidamente a paz espiritual suprema.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Esse conhecimento em Consciência de Krishna pode ser alcançado por uma pessoa sincera que acredita firmemente em Krishna. Uma pessoa é chamada sincera se pensa que, simplesmente por agir em Consciência de Krishna, pode alcançar a perfeição mais elevada. Essa fé é obtida pelo cumprimento do serviço devocional, e por cantar Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare; Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare, que limpa o coração da pessoa de toda sujeira material. Mais e acima disso, a pessoa tem que controlar os sentidos. Uma pessoa que é fiel a Krishna e que controla os sentidos pode alcançar facilmente perfeição no conhecimento da Consciência de Krishna sem demora.

Verso 40

ajnas casraddadhanas ca
samsayatma vinasyati
nayam loko 'sti na paro
na sukham samsayatmanah

Tradução

Porém, pessoas ignorantes e sem fé que duvidam das escrituras reveladas não alcançam a consciência de Deus. Para a alma cética não existe felicidade nem neste mundo nem no próximo.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Entre muitas escrituras reveladas padrão e autorizadas, o Bhagavad-gita é a melhor. Pessoas que são quase como animais não têm fé nas escrituras reveladas, ou conhecimento sobre o padrão das escrituras reveladas; e algumas, mesmo se têm conhecimento, ou podem citar passagens, não têm fé verdadeira nessas palavras. E mesmo outras que têm fé nas escrituras como o Bhagavad-gita, não acreditam ou adoram a Personalidade de Deus, Sri Krishna. Essas pessoas não podem ter nenhuma permanência na Consciência de Krishna. Elas caem. De todas essas pessoas mencionadas acima, aquelas que não têm fé e sempre têm dúvidas não fazem nenhum progresso de jeito nenhum. Pessoas que não têm fé em Deus e em Sua palavra revelada não encontram nenhum bem neste mundo, nem no próximo. Não existe felicidade para elas de forma alguma. A pessoa deve portanto seguir os princípios das escrituras reveladas com fé e dessa forma ser elevada à plataforma do conhecimento. Somente este conhecimento ajudará a pessoa a ser promovida à plataforma transcendental do entendimento espiritual. Em outras palavras, pessoas duvidosas não têm status de forma alguma na emancipação espiritual. A pessoa tem que portanto seguir os passos dos grandes acharyas que estão na sucessão discipular e assim alcançar o sucesso.

Verso 41

yoga-sannyasta-karmanam
jnana-sanchinna-samsayam
atmavantam na karmani
nibadhnanti dhananjaya

Tradução

Portanto, a pessoa que renunciou os frutos de sua ação, cujas dúvidas são destruídas pelo conhecimento transcendental, e que está situada firmemente no eu, não fica presa a trabalhos, ó conquistador de riquezas.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A pessoa que segue a instrução do Gita, como ensinada pelo Senhor, a Personalidade de Deus em pessoa, torna-se livre de todas dúvidas pela graça do conhecimento transcendental. Como uma parte e parcela do Senhor, em Consciência de Krishna plena, ela já está estabelecida em autoconhecimento. Dessa forma, está sem dúvida acima do cativeiro da ação.

Verso 42

tasmad ajnana-sambhutam
hrt-stham jnanasinatmanah
chittvainam samsayam yogam
atisthottistha bharata

Tradução

Assim, as dúvidas que surgiram em seu coração por causa da ignorância devem ser cortadas com a arma do conhecimento. Armado com yoga, ó Bharata, levante-se e lute.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O sistema de yoga ensinado neste capítulo se chama sanatana-yoga, ou atividades eternas realizadas pelo ser vivo. Este yoga tem duas divisões de ações de sacrifício: uma se chama sacrifício das posses materiais pessoais, e a outra se chama conhecimento do eu, que é atividade espiritual pura. Se o sacrifício das posses materiais pessoais não estiver encaixado na realização espiritual, então esse sacrifício se torna material. Mas a pessoa que realiza esses sacrifícios com um objetivo espiritual, ou em serviço devocional, faz um sacrifício perfeito. Quando chegamos às atividades espirituais, vemos que também são dividas em duas: a saber, entendimento do próprio eu da pessoa (ou a posição constitucional da pessoa), e a verdade sobre a Suprema Personalidade de Deus. A pessoa que segue o caminho do Gita como ele é pode entender facilmente essas duas divisões importantes do conhecimento espiritual. Para ela, não há dificuldade em obter conhecimento perfeito do eu como parte e parcela do Senhor. E esse entendimento é benéfico para essa pessoa que entende facilmente as atividades transcendentais do Senhor. No começo deste capítulo, as atividades transcendentais do Senhor foram discutidas pelo Supremo Senhor em pessoa. A pessoa que não entende as instruções do Gita é sem fé, e deve ser considerada como quem mal utiliza a independência fragmentada concedida a ela pelo Senhor. Apesar dessas instruções, a pessoa que não entende a natureza real do Senhor como a eterna, bem-aventurada e plena de conhecimento Personalidade de Deus, é certamente o tolo número um. Ignorância pode ser removida com a aceitação gradual dos princípios da Consciência de Krishna. Consciência de Krishna é despertada por diferentes tipos de sacrifícios aos semideuses, pela prática de yoga místico, por penitência, pela doação de posses materiais, pelo estudo dos Vedas, e participar da instituição social chamada varnashrama-dharma. Tudo isso é conhecido como sacrifício, e todos eles se baseiam em ação regulada. Mas dentro de todas essas atividades, o fator importante é a auto-realização. A pessoa que procura esse objetivo é um estudante real do Bhagavad-gita, mas aquela que duvida da autoridade de Krishna retrocede. Todos são aconselhados portanto a estudarem o Bhagavad-gita, ou qualquer outra escritura, sob um mestre espiritual fidedigno, com serviço e rendição. Um mestre espiritual fidedigno está na sucessão discipular desde tempo eterno, e não desvia de forma alguma das instruções do Supremo Senhor como foram ensinadas milhões de anos atrás ao deus do Sol, de quem as instruções do Bhagavad-gita descenderam ao reino terrestre. Logo, deve-se seguir o caminho do Bhagavad-gita como ele é expresso no próprio Gita e tomar cuidado com pessoas auto-interessadas atrás de engrandecimento pessoal que desviam outros do caminho verdadeiro. O Senhor é definitivamente a pessoa suprema, e Suas atividades são transcendentais. Quem entende isso é uma pessoa liberada desde o começo de seu estudo do Gita.

 

Assim terminam os Significados Bhaktivedanta do Quarto Capítulo do Srimad Bhagavad-gita sobre a matéria do Conhecimento Transcendental.

 

 

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

Bhagavad-gita Como Ele É

(Original Sem "Correções")

de

Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya

 

Capítulo 5

Karma-yoga - Ação em Consciência de Krishna

 

Bhagavad-gita - Krishna instrui Arjuna

 

Verso 1

arjuna uvaca
sannyasam karmanam krsna
punar yogam ca samsasi
yac chreya etayor ekam
tan me bruhi su-niscitam

Tradução

Arjuna disse: Ó Krishna, primeiro Você me pede para renunciar o trabalho, e depois novamente Você me recomenda trabalho com devoção. Agora, diga-me por favor definitivamente qual dos dois é mais benéfico?

Iluminação de Srila Prabhupada:

Neste Quinto Capítulo do Bhagavad-gita, o Senhor diz que trabalho em serviço devocional é melhor do que a especulação mental. Serviço devocional é mais fácil do que o último; como é transcendental por natureza, livra a pessoa da reação. No Segundo Capítulo, conhecimento preliminar da alma e seu enredamento no corpo material foram explicados. Como sair deste cativeiro material por meio de buddhi-yoga, ou serviço devocional, também foi explicado lá. No Terceiro Capítulo, foi explicado que uma pessoa situada na plataforma do conhecimento não tem mais deveres a cumprir. E, no Quarto Capítulo, o Senhor disse a Arjuna que todos tipos de trabalho com sacrifício culminam em conhecimento. Entretanto, no fim do Quarto Capítulo, o Senhor aconselha Arjuna a despertar e lutar, situado em conhecimento perfeito. Portanto, com ênfase na importância tanto do trabalho em devoção quanto da inação em conhecimento, Krishna deixou Arjuna perplexo e confundiu sua determinação. Arjuna entende que renúncia em conhecimento envolve cessação de todos tipos trabalho realizado com atividades sensuais. Mas se a pessoa realiza trabalho em serviço devocional, então como o trabalho parou? Em outras palavras, ele pensa que sannyasa, ou renúncia em conhecimento, deve ser ao todo livre de todos tipos de atividade porque trabalho e renúncia parecem ser incompatíveis para ele. Parece que não entendeu que trabalho em conhecimento pleno é sem reação e assim é o mesmo que inação. Ele pergunta, portanto, se deve parar todo o trabalho, ou trabalhar com conhecimento pleno.

Verso 2

sri bhagavan uvaca
sannyasah karma-yogas ca
nihsreyasa-karav ubhau
tayos tu karma-sannyasat
karma-yogo visisyate

Tradução

O bem-aventurado Senhor disse: A renúncia do trabalho e trabalho em devoção são ambos bons para liberação. Mas, dos dois, trabalho em serviço devocional é melhor do que renúncia dos trabalhos.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Atividades lucrativas (que buscam o desfrute sensual) são causa de cativeiro material. Enquanto a pessoa estiver dedicada a atividades destinadas a incrementar o padrão do conforto corpóreo, é certo que transmigrará por diferentes tipos de corpos, a continuar dessa forma o cativeiro material perpetuamente. O Srimad Bhagavatam (5.5.4-6) confirma isso como se segue:

nunam pramattah kurute vikarma yad indriya-pritaya aprnoti
na sadhu manye yata atmano 'yam asann api klesa-da asa dehah

parabhavas tavad abodha-jato yavan na jijnasata atma-tattvam
yavat kriyas tavad idam mano vai karmatmakam yena sarira-bandhah

evam manah karma-vasam prayunkte avidyayatmany upadhiyamane
pritir na yavan mayi vasudeve na mucyate deha-yogena tavat

"As pessoas estão loucas atrás do desfrute sensual, e não sabem que este corpo atual, que é cheio de misérias, é um resultado das atividades lucrativas da pessoa no passado. Apesar deste corpo ser temporário, sempre causa problema para a pessoa de várias formas. Por isso que agir para o desfrute sensual não é bom. A pessoa é considerada como fracassada na vida enquanto não inquirir sobre sua verdadeira identidade. Enquanto não souber sua verdadeira identidade, tem que trabalhar por resultados lucrativos para desfrute sensual, enquanto a pessoa estiver absorta na consciência do desfrute sensual, terá que transmigrar de um corpo a outro. Apesar da mente estar absorta em atividades lucrativas e influenciada pela ignorância, a pessoa pode desenvolver um amor pelo serviço devocional a Vasudeva. Somente aí que pode ter a oportunidade de sair do cativeiro da existência material".

Portanto, jñana (ou conhecimento de que a pessoa não é o corpo material mas a alma espiritual) não é suficiente para liberação. A pessoa tem que agir no status da alma espiritual, senão não existe escapatória do cativeiro material. Ação em Consciência de Krishna, entretanto, não é ação na plataforma lucrativa. Atividades realizadas em conhecimento pleno fortalecem o avanço da pessoa no conhecimento real. Sem Consciência de Krishna, mera renúncia das atividades lucrativas não purifica o coração da alma condicionada de verdade. Mas ação em Consciência de Krishna ajuda a pessoa automaticamente a escapar do resultado da ação lucrativa para que não precise descender à plataforma material. Portanto, ação em Consciência de Krishna é sempre superior à renúncia, que sempre tem um risco de queda. Renúncia sem Consciência de Krishna é incompleta, como confirmado por Sri Rupa Goswami em seu Bhakti-rasamrita-sindhu (1.2.258):

prapancikataya buddhya hari-sambandhi-vastunah
mumuksubhih parityago vairagyam phalgu kathyate

"Renúncia feita por pessoas ávidas por alcançar a liberação das coisas que são relacionadas à Suprema Personalidade de Deus, apesar de serem materiais, é chamada de renúncia incompleta". Renúncia é completa quando tem conhecimento de que tudo na existência pertence ao Senhor e ninguém deve reivindicar a propriedade de nada. A pessoa tem que entender, de verdade, que nada pertence a alguém. Então onde está a questão da renúncia? Quem sabe que Krishna é o proprietário de tudo está situado em renúncia. Como tudo pertence a Krishna, tudo deve ser empregado no serviço a Krishna. Essa forma de ação perfeita em Consciência de Krishna é muito melhor do que qualquer quantidade de renúncia artificial feita por um sannyasi da escola Mayavadi.

Verso 3

jneyah sa nitya-sannyasi
yo na dvesti na kanksati
nirdvandvo hi maha-baho
sukham bandhat pramucyate

Tradução

Aquele que nem odeia nem deseja os frutos de suas atividades é conhecido como sempre renunciado. Tal pessoa, livre das dualidades, supera facilmente o cativeiro material e está plenamente liberada, ó Arjuna de braços poderosos.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A pessoa que é consciente de Krishna plenamente é sempre uma renunciante porque não sente nem ódio nem deseja os resultados de suas ações. Tal renunciante, dedicado ao serviço amoroso transcendental do Senhor, é plenamente qualificado no conhecimento porque sabe sua posição constitucional em sua relação com Krishna. Ela sabe muito bem que Krishna é o todo e que ela é parte e parcela de Krishna. Esse conhecimento é perfeito porque é correto qualitativamente e quantitativamente. O conceito de unidade com Krishna é incorreto porque a parte não pode ser igual ao todo. Conhecimento de que a pessoa é una em qualidade ainda assim diferente em quantidade é conhecimento transcendental correto que conduz a pessoa a se tornar plena em si mesma, sem ter nada para aspirar ou lamentar. Não existe dualidade em sua mente porque tudo que faz, faz para Krishna. Livre assim da plataforma das dualidades, ele é liberada; mesmo neste mundo material.

Verso 4

sankhya-yogau prthag balah
pravadanti na panditah
ekam apy asthitah samyag
ubhayor vindate phalam

Tradução

Somente ignorantes falam que serviço devocional (karma-yoga) é diferente do estudo analítico do mundo material (sankhya). Aqueles que são verdadeiramente instruídos dizem que quem se aplica bem em um desses caminhos alcança os resultados de ambos.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O objetivo do estudo analítico do mundo material é encontrar a alma da existência. A alma do mundo material é Vishnu, ou a Superalma. Serviço devocional ao Senhor inclui serviço à Superalma. Um processo é encontrar a raiz da árvore, e o outro é regar a raiz. O estudante verdadeiro de filosofia sankhya encontra a raiz do mundo material, Vishnu, e depois, em conhecimento perfeito, dedica-se ao serviço do Senhor. Portanto, em essência, não há diferença entre os dois porque o objetivo de ambos é Vishnu. Aqueles que não conhecem o fim último dizem que os propósitos de sankhya e karma-yoga não são os mesmos, mas quem é instruído conhece o objetivo unificado desses processos diferentes.

Verso 5

yat sankhyaih prapyate sthanam
tad yogair api gamyate
ekam sankhyam ca yogam ca
yah pasyati sa pasyati

Tradução

Quem sabe que a posição alcançada por meio do estudo analítico também pode ser alcançada pelo serviço devocional, e que portanto vê estudo analítico e serviço devocional no mesmo nível, vê as coisas como elas são.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O verdadeiro propósito da pesquisa filosófica é encontrar o objetivo último da vida. Como o objetivo último da vida é a auto-realização, não há diferença entre as conclusões alcançadas nos dois processos. Com a pesquisa filosófica de Sankhya, a pessoa chega à conclusão de que o ser vivo não é parte e parcela do mundo material mas do espírito supremo completo. Por conseguinte, a alma espiritual não tem nada a ver com o mundo material; suas ações devem ser em alguma relação com o Supremo. Quando age em Consciência de Krishna, está realmente em sua posição constitucional. No primeiro processo, Sankhya, a pessoa tem que se tornar desapegada da matéria, e no processo de yoga devocional, a pessoa tem que se apegar ao trabalho da Consciência de Krishna. De fato, ambos processos são o mesmo, apesar de superficialmente um processo parecer que envolve desapego e o outro processo parecer que envolve apego. Desapego da matéria e apego por Krishna são iguais e a mesma coisa.

Verso 6

sannyasas tu maha-baho
duhkham aptum ayogatah
yoga-yukto munir brahma
na cirenadhigacchati

Tradução

A mera renúncia de todas atividades sem dedicação ao serviço devocional do Senhor não pode tornar a pessoa feliz. Mas uma pessoa introspectiva dedicada ao serviço devocional pode alcançar o Supremo sem demora.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Existem duas classes de sannyasis, ou pessoas na ordem de vida renunciada. Os sannyasis Mayavadis estão dedicados ao estudo da filosofia Sankhya, enquanto os sannyasis Vaishnavas estão dedicados ao estudo da filosofia Bhagavatam, que dispõe o comentário apropriado sobre os Vedanta-sutras. Os sannyasis Mayavadis também estudam os Vedanta-sutras, mas usam seu próprio comentário, chamado Shariraka-bhashya, escrito por Shankaracharya. Os estudantes da escola Bhagavata estão dedicados ao serviço devocional do Senhor, de acordo com os regulamentos de pancharatriki, e assim os sannyasis Vaishnavas têm ocupações múltiplas no serviço transcendental do Senhor. Os sannyasis Vaishnavas não têm nada a ver com atividades materiais, mesmo assim realizam várias atividades em seu serviço devocional ao Senhor. Mas os sannyasis Mayavadis, dedicados aos estudos de Sankhya, Vedanta e especulação, não podem saborear o serviço transcendental do Senhor. Porque seus estudos se tornam muito tediosos, às vezes ficam cansados da especulação Brahman, e assim se abrigam no Bhagavatam sem entendimento adequado. Por conseguinte, seu estudo do Srimad Bhagavatam se torna enfadonho. Especulações secas e interpretações impessoais por meios artificiais são todos inúteis para os sannyasis Mayavadis. Os sannyasis Vaishnavas, que estão dedicados ao serviço devocional, são felizes no cumprimento de seus deveres transcendentais, e têm a garantia de no fim entrarem no reino de Deus. Os sannyasis Mayavadis às vezes caem do caminho da auto-realização e novamente entram nas atividades materiais de natureza filantrópica e altruísta, que não são nada mais do que ocupações materiais. Portanto, a conclusão é que quem está dedicado às atividades da Consciência de Krishna está mais bem situado do que sannyasis dedicados à simples especulação sobre o que é Brahman e o que não é Brahman, apesar de eles também chegarem à Consciência de Krishna, depois de muitos nascimentos.

Verso 7

yoga-yukto visuddhatma
vijitatma jitendriyah
sarva-bhutatma-bhutatma
kurvann api na lipyate

Tradução

A pessoa que trabalha em devoção, que é uma alma pura, e que controla sua mente e sentidos é querida por todos, e todos são queridos por ela. Apesar de trabalhar sempre, tal pessoa nunca fica enredada.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A pessoa que está no caminho da liberação por meio da Consciência de Krishna é muito querida por todos seres vivos, e todo ser vivo é querido para ela. Isso se deve à sua Consciência de Krishna. Essa pessoa não pode pensar em nenhum ser vivo como separado de Krishna, do mesmo modo como as folhas e galhos de uma árvore não são separados da árvore. Ela sabe muito bem que por regar a raiz da árvore, a água será distribuída para todas folhas e galhos, ou por suprir alimento ao estômago, a energia é distribuída automaticamente por todo o corpo. Porque a pessoa que trabalha em Consciência de Krishna é serva de todos, é muito querida por todos. E porque todos ficam satisfeitos com seu trabalho, ela é pura em consciência. Porque é pura em consciência, sua mente é plenamente controlada. E porque sua mente é controlada, seus sentidos também são controlados. Porque sua mente está sempre fixa em Krishna, não existe chance de se desviar de Krishna. Nem há chance de que dedicará seus sentidos em assuntos estranhos ao serviço de Krishna. Ela não gosta de ouvir nada exceto tópicos relacionados a Krishna; não gosta de comer nada que não foi oferecido a Krishna; e não gosta de ir a qualquer lugar se Krishna não estiver envolvido. Portanto, seus sentidos estão controlados. Uma pessoa com sentidos controlados não pode ser ofensiva com ninguém. Alguém pode perguntar, "Por que então Arjuna foi ofensivo com outros (na batalha)? Ele não estava em Consciência de Krishna"? Arjuna foi ofensivo somente superficialmente (como já foi explicado no Segundo Capítulo) porque todas pessoas reunidas no campo de batalha continuariam a viver individualmente, pois a alma não pode ser morta. Assim, espiritualmente, ninguém foi morto no campo de batalha em Kurukshetra. Somente suas roupas foram trocadas pela ordem de Krishna, que estava presente pessoalmente. Logo, Arjuna, quando lutava no campo de batalha em Kurukshetra, na realidade não lutava mesmo; ele simplesmente cumpria as ordens de Krishna em Consciência de Krishna plena. Uma pessoa assim nunca fica enredada nas reações do trabalho.

Versos 8-9

naiva kincit karomiti
yukto manyeta tattva-vit
pasyan srnvan sprsan jighrann
asnan gacchan svapan svasan

pralapan visrjan grhnann
unmisan nimisann api
indriyanindriyarthesu
vartanta iti dharayan

Tradução

Uma pessoa em consciência divina, apesar de ocupada em ver, ouvir, tocar, cheirar, comer, mover-se, dormir e respirar, sabe sempre em seu íntimo que na realidade não faz nada. Porque enquanto fala, evacua, recebe, abre ou fecha seus olhos, sabe sempre que somente os sentidos materiais estão ocupados com seus objetos e que ela está à parte deles.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Uma pessoa em Consciência de Krishna é pura em sua existência, e por conseguinte não tem nada a ver com qualquer trabalho que depende de cinco causas imediatas e remotas, o executor, o trabalho, a situação, o esforço e sorte. Isso porque está dedicada ao serviço amoroso transcendental de Krishna. Apesar de parecer agir com seu corpo e sentidos, está sempre consciente de sua posição verdadeira, que é a dedicação espiritual. Na consciência material, os sentidos estão dedicados ao desfrute sensual, mas na Consciência de Krishna, os sentidos estão dedicados à satisfação dos sentidos de Krishna. Portanto, a pessoa consciente de Krishna é sempre livre, mesmo se aparentar estar ocupada em coisas dos sentidos. Atividades como ver, ouvir, falar, evacuar etc. são ações dos sentidos destinadas ao trabalho. Uma pessoa consciente de Krishna nunca é afetada pelas ações dos sentidos. Ela não pode executar nenhum ato exceto no serviço ao Senhor porque sabe que é um servidor eterno do Senhor.

Verso 10

brahmany adhaya karmani
sangam tyaktva karoti yah
lipyate na sa papena
padma-patram ivambhasa

Tradução

A pessoa que cumpre seu dever sem apego, por render os resultados ao Deus Supremo, não é afetada pela ação pecaminosa, do mesmo modo como a pétala do lótus não é tocada pela água.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Aqui, brahmani significa em Consciência de Krishna. O mundo material é a manifestação da soma total dos três modos da natureza material, tecnicamente chamada de pradhana. Os hinos Védicos sarvam hy etad brahma (Mandukya Upanishad 2), tasmad etad brahma nama-rupam annam ca jayate (Mundaka Upanishad 1.2.10), e, no Bhagavad-gita (14.3), mama yonir mahad brahma, indicam que tudo no mundo material é manifestação de Brahman; e, apesar dos efeitos se manifestarem diferentemente, não são diferentes na causa. O Ishopanishad afirma que tudo está relacionado ao Brahman Supremo, ou Krishna, e assim tudo pertence a Ele unicamente. A pessoa que sabe perfeitamente que tudo pertence a Krishna, que Ele é o proprietário de tudo e que, portanto, tudo está dedicado ao serviço do Senhor, naturalmente não tem nada a ver com os resultados de suas atividades, seja virtuosa ou pecaminosa. Mesmo o próprio corpo material, como é um presente do Senhor para o cumprimento de um tipo de ação específica, pode ser dedicado à Consciência de Krishna. Está além da contaminação de reações pecaminosas, exatamente como a pétala de lótus, apesar de permanecer na água, não fica molhada. O Senhor também afirma no Gita (3.30), mayi sarvani karmani sannyasya: "Renuncie todos trabalhos para Mim (Krishna)". A conclusão é que uma pessoa sem Consciência de Krishna age de acordo com o conceito do corpo e sentidos materiais, mas a pessoa em Consciência de Krishna age de acordo com o conhecimento de que o corpo é propriedade de Krishna e deve portanto ser dedicado ao serviço de Krishna.

Verso 11

kayena manasa buddhya
kevalair indriyair api
yoginah karma kurvanti
sangam tyaktvatma-suddhaye

Tradução

Os yogis, que abandonam apego, agem com corpo, mente, inteligência, e mesmo com os sentidos, unicamente para o propósito da purificação.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Por agir em Consciência de Krishna para a satisfação dos sentidos de Krishna, qualquer ação, seja do corpo, mente, inteligência ou mesmo dos sentidos, fica purificada da contaminação material. Não há reações materiais resultantes das atividades de uma pessoa consciente de Krishna. Portanto, atividades purificadas, geralmente chamadas de sad-achara, podem ser realizadas facilmente pela ação em Consciência de Krishna. Sri Rupa Goswami descreve isso em seu Bhakti-rasamrita-sindhu (1.2.187):

iha yasya harer dasye karmana manasa gira
nikhilasv apy avasthasu jivan-muktah sa ucyate

"Uma pessoa que age em Consciência de Krishna (ou, em outras palavras, no serviço de Krishna) com seu corpo, mente, inteligência e palavras é uma pessoa liberada mesmo dentro deste mundo material, apesar de poder estar dedicada a tantas assim chamadas atividades materiais". Ela não tem ego falso, nem acredita que é este corpo material, nem que possui um corpo. Ela sabe que não é este corpo e que este corpo não pertence a ela. Ela pertence a Krishna na realidade, e o corpo também pertence a Krishna. Quando aplica tudo produzido pelo corpo, mente, inteligência, palavras, vida, riqueza etc.; qualquer coisa que tenha em sua posse; ao serviço de Krishna, está imediatamente encaixada em Krishna. Ela é una com Krishna e desprovida de ego falso que leva a pessoa a acreditar que é o corpo, etc.. Esse é o estágio perfeito da Consciência de Krishna.

Verso 12

yuktah karma-phalam tyaktva
santim apnoti naisthikim
ayuktah kama-karena
phale sakto nibadhyate

Tradução

A alma devotada constante alcança paz natural porque oferece o resultado de todas atividades para Mim; enquanto a pessoa que não está em união como o Divino, que é gananciosa pelos frutos de seu trabalho, torna-se enredada.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A diferença entre uma pessoa em Consciência de Krishna e uma pessoa na consciência corpórea é que a primeira está apegada a Krishna enquanto a última está apegada aos resultados de suas atividades. A pessoa que está apegada a Krishna e trabalha unicamente para Ele é com certeza uma pessoa liberada, e não está ansiosa pelas recompensas lucrativas. No Bhagavatam, a causa da ansiedade sobre o resultado de uma atividade é explicada como o funcionamento da pessoa no conceito de dualidade, isto é, sem conhecimento da Verdade Absoluta. Krishna é a Verdade Absoluta Suprema, a Personalidade de Deus. Na Consciência de Krishna, não existe dualidade. Tudo que existe é um produto da energia de Krishna, e Krishna é o bem completo. Portanto, atividades em Consciência de Krishna estão no plano absoluto; são transcendentais e não têm efeito material. Assim, a pessoa tem paz plena na Consciência de Krishna. Entretanto, a pessoa que está enredada no cálculo do lucro para desfrute sensual não tem paz. Este é o segredo da Consciência de Krishna; realização de que não há existência além de Krishna é a plataforma da paz e destemor.

Verso 13

sarva-karmani manasa
sannyasyaste sukham vasi
nava-dvare pure dehi
naiva kurvan na karayan

Tradução

Quando o ser vivo corporificado controla sua natureza e renuncia mentalmente a todas ações, reside feliz na cidade dos nove portões (o corpo material), sem trabalhar nem causar trabalho a ser feito.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A alma corporificada vive na cidade dos nove portões. As atividades do corpo, ou a cidade do corpo em sentido figurado, são conduzidas automaticamente pelos modos da natureza específicos. A alma, apesar de se sujeitar às condições do corpo, pode estar além dessas condições, se assim desejar. Devido unicamente ao esquecimento de sua natureza superior, identifica-se com o corpo material, e por isso sofre. Por meio da Consciência de Krishna, pode reviver sua posição real e então sair de sua corporificação. Portanto, quando a pessoa aceita a Consciência de Krishna, torna-se de imediato completamente indiferente às atividades corpóreas. Nessa vida controlada, na qual suas deliberações mudam, vive feliz dentro da cidade dos nove portões. Os nove portões são descritos como se segue:

nava-dvare pure dehi hamso lelayate bahih
vasi sarvasya lokasya sthavarasya carasya ca

"A Suprema Personalidade de Deus, que vive dentro do corpo de um ser vivo, é o controlador de todos seres vivos em todo o universo. O corpo consiste de nove portões (dois olhos, duas narinas, dois ouvidos, uma boca, o ânus e os órgãos genitais). O ser vivo em seu estágio condicionado se identifica com o corpo, mas quando se identifica com o Senhor dentro de si, torna-se tão livre quanto o Senhor, mesmo enquanto estiver dentro do corpo" (Swetasvatara Upanishad 3.18).

Portanto, uma pessoa consciente de Krishna é livre em ambas atividades externas e internas do corpo material.

Verso 14

na kartrtvam na karmani
lokasya srjati prabhuh
na karma-phala-samyogam
svabhavas tu pravartate

Tradução

O espírito corporificado, mestre da cidade do seu corpo, não cria atividades, nem induz pessoas a agirem, nem cria os frutos da ação. Todo isto é ordenado pelos modos da natureza material.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O ser vivo, como será explicado no Sétimo Capítulo, é uma das energias ou naturezas do Supremo Senhor mas é distinto da matéria, que é outra natureza; chamada inferior; do Senhor. De alguma forma, o ser vivo, está em contato com a natureza material desde tempo imemorável. O corpo material ou local de residência material que obtém é a causa de variedades de atividades e suas reações resultantes. Por viver nessa atmosfera condicionada, a pessoa sofre os resultados das atividades do corpo por causa da sua identificação com o corpo (em ignorância). É a ignorância adquirida desde tempo imemorável que é a causa do sofrimento e aflição corpóreos. Logo que o ser vivo se torna à parte das atividades do corpo, fica livre das reações também. Enquanto está na cidade do corpo, parece ser o mestre dele, mas na realidade não é nem o proprietário nem o controlador de suas ações e reações. Está apenas no meio do oceano material, na luta pela existência. As ondas do oceano o arremessam, e não tem controle sobre elas. A melhor solução para ele é sair da água por meio da Consciência de Krishna transcendental. Unicamente isto o salvará de todo distúrbio.

Verso 15

nadatte kasyacit papam
na caiva sukrtam vibhuh
ajnanenavrtam jnanam
tena muhyanti jantavah

Tradução

Nem o Supremo Senhor assume as atividades pecaminosas ou piedosas de alguém. Seres corporificados, entretanto, ficam confusos por causa da ignorância que cobre seu verdadeiro conhecimento.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A palavra sânscrita vibhu significa o Supremo Senhor que é pleno de conhecimento, riqueza, poder, fama, beleza e renúncia ilimitados. Ele está sempre satisfeito em Si mesmo, sem Se perturbar com atividades pecaminosas ou piedosas. Ele não cria uma situação particular para qualquer ser vivo, mas o ser vivo, confuso pela ignorância, deseja ser colocado em certas condições de vida, e por isso sua cadeia de ação e reação começa. Um ser vivo, por natureza superior, é pleno de conhecimento. Entretanto, é propenso a ser influenciado pela ignorância devido a seu poder limitado. O Senhor é onipotente, mas o ser vivo não é. O Senhor é vibhu ou onisciente, mas o ser vivo é anu, ou atômico. Porque é uma alma viva, tem a capacidade de desejar por sua livre vontade. Esse desejo é satisfeito somente pelo Senhor onipotente. Assim, quando o ser vivo fica confuso com seus desejos, o Senhor permite que satisfaça esses desejos, mas o Senhor nunca é responsável pelas ações e reações de uma situação particular que ele possa desejar. Na situação confusa, portanto, a alma corporificada se identifica com o corpo material circunstancial e fica sujeita a miséria e felicidade temporárias da vida. O Senhor é o companheiro constante do ser vivo como Paramatma, ou a Superalma, e por isso pode entender os desejos da alma individual, do mesmo modo como alguém pode sentir o aroma de uma flor quando está perto dela. Desejo é uma forma sutil de condicionamento do ser vivo. O Senhor satisfaz seu desejo da forma como merece: O homem propõe e Deus dispõe. O indivíduo, portanto, não é onipotente na satisfação de seus desejos. O Senhor, entretanto, pode satisfazer todos desejos, e o Senhor, como é neutro com todos, não interfere nos desejos dos minúsculos seres vivos independentes. Porém, quando a pessoa deseja Krishna, o Senhor toma cuidado especial e encoraja a pessoa para desejar de tal forma que possa alcançá-Lo e ser feliz eternamente. Assim, os hinos Védicos declaram:

esa u hy eva sadhu karma karayati tam yam ebhyo lokebhya unninisate.
esa u evasadhu karma karayati yam adho ninisate

ajno jantur aniso 'yam atmanah sukha-duhkhayoh
isvara-prerito gacchet svargam vasv abhram eva ca

"O Senhor ocupa o ser vivo em atividades piedosas para que possa se elevar. O Senhor o ocupa em atividades impiedosas para que possa ir para o inferno. O ser vivo é completamente dependente em sua aflição ou felicidade. Pela vontade do Supremo, pode ir para o céu ou inferno, do mesmo modo como uma nuvem é levada pelo ar" (Kausitaki Upanishad 3.8).

Assim, a alma corporificada, pelo seu desejo imemorável de evitar a Consciência de Krishna, causa sua própria confusão. Por conseguinte, apesar de ser eterna, bem-aventurada e ciente constitucionalmente, devido à pequenez de sua existência, esquece sua posição constitucional de serviço ao Senhor e assim fica presa pela ignorância. E, sob o encanto da ignorância, o ser vivo reclama que o Senhor é responsável por sua existência condicionada. Os Vedanta-sutras também confirma isto:

vaisamya-nairghrnye na sapeksatvat tatha hi darsayati

"O Senhor não odeia nem gosta de ninguém, apesar de aparentar fazer isso".

Verso 16

jnanena tu tad ajnanam
yesam nasitam atmanah
tesam aditya-vaj jnanam
prakasayati tat param

Tradução

Quando, entretanto, a pessoa se ilumina com o conhecimento pelo qual a ignorância é destruída, então seu conhecimento revela tudo, do mesmo modo como o Sol ilumina tudo durante o dia.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Aqueles que esqueceram Krishna devem com certeza estarem confusos, mas aqueles que estão em Consciência de Krishna não ficam confusos de jeito nenhum. O Bhagavad-gita afirma, sarvam jnana-plavena, jnanagnih sarva-karmani and na hi jnanena sadrsam. Conhecimento é sempre altamente estimado. E o que é esse conhecimento? Conhecimento perfeito é alcançado quando a pessoa se rende a Krishna, como é afirmado no Sétimo Capítulo, verso 19: bahunam janmanam ante jnanavan mam prapadyate. Depois de passar por muitos e muitos nascimentos, quando a pessoa perfeita em conhecimento se rende a Krishna, ou quando alcança Consciência de Krishna, então tudo é revelado para ela, como tudo é revelado pelo Sol durante o dia. O ser vivo está confuso de várias formas. Por exemplo, quando sem cerimônia pensa que é Deus, na realidade cai na última cilada da ignorância. Se um ser vivo é Deus, então como pode ficar confuso pela ignorância? Deus fica confuso com a ignorância? Se for assim, então ignorância, ou Satã, é maior do que Deus. Conhecimento real pode ser obtido de uma pessoa que está em Consciência de Krishna perfeita. Por isso, a pessoa tem que procurar tal mestre espiritual fidedigno e, sob a guia dele, aprender o que é Consciência de Krishna, porque Consciência de Krishna com certeza expulsará toda a ignorância, da mesma forma como o Sol expulsa a escuridão. Mesmo se a pessoa tiver conhecimento pleno de que não é este corpo mas é transcendental ao corpo, ainda assim não será capaz de discriminar entre a alma e a Superalma. Porém, pode saber tudo muito bem se cuidar em se abrigar no mestre espiritual consciente de Krishna perfeito. A pessoa pode conhecer Deus e sua relação com Deus somente quando encontra realmente um representante de Deus. Um representante de Deus nunca alega ser Deus, apesar de receber todo o respeito comumente prestado a Deus porque tem conhecimento sobre Deus. É preciso aprender a distinção entre Deus e o ser vivo. O Senhor Sri Krishna afirma portanto no Segundo Capítulo (2.12) que todo ser vivo é individual e que o Senhor também é individual. Todos eram individuais no passado, são individuais no presente, e continuarão a ser individuais no futuro, mesmo depois da liberação. Durante a noite, vemos tudo igual na escuridão, mas durante o dia, quando o Sol está no céu, vemos tudo com sua identidade real. Identidade com individualidade na vida espiritual é conhecimento verdadeiro.

Verso 17

tad-buddhayas tad-atmanas
tan-nisthas tat-parayanah
gacchanty apunar-avrttim
jnana-nirdhuta-kalmasah

Tradução

Quando a inteligência, mente, fé e refúgio da pessoa estão todos fixos no Supremo, então ela se torna plenamente limpa de receios devido ao conhecimento completo e assim prossegue direto no caminho da liberação.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A Verdade Suprema Transcendental é o Senhor Krishna. Todo o Bhagavad-gita se concentra em volta da declaração de que Krishna é a Suprema Personalidade de Deus. Essa é a versão de toda literatura Védica. Para-tattva significa a Realidade Suprema, que é entendida pelos conhecedores do Supremo como Brahman, Paramatma e Bhagavan. Bhagavan, ou a Suprema Personalidade de Deus, é a última palavra em matéria de absoluto. Não existe mais nada além disso. O Senhor diz, mattah parataram nanyat kincid asti dhananjaya. O Brahman impessoal também é sustentado por Krishna: brahmano hi pratisthaham. Portanto, de todas as formas, Krishna é a Realidade Suprema. A pessoa que tem mente, inteligência, fé e refúgio sempre em Krishna, ou em outras palavras, a pessoa em Consciência de Krishna plena, fica sem dúvida limpa de todos receios e está em conhecimento perfeito sobre tudo que diz respeito à transcendência. Uma pessoa consciente de Krishna pode entender perfeitamente que existe dualidade (identidade e individualidade simultaneamente) em Krishna, e, guarnecida com esse conhecimento transcendental, pode fazer progresso constante no caminho da liberação.

Verso 18

vidya-vinaya-sampanne
brahmane gavi hastini
suni caiva sva-pake ca
panditah sama-darsinah

Tradução

O sábio humilde, em virtude do conhecimento verdadeiro, vê com visão igual um brahmana erudito e bondoso, uma vaca, um elefante, um cachorro e um comedor de cachorro (pária).

Iluminação de Srila Prabhupada:

Uma pessoa consciente de Krishna não faz distinção entre espécies ou castas. O brahmana e o pária podem ser diferentes do ponto de vista social, ou um cão, uma vaca e um elefante podem ser diferentes do ponto de vista das espécies, mas essas diferenças de corpo são insignificantes do ponto de vista de um transcendentalista sábio. Isso se deve à sua relação com o Supremo, porque o Supremo Senhor, por meio de Sua porção plenária como Paramatma, está presente no coração de todos. Essa compreensão do Supremo é conhecimento real. No que diz respeito aos corpos em diferentes castas ou diferentes espécies de vida, o Senhor é igualmente bondoso com todos porque Ele trata todo ser vivo como um amigo ainda assim Se mantém como Paramatma sem levar em conta as circunstâncias dos seres vivos. O Senhor como Paramatma está presente tanto no pária quanto no brahmana, apesar do corpo de um brahmana e de um pária não serem iguais. Os corpos são produções materiais dos diferentes modos da natureza material, mas a alma e a Superalma dentro do corpo são da mesma qualidade espiritual. A similaridade na qualidade da alma e da Superalma, entretanto, não as faz iguais em quantidade, porque a alma individual está presente somente naquele corpo particular enquanto o Paramatma está presente em cada e todo corpo. Uma pessoa consciente de Krishna tem conhecimento pleno disso, e por isso é verdadeiramente sábia e possui visão equânime. As características similares da alma e da Superalma são que ambas são conscientes, eternas e bem-aventuradas. Mas a diferença é que a alma individual é consciente dentro da jurisdição limitada do corpo enquanto a Superalma é consciente de todos os corpos. A Superalma está presente em todos os corpos sem distinção.

Verso 19

ihaiva tair jitah sargo
yesam samye sthitam manah
nirdosam hi samam brahma
tasmad brahmani te sthitah

Tradução

Aqueles cujas mentes estão estabelecidas em igualdade e equanimidade já conquistaram as condições de nascimento e morte. São impecáveis como o Brahman, e assim estão situadas em Brahman.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Equanimidade da mente, como mencionado acima, é o sinal da auto-realização. Aqueles que realmente alcançaram esse estágio devem ser considerados como conquistadores das condições materiais, especificamente nascimento e morte. Enquanto a pessoa se identifica com este corpo, é considerada uma alma condicionada, mas logo que se eleva ao estágio de equanimidade por meio da realização do eu, é liberada da vida condicionada. Em outras palavras, não está mais sujeita a aceitar nascimento no mundo material mas pode entrar no céu espiritual depois de sua morte. O Senhor é perfeito porque não tem atração ou aversão. Similarmente, quando um ser vivo não tem atração ou aversão, também se torna perfeito e elegível para entrar no céu espiritual. Essas pessoas também devem ser consideradas liberadas, e seus sintomas são descritos a seguir.

Verso 20

na prahrsyet priyam prapya
nodvijet prapya capriyam
sthira-buddhir asammudho
brahma-vid brahmani sthitah

Tradução

A pessoa que não regozija ao conseguir algum prazer nem lamenta ao obter algo desagradável, que é auto-inteligente, que não se confunde, e que conhece a ciência de Deus, deve ser considerada como já situada em transcendência.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Os sintomas de uma pessoa auto-realizada são dados aqui. O primeiro sintoma é que não é iludida pela falsa identificação do corpo com seu eu verdadeiro. Sabe perfeitamente bem que não é este corpo, mas uma parte fragmentada da Suprema Personalidade de Deus. Assim, não fica alegre ao conseguir algo, nem lamenta ao perder qualquer coisa relacionada com seu corpo. Essa estabilidade mental se chama sthira-buddhi, ou auto-inteligência. Dessa forma, nunca fica desnorteada por confundir o corpo grosseiro com a alma, nem aceita o corpo como permanente e despreza a existência da alma. Este conhecimento a eleva ao estágio do conhecimento da ciência completa da Verdade Absoluta, chamada Brahman, Paramatma e Bhagavan. Portanto, ela conhece sua posição constitucional perfeitamente bem, sem tentar se tornar falsamente una com o Supremo em todos aspectos. Isso se chama realização Brahman, ou auto-realização. Essa consciência constante se chama Consciência de Krishna.

Verso 21

bahya-sparsesv asaktatma
vindaty atmani yat sukham
sa brahma-yoga-yuktatma
sukham aksayam asnute

Tradução

Tal pessoa liberada não tem atração pelo prazer sensual material ou objetos externos mas está sempre em transe, no desfrute do prazer interior. Dessa forma, a pessoa auto-realizada desfruta felicidade ilimitada, pois se concentra no Supremo.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Sri Yamunacharya, um grande devoto em Consciência de Krishna, afirma:

yad-avadhi mama cetah krsna-padaravinde
nava-nava-rasa-dhamany udyatam rantum asit
tad-avadhi bata nari-sangame smaryamane
bhavati mukha-vikarah susthu nisthivanam ca

"Desde que me dediquei ao serviço amoroso transcendental de Krishna, sempre a realizar um novo prazer Nele, quando penso em prazer sexual, cuspo no pensamento, e meus lábios torcem de desgosto". Uma pessoa em brahma-yoga, ou Consciência de Krishna, está tão absorta no serviço amoroso do Senhor que perde seu gosto pelo prazer sensual material completamente. O maior prazer em termos de matéria é o prazer sexual. O mundo inteiro se move sob esse encanto, e um materialista não pode trabalhar de jeito nenhum sem essa motivação. Mas uma pessoa dedicada à Consciência de Krishna pode trabalhar com muito mais vigor sem o prazer sexual, o qual evita. Esse é o teste da realização espiritual. Realização espiritual e prazer sexual vão mal juntos. Uma pessoa consciente de Krishna não tem atração por nenhum tipo de prazer sensual porque é uma alma liberada.

Verso 22

ye hi samsparsa-ja bhoga
duhkha-yonaya eva te
ady-antavantah kaunteya
na tesu ramate budhah

Tradução

Uma pessoa inteligente não participa das fontes de miséria, que acontecem devido ao contato com os sentidos materiais. Ó filho de Kunti, esses prazeres têm um começo e um fim, e por isso a pessoa inteligente não se deleita com eles.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Prazeres sensuais materiais são devidos ao contato com os sentidos materiais, os quais são todos temporários porque o próprio corpo é temporário. Uma alma liberada não tem interesse em qualquer coisa que é temporária. Como conhece bem as alegrias dos prazeres transcendentais, como pode uma alma liberada concordar em desfrutar o prazer falso? O Padma Purana afirma:

ramante yogino 'nante satyanande cid-atmani
iti rama-padenasau param brahmabhidhiyate

"Os místicos obtêm prazeres transcendentais ilimitados da Verdade Absoluta, e por isso a Suprema Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus, também é conhecida como Rama".

O Srimad Bhagavatam (5.5.1) também afirma:

nayam deho deha-bhajam nr-loke
kastan kaman arhate vid-bhujam ye
tapo divyam putraka yena sattvam
suddhyed yasmad brahma-saukhyam tv anantam

"Meus queridos filhos, não há motivo para trabalhar arduamente para o prazer sensual enquanto estiver nesta forma humana de vida; tais prazeres estão disponíveis para comedores de excremento (porcos). Em vez disso, vocês devem se submeter a penitências nesta vida com as quais serão purificados, e, em resultado, serão capazes de desfrutar a bem-aventurança transcendental ilimitada".

Portanto, aqueles que são yogis verdadeiros ou transcendentalistas sábios não têm atração pelos prazeres sensuais, os quais são as causas da existência material contínua. Quanto mais a pessoa tem atração pelos prazeres materiais, mais fica enredada nas misérias materiais.

Verso 23

saknotihaiva yah sodhum
prak sarira-vimoksanat
kama-krodhodbhavam vegam
sa yuktah sa sukhi narah

Tradução

Antes de abandonar este corpo presente, se a pessoa for capaz de tolerar os anseios dos sentidos materiais e deter a força do desejo e da ira, é um yogi e é feliz neste mundo.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Se a pessoa quiser fazer progresso constante no caminho da auto-realização, deve tentar controlar as forças dos sentidos materiais. Existem as forças da fala, forças da ira, forças da mente, forças do estômago, forças dos órgãos genitais, e forças da língua. A pessoa que for capaz de controlar as forças de todos esses sentidos diferentes, e a mente, chama-se goswami, ou swami. Tais goswamis vivem vidas controladas estritamente, e abandonam todas forças dos sentidos. Desejos materiais, quando insatisfeitos, geram ira, e então mente, olhos e tórax ficam agitados. Portanto, deve-se praticar o controle deles antes de deixar este corpo material. A pessoa que consegue fazer isso deve ser considerada como auto-realizada e assim feliz no estado de auto-realização. É dever do transcendentalista tentar seriamente controlar desejo e ira.

Verso 24

yo 'ntah-sukho 'ntar-aramas
tathantar-jyotir eva yah
sa yogi brahma-nirvanam
brahma-bhuto 'dhigacchati

Tradução

A pessoa cuja felicidade é interior, que é ativa interiormente, que regozija no íntimo e é iluminada interiormente, é na realidade o místico perfeito. Ela está liberada no Supremo, e ultimamente alcança o Supremo.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A menos que a pessoa seja capaz de saborear felicidade interiormente, como pode se retirar das ocupações externas destinadas a obter felicidade superficial? Uma pessoa liberada desfruta felicidade com experiência real. Ela pode, então, sentar-se silenciosamente em qualquer lugar e desfrutar as atividades da vida interiormente. Esse estado se chama brahma-bhuta, quando alcançado, a pessoa tem a garantia de voltar ao Supremo, de volta ao lar.

Verso 25

labhante brahma-nirvanam
rsayah ksina-kalmasah
chinna-dvaidha yatatmanah
sarva-bhuta-hite ratah

Tradução

Aquele que está além da dualidade e da dúvida, cuja mente está dedicada ao íntimo, que está sempre ocupado no trabalho pelo bem-estar de todos seres sensíveis, e que está livre de todos pecados, alcança liberação no Supremo.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Somente a pessoa que está plenamente em Consciência de Krishna pode ser considerada como dedicada ao trabalho de bem-estar para todos seres vivos. Quando a pessoa realmente tem conhecimento de que Krishna é a fonte original de tudo, então quando age com esse espírito, age para todos. Os sofrimentos da humanidade são devidos ao esquecimento de Krishna como o supremo desfrutador, o supremo proprietário, e o supremo amigo. Portanto, agir para reviver essa consciência dentro da sociedade humana inteira é o trabalho de bem-estar mais elevado. Ninguém pode estar dedicado ao trabalho de bem-estar de primeira classe sem ser liberado no Supremo. Uma pessoa consciente de Krishna não tem dúvida sobre a supremacia de Krishna. Não tem dúvida porque está completamente livre de todos pecados. Esse é o estado de amor divino. Uma pessoa dedicada apenas a administrar o bem-estar físico da sociedade humana não pode realmente ajudar alguém. Alívio temporário do corpo externo e da mente não é satisfatório. A causa verdadeira das dificuldades da pessoa na luta árdua pela vida pode ser encontrada no esquecimento de sua relação com o Supremo Senhor. Quando a pessoa tem plena consciência de sua relação com Krishna, é realmente uma alma liberada, apesar de que possa estar no tabernáculo material.

Verso 26

kama-krodha-vimuktanam
yatinam yata-cetasam
abhito brahma-nirvanam
vartate viditatmanam

Tradução

Aqueles que estão livres da ira e de todos desejos materiais, que são auto-realizados, autodisciplinados e se esforçam constantemente pela perfeição, têm garantia de liberação no Supremo no futuro próximo.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Entre as pessoas santas que se dedicam constantemente no empenho em direção à salvação, aquela que está em Consciência de Krishna é a melhor de todas. O Bhagavatam (4.22.39) confirma esse fato como se segue:

yat-pada-pankaja-palasa-vilasa-bhaktya
karmasayam grathitam udgrathayanti santah
tadvan na rikta-matayo yatayo 'pi ruddha-
sroto-ganas tam aranam bhaja vasudevam

"Simplesmente tente adorar, em serviço devocional, Vasudeva, a Suprema Personalidade de Deus. Mesmo grandes sábios não são capazes de controlar as forças dos sentidos com tanta eficácia como aqueles dedicados à bem-aventurança transcendental gerada pelo serviço aos pés de lótus do Senhor, que erradica o desejo profundamente desenvolvido por atividades lucrativas".

O desejo da alma condicionada de desfrutar resultados lucrativos do trabalho é tão profundamente arraigado que é muito difícil mesmo para grandes sábios controlar esses desejos, apesar de grandes empenhos. Um devoto do Senhor, constantemente dedicado ao serviço devocional em Consciência de Krishna, perfeito na auto-realização, alcança a liberação no Supremo muito rápido. Devido a seu conhecimento completo sobre auto-realização, permanece sempre em transe. Para citar um exemplo análogo:

darsana-dhyana-samsparsair
matsya-kurma-vihangamah
svany apatyani pusnanti
tathaham api padma-ja

"Pela visão, por meditação e pelo toque apenas, o peixe, a tartaruga e os pássaros mantêm sua prole. Similarmente, eu também, ó Padmaja"!

O peixe cria sua prole simplesmente por olhar para ela. A tartaruga cria sua prole simplesmente por meditar. Os ovos da tartaruga são postos na areia, e a tartaruga medita nos ovos enquanto está na água. Similarmente, um devoto em Consciência de Krishna, apesar de longe da morada do Senhor, pode se elevar até essa morada simplesmente por pensar Nele constantemente; pela dedicação à Consciência de Krishna. Ele não sente as dores das misérias materiais; esse estado de vida se chama brahma-nirvana, ou ausência de misérias materiais devido a estar constantemente absorto no Supremo.

Versos 27-28

sparsan krtva bahir bahyams
caksus caivantare bhruvoh
pranapanau samau krtva
nasabhyantara-carinau

yatendriya-mano-buddhir
munir moksa-parayanah
vigateccha-bhaya-krodho
yah sada mukta eva sah

Tradução

Ao fechar todos objetos sensuais externos, manter os olhos e a visão concentrados entre as duas sobrancelhas, suspender as respirações que entram e que saem dentro das narinas; assim com controle da mente, sentidos e inteligência, o transcendentalista fica livre de desejo, medo e ira. A pessoa que está sempre nesse estado é com certeza liberada.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Com a dedicação à Consciência de Krishna, a pessoa pode entender imediatamente sua identidade espiritual, e então pode entender o Supremo Senhor por meio do serviço devocional. Quando está bem situada no serviço devocional, chega à posição transcendental, qualificada para sentir a presença do Senhor na esfera de sua atividade. Essa posição específica se chama liberação no Supremo.

Depois de explicar os princípios acima sobre liberação no Supremo, o Senhor instrui Arjuna sobre como a pessoa pode chegar a essa posição com a prática do misticismo ou yoga, conhecido como astanga-yoga, que se divide em oito procedimentos chamados yama, niyama, asana, pranayama, pratyahara, dharana, dhyana e samadhi. A matéria sobre yoga será explicada em detalhes no Sexto Capítulo, e o final do Quinto dá uma explicação preliminar. A pessoa tem que eliminar os objetos sensuais como som, tato, forma, sabor e aroma por meio do processo de pratyahara (respiração) em yoga, e depois manter a visão dos olhos entre as duas sobrancelhas e se concentrar na ponta do nariz com as pálpebras semicerradas. Não há benefício em fechar os olhos completamente, porque há chance de cair no sono. Nem há benefício em deixar os olhos completamente abertos, porque tem o perigo de ser atraído pelos objetos sensuais. O movimento da respiração é restrito dentro das narinas com a neutralização do movimento do ar que sobe e que desce dentro do corpo. Com a prática desse yoga, a pessoa é capaz de controlar os sentidos, evitar os objetos sensuais externos, e assim se preparar para a liberação no Supremo.

Esse processo de yoga ajuda a pessoa a ficar livre de todos tipos de medo e ira, e assim sentir a presença da Superalma em situação transcendental. Em outras palavras, a Consciência de Krishna é o processo mais fácil de executar os princípios de yoga. Isso será bem explicado no próximo capítulo. Uma pessoa consciente de Krishna, entretanto, como está sempre dedicada ao serviço devocional, não se arrisca a perder seus sentidos em alguma outra ocupação. Essa é uma forma melhor de controlar os sentidos do que astanga-yoga.

Verso 29

bhoktaram yajna-tapasam
sarva-loka-mahesvaram
suhrdam sarva-bhutanam
jnatva mam santim rcchati

Tradução

Os sábios, que Me conhecem como o propósito último de todos sacrifícios e austeridades, o Supremo Senhor de todos planetas e semideuses e o benfeitor e benquerente de todos seres vivos, alcançam a paz das dores das misérias materiais.

Iluminação de Srila Prabhupada:

As almas condicionadas presas nas garras da energia ilusória estão extremamente ansiosas para obter a paz no mundo material. Mas não sabem a fórmula da paz, que é explicada nesta parte do Bhagavad-gita. A maior fórmula da paz é simplesmente esta: O Senhor Krishna é o beneficiário em todas atividades humanas. As pessoas devem oferecer tudo para o serviço transcendental do Senhor porque Ele é o proprietário de todos planetas e todos semideuses neles. Ninguém é maior do que Ele. Ele é maior do que o maior dos semideuses, Senhor Shiva e Senhor Brahma. O Supremo Senhor é descrito nos Vedas (Swetasvatara Upanishad 6.7) como tam isvaranam paramam mahesvaram. Sob o encanto da ilusão, os seres vivos tentam ser senhores de tudo que enxergam, mas na realidade são dominados pela energia material do Senhor. O Senhor é o mestre da natureza material, e as almas condicionadas estão sob as severas regras da natureza material. A menos que a pessoa entenda esses fatos básicos, não é possível obter a paz no mundo nem individualmente nem coletivamente. Assim é o sentido da Consciência de Krishna: O Senhor Krishna é o supremo predominante, e todos seres vivos, inclusive grandes semideuses, são Seus subordinados. A pessoa pode alcançar a paz perfeita somente em Consciência de Krishna completa.

Este Quinto Capítulo é uma explicação prática da Consciência de Krishna, geralmente conhecida como karma-yoga. A pergunta de especulação mental sobre como karma-yoga pode dar liberação é respondida aqui. Trabalhar em Consciência de Krishna é trabalhar com conhecimento pleno do Senhor como predominante. Esse trabalho não é diferente do conhecimento transcendental. Consciência de Krishna direta é bhakti-yoga, e jñana-yoga é um caminho que conduz a bhakti-yoga. Consciência de Krishna significa trabalhar com conhecimento pleno de Krishna, ou a Suprema Personalidade de Deus. Uma alma pura é servente eterna de Deus como sua parte e parcela fragmentada. Ela entra em contato com maya (ilusão) devido ao desejo de dominar maya, e essa é a causa de tantos sofrimentos. Enquanto estiver em contato com a matéria, tem que executar trabalho em termos das necessidades materiais. Consciência de Krishna, entretanto, traz a pessoa para a vida espiritual mesmo enquanto estiver na jurisdição da matéria, porque é uma elevação da existência espiritual pela prática no mundo material. Quanto mais a pessoa avança, mais fica livre das garras da matéria. O Senhor não é parcial com ninguém. Tudo depende do cumprimento prático dos deveres da pessoa com empenho para controlar os sentidos e conquistar a influência do desejo e da ira. E, depois de obter Consciência de Krishna com o controle das paixões mencionadas acima, a pessoa permanece realmente no estágio transcendental, ou brahma-nirvana. O misticismo do yoga óctuplo é automaticamente praticado na Consciência de Krishna porque o propósito último é servido. Existe um processo gradual de elevação na prática de yama, niyama, asana, pratyahara, dhyana, dharana, pranayama e samadhi. Mas isso serve apenas como preliminar da perfeição pelo serviço devocional, que unicamente pode conceder paz ao ser humano. É a perfeição máxima da vida.

 

Assim terminam os Significados Bhaktivedanta do Quinto Capítulo do Srimad Bhagavad-gita sobre a matéria de karma-yoga, ou Ação em Consciência de Krishna.

 

 

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

Bhagavad-gita Como Ele É

(Original Sem "Correções")

de

Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya

 

Capítulo 6

Sankhya-yoga

 

Bhagavad-gita - Krishna instrui Arjuna

 

Verso 1

sri bhagavan uvaca
anasritah karma-phalam
karyam karma karoti yah
sa sannyasi ca yogi ca
na niragnir na cakriyah

Tradução

O bem-aventurado Senhor disse: Aquele que é desapegado dos frutos de seu trabalho e que trabalha como é obrigado está na ordem de vida renunciada, e é o verdadeiro místico; não aquele que não acende nenhum fogo e não executa nenhum trabalho.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Neste capítulo, o Senhor explica que o processo do sistema óctuplo de yoga é um meio para controlar a mente e os sentidos. Entretanto, é muito difícil para as pessoas em geral realizarem, especialmente na Era de Kali. Apesar do sistema óctuplo de yoga ser recomendado neste capítulo, o Senhor enfatiza que o processo de karma-yoga, ou ação em Consciência de Krishna, é melhor. Todos agem neste mundo para a manutenção de sua família e sua parafernália, mas ninguém trabalha sem algum interesse pessoal, alguma satisfação pessoal, seja concentrada ou estendida. O critério da perfeição é agir em Consciência de Krishna, e não com o foco em desfrutar os frutos do trabalho. Agir em Consciência de Krishna é dever de todo ser vivo porque todos são constitucionalmente partes e parcelas do Supremo. As partes do corpo trabalham para a satisfação do todo completo. Similarmente, o ser vivo que age para a satisfação do todo supremo e não para a satisfação pessoal é o sannyasi perfeito, o yogi perfeito.

Os sannyasis às vezes pensam artificialmente que ficaram liberados de todos deveres materiais, e assim param de realizar agnihotra yajñas (sacrifícios de fogo), mas na realidade eles têm interesse pessoal porque seu objetivo é se tornar um com o Brahman impessoal. Esse desejo é maior do que qualquer desejo material, mas não é sem interesse pessoal. Similarmente, o yogi místico que pratica o sistema de yoga com os olhos semi-abertos, com a cessação de todas atividades materiais, deseja alguma satisfação para seu ego pessoal. Mas a pessoa que age em Consciência de Krishna trabalha para a satisfação do todo, sem interesse pessoal. Uma pessoa consciente de Krishna não tem desejo por auto-satisfação. Seu critério de sucesso é a satisfação de Krishna, e assim ela é o sannyasi perfeito, ou o yogi perfeito. O Senhor Chaitanya, símbolo mais elevado de perfeição da renúncia, ora desta forma:

na dhanam na janam na sundarim
kavitam va jagad-isa kamaye
mama janmani janmanisvare
bhavatad bhaktir ahaituki tvayi

"Ó Senhor todo-poderoso, não tenho desejo de acumular riqueza, ou de desfrutar de belas mulheres. Nem quero qualquer número de seguidores. Eu só quero a misericórdia sem causa do Seu serviço devocional na Minha vida, nascimento após nascimento".

Verso 2

yam sannyasam iti prahur
yogam tam viddhi pandava
na hy asannyasta-sankalpo
yogi bhavati kascana

Tradução

O que se chama renúncia é o mesmo que yoga, ou se unir com o Supremo, porque ninguém pode se tornar um yogi a menos que renuncie o desejo por desfrute sensual.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Verdadeiro sannyasa-yoga ou bhakti significa que a pessoa deve conhecer sua posição constitucional como ser vivo, e agir de acordo. O ser vivo não tem identidade independente separada. Ele é a energia marginal do Supremo. Quando está enredado na energia material, está condicionado, e quando é consciente de Krishna, ou ciente sobre a energia espiritual, então está em seu estado de vida real e natural. Portanto, quando a pessoa tem conhecimento completo, cessa todo o desfrute sensual material, ou renuncia todos tipos de atividades do desfrute sensual. Isso é praticado pelos yogis que contêm os sentidos do apego material. Mas a pessoa em Consciência de Krishna não tem oportunidade para dedicar seus sentidos em nada que não seja para o propósito de Krishna. Por isso, uma pessoa consciente de Krishna é simultaneamente um sannyasi e um yogi. O propósito do conhecimento e contenção dos sentidos, como prescritos nos processos de jñana e yoga, é cumprido automaticamente na Consciência de Krishna. Se a pessoa não for capaz de abandonar as atividades de sua natureza egoísta, então jñana e yoga não têm utilidade. O objetivo real é o ser vivo abandonar sua satisfação egoísta e estar preparado para satisfazer o Supremo. Uma pessoa consciente de Krishna não tem nenhum desejo por qualquer tipo de desfrute egoísta. Está sempre dedicada ao desfrute do Supremo. A pessoa que não tem informação sobre o Supremo deve portanto se dedicar à satisfação egoísta, porque ninguém pode permanecer na plataforma da inatividade. Todos propósitos são perfeitamente servidos pela prática da Consciência de Krishna.

Verso 3

aruruksor muner yogam
karma karanam ucyate
yogarudhasya tasyaiva
samah karanam ucyate

Tradução

Para quem é neófito no sistema óctuplo de yoga, é dito que o trabalho é o meio; e para quem já alcançou yoga, é dito que a cessação de todas atividades materiais é o meio.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O processo de se unir ao Supremo se chama yoga, que pode ser comparado a uma escada para alcançar a realização espiritual mais elevada. Essa escada começa a partir da condição material mais inferior do ser vivo e sobe até a perfeita auto-realização na vida espiritual pura. De acordo com as várias elevações, as várias partes da escada são conhecidas por nomes diferentes. Mas no todo, a escada completa se chama yoga e pode ser dividida em três partes, chamadas jñana-yoga, dhyana-yoga e bhakti-yoga. O começo da escada se chama estágio yogaruruksha, e o degrau mais alto se chama yogarudha.

A respeito do sistema óctuplo de yoga, tentativas iniciais para entrar em meditação por meio de princípios reguladores de vida e prática de várias posturas sentadas (que são mais ou menos exercícios corpóreos) são consideradas atividades materiais lucrativas. Todas essas atividades conduzem ao alcance do equilíbrio mental perfeito para controle dos sentidos. Quando a pessoa se realiza na prática da meditação, cessa todas atividades de perturbação mental.

Uma pessoa consciente de Krishna, entretanto, está situada desde o começo na plataforma da meditação porque sempre pensa em Krishna. E, por estar constantemente dedicada ao serviço de Krishna, é considerada como quem cessou todas atividades materiais.

Verso 4

yada hi nendriyarthesu
na karmasv anusajjate
sarva-sankalpa-sannyasi
yogarudhas tadocyate

Tradução

É dito que uma pessoa alcançou yoga quando, depois de renunciar todos desejos materiais, não age por satisfação sensual nem se dedica a atividades lucrativas.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Quando uma pessoa está plenamente dedicada ao serviço devocional amoroso do Senhor, está satisfeita em si mesma, assim não se dedica mais a satisfação sensual ou a atividades lucrativas. De outra forma, a pessoa tem que se dedicar à satisfação sensual, pois ninguém pode viver sem ocupação. Sem Consciência de Krishna, a pessoa tem sempre que procurar atividades egoístas egocêntricas ou estendidas. Mas uma pessoa consciente de Krishna pode fazer tudo para a satisfação de Krishna e assim se desapegar perfeitamente do desfrute sensual. Quem não tem essa realização tem que tentar mecanicamente escapar dos desejos materiais antes de se elevar ao degrau mais alto da escada do yoga.

Verso 5

uddhared atmanatmanam
natmanam avasadayet
atmaiva hy atmano bandhur
atmaiva ripur atmanah

Tradução

A pessoa tem que se elevar por meio de sua própria mente, e não se degradar. A mente é a amiga da alma condicionada, bem como sua inimiga.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A palavra atma significa corpo, mente e alma; a depender de várias circunstâncias. No sistema de yoga, a mente e a alma condicionada são especialmente importantes. Como a mente é o ponto central da prática de yoga, atma aqui se refere à mente. O propósito do sistema de yoga é controlar a mente e retirá-la do apego pelos objetos sensuais. Aqui se enfatiza que a mente deve ser treinada para que possa liberar a alma condicionada do atoleiro da ignorância. A pessoa na existência material está sujeita à influência da mente e dos sentidos. De fato, a alma pura fica enredada no mundo material por causa do ego da mente que deseja dominar a natureza material. Portanto, a mente tem que ser treinada para que não fique atraída pelo resplendor da natureza material, e assim a alma condicionada possa ser salva. A pessoa não deve se degradar por causa da atração pelos objetos sensuais. Quanto mais a pessoa fica atraída pelos objetos sensuais, mais fica enredada na existência material. A melhor forma de se desenredar é sempre ocupar a mente na Consciência de Krishna. A palavra hi é usada para enfatizar esse ponto, isto é, que a pessoa deve fazer isso. Também, é dito:

mana eva manusyanam karanam bandha-moksayoh
bandhaya visayasango muktyai nirvisayam manah

"Para a pessoa, a mente é causa de cativeiro e a mente é causa de liberação. Mente absorta nos objetos sensuais é a causa do cativeiro, e mente desapegada dos objetos sensuais é a causa da liberação" (Amrita-bindu Upanishad 2). Portanto, a mente que está sempre ocupada na Consciência de Krishna é a causa da liberação suprema.

Verso 6

bandhur atmatmanas tasya
yenatmaivatmana jitah
anatmanas tu satrutve
vartetatmaiva satru-vat

Tradução

Para quem conquistou a mente, a mente é o melhor amigo; mas para quem fracassou nisso, sua própria mente é seu maior inimigo.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O propósito de praticar o sistema óctuplo de yoga é controlar a mente a fim de torná-la uma amiga no cumprimento da missão humana. A menos que a mente seja controlada, a prática de yoga (para exibição) é simplesmente uma perda de tempo. Quem não consegue controlar sua mente vive sempre com seu pior inimigo, e assim sua vida e sua missão ficam arruinadas. A posição constitucional do ser vivo é cumprir a ordem do superior. Enquanto a mente permanecer um inimigo inconquistável, a pessoa tem que servir às ordens da luxúria, ira, avareza, ilusão e assim por diante. Mas quando a mente é conquistada, a pessoa concorda voluntariamente em obedecer às ordens da Personalidade de Deus, que está situada dentro do coração de todos como Paramatma. A verdadeira prática de yoga requer o encontro com o Paramatma dentro do coração e depois o cumprimento de Suas ordens. Para quem aceita a Consciência de Krishna diretamente, a rendição perfeita às ordens do Senhor segue automaticamente.

Verso 7

jitatmanah prasantasya
paramatma samahitah
sitosna-sukha-duhkhesu
tatha manapamanayoh

Tradução

Para quem conquistou a mente, a Superalma já foi alcançada, pois obteve tranqüilidade. Para essa pessoa, felicidade e tristeza, calor e frio, honra e desonra são todos iguais.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Na realidade, todo ser vivo é destinado a cumprir as ordens da Suprema Personalidade de Deus, que está situada no coração de todos como o Paramatma. Quando a mente é mal guiada pela energia ilusória externa, a pessoa fica enredada em atividades materiais. Portanto, quando a mente da pessoa é controlada por meio de um dos sistemas de yoga, deve ser considerada como quem já alcançou seu destino. A pessoa tem que seguir a ordem superior. Quando a mente da pessoa está fixa na natureza superior, não tem nenhuma alternativa além de seguir as ordens do Supremo. A mente tem que admitir alguma ordem superior e segui-la. O efeito de controlar a mente é que a pessoa segue automaticamente a ordem do Paramatma ou Superalma. Como essa posição transcendental é alcançada imediatamente pela pessoa que está em Consciência de Krishna, o devoto do Senhor não é afetado pelas dualidades da existência material, a saber, aflição e felicidade, frio e calor, e assim por diante. Esse estado é samadhi prático, ou absorção no Supremo.

Verso 8

jnana-vijnana-trptatma
kuta-stho vijitendriyah
yukta ity ucyate yogi
sama-lostrasma-kancanah

Tradução

É dito que uma pessoa está estabelecida em auto-realização e é chamada um yogi (ou místico) quando está plenamente satisfeita por virtude da aquisição de conhecimento e realização. Tal pessoa está situada na transcendência e é autocontrolada. Ela vê tudo, seja cascalho, pedra ou ouro, como igual.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Conhecimento de livro sem realização da Verdade Suprema é inútil. Como é afirmado a seguir:

atah sri-krsna-namadi
na bhaved grahyam indriyaih
sevonmukhe hi jihvadau
svayam eva sphuraty adah

"Ninguém pode compreender a natureza transcendental do nome, forma, qualidade e passatempos de Sri Krishna por meio dos sentidos contaminados materialmente. Somente quando a pessoa se torna saturada espiritualmente pelo serviço transcendental ao Senhor é que nome, forma, qualidade e passatempos transcendentais do Senhor se revelam a ela" (Bhakti-rasamrita-sindhu 1.2.234).

Este Bhagavad-gita é a ciência da Consciência de Krishna. Ninguém pode se tornar consciente de Krishna simplesmente por erudição mundana. A pessoa tem que ser afortunada o bastante para se associar a uma pessoa que está em consciência pura. Uma pessoa consciente de Krishna possui conhecimento realizado, pela graça de Krishna, porque está satisfeita com o serviço devocional puro. Por meio do conhecimento realizado, a pessoa se torna perfeita. Com o conhecimento transcendental, a pessoa pode permanecer constante em suas convicções, mas com o mero conhecimento acadêmico, a pessoa pode se iludir e confundir facilmente pelas contradições aparentes. A alma realizada que é verdadeiramente autocontrolada por estar rendida a Krishna. É transcendental porque não tem nada a ver com erudição mundana. Para ela, erudição mundana e especulação mental, que podem ser tão boas quanto ouro para outros, não valem mais do que seixos ou pedras.

Verso 9

suhrn-mitrary-udasina-
madhyastha-dvesya-bandhusu
sadhusv api ca papesu
sama-buddhir visisyate

Tradução

É dito que uma pessoa é mais avançada quando considera todos; o benquerente honesto, amigos e inimigos, o invejoso, o piedoso, o pecador e os que são indiferentes e imparciais; com mente igual.

Verso 10

yogi yunjita satatam
atmanam rahasi sthitah
ekaki yata-cittatma
nirasir aparigrahah

Tradução

Um transcendentalista deve sempre tentar concentrar sua mente no Eu Supremo; deve morar num local recluso sozinho e deve sempre controlar sua mente cuidadosamente. Deve estar livre dos desejos e sentimentos de posse.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Krishna é realizado em vários graus como Brahman, Paramatma e a Suprema Personalidade de Deus. Consciência de Krishna significa, em resumo, estar sempre dedicado ao serviço amoroso transcendental do Senhor. Mas os que estão apegados ao Brahman impessoal ou à Superalma localizada também são conscientes de Krishna parcialmente, porque o Brahman impessoal é o raio espiritual de Krishna e a Superalma é a expansão parcial todo-penetrante de Krishna. Por isso que o impersonalista e o meditador também são conscientes de Krishna indiretamente. Uma pessoa consciente de Krishna diretamente é o transcendentalista mais elevado porque tal devoto sabe qual é o significado do Brahman ou Paramatma. Seu conhecimento da Verdade Absoluta é perfeito, enquanto o impersonalista e o yogi meditativo são conscientes de Krishna imperfeitamente.

Entretanto, todos eles são instruídos aqui a se dedicarem constantemente em suas buscas particulares para que possam chegar à perfeição mais elevada mais cedo ou mais tarde. A primeira obrigação de um transcendentalista é manter a mente sempre em Krishna. A pessoa tem que pensar em Krishna sempre e não esquecê-Lo mesmo por um momento. Concentração da mente no Supremo se chama samadhi, ou transe. Para poder concentrar a mente, a pessoa deve permanecer em reclusão e evitar a perturbação dos objetos externos. Deve ter muito cuidado para aceitar as condições favoráveis e rejeitar as desfavoráveis que afetam sua realização. E com determinação perfeita, não deve desejar coisas materiais desnecessárias que a enredam em sentimentos de posse.

Todas essas perfeições e precauções são realizadas perfeitamente quando a pessoa está na Consciência de Krishna diretamente, porque Consciência de Krishna direta significa auto-abnegação, onde há muito pouca chance de posse material. Srila Rupa Goswami caracteriza a Consciência de Krishna desta forma:

anasaktasya visayan
yatharham upayunjatah
nirbandhah krsna-sambandhe
yuktam vairagyam ucyate

prapancikataya buddhya
hari-sambandhi-vastunah
mumuksubhih parityago
vairagyam phalgu kathyate

"Quando a pessoa não está apegada a nada, mas ao mesmo tempo aceita tudo em relação a Krishna, está situada corretamente acima de toda posse. Por outro lado, a pessoa que rejeita tudo sem conhecimento de sua relação com Krishna não é tão completa em sua renúncia" (Bhakti-rasamrita-sindhu 2.255-256).

Uma pessoa consciente de Krishna sabe bem que tudo pertence a Krishna, e assim está sempre livre dos sentimentos de posse pessoal. Dessa forma, não anseia por nada em relação a si mesma. Sabe aceitar coisas em favor da Consciência de Krishna e como rejeitar coisas desfavoráveis à Consciência de Krishna. Está à parte de coisas materiais porque é sempre transcendental, e está sempre sozinha, pois não tem nada a ver com pessoas que não são conscientes de Krishna. Por isso, a pessoa em Consciência de Krishna é o yogi perfeito.

Versos 11-12

sucau dese pratisthapya
sthiram asanam atmanah
naty-ucchritam nati-nicam
cailajina-kusottaram

tatraikagram manah krtva
yata-cittendriya-kriyah
upavisyasane yunjyad
yogam atma-visuddhaye

Tradução

Para praticar yoga, a pessoa deve ir a um local recluso e deve pôr grama kusha no chão e cobri-la com uma pele de veado e um pano macio. O assento não deve ser muito alto nem muito baixo e deve estar situado num local sagrado. O yogi deve então sentar nele com firmeza e deve praticar yoga por controlar a mente e os sentidos, com a purificação do coração e fixação da mente em um ponto.

Iluminação de Srila Prabhupada:

"Lugar sagrado" se refere a lugares de peregrinação. Na Índia, os yogis, os transcendentalistas e os devotos deixam o lar para viverem em lugares sagrados como Prayaga, Mathura, Vrindavana, Hrishikesha e Hardwar, e praticam yoga em solidão onde rios sagrados como o Yamuna e o Ganges fluem. Mas geralmente isso não é possível, especialmente para ocidentais. As assim chamadas sociedades de yoga nas grandes cidades podem ser bem sucedidas em ganhar benefício material, mas não são nada adequadas para a verdadeira prática de yoga. Uma pessoa que não é autocontrolada e cuja mente não se perturba não pode praticar meditação. Portanto, o Brihan-Naradiya Purana afirma que em Kali-yuga (o yuga atual, ou Era) quando as pessoas em geral têm vida curta, pouca realização espiritual e estão sempre perturbadas com várias ansiedades, o melhor meio para auto-realização é cantar o santo nome do Senhor.

harer nama harer nama
harer namaiva kevalam
kalau nasty eva nasty eva
nasty eva gatir anyatha

"Nesta Era de desavença e hipocrisia, o único meio de liberação é cantar o santo nome do Senhor. Não existe outra maneira. Não existe outra maneira. Não existe outra maneira".

Versos 13-14

samam kaya-siro-grivam
dharayann acalam sthirah
sampreksya nasikagram svam
disas canavalokayan

prasantatma vigata-bhir
brahmacari-vrate sthitah
manah samyamya mac-citto
yukta asita mat-parah

Tradução

A pessoa deve manter seu corpo, pescoço e cabeça eretos numa linha reta e olhar fixo para a ponta do nariz. Assim, com a mente não agitada, subjugada, desprovida de medo, plenamente livre da vida sexual, deve meditar em Mim dentro do coração e Me tornar a meta última da vida.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O objetivo da vida é conhecer Krishna, que está situado no coração de todo ser vivo como Paramatma, a forma de Vishnu com quatro braços. O processo de yoga é praticado com o propósito de descobrir e ver essa forma de Vishnu localizada, e por nenhum outro propósito. A vishnu-murti localizada é a representação plenária de Krishna que habita no coração da pessoa. A pessoa que não planeja realizar essa vishnu-murti está ocupada inutilmente na prática de yoga de brincadeira e com certeza perde seu tempo. Krishna é a meta última da vida, e a vishnu-murti situada no coração da pessoa é o objeto da prática de yoga. Para realizar essa vishnu-murti dentro do coração, a pessoa tem que observar abstinência plena da vida sexual; assim deve deixar o lar e viver solitária num local recluso, e permanecer sentada como descrito acima. A pessoa não pode desfrutar vida sexual diariamente em casa ou em qualquer outro lugar e freqüentar as assim chamadas aulas de yoga e achar que se tornou um yogi. A pessoa tem que praticar controle da mente e evitar todos tipos de desfrute sensual, dos quais vida sexual é o principal. Nas regras de celibato escritas pelo grande sábio Yajñavalkya, afirma-se:

karmana manasa vaca
sarvavasthasu sarvada
sarvatra maithuna-tyago
brahmacaryam pracaksate

"O voto de brahmacharya é destinado a ajudar a pessoa a se abster plenamente da prática sexual no trabalho, palavras e mente; o tempo todo, sob todas circunstâncias, e em todos lugares". Ninguém pode realizar a prática de yoga correta por meio da prática sexual. Crianças com cinco anos de idade são mandadas para o guru-kula, ou casa do mestre espiritual, e o mestre treina os meninos na disciplina estrita para se tornarem brahmacharis. Sem essa prática, ninguém pode avançar em qualquer yoga, seja dhyana, jñana ou bhakti. Quem entretanto segue as regras e regulamentos da vida de casado, e tem relações sexuais apenas com sua esposa (e isso com regulação também), também é chamado brahmachari. Esse pai de família brahmachari controlado pode ser aceito na escola de bhakti, mas as escolas jñana e dhyana não admitem nem mesmo brahmacharis casados. Exigem abstinência plena sem comprometimento. Na escola de bhakti, um brahmachari casado tem permissão para vida sexual controlada porque o culto de bhakti-yoga é tão poderoso que a pessoa perde automaticamente a atração sexual, por estar dedicada ao serviço superior do Senhor. O Bhagavad-gita (2.59) afirma:

visaya vinivartante
niraharasya dehinah
rasa-varjam raso 'py asya
param drstva nivartate

Enquanto outros são forçados a se conterem do desfrute sensual, um devoto do Senhor se contém automaticamente por causa do gosto superior. Além do devoto, ninguém mais tem informação sobre esse gosto superior.

Vigatabhih. A pessoa não pode ser destemida a menos que seja plenamente consciente de Krishna. Uma alma condicionada é medrosa devido à sua memória pervertida, seu esquecimento de sua relação eterna com Krishna. O Bhagavatam (11.2.37) afirma, bhayam dvitiyabhinivesatah syad isad apetasya viparyayo 'smrtih. Consciência de Krishna é a única base para o destemor. Portanto, prática perfeita é possível para uma pessoa que é consciente de Krishna. E como a meta última da prática de yoga é ver o Senhor interiormente, uma pessoa consciente de Krishna já é o melhor de todos yogis. Os princípios do sistema de yoga mencionados aqui são diferentes das assim chamadas sociedades de yoga populares.

Verso 15

yunjann evam sadatmanam
yogi niyata-manasah
santim nirvana-paramam
mat-samstham adhigacchati

Tradução

Assim, com a prática do controle do corpo, mente e atividades, o transcendentalista místico alcança o reino de Deus (ou a morada de Krishna) pela cessação da existência material.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A meta última da prática de yoga agora é explicada claramente. Prática de yoga não é para obter qualquer tipo de facilidade material; é para capacitar a cessação de toda a existência material. Quem procura melhora da saúde ou aspira por perfeição material não é um yogi de acordo com o Bhagavad-gita. Nem a cessação da existência material implica em entrar no "vazio", que é só um mito. Não existe vazio em nenhum lugar da criação do Senhor. Em vez disso, a cessação da existência material capacita a pessoa a entrar no céu espiritual, a morada do Senhor. A morada do Senhor também é descrita claramente no Bhagavad-gita como um lugar onde não existe necessidade de Sol, Lua ou eletricidade. Todos planetas do reino espiritual são auto-iluminados como o Sol no céu material. O reino de Deus está em toda parte, mas o céu espiritual e seus planetas são chamados param dhama, ou moradas superiores.

Um yogi consumado, que é perfeito na compreensão do Senhor Krishna, como claramente afirmado aqui (mat-cittah, mat-parah, mat-sthanam) pelo Senhor em pessoa, pode obter a paz e pode alcançar ultimamente Sua morada suprema, Krishnaloka, conhecida como Goloka Vrindavana. O Brahma-samhita (5.37) afirma claramente (goloka eva nivasaty akhilatma-bhutah) que o Senhor, apesar de sempre residir em Sua morada chamada Goloka, é o Brahman todo-penetrante bem como o Paramatma localizado por causa de suas energias espirituais superiores. Ninguém pode alcançar o céu espiritual (Vaikuntha) ou entrar na morada eterna do Senhor (Goloka Vrindavana) sem a compreensão correta sobre Krishna e Sua expansão plenária Vishnu. Portanto, a pessoa que trabalha em Consciência de Krishna é o yogi perfeito, porque sua mente está sempre absorta nas atividades de Krishna (sa vai manah krsna-padaravindayoh). Nos Vedas (Swetasvatara Upanishad 3.8) também aprendemos, tam eva viditvati mrtyum eti: "A pessoa só pode superar o caminho de nascimento e morte com a compreensão sobre a Suprema Personalidade de Deus, Krishna". Em outras palavras, perfeição no sistema de yoga é a obtenção da liberdade da existência material e não algum tipo de prestidigitação mágica ou proezas de ginástica para enganar pessoas inocentes.

Verso 16

naty-asnatas 'tu yogo 'sti
na caikantam anasnatah
na cati-svapna-silasya
jagrato naiva carjuna

Tradução

Não existe possibilidade da pessoa se tornar um yogi, ó Arjuna, se come demais, ou come de menos, dorme demais ou não dorme o suficiente.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Aqui se recomenda regulação da dieta e do sono para os yogis. Comer demais significa comer mais do que o necessário para manter o corpo e a alma juntos. Não há necessidade que os seres humanos comam animais, porque existe amplo suprimento de cereais, legumes, frutas e leite. Essa alimentação simples é considerada no modo da bondade segundo o Bhagavad-gita. Comer animais é para quem está no modo da ignorância. Portanto, as pessoas que cultuam comer animais, bebidas alcoólicas, fumar e comer comida que não foi oferecida primeiro a Krishna sofrerão reações pecaminosas por ingerirem coisas poluídas. Bhunjate te tv agham papa ye pacanty atma-karanat. Qualquer um que come por prazer sensual, ou cozinha para si mesmo, e não oferece sua comida a Krishna, come somente pecado. A pessoa que come pecado e come mais do que lhe é destinado não pode praticar yoga perfeito. O melhor é comer os restos do alimento oferecido a Krishna. Uma pessoa em Consciência de Krishna não come nada que não foi oferecido primeiro a Krishna. Portanto, somente a pessoa consciente de Krishna pode alcançar a perfeição na prática de yoga. Nem a pessoa que se abstém artificialmente de comer, por manufaturar seu próprio processo de jejum, pode praticar yoga. A pessoa consciente de Krishna observa jejum como é recomendado nas escrituras. Ela não jejua nem come mais do que o necessário, e assim é competente para realizar a prática de yoga. A pessoa que come demais vai sonhar muito enquanto dorme, e por isso deve dormir mais do que o necessário. Não se deve dormir mais do que seis horas por dia. Quem dorme mais de seis horas dentro de vinte e quatro horas está com certeza influenciado pelo modo da ignorância. A pessoa no modo da ignorância é preguiçosa e propensa a dormir muito. Tal pessoa não pode praticar yoga.

Verso 17

yuktahara-viharasya
yukta-cestasya karmasu
yukta-svapnavabodhasya
yogo bhavati duhkha-ha

Tradução

Quem é sóbrio em seus hábitos de comer, dormir, trabalhar e recrear pode mitigar todas dores materiais pela prática do sistema de yoga.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Extravagância a respeito de comer, dormir, defender-se e procriar; que são demandas do corpo; pode bloquear o avanço na prática de yoga. No que diz respeito a comer, só pode ser regulado quando a pessoa pratica tomar e aceitar prasadam, comida santificada. Oferece-se ao Senhor Krishna, de acordo com o Bhagavad-gita (9.26), legumes, flores, frutas, cereais, leite, etc.. Dessa forma, uma pessoa em Consciência de Krishna se torna automaticamente treinada a não aceitar comida não destinada ao consumo humano, ou que não está na categoria da bondade. No que diz respeito a dormir, uma pessoa consciente de Krishna está sempre alerta no cumprimento de seus deveres em Consciência de Krishna, e por isso qualquer tempo desnecessário gasto com sono é considerado uma grande perda. Avyartha-kalatvam: Uma pessoa consciente de Krishna não suporta passar um minuto de sua vida sem se dedicar ao serviço do Senhor. Por isso, seu sono é mantido no mínimo. O ideal sobre isso é Sri Rupa Goswami, que estava sempre dedicado ao serviço de Krishna e não podia dormir mais do que duas horas por dia, e às vezes nem mesmo isso. Thakura Haridasa não aceitava prasadam nem mesmo dormia por um momento sem terminar sua rotina diária de cantar em suas contas trezentos mil nomes. No que diz respeito ao trabalho, uma pessoa consciente de Krishna não faz nada que não esteja conectado com o interesse de Krishna, e assim seu trabalho é sempre regulado e imaculado pelo desfrute sensual. Como não existe questão de desfrute sensual, não existe lazer material para uma pessoa consciente de Krishna. E porque é regulada em todo seu trabalho, fala, sono, despertar e todas outras atividades corpóreas, não existe miséria material para ela.

Verso 18

yada viniyatam cittam
atmany evavatisthate
nisprhah sarva-kamebhyo
yukta ity ucyate tada

Tradução

Quando o yogi, pela prática de yoga, disciplina suas atividades mentais e se torna situado em transcendência; desprovido de desejos materiais; é dito que alcançou yoga.

Iluminação de Srila Prabhupada:

As atividades do yogi são distintas daquelas de uma pessoa ordinária por causa da sua cessação característica de todos tipos de desejos materiais; dos quais sexo é o principal. Um yogi perfeito é tão bem disciplinado nas atividades da mente que não pode mais ficar perturbado com nenhum tipo de desejo material. Esse estágio de perfeição pode ser alcançado automaticamente por pessoas em Consciência de Krishna, como o Srimad Bhagavatam (9.4.18-20) afirma:

sa vai manah krsna-padaravindayor
vacamsi vaikuntha-gunanuvarnane
karau harer mandira-marjanadisu
srutim cakaracyuta-sat-kathodaye

mukunda-lingalaya-darsane drsau
tad-bhrtya-gatra-sparse 'nga-sangamam
ghranam ca tat-pada-saroja-saurabhe
srimat-tulasya rasanam tad-arpite

padau hareh ksetra-padanusarpane
siro hrsikesa-padabhivandane
kamam ca dasye na tu kama-kamyaya
yathottama-sloka-janasraya ratih

"O rei Ambarisha primeiro dedicou sua mente aos pés de lótus do Senhor Krishna; depois, um após o outro, dedicou suas palavras a descrever as qualidades transcendentais do Senhor, suas mãos em varrer o templo do Senhor, seus ouvidos em ouvir sobre as atividades do Senhor, seus olhos em ver as formas transcendentais do Senhor, seu corpo em tocar os corpos dos devotos, seu sentido de olfato em cheirar os aromas da flor de lótus oferecida ao Senhor, sua língua em saborear a folha de Tulasi oferecida aos pés de lótus do Senhor, suas pernas em ir aos lugares de peregrinação e ao templo do Senhor, sua cabeça em prestar reverências ao Senhor e seus desejos em executar a missão do Senhor. Todas essas atividades transcendentais são bem dignas de um devoto puro".

Esse estágio transcendental pode ser inexpressivo subjetivamente para os seguidores do caminho impersonalista, mas se torna muito fácil e prático para uma pessoa em Consciência de Krishna, como fica aparente na descrição acima sobre as ocupações de Maharaja Ambarisha. A menos que a mente esteja fixa nos pés de lótus do Senhor pela lembrança constante, essas ocupações transcendentais não são práticas. Portanto, no serviço devocional ao Senhor, essas atividades prescritas se chamam archana, ou dedicação de todos sentidos no serviço ao Senhor. Os sentidos e a mente exigem ocupações. Abnegação simples não é prática. Portanto, para as pessoas em geral; especialmente as que não estão na ordem de vida renunciada; ocupação transcendental dos sentidos e da mente como descrito acima é o processo perfeito da conquista transcendental, que se chama yukta no Bhagavad-gita.

Verso 19

yatha dipo nivata-stho
nengate sopama smrta
yogino yata-cittasya
yunjato yogam atmanah

Tradução

Do mesmo modo como uma lâmpada num lugar sem vento não tremula, o transcendentalista, cuja mente está controlada, permanece sempre sóbrio em sua meditação no eu transcendental.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Uma pessoa consciente de Krishna de verdade, sempre absorta na transcendência, em meditação constante sem perturbação no seu Senhor adorável, é tão fixa como uma lâmpada num lugar sem vento.

Versos 20-23

yatroparamate cittam
niruddham yoga-sevaya
yatra caivatmanatmanam
pasyann atmani tusyati

sukham atyantikam yat tad
buddhi-grahyam atindriyam
vetti yatra na caivayam
sthitas calati tattvatah

yam labdhva caparam labham
manyate nadhikam tatah
yasmin sthito na duhkhena
gurunapi vicalyate

tam vidyad duhkha-samyoga-
viyogam yoga-samjnitam

Tradução

O estágio de perfeição se chama transe, ou samadhi, quando a mente da pessoa está plenamente controlada das atividades mentais materiais pela prática de yoga. Isso se caracteriza pela habilidade da pessoa em ver o eu com a mente pura e saborear e se regozijar no eu. Nesse estado de alegria, a pessoa está situada em felicidade transcendental sem limite e desfruta de si mesma por meio dos sentidos transcendentais. Estabelecida assim, a pessoa nunca se afasta da verdade e depois que obtém isso, pensa que não existe nenhum outro ganho superior. Situada nessa posição, a pessoa nunca se abala, mesmo no meio da maior dificuldade. Na verdade, isso é verdadeira liberdade de todas misérias que surgem do contato material.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Pela prática de yoga, a pessoa se torna gradualmente desapegada dos conceitos materiais. Essa é a característica primária do princípio de yoga. Depois disso, a pessoa se torna situada em transe, ou samadhi, significa que o yogi realiza a Superalma por meio da mente e inteligência transcendentais, sem as dúvidas de identificar o ego com o Superego. A prática de yoga é mais ou menos baseada nos princípios do sistema Patañjali. Alguns comentadores desautorizados tentam identificar a alma individual com a Superalma, e os monistas pensam que isso é liberação, mas não entendem o propósito real do sistema de yoga de Patañjali. Existe uma aceitação de prazer transcendental no sistema Patañjali, mas os monistas não aceitam prazer transcendental, com medo de comprometer a teoria da unidade. A dualidade do conhecimento e do conhecedor não é aceita pelos não dualistas, mas neste verso, prazer transcendental; realizado por meio dos sentidos transcendentais; é aceito. E isso é corroborado por Patañjali Muni, o famoso expoente do sistema de yoga. O grande sábio declara em seu Yoga-sutra (3.34): purusartha-sunyanam gunanam pratiprasavah kaivalyam svarupa-pratistha va citi-saktir iti.

Essa chiti-shakti, ou potência interna, é transcendental. Purushartha significa religiosidade, desenvolvimento econômico, desfrute sensual materiais, e no fim, a tentativa de se tornar um com o Supremo. Essa "unidade com o Supremo" se chama kaivalyam para o monista. Mas segundo Patañjali, esse kaivalyam é uma potência interna, ou transcendental, com a qual o ser vivo fica ciente de sua posição constitucional. Nas palavras do Senhor Chaitanya, esse estado de interesses se chama ceto-darpana-marjanam, ou limpeza do espelho impuro da mente. Essa "limpeza" é a verdadeira liberação, ou bhava-maha-davagni-nirvapanam. A teoria do nirvana; também preliminar; corresponde a esse princípio. No Bhagavatam (2.10.6) isso se chama svarupena vyavasthitih. O Bhagavad-gita também confirma essa situação neste verso.

Depois do nirvana, ou cessação material, existe a manifestação das atividades espirituais, ou serviço devocional ao Senhor, conhecido como Consciência de Krishna. Em outras palavras do Bhagavatam, svarupena vyavasthitih: Essa é a "verdadeira vida do ser vivo". Maya, ou ilusão, é a condição da vida espiritual contaminada pela infecção material. Liberação dessa infecção não significa destruição da posição eterna original do ser vivo. Patañjali também aceita isso com as palavras kaivalyam svarupa-pratistha va citi-saktir iti. Essa chiti-shakti, ou prazer transcendental, é vida real. Isso se confirma no Vedanta-sutra (1.1.12) como ananda-mayo 'bhyasat. Esse prazer transcendental natural é o objetivo último do yoga e é facilmente alcançado pela execução do serviço devocional, ou bhakti-yoga. Bhakti-yoga será descrito nitidamente no Sétimo Capítulo do Bhagavad-gita.

No sistema de yoga, como descrito neste capítulo, existem dois tipos de samadhi, chamados samprajnata-samadhi e asamprajnata-samadhi. Quando a pessoa fica situada na posição transcendental por meio de várias pesquisas filosóficas, isso é samprajnata-samadhi. No asamprajnata-samadhi, não há mais nenhuma conexão com prazer mundano, porque a pessoa está então transcendental a todos tipos de felicidade derivada dos sentidos. Quando o yogi está situado nessa posição transcendental, nunca fica abalado nela. A menos que o yogi seja capaz de alcançar essa posição, não será bem sucedido. A assim chamada prática de yoga atual, que envolve vários desfrutes sensuais, é contraditória. Um yogi que cultua sexo e intoxicação é um escárnio. Mesmo os yogis que estão atraídos aos siddhis (perfeições) do processo de yoga não estão situados perfeitamente. Se os yogis estão atraídos pelos subprodutos do yoga, não podem alcançar o estágio de perfeição, como este verso afirma. Pessoas, portanto, que cultivam a exibição de proezas de ginástica ou siddhis devem saber que o objetivo do yoga se perde no caminho.

A melhor prática de yoga nesta Era é Consciência de Krishna, que não é frustrante. Uma pessoa consciente de Krishna é tão feliz com sua ocupação que não aspira por nenhuma outra felicidade. Existem muitos impedimentos especialmente nesta Era de hipocrisia, para a prática de hatha-yoga, dhyana-yoga e jñana-yoga, mas não existe esse problema na execução de karma-yoga ou bhakti-yoga.

Enquanto o corpo material existir, a pessoa tem que satisfazer as demandas do corpo, a saber, comer, dormir, defender-se e reproduzir. Mas a pessoa que está em bhakti-yoga pura ou Consciência de Krishna não desperta os sentidos enquanto satisfaz as demandas do corpo. Em vez disso, aceita as necessidades básicas da vida, por fazer o melhor uso de um mau negócio, e desfruta felicidade transcendental em Consciência de Krishna. É insensível às ocorrências de incidentes; como acidentes, doença, escassez e mesmo a morte dos familiares mais queridos; mas está sempre alerta para executar seus deveres em Consciência de Krishna ou bhakti-yoga. Acidentes nunca a desviam de seu dever. Como o Bhagavad-gita (2.14) afirma, agamapayino 'nityas tams titiksasva bharata. Ela suporta todas ocorrências de acidentes porque sabe que vêm e vão e não afetam seus deveres. Dessa forma, ela alcança a perfeição mais elevada na prática de yoga.

Verso 24

sa niscayena yoktavyo
yogo 'nirvinna-cetasa
sankalpa-prabhavan kamams
tyaktva sarvan asesatah
manasaivendriya-gramam
viniyamya samantatah

Tradução

A pessoa deve se dedicar à prática de yoga com determinação e fé constantes. Deve abandonar, sem exceção, todos desejos materiais nascidos do ego falso e assim controlar os sentidos em todos os lados com a mente.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O praticante de yoga deve ser determinado e deve prosseguir pacientemente a prática sem desvio. A pessoa deve ter certeza do sucesso no fim e buscar esse curso com grande perseverança, sem se desencorajar se houver alguma demora na obtenção do sucesso. O sucesso é garantido para o praticante rígido. No que diz respeito a bhakti-yoga, Rupa Goswami afirma:

utsahan niscayad dhairyat
tat-tat-karma-pravartanat
sanga-tyagat sato vrtteh
sadbhir bhaktih prasidhyati

"O processo de bhakti-yoga pode ser executado com sucesso mediante entusiasmo, perseverança e determinação sinceros ao seguir os deveres prescritos na companhia de devotos e por se dedicar plenamente às atividades da bondade" (Upadeshamrita 3). No que diz respeito à determinação, deve-se seguir o exemplo da pardoca que perdeu seus ovos nas ondas do oceano. Uma pardoca botou seus ovos na praia do oceano, mas o grande oceano levou seus ovos com suas ondas. A pardoca ficou muito perturbada e pediu para o oceano devolver seus ovos. O oceano nem considerou o apelo dela. Assim a pardoca decidiu secar o oceano. Ela começou a pegar a água com seu pequeno bico, e todos riram dela por causa de sua determinação impossível. A notícia de sua atividade se espalhou, até que Garuda, o gigantesco pássaro carregador do Senhor Vishnu, ouviu sobre isso. Ele sentiu compaixão de sua pequena irmã pássaro, e foi ver a pardoca. Garuda ficou muito satisfeito com a determinação da pequena pardoca, e prometeu ajudá-la. Assim, Garuda imediatamente pediu para o oceano devolver os ovos dela senão ele mesmo ia fazer o trabalho da pardoca. O oceano ficou aterrorizado, e devolveu os ovos. Assim a pardoca ficou feliz pela graça de Garuda.

Similarmente, a prática de yoga, especialmente bhakti-yoga em Consciência de Krishna, pode parecer um trabalho muito difícil. Mas se a pessoa seguir os princípios com muita determinação, o Senhor irá ajudá-la com certeza, pois Deus ajuda a quem se ajuda.

Verso 25

sanaih sanair uparamed
buddhya dhrti-grhitaya
atma-samstham manah krtva
na kincid api cintayet

Tradução

Gradualmente, passo a passo, com plena convicção, a pessoa deve se situar em transe por meio da inteligência, e assim a mente deve ser fixa no eu somente e não deve pensar em mais nada.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Com convicção e inteligência apropriadas, a pessoa deve cessar gradualmente as atividades sensuais. Isso se chama pratyahara. A mente, controlada com convicção, meditação e cessação dos sentidos, deve se situar em transe ou samadhi. Nesse momento, não existe mais perigo de se tornar dedicado ao conceito de vida material. Em outras palavras, apesar da pessoa estar envolvida com matéria enquanto o corpo material existir, não deve pensar em desfrute sensual. A pessoa não deve pensar em nenhum prazer à parte do prazer do Eu Supremo. Esse estado é alcançado facilmente com a prática direta da Consciência de Krishna.

Verso 26

yato yato niscalati
manas cancalam asthiram
tatas tato niyamyaitad
atmany eva vasam nayet

Tradução

Sempre que e onde quer que a mente vagueie devido à sua natureza oscilante e instável, a pessoa deve certamente retraí-la e trazê-la de volta para o controle do eu.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A natureza da mente é oscilante e instável. Mas o yogi auto-realizado tem que controlar a mente; a mente não deve controlá-lo. Aquele que controla a mente (e portanto os sentidos também) se chama goswami, ou swami, e aquele que é controlado pela mente se chama godasa, ou servo dos sentidos. Um goswami conhece o padrão da felicidade sensual. Na felicidade sensual transcendental, os sentidos estão dedicados ao serviço de Hrishikesha, ou o proprietário supremo dos sentidos, Krishna. Servir a Krishna com os sentidos purificados se chama Consciência de Krishna. Essa é a forma de trazer os sentidos sob controle pleno. E mais ainda, essa é a perfeição mais levada da prática de yoga.

Verso 27

prasanta-manasam hy enam
yoginam sukham uttamam
upaiti santa-rajasam
brahma-bhutam akalmasam

Tradução

O yogi cuja mente está fixa em Mim com certeza alcança a felicidade mais elevada. Em virtude de sua identificação com Brahman, está liberado; sua mente é calma, suas paixões estão tranqüilas, e está livre do pecado.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Brahma-bhuta é o estado de estar livre da contaminação material e situado no serviço transcendental do Senhor. Mad-bhaktim labhate param (Bg. 18.54). Ninguém pode permanecer na qualidade de Brahman, o Absoluto, até sua mente estar fixa nos pés de lótus do Senhor, Sa vai manah krsna-padaravindayoh. Estar sempre dedicado ao serviço amoroso transcendental do Senhor, ou permanecer em Consciência de Krishna, é estar liberado realmente do modo da paixão e toda contaminação material.

Verso 28

yunjann evam sadatmanam
yogi vigata-kalmasah
sukhena brahma-samsparsam
atyantam sukham asnute

Tradução

Fixo no eu, livre de todas contaminações materiais, o yogi alcança o estágio de perfeição da felicidade mais elevado em contato com a consciência suprema.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Auto-realização significa conhecer sua posição constitucional em relação com o Supremo. A alma individual é parte e parcela do Supremo, e sua posição é prestar serviço transcendental ao Senhor. Esse contato transcendental com o Supremo se chama brahma-samsparsha.

Verso 29

sarva-bhuta-stham atmanam
sarva-bhutani catmani
iksate yoga-yuktatma
sarvatra sama-darsanah

Tradução

O verdadeiro yogi Me observa em todos os seres, e também vê todos os seres em Mim. Na verdade, a pessoa auto-realizada Me vê em toda parte.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Um yogi consciente de Krishna é o observador perfeito porque vê Krishna, o Supremo, situado no coração de todos como a Superalma (Paramatma). Isvarah sarva-bhutanam hrd-dese 'rjuna tisthati. O Senhor em Seu aspecto Paramatma está situado tanto no coração de um cachorro quanto de um brahmana. O yogi perfeito sabe que o Senhor é transcendental eternamente e não é afetado materialmente por Sua presença ou num cachorro ou num brahmana. Assim é a neutralidade do Senhor. A alma individual também está situada no coração individual, mas não está presente em todos corações. Essa é a diferença entre a alma individual e a Superalma. A pessoa que não pratica yoga de verdade não pode ver tão claramente. Uma pessoa consciente de Krishna pode ver Krishna no coração tanto do crente como do descrente. O smriti também confirma isso como se segue: atatatvac ca matrtvac ca atma hi paramo harih. O Senhor, como é a fonte de todos seres vivos, é como a mãe e o mantenedor. Do mesmo modo como a mãe é neutra com todos tipos de filhos, o pai supremo (ou mãe) também é. Por conseguinte, a Superalma está sempre em cada ser vivo.

Externamente, também, todo ser vivo está situado dentro da energia do Senhor. Como será explicado no Sétimo Capítulo, o Senhor tem, primariamente, duas energias; a espiritual (ou superior) e a material (ou inferior). O ser vivo, apesar de parte da energia superior, está condicionado na energia inferior; o ser vivo está sempre na energia do Senhor. O ser vivo está situado dentro Dele de uma forma ou de outra.

O yogi vê igualmente porque vê que todos os seres vivos, apesar de estarem em diferentes situações de acordo com os resultados do trabalho lucrativo, permanecem como servos de Deus em todas circunstâncias. Enquanto está na energia material, o ser vivo serve os sentidos materiais; e quando está na energia espiritual, serve o Supremo Senhor diretamente. Em qualquer caso, o ser vivo é um servo de Deus. A visão equânime é perfeita para uma pessoa em Consciência de Krishna.

Verso 30

yo mam pasyati sarvatra
sarvam ca mayi pasyati
tasyaham na pranasyami
sa ca me na pranasyati

Tradução

Para quem Me vê em toda parte e vê tudo em Mim, Eu nunca sou perdido, nem ele nunca é perdido por Mim.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Uma pessoa consciente de Krishna certamente vê o Senhor Krishna em toda parte, e vê tudo em Krishna. Essa pessoa pode parecer que vê todas manifestações da natureza material separadas, mas em cada e toda instância é consciente de Krishna, pois sabe que tudo é manifestação da energia de Krishna. Nada pode existir sem Krishna, e Krishna é o Senhor de tudo; esse é o princípio básico da Consciência de Krishna. Consciência de Krishna é o desenvolvimento do amor por Krishna; uma posição transcendental até mesmo à liberação material. É o estágio além da auto-realização no qual o devoto se torna um com Krishna no sentido de que Krishna se torna tudo para o devoto e o devoto se torna pleno no amor por Krishna. Uma relação íntima entre o Senhor e o devoto passa a existir depois. Nesse estágio, o ser vivo alcança sua imortalidade. Nem a Personalidade de Deus nunca sai da visão do devoto. Fundir-se com Krishna é aniquilação espiritual. Um devoto não corre esse risco. O Brahma-samhita (5.38) afirma:

premanjana-cchurita-bhakti-vilocanena
santah sadaiva hrdayesu vilokayanti
yam syamasundaram acintya-guna-svarupam
govindam adi-purusam tam aham bhajami

"Eu adoro o Senhor primordial, Govinda, que é sempre visto pelos devotos cujos olhos estão untados com a polpa do amor. Ele é visto em Sua forma eterna como Shyamasundara dentro do coração do devoto".

Nesse estágio, o Senhor Krishna nunca desaparece da visão do devoto, nem o devoto nunca perde a visão do Senhor. No caso do yogi que vê o Senhor como Paramatma dentro do coração, o mesmo se aplica. Esse yogi se torna um devoto puro e não pode suportar viver nem por um momento sem ver o Senhor dentro de si.

Verso 31

sarva-bhuta-sthitam yo mam
bhajaty ekatvam asthitah
sarvatha vartamano 'pi
sa yogi mayi vartate

Tradução

O yogi que sabe que Eu e a Superalma dentro de todas criaturas somos iguais Me adora e permanece sempre em Mim em todas circunstâncias.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O yogi que pratica meditação na Superalma vê dentro de si a porção plenária de Krishna como Vishnu; com quatro mãos que seguram concha, disco, maça e flor de lótus. O yogi deve saber que Vishnu não é diferente de Krishna. Krishna nessa forma da Superalma está situado no coração de todos. Além do mais, não existe diferença entre as inumeráveis Superalmas presentes em inumeráveis corações dos seres vivos. Nem existe diferença entre uma pessoa consciente de Krishna sempre dedicada ao serviço amoroso transcendental de Krishna e um yogi perfeito dedicado à meditação na Superalma. O yogi em Consciência de Krishna; mesmo que possa estar ocupado com várias atividades enquanto está na existência material; permanece sempre situado em Krishna. O Bhakti-rasamrita-sindhu (1.2.187) de Sri Rupa Goswami confirma isso: nikhilasv apy avasthasu jivan-muktah sa ucyate. Um devoto do Senhor, que sempre age em Consciência de Krishna, está liberado automaticamente. O Narada-pancharatra confirma isso da seguinte forma:

dik-kalady-anavacchinne
krsne ceto vidhaya ca
tan-mayo bhavati ksipram
jivo brahmani yojayet

"Mediante a concentração da atenção na forma transcendental de Krishna, que é todo-penetrante e além de tempo e espaço, a pessoa fica absorta no pensamento de Krishna e assim alcança o estado auspicioso da associação transcendental com Ele".

Consciência de Krishna é o estágio mais elevado de transe na prática de yoga. Esse mesmo entendimento de que Krishna está presente como Paramatma no coração de todos torna o yogi impecável. Os Vedas (Gopala-tapani Upanishad 1.21) confirmam essa potência inconcebível do Senhor como se segue: eko 'pi san bahudha yo 'vabhati. "Apesar do Senhor ser um, está presente em inumeráveis corações como muitos". Similarmente, o smriti-shastra afirma:

eka eva paro visnuh
sarva-vyapi na samsayah
aisvaryad rupam ekam ca
surya-vat bahudheyate

"Vishnu é um, e mesmo assim Ele é com certeza todo-penetrante. Devido à Sua potência inconcebível, apesar de Sua forma única, Ele está presente em toda parte, do mesmo modo como o Sol aparece em vários locais ao mesmo tempo".

Verso 32

atmaupamyena sarvatra
samam pasyati yo 'rjuna
sukham va yadi va duhkham
sa yogi paramo matah

Tradução

É um yogi perfeito, por comparação com seu próprio eu, quem vê a igualdade verdadeira de todos os seres, tanto em sua felicidade quanto em sua tristeza, ó Arjuna!

Iluminação de Srila Prabhupada:

Quem é consciente de Krishna é um yogi perfeito; que é sempre ciente sobre a felicidade e tristeza de todos por causa de sua própria experiência pessoal. A causa da tristeza de um ser vivo é seu esquecimento de sua relação com Deus. E a causa da felicidade é conhecer Krishna como o supremo desfrutador de todas atividades dos seres humanos. Krishna é o proprietário de todas terras e planetas, e o amigo mais sincero de todos seres vivos. O yogi perfeito sabe que o ser vivo condicionado pelos modos da natureza material está sujeito às três misérias materiais devido ao esquecimento de sua relação com Krishna. Porque a pessoa que é consciente de Krishna é feliz, tenta distribuir o conhecimento sobre Krishna em toda parte. Como o yogi perfeito tenta propagar a importância de se tornar consciente de Krishna, é o melhor filantropo do mundo, e é o servo mais querido do Senhor. Na ca tasman manusyesu kascin me priya-krttamah (Bg. 18.69). Em outras palavras, um devoto do Senhor sempre busca o bem estar de todos seres vivos, e dessa forma é realmente o amigo de todos. Ele é o melhor yogi porque não deseja a perfeição do yoga só para seu próprio benefício, mas também tenta para os outros. Ele não inveja seus companheiros seres vivos. Aqui está o contraste entre um devoto puro do Senhor e um yogi interessado apenas em sua própria elevação. O yogi que se retirou para um lugar recluso a fim de meditar perfeitamente pode não ser tão perfeito quanto um devoto que sempre tenta levar todas pessoas para a Consciência de Krishna.

Verso 33

arjuna uvaca
yo 'yam yogas tvaya proktah
samyena madhusudana
etasyaham na pasyami
cancalatvat sthitim sthiram

Tradução

Arjuna disse: Ó Madhusudana, o sistema de yoga que Você sintetizou parece ser impraticável e insuportável para mim, porque a mente é inquieta e instável.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O sistema de misticismo descrito pelo Senhor Krishna para Arjuna que começa com as palavras sucau dese e termina com yogi paramah foi rejeitado aqui por Arjuna com um sentimento de incapacidade. Não é possível uma pessoa ordinária deixar o lar e ir para um lugar recluso nas montanhas ou selvas para praticar yoga nesta Era de Kali. A Era atual se caracteriza por uma amarga luta por uma vida de curta duração. As pessoas não são sérias sobre auto-realização mesmo com meios simples e práticos, o que falar deste sistema de yoga difícil, que regula o modo de vida, a forma de sentar, seleção de lugar, e desapego da mente das ocupações materiais. Como uma pessoa prática, Arjuna achou que era impossível seguir este sistema de yoga, apesar de ser dotado favoravelmente em várias formas. Ele pertencia à família real e era altamente elevado em termos de numerosas qualidades; era um grande guerreiro, tinha grande longevidade, e, acima de tudo, era o amigo mais íntimo do Senhor Krishna, a Suprema Personalidade de Deus. Cinco mil anos atrás, Arjuna tinha muito mais facilidades do que temos agora, mesmo assim recusou aceitar este sistema de yoga. De fato, não encontramos nenhum registro na história de ele ter praticado em qualquer época. Portanto, este sistema deve ser considerado geralmente impossível nesta Era de Kali. Claro que pode ser possível para algumas muito poucas pessoas, muito raras, mas para as pessoas em geral é uma proposta impossível. Se era assim cinco mil anos atrás, o que dizer dos dias presentes? Quem imita este sistema de yoga em várias assim chamadas escolas e sociedades, apesar da satisfação, com certeza desperdiça seu tempo. São completamente ignorantes sobre o objetivo desejado.

Verso 34

cancalam hi manah krsna
pramathi balavad drdham
tasyaham nigraham manye
vayor iva su-duskaram

Tradução

Porque a mente é inquieta, turbulenta, obstinada e muito forte, ó Krishna, subjugá-la, eu acho, é mais difícil do que controlar o vento.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A mente é tão forte e obstinada que às vezes supera a inteligência, apesar da mente ser considerada subserviente da inteligência. Para uma pessoa no mundo prático que tem de lutar com tantos elementos opostos, é certamente muito difícil controlar a mente. Artificialmente, a pessoa pode estabelecer um equilíbrio mental em relação a amigo e inimigo, mas ultimamente nenhuma pessoa mundana pode fazer isso, porque é mais difícil do que controlar o vento violento. A literatura Védica (Katha Upanishad 1.3.3-4) afirma:

atmanam rathinam viddhi
sariram ratham eva ca
buddhim tu sarathim viddhi
manah pragraham eva ca

indriyani hayan ahur
visayams tesu gocaran
atmendriya-mano-yuktam
bhoktety ahur manisinah

"O indivíduo é o passageiro no carro do corpo material, e a inteligência é o condutor. A mente é o instrumento de direção, e os sentidos são os cavalos. O eu assim é o desfrutador ou sofredor na associação com a mente e os sentidos. Grandes pensadores entendem dessa forma". A inteligência deve ser a diretora da mente, mas a mente é tão forte e obstinada que freqüentemente supera até mesmo a própria inteligência. Tal mente forte deve ser controlada com a prática do yoga, mas essa prática nunca é prática para uma pessoa mundana como Arjuna. E o que se pode dizer sobre o homem moderno? A comparação usada aqui é muito apropriada; ninguém pode controlar o vento forte. E é mais difícil ainda controlar a mente turbulenta. A forma mais fácil de controlar a mente, como sugerido pelo Senhor Chaitanya, é cantar "Hare Krishna", o grande mantra para a liberação, com toda humildade. O método prescrito é sa vai manah krsna-padaravindayoh: a pessoa tem que dedicar sua mente plenamente a Krishna. Só assim não restarão outras ocupações para agitar a mente.

Verso 35

sri bhagavan uvaca
asamsayam maha-baho
mano durnigraham calam
abhyasena tu kaunteya
vairagyena ca grhyate

Tradução

O bem-aventurado Senhor disse: Ó filho de Kunti de braços poderosos, sem dúvida é muito difícil conter a mente inquieta, mas é possível pela prática constante e pelo desapego.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A dificuldade de controlar a mente obstinada, como Arjuna expressou, é aceita pela Personalidade de Deus. Mas ao mesmo tempo Ele sugere que é possível pela prática e desapego. O que é essa prática? Na Era atual, ninguém pode observar as regras e regulamentos estritos de ir para um lugar sagrado, focar a mente na Superalma, conter os sentidos e a mente, observar celibato, ficar sozinho, e assim por diante. Com a prática da Consciência de Krishna, entretanto, a pessoa se ocupa em nove tipos de serviço devocional ao Senhor. A primeira e principal dessas ocupações devocionais é ouvir sobre Krishna. Esse é um método transcendental poderoso para purificar a mente de todas as dúvidas. Quanto mais a pessoa ouve sobre Krishna, mais fica iluminada e desapegada de tudo que arrasta a mente para longe de Krishna. Com o desapego da mente das atividades não devotadas ao Senhor, a pessoa pode aprender vairagya facilmente. Vairagya significa desapego da matéria e dedicação da mente ao espírito. Desapego espiritual impessoal é mais difícil do que atar a mente às atividades de Krishna. Isso é prático porque ouvir sobre Krishna faz a pessoa se tornar automaticamente apegada ao Espírito Supremo. Esse apego se chama pareshanubhava, satisfação espiritual. É como o sentimento de satisfação que uma pessoa faminta sente com cada bocado de comida que come. Similarmente, com a execução do serviço devocional, a pessoa sente satisfação transcendental à medida que a mente se torna desapegada dos objetivos materiais. É como a cura de uma doença com um tratamento especializado e uma dieta adequada. Ouvir sobre as atividades transcendentais do Senhor Krishna é portanto tratamento especializado para a mente louca, e comer os alimentos oferecidos a Krishna é a dieta apropriada para o paciente sofredor. Esse tratamento é o processo da Consciência de Krishna.

Verso 36

asamyatatmana yogo
dusprapa iti me matih
vasyatmana tu yatata
sakyo 'vaptum upayatah

Tradução

Para a pessoa cuja mente é descontrolada, auto-realização é um trabalho difícil. Mas para quem a mente está controlada e se empenha com meios corretos, o sucesso é garantido. Essa é a Minha opinião.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A Suprema Personalidade de Deus declara que a pessoa que não aceita o tratamento correto para desapegar a mente da ocupação material dificilmente pode alcançar o sucesso na auto-realização. Tentar praticar yoga enquanto ocupa a mente no desfrute material é como tentar acender um fogo e jogar água em cima. Similarmente, prática de yoga sem controle mental é uma perda de tempo. Tal exibição de prática de yoga pode ser materialmente lucrativa, mas é inútil no que diz respeito à realização espiritual. Portanto, a mente tem que ser controlada com a ocupação constante no serviço amoroso transcendental do Senhor. A menos que a pessoa se dedique à Consciência de Krishna, não pode controlar a mente constantemente. Uma pessoa consciente de Krishna alcança facilmente o resultado da prática de yoga sem esforço separado, mas um praticante de yoga não pode alcançar o sucesso sem se tornar consciente de Krishna.

Verso 37

arjuna uvaca
ayatih sraddhayopeto
yogac calita-manasah
aprapya yoga-samsiddhim
kam gatim krsna gacchati

Tradução

Arjuna disse: Qual o destino da pessoa de fé que não persevera, que no começo aceita o processo de auto-realização mas depois desiste devido à mentalidade mundana e não alcança a perfeição do misticismo?

Iluminação de Srila Prabhupada:

O caminho da auto-realização ou misticismo é descrito no Bhagavad-gita. O princípio básico da auto-realização é o conhecimento de que o ser vivo não é o corpo material mas é diferente dele e que sua felicidade está na vida eterna, bem-aventurada e plena de conhecimento. Tudo isso é transcendental, além tanto do corpo quanto da mente. Auto-realização é aspirada por meio do caminho do conhecimento, pela prática do sistema óctuplo de yoga ou por bhakti-yoga. Em cada um desses processos a pessoa tem que realizar a posição constitucional do ser vivo, seu relacionamento com Deus, e as atividades com as quais pode restabelecer o elo perdido e alcançar o estágio de perfeição mais elevado da Consciência de Krishna. Se seguir qualquer um desses três métodos, a pessoa tem a garantia de alcançar a meta suprema mais cedo ou mais tarde. Isso foi declarado pelo Senhor no Segundo Capítulo; mesmo um pequeno empenho no caminho transcendental oferece uma grande esperança de liberação. Desses três métodos, o caminho de bhakti-yoga é especialmente adequado para esta Era porque é o método mais direto de realização de Deus. Para ter certeza duplamente, Arjuna pede ao Senhor Krishna para confirmar Sua afirmação anterior. A pessoa pode aceitar o caminho da auto-realização sinceramente, mas o processo de cultivo do conhecimento e a prática do sistema óctuplo de yoga são geralmente muito difíceis para esta Era. Portanto, apesar do empenho constante, a pessoa pode cair por vários motivos. Em primeiro lugar, pode não seguir o processo. Seguir o caminho transcendental é mais ou menos como declarar guerra contra a energia ilusória. Por conseguinte, sempre que a pessoa tenta se livrar das garras da energia ilusória, esta tenta derrotar o praticante com várias tentações. Uma alma condicionada já é seduzida pelos modos da energia material, e existe toda chance de ser iludida novamente, mesmo enquanto pratica as disciplinas transcendentais. Isso de chama yogac calita-manasah: desvio do caminho transcendental. Arjuna está curioso sobre os resultados do desvio do caminho da auto-realização.

Verso 38

kaccin nobhaya-vibhrastas
chinnabhram iva nasyati
apratistho maha-baho
vimudho brahmanah pathi

Tradução

Ó Krishna de braços poderosos, essa pessoa, que se desviou do caminho da transcendência. Perece como uma nuvem rasgada, sem nenhuma posição em qualquer esfera?

Iluminação de Srila Prabhupada:

Existem duas formas de progredir. Aqueles que são materialistas não têm interesse na transcendência; assim estão mais interessados no avanço material com desenvolvimento econômico, ou promoção para os planetas superiores com trabalho apropriado. Quando a pessoa segue o caminho da transcendência, tem que cessar todas atividades materiais e sacrificar todas formas da assim chamada felicidade material. Se o transcendentalista aspirante falha, aparentemente perde dos dois jeitos; em outras palavras, não pode desfrutar nem a felicidade material nem o sucesso espiritual. Fica sem posição; é como uma nuvem rasgada. Uma nuvem no céu às vezes desvia de uma nuvem pequena e se junta a uma grande. Mas se não conseguir se juntar a uma grande, é arrastada pelo vento e perde sua forma no vasto céu. O brahmanah pathi é o caminho da realização transcendental através de conhecer a si mesmo como espiritual em essência, parte e parcela do Supremo Senhor, que se manifesta como Brahman, Paramatma e Bhagavan. O Senhor Sri Krishna é a manifestação mais completa da Suprema Verdade Absoluta, e por isso quem se rende à Pessoa Suprema é um transcendentalista bem sucedido. Alcançar esse objetivo da vida por meio da realização Brahman e Paramatma leva muitos e muitos nascimentos (bahunam janmanam ante). Por isso, o melhor caminho de realização transcendental é bhakti-yoga, ou Consciência de Krishna, o método direto.

Verso 39

etan me samsayam krsna
chettum arhasy asesatah
tvad-anyah samsayasyasya
chetta na hy upapadyate

Tradução

Essa é minha dúvida, ó Krishna, e peço para dissipá-la plenamente. Além de Você, não se pode encontrar alguém que possa destruir essa dúvida.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Krishna é o conhecedor perfeito de passado, presente e futuro. No começo do Bhagavad-gita, o Senhor afirma que todos seres vivos existiam individualmente no passado, existem agora no presente, e continuarão a manter sua identidade individual no futuro, mesmo depois da liberação do enredamento material. Assim Ele já esclareceu a questão do futuro do ser vivo individual. Agora, Arjuna quer saber sobre o futuro do transcendentalista sem sucesso. Ninguém é igual ou superior a Krishna, e certamente os assim chamados grandes sábios e filósofos que estão à mercê da natureza material não podem se igualar a Ele. Por isso o veredicto de Krishna é a resposta final e completa de todas as dúvidas, porque Ele conhece passado, presente e futuro perfeitamente; porém ninguém O conhece. Somente Krishna e os devotos conscientes de Krishna podem saber o que é o quê.

Verso 40

sri bhagavan uvaca
partha naiveha namutra
vinasas tasya vidyate
na hi kalyana-krt kascid
durgatim tata gacchati

Tradução

O bem-aventurado Senhor disse: Filho de Pritha, um transcendentalista dedicado a atividades auspiciosas não encontra a destruição nem neste mundo nem no mundo espiritual; quem faz o bem, Meu amigo, nunca é dominado pelo mal.

Iluminação de Srila Prabhupada:

No Srimad Bhagavatam (1.5.17) Sri Narada Muni instrui Vyasadeva como se segue:

tyaktva sva-dharmam caranambujam harer
bhajann apakvo 'tha patet tato yadi
yatra kva vabhadram abhud amusya kim
ko vartha apto 'bhajatam sva-dharmatah

"Se alguém abandona todos prospectos materiais e se abriga plenamente na Suprema Personalidade de Deus, não tem nenhuma perda ou degradação de qualquer forma. Por outro lado, um não-devoto pode se dedicar plenamente a seus deveres ocupacionais e ainda assim não ganhar nada". Para prospectos materiais, existem muitas atividades tanto das escrituras quanto de costume. Um transcendentalista é obrigado a abandonar todas atividades com propósito do avanço espiritual na vida, Consciência de Krishna. Alguém pode argumentar que pela Consciência de Krishna a pessoa pode atingir a perfeição mais elevada só se for completa, mas se não alcançar esse estágio de perfeição, então perde tanto materialmente quanto espiritualmente. As escrituras afirmam que a pessoa tem de sofrer a reação se não executar deveres prescritos; portanto a pessoa que falha no cumprimento dessas atividades transcendentais corretamente fica sujeita a essas reações. O Bhagavatam assegura ao transcendentalista sem sucesso que não precisa se preocupar. Mesmo se ficar sujeito à reação de não executar perfeitamente deveres prescritos, ainda assim não é um fracassado, porque a Consciência de Krishna auspiciosa nunca é esquecida, e a pessoa dedicada dessa forma continuará assim mesmo se tiver um nascimento baixo na próxima vida. Por outro lado, a pessoa que segue estritamente os deveres prescritos simplesmente não necessariamente alcançará resultados auspiciosos se for carente de Consciência de Krishna.

O significado pode ser entendido como se segue: A humanidade pode ser dividida em duas seções, chamadas, a regulada e a desregulada. Aqueles que estão dedicados simplesmente a desfrutes sensuais bestiais sem conhecimento sobre sua próxima vida ou salvação espiritual pertencem à seção desregulada. E os que seguem os princípios dos deveres prescritos nas escrituras são classificados na seção regulada. A seção desregulada, tanto civilizada quanto incivilizada, educada ou não educada, forte ou fraca, é cheia de propensões animalescas. Suas atividades nunca são auspiciosas, porque enquanto desfrutam as propensões animalescas de comer, dormir, defender-se e procriar, permanecem perpetuamente na existência material, que é sempre miserável. Por outro lado, os que são regulados pelos regulamentos das escrituras e assim se elevam gradualmente à Consciência de Krishna certamente progridem na vida.

Aqueles que seguem o caminho auspicioso podem ser divididos em três seções, a saber, 1) seguidores das regras e regulamentos das escrituras que desfrutam a prosperidade material, 2) aqueles que tentam encontrar a liberação última da existência material, e 3) aqueles que são devotos em Consciência de Krishna. Aqueles que seguem as regras e regulamentos das escrituras para felicidade material podem ser divididos ainda em duas classes: Os que são trabalhadores lucrativos e os que não desejam lucro para desfrute sensual. Os que procuram resultados lucrativos para desfrute sensual podem ser elevados a um padrão de vida superior; mesmo nos planetas superiores; ainda assim, porque não estão livres da existência material, não seguem o caminho auspicioso de verdade. As únicas atividades auspiciosas são aquelas que conduzem à liberação. Qualquer atividade que não é destinada à auto-realização última ou liberação do conceito corpóreo de vida não é auspiciosa de modo nenhum. Atividade em Consciência de Krishna é a única atividade auspiciosa, e qualquer um que aceite voluntariamente todos desconfortos corpóreos com o propósito de progredir no caminho da Consciência de Krishna pode ser chamado de transcendentalista perfeito sob severa austeridade. E como o sistema óctuplo de yoga é direcionado para a realização última da Consciência de Krishna, essa prática também é auspiciosa, e qualquer um que tenta o melhor possível sobre essa matéria não precisa temer a degradação.

Verso 41

prapya punya-krtam lokan
usitva sasvatih samah
sucinam srimatam gehe
yoga-bhrasto 'bhijayate

Tradução

O yogi sem sucesso, depois de muitos e muitos anos de desfrute nos planetas dos seres vivos piedosos, nasce numa família de pessoas justas, ou numa família rica da aristocracia.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Os yogis sem sucesso são divididos em duas classes: Aquele que caiu depois de muito pouco progresso, e aquele que caiu depois de longa prática do yoga. O yogi que caiu depois de um curto período de prática vai para os planetas superiores onde os seres vivos piedosos têm permissão para entrar. Depois de uma vida prolongada lá, é mandado de volta para este planeta, para nascer na família de um brahmana vaishnava justo ou de comerciantes aristocratas.

O verdadeiro propósito da prática de yoga é alcançar a perfeição máxima da Consciência de Krishna. Mas aqueles que não perseveram até esse ponto e falham devido a tentações materiais recebem permissão, pela graça do Senhor, para fazerem uso pleno de suas propensões materialistas. E depois disso, recebem oportunidades de viverem vidas prósperas em famílias justas ou aristocráticas. Aqueles que nascem nessas famílias podem aproveitar a vantagem das facilidades e tentarem se elevar até a Consciência de Krishna plena.

Verso 42

atha va yoginam eva
kule bhavati dhimatam
etad dhi durlabhataram
loke janma yad idrsam

Tradução

Ou nasce numa família de transcendentalistas que têm grande sabedoria com certeza. Na verdade, esse nascimento é muito raro neste mundo.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Nascimento numa família de yogis ou transcendentalistas; aqueles com grande conhecimento; é exaltado aqui porque a criança nascida nessa família recebe o ímpeto espiritual desde o início de sua vida. Esse é o caso especialmente em famílias acharya ou goswami. Essas famílias são muito eruditas e devotadas por tradição e treinamento, assim se tornam mestres espirituais. Existiam muitas dessas famílias acharya na Índia, mas agora se degradaram devido à educação e treinamento insuficientes. Pela graça do Senhor, ainda existem famílias que criam transcendentalistas geração após geração. Com certeza, é uma grande fortuna nascer nessas famílias. Felizmente, tanto nosso mestre espiritual, Om Vishnupada Sri Srimad Bhaktisiddhanta Sarasvati Goswami Maharaja, quanto esta humilde pessoa, tivemos a oportunidade de nascer nessas famílias, pela graça do Senhor, e nós dois fomos treinados no serviço devocional ao Senhor desde o início de nossas vidas. Mais tarde nos encontramos pela ordem do sistema transcendental.

Verso 43

tatra tam buddhi-samyogam
labhate paurva-dehikam
yatate ca tato bhuyah
samsiddhau kuru-nandana

Tradução

Ao aceitar esse nascimento, novamente revive a consciência divina de sua vida prévia, e tenta progredir mais a fim de alcançar o sucesso completo, ó filho de Kuru.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O rei Bharata, que nasceu na família de um bom brahmana, é um exemplo de bom nascimento para reviver a consciência transcendental prévia. O rei Bharata era o imperador do mundo, e desde seu tempo, este planeta é conhecido entre os semideuses como Bharata-varsha. Anteriormente era conhecido como Ilavrita-varsha. O imperador, na infância, retirou-se para a perfeição espiritual mas falhou em alcançar sucesso. Na sua vida seguinte, nasceu na família de um bom brahmana e ficou conhecido como Jada Bharata porque permanecia sempre recluso e não falava com ninguém. E mais tarde, foi descoberto como o maior transcendentalista pelo rei Rahugana. Pela vida dele, entendemos que os empenhos transcendentais, ou a prática de yoga, nunca é em vão. Pela graça do Senhor, o transcendentalista obtém oportunidades repetidas para completar a perfeição da Consciência de Krishna.

Verso 44

purvabhyasena tenaiva
hriyate hy avaso 'pi sah
jijnasur api yogasya
sabda-brahmativartate

Tradução

Em virtude de sua consciência divina da vida prévia, ele fica automaticamente atraído aos princípios do yoga; mesmo sem procurá-los. Esse transcendentalista inquisitivo, que se empenha por yoga, situa-se sempre acima dos princípios ritualísticos das escrituras.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Yogis avançados não têm muita atração pelos rituais das escrituras, mas ficam atraídos automaticamente aos princípios de yoga, que podem elevá-los até a Consciência de Krishna completa, a perfeição mais elevada do yoga. O Srimad Bhagavatam (3.33.7) explica esse desprezo dos transcendentalistas avançados pelos rituais Védicos como se segue:

aho bata sva-paco 'to gariyan
yaj-jihvagre vartate nama tubhyam
tepus tapas te juhuvuh sasnur arya
brahmanucur nama grnanti ye te

"Ó meu Senhor! Pessoas que cantam os santos nomes de Vossa Excelência são muito, muito mais avançados na vida espiritual, mesmo se nascidos em famílias de comedores de cachorro. Esses cantadores com certeza executaram todos tipos de austeridades e sacrifícios, banharam-se em todos locais sagrados, e concluíram todos estudos das escrituras".

O famoso exemplo a esse respeito foi presenciado pelo Senhor Chaitanya, que aceitou Thakura Haridasa como um de Seus discípulos mais importantes. Apesar do destino fazer Thakura Haridasa nascer numa família muçulmana, foi elevado ao posto de namacharya pelo Senhor Chaitanya por causa de seu cumprimento do voto rígido de cantar trezentos mil santos nomes do Senhor diariamente: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare. Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. E porque cantava o santo nome do Senhor constantemente, conclui-se que em sua vida prévia teve que passar por todos métodos ritualísticos dos Vedas, conhecidos como shabda-brahma. A menos, portanto, que a pessoa esteja purificada, não pode aceitar o princípio da Consciência de Krishna ou se tornar dedicada ao cantar do santo nome do Senhor, Hare Krishna.

Verso 45

prayatnad yatamanas tu
yogi samsuddha-kilbisah
aneka-janma-samsiddhas
tato yati param gatim

Tradução

Mas quando o yogi se dedica com empenho sincero em progredir mais, limpo de todas contaminações, então ultimamente, depois de muitos e muitos nascimentos de prática, alcança o objetivo supremo.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Uma pessoa nascida especialmente numa família justa, aristocrática ou sagrada se torna consciente de sua condição favorável para executar a prática de yoga. Com determinação, portanto, começa sua tarefa inacabada, e assim se limpa completamente de todas contaminações materiais. Quando finalmente fica livre de todas contaminações, alcança a perfeição suprema: Consciência de Krishna. Consciência de Krishna é o estágio perfeito de estar livre de todas contaminações. O Bhagavad-gita (7.28) confirma isso:

yesam tv anta-gatam papam
jananam punya-karmanam
te dvandva-moha-nirmukta
bhajante mam drdha-vratah

"Depois de muitos e muitos nascimentos na execução de atividades piedosas, quando a pessoa fica completamente livre de todas contaminações, e de todas dualidades ilusórias, então se torna dedicada ao serviço amoroso transcendental do Senhor".

Verso 46

tapasvibhyo 'dhiko yogi
jnanibhyo 'pi mato 'dhikah
karmibhyas cadhiko yogi
tasmad yogi bhavarjuna

Tradução

Um yogi é superior a um asceta, superior a um empírico e superior a um trabalhador lucrativo. Portanto, ó Arjuna, em todas circunstâncias, seja um yogi.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Quando falamos sobre yoga nos referimos à ligação da nossa consciência com a Suprema Verdade Absoluta. Esse processo é denominado diferentemente pelos vários praticantes em termos do método particular adotado. Quando o processo de ligação é predominantemente com atividades lucrativas, chama-se karma-yoga, quando é predominantemente empírico se chama jñana-yoga, e quando é predominantemente numa relação devocional com o Supremo Senhor se chama bhakti-yoga. Bhakti-yoga ou Consciência de Krishna é a perfeição última de todos yogas, como será explicado no verso seguinte. O Senhor confirmou aqui a superioridade do yoga, mas não mencionou que é melhor do que bhakti-yoga. Bhakti-yoga é conhecimento espiritual pleno, e nada pode superá-lo. Ascetismo sem autoconhecimento é imperfeito. Conhecimento empírico sem rendição ao Supremo Senhor também é imperfeito. E trabalho lucrativo sem Consciência de Krishna é uma perda de tempo. Portanto, a forma de yoga mais exaltada mencionada aqui é bhakti-yoga, e isso será explicado mais claramente no verso seguinte.

Verso 47

yoginam api sarvesam
mad-gatenantar-atmana
sraddhavan bhajate yo mam
sa me yuktatamo matah

Tradução

E de todos yogis, aquele que sempre se abriga em Mim com grande fé, e Me adora com serviço amoroso transcendental, é o mais intimamente unido Comigo em yoga e é o mais elevado de todos.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A palavra bhajate é muito significativa aqui. Bhajate tem sua raiz no verbo bhaj, que é usado quando há necessidade de serviço. A palavra portuguesa "adorar" não pode ser usada com o mesmo sentido de bhaj. Adorar quer dizer "adoração", ou mostrar respeito e honra à pessoa adorada. Mas serviço com amor e fé se destina especialmente à Suprema Personalidade de Deus. Alguém pode evitar adorar um homem respeitável ou um semideus e pode ser considerado descortês, mas ninguém pode evitar servir o Supremo Senhor sem ser completamente condenado. Cada ser vivo é parte e parcela da Suprema Personalidade de Deus, e por isso todo ser vivo é destinado a servir o Supremo Senhor por sua própria constituição. Quando falha nisso, cai. O Bhagavatam (11.5.3) confirma isso como se segue:

ya esam purusam saksad
atma-prabhavam isvaram
na bhajanty avajananti
sthanad bhrastah patanty adhah

"Qualquer um que não presta serviço e negligencia seu dever com o Senhor primordial, que é a fonte de todos seres vivos, certamente cai de sua posição constitucional".

Nesse verso, a palavra bhajanti também é usada. Por conseguinte, bhajanti se aplica somente ao Supremo Senhor, enquanto a palavra "adoração" pode ser aplicada a semideuses ou qualquer ser vivo comum. A palavra avajananti, usada nesse verso do Srimad Bhagavatam, também se encontra no Bhagavad-gita. Avajananti mam mudhah: "Somente tolos e insolentes menosprezam a Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Krishna". Esses tolos se atrevem a escrever comentários sobre o Bhagavad-gita sem uma atitude de serviço para o Senhor. Por conseguinte, não podem distinguir corretamente entre a palavra bhajanti e a palavra "adoração".

O acme de todos tipos de prática de yoga está em bhakti-yoga. Todos outros yogas são apenas meios para chegar ao ponto de bhakti em bhakti-yoga. Yoga na realidade significa bhakti-yoga; todos outros yogas são progressões em direção a bhakti-yoga. Desde o início de karma-yoga até o fim de bhakti-yoga, é um longo caminho para auto-realização. Karma-yoga, sem resultados lucrativos, é o começo desse caminho. Quando karma-yoga incrementa em conhecimento e renúncia, o estágio se chama jñana-yoga. Quando jñana-yoga incrementa em meditação na Superalma com vários processos físicos, e a mente se fixa Nele, chama-se astanga-yoga. E, quando a pessoa supera astanga-yoga e chega ao ponto da Suprema Personalidade de Deus Krishna, chama-se bhakti-yoga, ou o acme. Na realidade, bhakti-yoga é o objetivo supremo, mas para analisar bhakti-yoga minuciosamente, é preciso entender os outros yogas. O yogi que é progressivo está portanto no caminho da boa fortuna eterna. Aquele que pára num ponto particular e não faz mais progresso é chamado por um desses nomes específicos: karma-yogi, jñana-yogi ou dhyana-yogi, raja-yogi, hatha-yogi, etc.. Se a pessoa for afortunada o bastante para chegar ao ponto de bhakti-yoga, deve entender que superou todos outros yogas. Portanto, tornar-se consciente de Krishna é o estágio mais elevado do yoga, da mesma forma quando falamos sobre Himalaia nos referimos às montanhas mais altas do mundo, das quais o pico mais elevado, monte Everest, é considerado o acme.

Somente por grande fortuna que a pessoa chega à Consciência de Krishna no caminho de bhakti-yoga para ficar bem situada de acordo com a direção Védica. O yogi ideal concentra sua atenção em Krishna, que se chama Shyamasundara, que tem a bela cor de uma nuvem, cuja face como uma flor de lótus é tão brilhante quanto o Sol, cuja roupa brilha como jóias e cujo corpo tem colares de flores. Seu esplendor deslumbrante brilha em todos os lados, o qual se chama brahmajyoti. Ele encarna em várias formas como Rama, Nrisimha, Varaha e Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, e descende como um ser humano, como o filho de mãe Yashoda, e é conhecido como Krishna, Govinda e Vasudeva. Ele é o filho, esposo e mestre perfeitos, e é pleno de todas opulências e qualidades transcendentais. Se a pessoa permanecer plenamente consciente de todas essas características do Senhor, é chamada de yogi mais elevado.

Esse estágio de perfeição em yoga só pode ser alcançado com bhakti-yoga, como a literatura Védica confirma:

yasya deve para bhaktir
yatha deve tatha gurau
tasyaite kathita hy arthah
prakasante mahatmanah

"Unicamente para as grandes almas que têm fé absoluta tanto no Senhor quanto no mestre espiritual que todos significados do conhecimento Védico são revelados" (Swetasvatara Upanishad 6.23).

Bhaktir asya bhajanam tad ihamutropadhi-nairasyenamusmin manah-kalpanam, etad eva naiskarmyam. "Bhakti significa o serviço devocional ao Senhor que é livre do desejo por lucro material, tanto nesta vida quanto na próxima. Desprovida dessas inclinações, a pessoa deve absorver a mente plenamente no Supremo. Esse é o propósito de naiskarmya" (Gopala-tapani Upanishad 1.15).

Esses são alguns dos significados do desempenho de bhakti, ou Consciência de Krishna, o estágio de perfeição mais elevado do sistema de yoga.

 

Assim terminam os Significados Bhaktivedanta do Sexto Capítulo do Srimad Bhagavad-gita sobre a matéria de Sankhya-yoga Brahma-vidya.

 

 

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

Bhagavad-gita Como Ele É

(Original Sem "Correções")

de

Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya

 

Capítulo 7

Conhecimento do Absoluto

 

O Senhor Sri Krishna com um bezerro (Gopala-Krishna)

 

Verso 1

sri bhagavan uvaca
mayy asakta-manah partha
yogam yunjan mad-asrayah
asamsayam samagram mam
yatha jnasyasi tac chrnu

Tradução

Ó filho de Pritha (Arjuna), ouça agora sobre como pode Me conhecer integralmente por meio da prática do yoga com consciência plena em Mim, com a mente apegada a Mim, livre da dúvida.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Neste Sétimo Capítulo do Bhagavad-gita, a natureza da Consciência de Krishna é descrita integralmente. Krishna é pleno de todas opulências, e como Ele manifesta essas opulências é descrito aqui. Também, os quatro tipos de pessoas afortunadas que ficam apegadas a Krishna e os quatro tipos de pessoas desafortunadas que nunca aceitam Krishna são descritos neste capítulo.

Nos primeiros seis capítulos do Bhagavad-gita, o ser vivo foi descrito como alma espiritual não material que é capaz de se elevar até a auto-realização por meio de diferentes tipos de yoga. No fim do Sexto Capítulo, foi dito claramente que a constante concentração da mente em Krishna, ou em outras palavras, Consciência de Krishna, é a forma mais elevada de todo yoga. Por meio da concentração da mente em Krishna, a pessoa fica capacitada a conhecer a Verdade Absoluta completamente, e não existe outra forma. Realização do brahmajyoti impessoal ou do Paramatma localizado não é conhecimento perfeito da Verdade Absoluta porque é parcial. Conhecimento completo e científico é Krishna, e tudo é revelado à pessoa em Consciência de Krishna. Na Consciência de Krishna completa, a pessoa sabe que Krishna é o conhecimento supremo além de quaisquer dúvidas. Diferentes tipos de yoga são apenas degraus no caminho da Consciência de Krishna. A pessoa que aceita a Consciência de Krishna diretamente sabe automaticamente sobre brahmajyoti e Paramatma plenamente. Por meio da prática do yoga da Consciência de Krishna, a pessoa pode saber tudo plenamente; ou seja, a Verdade Absoluta, os seres vivos, a natureza material, e suas manifestações com sua parafernália.

Portanto, deve-se começar a prática de yoga como orientado no último verso do Sexto Capítulo. Concentração da mente em Krishna o Supremo é possível por meio do serviço devocional prescrito em nove formas diferentes, das quais shravanam é a primeira e a mais importante. Por isso que o Senhor diz para Arjuna, tac chrnu, ou "ouça de Mim". Ninguém pode ser uma autoridade maior do que Krishna, por isso que ouvir Dele faz com que a pessoa receba a maior oportunidade para progredir na Consciência de Krishna. Portanto, deve-se aprender de Krishna diretamente ou do devoto puro de Krishna; e não de um não-devoto arrogante e orgulhoso com educação acadêmica.

O Segundo Capítulo do Primeiro Canto do Srimad Bhagavatam descreve esse processo da compreensão de Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, como se segue (Bhag. 1.2.17-21):

srnvatam sva-kathah krsnah
punya-sravana-kirtanah
hrdy antah-stho hy abhadrani
vidhunoti suhrt satam

nasta-prayesv abhadresu
nityam bhagavata-sevaya
bhagavaty uttama-sloke
bhaktir bhavati naisthiki

tada rajas-tamo-bhavah
kama-lobhadayas ca ye
ceta etair anaviddham
sthitam sattve prasidati

evam prasanna-manaso
bhagavad-bhakti-yogatah
bhagavat-tattva-vijnanam
mukta-sangasya jayate

bhidyate hrdaya-granthis
chidyante sarva-samsayah
ksiyante casya karmani
drsta evatmanisvare

"Ouvir sobre Krishna das literaturas Védicas, ou ouvir diretamente Dele por meio do Bhagavad-gita, é uma atividade louvável. E para a pessoa que ouve sobre Krishna, o Senhor Krishna, que habita no coração de todos, age como o amigo mais benquerente e purifica o devoto que se dedica a ouvir sobre Ele constantemente. Dessa forma, o devoto desenvolve naturalmente seu conhecimento transcendental dormente. Quanto mais ele ouve sobre Krishna do Bhagavatam e dos devotos, mais fica fixo no serviço devocional ao Senhor. Com o desenvolvimento do serviço devocional, a pessoa fica livre dos modos da paixão e da ignorância, assim as luxúrias e avareza materiais diminuem. Quando essas impurezas são eliminadas, o candidato permanece constante em sua posição de bondade pura, fica animado pelo serviço devocional e entende a ciência de Deus perfeitamente. Assim, bhakti-yoga desata o nó cego da afeição material e capacita a pessoa a chegar imediatamente ao estágio de asamsayam-samagram, compreensão da Suprema Verdade Absoluta da Personalidade de Deus".

Portanto, unicamente por ouvir de Krishna ou de Seu devoto em Consciência de Krishna que a pessoa pode entender a ciência de Krishna.

Verso 2

jnanam te 'ham sa-vijnanam
idam vaksyamy asesatah
yaj jnatva neha bhuyo 'nyaj
jnatavyam avasisyate

Tradução

Agora, Eu vou revelar a você na íntegra esse conhecimento tanto fenomenal quanto natural, o qual quando conhecido não resta mais nada a ser conhecido.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Conhecimento completo inclui conhecimento do mundo fenomenal e do espiritual por trás dele. A fonte de ambos é o conhecimento transcendental. O Senhor deseja explicar o sistema de conhecimento acima mencionado porque Arjuna é devoto e amigo íntimo de Krishna. O Senhor dá essa explicação no começo do Quarto Capítulo, e aqui é confirmada novamente; conhecimento completo só pode ser obtido pelo devoto do Senhor diretamente do Senhor na sucessão discipular. Portanto, a pessoa tem que ser inteligente o bastante para conhecer a fonte de todo conhecimento, que é a causa de todas as causas e o único objeto de meditação em todos tipos de prática de yoga. Quando se conhece a causa de todas as causas, então tudo que é para ser conhecido se torna conhecido, e não resta mais nada para conhecer. Os Vedas (Mundaka Upanishad 1.3) afirmam: kasmin bhagavo vijnate sarvam idam vijnatam bhavati.

Verso 3

manusyanam sahasresu
kascid yatati siddhaye
yatatam api siddhanam
kascin mam vetti tattvatah

Tradução

Entre muitos milhares de pessoas, uma pode se esforçar pela perfeição, e entre as que alcançaram a perfeição, dificilmente uma Me conhece de verdade.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Existem vários graus de pessoas, e entre muitos milhares, uma pode se interessar o suficiente pela realização transcendental para tentar saber o que é o eu, o que é o corpo, e o que é a Verdade Absoluta. Geralmente, a humanidade simplesmente se dedica às propensões animalescas, ou seja, comer, dormir, defender-se e reproduzir, e dificilmente alguém se interessa pelo conhecimento transcendental. Os seis primeiros capítulos do Gita se destinam àqueles que se interessam pelo conhecimento transcendental, pelo entendimento do eu, do Supereu e do processo de realização por meio de jñana-yoga, dhyana-yoga e discriminação do eu da matéria. Entretanto, Krishna só pode ser conhecido por pessoas que estão em Consciência de Krishna. Outros transcendentalistas podem alcançar a realização do Brahman impessoal, porque é mais fácil do que entender Krishna. Krishna é a Pessoa Suprema, porém ao mesmo tempo Ele está além do conhecimento sobre Brahman e Paramatma. Os yogis e jñanis ficam confusos em suas tentativas para entender Krishna, apesar do maior dos impersonalistas, Sripada Shankaracharya, admitir em seu comentário do Gita que Krishna é a Suprema Personalidade de Deus. Mas seus seguidores não aceitam Krishna dessa forma, porque é muito difícil conhecer Krishna, mesmo se a pessoa tiver a realização transcendental do Brahman impessoal.

Krishna é a Suprema Personalidade de Deus, a causa de todas as causas, o Senhor Govinda primordial. isvarah paramah krsnah sac-cid-ananda-vigrahah. anadir adir govindah sarva-karana-karanam. É muito difícil os não-devotos entendê-Lo. Apesar dos não-devotos alegarem que o caminho de bhakti ou serviço devocional é muito fácil, não conseguem praticá-lo. Se o caminho de bhakti é tão fácil, como alega a classe de pessoas não-devotas, então por que seguem o caminho mais difícil? Na realidade, o caminho de bhakti não é fácil. O assim chamado caminho de bhakti praticado por pessoas desautorizadas sem conhecimento sobre bhakti pode ser fácil, mas quando praticado realmente de acordo com suas regras e regulamentos, os catedráticos e filósofos especulativos caem do caminho. Sri Rupa Goswami escreve em seu Bhakti-rasamrita-sindhu (1.2.101):

sruti-smrti-puranadi-
pancaratra-vidhim vina
aikantiki harer bhaktir
utpatayaiva kalpate

"Serviço devocional ao Senhor que ignora as literaturas Védicas autorizadas como os Upanishads, Puranas, Narada-pancharatra etc. é simplesmente uma perturbação desnecessária na sociedade".

Não é possível o impersonalista realizado no Brahman ou o yogi realizado em Paramatma entender Krishna a Suprema Personalidade de Deus como o filho de mãe Yashoda ou o cocheiro de Arjuna. Mesmo grandes semideuses às vezes ficam confusos sobre Krishna (muhyanti yat surayah). mam tu veda na kascana: "Ninguém Me conhece como Eu sou", o Senhor afirma. E se alguém O conhece, então sa mahatma su-durlabhah. "Tal grande alma é muito rara". Portanto, a menos que a pessoa pratique serviço devocional ao Senhor, não pode conhecer Krishna como Ele é (tattvatah), mesmo se for um grande catedrático erudito ou filósofo. Unicamente os devotos puros podem saber algo sobre as inconcebíveis qualidades transcendentais de Krishna, como a causa de todas as causas, Sua onipotência e opulência, e Sua riqueza, fama, poder, beleza, conhecimento e renúncia, porque Krishna tem uma inclinação benevolente para Seus devotos. Ele é a última palavra em realização Brahman, e unicamente os devotos podem realizá-Lo como Ele é. Assim, é dito:

atah sri-krsna-namadi
na bhaved grahyam indriyaih
sevonmukhe hi jihvadau
svayam eva sphuraty adah

"Ninguém pode entender Krishna como Ele é por meio dos sentidos materiais embotados. Porém, Ele Se revela aos devotos, quando fica satisfeito com eles por causa de seu serviço amoroso transcendental a Ele" (Bhakti-rasamrita-sindhu 1.2.234)

Verso 4

bhumir apo 'nalo vayuh
kham mano buddhir eva ca
ahankara itiyam me
bhinna prakrtir astadha

Tradução

Terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e ego falso; essas oito juntas constituem Minhas energias materiais separadas.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A ciência de Deus analisa a posição constitucional de Deus e Suas diversas energias. A natureza material se chama prakriti, ou a energia do Senhor em Suas diferentes encarnações purusha (expansões) como descrito no Satvata-tantra:

visnos tu trini rupani
purusakhyany atho viduh
ekam tu mahatah srastr
dvitiyam tv anda-samsthitam
trtiyam sarva-bhuta-stham
tani jnatva vimucyate

"Para a criação material, a expansão plenária do Senhor Krishna assume três Vishnus. O primeiro, Maha-Vishnu, cria a energia material total, conhecida como mahat-tattva. O segundo, Garbhodakashayi Vishnu, entra em todos universos para criar diversidades em cada um deles. O terceiro, Kshirodakashayi Vishnu, se propaga como a Superalma todo-penetrante em todos universos e é conhecido como Paramatma, que está presente mesmo dentro dos átomos. Qualquer um que conhece esses três Vishnus pode ser liberado do enredamento material".

Este mundo material é uma manifestação temporária de uma das energias do Senhor. Todas atividades do mundo material são dirigidas por essas três expansões Vishnu do Senhor Krishna. Esses purushas se chamam encarnações. Geralmente, quem não conhece a ciência de Deus (Krishna) assume que este mundo material é para o desfrute dos seres vivos e que os seres vivos são as causas (purushas), controladores e desfrutadores da energia material. Segundo o Bhagavad-gita, essa conclusão ateísta é falsa. O verso em discussão afirma que Krishna é a causa original da manifestação material. O Srimad Bhagavatam também confirma isso. Os ingredientes da manifestação material são energias separadas do Senhor. Mesmo o brahmajyoti, que é a meta última dos impersonalistas, é uma energia espiritual manifesta no céu espiritual. Não existem diversidades espirituais no brahmajyoti da mesma forma como existem nos Vaikunthalokas, e o impersonalista aceita esse brahmajyoti como o objetivo eterno último. A manifestação Paramatma também é um aspecto todo-penetrante temporário do Kshirodakashayi Vishnu. A manifestação Paramatma não é eterna no mundo espiritual. Portanto, a verdadeira Verdade Absoluta é a Suprema Personalidade de Deus Krishna. Ele é a pessoa energética completa, e possui diferentes energias separadas e internas.

Na energia material, as manifestações principais são oito, com mencionado acima. Dessas oito, as primeiras cinco manifestações, terra, água, fogo, ar e céu, são chamadas de cinco criações gigantescas ou criações grosseiras, nas quais os cinco objetos dos sentidos estão inclusos. São as manifestações físicas de som, tato, forma, paladar e olfato. Ciência material compreende esses dez itens e nada mais. Porém os outros três itens, mente, inteligência e ego falso, são desprezados pelos materialistas. Filósofos que lidam com atividades mentais também não são perfeitos em conhecimento porque não conhecem a fonte última, Krishna. O ego falso; "eu sou" e "é meu"; que constitui o princípio básico da existência material, inclui os dez órgãos para atividades materiais. Inteligência se refere à criação material total, chamada mahat-tattva. Portanto, das oito energias separadas do Senhor se manifestam os vinte e quatro elementos do mundo material, que são a matéria da filosofia Sankhya ateísta; são originalmente ramos das energias de Krishna e são separados Dele, mas os filósofos da Sankhya ateísta com um pobre fundo de conhecimento não conhecem Krishna como a causa de todas as causas. A matéria de discussão da filosofia Sankhya é apenas a manifestação da energia externa de Krishna, como descrito no Bhagavad-gita.

Verso 5

apareyam itas tv anyam
prakrtim viddhi me param
jiva-bhutam maha-baho
yayedam dharyate jagat

Tradução

Além desta energia inferior, ó Arjuna de braços poderosos, existe uma energia superior Minha, que compreende todos seres vivos que lutam com a natureza material e sustentam o universo.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Aqui se menciona claramente que os seres vivos pertencem à natureza superior (ou energia) do Supremo Senhor. A energia inferior é a matéria manifesta em diferentes elementos, chamados terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e ego falso. Ambas formas da natureza material, chamadas grosseira (terra, etc.) e sutil (mente, etc.), são produtos da energia inferior. Os seres vivos, que exploram essas energias inferiores para diferentes propósitos, são a energia superior do Supremo Senhor, e é por causa dessa energia que o mundo material inteiro funciona. A manifestação cósmica não tem poder de ação a menos que seja movida pela energia superior, o ser vivo. Energias são sempre controladas pelo energético, e portanto os seres vivos são sempre controlados pelo Senhor; não têm existência independente. Nunca são igualmente poderosos, como pessoas não inteligentes pensam. A distinção entre os seres vivos e o Senhor é descrita no Srimad Bhagavatam (10.87.30) como se segue:

aparimita dhruvas tanu-bhrto yadi sarva-gatas
tarhi na sasyateti niyamo dhruva netaratha
ajani ca yan-mayam tad avimucya niyantr bhavet
samam anujanatam yad amatam mata-dustataya

"Ó Supremo Eterno! Se os seres vivos corporificados fossem eternos e todo-penetrantes como Você, então não estariam sob Seu controle. Mas se os seres vivos forem aceitos como energias minúsculas de Vossa Excelência, então são imediatamente sujeitos a Seu controle supremo. Portanto, verdadeira liberação exige a rendição dos seres vivos ao Seu controle, e essa rendição os fará felizes. Unicamente nessa posição constitucional que eles podem ser controladores. Assim, pessoas com conhecimento limitado que defendem a teoria monista de que Deus e os seres vivos são iguais em todos aspectos na realidade se desencaminham e outros também".

O Supremo Senhor Krishna é o único controlador, e todos seres vivos são controlados por Ele. Esses seres vivos são Sua energia superior porque a qualidade de sua existência é idêntica e igual à do Supremo, porém nunca são iguais ao Senhor em quantidade de poder. Enquanto explora a energia inferior grosseira e sutil (matéria), a energia superior (o ser vivo) esquece sua verdadeira mente e inteligência espirituais. Esse esquecimento se deve à influência da matéria sobre o ser vivo. Mas quando o ser vivo fica livre da influência da energia ilusória material, alcança o estágio chamado mukti, ou liberação. O ego falso, sob influência da ilusão material, pensa: "Eu sou matéria e as aquisições materiais são minhas". Sua posição verdadeira é realizada quando fica liberado de todas idéias materiais, inclusive a concepção de se tornar um com Deus em todos aspectos. Por conseguinte, podemos concluir que o Gita confirma o ser vivo como uma das múltiplas energias de Krishna; e quando essa energia fica livre da contaminação material, torna-se plenamente consciente de Krishna, ou liberada.

Verso 6

etad yonini bhutani
sarvanity upadharaya
aham krtsnasya jagatah
prabhavah pralayas tatha

Tradução

De tudo que é material e tudo que é espiritual neste mundo, saiba com certeza que Eu sou tanto sua origem quanto dissolução.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Tudo que existe é um produto de matéria e espírito. Espírito é o campo básico da criação, e a matéria é criada pelo espírito. Espírito não é criado em um certo estágio do desenvolvimento material. Em vez disso, este mundo material se manifesta unicamente com base na energia espiritual. Este corpo material se desenvolve por causa do espírito que está presente dentro da matéria; uma criança cresce gradualmente da infância para a maioridade por causa da energia superior, alma espiritual, que está presente. Similarmente, a manifestação cósmica inteira do universo gigantesco se desenvolve por causa da presença da Superalma, Vishnu. Assim, espírito e matéria, que se combinam juntas para manifestar a gigantesca forma universal, são originalmente duas energias do Senhor, e por conseguinte o Senhor é a causa original de tudo. Uma parte e parcela fragmentada do Senhor, chamada ser vivo, por meio da manipulação da energia material, pode construir um arranha-céu, uma fábrica, ou cidade, mas não pode criar matéria a partir de nada, e com certeza não pode construir um planeta ou um universo. A causa do universo é a Superalma, Krishna, o criador Supremo de todas almas individuais e a causa original de todas as causas, como o Katha Upanishad (2.2.13) confirma (nityo nityanam cetanas cetananam).

Verso 7

mattah parataram nanyat
kincid asti dhananjaya
mayi sarvam idam protam
sutre mani-gana iva

Tradução

Ó conquistador de riqueza (Arjuna), não existe verdade superior a Mim. Tudo repousa em Mim, como pérolas enfiadas num cordão.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Existe uma controvérsia comum se a Suprema Verdade Absoluta é pessoal ou impessoal. No que diz respeito ao Bhagavad-gita, a Verdade Absoluta é a Personalidade de Deus Sri Krishna, e isso é confirmado em cada passo. Neste verso, em particular, há ênfase de que a Verdade Absoluta é uma pessoa. Que a Personalidade de Deus é a Suprema Verdade Absoluta também é a afirmação do Brahma-samhita: isvarah paramah krsnah sac-cid-ananda-vigrahah; ou seja, a Suprema Verdade Absoluta da Personalidade de Deus é o Senhor Krishna, que é o Senhor primordial, o reservatório de todo prazer, Govinda, e a forma eterna de bem-aventurança e conhecimento completos. Essas autoridades não deixam dúvida de que a Verdade Absoluta é a Pessoa Suprema, a causa de todas as causas. O impersonalista, entretanto, argumenta com a força da versão Védica dada no Swetasvatara Upanishad (3.10): tato yad uttarataram tad arupam anamayam. ya etad vidur amrtas te bhavanti athetare duhkham evapiyanti. "No mundo material, Brahma, o ser vivo primordial dentro do universo, é aceito como o supremo entre semideuses, seres humanos e animais inferiores. Mas além de Brahma existe a Transcendência que não tem forma material e é livre de todas contaminações materiais. Qualquer um que venha a conhecê-Lo também se torna transcendental, mas aqueles que não O conhecem sofrem as misérias do mundo material".

Os impersonalistas enfatizam mais a palavra arupam. Mas essa arupam não é impessoal. Indica a forma transcendental de eternidade, bem-aventurança e conhecimento como descrita no Brahma-samhita citado acima. Outros versos do Swetasvatara Upanishad (3.8-9) reforçam isso como se segue:

vedaham etam purusam mahantam
aditya-varnam tamasah parastat
tam eva viditvati mrtyum eti
nanyah pantha vidyate 'yanaya

yasmat param naparam asti kincid
yasman naniyo no jyayo 'sti kincit
vrksa iva stabdho divi tisthaty ekas
tenedam purnam purusena sarvam

"Eu conheço a Suprema Personalidade de Deus que é transcendental a todas concepções materiais de escuridão. Unicamente quem O conhece pode transcender os cativeiros de nascimento e morte. Não existe outra forma de liberação além desse conhecimento sobre a Pessoa Suprema".

"Não existe verdade superior a essa Pessoa Suprema porque Ele é maior do que o maior. Ele Se situa como uma árvore silenciosa, e Ele ilumina o céu transcendental, e do mesmo modo como uma árvore propaga suas raízes, Ele propaga Suas energias extensivas".

Concluímos nesses versos que a Suprema Verdade Absoluta é a Suprema Personalidade de Deus que é todo-penetrante com Suas múltiplas energias, tanto materiais quanto espirituais.

Verso 8

raso 'ham apsu kaunteya
prabhasmi sasi-suryayoh
pranavah sarva-vedesu
sabdah khe paurusam nrsu

Tradução

Ó filho de Kunti (Arjuna), Eu sou o sabor da água, a luz do Sol e da Lua, a sílaba om nos mantras Védicos; Eu sou o som no éter e a habilidade do ser humano.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Este verso explica como o Senhor é todo-penetrante com Suas diversas energias materiais e espirituais. O Supremo Senhor pode ser percebido primariamente por Suas diferentes energias, e é realizado impessoalmente dessa forma. Do mesmo modo como o semideus dentro do Sol é uma pessoa e é percebido por sua energia todo-penetrante, o brilho do Sol, similarmente o Senhor, apesar de estar em Sua morada eterna, é percebido por meio de Suas energias difusas todo-penetrantes. O sabor da água é o princípio ativo da água. Ninguém gosta de beber água do mar porque o sabor puro da água está misturado com sal. Atração pela água depende da pureza de seu sabor, e esse sabor puro é uma das energias do Senhor. O impersonalista percebe a presença do Senhor na água com o sabor dela, e o personalista também glorifica o Senhor por Seu bondoso fornecimento de água para saciar a sede das pessoas. Essa é a forma de perceber o Supremo. Na prática, não existe conflito entre personalismo e impersonalismo. A pessoa que conhece Deus sabe que o conceito impessoal e o conceito pessoal estão presentes simultaneamente em tudo e não existe contradição. Dessa forma, o Senhor Chaitanya estabeleceu Sua doutrina sublime: acintya-bheda e abheda-tattva; simultaneamente um e diferente.

A luz do Sol e da Lua também emanam originalmente do brahmajyoti, que é o brilho impessoal do Senhor. Similarmente, pranava ou o som transcendental omkara no começo de todo hino Védico para se dirigir ao Supremo Senhor também emana Dele. Porque os impersonalistas têm muito medo de se dirigirem ao Supremo Senhor Krishna por meio de Seus inumeráveis nomes; preferem vibrar o som transcendental omkara. Mas não realizam que o omkara é a representação sonora de Krishna. A jurisdição da Consciência de Krishna se estende em toda parte, e a pessoa que conhece a Consciência de Krishna é abençoada. As que não conhecem Krishna estão na ilusão, e assim, conhecimento sobre Krishna é liberação, e ignorância sobre Ele é cativeiro.

Verso 9

punyo gandhah prthivyam ca
tejas casmi vibhavasau
jivanam sarva-bhutesu
tapas casmi tapasvisu

Tradução

Eu sou a fragrância original da terra, e Eu sou o calor do fogo. Eu sou a vida de tudo que vive, e Eu sou as penitências dos ascetas.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Punya significa aquilo que não é decomposto; punya é original. Tudo no mundo material tem um certo sabor ou fragrância, como o sabor e a fragrância de uma flor, ou da terra, da água, do fogo, do ar, etc.. O sabor não contaminado, o sabor original, que permeia tudo, é Krishna. Similarmente, tudo tem um gosto original particular, e esse gosto pode ser modificado com a mistura de substâncias químicas. Assim, tudo original tem algum aroma, alguma fragrância e algum sabor. Vibhava significa fogo. Sem fogo, não podemos funcionar fábricas, não podemos cozinhar, etc., e esse fogo é Krishna. O calor do fogo é Krishna. Segundo a medicina Védica, indigestão é por causa de baixa temperatura no estômago. Assim, o fogo é necessário até para a digestão. Na Consciência de Krishna, ficamos cientes de que terra, água, fogo, ar e todo princípio ativo, todas substâncias químicas e todos elementos materiais são por causa de Krishna. A duração de vida das pessoas também se deve a Krishna. Portanto, pela graça de Krishna, a pessoa pode prolongar ou diminuir sua vida. Dessa forma, a Consciência de Krishna é ativa em cada esfera.

Verso 10

bijam mam sarva-bhutanam
viddhi partha sanatanam
buddhir buddhimatam asmi
tejas tejasvinam aham

Tradução

Ó filho de Pritha, saiba que Eu sou a semente original de todas existências, a inteligência do inteligente, e a perícia de toda pessoa poderosa.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Bijam quer dizer semente; Krishna é a semente de tudo. Em contato com a natureza material, a semente frutifica em vários seres vivos, móveis e inertes. Pássaros, animais, humanos e muitas outras criaturas vivas são seres vivos móveis; árvores e plantas, entretanto, são inertes; não podem se mover, porém ficam parados. Toda entidade está contida no âmbito de 8.400.000 espécies de vida; algumas delas são móveis e algumas delas são inertes. Em todos os casos, entretanto, a semente de sua vida vem de Krishna. Como a literatura Védica afirma, Brahman, ou a Verdade Absoluta Suprema, é aquilo de onde tudo emana. Krishna é Parabrahman, o Espírito Supremo. Brahman é impessoal e Parabrahman é pessoal. O Brahman impessoal está situado no aspecto pessoal, isso é afirmado no Bhagavad-gita. Portanto, originalmente, Krishna é a fonte de tudo. Ele é a raiz. Da mesma forma como a raiz da árvore mantém a árvore inteira, Krishna, como é a raiz de todas as coisas, mantém tudo nesta manifestação material. Isso também é confirmado na literatura Védica. yato va imani bhutani jayante. "A Suprema Verdade Absoluta é aquilo de onde tudo nasce". Ele é o primordial eterno entre todos eternos. Ele é o ser vivo supremo entre todos seres vivos, e Ele sozinho mantém toda a vida. Krishna também diz que Ele é a raiz de toda inteligência. A menos que a pessoa seja inteligente, não pode entender a Suprema Personalidade de Deus, Krishna.

Verso 11

balam balavatam caham
kama-raga-vivarjitam
dharmaviruddho bhutesu
kamo 'smi bharatarsabha

Tradução

Eu sou a força dos fortes, desprovida de paixão e desejo. Eu sou a vida sexual que não é contrária aos princípios religiosos, ó senhor dos Bharatas (Arjuna).

Iluminação de Srila Prabhupada:

A força da pessoa forte deve ser aplicada para proteger o fraco, não para agressão pessoal. Similarmente, vida sexual, segundo os princípios religiosos (dharma), deve ser para a propagação de filhos, e não de outra forma. A responsabilidade dos pais é tornar seus filhos conscientes de Krishna.

Verso 12

ye caiva sattvika bhava
rajasas tamasas ca ye
matta eveti tan viddhi
na tv aham tesu te mayi

Tradução

Todos estados de existência, sejam de bondade, paixão ou ignorância, são manifestos por Minha energia. Eu sou, em um sentido, tudo; mas Eu sou independente. Eu não estou sob os modos desta natureza material.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Todas atividades no mundo são conduzidas sob os três modos da natureza material. Apesar desses modos da natureza serem emanações do Supremo Senhor, Krishna, Ele não está sujeito a eles. Por exemplo, uma pessoa pode ser punida pelas leis do estado, mas o rei, aquele que faz as leis, não está sujeito às leis. Similarmente, todos modos da natureza material; bondade, paixão e ignorância; são emanações do Supremo Senhor Krishna, mas Krishna não está sujeito à natureza material. Portanto, Ele é nirguna, significa que esses gunas, ou modos, apesar de nascerem Dele, não O afetam. Essa é uma das características especiais de Bhagavan, ou a Suprema Personalidade de Deus.

Verso 13

tribhir guna-mayair bhavair
ebhih sarvam idam jagat
mohitam nabhijanati
mam ebhyah param avyayam

Tradução

Iludido pelos três modos (bondade, paixão e ignorância), o mundo inteiro não Me conhece, Eu que estou acima dos modos e sou inexaurível.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O mundo inteiro está enfeitiçado pelos três modos da natureza material. Aqueles que estão iludidos por esses três modos não podem entender que o Supremo Senhor, Krishna, é transcendental a esta natureza material. Todos neste mundo material estão sob a influência desses três gunas e por isso ficam confusos.

Conforme a natureza, os seres vivos têm tipos de corpos específicos e tipos particulares de atividades psíquicas e biológicas de acordo. Existem quatro tipos de pessoas que atuam nos três modos da natureza material. As que estão puramente no modo da bondade são chamadas brahmanas. As que estão puramente no modo da paixão são chamadas kshatriyas. As que estão nos modos da paixão e ignorância misturados são chamadas vaishyas. As que estão na ignorância completa são chamadas shudras. E as que estão abaixo disso são animais ou têm vida animalesca. Entretanto, essas designações não são permanentes. Eu posso ser tanto um brahmana, kshatriya, vaishya ou qualquer coisa; em qualquer caso, esta vida é temporária. Mas apesar da vida ser temporária e não sabermos o que vamos ser na próxima vida, ainda assim, por causa do encanto da energia ilusória, nos consideramos sob a luz de nosso conceito corpóreo de vida, e assim pensamos que somos americano, indiano, russo ou brahmana, hindu, muçulmano, etc.. E se ficamos enredados nos modos da natureza material, então esquecemos a Suprema Personalidade de Deus que está por trás de todos esses modos. Por isso que o Senhor Krishna afirma que as pessoas, iludidas pelos três modos da natureza material, não entendem que por trás dos bastidores está o Deus Supremo.

Existem muitos tipos diferentes de seres vivos; seres humanos, semideuses, animais, etc.; e cada e todos eles estão sob a influência da natureza material, e todos esqueceram a Personalidade de Deus transcendental. Os que estão nos modos da paixão e ignorância, e mesmo os que estão no modo da bondade, não podem ir além do conceito Brahman impessoal da Verdade Absoluta. Ficam confusos perante o Supremo Senhor em Seu aspecto pessoal, que possui toda beleza, opulência, conhecimento, força, fama e renúncia. Mesmo os que estão na bondade não podem entender, o que esperar de quem está na paixão e ignorância? Consciência de Krishna é transcendental a todos esses três modos da natureza material, e quem está verdadeiramente estabelecido em Consciência de Krishna é realmente liberado.

Verso 14

daivi hy esa guna-mayi
mama maya duratyaya
mam eva ye prapadyante
mayam etam taranti te

Tradução

Esta Minha energia divina, que consiste dos três modos da natureza material, é difícil de superar. Mas aqueles que se renderam a Mim podem atravessá-la facilmente.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A Suprema Personalidade de Deus possui inumeráveis energias, e todas essas energias são divinas. Apesar dos seres vivos serem parte de Suas energias e portanto serem divinos, devido ao contato com a energia material, seu poder superior original fica coberto. Assim coberto pela energia material, não é possível superar sua influência. Como já foi dito, ambas naturezas material e espiritual, como são emanações da Suprema Personalidade de Deus, são eternas. Os seres vivos pertencem à natureza superior eterna do Senhor, mas por causa da contaminação pela natureza inferior, matéria, sua ilusão também é eterna. Por isso, a alma condicionada é chamada nitya-baddha, ou condicionada eternamente. Ninguém pode determinar o histórico de quando se tornou condicionado numa data específica da história material. Por conseguinte, sua liberdade das garras da natureza material é muito difícil, mesmo que a natureza material seja uma energia inferior, porque a energia material é conduzida ultimamente pela vontade suprema, a qual o ser vivo não pode vencer. A natureza material inferior é definida aqui como natureza divina por causa de sua conexão divina e movimentação pela vontade divina. Como é conduzida pela vontade divina, a natureza material, apesar de inferior, age de forma tão maravilhosa na construção e destruição da manifestação cósmica. Os Vedas confirmam isso com se segue:

mayam tu prakrtim vidyan mayinam tu mahesvaram

"Apesar de maya (ilusão) ser falsa e temporária, a base de maya é o mágico supremo, a Personalidade de Deus, que é Mahesvara, o supremo controlador" (Swetasvatara Upanishad 4.10).

Outro significado de guna é corda; entende-se que a alma condicionada está fortemente atada pelas cordas da ilusão. Uma pessoa com as mãos e pernas amarradas não consegue se soltar; precisa da ajuda de outra pessoa que não esteja presa. Como o preso não pode ajudar outro preso, o salvador tem que ser livre. Portanto, unicamente o Senhor Krishna, ou Seu representante fidedigno, o mestre espiritual, pode libertar a alma condicionada. Sem essa ajuda superior, ninguém pode se livrar do cativeiro da natureza material. Serviço devocional, ou Consciência de Krishna, pode ajudar a pessoa a obter esse salvamento. Krishna, como é o Senhor da energia ilusória, pode ordenar a esta energia ilusória invencível que liberte a alma condicionada. Ele ordena essa liberdade devido à Sua misericórdia sem causa pelos seres rendidos e por Sua afeição paternal pelo ser vivo, que é originalmente um filho querido do Senhor. Portanto, rendição aos pés de lótus do Senhor é o único meio de se livrar das garras da severa natureza material.

As palavras mam eva também são significativas. Mam quer dizer unicamente a Krishna (Vishnu), e não Brahma ou Shiva. Apesar de Brahma e Shiva serem altamente elevados e estarem quase no nível de Vishnu, não é possível para essas encarnações de rajo-guna (paixão) e tamo-guna (ignorância) libertarem a alma condicionada das garras de maya. Em outras palavras, tanto Brahma quanto Shiva também estão sob a influência de maya. Unicamente Vishnu é o senhor de maya; por isso que somente Ele pode libertar a alma condicionada. Os Vedas (Swetasvatara Upanishad 3.8) confirmam isso na frase tam eva viditva. "Liberdade só é possível com o entendimento sobre Krishna". Mesmo o Senhor Shiva afirma que liberação só pode ser alcançada pela misericórdia de Vishnu. O Senhor Shiva diz:

mukti-pradata sarvesam visnur eva na samsayah

"Não há dúvida de que Vishnu é aquele que concede liberação a todos".

Verso 15

na mam duskrtino mudhah
prapadyante naradhamah
mayayapahrta-jnana
asuram bhavam asritah

Tradução

Os infames que são grosseiramente tolos, os mais baixos da humanidade, aqueles cujo conhecimento é roubado pela ilusão, e os que compartilham a natureza ateísta dos demônios, não se rendem a Mim.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O Bhagavad-gita afirma que simplesmente por se render aos pés de lótus da Suprema Personalidade Krishna, a pessoa pode superar as leis severas da natureza material. Neste ponto, surge a pergunta: Como é que educados filósofos, cientistas, empresários, administradores e todos tipos de líderes de pessoas ordinárias não se rendem aos pés de lótus de Sri Krishna, a todo-poderosa Personalidade de Deus? Mukti, ou liberação das leis da natureza material, é procurada pelos líderes da humanidade de maneiras diferentes e com grandes planos e perseverança durante muitíssimos anos e nascimentos. Mas se a liberação é possível com a simples rendição aos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus, então por que esses líderes inteligentes e trabalhadores árduos não adotam esse método simples?

O Gita responde essa pergunta com muita franqueza. Aqueles que são líderes realmente sábios da sociedade como Brahma, Shiva, Kapila, os Kumaras, Manu, Vyasa, Devala, Asita, Janaka, Prahlada, Bali, e posteriormente, Madhwacharya, Ramanujacharya, Sri Chaitanya e vários outros; que são filósofos, políticos, educadores, cientistas, etc. sinceros; rendem-se aos pés de lótus da Pessoa Suprema, a autoridade todo-poderosa. Aqueles que não são realmente filósofos, cientistas, educadores, administradores, etc., mas que se apresentam dessa forma a fim de obterem ganho material, não aceitam o plano ou caminho do Supremo Senhor. Eles não têm nenhuma idéia sobre Deus; eles apenas manufaturam seus próprios planos mundanos e assim complicam os problemas da existência material em suas tentativas vãs de solucioná-los. Porque a energia material é tão poderosa, pode resistir aos planos desautorizados dos ateístas e pode confundir o conhecimento das "comissões de planejamento".

Os planejadores ateístas são descritos aqui com a palavra duskrtina, ou "infames". Krtina quer dizer aquele que realizou trabalho louvável. Os planejadores ateístas às vezes são muito inteligentes e também louváveis, porque qualquer plano gigantesco, bom ou mau, precisa de inteligência para ser executado. Porém como o cérebro ateísta é utilizado impropriamente em oposição ao plano do Supremo Senhor, o planejador ateísta é chamado de duskrtina, indica que sua inteligência e empenho são mal direcionados.

O Gita menciona claramente que a energia material trabalha plenamente sob a direção do Supremo Senhor. Não tem autoridade independente. Ela trabalha do mesmo modo como a sombra se move, de acordo com os movimentos do objeto. Mesmo assim, a energia material é muito poderosa, e o ateísta, devido a seu temperamento ímpio, não pode saber como ela trabalha, nem pode saber o plano do Supremo Senhor. Sob a ilusão e os modos da paixão e ignorância, todos seus planos são frustrados, como no caso de Hiranyakashipu e Ravana, cujos planos foram reduzidos a pó apesar de serem tão educados materialmente quanto cientistas, filósofos, administradores e educadores. Esses duskrtinas, ou infames, são de quatro padrões diferentes, como descrito abaixo.

(1) Os mudhas ou aqueles que são grosseiramente tolos, como animais de carga que trabalham arduamente. Eles querem desfrutar os frutos de seu trabalho consigo mesmo, e assim não querem compartilhá-los com o Supremo. O exemplo típico do animal de carga é o asno. Esse animal humilde é obrigado a trabalhar muito duro pelo seu dono. O asno não entende realmente para quem trabalha tão duro dia e noite. Ele fica satisfeito apenas por encher sua barriga com um punhado de grama, por dormir só um pouco com medo de apanhar do seu dono, e por satisfazer seu apetite sexual mesmo com o risco de tomar coices da sua parceira. O asno canta poesia e filosofia às vezes, mas esse zurro somente perturba outros. Essa é a posição do trabalhador lucrativo tolo que não sabe para quem deve trabalhar. Ele não sabe que karma (ação) se destina a yajña (sacrifício).

Quase sempre, quem trabalha muito duro dia e noite para aliviar o peso dos compromissos criados por ele próprio afirma que não tem tempo para ouvir sobre a imortalidade do ser vivo. Para esses mudhas, ganhos materiais, que são destrutíveis, são tudo na vida; apesar do fato de que os mudhas desfrutam apenas uma pequena fração do fruto de seu trabalho. Às vezes, eles passam dias e noites sem dormir por ganho lucrativo, e apesar de poderem ter úlcera ou indigestão, ficam satisfeitos com praticamente nenhuma comida; ficam simplesmente absortos no trabalho duro dia e noite para o benefício de senhores ilusórios. Ignorantes sobre seu verdadeiro senhor, os trabalhadores tolos desperdiçam seu tempo valioso no serviço a Mamon. Infelizmente, nunca se rendem ao senhor de todos senhores, nem aproveitam seu tempo para ouvir sobre Ele de fontes adequadas. O porco que come fezes não se importa em aceitar doces feitos com açúcar e ghi. Similarmente, o trabalhador tolo incansavelmente continuará a ouvir as notícias sobre desfrute sensual da força mundana oscilante que move o mundo material.

(2) Outro tipo de duskrtina, ou infame, é chamado naradhama, ou o mais baixo da humanidade. Nara significa ser humano, e adhama significa o mais baixo. Entre as 8.400.000 espécies de vida diferentes, existem 400.000 espécies humanas. Entre essas, existem numerosas formas de vida humana inferiores que são quase incivilizadas. Os seres humanos civilizados são aqueles que têm princípios sociais, políticos e religiosos de vida regulada. Aqueles que são desenvolvidos socialmente e politicamente, mas não têm princípios religiosos podem ser considerados naradhamas. Nem existe religião sem Deus, porque o propósito de seguir princípios religiosos é conhecer a Verdade Suprema e a relação da pessoa com Ele. O Gita afirma claramente que não existe autoridade superior a Ele e que Ele é a Verdade Suprema. A forma humana civilizada é destinada para que a pessoa reviva sua consciência perdida sobre sua relação eterna com a Verdade Suprema, a Personalidade de Deus Sri Krishna, que é todo-poderoso. Quem quer que perca essa chance é classificado como naradhama. Temos informação das escrituras reveladas de quando o bebê está no ventre da mãe (uma situação de extremo desconforto), ora a Deus por liberação e promete adorá-Lo exclusivamente tão logo nasça. Rezar para Deus quando está em dificuldade é um instinto natural de todo ser vivo porque tem uma relação eterna com Deus. Mas depois de seu nascimento, a criança esquece as dificuldades do nascimento e também esquece seu alívio, por causa da influência de maya, a energia ilusória.

É obrigação dos guardiões da criança reviverem a consciência divina dormente nela. Os dez processos de cerimônias reformatórias, descritas no Manu-smriti, que é o guia dos princípios religiosos, são destinados a reviver a consciência de Deus no sistema varnashrama. Entretanto, nenhum processo é seguido estritamente agora em qualquer parte do mundo, por isso, 99,9 por cento da população é naradhama.

Quando a população inteira se torna naradhama, naturalmente toda sua assim chamada educação se torna nula e vazia pela todo-poderosa energia da natureza física. De acordo com o padrão do Gita, uma pessoa sábia é aquela que vê em termos iguais o brahmana educado, o cachorro, o elefante e o comedor de cachorro. Essa é a visão do devoto verdadeiro. Sri Nityananda Prabhu, que é uma encarnação de Deus como mestre espiritual, liberou dois típicos naradhamas, os irmãos Jagai e Madhai, e mostrou como a misericórdia de um devoto real é concedida aos mais baixos da humanidade. Assim, o naradhama condenado pela Personalidade de Deus pode reviver novamente sua consciência espiritual unicamente pela misericórdia de um devoto.

Sri Chaitanya Mahaprabhu, na propagação de bhagavata-dharma ou atividades dos devotos, recomendou que as pessoas ouçam com submissão a mensagem da Personalidade de Deus. A essência dessa mensagem é o Bhagavad-gita. Os mais baixos dos seres humanos só podem ser liberados por meio desse processo de ouvir com submissão, mas infelizmente eles se recusam até mesmo a aceitar a recepção auditiva dessas mensagens, e o que falar sobre se renderem à vontade do Supremo Senhor? Naradhamas, ou os mais baixos da humanidade, desprezarão completamente o dever principal do ser humano.

(3) A próxima classe de duskrtina se chama mayayapahrta-jnana, ou pessoa cujo conhecimento erudito foi anulado pela influência da energia material ilusória. Geralmente, são indivíduos muito bem educados; grandes filósofos, poetas, literatos, cientistas, etc.; mas a energia ilusória os desencaminha, e assim eles desobedecem ao Supremo Senhor.

Existe um grande número de mayayapahrta-jnana nos dias de hoje, mesmo entre os catedráticos do Gita. O Gita afirma em linguagem clara e simples que Sri Krishna é a Suprema Personalidade de Deus. Não existe ninguém igual ou superior a Ele. Ele é mencionado como o pai de Brahma, o pai original de todos seres vivos. De fato, Sri Krishna é afirmado não somente como o pai de Brahma mas também como o pai de todas espécies de vida. Ele é a raiz do Brahman impessoal e do Paramatma; a Superalma dentro de cada entidade é Sua porção plenária. Ele é a fonte original de tudo e todos são aconselhados a se rederem a Seus pés de lótus. Apesar de todas essas afirmações claras, o mayayapahrta-jnana menospreza o Supremo Senhor e O considera como outro mero ser humano. Eles não sabem que a forma abençoada da vida humana é projetada a partir da característica transcendental do Supremo Senhor.

Todas interpretações desautorizadas do Gita feitas pela classe mayayapahrta-jnana, fora da circunscrição do sistema parampara, são grandes obstáculos no caminho da compreensão espiritual. Os intérpretes iludidos não se rendem aos pés de lótus de Sri Krishna, nem ensinam outros a seguirem esse princípio.

(4) A última classe dos duskrtina se chama asuram bhavam asritah, aqueles que seguem princípios demoníacos. Essa classe é ateísta abertamente. Alguns argumentam que o Supremo Senhor nunca pode descender a este mundo material, mas são incapazes de darem quaisquer motivos tangíveis sobre por que não. Existem outros que O deixam subordinado ao aspecto impessoal, apesar do Gita declarar o contrário. Com inveja da Suprema Personalidade de Deus, o ateísta apresentará um número de encarnações ilícitas manufaturadas na fábrica de seu cérebro. Tal pessoa cujo próprio princípio de vida é criticar a Personalidade de Deus não pode se render aos pés de lótus de Sri Krishna.

Sri Yamunacharya Albandaru do Sul da Índia disse: "Ó meu Senhor! Você é desconhecido para pessoas envolvidas com princípios ateístas, apesar de Suas qualidades, aspectos e atividades incomuns, e apesar de Sua personalidade ser confirmada por todas escrituras reveladas na qualidade da bondade, e apesar de Você ser reconhecido por autoridades famosas que são renomadas por seu profundo conhecimento sobre a ciência transcendental e situadas nas qualidades divinas".

Portanto, (1) pessoas grosseiramente tolas, (2) os mais baixos da humanidade, (3) especuladores iludidos, e (4) ateístas professos, como mencionado acima, nunca se rendem aos pés de lótus da Personalidade de Deus apesar de todo conselho das escrituras e das autoridades.

Verso 16

catur-vidha bhajante mam
janah sukrtino 'rjuna
arto jijnasur artharthi
jnani ca bharatarsabha

Tradução

Ó melhor dos Bharatas (Arjuna), quatro tipos de pessoas piedosas prestam serviço devocional a Mim; o aflito, o que deseja riqueza, o inquisitivo, e aquele que procura conhecimento do Absoluto.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Diferente dos infames, esses são adeptos dos princípios reguladores das escrituras, e são chamados sukrtina, ou aqueles que obedecem às regras e regulamentos das escrituras, às leis sociais e morais, e são mais ou menos devotados ao Supremo Senhor. Entre esses, existem quatro classes de pessoas; aqueles que estão aflitos às vezes, aqueles que precisam de dinheiro, aqueles que são inquisitivos às vezes, e aqueles que às vezes procuram por conhecimento sobre a Verdade Absoluta. Esses não são devotos puros porque têm alguma aspiração a satisfazer em troca do serviço devocional. Serviço devocional puro é sem aspiração e sem desejo por lucro material. O Bhakti-rasamrita-sindhu (1.1.11) define devoção pura desta forma:

anyabhilasita-sunyam
jnana-karmady-anavrtam
anukulyena krsnanu-
silanam bhaktir uttama

"Deve-se prestar serviço amoroso transcendental ao Supremo Senhor Krishna favoravelmente e sem desejo por lucro material ou ganho por meio de atividades lucrativas ou especulação filosófica. Isso se chama serviço devocional puro".

Quando esses quatro tipos de pessoas vêm ao Supremo Senhor para serviço devocional e ficam completamente purificados pela companhia de um devoto puro, também se tornam devotos puros. No que diz respeito aos infames, o serviço devocional é muito difícil para eles porque suas vidas são egoístas, irregulares e sem objetivos espirituais. Mas mesmo alguns deles, por sorte, quando entram em contato com um devoto puro, também se tornam devotos puros.

Aqueles que estão sempre ocupados com atividades lucrativas vêm ao Senhor com aflição material e nesse momento se associam com devotos puros e se tornam, em sua aflição, devotos do Senhor. Aqueles que estão simplesmente frustrados às vezes também se associam com devotos puros e se tornam inquisitivos para saber sobre Deus. Similarmente, quando filósofos secos ficam frustrados com cada campo do conhecimento, às vezes querem aprender sobre Deus, e vêm ao Supremo Senhor para prestar serviço devocional e assim transcendem o conhecimento sobre Brahman impessoal e Paramatma localizado, e chegam à concepção pessoal do Supremo pela graça do Supremo Senhor ou de Seu devoto puro. No todo, quando o aflito, o inquisitivo, os que procuram conhecimento, e os que precisam de dinheiro ficam livres de todos desejos materiais, e quando entendem plenamente que a remuneração material não tem nada a ver com a melhoria espiritual, tornam-se devotos puros. Enquanto o estágio de purificação não é alcançado, devotos no serviço transcendental do Senhor estão manchados com atividades lucrativas, e procuram por conhecimento mundano, etc.. Assim, a pessoa tem que transcender tudo isso antes de chegar ao estágio do serviço devocional puro.

Verso 17

tesam jnani nitya-yukta
eka-bhaktir visisyate
priyo hi jnanino 'tyartham
aham sa ca mama priyah

Tradução

De todos esses, o sábio que tem conhecimento pleno em união Comigo por meio do serviço devocional puro é o melhor. Porque Eu sou muito querido por ele, e ele é querido por Mim.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Livres de todas contaminações, o aflito, o inquisitivo, o sem dinheiro, e o buscador do conhecimento supremo, todos podem se tornar devotos puros. Porém, entre todos eles, aquele que tem conhecimento da Verdade Absoluta e está livre de todos desejos materiais se torna realmente um devoto puro do Senhor. E dos quatro tipos, o devoto que tem conhecimento pleno e ao mesmo tempo está dedicado ao serviço devocional, o Senhor afirma, é o melhor. Na busca por conhecimento, a pessoa realiza que seu eu é diferente de seu corpo material, e quando avança mais, alcança a compreensão sobre Brahman impessoal e Paramatma. Quando a pessoa está plenamente purificada, realiza que sua posição constitucional é de ser servo eterno de Deus. Assim, com a associação de devotos puros, o inquisitivo, o aflito, aquele que procura melhoria material, e a pessoa que tem conhecimento, todos também se tornam puros. Mas no estágio preparatório, a pessoa que tem conhecimento pleno sobre o Supremo Senhor e ao mesmo tempo realiza serviço devocional é a mais querida pelo Senhor. A pessoa situada em conhecimento puro sobre a transcendência da Suprema Personalidade de Deus está tão protegida no serviço devocional que a contaminação material não pode tocá-la.

Verso 18

udarah sarva evaite
jnani tv atmaiva me matam
asthitah sa hi yuktatma
mam evanuttamam gatim

Tradução

Todos esses devotos são sem dúvida almas magnânimas, mas aquele que está situado no conhecimento sobre Mim, Eu o considero como quem vive em Mim absolutamente. Dedicado a Meu serviço transcendental, ele Me alcança.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Não é que outros devotos que têm menos conhecimento completo não são queridos pelo Senhor. O Senhor afirma que todos são magnânimos porque qualquer um que vem ao Senhor por qualquer motivo se chama um mahatma ou grande alma. Os devotos que querem algum benefício pelo serviço devocional são aceitos pelo Senhor porque existe uma troca de afeição. Eles pedem algum benefício material ao Senhor por afeição, e quando conseguem, ficam tão satisfeitos que também avançam no serviço devocional. Mas o devoto com conhecimento pleno é considerado muito querido pelo Senhor porque seu único propósito é servir o Supremo Senhor com amor e devoção. Um devoto assim não pode viver nem um segundo sem contato ou serviço do Supremo Senhor. Similarmente, o Senhor tem muita afeição por Seu devoto e não pode Se separar dele.

O Senhor afirma no Srimad Bhagavatam (9.4.63-69):

sri bhagavan uvaca
aham bhakta-paradhino
hy asvatantra iva dvija
sadhubhir grasta-hrdayo
bhaktair bhakta-jana-priyah

"A Suprema Personalidade de Deus disse a Durvasa Muni: Eu estou completamente sob o controle de Meus devotos. Na verdade, Eu não sou nem um pouco independente. Porque Meus devotos são completamente desprovidos de desejos materiais, Eu estou situado unicamente no fundo dos corações deles. O que dizer sobre Meu devoto, também aqueles que são devotos do Meu devoto são muito queridos por Mim".

"Ó melhor dos brahmanas, sem pessoas santas para as quais Eu sou o único destino, Eu não desejo desfrutar Minha bem-aventurança transcendental e Minhas opulências supremas".

"Porque os devotos puros abandonam seus lares, esposas, filhos, parentes, riquezas e mesmo suas vidas para simplesmente Me servirem, sem nenhum desejo por melhoria material nesta vida ou na próxima, como posso abandonar esses devotos em qualquer momento"?

"Do mesmo modo como mulheres castas trazem seus esposos bondosos para seu controle pelo serviço, os devotos puros, que são equânimes com todos e completamente apegados a Mim do fundo do coração, trazem-Me sob seu controle pleno".

"Meus devotos, que estão sempre satisfeitos por se dedicarem a Meu serviço amoroso, não estão interessados nem mesmo nos quatro princípios da liberação (salokya, sarupya, samipya e sarsti), apesar de todos esses serem alcançados automaticamente por seu serviço. O que dizer então de uma felicidade tão perecível quanto a elevação aos sistemas planetários superiores"?

"O devoto puro está sempre no fundo do Meu coração, e Eu estou sempre no coração do devoto puro. Meus devotos não conhecem nada além de Mim, e Eu não conheço ninguém mais além deles".

"Os devotos estão sempre no Meu coração, e Eu estou sempre no coração dos devotos. Os devotos não conhecem nada além de Mim, e Eu também não posso esquecer o devoto. Existe uma relação muito íntima entre Mim e o devoto puro. Devotos puros com conhecimento pleno nunca ficam fora do toque espiritual, e por isso são muito queridos por Mim".

[N.T.: Como houve um pequeno erro de referência na edição original, e naquela época, Prabhupada ainda não tinha chegado ao Nono Canto na sua tradução do Srimad Bhagavatam, achei melhor citar todos versos do Srimad Bhagavatam relativos ao assunto - Nono Canto, Quarto Capítulo: "Maharaja Ambarisha ofendido por Durvasa Muni"].

Verso 19

bahunam janmanam ante
jnanavan mam prapadyate
vasudevah sarvam iti
sa mahatma su-durlabhah

Tradução

Depois de muitos nascimentos e mortes, aquele que está realmente em conhecimento se rende a Mim, pois sabe que Eu sou a causa de todas as causas e de tudo que existe. Tal grande alma é muito rara.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O ser vivo, enquanto executa serviço devocional ou rituais transcendentais depois de muitos e muitos nascimentos, pode realmente se situar no puro conhecimento transcendental de que a Suprema Personalidade de Deus é a meta última da realização espiritual. No começo da realização espiritual, enquanto a pessoa tenta abandonar o apego pelo materialismo, há algum aprendizado sobre impersonalismo, porém quando avança mais, pode entender que existem atividades na vida espiritual e que essas atividades constituem o serviço devocional. Quando realiza isso, fica apegada à Suprema Personalidade de Deus e se rende a Ele. Nesse momento, a pessoa pode entender que a misericórdia do Senhor Sri Krishna é tudo, e que Ele é a causa de todas as causas, e que esta manifestação material não é independente Dele. Realiza que o mundo material é um reflexo pervertido da variedade espiritual e realiza que em tudo existe uma relação com o Supremo Senhor Krishna. Assim, pensa em tudo com relação a Vasudeva, ou Sri Krishna. Essa visão universal de Vasudeva precipita a rendição total da pessoa ao Supremo Senhor Sri Krishna como o objetivo mais elevado. Tais grandes almas rendidas são muito raras.

Este verso é muito bem explicado no Terceiro Capítulo (versos 14 e 15) do Swetasvatara Upanishad: "Neste corpo, existem os poderes da fala, visão, audição, das atividades mentais, etc.. Mas todos eles não são importantes se não estiverem relacionados com o Supremo Senhor, e porque Vasudeva é todo-penetrante e tudo é Vasudeva, o devoto se rende com conhecimento pleno" (ver Bhagavad-gita 7.17 e 11.40).

Verso 20

kamais tais tair hrta-jnanah
prapadyante 'nya-devatah
tam tam niyamam asthaya
prakrtya niyatah svaya

Tradução

Aqueles cujas mentes estão deturpadas pelos desejos materiais se rendem aos semideuses e seguem as regras e regulamentos específicos de adoração conforme suas próprias naturezas.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Aqueles que estão livres de todas contaminações materiais se rendem ao Supremo Senhor e se dedicam a Seu serviço devocional. Enquanto a contaminação material não estiver completamente lavada, as pessoas são não-devotos por natureza. Mas mesmo aqueles que têm desejos materiais e que recorrem ao Supremo Senhor não são tão atraídos pela natureza externa; porque pela aproximação do objetivo correto, logo se tornam livres de toda luxúria material. O Srimad Bhagavatam recomenda se a pessoa está livre de todos desejos materiais, ou se está cheia de desejos materiais, ou se deseja liberação da contaminação material, ou é um devoto puro e não tem desejo de satisfação sensual material, em todos os casos, deve se render a Vasudeva e adorá-Lo.

O Bhagavatam afirma que pessoas menos inteligentes que perderam seu senso espiritual se refugiam nos semideuses para a satisfação imediata dos desejos materiais. Geralmente, essas pessoas não vão à Suprema Personalidade de Deus, porque estão em modos específicos da natureza (ignorância e paixão) e por isso que adoram vários semideuses. Ficam satisfeitas por seguirem as regras e regulamentos de adoração. Os adoradores de semideuses são motivados por desejos pequenos e não sabem como alcançar a meta suprema, mas um devoto do Supremo Senhor não se desencaminha. Porque a literatura Védica tem recomendações para a adoração de diferentes deuses com propósitos diferentes (por exemplo, recomenda-se que uma pessoa doente adore o Sol), os que não são devotos do Senhor pensam que para certos propósitos os semideuses são melhores do que o Supremo Senhor. Mas um devoto puro sabe que o Supremo Senhor Krishna é o senhor de todos. O Sri Chaitanya Charitamrita (Adi 5.142) afirma, ekale isvara krsna, ara saba bhrtya: Unicamente a Suprema Personalidade de Deus, Krishna, é o senhor, e todos outros são servos. Assim, um devoto puro nunca recorre aos semideuses para a satisfação de suas necessidades materiais. Ele depende do Supremo Senhor. E o devoto puro fica satisfeito com qualquer coisa que Ele dá.

Verso 21

yo yo yam yam tanum bhaktah
sraddhayarcitum icchati
tasya tasyacalam sraddham
tam eva vidadhamy aham

Tradução

Eu estou no coração de todos como a Superalma. Quando a pessoa deseja adorar os semideuses, Eu torno sua fé firme para que possa se devotar a alguma deidade particular.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Deus deu independência a todos; portanto, se a pessoa deseja ter desfrute material e quer com muita sinceridade obter essas facilidades dos semideuses materiais, o Supremo Senhor, como a Superalma no coração de todos, compreende e dá as facilidades para essas pessoas. Como o pai supremo de todos seres vivos, Ele não interfere em sua independência, porém dá as facilidades para que possam satisfazer seus desejos materiais. Alguém pode perguntar por que o Deus todo-poderoso dá facilidades para os seres vivos desfrutarem deste mundo material e assim os deixa cair na armadilha da energia ilusória. A resposta é se o Supremo Senhor como a Superalma não der essas facilidades, então não haveria sentido para a independência. Portanto, Ele dá independência integral a todos; o que a pessoa quiser; contudo, encontramos Sua instrução suprema no Bhagavad-gita: A pessoa tem que abandonar todas as outras ocupações e se render a Ele. Só isso tornará a pessoa feliz.

Tanto o ser vivo quanto os semideuses são subordinados à vontade da Suprema Personalidade de Deus; por isso que o ser vivo não pode adorar o semideus por sua vontade própria, nem o semideus pode conceder qualquer bênção sem a vontade suprema. Como se diz, nem uma folha de grama se move sem o desejo da Suprema Personalidade de Deus. Geralmente, pessoas que estão aflitas no mundo material recorrem aos semideuses, como são aconselhadas na literatura Védica. A pessoa que deseja algo particular pode adorar tal e tal semideus. Por exemplo, uma pessoa doente é aconselhada a adorar o deus do Sol; uma pessoa que quer educação deve adorar a deusa do conhecimento, Sarasvati; e uma pessoa que deseja uma bela esposa pode adorar a deusa Uma, esposa do Senhor Shiva. Dessa forma, existem recomendações nos shastras (escrituras Védicas) para diferentes modos de adoração a diferentes semideuses. E como um ser vivo específico deseja desfrutar uma facilidade material particular, o Senhor a inspira com um desejo intenso de alcançar essa bênção daquele semideus específico, e assim ele recebe a bênção com sucesso. O modo particular de atividade devocional do ser vivo em direção ao tipo particular de semideus também é arranjado pelo Supremo Senhor. Os semideuses não podem incutir essa afinidade nos seres vivos, mas como Ele é o Supremo Senhor ou a Superalma que está presente nos corações de todos seres vivos, Krishna dá o ímpeto para a pessoa adorar certos semideuses. Os semideuses são na realidade partes diferentes do corpo universal do Supremo Senhor; portanto, não têm independência. A literatura Védica (Taittiriya Upanishad, Primeiro Anuvaka) afirma: "A Suprema Personalidade de Deus como a Superalma também está presente no coração do semideus; assim, Ele organiza através do semideus a satisfação do desejo do ser vivo. Contudo, tanto o semideus quanto o ser vivo são dependentes da vontade suprema. Eles não são independentes".

Verso 22

sa taya sraddhaya yuktas
tasyaradhanam ihate
labhate ca tatah kaman
mayaiva vihitan hi tan

Tradução

Dotada com essa fé, procura favores de um semideus particular e obtém o que deseja. Mas na realidade, esses benefícios são concedidos unicamente por Mim.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Os semideuses não podem conceder bênçãos aos devotos sem a permissão do Supremo Senhor. O ser vivo pode esquecer que tudo é propriedade do Supremo Senhor, mas os semideuses não esquecem. Por isso que a adoração a semideuses e a obtenção dos resultados desejados são devidos não aos semideuses mas à Suprema Personalidade de Deus, por arranjo. O ser vivo menos inteligente não sabe disso, e por isso procura os semideuses por algum benefício. Mas o devoto puro, quando precisa de algo, ora unicamente ao Supremo Senhor. Entretanto, pedir algum benefício material não é sinal de um devoto puro. Um ser vivo recorre aos semideuses geralmente porque está louco para satisfazer sua luxúria. Isso acontece quando o ser vivo deseja algo indevido e o Supremo Senhor em si não satisfaz esse desejo. O Sri Chaitanya Charitamrita afirma que quando a pessoa adora o Supremo Senhor e ao mesmo tempo deseja desfrute material é contraditória em seus desejos. Serviço devocional ao Supremo Senhor e adoração a semideus não podem estar na mesma plataforma porque adoração a um semideus é material e serviço devocional ao Supremo Senhor é completamente espiritual.

Para o ser vivo que deseja retornar ao Supremo, desejos materiais são impedimentos. Um devoto puro do Senhor portanto não é contemplado com benefícios materiais desejados por seres vivos menos inteligentes que preferem adorar semideuses do mundo material em vez de se dedicarem ao serviço devocional do Supremo Senhor.

Verso 23

antavat tu phalam tesam
tad bhavaty alpa-medhasam
devan deva-yajo yanti
mad-bhakta yanti mam api

Tradução

Pessoas com pouca inteligência adoram os semideuses, e seus frutos são limitados e temporários. Aqueles que adoram os semideuses vão para os planetas dos semideuses, porém Meus devotos alcançam ultimamente Meu planeta supremo.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Alguns comentadores do Gita dizem que a pessoa adoradora de um semideus pode alcançar o Supremo Senhor, mas aqui é afirmado claramente que os adoradores dos semideuses vão para os diferentes sistemas planetários onde os vários semideuses estão situados, assim como um adorador do Sol alcança o Sol ou um adorador do semideus da Lua alcança a Lua. Similarmente, se alguém deseja adorar um semideus como Indra, pode alcançar o planeta específico desse deus. Não é que qualquer um, sem importar o semideus que adora, alcançará a Suprema Personalidade de Deus. Isso é negado aqui, pois é afirmado claramente que os adoradores dos semideuses vão para diferentes planetas no mundo material, mas o devoto do Supremo Senhor vai diretamente para o planeta supremo da Personalidade de Deus.

Pode-se argumentar que se os semideuses são partes diferentes do corpo do Supremo Senhor, então o mesmo fim deve ser alcançado por adorá-los. Entretanto, adoradores dos semideuses são menos inteligentes porque não sabem para qual parte do corpo a comida deve ser suprida. Alguns deles são tão tolos a ponto de alegar que existem muitas partes e muitas formas de suprir alimento. Isso não é muito vivaz. Será que alguém pode fornecer comida ao corpo pelos ouvidos ou olhos? Eles não sabem que os semideuses são partes diferentes do corpo universal do Supremo Senhor, e em sua ignorância acreditam que cada e todo semideus é um Deus separado e um competidor do Supremo Senhor.

Não somente os semideuses são partes do Supremo Senhor, como os seres vivos ordinários também são. O Srimad Bhagavatam afirma que os brahmanas são a cabeça do Supremo Senhor, os kshatriyas são os braços, etc., e todos servem funções diferentes. Sem levar em conta a situação, se a pessoa sabe que tanto os semideuses quanto ela mesma são parte e parcela do Supremo Senhor, seu conhecimento é perfeito. Mas se não entende isso, alcança diferentes planetas onde os semideuses residem. Esse não é o mesmo destino que o devoto alcança.

Os resultados conseguidos pelas bênçãos dos semideuses são perecíveis porque dentro deste mundo material, os planetas, os semideuses e seus adoradores são todos perecíveis. Portanto, este verso afirma claramente que todos resultados alcançados pela adoração aos semideuses são perecíveis, e por isso que essa adoração é realizada por seres vivos menos inteligentes. Porque o devoto puro dedicado à Consciência de Krishna em serviço devocional ao Supremo Senhor alcança existência de bem-aventurança eterna que é plena de conhecimento, suas conquistas e as dos adoradores comuns de semideuses são diferentes. O Supremo Senhor é ilimitado; Seu favor é ilimitado; Sua misericórdia é ilimitada. Portanto, a misericórdia do Supremo Senhor para Seus devotos puros é ilimitada.

Verso 24

avyaktam vyaktim apannam
manyante mam abuddhayah
param bhavam ajananto
mamavyayam anuttamam

Tradução

Pessoas não inteligentes, que não Me conhecem, pensam que Eu assumi esta forma e personalidade. Devido a seu pequeno conhecimento, elas não conhecem Minha natureza superior, que é imutável e suprema.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Aqueles que são adoradores dos semideuses foram descritos como pessoas menos inteligentes, e aqui os impersonalistas são descritos de forma similar. O Senhor Krishna em Sua forma pessoal fala aqui perante Arjuna, ainda assim, por causa da ignorância, impersonalistas argumentam que em última instância o Supremo Senhor não tem forma. Yamunacharya, um grande devoto do Senhor na sucessão discipular de Ramanujacharya, compôs dois versos muito apropriados sobre isso. Ele afirma:

"Meu querido Senhor, devotos como Vyasadeva e Narada O conhecem como a Personalidade de Deus. Por meio do entendimento de diferentes literaturas Védicas, a pessoa pode conhecer Suas características, Sua forma e Suas atividades, e pode assim compreender que Você é a Suprema Personalidade de Deus. Mas quem está nos modos da paixão e ignorância, os demônios, os não-devotos, não podem entendê-Lo. Eles não são capazes de entendê-Lo. Por mais especialistas que os não-devotos possam ser na discussão do Vedanta, dos Upanishads e outras literaturas Védicas, não é possível que eles entendam a Personalidade de Deus" (Stotra-ratna 12).

O Brahma-samhita afirma que a Personalidade de Deus não pode ser compreendida simplesmente pelo estudo da literatura Vedanta. Unicamente pela misericórdia do Supremo Senhor que a Personalidade do Supremo pode ser conhecida. Por isso que este verso afirma claramente que não somente os adoradores dos semideuses são menos inteligentes, como esses não-devotos que estão dedicados ao Vedanta e à especulação sobre a literatura Védica sem nenhum vestígio da verdadeira Consciência de Krishna também são menos inteligentes, e para eles não é possível compreender a natureza pessoal de Deus. Pessoas que estão sob a impressão de que a Verdade Absoluta é impessoal são descritas como asuras, significa aquele que não conhece a característica última da Verdade Absoluta. O Srimad Bhagavatam afirma que a realização suprema começa a partir do Brahman impessoal e depois sobe para a Superalma localizada; mas a última palavra sobre a Verdade Absoluta é a Personalidade de Deus. Os impersonalistas modernos não menos inteligentes ainda, pois nem mesmo seguem seu grande predecessor, Shankaracharya, que afirmou especificamente que Krishna é a Suprema Personalidade de Deus. Impersonalistas, portanto, que não conhecem a Verdade Absoluta, acham que Krishna é apenas o filho de Devaki e Vasudeva, ou um príncipe, ou um ser vivo poderoso. O Bhagavad-gita (9.11) também condena isso: "Somente os tolos Me consideram uma pessoa ordinária". O fato é que ninguém pode entender Krishna sem prestar serviço devocional e sem desenvolver Consciência de Krishna. O Gita confirma isso.

Uma pessoa não pode compreender a Suprema Personalidade de Deus, Krishna, ou Sua forma, qualidade ou nome simplesmente por meio de especulação mental ou por discutir a literatura Védica. A pessoa precisa entendê-Lo por meio do serviço devocional. Quando a pessoa está plenamente dedicada à Consciência de Krishna, que começa pelo canto do maha-mantra: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare. Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare; somente assim pode entender a Suprema Personalidade de Deus. Impersonalistas não-devotos acham que Krishna tem um corpo feito com esta natureza material e que todas Suas atividades, Sua forma e tudo mais são maya. Esses impersonalistas são conhecidos como Mayavadis. Eles não conhecem a verdade suprema.

O vigésimo verso afirma claramente, kamais tais tair hrta-jnanah prapadyante 'nya-devatah. "Aqueles que estão cegos por desejos luxuriosos se rendem a diferentes semideuses". Aceita-se que além da Suprema Personalidade de Deus, existem semideuses que possuem seus planetas diferentes, e o Senhor também possui um planeta. Como é afirmado no verso vinte e três, devan deva-yajo yanti mad-bhakta yanti mam api: Os adoradores dos semideuses vão para os diferentes planetas dos semideuses, e os que são devotos do Senhor Krishna vão para o planeta Krishnaloka. Apesar disso ser afirmado claramente, os impersonalistas tolos ainda sustentam que o Senhor é sem forma e que essas formas são imposições. Pelo estudo do Gita, parece que os semideuses e suas moradas são impessoais? Claramente, nem os semideuses nem Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, são impessoais. Todos são pessoas; o Senhor Krishna é a Suprema Personalidade de Deus, e Ele tem Seu próprio planeta, e os semideuses têm os deles.

Portanto, a controvérsia monista de que a verdade suprema é sem forma e que essa forma é imposta não contém a verdade. Aqui é afirmado claramente que não é imposto. Podemos entender claramente no Gita que as formas dos semideuses e a forma do Supremo Senhor existem simultaneamente e que o Senhor Krishna é sac-cid-ananda, eterno conhecimento pleno bem-aventurado. Os Vedas também confirmam que a Suprema Verdade Absoluta é anandamaya, ou plena de prazer bem-aventurado por natureza, e que Ele é abhyasat, o reservatório de qualidades auspiciosas ilimitadas por natureza. E o Senhor afirma no Gita que apesar de Ele ser aja (não-nascido), ainda assim Ele aparece. Esses são os fatos que temos de entender do Bhagavad-gita. Não podemos entender como a Suprema Personalidade de Deus pode ser impessoal; a teoria imposta pelos monistas impersonalistas é falsa no que diz respeito às afirmações do Gita. Aqui fica claro que a Suprema Verdade Absoluta, o Senhor Krishna, tem tanto forma quanto personalidade.

Verso 25

naham prakasah sarvasya
yoga-maya-samavrtah
mudho 'yam nabhijanati
loko mam ajam avyayam

Tradução

Eu nunca Me manifesto para os tolos e não inteligentes. Para eles, Eu estou coberto pela Minha potência criativa eterna (yoga-maya); e por isso que o mundo iludido não Me conhece, Eu que sou não-nascido e infalível.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Alguém pode argumentar como Krishna estava presente nesta Terra e era visível para todos, então por que Ele não Se manifesta para todos agora? Contudo, Ele não estava manifesto realmente para todos. Quando Krishna esteve presente, havia somente poucas pessoas que podiam compreendê-Lo como a Suprema Personalidade de Deus. Na assembléia dos Kurus, quando Shishupala reclamou contra Krishna quando foi eleito presidente da assembléia, Bhisma O apoiou e O proclamou como o Deus Supremo. Similarmente, os Pandavas e alguns poucos sabiam que Ele era o Supremo, mas não todos. Ele não Se revelou para não-devotos e pessoas comuns. Por isso que no Gita, Krishna afirma que exceto Seus devotos puros, todas pessoas O consideram como elas próprias. Ele se manifestou somente para Seus devotos como o reservatório de todo prazer. Mas para outros, para não-devotos não inteligentes, Ele estava coberto por Sua potência interna.

Nas orações de Kunti no Srimad Bhagavatam (1.8.19), é afirmado que o Senhor está coberto pela cortina de yoga-maya e por isso que as pessoas ordinárias não podem compreendê-Lo. Kunti ora: "Ó meu Senhor, Você é o mantenedor do universo inteiro, e serviço devocional a Você é o princípio religioso mais elevado. Por isso, oro para que Você também me mantenha. Sua forma transcendental está coberta por yoga-maya. O brahmajyoti é a cobertura da potência interna. Que o Senhor possa fazer o favor de bondosamente remover esse brilho ofuscante que me impede de ver Sua sac-cid-ananda-vigraha, Sua forma eterna de bem-aventurança e conhecimento pleno".

Essa cortina de yoga-maya também é mencionada no Décimo Quinto Capítulo do Gita. A Suprema Personalidade de Deus em Sua forma transcendental de bem-aventurança e conhecimento está coberta pela potência interna do brahmajyoti, e os impersonalistas menos inteligentes não podem ver o Supremo por causa dela. No Srimad Bhagavatam (10.14.7) também tem uma oração de Brahma: "Ó Suprema Personalidade de Deus, ó Superalma, ó mestre de todo mistério, quem pode calcular Sua potência e passatempos neste mundo? Você sempre expande Sua potência interna, e por isso ninguém pode compreendê-Lo. Cientistas eruditos e catedráticos eruditos podem examinar a constituição atômica do mundo material ou mesmo os planetas, mesmo assim não são capazes de calcular Sua energia e potência, apesar do Senhor estar presente perante eles". A Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Krishna, não é apenas não-nascido como também é avyaya, inexaurível. Sua forma eterna é bem-aventurada e plena de conhecimento, e Suas energias são todas inexauríveis.

Verso 26

vedaham samatitani
vartamanani carjuna
bhavisyani ca bhutani
mam tu veda na kascana

Tradução

Ó Arjuna, como a Suprema Personalidade de Deus, Eu sei tudo que aconteceu no passado, tudo que acontece no presente, e tudo que ainda está por vir. Eu também conheço todos seres vivos; além de Mim, ninguém mais sabe.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Aqui, a dúvida sobre personalidade e não personalidade é esclarecida claramente. Se Krishna, a forma da Suprema Personalidade de Deus, é considerado pelos impersonalistas como maya, como material, então Ele, como o ser vivo, mudaria Seu corpo e esqueceria tudo de Sua vida passada. Qualquer um com um corpo material não pode lembrar sua vida passada, nem pode prever sua vida futura, nem pode prever os acontecimentos de sua vida presente; assim não pode saber o que acontece no passado, presente e futuro.

Diferente do ser humano ordinário, o Senhor Krishna afirma claramente que Ele sabe perfeitamente o que aconteceu no passado, o que acontece no presente, e o que acontecerá no futuro. No Quarto Capítulo, vimos que o Senhor Krishna lembra que instruiu Vivasvan, o deus do Sol, milhões de anos atrás. Krishna conhece todo ser vivo porque Ele está situado no coração de todo ser vivo como a Alma Suprema. Mas apesar de Sua presença em todo ser vivo como a Superalma e de Sua presença além do céu material, como a Suprema Personalidade de Deus, os menos inteligentes não podem realizá-Lo como a Pessoa Suprema. É claro que o corpo transcendental de Sri Krishna não é perecível. Ele é como o Sol, e maya é como uma nuvem. No mundo material, podemos ver que existe o Sol, e que existem nuvens e diferentes estrelas e planetas. As nuvens podem encobrir tudo isso no céu temporariamente, mas essa cobertura é só aparente para nossa visão limitada. O Sol, a Lua e estrelas não estão realmente cobertos. Similarmente, maya não pode encobrir o Supremo Senhor. Por Sua potência interna, Ele não Se manifesta para a classe de pessoas menos inteligentes. Como o terceiro verso deste capítulo afirma, entre milhões e milhões de pessoas, algumas tentam ser perfeitas nesta forma humana de vida, e entre milhares e milhares dessas pessoas perfeitas, dificilmente uma compreende quem é o Senhor Krishna. Mesmo se a pessoa for perfeita na realização do Brahman impessoal e do Paramatma localizado, possivelmente não poderá compreender a Suprema Personalidade de Deus, Sri Krishna, sem estar em Consciência de Krishna.

Verso 27

iccha-dvesa-samutthena
dvandva-mohena bharata
sarva-bhutani sammoham
sarge yanti parantapa

Tradução

O descendente de Bharata (Arjuna), ó conquistador do inimigo, todos seres vivos nascem na ilusão, dominados pelas dualidades de desejo e ódio.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A posição constitucional real do ser vivo é de subordinação ao Supremo Senhor, que é conhecimento puro. Quando a pessoa fica iludida na separação desse conhecimento puro, torna-se controlada pela energia ilusória e não pode compreender a Suprema Personalidade de Deus. A energia ilusória se manifesta na dualidade de desejo e ódio. Por causa de desejo e ódio, a pessoa ignorante deseja se tornar um com o Supremo Senhor e inveja Krishna como a Suprema Personalidade de Deus. Devotos puros, que não estão tão iludidos pela dualidade e ignorância, podem entender que o Senhor Sri Krishna aparece por meio de Suas potências internas, mas aqueles que estão iludidos pela dualidade e ignorância acham que a Suprema Personalidade de Deus foi criada pelas energias materiais. Assim é seu infortúnio. Essas pessoas iludidas, sintomaticamente, vivem nas dualidades de desonra e honra, miséria e felicidade, mulher e homem, bem e mal, prazer e dor, etc., e pensam: "Essa é minha mulher, essa é minha casa, eu sou o senhor desta casa, eu sou o marido dessa esposa". Assim são as dualidades da ilusão. Aqueles que estão iludidos dessa forma pelas dualidades são completamente tolos e por isso não podem entender a Suprema Personalidade de Deus.

Verso 28

yesam tv anta-gatam papam
jananam punya-karmanam
te dvandva-moha-nirmukta
bhajante mam drdha-vratah

Tradução

Pessoas que agiram piedosamente nas vidas prévias e nesta vida, cujas ações pecaminosas foram erradicadas completamente e que estão livres da dualidade da ilusão, dedicam-se a Meu serviço com determinação.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Aqueles que são elegíveis para a posição transcendental são mencionados neste verso. Para aquele que é pecaminoso, ateísta, tolo e enganoso, é muito difícil transcender a dualidade de desejo e ódio. Somente aqueles que passaram suas vidas na prática dos princípios reguladores da religião, que agiram piedosamente e que conquistaram as reações pecaminosas podem aceitar o serviço devocional e gradualmente se elevarem ao conhecimento puro da Suprema Personalidade de Deus. Esse é o processo para se situar na plataforma espiritual. Essa elevação só é possível na Consciência de Krishna com a associação dos devotos puros que podem liberar a pessoa da ilusão.

O Srimad Bhagavatam (5.5.2) afirma que se a pessoa deseja se liberar realmente deve prestar serviço aos devotos (mahat-sevam dvaram ahur vimukteh); mas quem se associa com pessoas materialistas está no caminho que conduz à região mais escura da existência (tamo-dvaram yositam sangi-sangam). Todos os devotos do Senhor atravessam esta Terra justamente para resgatar as almas condicionadas de sua ilusão. Os impersonalistas não sabem que esquecer sua posição constitucional como subordinado do Supremo Senhor é a maior violação da lei de Deus. A menos que a pessoa seja reconduzida à sua posição constitucional, não é possível entender a Suprema Personalidade ou se dedicar plenamente a Seu serviço amoroso transcendental com determinação.

Verso 29

jara-marana-moksaya
mam asritya yatanti ye
te brahma tad viduh krtsnam
adhyatmam karma cakhilam

Tradução

Pessoas inteligentes que se esforçam pela liberação da velhice e doença se refugiam em Meu serviço devocional. Elas são na realidade Brahman porque sabem perfeitamente tudo sobre atividades transcendentais e lucrativas.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Nascimento, morte, velhice e doença afetam este corpo material, mas não o corpo espiritual. Não existe nascimento, morte, velhice e doença para o corpo espiritual, por isso a pessoa que obtém um corpo espiritual, torna-se um dos companheiros da Suprema Personalidade de Deus e se dedica ao serviço devocional eterno, está realmente liberada. Aham brahmasmi: Eu sou espírito. É dito que a pessoa deve entender que é Brahman; alma espiritual. Esse conceito Brahman de vida também está no serviço devocional, como descrito neste verso. Os devotos puros estão situados de modo transcendental na plataforma Brahman, e sabem tudo sobre atividades transcendentais e materiais.

Quatro tipos de devotos impuros que se dedicam ao serviço transcendental do Senhor alcançam suas metas respectivas, e pela graça do Supremo Senhor, quando estão plenamente conscientes de Krishna, realmente desfrutam a companhia espiritual do Supremo Senhor. Mas aqueles que são adoradores dos semideuses nunca alcançam o Supremo Senhor em Seu planeta supremo. Mesmo as pessoas menos inteligentes com realização de Brahman não podem alcançar o planeta supremo de Krishna conhecido como Goloka Vrindavana. Unicamente as pessoas que realizam atividades em Consciência de Krishna (mam asritya) são realmente dignas de serem chamadas Brahman, porque se empenham de verdade para alcançar o planeta de Krishna. Essas pessoas não têm dúvidas sobre Krishna, por isso são Brahman de fato.

Aqueles que estão dedicados na adoração da forma ou archa do Senhor, ou que estão dedicados à meditação no Senhor apenas por liberação do cativeiro material, também sabem, pela graça do Senhor, os significados de Brahman, adhibhuta, etc., como o Senhor explica no próximo capítulo.

Verso 30

sadhibhutadhidaivam mam
sadhiyajnam ca ye viduh
prayana-kale 'pi ca mam
te vidur yukta-cetasah

Tradução

Aqueles que Me conhecem como o Supremo Senhor, como o princípio de governo da manifestação material, que Me conhecem como a base de todos semideuses e como aquele que sustenta todos sacrifícios, pode, com a mente constante, entender-Me e Me conhecer, mesmo na hora da morte.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Pessoas que agem em Consciência de Krishna nunca se desviam inteiramente do caminho da compreensão da Suprema Personalidade de Deus. Na associação transcendental da Consciência de Krishna, a pessoa pode entender como o Supremo Senhor é o princípio de governo da manifestação material e mesmo dos semideuses. Gradualmente, devido a essa associação transcendental, a pessoa fica convencida sobre a Suprema Personalidade de Deus em pessoa, e na hora da morte, essa pessoa consciente de Krishna nunca pode esquecer Krishna. Ela é naturalmente promovida ao planeta do Supremo Senhor, Goloka Vrindavana.

Este Sétimo Capítulo explica particularmente como a pessoa pode se tornar plenamente consciente de Krishna. O começo da Consciência de Krishna é a associação com pessoas que estão em Consciência de Krishna. Essa associação é espiritual e coloca a pessoa em contato direto com Supremo Senhor, e por Sua graça, a pessoa pode entender Krishna como o Deus Supremo. Ao mesmo tempo, a pessoa pode entender realmente a posição constitucional do ser vivo e como o ser vivo esquece Krishna, e fica enredado nas atividades materiais. Pelo desenvolvimento gradual da Consciência de Krishna com boa associação, o ser vivo pode entender que devido ao esquecimento de Krishna, ficou condicionado pelas leis da natureza material. Também pode entender que esta forma humana de vida é uma oportunidade de recobrar a Consciência de Krishna e que deve ser utilizada integralmente para a obtenção da misericórdia sem causa do Supremo Senhor.

Vários assuntos foram discutidos neste capítulo: A pessoa aflita, a pessoa inquisitiva, a pessoa que tem necessidades materiais, conhecimento do Brahman, conhecimento do Paramatma, liberação de nascimento, morte e doenças, e adoração ao Supremo Senhor. Entretanto, a pessoa que é realmente elevada em Consciência de Krishna não se importa com diferentes processos. Ela simplesmente se dedica diretamente às atividades em Consciência de Krishna e dessa forma alcança de fato sua posição constitucional como servo eterno do Senhor Krishna. Nessa situação, ela sente prazer em ouvir e glorificar o Supremo Senhor em serviço devocional puro. Ela fica convencida de que por agir assim, todos seus objetivos serão satisfeitos. Essa fé com determinação se chama drdha-vrata, e esse é o começo de bhakti-yoga ou serviço amoroso transcendental. Esse é o veredicto de todas escrituras. Este Sétimo Capítulo do Gita é a substância dessa convicção.

 

Assim terminam os Significados Bhaktivedanta do Sétimo Capítulo do Srimad Bhagavad-gita sobre a matéria do Conhecimento do Absoluto.

 

 

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

Bhagavad-gita Como Ele É

(Original Sem "Correções")

de

Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya

 

Capítulo 8

Realização do Supremo

 

Srila Prabhupada

 

Verso 1

arjuna uvaca
kim tad brahma kim adhyatmam
kim karma purusottama
adhibhutam ca kim proktam
adhidaivam kim ucyate

Tradução

Arjuna perguntou: Ó meu Senhor, ó Pessoa Suprema, o que é brahman? O que é o eu? Quais são as ações lucrativas? O que é esta manifestação material? E o que são os semideuses? Faça o favor de me explicar isso.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Neste capítulo, o Senhor Krishna responde essas várias perguntas de Arjuna a começar por "o que é brahman"? O Senhor também explica karma, atividades lucrativas, serviço devocional e princípios de yoga, e serviço devocional em sua forma pura. O Srimad Bhagavatam explica que a Suprema Verdade Absoluta é conhecida como Brahman, Paramatma e Bhagavan. Além disso, o ser vivo, alma individual, também se chama Brahman. Arjuna também perguntou sobre atma, que se refere a corpo, alma e mente. Segundo o dicionário Védico, atma se refere a mente, alma, corpo e sentidos também. Arjuna chamar o Supremo Senhor de Purushottama, Pessoa Suprema, significa que fez essas perguntas não simplesmente a um amigo mas para a Pessoa Suprema, pois sabia que Ele é a autoridade suprema capaz de dar respostas definitivas.

Verso 2

adhiyajnah katham ko 'tra
dehe 'smin madhusudana
prayana-kale ca katham
jneyo 'si niyatatmabhih

Tradução

Como esse Senhor do sacrifício vive dentro do corpo, e em que parte Ele vive, ó Madhusudana? E como aqueles dedicados ao serviço devocional podem conhecê-Lo na hora da morte?

Iluminação de Srila Prabhupada:

"Senhor do sacrifício" pode se referir tanto a Indra quanto a Vishnu. Vishnu é o líder dos semideuses principais, inclusive Brahma e Shiva, e Indra é o líder dos semideuses administrativos. Tanto Indra quanto Vishnu são adorados com realizações de yajña. Mas aqui Arjuna pergunta quem é o Senhor do yajña (sacrifício) realmente e como o Senhor reside dentro do corpo do ser vivo.

Arjuna chama o Senhor de Madhusudana porque certa vez Krishna matou um demônio chamado Madhu. Na realidade, essas questões, que são da natureza da dúvida, não deveriam surgir na mente de Arjuna porque Arjuna é um devoto consciente de Krishna. Por isso, essas dúvidas são como demônios. Como Krishna é tão hábil em matar demônios, Arjuna O chamou de Madhusudana para que Krishna pudesse matar as dúvidas demoníacas que surgiram na mente de Arjuna.

Agora a palavra prayana-kale neste verso é muito significativa porque o que fazemos na vida será testado na hora da morte. Arjuna temia que na hora da morte, aqueles que estão em Consciência de Krishna esqueceriam o Supremo Senhor porque nesse momento as funções do corpo estão rompidas e a mente pode estar em estado de pânico. Por isso que Maharaja Kulashekhara, um grande devoto, ora: "Meu querido Senhor, que eu possa morrer imediatamente agora que estou saudável para que o cisne da minha mente entre na raiz de Seus pés de lótus". Essa metáfora é usada porque o cisne gosta muito de mergulhar na raiz da flor de lótus; similarmente, a mente do devoto puro é arrastada para os pés de lótus do Senhor. Maharaja Kulashekhara teme que na hora da morte sua garganta esteja obstruída e ele não possa cantar os santos nomes, por isso é melhor "morrer imediatamente". Arjuna pergunta como a mente da pessoa pode permanecer fixa nos pés de lótus de Krishna nesses momentos.

Verso 3

sri bhagavan uvaca
aksaram brahma paramam
svabhavo 'dhyatmam ucyate
bhuta-bhavodbhava-karo
visargah karma-samjnitah

Tradução

O Supremo Senhor disse: O ser vivo transcendental e indestrutível se chama Brahman e sua natureza eterna se chama o eu. Ação pertencente ao desenvolvimento desses corpos materiais se chama karma, ou ações lucrativas.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Brahman é indestrutível e existe eternamente, e sua constituição não muda em nenhum momento. Além de Brahman existe Parabrahman. Brahman se refere ao ser vivo, e Parabrahman se refere à Suprema Personalidade de Deus. A posição constitucional do ser vivo é diferente da posição que assume no mundo material. Na consciência material, sua natureza é tentar dominar a matéria, mas na consciência espiritual (Krishna), sua posição é servir o Supremo. Quando o ser vivo está na consciência material, tem que aceitar vários corpos no mundo material. Isso se chama karma, ou criação variada por força da consciência material.

Na literatura Védica, o ser vivo se chama jivatma e Brahman, mas nunca é chamado de Parabrahman. O ser vivo (jivatma) aceita diferentes posições; às vezes submerge na escuridão da natureza material e se identifica com a matéria, e outras vezes se identifica com a natureza espiritual superior. Por isso é chamado de energia marginal do Supremo Senhor. De acordo com sua identificação com a natureza material ou espiritual, recebe um corpo material ou espiritual. Na natureza material, pode receber um corpo em qualquer uma das 8.400.000 espécies de vida, mas na natureza espiritual, tem somente um tipo de corpo. Na natureza material, algumas vezes se manifesta como humano, semideus, animal, fera, pássaro, etc., de acordo com seu karma. Para alcançar os planetas celestiais materiais e desfrutar suas regalias, às vezes realiza sacrifícios (yajña), mas quando o mérito acaba, retorna para a Terra novamente como um humano.

No processo de sacrifício, o ser vivo faz sacrifícios específicos para alcançar planetas celestiais específicos e em conseqüência os alcança. Quando o mérito do sacrifício se esgota, o ser vivo descende à Terra em forma de chuva, então assume a forma de cereais, e os cereais são consumidos por um homem e transformados em sêmen, que fertiliza uma mulher, e assim o ser vivo mais uma vez obtém a forma humana para realizar sacrifício e repetir o mesmo ciclo dessa forma. Assim, o ser vivo vem e vai perpetuamente no caminho material. A pessoa consciente de Krishna, entretanto, evita esses sacrifícios. Ela aceita a Consciência de Krishna diretamente e com ela se prepara para retornar ao Supremo.

Comentadores impersonalistas do Gita assumem irracionalmente que Brahman aceita a forma de jiva no mundo material, e se referem ao Capítulo Quinze, verso 7, do Gita para apoiar isso. Mas esse verso também fala sobre o ser vivo como "Um fragmento eterno de Mim". O fragmento de Deus, o ser vivo, pode cair no mundo material, mas o Supremo Senhor (Achyuta) nunca cai. Portanto, essa hipótese de que o Brahman Supremo assume a forma de jiva não é aceitável. É importante lembrar que a literatura Védica distingue Brahman (o ser vivo) de Parabrahman (o Supremo Senhor).

Verso 4

adhibhutam ksaro bhavah
purusas cadhidaivatam
adhiyajno 'ham evatra
dehe deha-bhrtam vara

Tradução

A natureza física é conhecida como incessantemente mutável. O universo é a forma cósmica do Supremo Senhor, e Eu sou esse Senhor representado como a Superalma, que reside no coração de todo ser corporificado.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A natureza física muda constantemente. Corpos materiais geralmente passam por seis estágios: Nascem, crescem, permanecem por algum tempo, produzem alguns subprodutos, definham, e depois desaparecem. Esta natureza física se chama adhibhuta. Porque é criada em certo ponto e será aniquilada em certo ponto, o conceito da forma universal do Supremo Senhor que inclui todos semideuses e seus diferentes planetas se chama adhidaivata. A alma individual (jiva) acompanha o corpo. A Superalma, uma representação plenária do Senhor Krishna, se chama Paramatma ou adhiyajna e está situada no coração. A palavra eva é particularmente importante no contexto deste verso porque o Senhor enfatiza com essa palavra que o Paramatma não é diferente Dele. A Superalma, a Suprema Personalidade de Deus, sentada ao lado da alma individual, é a testemunha das atividades da alma individual e é a fonte da consciência. A Superalma dá uma chance para o jiva agir livremente, e testemunha suas atividades. As funções de todas essas manifestações diferentes do Supremo Senhor se tornam esclarecidas automaticamente pelo devoto com Consciência de Krishna pura dedicado ao serviço transcendental do Senhor. A forma universal gigantesca do Senhor chamada adhidaivata é contemplada pelo neófito que não pode se aproximar do Supremo Senhor em Sua manifestação como Superalma. O neófito é aconselhado a contemplar a forma universal cujas pernas são consideradas os planetas inferiores e cujos olhos são considerados o Sol e a Lua, e cuja cabeça é considerada o sistema planetário superior.

Verso 5

anta-kale ca mam eva
smaran muktva kalevaram
yah prayati sa mad-bhavam
yati nasty atra samsayah

Tradução

E quem quer que, na hora da morte, deixe seu corpo, com a lembrança exclusiva em Mim, imediatamente alcança Minha natureza. Quanto a isso, não há dúvida.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A importância da Consciência de Krishna é enfatizada neste verso. Qualquer um que deixa seu corpo em Consciência de Krishna é imediatamente transferido à morada do Supremo Senhor. A palavra smaran ("lembrança") é importante. Lembrança de Krishna não é possível para a alma impura que não praticou Consciência de Krishna em serviço devocional. Para lembrar Krishna, a pessoa tem que cantar o maha-mantra: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare. Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare, incessantemente, assim seguir os passos do Senhor Chaitanya; ser mais tolerante do que uma árvore, mais humilde do que a grama, e prestar todo respeito aos outros sem exigir respeito em troca. Dessa forma, a pessoa será capaz de partir do corpo por lembrar Krishna com sucesso e assim alcançar a meta suprema.

Verso 6

yam yam vapi smaran bhavam
tyajaty ante kalevaram
tam tam evaiti kaunteya
sada tad-bhava-bhavitah

Tradução

Qualquer estado de existência que a pessoa lembre quando deixa seu corpo, ela irá alcançar esse estado sem falha.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Aqui se explica o processo de mudança da natureza pessoal no momento crítico da morte. Como a pessoa pode morrer em um estado mental adequado? Maharaja Bharata pensou num cervo na hora da morte e assim foi transferido para essa forma de vida. Entretanto, como um cervo, Maharaja Bharata pôde lembrar suas atividades passadas. Claro que o efeito cumulativo dos pensamentos e ações da vida da pessoa influenciam seus pensamentos no momento da morte; por isso que as ações desta vida determinam o estado de existência futuro da pessoa. Se a pessoa estiver absorta de modo transcendental no serviço a Krishna, então seu próximo corpo será transcendental (espiritual), não físico. Por isso que o cantar de Hare Krishna é o melhor processo para a mudança bem sucedida do estado de existência da pessoa para a vida transcendental.

Verso 7

tasmat sarvesu kalesu
mam anusmara yudhya ca
mayy arpita-mano-buddhir
mam evaisyasy asamsayah

Tradução

Portanto, Arjuna, você deve sempre pensar em Mim na forma de Krishna e ao mesmo tempo cumprir seu dever prescrito de lutar. Com suas atividades dedicadas a Mim e com sua mente e inteligência fixos em Mim, você Me alcançará sem dúvida.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Esta instrução para Arjuna é muito importante para todas pessoas dedicadas a atividades materiais. O Senhor não diz que a pessoa deve abandonar seus deveres prescritos ou ocupações. Ela pode continuar com eles e ao mesmo tempo pensar em Krishna com o canto de Hare Krishna. Isso a livrará da contaminação material e ocupará sua mente e inteligência em Krishna. Por meio do cantar dos Nomes de Krishna, a pessoa será transferida para o planeta supremo, Krishnaloka, sem dúvida.

Verso 8

abhyasa-yoga-yuktena
cetasa nanya-gamina
paramam purusam divyam
yati parthanucintayan

Tradução

Aquele que medita na Suprema Personalidade de Deus, com sua mente constantemente dedicada a se lembrar de Mim, sem se desviar do caminho, ó Partha (Arjuna), com certeza Me alcançará.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Neste verso, o Senhor Krishna enfatiza a importância de lembrá-Lo. A memória de Krishna da pessoa é revivida pelo cantar do maha-mantra, Hare Krishna. Com essa prática de cantar e ouvir a vibração sonora do Supremo Senhor, o ouvido, língua e mente da pessoa ficam dedicados. Essa meditação mística é muito fácil de praticar, e ajuda a pessoa a alcançar o Supremo Senhor. Purusham significa desfrutador. Apesar dos seres vivos pertencerem à energia marginal do Supremo Senhor, estão na contaminação material. Eles acham que são os desfrutadores, mas não são o desfrutador supremo. Aqui se afirma claramente que o supremo desfrutador é a Suprema Personalidade de Deus em Suas diferentes manifestações e expansões plenárias como Narayana, Vasudeva, etc..

Os devotos podem pensar constantemente no objeto de adoração, o Supremo Senhor, em qualquer um de Seus aspectos, Narayana, Krishna, Rama, etc., por meio do cantar de Hare Krishna. Essa prática irá purificá-lo, e no fim de sua vida, devido ao seu cantar constante, será transferido para o reino de Deus. Prática de yoga é meditação na Superalma interior; similarmente, por meio do cantar de Hare Krishna a pessoa fixa sua mente sempre no Supremo Senhor. A mente é oscilante, e por isso é necessário obrigar a mente pela força a pensar em Krishna. Um exemplo dado freqüentemente é o da lagarta que pensa em se tornar uma borboleta e assim se transforma em borboleta na mesma vida. Similarmente, se pensarmos em Krishna constantemente, é certo que no fim de nossas vidas teremos a mesma constituição corpórea de Krishna.

Verso 9

kavim puranam anusasitaram
anor aniyamsam anusmared yah
sarvasya dhataram acintya-rupam
aditya-varnam tamasah parastat

Tradução

Deve-se meditar na Pessoa Suprema como aquele que conhece tudo, como quem é o mais velho, que é o controlador, que é menor do que o menor, que é o mantenedor de tudo, que está além de todo conceito material, que é inconcebível, e que é sempre uma pessoa. Ele é luminoso como o Sol e, por ser transcendental, está além desta natureza material.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O processo de pensar no Supremo é mencionado neste verso. O ponto mais importante é que Ele não é impessoal ou vazio. Ninguém pode meditar em algo impessoal ou vazio. Isso é muito difícil. O processo de pensar em Krishna, entretanto, é muito fácil e é descrito aqui de fato. Em primeiro lugar, Ele é purusha, espiritual, Rama e Krishna, e é descrito aqui como kavim; ou seja, Ele conhece passado, presente e futuro, e portanto sabe tudo. Ele é a personalidade mais velha porque é a origem de tudo; tudo nasce Dele. Ele também é o supremo controlador do universo, mantenedor e instrutor da humanidade. Ele é menor do que o menor. O ser vivo é a décima milésima parte da ponta de um fio de cabelo, mas o Senhor de modo inconcebível é tão pequeno que pode entrar no coração dessa partícula. Por isso que Ele é menor do que o menor. Como o Supremo, Ele pode entrar dentro do átomo e dentro do coração do menor e controlá-lo como a Superalma. Apesar de tão pequeno, mesmo assim Ele é todo-penetrante e mantém tudo. Todos sistemas planetários são sustentados por Ele. Às vezes imaginamos como esses grandes planetas flutuam no ar. Aqui se afirma que o Supremo Senhor, com Sua energia inconcebível, sustenta todos esses grandes planetas e sistemas de galáxias. A palavra achintya (inconcebível) é muito significativa a esse respeito. A energia de Deus está além do nosso conceito, além do nosso pensamento, jurisdição, e por isso se chama inconcebível (achintya). Quem pode argumentar contra isso? Ele penetra neste mundo material e ainda assim está além dele. Não podemos compreender este mundo material, que é insignificante comparado ao mundo espiritual; então como vamos entender o que está além? Achintya significa aquilo que está além deste mundo material, aquilo que nosso argumento, lógica e especulação mental não podem tocar, aquilo que é inconcebível. Portanto, pessoas inteligentes, que evitam argumento e especulação inúteis, devem aceitar o que as escrituras como os Vedas, Gita e Srimad Bhagavatam afirmam, e seguir os princípios estabelecidos por elas. Isso levará a pessoa ao entendimento.

Verso 10

prayana-kale manasacalena
bhaktya yukto yoga-balena caiva
bhruvor madhye pranam avesya samyak
sa tam param purusam upaiti divyam

Tradução

Aquele que, na hora da morte, fixa seu ar da vida entre as sobrancelhas e se dedica com devoção plena à lembrança do Supremo Senhor, certamente alcançará a Suprema Personalidade de Deus.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Este verso afirma claramente que na hora da morte a mente tem de estar fixar em devoção à Suprema Personalidade de Deus. Para quem pratica yoga, recomenda-se que eleve a força vital para entre as sobrancelhas, mas para um devoto puro que não pratica esse yoga, a mente deve estar sempre dedicada à Consciência de Krishna para que na hora da morte possa lembrar o Supremo por Sua graça. Isso é explicado no verso quatorze. O uso específico da palavra yoga-balena é significativa neste verso porque sem prática de yoga a pessoa não pode chegar a esse estado transcendental na hora da morte. Ninguém pode lembrar o Supremo Senhor subitamente na morte a menos que tenha prática em algum sistema de yoga, especialmente o sistema de bhakti-yoga. Como a mente fica muito perturbada na hora da morte, a pessoa tem que praticar transcendência por meio de yoga durante sua vida.

Verso 11

yad aksaram veda-vido vadanti
visanti yad yatayo vita-ragah
yad icchanto brahmacaryam caranti
tat te padam sangrahena pravaksye

Tradução

Pessoas eruditas nos Vedas, que pronunciam omkara e que são grandes sábios na ordem renunciada, entram no Brahman. Quem deseja essa perfeição, pratica celibato. Vou explicar para você agora esse processo pelo qual a pessoa pode obter salvação.

Iluminação de Srila Prabhupada:

O Senhor Krishna explica que Brahman, apesar de único e inigualável, tem diferentes manifestações e aspectos. Para o impersonalista, a sílaba om é idêntica a Brahman. Krishna explica aqui o Brahman impessoal, no qual os sábios da ordem renunciada entram.

No sistema de educação Védica, estudantes, desde o começo, aprendem a vibrar o om e aprendem sobre o Brahman impessoal último por morarem com o mestre espiritual em celibato completo. Dessa forma, realizam dois dos aspectos do Brahman. Essa prática é essencial para o avanço dos estudantes na vida espiritual, mas no presente, essa vida de brahmachari (solteiro celibatário) não é possível de jeito nenhum. A construção social do mundo mudou tanto que não existe possibilidade de alguém praticar celibato desde o começo da vida estudantil. No mundo inteiro, existem muitas instituições para diferentes departamentos do conhecimento, mas não existe nenhuma instituição reconhecida onde estudantes possam ser educados com os princípios de brahmachari. A menos que a pessoa pratique celibato, avanço na vida espiritual é muito difícil. Por isso que o Senhor Chaitanya anunciou, de acordo com as leis da escrituras para esta Era de Kali, que nenhum processo para a realização do Supremo é possível exceto o cantar do santo nome do Senhor Krishna: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare. Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.

Verso 12

sarva-dvarani samyamya
mano hrdi nirudhya ca
murdhny adhayatmanah pranam
asthito yoga-dharanam

Tradução

A situação do yoga é de desapego de todas ocupações sensuais. Com o fechamento de todas portas dos sentidos e com a mente fixa no coração e o ar vital no topo da cabeça, a pessoa se estabelece em yoga.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Para praticar yoga, como sugerido aqui, a pessoa tem que fechar a porta de todo desfrute sensual. Essa prática se chama pratyahara, ou retirada dos sentidos dos objetos sensuais. Os órgãos sensuais para aquisição de conhecimento, como olhos, ouvidos, nariz, língua e tato, devem ser controlados plenamente e não devem ter permissão para se ocuparem em desfrute sensual. Dessa forma, a mente focaliza a Superalma dentro do coração e a força vital se eleva para o topo da cabeça. Esse processo é descrito em detalhes no Sexto Capítulo. Mas como foi dito antes, essa prática não é possível nesta Era. O melhor processo é a Consciência de Krishna. Se a pessoa for capaz de fixar sua mente em Krishna com serviço devocional, será muito fácil permanecer no transe transcendental sem perturbação, ou em samadhi.

Verso 13

om ity ekaksaram brahma
vyaharan mam anusmaran
yah prayati tyajan deham
sa yati paramam gatim

Tradução

Depois de se situar nessa prática de yoga e vibrar a sílaba sagrada om, a combinação suprema de letras, se a pessoa pensar na Suprema Personalidade de Deus e deixar seu corpo, certamente alcançará os planetas espirituais.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Aqui se afirma claramente que om, Brahman e o Senhor Krishna não são diferentes. O som impessoal de Krishna é om, porém o som Hare Krishna contém o om. É claramente recomendado nesta Era se a pessoa deixar seu corpo no fim de sua vida a cantar o maha-mantra Hare Krishna, alcançará os planetas espirituais. Similarmente, aqueles que são devotos de Krishna entram no planeta Goloka Vrindavana, enquanto os impersonalistas permanecem no brahmajyoti. Os personalistas também entram nos inumeráveis planetas do céu espiritual conhecidos como Vaikunthas.

Verso 14

ananya-cetah satatam
yo mam smarati nityasah
tasyaham sulabhah partha
nitya-yuktasya yoginah

Tradução

Para aquele que se lembra de Mim sem desvio, Eu sou fácil de ser obtido, ó filho de Pritha, por causa de sua dedicação constante ao serviço devocional.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Este verso descreve bhakti-yoga dos devotos imaculados do Supremo Senhor. Os versos anteriores mencionaram quatro tipos diferentes de devotos; o aflito, o inquisitivo, os que procuram ganho material, e os filósofos especuladores. Diferentes processos de liberação do enredamento material também foram descritos; karma-yoga, jñana-yoga e hatha-yoga. Mas aqui se menciona bhakti-yoga sem nenhuma mistura com esses. Em bhakti-yoga, os devotos não desejam nada além de Krishna. O devoto bhakti puro não deseja promoção aos planetas celestiais, nem procura salvação ou liberação do enredamento material. Um devoto puro não deseja nada. O Sri Chaitanya Charitamrita chama o devoto puro de niskama, significa que não tem nenhum desejo por interesse pessoal. A paz perfeita pertence somente a ele, não àqueles que lutam por ganho pessoal. O devoto puro só quer satisfazer o Supremo Senhor, e por isso o Senhor afirma que qualquer um devotado resolutamente a Ele pode alcançá-Lo facilmente. O devoto pode prestar serviço a qualquer uma das formas transcendentais do Supremo Senhor, e não se depara com nenhum dos problemas que importunam os praticantes de outros yogas. Bhakti-yoga é muito simples e puro, e fácil de praticar. A pessoa pode começar simplesmente com o cantar de Hare Krishna. Krishna é muito misericordioso com aqueles que se dedicam a Seu serviço, e Ele ajuda de várias formas o devoto que se rendeu plenamente a Ele, para que possa compreendê-Lo como Ele é. O Senhor dá inteligência suficiente para esse devoto a fim de que possa alcançá-Lo ultimamente em Seu reino espiritual.

A qualificação especial do devoto puro é que sempre pensa em Krishna sem considerar tempo ou local. Não deve haver nenhum impedimento. Ele tem que ser capaz de cumprir seu serviço em qualquer lugar e em qualquer tempo. Alguns dizem que o devoto deve permanecer em lugares sagrados como Vrindavana ou alguma cidade sagrada onde o Senhor viveu, mas um devoto puro pode viver em qualquer lugar e criar a atmosfera de Vrindavana graças a seu serviço devocional. Sri Adwaita Prabhu disse ao Senhor Chaitanya: "Onde Você está, ó Senhor, lá é Vrindavana".

Um devoto puro se lembra de Krishna constantemente e medita Nele. Essas são as qualificações do devoto puro para quem o Senhor é obtido facilmente. Bhakti-yoga é o sistema que o Gita recomenda acima de todos os outros. Geralmente, os bhakti-yogis se dedicam em cinco modos diferentes: 1) shanta-bhakta, dedicado ao serviço devocional com neutralidade; 2) dasya-bhakta, dedicado ao serviço devocional como servo; 3) sakhya-bhakta, dedicado como amigo; 4) vatsalya-bhakta, dedicado como pai ou mãe; e 5) madhurya-bhakta, dedicado como uma amante conjugal do Supremo Senhor. Em qualquer um desses modos, o devoto puro está constantemente dedicado ao serviço amoroso transcendental do Supremo Senhor e não pode esquecer o Supremo Senhor nem por um momento, e similarmente, o Supremo Senhor não pode esquecer Seu devoto puro nem por um momento. Essa é a grande bênção do processo da Consciência de Krishna com o cantar do maha-mantra: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare. Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.

Verso 15

mam upetya punar janma
duhkhalayam asasvatam
napnuvanti mahatmanah
samsiddhim paramam gatah

Tradução

Depois que Me alcançam, as grandes almas, que são yogis em devoção, nunca mais retornam a este mundo temporário, que é cheio de misérias, porque alcançaram a perfeição mais elevada.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Como este mundo material temporário é cheio de misérias como nascimento, velhice, doença e morte, naturalmente quem obtém a perfeição mais elevada e alcança o planeta supremo, Krishnaloka, Goloka Vrindavana, não deseja retornar. O planeta supremo é descrito na literatura Védica como além da nossa visão material, e é considerado a meta suprema. Os mahatmas (grandes almas) recebem mensagens transcendentais dos devotos realizados e assim gradualmente desenvolvem serviço devocional em Consciência de Krishna, e ficam tão absortos no serviço transcendental que não desejam mais elevação a nenhum dos planetas materiais, nem querem ser transferidos a qualquer planeta espiritual. Eles só querem a companhia de Krishna e nada mais. Essas grandes almas em Consciência de Krishna alcançam a perfeição mais elevada da vida. Em outras palavras, são as almas supremas.

Verso 16

abrahma-bhuvanal lokah
punar avartino 'rjuna
mam upetya tu kaunteya
punar janma na vidyate

Tradução

Do planeta mais elevado deste mundo material até o mais baixo, todos são locais de miséria onde repetidos nascimento e morte acontecem. Mas aquele que alcança Minha morada, ó filho de Kunti, nunca mais nasce novamente.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Todos tipos de yogis; karma, jñana, hatha, etc.; têm que eventualmente alcançar perfeição em bhakti-yoga, ou Consciência de Krishna, antes que possam ir para a morada transcendental de Krishna e nunca mais retornarem. Aqueles que alcançam os planetas materiais mais elevados ou os planetas dos semideuses estão sujeitos novamente a repetidos nascimento e morte. Do mesmo modo como pessoas na Terra são elevadas aos planetas superiores, as pessoas nos planetas superiores como Brahmaloka, Chandraloka e Indraloka caem na Terra. A prática do sacrifício chamado panchagni-vidya, recomendado no Katha Upanishad, permite que a pessoa alcance Brahmaloka, mas se a ela não cultivar Consciência de Krishna em Brahmaloka, então terá que retornar à Terra. Aqueles que progridem na Consciência de Krishna nos planetas superiores são elevados gradualmente a planetas cada vez mais altos e na hora da devastação universal são transferidos ao reino espiritual eterno. Quando acontece a devastação deste universo material, Brahma e seus devotos, que estão dedicados à Consciência de Krishna constantemente, são todos transferidos para o universo espiritual em planetas espirituais específicos conforme seus desejos.

Verso 17

sahasra-yuga-paryantam
ahar yad brahmano viduh
ratrim yuga-sahasrantam
te 'ho-ratra-vido janah

Tradução

De acordo com os cálculos humanos, mil Eras juntas fazem a duração de um dia de Brahma. E essa é também a duração de sua noite.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A duração do universo material é limitada. Ele se manifesta em ciclos de kalpas. Um kalpa é um dia de Brahma, e um dia de Brahma consiste de mil ciclos de quatro yugas ou Eras: Satya, Treta, Dwapara e Kali. O ciclo de Satya se caracteriza pela virtude, sabedoria e religião, sem praticamente nenhuma ignorância e vício, e a yuga dura 1.728.000 anos. Em Treta-yuga o vício é introduzido, e essa yuga dura 1.296.000 anos. Em Dwapara-yuga há um declínio ainda maior de virtude e religião, vício incrementa, e essa yuga dura 864.000 anos. E finalmente em Kali-yuga (a yuga que experimentamos atualmente desde 5.000 anos atrás) existe abundância de briga, ignorância, irreligião e vício, virtude verdadeira praticamente não existe, e essa yuga dura 432.000 anos. Em Kali-yuga, o vício aumenta tanto que no fim da yuga, o Supremo Senhor em pessoa aparece como Kalki avatara, elimina os demônios, salva Seus devotos, e inicia outra Satya-yuga. Então o processo começa a girar novamente. Essas quatro yugas, quando giram mil vezes, completam um dia de Brahma, o deus criador, e o mesmo número completa uma noite. Brahma vive cem desses "anos" e depois morre. Esses "cem anos" pelos cálculos terrestres totalizam 311 trilhões e 40 bilhões de anos terrestres. Com esses cálculos, a vida de Brahma parece fantástica e interminável, mas do ponto de vista da eternidade, é tão breve quanto um relâmpago. Existem inumeráveis Brahmas no Oceano Causal que surgem e desaparecem como bolhas no Atlântico. Brahma e sua criação são todos partes do universo material, por isso estão em fluxo constante.

No universo material, nem mesmo Brahma está livre do processo de nascimento, velhice, doença e morte. Brahma, entretanto, está dedicado diretamente ao serviço do Supremo Senhor na administração do universo; por isso que ele alcança a liberação imediatamente. Sannyasis elevados são promovidos ao planeta particular de Brahma, Brahmaloka, que é o planeta mais elevado do universo material e que sustenta todos planetas celestiais na camada superior do sistema planetário, mas no devido curso do tempo, Brahma e todos os habitantes de Brahmaloka ficam sujeitos à morte, de acordo com a lei da natureza material.

Verso 18

avyaktad vyaktayah sarvah
prabhavanty ahar-agame
ratry-agame praliyante
tatraivavyakta-samjnake

Tradução

Quando o dia de Brahma se manifesta, esta multidão de seres vivos vem a existir, e com a chegada da noite de Brahma, todos são aniquilados.

Verso 19

bhuta-gramah sa evayam
bhutva bhutva praliyate
ratry-agame 'vasah partha
prabhavaty ahar-agame

Tradução

Novamente e novamente o dia chega, e esta multidão de seres fica ativa, e novamente a noite cai, ó Partha, e todos são dissolvidos irremediavelmente.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Os jivas menos inteligentes, que tentam ficar dentro deste mundo material, são elevados e degradados em vários sistemas planetários de acordo. Durante o dia de Brahma, exibem suas atividades, e quando a noite de Brahma chega, são aniquilados. No dia, recebem vários corpos para atividades materiais, e à noite, esses corpos perecem. Os jivas (almas individuais) permanecem compactados no corpo de Vishnu e repetidamente são manifestos com a chegada do dia de Brahma. Quando a vida de Brahma finalmente termina, todos são aniquilados e permanecem não manifestos durante milhões e milhões de anos. Quando Brahma nasce novamente em outro milênio, são manifestos novamente. Dessa forma, os jivas ficam cativos neste mundo material. Entretanto, os seres inteligentes que aceitam a Consciência de Krishna e cantam Hare Krishna, Hare Rama em serviço devocional se transferem, mesmo nesta vida, para o planeta espiritual de Krishna e lá se tornam eternamente bem-aventurados, sem estarem mais sujeitos a esses renascimentos.

Verso 20

paras tasmat tu bhavo 'nyo
'vyakto 'vyaktat sanatanah
yah sa sarvesu bhutesu
nasyatsu na vinasyati

Tradução

Todavia, existe outra natureza, que é eterna e é transcendental a esta matéria manifesta e não manifesta. É suprema e nunca é aniquilada. Quando tudo neste mundo é aniquilado, aquela parte permanece como é.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A energia espiritual superior de Krishna é transcendental e eterna. Está além de todas as mudanças da natureza material, que é manifesta e aniquilada durante os dias e noites de Brahma. A energia superior de Krishna é completamente oposta em qualidade à natureza material. A natureza superior e inferior são explicadas no Sétimo Capítulo.

Verso 21

avyakto 'ksara ity uktas
tam ahuh paramam gatim
yam prapya na nivartante
tad dhama paramam mama

Tradução

Essa morada suprema se chama não manifesta e infalível, e é o destino supremo. Quando alguém chega lá, nunca mais retorna. Essa é Minha morada suprema.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A morada suprema da Personalidade de Deus, Krishna, é descrita no Brahma-samhita como chintamani-dhama, um lugar onde todos desejos são satisfeitos. A morada suprema do Senhor Krishna conhecida como Goloka Vrindavana é repleta de palácios feitos com pedra filosofal. Também, existem árvores chamadas "árvores dos desejos", que fornecem qualquer tipo de comestível que se peça, e têm vacas conhecidas como vacas surabhi que fornecem quantidade ilimitada de leite. Nessa morada, o Senhor é servido por centenas de milhares de deusas da fortuna (Lakshmis), e Ele se chama Govinda, o Senhor primordial e a causa de todas as causas. O Senhor costuma tocar Sua flauta (venum kvanantam). Sua forma transcendental é a mais atraente de todos os mundos; Seus olhos são como as pétalas do lótus e a cor de Seu corpo é como das nuvens. Ele é tão atraente que Sua beleza supera a de milhares de Cupidos. Ele usa roupas de cor açafrão, um colar de flores em volta do pescoço e uma pena de pavão em Seu cabelo. No Gita, o Senhor Krishna dá apenas uma pequena descrição de Sua morada pessoal (Goloka Vrindavana) que é o planeta mais elevado do reino espiritual. O Brahma-samhita dá uma descrição detalhada. A literatura Védica (Katha Upanishad 1.3.11) afirma que não existe nada superior à morada do Supremo Senhor, e que essa morada é o destino último (purusan na param kincit sa kastha parama gatih). Quando alguém a alcança, nunca mais volta a este mundo material. A morada suprema de Krishna e o próprio Krishna não são diferentes, pois são da mesma qualidade. Nesta Terra, Vrindavana, cento e cinqüenta quilômetros a sudeste de Déli, é uma réplica dessa Goloka Vrindavana suprema localizada no céu espiritual. Quando Krishna descendeu aqui na Terra, Ele se divertiu nesse pedaço de terra particular conhecido como Vrindavana no distrito de Mathura, Índia.

Verso 22

purusah sa parah partha
bhaktya labhyas tv ananyaya
yasyantah-sthani bhutani
yena sarvam idam tatam

Tradução

A Suprema Personalidade de Deus, que é maior do que todos, é alcançável por meio de devoção imaculada. Apesar de estar presente em Sua morada, Ele é todo-penetrante, e tudo se situa Nele.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Aqui se afirma claramente que o destino supremo do qual não existe volta é a morada de Krishna, a Pessoa Suprema. O Brahma-samhita descreve essa morada suprema como ananda-cinmaya-rasa, um lugar onde tudo é repleto de bem-aventurança espiritual. Toda variedade que for manifesta lá é da qualidade da bem-aventurança espiritual; não existe nada material. Toda variedade se expande como a expansão espiritual do próprio Supremo Senhor, porque a manifestação de lá pertence totalmente à energia espiritual, como explicado no Sétimo Capítulo. No que diz respeito a este mundo material, apesar do Senhor estar sempre em Sua morada suprema, mesmo assim Ele é todo-penetrante pela Sua energia material. Assim, com Suas energias espiritual e material, Ele está presente em toda parte; em ambos universos material e espiritual. yasyantah-sthani significa que tudo é sustentado por Ele, seja de energia espiritual ou material.

Aqui se afirma claramente que unicamente com bhakti, ou serviço devocional, a pessoa pode entrar no sistema planetário Vaikuntha (espiritual). Em todos Vaikunthas, existe unicamente um Supremo Senhor, Krishna, que Se expandiu em milhões de milhões de expansões planárias. Essas expansões plenárias têm quatro braços, e Eles presidem os inumeráveis planetas espirituais. São conhecidos por vários nomes: Purushottama, Trivikrama, Keshava, Madhava, Aniruddha, Hrishikesha, Sankarshana, Pradyumna, Sridhara, Vasudeva, Damodara, Janardana, Narayana, Vamana, Padmanabha, etc.. Essas expansões plenárias são como folhas de uma árvore, e a árvore principal é como Krishna. Krishna, que vive em Goloka Vrindavana, Sua morada suprema, conduz sistematicamente todos assuntos de ambos universos (material e espiritual) sem falha pelo poder de Sua onipresença (todo-penetrante).

Verso 23

yatra kale tv anavrttim
avrttim caiva yoginah
prayata yanti tam kalam
vaksyami bharatarsabha

Tradução

Ó melhor dos Bharatas, agora vou lhe explicar os diferentes tempos nos quais, quando sai deste mundo, a pessoa retorna ou não.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Os devotos imaculados do Supremo Senhor que são almas totalmente rendidas não se importam quando deixam seus corpos ou por qual método. Eles deixam tudo nas mãos de Krishna e tão facilmente e felizmente retornam ao Supremo. Mas aqueles que não são devotos imaculados e que em vez disso dependem desses métodos de realização espiritual como karma-yoga, jñana-yoga, hatha-yoga, etc., devem deixar o corpo num momento adequado e assim assegurarem ou não se retornarão a este mundo de nascimento e morte.

Se o yogi for perfeito, pode selecionar o momento e local para deixar este mundo material, mas se não for tão perfeito, terá que partir pela vontade da natureza. O momento mais auspicioso para deixar o corpo e não retornar é explicado pelo Senhor nesses versos. Segundo o Acharya Baladeva Vidyabhushana, a palavra sânscrita kala usada aqui se refere à deidade que preside o tempo.

Verso 24

agnir jyotir ahah suklah
san-masa uttarayanam
tatra prayata gacchanti
brahma brahma-vido janah

Tradução

Aqueles que conhecem o Brahman Supremo deixam o mundo durante a influência do deus do fogo, na luz, num momento auspicioso, durante a quinzena da Lua e nos seis meses quando o Sol viaja pelo Norte.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Quando fogo, luz, dia e Lua são mencionados, deve-se entender que sobre todos eles existem várias deidades presidentes que organizam a passagem da alma. Na hora da morte, o jiva segue adiante no caminho para uma nova vida. Se a pessoa deixa o corpo no momento designado acima, tanto acidentalmente quanto por arranjo, é possível alcançar o brahmajyoti impessoal. Místicos que são avançados na prática de yoga podem organizar o tempo e local para deixar o corpo. Outros que não têm controle; se partirem acidentalmente num momento auspicioso, então não retornarão ao ciclo de nascimento e morte, senão, existe toda possibilidade de que terão de retornar. Entretanto, para o devoto puro em Consciência de Krishna, não existe medo de retornar, se deixar o corpo num momento auspicioso ou não auspicioso, por acidente ou arranjo.

Verso 25

dhumo ratris tatha krsnah
san-masa daksinayanam
tatra candramasam jyotir
yogi prapya nivartate

Tradução

O místico que parte deste mundo durante a fumaça, a noite, a quinzena sem Lua, os seis meses quando o Sol passa pelo Sul, ou que alcança o planeta Lua, volta novamente.

Iluminação de Srila Prabhupada:

No Terceiro Canto do Srimad Bhagavatam, somos informados que aqueles que são peritos em atividades lucrativas e métodos de sacrifício na Terra alcançam a Lua na morte. Essas almas elevadas vivem na Lua por cerca de 10.000 anos (pelos cálculos dos semideuses) e desfrutam a vida com a bebida soma-rasa. Elas eventualmente voltam para a Terra. Isso significa que na Lua existem classes mais elevadas de seres vivos, apesar de não serem percebidos pelos sentidos grosseiros.

Verso 26

sukla-krsne gati hy ete
jagatah sasvate mate
ekaya yaty anavrttim
anyayavartate punah

Tradução

Segundo os Vedas, existem dois modos de sair deste mundo; um é na luz e o outro é na escuridão. Quando a pessoa sai na luz, não volta; mas quando sai na escuridão, volta.

Iluminação de Srila Prabhupada:

A mesma descrição sobre partida e volta é citada por Acharya Baladeva Vidyabhushana do Chandogya Upanishad (5.10.3-5). Dessa forma, aqueles que são trabalhadores lucrativos e especuladores filosóficos constantemente vão e voltam desde tempo imemorável. Na realidade, eles não alcançam salvação última, porque não se rendem a Krishna.

Verso 27

naite srti partha janan
yogi muhyati kascana
tasmat sarvesu kalesu
yoga-yukto bhavarjuna

Tradução

Os devotos que conhecem esses dois caminhos, ó Arjuna, nunca ficam confusos. Por isso, fique sempre fixo na devoção.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Krishna avisa Arjuna aqui que não deve ficar perturbado com os diferentes caminhos que a alma pode tomar quando deixa o mundo material. Um devoto do Supremo Senhor não deve se preocupar se vai partir por arranjo ou por acidente. O devoto deve se estabelecer firmemente na Consciência de Krishna e cantar Hare Krishna. Ele deve saber que preocupação sobre esses dois caminhos é perturbadora. A melhor forma de ficar absorto em Consciência de Krishna é sempre se devotar a Seu serviço, e isso tornará o caminho para o reino espiritual seguro, certo e direto. A palavra yoga-yukta é especialmente significativa neste verso. Aquele que é firme em yoga está constantemente dedicado à Consciência de Krishna em todos suas atividades. Sri Rupa Goswami aconselha que a pessoa deve ser desapegada do mundo material e que todas ocupações devem ser saturadas com Consciência de Krishna. Dessa forma, a pessoa alcança perfeição. Por isso, o devoto não fica perturbado com essas descrições porque sabe que sua passagem para a morada suprema está garantida pelo serviço devocional.

Verso 28

vedesu yajnesu tapahsu caiva
danesu yat punya-phalam pradistam
atyeti tat sarvam idam viditva
yogi param sthanam upaiti cadyam

Tradução

A pessoa que aceita o caminho do serviço devocional não fica privada dos resultados derivados do estudo dos Vedas, execução de sacrifícios austeros, doação de caridade ou busca filosófica e atividades lucrativas. No fim, ela alcança a morada suprema.

Iluminação de Srila Prabhupada:

Este verso é o resumo no Sétimo e Oitavo Capítulos, especialmente dos capítulos que tratam da Consciência de Krishna e do serviço devocional. A pessoa tem que estudar os Vedas sob a guia do mestre espiritual e se submeter a muitas austeridades e penitências enquanto vive sob seus cuidados. Um brahmachari tem que viver na casa do mestre espiritual como um servo, tem que mendigar doações de porta em porta e trazê-las para o mestre espiritual. Ele come somente sob a ordem do mestre espiritual, e se o mestre negligenciar em chamá-lo para comer naquele dia, o estudante jejua. Esses são alguns dos princípios Védicos para observância de brahmacharya.

Depois que o aluno estudar os Vedas por um período dos cinco aos vinte anos, pode se tornar um adulto de caráter perfeito. Estudo dos Vedas não é para a recreação de especuladores de poltrona, mas sim para a formação do caráter. Depois desse treinamento, o brahmachari recebe permissão para entrar na vida matrimonial com o casamento. Quando for um pai de família, também tem que executar muitos sacrifícios e lutar por mais iluminação. Então, depois de se retirar da vida matrimonial, quando aceita a ordem de vanaprastha, se submete a penitências severas, tais como viver na floresta, vestir-se com cascas de árvores, não se barbear, etc.. Com o cumprimento das ordens de brahmacharya, casado, vanaprastha e finalmente sannyasa, a pessoa se torna elevada ao estágio de perfeição da vida. Alguns são elevados ao reino celestial, e quando avançam ainda mais, são liberados para o céu espiritual, ou no brahmajyoti impessoal ou nos planetas Vaikuntha ou Krishnaloka. Esse é o caminho traçado pelas literaturas Védicas.

Entretanto, a beleza da Consciência de Krishna, é que apenas com um golpe, por se dedicar ao serviço devocional, a pessoa pode superar todos os rituais das diferentes ordens de vida.

Deve-se tentar compreender o Sétimo e o Oitavo Capítulo do Gita não com erudição ou especulação mental, mas sim por ouvi-los na associação com devotos puros. Os Capítulos Sete ao Doze são a essência do Gita, se a pessoa tiver sorte o bastante para entender o Gita; especialmente esses seis capítulos do meio; na companhia de devotos, então sua vida se torna gloriosa de imediato além de todas penitências, sacrifícios, caridades, especulações, etc.. A pessoa tem que ouvir o Gita do devoto porque no começo do Quarto Capítulo está afirmado que o Gita só pode ser entendido perfeitamente por devotos. Ouvir o Gita dos devotos, não de especuladores mentais, se chama fé. Pela associação com devotos, a pessoa é colocada no serviço devocional, e com esse serviço, as atividades, forma, passatempos, nome, etc. de Krishna ficam claros, e todas dúvidas são dissolvidas. E quando as dúvidas são removidas, o estudo do Gita se torna muito prazeroso, e a pessoa desenvolve um gosto e sentimento pela Consciência de Krishna. No estágio avançado, a pessoa fica completamente apaixonada por Krishna, e esse é o começo do estágio de perfeição mais elevado que prepara a transferência do devoto para a morada de Krishna no céu espiritual, Goloka Vrindavana, onde o devoto entra na felicidade eterna.

 

Assim terminam os Significados Bhaktivedanta do Oitavo Capítulo do Srimad Bhagavad-gita sobre a matéria da Realização do Supremo.

 

 

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