Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

Sri Chaitanya Shikshamritam

de
Thakur Bhaktivinode

(última atualização: 21/05/16 )

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Capítulo V

  1. Bhava Bhakti
  2. Sinais do Bhava Bhakta
  3. Determinação do Conhecimento
  4. Determinação de Rati ou Inclinação

Capítulo VI

  1. Discriminação na Decisão sobre Prema-Bhakti
  2. Sobre o Nascimento do Prema
  3. Decisão sobre Nama-Bhajan conforme o grau de elegibilidade do Prema
  4. Processo de Nama-Bhajan
  5. Objetivo de Pessoas no Estágio Ascendente de Prema

 

Parte II

Capítulo VII

  1. Decisão Preliminar sobre Rasa
  2. Deliberação sobre Rasa como o Espírito de Adoração
  3. Discussão sobre Shanta Rasa
  4. Julgamento de Priti-Bhakti Rasa
  5. Prema Bhakti Rasa - Sakhya Rasa
  6. Vatsala Bhakti Rasa
  7. Madhura Bhakti Rasa

Capítulo VIII

  1. Conclusão

Abreviações

 

Capítulo V

 

1

 

Bhava Bhakti

 

O fruto de Sadhana-Bhakti é Prema-Bhakti. Há dois estágios em Prema-Bhakti. O primeiro estágio é Bhava e o segundo é Prema. Se compararmos Prema com o Sol, Bhava será seus raios. Bhava é constituído de Vishuddha-Sattva, e deixa o coração tranqüilo ao criar sabor. Quando o tipo de devoção descrito anteriormente, que tem o sinal comum de trabalho para cultivo de Krishna-Bhakti, atinge o caráter de Vishuddha-Sattva e deixa o coração tranqüilo por apreciar o sabor, é denominado Bhava. Quando Bhava aparece na faculdade da mente se torna identificado com ela. Apesar de Bhava ser auto-evidente na realidade, sua expressão se torna manifesta mesmo ao se identificar com a faculdade da mente. O que chamamos de Bhava aqui, em alguma outra parte é "Rati". O Rati deve ser saboreado, mas mesmo assim é conhecido como a razão para saborear o Vishaya, Sri Krishna. Devemos entender que Rati é de caráter espiritual, e não vem ao campo da matéria. O Rati (apego) que os Jivas possuem pela matéria é uma mera perversão. Quando executamos a contemplação divina neste mundo, ela cria o sabor pelas discussões relativas a Deus, sendo uma parte de Sambit-Shakti. Nesse momento, ela gera o prazer, compartilhando com Hladini-Shakti. Rati é a semente da árvore-dos-desejos do amor. Quando o Rati é ajudado por outras sensações divinas e sentimentos, se relaciona com eles e manifesta a árvore do amor. Daremos exemplos especiais no capítulo sobre Rasa-Tattva (qualidades da doçura nectárea transcendental).

Rati é a menor partícula de Prema, além dele não existe nenhuma partícula menor. É como o número 100, que possui classificações menores e indivisíveis chamadas unidades, da mesma forma, no Prema-Tattva a menor unidade indivisível é Rati. Todos os sentimentos notados em Sadhana-Bhakti, como sabor, fé, apego etc., são frações de uma unidade composta de Rati. Se não houver fé firme e sabor no ramo do Sadhana, i.e. cultivo, o Sadhana se torna completamente fútil. A fé e sabor descritos no Varnashrama-Dharma etc. são frações de Rati. Tudo isso é disciplinado de certo modo na vida moral. Na vida moral com fé em Deus eles são um pouco mais regulados, mas ainda são pervertidos. Na vida do aspirante, eles não são mais pervertidos, mas ainda são frações e não uma unidade composta plenamente. Na vida divina, se nota apenas uma unidade composta de Rati. O Jiva consegue se saciar quando surge um Rati indivisível. Quem obteve Rati pleno ainda tem relação com o mundo material antes de sua morte. Apego a coisas materiais é uma perversão de Rati. Voltar-se para Deus é a própria natureza de Rati, ou seja, liberdade da perversão.

Há dois tipos de Rati ou sentimentos divinos: (1) sentimento de atenção intensa para o Sadhana ou contemplação e (2) sentimento que surge pelo favor. O primeiro sentimento é ainda dividido em dois: (1) sentimento pelo Vaidhi-Sadhana e (2) sentimento pelo Raganuga-Sadhana. A aplicação íntima no Sadhana por um aspirante reverencial produz gradualmente o sabor por Deus. Esse sabor se torna gradualmente em Aasakti (apego profundo) pela atenção mais íntima ao Sadhana, e finalmente é nutrido como Rati. Essa é a evolução gradual do Sadhana. A vida de Sriman Narada é um exemplo de sentimento desperto por aplicação íntima no Vaidha Sadhana. O sentimento que o devoto Raganuga obteve (narrado no Padma Purana) é um exemplo de sentimento desperto por aplicação em Raganuga-Sadhana.

Há dois tipos de sentimentos obtidos pelo favor: (1) sentimento pela misericórdia de Krishna e (2) sentimento pelo favor dos devotos. Há três tipos de favores de Krishna: (1) oral, (2) iluminado e (3) interno. Quando Deus está satisfeito com alguém e o agrada com palavras, é Seu favor oral. Quando Deus favorece, mostrando Sua Forma Divina, é iluminação. Quando Ele estimula sentimentos superiores no coração, é favor interno. Os sentimentos devocionais surgiram no coração de várias pessoas pelo favor dos devotos, como Narada etc.. Esses são "favores concedidos". Os devotos têm um grande poder, e através de exercitá-lo, podem bondosamente incutir poder em outros Jivas. Prahlada e um certo caçador obtiveram Rati natural pela misericórdia de Narada. É preciso dizer algumas palavras sobre "incutir poder". O poder dos devotos que receberam Prema é infinito. Eles podem incutir poder em qualquer pessoa pelo seu favor. Os devotos que se elevaram ao estágio de "Bhava" podem incutir poder nos Sadhana Bhaktas, se desejarem, para que os sigam. Eles podem produzir sabor por Deus em pessoas de mentalidade externa, pelo poder de sua conduta, conforme a habilidade obtida na vida passada. Os Vaidha e Raganuga Bhaktas podem produzir a fé firme em Deus em pessoas de mentalidade externa conforme seu destino, através de instruções e exemplos. Devemos considerar ainda, que os Jivas podem obter Bhava Bhakti conforme seu Sadhana, i.e., desempenho. Já foi dito que o sentimento obtido por favor é raro. Até mesmo as pessoas de nível mais baixo podem obter Bhava por favor. A causa básica para isso é o poder inconcebível Divino e o governo Dele sobre as regras. As pessoas não devem achar que o favor é injusto, pois Sri Krishna é a Entidade independente, e esse direito não é injusto para Ele. O que é justo? Somente o desejo Divino. As pessoas denominam a observância das regras que vêm pelo Seu Desejo como justas. A regra é bem insignificante e depende Dele, cujo Desejo é lei. Sri Krishna transcende toda prova mundana, pela qual "Justo e Injusto" são determinados em relação ao ser humano.

Há cinco tipos de Rati conforme a classificação dos Bhaktas. Isso será discutido separadamente no capítulo sobre "Determinação de Rasa".

A vida de pessoa em cujo coração brotou Bhava se torna muito pura. Se o Rati desperta no coração do Vaidha Bhakta, todas as mudanças naturais se manifestam nele necessariamente. Nesse momento, a obrigação da regra se afrouxa, a conduta se torna arbitrária de certo modo. Isso não significa que Bhava muda a vida Vaidha abruptamente, mas as ações da pessoa ligada a Bhava parecem ser independentes das regras. O Rati natural pleno se torna o regulador de todos os seus trabalhos. Não há nenhum temor para a pessoa ligada a Bhava, mesmo se tornar-se arbitrária. Ela não se preocupa nem um pouco com virtude ou vício. Ela nunca faz nenhum trabalho mesmo por sentimento de dever. Ela também não tem inclinação para seguir ninguém. A preservação do corpo, mente, alma, sociedade etc. é feita facilmente, devido a seu hábito prévio. Sendo negligente com atos virtuosos, como será possível que ela faça atos viciosos? Podem haver alguns sinais de negligência a atos Vaidha, quando exercita seu Rati, mas os Vaidha-Bhaktas não devem ser maliciosos com ela por esse motivo. A pessoa em cujo coração brotou Bhava é abençoada em todos os aspectos. Se os Vaidha-Bhaktas a desprezarem, seu tesouro da devoção vai diminuir. A vida do Bhava-Bhakta é similar à do Sadhana-Bhakta, mas notamos certas peculiaridades nela, e isso deve ser sempre lembrado.

 

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Sinais do Bhava Bhakta

 

Há nove características proeminentes nos Bhava-Bhaktas: (1) tolerância, (2) não desperdiçar tempo sem meditar ou falar sobre Deus, (3) abstinência, (4) desprezo pela própria fama, (5) otimismo (i.e., convicção firme que alcançará Deus), (6) verdadeira avidez, (7) sabor constante em cantar o Nama, (8) apego profundo em narrar as qualidades de Krishna, e (9) prazer em viver nos locais onde Krishna efetuou Seus Lilas. A mente do Bhava-Bhakta nunca é alterada, mesmo se houver muita agitação realmente, se alguém for hostil, se houver pesar pela morte de algum parente, se houver perda de propriedade, se surgirem desavenças domésticas ou se houver qualquer doença, talvez o Bhava-Bhakta mostre algum sinal de perturbação externamente mas seu coração nunca muda, pois está dedicado a Deus. Ira, luxúria, avareza, medo, esperança, dor e paixão são os diferentes elementos da agitação do coração. O Bhava-Bhakta cultiva tudo através do seu Bhava com avidez, para que seu tempo não seja desperdiçado em vão. Qualquer trabalho que executa, ele faz se lembrando do Lila apropriado de Deus, que estimula o sentimento de Sri Krishna. Ele faz todos os trabalhos como servo de Deus.

Quando os sentidos ficam naturalmente aversos a objetos mundanos isso se chama abstinência ou desgosto. A aversão fica forte quando surge Bhava. A pessoa fica indiferente aos objetos materiais quando obtém Bhava. Mas quando esses objetos forem dirigidos a Deus, lhe dará muito prazer. Existe uma seita de Babajis chamada Virakta. Eles se consideram como Virakta assumindo uma falsa aparência Vaishnava, que é chamada "Bheka". Mas isso não acontece realmente, por meramente se declararem Virakta (não apegados a prazeres mundanos). Se a indiferença não aparecer por si própria, através do processo evolucionário de Bhava, não será próprio assumir tal aparência. "Bheka" significa que quando o desgosto aparece, o mundo não parece mais confortável para muitos. Se o mundo não é mais favorável para Bhajan, eles acham que têm de restringir suas necessidades, usar pouca roupa e trapos e mendigar unicamente o Mahaprasadam sagrado (alimento oferecido a Deus). Esse tipo de conduta se torna gradualmente espontânea. Essa mudança é aprovada por todos os Shastras depois que Sri Guru verificar se a pessoa está apta a aceitar Bheka. Mas esse sistema atual é ofensivo. Há certas pessoas, para não falar em possuir Bhava-Bhakti, que nem mesmo têm constância em Vaidhi-Bhakti e aceitam Bheka como um meio de subsistência, mostrando apatia temporária pelo mundo ou fazendo trabalhos arbitrários. Vairagya, i.e. indiferença, que surge devido a brigas entre marido e mulher, problemas familiares, falta de cônjuge, declínio de prostitutas profissionais, recorrer à influência de alguma droga intoxicante etc., é apatia temporária. Muitos jovens subitamente procuram por Babajis ou Goswamis por causa da indiferença temporária, e lhes pagam para poderem usar tanga e manto. O fato é que o resultado dessa indiferença ao mundo desaparece rapidamente e o homem ou mulher nesse estado, sendo atraídos pelo prazer sexual, iniciam uma vida familiar ilegal, ou satisfazem seu apetite sexual secretamente, cometendo adultério. E assim, eles não obtêm nenhum benefício espiritual. Não haverá nenhum benefício ao mundo Vaishnava se esse sistema de Bheka imoral não for abolido. Nós já dissemos previamente, no capítulo sobre Varnashrama-Dharma, que esse tipo de ascetismo ilegal é um pecado de destruição do mundo. Esse ascetismo ilegal é pecado no Varnashrama-Dharma. A indiferença ilegal que estamos discutindo é uma grande ofensa para a vida devotada. Isso foi discutido no anexo ao Satkriyasara Dipika composto por Srimad Gopalla Bhatta Goswami.

Somente alguns poucos entre os que se consideram "Vairagi" ou "Vaishnava" podem obter indiferença através da devoção. Deixem-me reverenciar os pés daqueles que obtiveram tal indiferença. Os Vairagis ilegais são divididos em quatro classes: (1) Vairagi macaco, (2) Vairagi hipócrita, (3) Vairagi instável e (4) Vairagi convencional.

Há pessoas que não possuem verdadeira indiferença e ainda assim desejam andar por aí usando vestes de Vairagis, e causam o mal, dando vazão a seus sentidos irresistíveis. Sriman Mahaprabhu os chamou de ascetas macacos. Algumas pessoas astutas aceitam Bheka, na expectativa de poderem sentar junto com os Vaishnavas e compartilhar Prasadam no Mahotsava, e assim, os Vaishnavas farão seu funeral quando morrer, independente do mal que praticam. Eles também esperam que as pessoas domésticas os alimentem cuidadosamente, e lhes dêem dinheiro para comprar tabaco ou outras substâncias intoxicantes. Esses são os Vairagis hipócritas. Quando a indiferença temporária surge na mente devido a brigas, problemas, falta de dinheiro, doença, frustração no casamento etc., e a pessoa aceitar Bheka por causa disso, será um Vairagi instável. Sua apatia não dura muito e no fim eles entram no grupo dos Vairagis hipócritas. Aqueles que se tornam incapazes para a vida doméstica, recorrendo à substâncias intoxicantes, e tentam mostrar sinais de algum tipo de devoção fisicamente durante o período de intoxicação, ou aprendem a expressar esses sinais externamente tentando imitar o Rati puro por meio do Rati material, são Vairagis convencionais, ostentando sinais de indiferença. Esses tipos de indiferença são triviais, perversos e maléficos para o mundo.

A indiferença que surge da devoção é a beleza da vida devotada. Investigar sobre a devoção após assumir indiferença não é natural e geralmente conduz ao mal. A verdadeira indiferença é o ornamento do homem ou mulher que alcançou o estado de Bhava. Mas isso não é uma parte e parcela da devoção, e sim Anubhava de Bhakti, ou seja, simplesmente a expressão externa da devoção.

Desprezo pela fama acontece quando a pessoa é superior mas não tem vaidade pela sua própria reputação. Quem não possui excelência não pode ter fama. Esse tipo de humildade não é ornamento da vida devotada.

Quando a possibilidade de alcançar Deus se torna firme para a pessoa que alcançou o estado de Bhava, isso produz Ashabandha, i.e. firme convicção. Nesse momento não existe mais nenhuma sombra de dúvida que surge pela argumentação falsa.

A sede insaciável para alcançar o objetivo pessoal é chamada Samutkantha, avidez aguda. Deus é o único objetivo desejado para quem alcançou Bhava. A avidez é muito forte nesse caso. Ele saboreia constantemente o canto dos Nomes de Deus. Ele não sente prazer em mais nada além disso. Ele também expressa apego profundo em narrar as qualidades Divinas. O estado muito profundo de Ruchi, i.e. sabor, é Aasakti (apego). E seu estado mais profundo é Rati.

Há dois tipos de residências Divinas: mundana e transcendental. Os locais de Hari Lila no mundo material são Prapancha ou relacionados com a esfera material. Se a devoção suprema for aplicada nesses locais parecerão reflexos da morada transcendental aos olhos do devoto. A morada transcendental é Chit-Jagat (mundo de consciência transcendental). Há dois tipos de Chit-Jagat puro e Chit-Jagat mundano. O Chit-Jagat puro fica no outro lado do rio Viraja e se chama Paravyoma, onde há compartimentos separados com lugar para Rasas separadas. Deus habita em todos eles como o Vishaya dos Rasas com os Jivas puros, que O suprem com esses Rasas. Deus habita na parte Chit dos corações dos Jivas em cativeiro, quando se purificam pela devoção e têm inclinação para Rasas em particular pertencentes aos compartimentos, como Vishaya desses Rasas respectivos. Portanto, Vaikuntha e o coração dos devotos são dois locais transcendentais de Deus. Os locais do Lila Divino no mundo e os locais de Bhajan dos devotos são chamados de conquista sobre Maya. Os locais do Lila Divino como Sridham Vrindavana, Sridham Navadwip, os doze lugares sagrados, os locais Vaishnavas em Naimisharanya, as margens do rio Ganges, o local de Tulasi, os locais de discurso sobre Deus e os locais onde Seus Vigrahas estão instalados são locais de morada Divina. A pessoa que despertou Bhava no coração aprecia muito viver nesses lugares.

 

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Determinação do Conhecimento

 

Alguém pode querer saber quais são as atividades da pessoa que alcançou o estado de Bhava, em relação ao cultivo do conhecimento. A pessoa que pratica Vaidhi-Bhakti reuniu algum conhecimento rudimentar sobre as verdades do Vedanta presentes no Bhagavata-Shastra mesmo antes da aparição de Bhava, e assim, o mal da ignorância é removido. Quando Bhava surge, não se cultiva outras partes do conhecimento, exceto saborear Bhava. Há cinco tipos de conhecimento: (1) conhecimento em relação aos sentidos, (2) conhecimento moral, (3) conhecimento sobre Deus, (4) conhecimento sobre Brahman e (5) conhecimento puro.

O conhecimento pelos sentidos é possível a todos os Jivas que possuem sentidos. O conhecimento das sensações do mundo externo é levado ao cérebro através dos sentidos via nervos. Essas sensações são obtidas do mundo externo pela primeira faculdade da mente que é o sentido interno. Essas sensações são mantidas na memória pela segunda faculdade mental. Elas são unidas e separadas, resultando em imaginação e contemplação pela terceira faculdade. A quarta qualidade determina a qualidade desses sentimentos, diminui seu número e os divide novamente, incrementando o número. O significado geral é obtido desses sentimentos sortidos pela quinta faculdade. Isso se chama razão. O trabalho que deve ser feito e o que não deve ser feito é determinado pela razão. Todas as ciências orgânicas e inorgânicas foram descobertas pela razão. Há vários tipos de ciências orgânicas e inorgânicas, como a ciência da matéria e do movimento, magnetismo, eletricidade, medicina, fisiologia, ótica, música, lógica, filosofia mental, etc.. Todos os tipos de artes e manufatura foram descobertos através das qualidades da matéria e do conhecimento sobre seus poderes. A ciência e a arte realizam grandes feitos através da ajuda mútua. Estradas de ferro, linhas elétricas, navios, arquitetura de templos e edifícios etc. são conhecimento sensual e de diversas atividades mentais. Geografia e astronomia são conhecimento pertencente aos sentidos. Zoologia, geologia, medicina etc., pertencem a categoria de conhecimento sensual. Aqueles que desejam serem confinados a esse tipo de conhecimento, denominam esse conhecimento como positivo. Mas a natureza humana tem a característica de não querer ser confinada a esse conhecimento limitado. Eles aspiram por conhecimento mais e mais elevado. A ciência ética surge quando a verdade moral é adicionada ao conhecimento sensual. Determinando o que é bom e o que é mal para o mundo. A causa principal do prazer e da dor é o contato dos sentidos com os objetos externos, i.e., o prazer surge do contato com um objeto favorável para a mente e o ódio surge pelo que é desfavorável. Algumas leis morais são imaginadas pela razão através de considerar esses dois aspectos. Também é necessário incluir aí alguns meios para promover a felicidade e impedir o ódio. Há vários tipos de moral: política, código penal, leis comerciais, utilitárias, trabalhistas, regras de saúde, socialismo, regras de vida, treinamento e desenvolvimento de sentimentos etc.. Não existe conhecimento sobre o pós vida ou sobre Deus no conhecimento meramente moral. Alguns chamam o conhecimento moral de positivo e de conhecimento certo. Mas a natureza humana possui faculdades superiores, por isso, o conhecimento moral sozinho não pode satisfazer a mente humana. O conhecimento moral é tocado pela virtude e vício, pecado e piedade e gera algumas reações corpóreas, mentais e sociais, mas após a morte o único resultado será fama ou infâmia, não há nenhuma outra esperança além disso.

Quando se discute sobre a formação de todas as coisas no mundo, suas relações mútuas, compensação das deficiências de cada um e desenvolvimento gradual, a razão humana decide que o mundo não pode ser criado por si próprio. O mundo surgiu de algum Ser que é de conhecimento essencial. Ele é adorado pelo mundo. Ele é o ser todo poderoso. Alguns decidem que ele criou tudo. Ele deve ser adorado com gratidão. Assim Ele ficará satisfeito e nos concederá mais facilidades. Ele satisfará nossas necessidades. Outros decidem que ele nos criou e idealizou meios para incrementar nosso conforto, por seu cuidado superior. Ele não espera por nenhum retorno de nós. Assim, eles adicionam crença em Deus na ética moral e estabelecem o conhecimento sobre Deus através de tais decisões instáveis. O desfrute celestial é obtido como resultado da execução de deveres sagrados e a miséria do inferno pela execução de trabalhos proibidos conforme a opinião de alguns crentes em Deus. Observar Varnashrama-Dharma, praticar Astanga-Yoga, austeridade e penitência, arranjos para adoração em locais famosos e em casa são injunções que surgem desse conhecimento sobre Deus. Uma parte do gnosticismo e todo o Karma estão incluídos nesse tipo de conhecimento. Não há consciência do caráter eterno do Jiva nesse tipo de conhecimento. Quando as pessoas que possuem esse tipo de conhecimento realizam sua trivialidade, aspiram por um maior incremento. Aqueles que desejam pressionar sua razão mais e mais nesse curso, ficam com a razão retardada no caminho e não conseguem ir adiante, e o resultado é que se apegam a significados simbólicos do mundo e a argumentos no processo negativo. "Porque existe forma, a verdade alcançável é sem forma. Porque existe transformação, a verdade alcançável é imutável. Porque existe qualidade, a verdade alcançável é sem qualidade. Porque existe discriminação, a verdade alcançável é indiscriminada". Eles imaginam alguma verdade indiscriminada e procuram pelo objetivo final através desses sinais. O conhecimento sobre Deus se decide no conhecimento de Brahman nesse caso. Mas aqueles que têm paciência e voltam a mente e penetram no princípio espiritual da alma, obtêm a quinta categoria de conhecimento que é o conhecimento puro.

O quarto grupo é o de Brahma-Jñana. Brahma-Jñana diz que esse mundo é uma ilusão e portanto é falso. Há apenas uma entidade que é o Brahman. A fé no mundo é somente ilusória. Jiva é Brahman mas coberto por Avidya, i.e., ignorância. Quando Avidya é removido, o Jiva é Brahman. Aí não haverá dor, medo e paixão. Isso se chama Mayavada ou Adwaitavada. Isso também se chama panteísmo. Há dois tipos de Adwaitavada, um é Mayavada e o outro é Vivartavada. Mayavada diz que nada existe, o mundo é apenas uma ilusão. No Vivartavada se admite algum tipo de poder, que por sua vez tem dois tipos, um é Vikara, i.e., transformação, e o outro é Vivarta, i.e., erro. Se surgir algum outro sentido, admitindo a verdade, isso se chama Vikara, transmutação. Por exemplo, considerando o leite, se o leite for transformado em coalhada, isso é Vikara. Se surgir uma noção errada por negar a verdade, isso é Vivarta. Por exemplo, confundir uma serpente com uma corda, ou prata com uma concha. Há vários tipos de opiniões em Mayavada e Vivarta. Vamos discuti-las brevemente:

  1. Não há nada além de Brahman. O que se vê não é verdade, é só verdade empírica.
  2. Não existe Jiva, mesmo se existir, é Vikara ou Vivarta do Brahman.
  3. O mundo é ilusório.
  4. Aquele que se considera Jiva, quando abandona sua vaidade é Brahman.
  5. A maior necessidade é a salvação.
  6. Brahman é Nirguna, i.e., desprovido de poder e qualidade.

Se queremos afirmar qualquer coisa contrária à verdade racional, devemos tomar precauções adequadas, pois se isso não for provado, o proponente cairá na categoria dos lunáticos. Podemos conceber facilmente que o mundo é real. Também é facilmente concebível que o Jiva é uma realidade diminuta. Podemos acreditar facilmente com razão que o Brahman é Mestre pleno, Controlador pleno e Protetor pleno. Quem pode propor que – "Eu não existo, tudo que vejo não é assim e há uma verdade interna, que se for seguida fará com que as coisas externas pareçam enganosas". Se o Jiva que é sujeito a erros fizer tal proposição, conseqüentemente ela também pode ser falsa assim como muitas outras. Essas propostas são feitas geralmente por pessoas intoxicadas. Às vezes eles se consideram imperadores ou Nawabs e se capacitam a realizar trabalhos sob tal auto-glorificação. Não haverá a mínima dúvida de que eles vão se considerar Brahman. Há vários tipos de erros, e entre eles os principais são os erros que surgem de sofismo [engano], má intenção e ingestão de intoxicantes. O intelecto humano causa o surgimento de tais erros viciosos, por ser argumentativo. Aqueles que são considerados panteístas na Europa acolhem essa opinião. Spinoza foi o maior erudito auto-concebido entre eles, que expôs essa opinião no mais alto grau. A opinião dos Teosofistas prevalecente na América e outros países também é parecida com Adwaitavada. A opinião que é exposta por eruditos auto-concebidos é geralmente aceita pelo povo, desprovido de poder auto-determinativo. Em nosso país, Dattatreya, Astabakra, Sankar etc., que eram pedantes e inclinados à argumentação, expressaram essa opinião de tempos em tempos e em diversos modos. Atualmente, todas as opiniões, exceto a dos Vaishnavas puros, são fiéis a essa opinião. Esse tipo de opinião é prevalecente na sociedade Brahmana. O motivo dessa prevalência global é porque não existe temor pela destruição para os que se tornam subservientes sob o abrigo de Adwaitavada. A comunidade que adora animais como Deus também obtêm apoio de Adwaitavada para torná-los fiéis. Adwaitavada afirma que se alguém adorar animais como Deus, poderá purificar a mente e obter firmeza para finalmente extrapolar a mente daquele objeto e ocupá-la na verdade Adwaita. E assim, todos os tipos de culto obtêm apoio de Adwaitavada como seu salvador final, mas não se importam em investigar o mérito ou demérito da verdade original. Mas, quem tem como caminho de vida a devoção pura, se despede de Adwaitavada por discriminar a verdade cuidadosamente, e seguem o caminho da devoção que é a virtude natural do homem. Vamos agora inquirir sobre as bases de Adwaitavada. Todas as coisas materiais vistas neste mundo são classificadas por eles como objetos mundanos através de uma diminuta investigação sobre a causa raiz, eles os transformam em matéria para diminuir a quantidade. Eles denominam todos os objetos sensíveis percebidos como objetos sensíveis. Esses dois tipos de coisas são determinados por eles através da faculdade mental que é razão empírica. Mas investigar sobre a raiz do processo mental não é função dessa faculdade. Eles concluem que Chit (sensibilidade) e Jada (matéria), ambos podem permanecer em alguma verdade original através de pressionar essa faculdade. Nesse caso, eles imaginam o Brahman como sendo indeterminado e decidem que Ele é a origem desses dois tipos de verdade. Eles imaginam que do mesmo modo como o leite fermentado vira coalhada, o Brahman quando fermenta vira o mundo, ou a concha parece prata, ou a corda parece serpente, e o Brahman parece ilusão na forma do mundo. É claro que a imaginação e a razão trabalharam arduamente nesse processo de decisão, mas estão sujeitos a erros em cada passo. Mas se não existe nada além de Brahman, como é possível ter a concepção do mundo?

O exemplo da ilusão da serpente pela corda é bem insignificante, pois para determinar o que é corda e o que é serpente, se a serpente tomar o lugar de Brahman no caso, como será possível a ilusão se não existe algo como a corda separadamente? Portanto, nesse caso, Adwaitavada não pode ser estabelecida. O mesmo ocorre no exemplo da concha pela prata. Se a coalhada é a fermentação do leite e similarmente se o mundo é a fermentação de Brahman, então o mundo é tão real quanto a coalhada. Aqui também Adwaitavada não pode se estabelecer. Todos os exemplos citados em favor de Adwaitavada são contrários à razão. A razão falha quando vai estabelecer Adwaitavada. Se a razão for descartada, o que mais será útil para manter essa opinião? Se afirmamos que o conhecimento simples é a direção, também será impossível. Pois no conhecimento simples há percepção da distinção, e a ajuda da razão é procurada para destruir isso. Se afirmamos que Adwaitavada foi instruído nos Vedas, esse argumento também será fútil. Quaisquer Shrutis citados pelos Adwaita Vedantistas para suportar seus pontos de vista, também contêm pareceres simultaneamente duais. Não se pode mostrar parcialidade em questões de decisão. Se considerarmos cuidadosamente, veremos que os Vedas instruem sobre o conhecimento de Achintya-Bhedabheda, i.e., conhecimento inconcebível da unidade e diferença, que transcende tanto Adwaitavada quanto Dwaitavada extremo. Em algumas partes dos Vedas são usadas palavras para apoiar ambos os pontos de vista, a fim de apaziguar os pareceres conflitantes. O fato é que o Adwaitavada puro não é a opinião dos Vedas. O Vedashastra é imparcial e é uma encarnação do conhecimento hábil. Os Vedas não prescrevem nenhum dogmatismo. Conhecimento característico, Vedas, razão, percepção normal, conhecimento hábil, provas, conhecimento direto ou indireto, nenhum desses apóia Adwaitavada. Os únicos que apóiam essa opinião são a razão errada imprópria. Mas não haverá mal nenhum se acreditarmos alegoricamente que o Jiva se torna Brahman quando é emancipado. Quando o Jiva se livra do materialismo grosseiro, fica com a vaidade de ter se tornado Brahman, mas nesse Brahman, as divisões internas triplas como o que deve ser saboreado, quem saboreia e o sabor, serão a virtude irresistível da pessoa que está imersa no Brahman. O que é Mukti, i.e., emancipação? Mukti é o estágio no qual o Jiva que é essencialmente Chit se torna livre do materialismo grosseiro. Mukti é um processo de trabalho temporário. Mukti não é aceito como Tattva pelos que são eternamente livres, pois nunca estiveram no cativeiro. Qual a necessidade de Mukti? Mukti só é possível para quem está no cativeiro. Há dois tipos de Jiva. Isso será visto no capítulo sobre a determinação do conhecimento puro. Não podemos afirmar que Mukti é uma necessidade do Jiva, pois não é um princípio aplicável a todos os Jivas. Prema ou Amor Divino é o princípio supremo aplicável a todos. Portanto, é a única necessidade suprema. Adwaitavada denomina o Brahman como indiscriminado e desprovido de poder. Mesmo se dissermos que o Brahman é indiscriminado, isso é apenas para distinguir o Brahman dos objetos materiais. Essa também é uma qualidade especial do Brahman. Se o Brahman não tem poder, como é possível a existência do mundo criado ou do mundo ilusório como eles dizem? Quando eles expressam a opinião de que não existe nada além de Brahman, então concluímos ultimamente que o poder de Brahman é a origem do mundo empírico. Vamos parar de contradizer Adwaitavada, pois temos outros trabalhos relevantes em vista. Nossa conclusão final é que Brahma-Jñana é considerado pertencente à quarta categoria de conhecimento pervertido sobre Deus. Shankaracharya, Astavakra, Dattatreya, Nanak, Kabir, Gorakhnatha, Shivanarayana etc. são considerados os preceptores dessa categoria. O conhecimento puro originário do broto do conhecimento Divino não é esse Adwaitavada.

O livro seria volumoso se fôssemos decidir sobre conhecimento puro em detalhes, e haveria pouco espaço para decidir sobre a virtude eterna do Jiva. Portanto, vamos apenas decidir brevemente sobre conhecimento puro.

O conhecimento puro constitui cinco tipos de percepção: (1) percepção sobre o Ser Supremo ou Realidade Última, (2) percepção sobre o eu do Jiva, (3) percepção sobre a própria virtude, (4) percepção sobre seu efeito e (5) percepção sobre as contradições. Há três tipos de percepção sobre a Entidade Suprema: percepção sobre Brahman, percepção sobre Paramatma e percepção sobre Bhagavan. O sentimento em relação a uma entidade indeterminada através do processo mental, que é contrária à percepção sobre todos os objetos mundanos determinados, pode ser chamada de Brahman. A Realidade Suprema é auto-evidente. A percepção sobre a Entidade Suprema surge através dessas três formas citadas para as pessoas que cultivam o conhecimento. A Realidade que aparece pelo mero exercício do pensamento, de forma indeterminada e negativa é Brahman. Essa não é uma verdade axiomática sobre o Supremo. Pessoas intelectuais que estão livres do pensamento vicioso de Adwaitavada, podem ter uma percepção rudimentar sobre a relação com Deus por esse meio. Ela pode ser chamada de Pareshanubhava (percepção sobre o Supremo), mas ainda é muito pobre e portanto não conduz ultimamente à bem-aventurança eterna. Rati (apego) pode surgir num certo nível, mas não há possibilidade de nutrir esse Rati devido à falta de relação. As grandes almas como Sanaka etc. que estão apegados a esse Rati são o exemplo de Shanta-Rati.

Percepção sobre Paramatma é o segundo tipo de Pareshanubhava, i.e., percepção sobre Paresha (Entidade Suprema). O conhecimento sobre Deus descrito na discriminação do terceiro tipo de conhecimento gera a percepção de Paramatma quando atinge seu ápice. O nome desse conhecimento sobre Deus é Paramatma, que concede o fruto da ação aos Jivas em cativeiro, e é também o agente direto de todos os trabalhos e é onipresente neste mundo.

A contemplação ou meditação em Deus prescrita pelo Astanga-Yoga pode ser imaginária ou Encarnação real de Paramatma. Ele é denominado de Purusha nos Shastras. O Paramatma Se manifesta em duas formas, manifestação individual e manifestação universal. Na manifestação universal ele é o Virat, soma total do Vigraha (Personificação) do mundo. Na manifestação individual ele é o companheiro dos Jivas e habita em seus corações como o Purusha, do tamanho de um polegar. O praticante de Karma adora Paramatma se houver alguma indicação sobre o Deus verdadeiro na linha do Karma (ação). Do mesmo modo como o Brahman é alcançado no estágio final do pensamento, no estágio final do Karma, o praticante se encontra com seu Paramatma adorado.

Percepção do Supremo Senhor Bhagavan é o terceiro estágio e o Pareshanubhava final. Deus é a realidade última que possui todas as qualidades, é todo-poderoso e tem sua própria forma característica. Não existe nenhum ser independente além de Deus, na decisão de Tattva ou verdade. Ele é todo-poderoso. Todos os Jivas e Jagat [universo] surgiram pelo Seu poder infinito e incomensurável. O poder não é diferente do Poderoso. Jiva e Jagat sendo evolução ou Parinama do poder de Deus, não podem ser entidades separadas, se julgarmos do ponto de vista da raiz ou primeira causa. Se julgarmos imparcialmente, poder não pode ser tido como o poderoso. Portanto, num julgamento imparcial, Jiva e Jagat são separados. Não chegaremos à verdade final se Bheda (distinção) e Abheda (não-distinção) não forem aceitos simultaneamente. Como essa afirmação é possível e como pode ser estabelecida racionalmente, a resposta é que essa verdade está incluída no Swarupa do Senhor. As virtudes contraditórias são reconciliadas em Deus, pelo Seu poder infinito que é inconcebível. A faculdade mental da razão é naturalmente limitada. Tocar a verdade fundamental está além do poder dessa razão. Se pelo desejo de Deus, inumeráveis virtudes opostas, como imutabilidade e mudança, distinção e não-distinção, incompreensibilidade mas poder da devoção para compreensão, imparcialidade mas parcialidade com os devotos etc., podem encontrar reconciliação em tal Vigraha, então por que não é possível aceitar a existência simultânea das características de não-distinção e distinção nesse Vigraha, do ponto de vista do julgamento externo também? Os que querem estabelecer Adwaitavada desqualificado estão tão sujeitos a erros quanto os que querem estabelecer dualismo puro. Deus, em Seu Vigraha auto-evidente, é separado do mundo inteiro e dos Jivas. Ele estabelece a eternidade e realidade de todos os Jivas (sensíveis) e toda matéria (insensível) em virtude de Seu próprio poder. Portanto, os Vedas às vezes pronunciam palavras de Adwaita e outras vezes, palavras de Dwaita.

A percepção de Bhagavan é o estágio culminante de percepção do Brahman e Paramatma como foi dito antes. Essas duas percepções mencionadas anteriormente são os objetos dos dois ramos Jñana e Karma dos Jivas, e constituem percepções parciais de Paresha Tattva, i.e., Realidade Última. A percepção do Senhor Supremo só é possível pela visualização direta de Deus, originária da devoção inadulterada a ele. A coisa que constitui sua própria essência é apenas real. Quando a natureza ou característica de alguma coisa não foi determinada, é só uma indicação de alguma qualidade. Não existe Swarupa definitivo de Brahman e Paramatma. O conhecimento de suas qualidades são os únicos indicadores. Por isso, eles não possuem posição direta. Eles são somente indicações indiretas de Deus. Por esse motivo, eles são compreendidos apenas por algumas faculdades isoladas. A devoção que é a rainha de todas as facilidades, pode abraçar todos eles e conceder a visão direta de Deus. Quando Deus (Bhagavan) é visualizado, isso causa a satisfação de todas as outras faculdades subservientes.

Há quatro tipos de percepção de Deus: (1) percepção onde o Karma é fator predominante, (2) percepção onde o conhecimento é fator predominante, (3) percepção onde Karma e Jñana são igualmente predominantes e (4) percepção pura.

Enquanto a relação do Jiva com a matéria não for eliminada, o trabalho de percepção de Deus não será similar em todos os casos. A percepção de Deus se torna Karma Pradhan, predominante com natureza de Karma, para aqueles cujo intelecto está dominado pelo Karma, mesmo se tal intelecto estiver ocupado no cultivo de Bhakti. Quando a devoção é conduzida por um intelecto dominado por Jñana, a realização divina se torna dominada por Jñana. Similarmente quando o intelecto é guiado por Jñana e Karma durante o cultivo de Bhakti, mostra o sinal da percepção de Deus com predominância da natureza de Jñana e Karma. Esses três tipos de percepção quando frutificam, se livram da matéria grosseira, e são notados como percepção do conhecimento puro de Deus cheio de Majestade e grandeza. O destino final dessas pessoas terá três aspectos: alcance de Salokya (morar na mesma residência do Senhor), Sarsti (possuir mesma riqueza e glória) e Samipya (viver no Seu reinado), tornando-se servos de Deus. Aqueles que seguem a linha de Raganuga (apego espontâneo pela devoção amorosa), durante a execução da adoração, obtêm conhecimento não adulterado sobre Deus finalmente. Na realidade, existem dois tipos de percepção de Deus: percepção de Deus sem mistura e percepção misturada. O exemplo de Vishaya de percepção de Deus como glória e Majestade foi citado. O Senhor Srinivas Narayana-Chandra habita o Paravyoma como o Senhor de todos os senhores de mundos ilimitados, possuidor de infinitas riquezas. Sobre conhecimento misturado com glória, devemos compreender como Vishaya os Senhores Mathuranath e Dwarakanath. Quando há Kevala, conhecimento sem mistura, Sri Krishna, o Senhor de Vraja, deve ser compreendido como o Vishaya, recipiente. As diferenças entre conhecimento da glória e conhecimento puro não adulterado são devidas à verdade eterna a respeito de Deus. Essa divisão não é percebida apenas durante a prática de Sadhana neste mundo, ambas percepções de Deus são aliadas a Bhagavat Tattva e são eternas.

Há três tipos de percepção de Deus, seja com Majestade ou com Kevala não misturado: (1) percepção de Deus em relação a Seu Swarupa, (2) percepção de Deus em relação a Seu poder e (3) percepção em relação a Suas ações.

Quem não acha o mundo agradável, mas não consegue vivenciar um mundo melhor, concebe algum tipo de Ser indeterminado. Chega à conclusão que o mundo superior é composto pelo agregado de todas as coisas opostas ao mundo sem julgar seriamente. No mundo material existem formas, perversões, qualidades, especialidades, sombra, trabalho e várias coisas etc.. Em oposição a tudo isso, há ausência de forma, imutabilidade, indeterminação, ausência de sombra, inação, indivisão etc., que sendo combinados exibem algum tipo de mundo, que na opinião deles é o mundo superior. Considere com cuidado pois essa conclusão é produzida apenas pela razão empírica. Mas a razão é produto da matéria. Quando a razão é pressionada fortemente, fica sujeita a imaginar algo oposto à verdade. Portanto, essa decisão é um estado particular da imaginação. Tudo o que for obtido através do cultivo de Chit não será assim. Bem, deixemos a razão dizer qual é o sinal característico de alguma coisa e o que não é uma coisa. Se a razão for imparcial e sem preconceitos, deverá afirmar que o que não é uma substância será não existente. A propriedade da coisa é a existência, i.e., o que permanece. Se o mundo imaginado se torna não existente, todos nossos argumentos e esforços em relação a eles serão falsos. Se for uma coisa, não será desprovido do sinal da coisa. Então, qual é o sinal de uma coisa? O sinal de cada coisa é (1) existência, (2) determinação, (3) ação e (4) necessidade. Se houver existência, a não existência abolirá a coisa. Se não houver especialidade, compreende-se que a coisa não tem caráter definido. Se não houver ação, será uma coisa falsa por falta de conhecimento. Se não houver necessidade, será fútil aceitar isso. O mundo superior deve ser referido como "Coisa". Portanto, possui existência, determinação ou especialidade, ação e necessidade. Quem disse que essa coisa é oposta às coisas do mundo material? Se disser isso, seu argumento será pobre. Se considerar cuidadosamente, dirá apenas que esse mundo superior é sem falhas e distinto da matéria. Se disser que é oposto ao mundo, dará de cara com um argumento imaturo e inconsistente. Não pode haver idéia de algo oposto a uma coisa, ou seja, não coisa. Admitir algo assim, será argumento de uma mente intoxicada. Não há mal nenhum em conceber esse mundo superior como sendo distinto da matéria através do sinal de que é livre dos objetos materiais desprezíveis. Principalmente porque o instrumento da razão não pode provar a existência de algo além da matéria, mas há uma faculdade especial na existência espiritual do Jiva chamada auto-realização ou Intuição, que é o sinal do puro conhecimento, e através de seu cultivo, a existência do mundo superior, sua característica distinta, sua ação, sua necessidade etc. são realizados até certo ponto. No Chit-Vastu, negação da existência, da distinção, da ação e da necessidade é suicídio do Chit (conhecimento). Se as pessoas argumentativas se livrarem de seus preconceitos e discutirem imparcialmente poderão entender isso facilmente.

Se Deus for percebido como todo poderoso, todas as dúvidas do Jiva serão removidas. O poder de Deus é inconcebível, além do alcance da razão e incomensurável. Deus é inseparável de Seu Swarupa, mas na prática, esse poder se expressa diferentemente. Mesmo se o intelecto humano chegar ao seu ápice, nunca alcançará nada do Seu poder supremo. Se quiser medir a Divindade, ficará desesperado como um animal inativo. O poder supremo é o receptáculo de todas as virtudes contraditórias, bem como seu regulador. Desejo e indiferença, distinção e não distinção, habitar em um lugar e onipresença, apatia e apego e luxúria, desapego e volição, razão e arbitrariedade, injunção e independência, chefia e servidão, onisciência e lembrança do conhecimento, corpo de estatura mediana e corpo incomensurável, satisfação de todos os propósitos e esforço como o de uma criança, todas as virtudes contraditórias como essas encontram sua reconciliação final em Seu poder Supremo. Pela influência de Sua Chit Shakti, Bhagavat Swarupa, Vigraha, a morada de Seu Lila e todos os ingredientes para o Lila são manifestos. Pela Sua Jiva-Shakti, Jivas inumeráveis existem eternamente, seja em cativeiro ou emancipados. Pela sua Maya-Shakti, mundos materiais infindáveis surgem e são como hospedarias para os Jivas viajantes em cativeiro. Pela parte Sandhini desse poder, são originados o Dhama particular, tempo, espaço, localidade, materiais e todos os ingredientes. Através de Sua Sambit-Shakti, sentimento, conhecimento e relações expressam suas variedades de acordo com os sentimentos adequados para o Dhama específico. Pelo Seu poder de Hladini, é executada a ação de saborear um tipo especial de prazer e felicidade adequado para aquele Dhama. Deve-se entender resumidamente que a entidade de Deus é expressada pelo Seu poder.

A percepção de Deus em relação a Suas ações será descrito no capítulo sobre Rasa. Não daremos nenhum detalhe agora. O segundo processo de conhecimento puro é Swanubhava. Qual é o Swarupa do Jiva? Diferentes pessoas, guiadas por suas naturezas diferentes, dão diferentes respostas a essa pergunta. Os que levam vida contrária a moral, vida bárbara, são capazes de dizer que o corpo humano é formado pela combinação de ingredientes materiais proporcionalmente, e quando vários órgãos são produzidos surge a qualidade do conhecimento através de exercitar esses órgãos, o corpo humano combinado com a qualidade do conhecimento e essa entidade é chamado Jiva. O Jiva não existe quando o corpo perece. Os animais não podem ser considerados Jivas. Os situados em vida moral repetem a mesma coisa, adicionando apenas que o Jiva é devotado à moral. A distinção entre homem e animal é notada pela ação contrária ou a favor da moral e disciplina. Os moralistas que acreditam num Deus imaginário dão quase que a mesma resposta, acrescentando que o homem deve imaginar algum Deus para benefício social e deve obedecê-Lo. Moralistas que acreditam num Deus real dizem que Deus criou os Jivas através do ventre materno. O Jiva tem a capacidade de desfrutar prazeres celestiais executando seus deveres. Vai para o inferno praticando más ações. A verdade sobre a pós-vida não é clara para eles, pois não conhecem nada antes do ventre materno. Portanto, não podem entender a relação do Jiva com a matéria. Os que procuram Brahman dizem que o Jiva não é nada além de Brahman. O Jiva foi cativo por Avidya, ignorância. Quando o laço da ignorância é removido, o Jiva permanece Brahman. Os que têm tal decisão indistinta, imperfeita e falha nunca poderão compreender seu verdadeiro eu. Se adotarmos a linha do puro conhecimento, será claro que o Jiva não é um habitante eterno deste mundo lamentável. O corpo atual do Jiva não é seu corpo eterno. O Jiva é essencialmente Chit (sensível). Deus é onisciente. Jiva é uma partícula dessa consciência. Deus é o Sol e o Jiva é um raio insignificante. Deus é Sat, Chit e Ananda plenamente e o Jiva é uma partícula atômica desse Chidananda universal. A matéria e o mundo material não são princípios próximos a Deus por não serem sensíveis. Mas o Jiva tem uma relação íntima com Deus pois é Chit em essência. Do mesmo modo como Deus possui Seu Swarupa Vigraha, o Jiva possui seu Chit-Vigraha eterno. Esse corpo Chit é manifesto em Vaikuntha. O Jiva é coberto por duas camadas no mundo material. A primeira cobertura são as marcas do Linga. Ego, mente intelecto são as verdades simbólicas do Linga-Jagat, que é mais fino que a matéria, por isso a cobertura com sinal do Linga é sutil. Egoísmo no mundo grosseiro e sentido de "eu" e "meu" na matéria grosseira é chamado Ahamkara ou vaidade. O conceito do corpo Chit do Jiva, existente antes de seu contato com a matéria, é justo e natural. Mas após o contato com a matéria, o conceito do eu se torna estranho e injusto. Outro nome para isso é Avidya, ignorância. Essa vaidade é o elo intermediário entre matéria (insensível) e Jiva (sensível). Situando-se na matéria, a aplicação do Jiva é principalmente em relação à matéria, então, a vaidade engrossa e vira coração (Chitta). Quando exercita a faculdade de julgamento em relação à matéria, esse princípio é denominado intelecto, que é grosseiro até certo ponto. Depois, quando essa faculdade cultiva a matéria pelo poder dos sentidos, é chamada mente. Os princípios da "vaidade" até "mente" não pertencem à natureza do Jiva puro nem à matéria, por isso, são chamados Lingadeha. Alguns sinais do corpo Chit do Jiva em seu estado puro, suas ações sensíveis, cultivo sensível etc., são refletidos parcialmente nessa forma Linga, assim a verdade intermediária é denominada Linga. Quando a vaidade de "eu" e "meu" que estava na forma Chit do Jiva se torna restrita entrando em contato com a matéria e quando essa vaidade chega ao Lingadeha, faz com que a consciência prévia do Jiva essencialmente Chit seja perdida e esquecida. Aparentemente quando o sentido de "eu" chega ao corpo Linga, é super imposto no corpo do Jiva relacionado com a matéria. A vaidade de que "eu sou em essência servo eterno de Krishna" existente na constituição Chit do Jiva se transforma em servo do Vishaya – matéria. E assim, o cativeiro do Jiva em Maya é estabelecido. A primeira cobertura do corpo Chit do Jiva é o corpo Linga e a segunda é o corpo grosseiro. O corpo Linga entra em outro nascimento após colher os frutos plantados pelo corpo grosseiro. O ciclo do Karma do corpo Linga grosseiro e sua onda trivial de conhecimento não param. Os versados na verdade consideram o Karma como não tendo começo, mas tendo um fim. A ação que não está em nenhuma outra parte além do mundo material será extinta quando o Jiva se emancipar, essa é a opinião dos teólogos. Mas, muitos podem não compreender distintamente como o Karma não tem começo. O tempo pertencente à matéria é apenas um reflexo do tempo Chit e é uma coisa material adequada ao desempenho do Karma. O Jiva se vale do Chit, tempo transcendental eterno em Vaikuntha, sem passado e futuro, só o presente existe. Quando o Jiva em cativeiro entra no tempo material, fica sujeito a passado, presente e futuro, e sendo servo de Trikala, sofre prazer e dor. O tempo material é originário de Chit-Kala e como o Chit Kala não tem começo, a origem do Karma do Jiva, ou seja, aversão a Deus, vem antes mesmo do tempo material. Portanto, julgando imparcialmente em respeito a Jadakala, a raiz do Karma é anterior a esse tempo, por isso, Karma foi denominado como Anadi, sem início. Explicando simplesmente, podemos dizer que Karma não tem início em relação a Jadakala, mas tem fim em relação a Jadakala, afirmar que Karma é destrutivo não é contrário à razão. No tempo fenomenal, Karma não tem começo mas possui fim.

Concluímos pelo processo de julgamento mencionado acima que há dois tipos de Jivas: emancipados e cativos. Há dois tipos de Jivas emancipados conforme suas inclinações naturais em relação à Majestade Divina ou à Doçura. Há cinco tipos de Jivas em cativeiro: consciência totalmente desabrochada, consciência florescida, consciência em botão, consciência reprimida e consciência coberta.

Vou primeiro deliberar completamente sobre Jivas emancipados. Eles são de dois tipos: eternamente livres, e emancipados do cativeiro. Os Jivas que nunca estiveram no cativeiro material e habitam eternamente em Vaikuntha (mundo transcendental) são eternamente livres. Seus hábitos e ações são para o serviço sincero e desinteressado a Deus sempre. Eles são companheiros do Lila infindável de Deus. Quando Deus descende ao mundo material pelo Seu poder interno inconcebível, muitos Jivas eternamente livres vêm com Ele, mas nunca são presos à matéria. Eles retornam ao mundo transcendental junto com Deus. Esses Jivas são eternamente livres sendo companheiros de Deus. E são inumeráveis. As ações dos Jivas emancipados são similares às ações do Jivas eternamente livres em todos os aspectos. Por terem sido emancipados da matéria, são cientes de tudo sobre o mundo material. Eles vêm às vezes a este mundo, por misericórdia aos Jivas merecedores, e os instruem sobre o conhecimento de Deus. Eles andam em qualquer parte por sua livre vontade em seus corpos não materiais e retornam ao Chit Dhama. Assim, nunca retornam ao cativeiro. A morada dos Jivas eternamente livres é Chit (espiritual), sua vaidade é Chit, seu coração é Chit, sua mente é Chit, seus sentidos são Chit e seus corpos são Chit (auto-consciente). Não possuem nenhum gosto por este mundo. Têm uma forte sede pelo serviço a Deus. Estão sempre ocupados numa variedade de serviços conforme suas relações especiais com Deus, por estarem em contato com Deus. Quem estiver atraído pela Majestade e Glória de Deus pode alcançar o estágio de servidão. Quem estiver devotado aos sentimentos da Doçura Divina alcança o serviço em amizade, paternidade ou amor transcendental. Os Jivas aceitam feminilidade ou masculinidade conforme seus sentimentos naturais. Suas ações não são como a dos corpos materiais pois não há necessidade de gerar filhos, urinar, defecar etc.. sua virtude geradora de prazer é nutrida pelo alimento Chit duradouro, como o Prasadam de Deus. Eles estão sempre acompanhados de companheiros homens ou mulheres para o serviço a Deus. Lá não existe sofrimento, medo, morte ou carestia. O tempo que lá existe também é Chit, não há passado nem futuro, só o presente desempenha todas as ações. Não há necessidade de memória, pois a função da memória é facilmente executada pelo conhecimento eternamente estabelecido. Saber que "sou um servo eterno de Sri Krishna" é pura vaidade. A bem-aventurança vai sempre incrementando e se expressa cada vez mais intensamente. Nesse lugar não existe tal coisa como saciação. Sede e satisfação são encontrados plenamente e com êxito. Os maravilhosos compartimentos ilimitados existem eternamente conforme os diferentes tipos de Rasas adequados ao serviço a Deus. Sringara Rasa (amor transcendental) predomina sobre todos os outros, o Sringara Rasa originário da cobiça ou Kama (desejo) é mais forte do que o Sringara comportado. A Vrindavana eterna reina sobre tudo, como a base desse Rasa. Sendo servido por todos os tipos de Rasas, Deus toma para Si mesmo uma parte e distribui outra parte aos servos nesses Rasa, tornando-os servos ideais. Ele planeja Seu Lila inconcebível. Os exemplos de servos ideais de Deus nos Rasas específicos são Srimati Radharani em Sringara, Srimad Nanda-Yasoda em afeição paternal [maternal], Subala em amizade e Raktaka em servidão. Há uma particularidade nesse caso, em Sringara, Srimati Radha é a Metade direta Predominada de Deus, e nos outros Rasas, Baladeva é a divisão direta. Devemos compreender Sriman Nanda-Yasoda, Subala e Raktaka como membros desse corpo. Deus Krishna-Chandra exercita Seu Lila com Suas consortes em Seu local favorito no mundo, durante os períodos da manifestação, pelo Seu poder inconcebível. Todos esses passatempos, Deus, Seus associados, todos os ingredientes do Rasa e o local do Rasa visíveis neste mundo material não são subordinados à nenhuma lei da natureza, mas sim, produtos livres de Seu poder inconcebível e ilimitado.

Foi dito, que há cinco tipos de Jivas em cativeiro: consciência totalmente desabrochada, consciência florescida, consciência em botão, consciência reprimida e consciência coberta. Entre esses Jivas em cativeiro, os que possuem consciência totalmente desabrochada, florescida e em botão possuem corpos humanos. Os Jivas em cativeiro com consciência reprimida possuem corpos de animais, pássaros e répteis. Jivas com consciência coberta são árvores, pedras etc.. O motivo do cativeiro dos Jivas é o esquecimento de seu Swarupa essencial como servo de Deus. O sofrimento material dos Jivas conscientes incrementa à medida que seu esquecimento se aprofunda. Quando a virtude da consciência é encoberta, esse estado se torna miseravelmente mundano. Esse estado só pode ser removido quando os Jivas puderem entrar em contato com pessoas santas e obtiverem a poeira de seus pés de lótus. Isso fica claro quando se discute as histórias dos Puranas sobre Ahalya, Yamalarjuna, Saptatal etc.. Nesses exemplos, o contato sagrado é o contato com Deus. Esse estado não pode ser removido por ninguém, exceto por Deus ou pelo Jiva que alcançou o Prema mais elevado. Quando a consciência está reprimida, a única causa para sua remoção será o toque de Deus. Pessoas que alcançaram o estágio de Prema são devotos como Narada ou Jivas possuidores de poderes esotéricos, eles podem liberar os Jivas de consciência reprimida se desejarem mostrar sua misericórdia.

Os exemplos de consciência em botão, consciência florescida e consciência totalmente desabrochada dos seres humanos, citados anteriormente, são os cinco tipos de vida humana. É um fato simples que pode ser compreendido se observarmos cuidadosamente os modos como as pessoas conduzem suas vidas. Há cinco tipos de vida humana: (1) vida imoral, (2) vida somente moral, (3) vida moral com crença em Deus, (4) vida devotada e (5) devotos que alcançaram o estágio de Bhava, ou sentimentos divinos sobre Deus.

Na vida desprovida de moral, ou na vida somente moral não há contemplação de Deus. Há dois tipos de vida moral com crença em Deus: vida moral que imagina algum tipo de Deus e vida moral que concebe um Deus realista. Vida sem moral, vida somente moral e vida moral crente num Deus imaginário estão na categoria dos Jivas de consciência em botão. Notamos aqui a faculdade mental até o limite da razão. Não há conhecimento das outras faculdades superiores a essas. Concluímos que se a consciência desses três tipos de Jivas for comparada ao limite máximo de consciência que os seres humanos podem alcançar, podemos dizer que ela está num estágio de botão apenas, ainda não floresceu. Há uma tendência na vida moral com crença num Deus realista da consciência desabrochar, pois acredita-se que deve haver um Ser superior que é o Mestre, Protetor e Diretor de tudo. Mas ainda assim, essa consciência não desabrochou. As pétalas da fé, constância, apego e gosto se expandirão na vida dedicada a Sadhana Bhakti. Quando se estenderem plenamente, começará a vida de Bhava Bhakti. Portanto, a consciência florescida é notada em todos os Jivas de vida realmente moral com fé em Deus e dedicada à prática de Sadhana Bhakti. A consciência totalmente desabrochada é notada na vida de Bhava Bhakti. Quando há plenitude de Bhava Bhakti, aparece Prema Bhakti. Quando dizemos Bhava Bhakti, nesse caso deve-se compreender Prema Bhakti, pois no final da vida de Prema Bhakti não há contato com a matéria. O Jiva reside no Chit Dhama, livre do cativeiro material.

O terceiro capítulo do conhecimento purificado é a percepção da própria virtude. O que é essa virtude pessoal? Sua natureza pessoal ou Swarupa é sua virtude pessoal. Tudo tem sua própria característica ou virtude. A característica não é diferente da coisa em si. A característica da coisa chamada Jiva é o amor. Outros nomes para virtude são poder, qualidade natural e faculdade. A virtude inerente é o meio para conhecimento da coisa. Não se pode conhecer algo sem conhecer sua virtude. A virtude do fogo é queimar, dar calor e se expressar, o que é chamado de fogo é conhecido por meio disso. Pensar que negar o objeto é a existência da qualidade apenas, ocorrerá a falácia de que duas ou três virtudes não podem se combinar em nenhum lugar, se não encontrarem uma plataforma comum. Quando se nota isso, conhecimento verdadeiro ou mesmo conhecimento elementar não encontram satisfação sem aceitar o objeto. Há três estados de virtude ou qualidade do substrato: (1) estado dormente, (2) estado desperto e (3) estado pervertido. O fogo se manifesta ao se riscar um fósforo ou uma pedra de isqueiro. Aí, o brilho do fogo, calor e poder de queimar são expressos. A coisa chamada fogo é efetuada simultaneamente. Essas qualidades permanecem em estado dormente antes de se expressarem. Então, despertam. A coisa permanece tanto em sua natureza real ou se torna pervertida, conforme a divisão, quando está desperta. Se o fogo obtém madeira, a qualidade do fogo pode agir em sua natureza real. Se encontrar outra coisa estranha e tentar queimá-la, pode não produzir luz, ou mesmo se produzir luz, pode não queimar. Nesse caso, a qualidade de dar luz se torna pervertida. Cada coisa possui sua qualidade principal que age por diferentes faculdades. Quando a virtude principal adota alguma faculdade especial e se torna pervertida, é conduzida a outras faculdades em forma pervertida. Isso se chama a perversão de alguma coisa. A qualidade permanece em estado dormente quando não obtém seu próprio objeto. Quando obtém objeto adequado, entra em estado desperto. A qualidade entra em estado pervertido quando obtém algum objeto estranho. Essas três coisas são necessárias para executar a realidade de uma virtude. A coisa que se ajusta à qualidade é chamada receptáculo da qualidade. A qualidade que é a faculdade auto-evidente na qual a faculdade se ocupa é chamada Vishaya. Conveniência do Ashraya, conveniência da faculdade e conveniência do Vishaya, se esses três não estiverem unidos, a ação não poderá ser bem realizada. Quando houver falta dessas três coisas, ou apenas uma, o trabalho será falho. Há tanta correlação entre Vishaya, Ashraya e faculdade, que se eles se tornam puros respectivamente, cada um deles se tornará elevado. O cultivo puro da faculdade causa pureza e progresso no Ashraya. Se o Ashraya se torna puro, a pureza da faculdade é natural. Se o Vishaya é puro, o Ashraya também fica nutrido e satisfeito com o cultivo puro da faculdade. Portanto, Vishaya, Ashraya e faculdade ou virtude são recíprocos e dependentes um do outro. Há dois tipos de coisas: uma é Chit Vastu e a outra, material. Coisas materiais são notadas em todas as partes. Neste mundo, não há nenhuma coisa sensível ou Chit além dos Jivas. No mundo Chit, Deus, Jivas, locais e outros ingredientes são todos Chit (auto-conscientes). Neste mundo, Jivas pertencem a uma categoria e matéria a outra diferente. Os Jivas no cativeiro material obtiveram um estado diferente.

Qual é a verdadeira virtude característica dos Jivas? Quando investigamos o mundo material, o que não é notado em nenhuma parte mas é notado somente nos Jivas, é a característica dos Jivas. Se considerarmos minuciosamente, teremos que admitir que a alegria é o aspecto característico dos Jivas. Se todos os Jivas forem transferidos do mundo material para outro local, este mundo ficará desprovido de alegria. Não notaremos alegria na água, fogo, ar, céu, terra ou qualquer outra parte. Os Jivas são a moradia da alegria neste mundo. Antes foi decidido que Jiva é um ser consciente. Agora vemos que Jiva possui a virtude da alegria. Do mesmo modo como o Jiva puro se tornou grosseiro e simbólico ao entrar em contato com a matéria, sua virtude de alegria se transformou em sofrimento ao se tornar grosseiro e simbólico. Quando esse sofrimento é removido até certo ponto, a virtude da alegria é vivenciada temporariamente. Na realidade, felicidade e sofrimento são apenas perversões da alegria pura.

O aspecto característico da alegria do Jiva é Chit. Essa natureza é exibida eternamente no mundo espiritual puro sendo extremamente pura. Ela permanece no estado pervertido no mundo material. O que se chama Chit não pode ser percebido por meio da razão ou sentidos. Só Chit pode perceber o que é Chit. Chit é uma coisa cujo sinal é consciência plena, que pode conceber o corpo purificado do Jiva e o local em Vaikuntha, moradia do Vigraha de Deus. Se o poder do desejo for combinado com esse corpo Chit, será regulada a alegria, virtude do Chit. Chit ou corpo transcendental surge de Sandhini, conhecimento, desejo, vontade ou volição surgem de Samvit, e a alegria aparece de Hladini, todos esses unidos expressam o Jiva em sua perspectiva de tempo. A forma do Jiva é Chit atômico, o desejo ou conhecimento do Jiva é uma partícula atômica de Samvit e a alegria do Jiva é a menor partícula de Hladini. Essa é a característica do Jiva e é sua própria natureza. Se o sinal auto-consciente de prazer ou beatitude surge de Hladini e se manifesta no Jiva, causa a aparição da virtude de Rati ou apego.

A virtude do Jiva que caracteriza alegria, amor, Rati ou apego é o próprio Dharma do Jiva. Esse Dharma se torna imaculado, puro e imperturbado no estado livre. Mas se torna pervertido quando o Jiva vem para o cativeiro. Assim, a virtude do Jiva em cativeiro não é a sua própria característica, mas sim alheia ou estranha. Essa virtude se torna pervertida na vida imoral, ou na vida moral sem crença em Deus ou com crença em algum Deus imaginário, devido ao apego ao prazer mundano. Mas há uma certa diferença de perversão nesses três tipos de vida citados. A virtude própria do Jiva assume uma forma bem diferente quando se dirige à matéria estranha. Pessoas de boa inteligência a chamam de virtude oposta, e não de sua própria virtude. Os desprovidos de moral se apegam apenas a ações animalescas, como comer, dormir e desfrute sexual. Os moralistas denominam essas ações de virtudes ilegais. Os moralistas também se voltam a essas ações, mas seguem alguma disciplina. Para falar a verdade, a conduta de vida imoral é a pior de todas, e é conduta animal. A conduta dos moralistas que não têm fé em Deus também é animal, mas de certo modo refinada. A virtude característica do Jiva é extremamente pervertida nesses dois tipos de conduta. O fato é que os que aceitam vida moral com plena crença em Deus, fazem com que seu interesse por coisas materiais fique sob controle do pensamento divino, causando a tendência de abandonar a perversão e obter a natureza verdadeira do Jiva. A virtude característica verdadeira do Jiva se manifesta até certo ponto na vida dos devotados a ritos e rituais.

Mas começa a frutificar na vida dos Bhava Bhaktas. A virtude própria dos Jivas em cativeiro é que todas as seções de direitos e privilégios prescritos para o Varnashrama-Dharma e para as vidas dos Vaidha-Bhaktas devem ser seguidos em combinação à devoção a Deus. Alguns exemplos são a batalha de Arjuna e a negação de Uddhava a todos os deveres prescritos conforme cor e credo como resultado de abstinência ou Vairagya. Em suma, o amor é a virtude característica dos Jivas puros e santos, e a devoção é a virtude principal dos Jivas em cativeiro. Todos os trabalhos mundanos são indiretos, i.e., devem ser subordinados à devoção. Os trabalhos são considerados como virtude própria dos Jivas conforme a divisão dos direitos e autoridade prescritos. Esse trabalho deve ser abandonado no caso de se tornar contrário à devoção. A virtude natural do Jiva nunca vai se purificar enquanto estiver no cativeiro. Até mesmo pessoas que possuem amor não são capazes de conduzir sua própria virtude natural de forma purificada. O cultivo se torna puro quando se livram da matéria grosseira. O cultivo da própria virtude purifica gradualmente tanto o Chit-Swarup quanto o Amor, que constituem o Dharma individual.

A Quarta matéria do conhecimento puro dos Jivas é a percepção do resultado ou efeito. Há cinco tipos de percepção do resultado: (1) Percepção do resultado de Vikarma (trabalho proibido), (2) Percepção do resultado da inação, (3) Percepção do resultado da ação, (4) Percepção do resultado do conhecimento (5) Percepção do resultado da devoção.

A vida sem moral está sempre atrás de trabalhos proibidos. Trabalhos pecaminosos são Vi-Karma. O significado dessa vida é só prazer sensual. Não há crença em vida após morte nesse tipo de vida. Os resultados de tal vida são doença, morte ultimamente, perda desnecessária de energia e vigor, sofrimento mental, ir para o inferno, infâmia e desconfiança de todos. A vida humana se torna assim um lugar de extremo sofrimento. Nenhum pessoa inteligente deseja um efeito tão horrível.

Vida moral sem crença em Deus ou com crença em algum Deus imaginário é sempre inativa. O não cumprimento dos deveres obrigatórios se chama Akarma. O primeiro dever é adorar e orar a Deus, com expressão de gratidão a Ele, sejam lá quais forem os deveres obrigatórios prescritos para a vida humana. Na falta disso, mesmo se a vida moral em todos os sentidos, será viciada pelo que se chama Vikarma, i.e., não cumprimento do Karma. O corpo pode ser preservado pela obediência à moral, mas se não acreditar em Deus, não pode ser objeto de confiança de jeito nenhum. O coração que não possui crença em Deus é tão horrível quanto o mundo sem sol. Pássaros altamente maléficos às vezes aproveitam e constroem seus ninhos no abrigo da escuridão desse coração. Foi dito nos Shastras que a pessoa que não acredita em Deus vai para o inferno, mesmo se cumprir todas as regras morais; é verdade. Vida moral com crença em algum Deus imaginário também é impura e pecaminosa devido à astúcia e habilidade, seu efeito também é facilmente sentido. Os que acreditam em Deus sinceramente e aceitam a vida moral são chamados Vikarma.

As pessoas em outros países, marcadas com esses sinais, conduzem suas vidas conforme o significado de sua religião sem aceitarem Varnashrama Dharma. Como exemplo prático podemos citar a forma como os ritos e rituais são estabelecidos através das ações da alta classe social, e depois, outras pessoas executam seus trabalhos por aceitar seu significado. Os Indianos são a classe mais alta de Arianos. Os ritos de Varnashrama-Dharma foram feitos seguindo a eles. Pessoas de outras classes conduzem suas vidas mundanas através da aceitação do significado desses ritos. Em qualquer situação, a adoração a Deus, considerada como um dos deveres obrigatórios, protege suas vidas de Vikarma e Akarma. Então tudo que fazem é sempre Karma. Suas atividades só podem ser denominadas Karma, pois eles consideram Karma como sendo a verdade mais elevada. Deus está sempre pronto para conceder o fruto desses trabalhos. Na visão de Karma-Kandha, Deus também é preso ao Karma. Se Ele ficar satisfeito através dessas ações, concederá residência no céu fruto desses trabalhos. Deus não pode ficar livre do Karma nesta vida. Por isso, obediência a Deus é um dos vários trabalhos. Consegue-se o fruto de morar no céu através disso. Eles experimentam o fruto do céu na medida de seus trabalhos santificados, e depois retornam a este mundo e entram no Karma. E assim, repetidamente se movimentam no ciclo do Karma e seu fruto. Não há escapatória ou liberação do Karma, pois em sua opinião, o desejo por tal liberação também é um ato pecaminoso. Na opinião de outros, os trabalhos feitos pelos Jivas serão julgados no dia do julgamento final. Os Jivas terão de esperar até essa hora após a morte. Os que fizeram bons trabalhos e foram devotados a seus preceptores alcançarão o céu. Por outro lado, os que não foram fiéis a seus preceptores, não fizeram bom trabalho e só fizeram trabalho ruim, viverão no inferno eterno. Comunidades Cristãs e Muçulmanas que são moralistas com fé em Deus acolhem tal crença. A vida não pode se elevar ao estágio supremo onde há essa crença. Isso quer dizer que as ações praticadas pelo Jiva em sua vida transitória estabelecem seu fruto eterno. Especialmente aqueles que cometeram ações pecaminosas desde a infância, i.e., antes de despertar a consciência, e tiveram lições viciadas, por isso alcançaram o fruto de ir ao inferno eterno! Eles não tiveram a chance de terem boas lições. Ao contrário, que trabalhos fizeram aqueles que vieram de ascendência nobre e tiveram a oportunidade de ter contato com boas pessoas, foram favorecidas com o céu eterno? Se a decisão de Deus for assim, qual será o destino dos Jivas fracos? O conceito sobre Deus das pessoas que mantém tal opinião também é injustificável e trivial. Em resumo, vida moral com fé em Deus é cheia de Karma. Apesar de não haver Akarma e Vikarma nesse tipo de vida, ainda assim, existem três divisões de Karma. Por exemplo: (1) Deveres religiosos diários, i.e., oração da noite, adoração etc.. (2) Realização de ritos periódicos Shraddha etc.. (3) Trabalhos desejados – Sacrifício para obter filho etc.. A vida moral com fé em Deus tem duas subdivisões, i.e., uma de pessoas de natureza inferior e outra de pessoas com cultura refinada. Moralistas de natureza inferior com fé em Deus têm apego excessivo a objetos mundanos.

Há algo que precisa ser dito em relação à discussão da percepção do fruto do conhecimento. O fruto do conhecimento puro é Prema (Amor). Por isso não o consideraremos agora. Por enquanto, consideraremos apenas os quatro tipos de frutos do conhecimento seguintes: derivado dos órgãos sensuais, conhecimento moral, conhecimento sobre Deus e sobre Brahman. Há muito a ser dito sobre o conhecimento resultante dos sentidos e conhecimento moral. Agora faremos algumas considerações sobre o fruto do conhecimento sobre Deus e sobre Brahman. Já foi dito antes que o sentimento de dever em relação ao Karma é determinado através do conhecimento sobre Deus. Karma tem dois tipos de propensão. A primeira é fazer os Jivas saborearem o fruto tanto por sofrerem tristeza ou desfrutarem prazer, e em seguida, ocuparem-se novamente em trabalho, e os traz assim para seu controle. A outra é conseguir paz através de satisfazer a Deus. A primeira tendência foi determinada antes. Karma que surge do conhecimento sobre Deus assegura a vinda de progresso gradual para os Jivas em virtude da segunda tendência. Mas falha ao agir por si mesmo. Os Astanga-Yoga-Shastras afirmam que se a mente for controlada através de meditação profunda em Deus, esse tipo de trabalho assegura a obtenção da emancipação no fim. Foi dito primeiro no Patanjal-Shastra que a Pessoa absoluta, livre de trabalho triste, perigo e receptáculo é chamada Deus. O Swarupa desse Deus é emancipação. O Jiva também pode obter essa emancipação pelo processo de Yoga. Bem, mas a dúvida é – que relação existe após a salvação entre os Jivas emancipados e que trabalho esse Deus faz para outros Jivas? O Astanga-Yoga-Shastra não tem resposta a essa pergunta. Então, o quê preciso entender? Preciso entender que Deus é uma Pessoa imaginária especial? Ele é necessário apenas durante a prática de Yoga e após o sucesso não haverá mais entendimento com Ele? Então que tipo de emancipação é essa, se os Jivas que alcançaram salvação são muitos? Se for verdade que Deus é algo especial onde os Jivas são absorvidos, isso não é melhor do que imergir em Deus. Qual o dano em afirmar isso? É então o nome separado de Adwaitavada. Nesse caso, qual a necessidade de propagar a mesma opinião com dois nomes? Da mesma forma como os poderes ocultos, que são o fruto do Yoga, são rejeitados por serem triviais e transitórios, é necessário abandonar o resultado último do monismo que é antagônico à devoção. Apesar da promessa do Yoga ser agradável de se ouvir, seu fruto é trivial. Vários Shastras mencionam três tipos de salvação como fruto do conhecimento sobre Deus, i.e., viver na mesma residência de Deus, possuir mesmas riquezas e viver em sua companhia. Não é o verdadeiro fruto do mesmo modo como salvação, pois o serviço devocional não atinge seu ápice através disso. Alguns Shastras denominam esses três tipos de salvação de portas para o serviço devocional. Se o conhecimento sobre Deus nutre a devoção a Krishna, então o Swarupa desse conhecimento sobre Deus culmina em conhecimento puro. Assim, o conhecimento sobre Deus encontra sua satisfação. Foi dito antes que quando o conhecimento sobre Deus se desvia, transforma-se em conhecimento sobre Brahman. Sayujya ou Nirvana (imersão ou absorção em Brahman), frutos do conhecimento sobre Brahman, são muito triviais. Brahman é estabelecido como uma verdade indeterminada. Por isso, compreende-se que o Brahman indeterminado é uma verdade oposta a qualquer coisa existente. Um nome fácil para a verdade que é oposta à existência é não-existência. Brahma-Sayujya significa Nirvana ou não-existência. Se dissermos que o Jiva conseguiu seu objetivo ao imergir no Brahman, é equivalente a dizer que o Jiva obteve sua destruição. Que benefício o Jiva obtém com isso? Será que vale a pena esforçar-se por esse fruto? Será que as pessoas consideradas sábias devem buscar por esse fruto que foi obtido até mesmo por Kamsa, Sishupal etc., como resultado de suas sérias ofensas a Deus? Portanto, o fruto do conhecimento é muito superficial. Por outro lado, aqueles que confundem razão com conhecimento devem saber que o fruto do conhecimento é muito ineficiente. Nós já demonstramos que razão não tem capacidade de ir além do mundo material. E se quiser fazer isso, adota somente uma implicação metafórica. Por isso é que não se obtém nenhum benefício em julgar a verdade que transcende a natureza. Razão desapontada às vezes produz ateísmo. Ceticismo, ateísmo, materialismo, "nirvanismo" - esses "ismos" são produtos do exercício errado da razão. Portanto, fruto do conhecimento ateu é prejudicial aos Jivas em todos aspectos.

Realização do fruto da devoção é a realização final. Foi dito anteriormente que devoção é a virtude natural do Jiva. O fruto da virtude pessoal é o aperfeiçoamento do próprio eu, objeto e situação no sujeito puro. Céu, salvação, corpo material, mente, condição da alma em cativeiro, progresso social – devoção não tem nenhum resultado direto em todas essas coisas. Devoção é uma característica espontânea e natural dos Jivas. A devoção pode se transformar em amor quando aperfeiçoada, e isso é busca por Bhakti; cujo esforço é para transferir os Jivas em cativeiro e recuperá-los rapidamente de seu presente para o Swarupa e possam assim executar seus trabalhos de forma pura. Podemos dizer em resumo que o fruto da devoção é nada mais além de devoção. A devoção se esconde quando há desejo por desfrute ou salvação. Karma e Jñana só podem alcançar sucesso ajudados pela devoção, mas devoção é independente. Apesar da devoção poder conceder todos os tipos de frutos, ainda assim, não oferece nenhum fruto secundário além de aperfeiçoar a virtude pessoal do Jiva.

Percepção da contradição é o quinto e último capítulo sobre conhecimento puro. Percepção da contradição se divide em quatro: (1) Percepção da contradição da Realidade Última, (2) Percepção da contradição do próprio Swarupa, (3) Percepção da contradição ou oposição da própria virtude, (4) Percepção da contradição da natureza do fruto ou resultado. Beleza, qualidades e Lila de Deus combinados revelam Seu Swarupa. Se afirmarmos que Deus é sem forma, será contra Sua existência eterna, conhecimento eterno e alegria eterna (Sat-Chit-Ananda), que são Seus constituintes inerentes. Ele não é sem forma por não possuir um corpo material, Suas qualidades são inconcebíveis. Se dissermos que Ele é apenas Todo Penetrante e silenciarmos, diminuiremos suas imensas qualidades. Ele está presente em todas as partes simultaneamente apesar de ser de Tamanho Médio. Essa qualidade é transcendental e inconcebível. Dizer que Ele é indeterminado evidencia sua qualidade Supernatural inconcebível.

Dizer que a criação dos Jivas no ventre materno por Deus torna Seu mundo criado mais feliz e mais desenvolvido por causa deles, na medida em que for bem sucedido na execução do Seu trabalho favorito, obterá Sua satisfação nessa proporção, e dizer que ele criou Jiva e Jagat com esse propósito é contraditório em relação a Seu Lila inconcebível. Se fosse esse o desejo da Pessoa que é Toda Poderosa e Absoluta, este mundo seria mais aperfeiçoado e livre de todas demandas por Sua doce vontade. Possuidores do intelecto de que Ele fez alguma coisa e outras Ele executará através dos Jivas, consideram Deus como sendo insignificante como um joalheiro inábil, operário imprudente e carpinteiro sem talento. Muitas das opiniões apoiadas por ateus tornaram-se prevalecentes neste mundo por causa de tais conclusões insignificantes e incorretas. Apesar de Deus ser Uma Verdade Final, é visto de muitas formas através do conhecimento pervertido dos Jivas. Assim, não admitem Deus como único, o que também é contraditório ao Swarupa de Deus. Apesar de estar coberto, Ele se revela em Sua própria perspectiva através da devoção e isso é um ato de Seu poder inconcebível. É dever sagrado da vida devotada servir essa Srimurti revelada. Aqueles que adoram alguma forma falsa produzida por sua criação própria, com o propósito de alcançar a assim chamada verdade absoluta sem forma, são meramente idólatras. O fruto de sua adoração também é da mesma natureza. Algum deles ao se tornar consciente de seu próprio saber, descarta esse tipo de idolatria, pratica Yoga-Sadhana espiritual e compara alegoricamente Pranab ao arco, alma à flecha e Brahman ao alvo. Afirma que idólatras só vêem a imagem feita de terra e madeira ao abrirem os olhos, mas se fecharem os olhos, só verão o reflexo da imagem na visão interior e direcionarão seu amor a Ela sem conseguir o objeto final. Claro que há algo de verdade nessa afirmação, mas ele mesmo está ocupado em algum trabalho que é similar a esse. Aqueles que nunca viram a imagem de Deus mas criam algum tipo de imagem através da mente são idólatras sem dúvida alguma. Eu nunca vi Rishi Sanatan e faço uma imagem dele, isso não está certo. Entretanto se alguém, direciona seu amor a ele, não há dúvida que Sanatan apreciará. Mas se após ver Sanatan, alguém pega sua foto, e quando olha para a foto, pode ver o verdadeiro Sanatan na mente de olhos fechados. Essa fotografia estimula sentimento verdadeiro. Nesse caso não há idolatria. Ao contrário, cientistas admitem isso como o meio adequado de lembrança. A meditação espiritual etc., através do processo de comparar Pranab ao arco etc., é um estágio preliminar para aspirantes. O coração de um devoto não pode ser satisfeito com isso. Há muitos de tais processos preliminares necessários a tais pessoas enquanto o Swarupa de Deus não for visível. Aquele que viu o Swarupa de Deus medita constantemente nesse Swarupa dentro do coração e revela esse Srimurti para culto no mundo material. Esse Srimurti é a verdade estimulante para Sua assistência. Esse Srimurti pode conceder a meta suprema aos aspirantes sinceros. Cultivo de Brahman e Yoga, desprovido do Swarupa de Deus, é tão prejudicial quanto a Murti imaginária é para sua assistência. Essas pequenas práticas acontecem antes do alcance da verdade final. Em linguagem comum, isso é como procurar por algo no escuro. As opiniões contrárias ao Swarupa de Deus devem ser evitadas de todas as formas.

Pessoas cegas sobre a verdade incapazes de obterem conhecimento sobre o Swarupa de Deus consideram o serviço a Sri-Vigraha prestado pelos devotos como idolatria. A religião incompleta dos Muçulmanos, a idéia religiosa trivial dos Cristãos e também o Brahma-Dharma dessas duas religiões, quando viciam os sentimentos religiosos dos Indianos, fazem surgir o desprezo à Sri-Vigraha nas comunidades mais recentes. É uma pena que ninguém considerou sobre o fato atentamente antes de censurar Sri-Vigraha. Aprendemos com Sriman Mahaprabhu que religião onde não há serviço a Sri-Vigraha é fraca e fútil. Não existe nenhum outro modo de cultivar virtude superior além do serviço a Sri-Vigraha dentro do culto da devoção. Por esse motivo, é preciso fazer algumas considerações sobre esses críticos. Há um enorme abismo de diferença entre serviço a Sri-Vigraha e idolatria. Serve-se a Sri-Vigraha com aceitação do Swarupa eterno de Deus. Esse Swarupa é visto pelos Jivas puros através de seus olhos espirituais. Grandes eruditos como Vyasa, Narada etc., e geralmente todos os devotos puros vêem essa forma eterna de Deus, i.e., Seu aspecto característico de Sat-Chit-Ananda, durante seu transe de meditação. Eles meditam nessa Forma dia e noite com sua faculdade mental. Seus olhos se enchem de alegria quando vêem essa Forma de Deus que é um reflexo de Seu Swarupa eterno. Nesse caso, Sri-Vigraha nunca poderia ser imaginária ou criada pela mente do Jiva. Não existe Swarupa de Deus para quem não tem devoção, mas para os devotos, essa Forma é a manifestação da eterna Murti consciente. Sri-Vigraha é o símbolo direto do Swarupa de Deus, e não pode ser diferente disso. Da mesma forma como existe representação grosseira de alguma verdade invisível em toda arte e ciência, Sri-Vigraha é a representação do Swarupa de Deus que é invisível aos olhos materiais. Devotos sempre experimentam através do fruto de sua devoção pura e gradualmente aperfeiçoada que a representação do Swarupa de Deus é a realidade para eles. A relação existente entre eletricidade e aparelho elétrico só é conhecida através do fruto de gerar eletricidade. Mas o quê compreenderão pessoas inexperientes ao verem o aparelho elétrico? Assim, o quê outros que não têm devoção no coração podem dizer sobre Sri-Vigraha exceto que é um mero ídolo? Servos de Sri-Vigraha não são idólatras conforme a decisão dos devotos. Vamos decidir brevemente então quem são idólatras. Há cinco tipos: (1) Os que adoram a matéria no lugar de Deus devido à falta de conhecimento sobre a Realidade. (2) Desprezo à matéria, os que adoram algum sentimento que seja oposto à matéria. (3) Os que decidiram que não há nenhum Swarupa de Deus mas imaginam algum tipo de forma de Deus, pois sem Swarupa não pode existir, e assim praticam sua adoração facilmente. (4) Os que imaginam algum Deus para purificação e aperfeiçoamento de seu coração e meditam nesse Deus imaginário. (5) Os que adoram Jiva no lugar de Deus.

A primeira categoria compreende pessoas incivilizadas, selvagens, adoradores do fogo e alguns Gregos que adoram planetas como Júpiter e Saturno. A fé natural em Deus existe mesmo quando a consciência sobre o Swarupa de Deus ainda não despertou, nesse estágio, tudo que for brilhante ou luminoso é adorado como Deus devido à ignorância, assim é essa classe de idolatria. Não há nada de errado com esse tipo de idolatria quando se considera a elegibilidade dessas pessoas. Quando algum sentimento indeterminado contrário a todas as qualidades materiais, resultante de discussões profundas sobre conhecimento material, surge através da razão, e esse sentimento é considerado como sendo Deus, esse é o segundo tipo de idolatria. Os que mantém a opinião de que Deus é sem forma são idólatras dessa classe. O sentimento de indeterminação nunca pode ser o Swarupa de Deus ou pertencer ao sentimento sobre o Swarupa de Deus. Se a indeterminação for considerada como uma das infindáveis peculiaridades de Deus, assim pode ser aceito. O Swarupa de Deus é diferente da matéria sem dúvida, mas não é oposto à matéria. O terceiro tipo de idólatras considera Nirvana como objetivo final e adora deuses qualificados como Vishnu, Shiva, Natureza, Ganesh, o Sol etc. como processo imaginário de seu Sadhana, são assim considerados pois servem apenas formas imaginárias. Hoje em dia, o que se conhece por Pancha-Upasana (adoração aos cinco deuses) está incluído nessa categoria de idolatria. Não se pode conceber como se obtém através da qualidade sua virtude oposta, i.e., a ausência de qualidade. O quarto tipo de idolatria é a meditação dos Yogis num Vishnumurti imaginário. Pode-se obter algum outro resultado através disso, mas o benefício último de ver Deus em Seu Swarupa eterno nunca será obtido. A quinta classe de idólatras compreende os adoradores de Jiva no lugar de Deus (adoração de heróis). Não existe ofensa mais séria do que essa segundo as instruções de Sriman Mahaprabhu. Não haverá ofensa se a adoração for a um Jiva digno de veneração como devoto de Deus, não há distinção entre Jiva e Ishvara nesse caso, o Bhajan de Sri Rama, Nrisimha etc. não é caso de idolatria. Isso pode ser compreendido através da leitura do "Sri Krishna Samhita" compilado por mim (o autor).

Os cinco tipos de idólatras mencionados acima não somente censuram o Swarupa de Deus como também censuram um ao outro. Os idólatras da primeira classe geralmente consideram a qualidade toda penetrante do céu material como a qualidade principal de Deus, por isso desprezam o Swarupa de Deus e censuram os de opinião de que Deus é imaginário e de tamanho mensurável. O significado oculto é que essa rixa se torna inevitável pois eles despertam o sentimento de co-esposas da idolatria. Todo idólatra censura outro idólatra. Mas os devotos de Deus, que não são idólatras e são cientes sobre a essência de Deus, não alimentam sentimentos de ódio ou de decepção contra nenhum deles. Eles consideram que a essência de Deus não é obtida, por isso, não há nenhum outro caminho além da imaginação. Quando entram em contato com uma pessoa santa após muito exercício de imaginação, e o conhecimento sobre a realidade de Deus desperta em suas mentes, abandonam a imaginação anterior como trivial e abominável. Nessa hora, termina a rixa.

Deve-se desprezar as afinidades anteriores após vivenciar todos os tipos de contradições sobre o Swarupa do Jiva. Por um lado, o Jiva que é Chit e Ananda em essência pode ser trazido à categoria de matéria após adquirir muitas qualidades materiais. O Jiva possuidor de corpo material se considera uma entidade diferente do Jiva puro devido a sua virtude ilusória, i.e., titular. "Jiva nasceu do ventre materno e se cultivar piedade gradualmente em sua vida, Deus ficará satisfeito e lhe dará Swarupa perfeito". Mas numa forma, isso é contraditório ao Swarupa próprio do Jiva. Esse tipo de afirmação acontece em muitas religiões triviais e pequenas tais como Cristã, Muçulmana e Brahmo. Brahman se tornou Jiva através de Avidya e se pensar "eu sou Brahman" constantemente, removerá o Avidya do Jiva, aniquilará a característica Jiva do Jiva e Jiva se tornará Brahman. Essa é a opinião dos Panteístas, Teosofistas e seguidores de Abheda-Brahman, i.e., não distinção absoluta entre Jiva e Brahman. Essa é uma contradição clara contra o Swarupa do Jiva. Jiva nasce da matéria por acaso e no curso do desempenho de seu aperfeiçoamento material e mundano morre, aí estará perdido. Alguns dizem que mesmo se houver perda do corpo, há algum poder nas ações que contribuem para o aperfeiçoamento de outros Jivas. Essa é a opinião de Ateus como Charvak, Augusto Comte, Mill, socialistas etc., que é contraditória ao Swarupa do Jiva. O Jiva sofre de pesar intenso ao aceitar Karma de nascimento em nascimento. Se aprender lições de amor, amizade e abstinência, obterá conhecimento e alcançará o Nirvana finalmente. Essa é a opinião dos budistas representados por Sakhya Singha e dos Jainas que acreditam em vinte e quatro deuses. O Jiva nasceu neste mundo por acaso e caiu em um sofrimento sem fim. Então sem aceitar nenhuma felicidade deste mundo se ele morre depois de controlar sua vida de algum jeito, poderá obter a paz. Esta é a opinião de pessimistas como Schopenhauer etc.. O Jiva nasce do contato de Prakriti com Purusha. A extinção da característica Jiva é a conclusão final. O sentimento de Prakriti e Purusha como desfrutado e desfrutador respectivamente, seja devido ao Karma ou à consciência, é eterno e se puder ser extinto, haverá a cessação absoluta dos três sofrimentos que é a conclusão suprema. Esta é a opinião da filosofia Sankhya. Aí tem uma contradição séria ao Swarupa do Jiva. O resultado que é produzido pela execução do Karma pelos Jivas é o único distribuidor do fruto do Karma. Nesta opinião não há escopo para a emancipação do Jiva ou o poder e a vontade de Deus. Esta é a opinião contida na filosofia Purva-mimansa de Jaimini. A abstenção do trabalho pelo Jiva e o que se chama Kaivalya, que é algum estado desconhecido, estende-se no começo por meio de Karma-Yoga, mas quando surge é obtenível por Vairagya. Esta é a opinião de Patañjali e já foi mostrado anteriormente que também é uma contradição ao Swarupa do Jiva. No Nyaya Shastra de Goutam e no sistema Vaishesika de Kanad, a eternidade do Jiva e Ishvara é aceita de forma similar como a dos átomos. Mas nestas opiniões, a faculdade do coração não foi aceita. O Jiva é considerado infinitesimal, portanto também é mente. Assim, o Jiva foi decidido como Linga Swarupa. Alguns Nyayakis aceitaram Mukti onde esse Mukti corresponde a Brahma Sayujya que é um grande perigo ao Swarupa do Jiva. O tratado sobre Vedanta feito por Shankaracharya também aceitou esse Jiva como perecível. O Shastra Vedanta original só conduz ao benefício supremo do Jiva. Outros comentários sobre esse Shastra que foram feitos, com base nas verdades devocionais, decidiram claramente o Swarupa puro do Jiva. Todas as opiniões supracitadas são antagônicas ao Swarupa do Jiva e portanto devem ser evitadas.

É absolutamente necessário realizar as contradições do Swarupa pessoal. Por meio de vários termos, como respeito a Deus, obediência a Deus, apego a Deus, desejo e satisfação para Deus, amor por Deus etc., o que a devoção indica é a virtude natural própria do Jiva e constitui sua essência intrínseca. O intelecto de Vikarma, Akarma e Karma, Vairagya (abstinência) leviano não devocional e conhecimento impuro são todos antagônicos à virtude natural do Jiva. Isto já foi discutido antes e sob esta luz é melhor entender as implicações destas contradições.

Também é necessário entender os frutos dessas contradições. O fruto da devoção já foi determinado antes. Bhukti, i.e. desfrute do prazer celestial, Mukti, i.e. Salokya (viver na mesma residência de Deus), Samipya (viver na vizinhança de Deus), Sarsti (possuir a mesma opulência de Deus), Sarupya (possuir a mesma forma de Deus) e Sayujya (fundir-se em Deus), estes cinco tipos de Mukti são sempre salvação da matéria. Alguns são da opinião que eles são fruto da devoção. Mas os Shastras de Bhakti não consideram devoção verdadeira o que concede Bhukti, i.e prazer. O símbolo de Bhakti é a eliminação completa do desejo de prazer pessoal. Bhukti não é o fruto de Bhakti, é o fruto de Karma.

Com exceção de Bhakti, nenhuma prática produz frutos, assim quando Karma abraça Bhakti para a obtenção de seu fruto desejado, então Bhakti ajuda Karma a conceder o fruto e depois desaparece. Assim a decisão científica é que Bhukti é o fruto de Karma. Avidya (ignorância) é a fonte do cativeiro do Jiva. Quando surge o conhecimento puro, Avidya desaparece e o Jiva obtém seu verdadeiro Swarupa. Portanto, Mukti não é o resultado da devoção, é o resultado do conhecimento. Salokya, Samipya e Sarupya são em certo ponto adequados ao serviço a Deus. Mas aqueles que são extremamente devotados a Deus não aspiram por nada exceto o serviço a Deus. Esses tipos de Mukti são trazidos pelo conhecimento puro irrelevantemente para a obtenção do serviço. Portanto não são frutos da devoção. Mukti é um tipo de estado de emancipação do Jiva da matéria. Bhakti existe mesmo antes e depois. Qual é o fruto de Bhakti que existe depois de Mukti? Qualquer que seja o seu fruto é o fruto de Bhakti. Os devotos não acreditam que Mukti seja o fruto de Bhakti. Bhakti é o fruto de Bhakti. Onde há desejo por Bhukti (prazer) e Mukti (salvação) no coração, não há chance de surgir Bhakti puro. Portanto, o desejo por Bhukti e Mukti é contraditório ao Swarupa de Bhakti.

Entre os cinco tipos de conhecimento que foram discutidos, conhecimento dos sentidos, conhecimento de moralidade, conhecimento de Deus são indiretos, i.e. pertencem ao corpo, mente, alma em cativeiro e sociedade. Portanto são incompletos e insignificantes. Conhecimento sobre o Brahman sem forma é um sub-ramo do conhecimento de Deus. Ele faz algum bem em alguns casos de prática mas é prejudicial na maior parte. Estes tipos de conhecimento são superficiais mesmo se forem considerados conhecimento. O conhecimento puro é o único conhecimento útil. Pois é o companheiro constante de Bhakti. Conhecimento puro é o único assunto desse tipo de apego que os devotos que têm Bhava (sentimento) obtêm ao narrar as qualidades de Deus. Sem o conhecimento do Lila de Deus, não é possível narrar Suas qualidades, ouvir ou cantá-las. Deus é imensurável, apesar de ter Forma. Esta qualidade foi narrada na ocasião de um Lila onde, no começo não foi possível que mãe Yasoda amarrasse a cintura do Senhor Sri Krishna com uma corda mas apesar de imensurável, Ele tem que render Sua grandeza à devoção e tem que ficar pequeno. De acordo com esta verdade, ela pôde facilmente amarrar a Sua cintura. Estas considerações sobre o Lila de Deus são verdades, que surgem do conhecimento puro. Ao considerar a unidade de Bhava Bhakti e conhecimento puro, e também ao considerar os tipos de conhecimento impuro citados acima que também são chamados de conhecimento, é dito que os Shastras de Bhakti censuraram o conhecimento. O conhecimento puro não é considerado Jñanakandha, i.e. ramo do conhecimento. Jñanakandha se refere aos quatro tipos de conhecimento supracitados. Eles devem ser evitados pelos Bhaktas.

Há alguma verdade minúscula neles. Jñana ou conhecimento tem três divisões: indagação, coleção e sabor. No caso dos Sadhana-Bhaktas, indagação e coleção já foram cumpridos na vida de seu Sadhana-Bhakti por saborearem os significados do Srimad Bhagavat Shastra. Somente a doçura do conhecimento permanece após o sabor na vida dos Bhava Bhaktas. Esta doçura saboreada continua bem clara no Nityadhama mesmo após a emancipação. Por outro lado, ela permanece restrita até certo ponto para os Jivas enquanto estão no mundo material. No caso do Jiva emancipado, ela alcança o local de Vaikuntha. Vaikuntha é considerado pelos eruditos como o plano onde não há restrição ou impedimento no caminho do conhecimento para saborear a doçura de Deus. O sabor do conhecimento puro ou realização de Deus exibe a indiferença a todas as coisas que não são adequadas à devoção. Assim a indiferença pelo mundo e o desejo por Deus habitam simultaneamente o coração do devoto. Eles são unos e iguais. Onde a devoção foi aceita como a verdade suprema, estes conhecimentos puros, i.e. realização de Deus e indiferença ou apatia à matéria externa, funcionam como auxiliares da devoção. Na decisão sobre Bhava Bhakti, conhecimento puro e seu Vairagya (apatia) aliado não são separados. Eles servem a devoção juntos como o resultado do despertar de Bhava. Mas quando houver carência destes sinais, deve-se entender que não há Bhava, ainda assim qualquer sinal notado indica um Bhava fingido ou Rati (apego) enganoso. Isto vai ser julgado na quarta seção.

 

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4

 

Determinação de Rati ou Inclinação

 

Nós discutimos durante um bom tempo sobre conhecimento. Agora, deixem-me dizer algo mais sobre Bhava Bhakti. Mesmo se Bhava Bhakti originar-se de Sadhana Bhakti ou for derivada da graça de Krishna ou de Seus devotos, nunca pode ser nutrida sem a companhia dos devotos de Krishna. Se for cometida qualquer ofensa aos Bhaktas de Krishna, este tesouro inestimável de Rati diminui gradualmente e no fim se aniquila ou se degenera em alguma forma de qualidade inferior. O que é uma grande pena. Portanto, é dever sagrado daqueles que aspiram pela devoção ou que receberam Bhava Bhakti ficarem na companhia dos devotos com muito respeito e tomarem cuidado para que não ocorra nenhuma ofensa contra eles. Isso acontece durante a prática devido ao mal e no estágio de Bhava, obtém nutrição invariavelmente.

Surge a dúvida em alguns lugares de que Rati, que foi explicado como um tesouro inestimável, também é notado em pessoas que não são devotos de Deus. Eu vou deliberar sobre esse assunto em prol da percepção do Rati puro dos devotos. Não vamos dizer nada em desrespeito que vá contra a prática religiosa de alguma outra comunidade ou indivíduo particular, mas se surgir naturalmente como questões dos devotos e para a confirmação deles, nós imploramos pelo seu perdão. Os Jivas têm inclinação natural pela devoção pura devido à sua boa sorte. É impossível ensinar sobre Rati a outros compilando livros. Apesar deste livro ter sido compilado para aqueles que têm consideração pela devoção pura, mesmo se alguma outra pessoa pertencente à outra crença vier a ler o livro, não será falha nossa. Se ela concordar afortunadamente, aí vai ser bom em todos os aspectos. Senão, é melhor ela passar para outros, sem ficar magoada conosco. Este é o nosso pedido humilde.

Os que acreditam no monismo absoluto sustentam que o Brahman é Nirguna ou não qualificado. A adoração não é possível para eles diretamente com alguns meios qualificados. O Jiva é Saguna, é qualificado, portanto não há outra alternativa para eles adorarem sem Ele assumir alguma qualidade ou forma. Por este motivo, o Jiva vai ter que adorar no início alguma Deidade imaginária qualificada e assim quando seu intelecto ficar gradualmente firme, vai ocupar seu conhecimento e estoicismo na investigação sobre Nirguna Brahman. Um dos preceptores principais, Sri Shankara, que segue Adwaitavada assim decidiu que pela prática dos nove princípios, a saber, estoicismo [indiferença], consciência, controle dos órgãos dos sentidos, controle da mente, indiferença, paciência, respeito, realização e emancipação, se uma pessoa considerar repetidamente, poderá finalmente chegar no conhecimento do dever. Como se originam as práticas supramencionadas, ele diz sobre isto que a execução de um devoto conforme a sua casta particular com base na ordem social, austeridade e satisfação de Hari, se estes três processos forem bem executados, fará com que ele se qualifique para essas nove práticas. Satisfação de Hari, ele quer dizer adoração de um Deus qualificado. Segundo a opinião dos Adwaita-Vadis: Natureza, o Sol, Ganesh, Shiva e Vishnu, são cinco Deuses qualificados. Como o modo de adoração para estes cinco Deuses é diferente, há diferentes Tantras para mostrar o processo. A decisão deles é que com a adoração destas Deidades em última análise resulta na concentração da mente. Esse resultado no curso da prática elimina a existência do senso de objeto e aí aparece o conhecimento que mostra o sinal da atenção fixa na indeterminação. Quando esse conhecimento se torna profundo, aí o conhecimento de que eu sou Brahman se torna evidente.

Com a consideração profunda, segue-se que os crentes no monismo absoluto dizem que Brahman é o único real, todos os outros são irreais. Durante o período de prática inicial, a Deidade que foi apreciada para ser adorada também é irreal. Esse Deus não existe no estágio final da indeterminação. Portanto, esse Deus é imaginário. Segundo essa opinião, as Murtis de Rama, Krishna etc. também são imaginárias. A Natureza que consiste de tempo e espaço, o Sol, Ganesh, Shiva e Vishnu são deuses imaginários, segundo a opinião deles. Os Yogis que praticam oito elementos para a concentração da mente e os adoradores dos cinco Deuses são aliados deles e todos acreditam finalmente no Brahman absoluto e compartilham a visão da emancipação. Apesar de saberem que suas deidades adoráveis são falsas e imaginárias, ainda assim as adoram. Durante o tempo de adoração deles, o sinal de Rati que se percebe é chamado por eles de Rati. Em festivais, eles começam a dançar, inebriados com sinais de tremor, suor, lágrimas, êxtase de alegria etc.. Todos são sem dúvida sinais de Rati, mas não são os mesmos como o Rati que mencionamos e que contém respeito e é não qualificado sem nenhum propósito ou condição.

Quantos tipos de Rati existem? Se considerarmos bem, poderemos notar cinco tipos de Rati neste mundo, como 1) Rati puro e não adulterado; 2) Rati escuro; 3) Rati refletido; 4) Rati material; 5) Rati enganoso.

O Rati puro é chamado nos Shastras de Atma Rati (satisfação com o próprio ser), Bhagavati Rati (apego a Deus), Chit Rati (Rati que é plenamente sensível), Bhava, i.e. sentimentos e emoções anteriores ao advento do amor. Estes são os diferentes nomes de Rati. A faculdade com a qual o Jiva que existe no estágio puro ocupa-se com a verdade de Deus chama-se Rati. Brandura, lisura, êxtase, inclinação e apego profundo são os estágios diferentes do princípio de Rati.

Uma pequena manifestação desse tipo de Rati puro chama-se Rati sombrio. É insignificante pois sua natureza é pequena. Enquanto existir, ele é pequeno mas cria o interesse e remove a tristeza. Percebe-se esse Rati devido à companhia dos devotos ou durante o tempo da prática de Vaidhi-Bhakti. Esse Rati sombrio é impaciente e não permanente. Pessoas que não são cientes da verdade obtêm esse Rati graças à companhia dos devotos. Esse brilho sombrio, i.e. manifestação parcial, de Rati puro aparece no coração do Jiva graças a uma boa quantidade de boa ventura. Caso surja, no Jiva, vai melhorar gradualmente. Esse Rati sombrio não é Bhava autêntico mas uma imagem de Bhava. Se houver a misericórdia de pessoas puramente devotadas, essa imagem vai surgir como Bhava em pouco tempo. Mas se ocorrer alguma ofensa, esse Rati sombrio desaparece.

O Rati que habita no coração dos devotos reflete-se no coração daqueles que acreditam no Brahman absoluto ou no coração daqueles que adoram diferentes deuses e deusas, e são subservientes deles, devido à companhia dos devotos. A imitação que se origina no coração daqueles que apóiam o ponto de vista da emancipação (Mukti) ao ver a doçura da fermentação de Sattvic Bhava ou durante festivais é Rati refletido. Portanto, o sinal de Rati dos adoradores de deuses qualificados aparece de algum modo nessa forma. Sua razão principal é: Adoradores de deuses qualificados que consideram o processo para o alcance de sua meta, Mukti, prescrita por seus preceptores como muito difícil, apelam para seus deuses imaginários e confessam a eles seus desejos mais íntimos com a expressão de sinais de Rati. Eles acham que é um meio mais fácil de obterem seu objetivo desejado, i.e. gozo ou emancipação. Isso se reflete nas preces deles. Rati sombrio e Rati refletido são imagens de Rati, não são Rati puro, em si. Rati puro é devoção inteira a Deus, i.e. torna o Jiva em Ashraya (abrigo), com a adoção do Swarupa eterno de Deus como Vishaya (Objeto Supremo). Segundo a opinião dos adoradores de deuses e deusas imaginários, não existe a eternidade dos Jivas e portanto não existe nenhum Ashraya de Rati. Não há aspecto característico no Swarupa de Deus pois a necessidade deles é apenas o conhecimento indivisível absoluto. Nessa opinião portanto, também não existe Vishaya do Rati. Por isso, o Rati que se nota neles ou é um reflexo do Rati puro ou uma transformação do Rati material; em alguns casos pode ser Rati artificial. O Jiva é o Ashraya (receptáculo) de Rati e Deus é o Vishaya (objeto) de Rati, mas quando o Jiva percebe sua própria existência como transiente e Deus como indeterminado e desprovido de Swarupa, nesse caso o Rati do adorador será conseqüentemente transitório, convencional, artificial, material ou refletido apenas. Há ocasiões, i.e. ou ao ouvir o significado da palavra do preceptor ou segundo seu próprio gosto, se vier à cabeça do adorador dos deuses supramencionados que o Swarupa de sua Deidade tutelar é eterna e que ele é um servo eterno dessa Deidade, aí pode ocorrer uma manifestação parcial do Rati puro. O Rati dos adoradores de Vishnu, Shiva, Ganesh etc. quando despertam a consciência, transforma-se na adoração a Sri Krishna gradualmente. O Rati do adorador do Sol, durante a meditação na luz, refugia-se gradualmente em Sri Narayana no meio dessa luz. O Rati do adorador da Natureza volta-se gradualmente para o Deus todo-poderoso, transcendendo ao pensamento da energia física. Sri Krishna afirma no Gita que aqueles que adoram outros deuses na realidade adoram a Ele transgredindo em certo ponto as injunções diretas da adoração. Eles irão a longo prazo, obtê-Lo. A verdade principal deles é que devido ao sabor adstringente tanto do Ashraya como do Vishaya, o Rati não se desenvolve plenamente. No devido curso do cultivo gradual, quando o Rati é nutrido e fica firme, e depois de muitos nascimentos, o Ashraya e Vishaya perdem o amargor e gosto ruim, esses Jivas alcançam o Rati puro com devoção a Krishna. Claro que a nutrição do Rati depende da companhia dos devotos.

Há vários exemplos de Rati material notados neste mundo, na vida de pessoas que são apegadas à intoxicação, as voluptuosas, com mentalidade extremamente mundana e as ávidas. Majnu não vive se Loyla morrer. Se Urvashi for embora, não há esperança de vida para Yayati. Romeu sacrifica sua vida por causa de Julieta. Esses tipos de exemplos são notados freqüentemente nos livros. Esses são sinais de Rati de verdade. Mas o que é este Rati? O Jiva que é sensível em essência quando se engrossa na matéria, considera-se matéria e o amor a Deus que é a sua própria virtude característica se torna pervertido com o Ashraya abandonando Deus que é o único Vishaya, ele aceita a matéria no lugar como Vishaya e finge o sinal de seu Rati no lugar. Os deuses e deusas qualificados fenomenais dos monistas são apenas concepções materiais. Tudo que se faz pelo Rati material com consideração à matéria mundana grosseira, o mesmo se faz em relação a esses deuses e deusas imaginários. Do mesmo modo como as pessoas que lêem as aventuras de Gúliver ficam tristes com suas dificuldades e felizes com sua alegria, e expressam sinal de Rati com solidariedade a um ser imaginário, da mesma forma com a lembrança do Lila desses deuses e deusas imaginários, seus adoradores expressam o mesmo tipo de Rati, e não há nada de espantoso nisso. Por exemplo, uma senhora idosa que estava ouvindo o Ramayan ficou muito perturbada e chorava muito, durante a parte sobre o exílio de Rama. Outros ouvintes perguntaram porque ela estava chorando. Ela respondeu que certa vez seu cabrito entrou na floresta e nunca mais foi encontrado, quando ela ouviu sobre o exílio de Rama na floresta, lembrou-se desse evento triste e por isso chorou. Ó leitores, considerem por favor este caso, o Rati de todos durante a adoração a Deus que pode não ser Rati puro, muitos deles agem como Rati material. Este Rati material, em alguns casos, claro que pode ser um reflexo do Rati puro. O mesmo sinal de Rati também é indicado pelos adoradores dos deuses imaginários e crentes no Brahman absoluto.

Há possibilidade de falsidade nos quatro tipos de Rati mencionados acima. Uma esposa infiel ilustra o Rati material enganoso, para atenuar a suspeita de seu esposo. Com o propósito de conseguirem Naivedya, comida etc., especialmente cabrito e sua carne, muitos indivíduos astutos expressam sinais de Rati perante seus deuses e deusas imaginários e se tornam exemplo de Rati enganoso. Para obter o favor do preceptor, para conseguir fama com pessoas devotadas e o respeito das pessoas comuns, algumas pessoas espertas aceitam o Rati enganoso a Deus e com o propósito de satisfazerem seus objetivos egoístas, elas dançam até suar, com lágrimas nos olhos, rolam no chão com tremor e às vezes expressam até sinal de Bhava avançado. Mas em seus corações, elas não suportam a fermentação de Sattvic Bhava.

As pessoas que não têm o devido respeito ao Rati divino, achando que há vários tipos desse Rati, são realmente lamentáveis e de mentalidade muito baixa. Às vezes vemos alguém que nunca fez nada, ainda assim obteve o Rati divino. Neste caso, deve-se saber que ele praticou boas ações em nascimentos anteriores mas por causa de algum infortúnio, o Rati não apareceu. Quando esse obstáculo for retirado e quando a cobertura do Rati for removida, o Rati imediatamente aparece simultaneamente. O devoto então obtém abstinência e sentimento pelo Deus Supremo, aí o Rati puro se manifesta em seu Anubhava.

 

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Capítulo VI

 

1

 

Discriminação na Decisão sobre Prema-Bhakti

 

Agora, vou considerar sobre Prema-Bhakti. Quando o sentimento Divino ou Rati se torna denso ou profundo, chama-se Prema. O coração fica completamente sereno e aguado no advento do Prema. Além disso, ele cria afeição exclusiva a Deus. Quando Rati adquire qualidade para o deleite, pode ser chamado de Prema. Havia apego ou afeição anteriormente mas ainda não era exclusivo ou indivisível. O Rati puro indica Deus como seu Vishaya pessoal mas nesse momento, ele não adquiriu essa certeza de pensamento de que não há nada mais como seu Vishaya pessoal além de Deus. Quando esse estado surge, aí o Rati se expressa como o prazer do deleite de sua característica pura. O Rati que é adequado a Rasa é Prema. Esse Rati que foi mencionado antes é Prema em botão. Não há dúvida de que é puro mas ainda não adquiriu o acesso a Rasa, pois não há sinal de afeição indivisível a Krishna. O Rati que adquiriu o estado de Prema é o Bhava permanente. Se não houver Bhava permanente, quem será o sujeito de Rasa? Se chamarem esse Rati de Prema, deve-se entender como o início do Prema. Há dois tipos de Prema, ou seja, (1) Prema que surge de Bhava; (2) Prema que surge por gosto. No caso onde Bhava ao seguir e servir todos os seus elementos intrínsecos se eleva ao estágio máximo, aí é considerado Prema que surge de Bhava. Os elementos característicos de Bhava foram ilustrados anteriormente.

O Prema que surge da companhia do Swarupa de Sri Hari é chamado Prema que se originou do gosto. O Prema que surge de Bhava é de dois tipos. Por exemplo: (1) Prema que surge de Raganuga Bhava. O Prema que surge do favor supremo também é de dois tipos. Esse favor é obtido da companhia pessoal de Deus. Pelo favor de uma pessoa que obteve Prema, o Prema que se obtém depende da extensão de Bhava apenas mas o Prema inicia com a companhia constante de Krishna ou com o serviço a todos os elementos de Bhava. O Prema que surge do favor também é de dois tipos: (1) Prema misturado com o senso da Majestade de Deus, (2) Não adulterado, i.e., Kevala Prema.

O Prema que surge ao seguir o curso de Vidhi, i.e., ritos e rituais prescritos, é misturado com o senso da Glória e Majestade de Deus. Alguns o consideram como Sneha-Bhakti (devoção afetuosa). Por meio deste Prema, o Jiva alcança Sarsti (mesma riqueza), Sarupya (mesma forma), Samipya (Vizinhança de Deus), Salokya (mesma residência de Deus). Mesmo após a liberação, o Jiva serve a Deus dessas formas.

O Prema que cresce ao seguir o caminho de Raga quase que obtém singularidade. A palavra "quase" indica que mesmo ao seguir o caminho de Raga, se houver apego a algum Vidhi em particular, aí o Prema não se torna singular em caráter (Kevala). Há uma certa porção de Vidhi em Raganuga Sadhana Bhakti mas deve-se apenas ao hábito e se não houver o senso de apego a isso, aí no momento da obtenção do sucesso, surge Kevala Prema.

A vida é bem sucedida no advento do Prema. O Jiva obtém a satisfação de todos os seus fins; todo o mal é removido. Não há nenhum ganho superior para o Jiva além de Prema. Moksha (emancipação) é um Tattva (verdade) minúsculo e transitório em comparação com Prema. Moksha é um fruto irrelevante em relação a todos os outros frutos de Prema. Se o Prema surgir mesmo na época do contato material, então esse contato não é mais percebido. A vida de Prema Bhakti é desprovida de toda a conexão material e não tem nenhuma outra conexão do que com Krishna, da mesma forma como o vaga-lume se esconde quando o Sol nasce, Vidhi se esconde quando surge Prema. Aos olhos do Prema-Bhakta, mesmo o mundo material parece Vaikuntha.

 

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2

 

Sobre o Nascimento do Prema

 

É imperativo saber o processo gradual de Prema que produz esse tipo de benefício supremo, nota-se nove estágios para a manifestação de Prema desde a sua execução até o seu final, como se segue: (1) Fé, (2) companhia sagrada, (3) desempenho devocional, (4) cessação dos males, (5) constância, (6) gosto, (7) apego profundo, (8) Bhava e (9) Prema.

Vida sem moral é equivalente à vida animal. Por meio do exercício do intelecto de tal pessoa, qualquer avanço feito em física, ciência industrial e arte, que conduz ao prazer e prosperidade materiais, é diabólico. Vida moral mesmo fiel à moralidade é trivial no pós-vida por causa da falta de crença em Deus apesar de haver consciência sobre o pós-vida e Deus, ainda assim a aspiração por esta vida é impura, limitada e de gosto ruim. O Jiva nunca pode se limitar a ela. A vida dos que consideram Jiva e Deus unos e indivisíveis é extremamente desprezível e perversa. Só se deve seguir a vida devotada. Deus é Onipresente, o Senhor do senhores e Onipotente [Supremo Controlador]. O único benefício é o apego profundo a Ele. Qualquer outro benefício que exista é subserviente deste. Karma, que se faz de acordo com a livre vontade do Jiva, e conhecimento, produto do intelecto do Jiva, são triviais e mesuráveis. Por meio deles, não é possível satisfazer muito a Deus como Krishna. Devoção não egoísta a Ele é o dever sagrado do Jiva. O Jiva é servo eterno do Senhor Sri Krishna. O contato com a matéria surgiu devido à ignorância do Jiva. Indiferença por Deus é a única causa de sua desgraça. O Jiva é o autor direto de seu próprio cativeiro, Deus é o agente causador. O mundo não é ilusório. É real, mas transitório. Jagat é na verdade uma prisão para a punição dos Jivas indignos. Deus é misericordioso. O Jiva sofre de dor por causa de sua própria falta e Deus está sempre atrás dele para aliviá-lo da dor. Deus está sempre alerta e observa se o Jiva está tentando com seu próprio esforço se tornar digno para que Ele possa conceder o néctar de Seu Lila infinito. Claro, pela livre vontade Dele pode ocorrer liberação mas Seu conselho e esforço íntimos é deixar o Jiva aspirar pelo caminho devocional que poderá conduzi-lo a Seu Lila inconcebível. Um pai pode conceder toda a sua propriedade a um filho indigno mas vai ficar muito mais satisfeito se conceder sua propriedade a seu filho, por torná-lo digno. Esta é a reflexão da afeição Divina. Servidão a Deus é excelente, benéfica e clara. Este tipo de crença é Shraddha (consideração). Nós já explicamos em detalhes, mas para resumir, a crença em Deus em si é chamada Shraddha. No momento em que surge a firme convicção na realidade de Deus e a crença na própria limitação, nesse momento, as palavras citadas acima saem da boca da pessoa confiante. Se analisarmos a verdade sobre a fé, veremos todas as diferentes fés citadas anteriormente, que permanecem escondidas na Bem-aventurança Suprema, chamam esta convicção (i.e. crença firme) como a semente da planta trepadeira da devoção. Se investigarmos as causas nas vidas dos devotos, veremos que alguns obtiveram consideração por meio do estudo imparcial dos Shastras. Alguns obtiveram reverência ao entrarem em contato com devotos e ao ouvir o conselho deles. Outros, pela prática de seu Dharma pessoal prescrito, tornam-se finalmente insatisfeitos e adquirem aversão ao fruto do Karma e assim alcançam a consideração pela devoção. Para alguns outros, quando houver desgosto pelo fruto do conhecimento, surge a consideração pela verdade devocional. Alguém mais também pode obter a consideração acidental. Portanto, a regra definitiva que governa o surgimento da consideração não pode ser estabelecida. A consideração é a semente da trepadeira da devoção e também é uma verdade que está além da regra definitiva. Assim, pode-se afirmar que a fé só surge na mente de um Jiva afortunado. Fim da autoridade e do direito sobre o Karma, e nascimento da crença reverencial ocorrem simultaneamente.

Agora apareceu Shraddha. O Jiva ficou ansioso. Mas ele está totalmente dominado pelo mal devido a seu hábito. Nesse caso, o que ele pode fazer, para se livrar de seu mal? Pensando assim, ele decide recorrer aos sagrados pés de lótus dos devotos. Estando com muita ansiedade, ele procura a companhia dos devotos e pela misericórdia de Krishna ele obtém a companhia de Sadhus. Este é o primeiro sinal do advento de Prema. O aspirante que obtém a companhia de Sadhus fica assim ocupado na execução de Bhajan, como ouvir, cantar os Nomes de Hari, Sua Beleza, Qualidade, Lila, lembrança etc.. Durante o cultivo dos cinco tipos de Vaidhi-Bhakti citados acima, o prazer e desejo sensuais que são a raiz do mal tornam-se subservientes de Bhakti. Apesar do Anartha (mal) ainda permanecer no corpo, é desprovido de desejo. Execução de Bhajan é a segunda etapa na obtenção de Prema.

Apego à prosperidade material, atos de pecado e ganância são amansados gradualmente no curso do cultivo da devoção, e o Jiva se livra da avareza. Isso se chama cessação do mal e é a terceira etapa na obtenção de Prema. Quando estiver livre da ganância, a tentativa do Jiva por coisas estranhas é removida. Então, Shraddha se volta somente para Deus. Enquanto houver mal, Shraddha não pode ser exclusiva ou constante. Quanto mais o mal é removido, mais haverá constância em Shraddha. Constância é a quarta etapa na obtenção de Prema. Depois que a constância se estabelece, o cultivo a Deus continua com mais cuidado, e a companhia dos devotos foi obtida atenciosamente. Com estes processos, quando o mal é extinto, a constância se estabelece. O estado de constância desenvolvido se chama Ruchi ou gosto [sabor]. Quando este Ruchi se aplica a Krishna, todos os outros sabores ficam desgostosos. Este é o quinto estágio do advento de Prema. Quando Ruchi ou gosto adquire mais ardor e remove-se mais mal, aí esse estágio se chama apego. O desempenho do Jiva termina e o Jiva alcançou seu objetivo (i.e. apego). A missão do Jiva está cumprida então. Apego é o sexto estágio do aparecimento de Prema. O apego pleno se chama Bhava, Rati ou brotar do Prema. Apego também não pode alcançar o aspecto característico de Sattva puro. Bhava pode adquiri-lo. Portanto, só Bhava pode trazer alívio para o coração. Este é o sétimo estágio de Prema. Quando Bhava adquire apego exclusivo por Krishna, é Prema. Este é o estado permanente, adequado a Rasa. Bhava é o oitavo estágio e Prema que é pleno de Rasa (i.e. completo) é o nono estágio ou estágio final.

Os aspirantes à devoção devem observar cuidadosamente seus estados pessoais. Eles devem considerar como eram ontem, como estão hoje, e qual progresso fizeram. Observando durante vários dias, se notarem que não houve nenhum progresso segundo o método de evolução acima, deve-se entender que há algum mal oculto ou ofensa que impede o caminho. Deve-se detectar essa ofensa e tentar evitá-la, e a companhia dos devotos vai poder evitá-la. Com o cultivo e súplica constantes a Krishna eles vão se proteger para que essa ofensa não reapareça. Aqueles que não observam esses estágios evolucionários, vão atrasar o seu desenvolvimento por causa do obstáculo não notado. Portanto, ó devotos! Tomem um cuidado especial com isto.

 

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3

 

Decisão sobre Nama-Bhajan
conforme o grau de elegibilidade do Prema

 

Somente Prema é a verdade da necessidade para o Jiva (i.e. Prayojana Tattva). Vida de Bhava quando fica nutrida, transforma-se em vida de Prema. Quando o Jiva que anseia por Krishna se eleva mais e mais, alcança gradualmente o templo de Prema. Assim, há dois estados na gradação da elegibilidade do Prema, i.e., um é o estado de ascensão e o outro, o estado final quando se alcança Prema. Quando se alcança Prema, não há nenhum outro estado mais elevado que este. Este Krishna-Rasa integral é a única verdade monoteísta. Os devotos no estado de ascensão dividem-se em duas categorias, uma se chama "Viviktananda" e a outra, "Goshtananda". Os que são "Viviktananda" são apegados à execução de ritos. Os que são "Goshtananda" são apegados à pregação. Entre eles, alguns sentem muito prazer nas duas formas. Ouvir sobre Deus é a única atividade principal dos Prema-Bhaktas. Cantar alto o Santo Nome do Senhor é a sua prescrição para o mundo.

No estado de ascensão, os Prema-Bhaktas são plenamente devotados a Krishna. "Sharanagati" (auto-dedicação) é o sinal comum deles. O Srimad Bhagavatam e o Srimad Bhagavad-gita glorificam especialmente aqueles que se renderam completamente aos Pés de Krishna. Se não acorrer a rendição completa, então nem mesmo Bhava pode surgir, o que dizer da obtenção de Prema. Os devotos auto-rendidos aceitam somente o que é favorável à Prema-Bhakti e rejeitam o que for contrário. Os devotos da ordem mais alta acreditam sinceramente que Krishna é seu único Protetor e não existe nenhum outro protetor além de Krishna e também não existe nenhum outro trabalho que possa salvá-los. Não há nem um pouquinho de dúvida em suas mentes de que Krishna é o único Preservador deles. Eles acreditam firmemente e sinceramente que são os mais humildes e inferiores e que não podem fazer nada além da Vontade de Krishna e assim é a convicção firme deles.

Os devotos mais elevados que dedicaram todo o seu ser a Sri Krishna aceitam o refúgio exclusivo de Seu Nome, entre todas as outras práticas da devoção. Eles apreciam muito mais a lembrança e o cantar de Harinama. Não há nenhuma outra prática tão pura e espiritual como o cantar do Nome de Krishna. O Sri Haribhaktivilasa enfatizou mais a glória da lembrança e do cantar de Nama do que as outras práticas. Os Shastras afirmam que não há a mínima diferença entre o Nome de Krishna e Krishna em Pessoa. Porque Nama é Chintamani Tattva. (Chintamani é um tipo de pedra, que supõe-se atender a qualquer desejo meramente pensando nisso). O Nama apareceu como a Consciência Rasa-Vigraha de Krishna.

Quem deseja ter percepção de Krishna Swarupa e Nama Swarupa também vai ter que tomar cuidado para perceber Chit-Swarup. Enquanto não perceber Chit-Swarup, o aspirante não pode ser hábil no Bhajan. Portanto, como será possível obter o alcance dele que é o fruto de Sadhana? Alcance do conhecimento sobre Swarupa de Chit-Tattva é a única razão para o desenvolvimento do Bhajan. Por isso, gostaria de tomar alguma decisão sobre essa matéria.

O Jiva é infinitesimal, Krishna-Dhama (morada de Krishna) é Chit-Jagat, Krishna é Chit-Surya, Krishna-Bhakti é potência Chit, Krishna-Nama é Chit-Rasa Vigraha. Tudo isso, nós já afirmamos várias vezes e provamos com ilustrações dos Shastras. Agora queremos ser auto-complacentes com um pouco de discussão sobre Chit-Tattva, em conexão com grandes almas que estão no estado ascendente de Prema. Se formos afortunados, o prazer Chit vai surgir em nossa mente. Não há nenhum gosto na percepção de Brahman que é meramente Chit, pois não há nenhum Vilasa, i.e. manifestação ou Passatempos de Chit-Vastu.

Sri Chaitanya que Encarnou para a purificação de Kali-Yuga aceitou os Vedas como verdade auto-evidente e demonstrou então nove evidências capazes de prova. Isso está ilustrado em detalhes no Srimad Bhagavatam. Esse Jiva é Chit infinitesimal assim estabelecido pois é um raio do Sol Krishna. Claro, Krishna e Jiva são Chit-Swarup em essência mas a distinção é que Chit ou consciência de Krishna é esse Sol e o Jiva, uma partícula de Seu raio. Krishna é o Senhor dos senhores e Jiva é Seu servo eterno. Não há dúvida de que a morada de Krishna, Paravyoma ou Goloka, é essencialmente Chit. Lugares que são Chit são denominados como Vaikuntha ou Chit-Jagat. No Vajasaneya Upanishad, demonstra-se a característica de Krishna como puramente Chit. (1) As energias eternas de Krishna, que é o Supremo Brahman e Supremo Deus, estão descritas no Swetasvatara Upanishad. (2) Porque Bhakti é Chit-Rasa, é afirmado no Mundaka Upanishad. Conhecer Krishna como a linha de vida de todos os seres, as pessoas eruditas, que descartam o conhecimento seco e a argumentação, recorrem a seu próprio eu e se absorvem nele. (3) Com a consciência de que Ele é o conhecimento puro, os aspirantes auto-controlados e pacientes cultivam Prajñan que é devoção. Quem faz isso é Brahmana e quem deixa este mundo sem conhecê-Lo, é um miserável (lamentável). Quem deixa este mundo e O conhece, é um Brahmana verdadeiro, i.e., é um Krishna-Bhakta Vaishnava. O Swarupa ou característica de Bhakti demonstrou-se da seguinte forma:

"Ó Maitreya! Somente a Alma Suprema deve ser vista, ouvida, lembrada e concentrada profundamente. Quando se vê, ouve e medita nessa alma, tudo é conhecido. Essa alma é Krishna. Ele é mais querido que um filho, mais querido que a riqueza, pois Ele é o espírito onipresente em tudo. O que consideramos como objetos queridos, não são queridos para eles. Quando amamos nossa própria alma, tudo se torna querido para nós. Portanto, a doce relação eterna com Krishna se chama Prema. Prema é Chit-Swarup Tattva pleno".

Qual é a relação exata de Chit com este mundo fenomenal? Quando se obtém o conhecimento sobre a relação verdadeira, surge Prajñan na forma de devoção. Muitas vezes erramos na investigação sobre a verdade de Chit. Com a aplicação especial da nossa razão, decidimos que a verdade sobre Chit é algo oposto à verdade sobre matéria. Ao pressionarmos nossa razão, ficamos contentes por imaginar algum Brahman espiritual incompleto e imperfeito, que é Chit vago e aparente, deixando longe a verdade suprema que é Chit-Rasa. Nesse caso, Brahman se torna sem forma, imutável, inativo, sem corpo e desprovido de qualidade e de amor. Assim, Brahman aparece como uma coisa imaginária indescritível como uma flor no céu (ou castelo no ar). E, sem conseguir entender a qualidade, ação e nome desse mero Chit (i.e. Chit Brahman), ficamos inativos nós próprios. Por isso, esse conhecimento seco trouxe muito mal para este mundo. Isso é evidente na conversa entre Narada e Vyasa.

Portanto, é certo que se ficarmos limitados ao conhecimento de Chitmatra Brahman (i.e. só aparência de Chit puro), não poderemos entender o Brahman Supremo e Seu Chit Vilasa, i.e., Passatempos de Seu Chit-Swarup. Portanto, ó irmão! Prossiga em frente. Penetre no Chit-Brahman, entre no Chit-Dhama (morada de Chit). Lá, você vai encontrar o Brahman Supremo e Seu Chit-Vilasa. Aí, você vai poder saborear o que se chama Brahma-Rasa integral. Não degrade sua alma como um pedaço de madeira, afirma o Mundaka Upanishad, aqueles que são versados na verdade do eu conhecem o puro Brahman Supremo que é a Realidade Suprema, livre de Raja-Guna grosseiro, e vive na residência dourada transcendental que é essencialmente Chit e sem nenhum toque de matéria. Algum brilho transcendental desse Chit-Dhama que está além do alcance do brilho material exibe Seu Nome, beleza, qualidade e Lila. O Sol, a Lua, as estrelas, eletricidade e fogo deste mundo mundano não são capazes de brilharem nesse Chit-Dhama. Só a luz transcendental desse Chit-Dhama pode iluminar esse lugar. Nós pensamos que o Sol e a Lua que nos dão luz são fornecedores de luz em si. Mas eles não são. Eles são um reflexo fragmentar dessa luz transcendental. Isso é ilustrado claramente na descrição da cidade, i.e., Morada de Brahman, no Chandogya Upanishad. O Chit-Jagat que é iluminado pela luz Chit é o Protótipo ideal deste mundo material. Não há nada repugnante nesse lugar. Tudo é sadio e causador de felicidade. A reflexão pobre desse lugar ideal é este mundo material que compreende quatorze planos mundanos. A reflexão grosseira dessa luz neste mundo é o Sol, a Lua etc., e os reflexos minúsculos desse Chit são nossas mentes, intelecto e vaidade que constituem nosso conhecimento material. Devido a nossos sentidos grosseiros, consideramos o Sol etc. grosseiros como fontes de luz. Nós consideramos mais o conhecimento material obtido pelo processo de Astanga-Yoga, inventado por nossa mente, intelecto e vaidade insignificantes. Estes são os atos naturais dos Jivas em cativeiro. Com o conselho de Narada, Rishi Dwaipayan [Vyasa] recorreu à meditação característica, relativa à alma, i.e. devoção, assim viu vividamente o Nome, Beleza, Qualidade e Lila desse Ser Supremo. Ele também viu Maya como a sombra desse Poder infinito permanecendo como Seu Ashraya Tattva. Ele pôde entender que Jiva, devido à paixão por Maya, causou o mal com a degradação de sua alma que é essencialmente Chit Tattva. Com a realização plena de que Jiva pode obter seu próprio Swarupa pelo processo de meditação característico chamado Bhakti-Yoga, ele trouxe à tona o Srimad Bhagavatam que é considerado Sattvata Samhita, e trata do Chit-Lila Transcendental de Sri Bhagavan. A identificação errada do Swarupa pessoal do Jiva e o esquecimento do Swarupa de Krishna são os dois maiores males. Por causa desses males, surge a aversão do Jiva por Krishna e por causa dessa aversão, o Jiva cai no ciclo repetitivo de Karma-Marga, criado por Maya. Por isso, Samsara (vida mundana) é cheia de prazer e sofrimento. Quando termina a adoção de Astanga-Yoga pelos seguidores de Karma-Kandha e de Sankhya-Yoga pelos seguidores de Jñana-Kandha para a discriminação do que é espírito e o que não é espírito por meio da ação interna da mente, e quando se recorre à pura Bhakti-Yoga, somente então todas as verdades são reveladas pela luz transcendental do conhecimento obtido pelo processo de meditação característico, i.e., Bhakti-Yoga. Aí, o prazer e a dor sensuais grosseiros parecem desprezíveis, e surge Krishna-Prema. Quando o Jiva obtém a consideração pela devoção pura, pode exercer seu eu naturalmente. Então, Krishna que é Chit-Surya fica misericordioso. Exceto pela potência de Sua misericórdia, não há alternativa para extinguir o mal e alcançar o progresso pessoal.

A crença sincera em Bhakti-Marga puro é a causa fundamental da auto-realização. Quando um dia de boa ventura nasceu para Rishi Dwaipayan, surgiu a suspeita em sua mente sobre todos os tipos de Karma-Kandha e de Jñana-Kandha. Depois da questão de seu mestre preceptor Sri Narada Goswami, ele perguntou: "Ó mestre, de fato eu adquiri todo o conhecimento proporcionado por você, mas por que minha alma não encontra a satisfação? Ó filho de Brahma! Nessas circunstâncias, diga-me por favor qual é a razão desconhecida e inconcebível por trás disso. Pergunto pois estou muito aflito".

Então Sri Narada Goswami disse: "Ó Vyasa! Você descreveu o objetivo quádruplo dos Jivas, a saber, Dharma (virtude), Artha (riqueza), Kama (desejo) e Moksha (emancipação) nos diferentes Puranas, Vedanta Sutras, Sri Mahabharata etc. com muita lucidez, mas você não tentou fazer o mesmo sobre o puro Lila Espiritual de Sri Bhagavan. Esse é o motivo porque você não consegue obter a satisfação, que é devido à sua própria fraqueza. Você estabeleceu Varnashrama-Dharma em um nível mais elevado do que Swadharma para os Jivas em cativeiro. Esse foi o seu grande erro. Qualquer um que abandonar esse Dharma titular e se devotar a Hari-Bhajan, mesmo se cair durante um estágio imaturo, qual é o problema? Por outro lado, qualquer um que aderir a esse Dharma titular e não fizer Hari-Bhajan, que tesouro inestimável ele vai obter"? Com essa instrução, está claro que o Jiva não tem outro jeito de liberação além de Hari-Bhajan. Qualquer um que recorrer a Harinama sinceramente, vai obter tudo que vale a pena obter.

Sri Vyasadeva, com a ajuda dessa Bhakti-Yoga, recorreu à revelação da característica natural. O significado de chamar essa meditação de "natural" é que devoção a Krishna é muito fácil para a alma do Jiva. Pois é a virtude natural da alma do Jiva. O processo de virtude natural é o seguinte:

Quando o Jiva descobre que por seguir Karma-Kandha, i.e. execuções dos dezoito tipos de Karma-Yajña, não está conseguindo o benefício eterno, ou pela adoção de Yoga-Marga, i.e. práticas dos oito processos menores de Yoga, ele não está conseguindo seu objetivo desejado, i.e. seu próprio Dharma que é servidão a Krishna; novamente, quando ele descobre que por meio do conhecimento empírico obtido pelo exercício de seu corpo e mente mundanos ou mesmo pelo conhecimento espiritual que consiste do conhecimento sobre Brahman que é meramente Chit, não há possibilidade de nenhum ganho real, então sem encontrar outra alternativa, ele implora pelo favor do Sadhu e Guru, e diz: "Ó Krishna! Ó Purificador dos caídos! Sou Seu servo eterno, estou sofrendo de miséria sem fim, caído no oceano de Samsara; Ó Senhor! mostre-me Sua misericórdia e conceda-me um minúsculo lugar como poeira em Seus Pés". Então, o Senhor misericordioso levanta o Jiva de Seus Pés, e o afaga e cuida dele.

No curso do ouvir, cantar e lembrar de Krishna-Nama, com lágrimas nos olhos e emoção de alegria, aparece a vida de Bhava. Krishna então habita no coração e expulsa todo o mal, deixa o coração limpo e depois concede Prema por misericórdia. Nesse estágio, se houver falta de Sharanagati (auto-rendição) e se o Jiva por vaidade praticar outra meditação abstrusa com seu esforço pessoal, vai deixar o seu coração seco e vai assim ficar desprovido de Prema. Com cuidado especial, humildade e auto-dedicação, o Jiva deve pôr Krishna em seu coração. Aí, toda razão material e seus esforços desaparecem quando os olhos espirituais se abrem, a partir daí, o Jiva é capaz de ver a Realidade Suprema, Deus. Se a má companhia for abandonada e a boa companhia for confirmada, surge Bhava devido à firmeza da mente, e o alcance do processo gradual de constância etc.. Pessoas de mente perspicaz inevitavelmente se perdem.

As pessoas que estão no estado ascendente de Prema sempre cantam Krishna-Nama sinceramente na companhia dos devotos. Elas não têm atração por outros ramos da devoção. Se a determinação da mente por Nama for estabelecida em um período curto, então o fruto de auto-controle, regra e ritual, controle da respiração, meditação, concepção e de retração da mente surge facilmente, mesmo sem nenhum outro desempenho, obtém-se o resultado do controle da mente simplesmente só com Nama. Quanto mais o coração se purifica, mais aparece variedade do mundo transcendental. Isso causa tanto prazer que um fragmento dele não pode ser obtido por nenhum outro meio. Exceto a Misericórdia de Krishna, não há nenhum outro objeto desejado pelo Jiva.

Nama é puramente Chit. Como Nama, não há nada em nenhuma outra parte. Como Nama não há conhecimento, como Nama não há nenhum voto, como Nama não há contemplação, como Nama não há fruto, como Nama não há nenhuma renúncia, como Nama não há nenhum controle, como Nama não há nenhuma virtude, como Nama não há nenhum objetivo. Saiba definitivamente que Nama é a salvação suprema; Nama é o objetivo final, Nama é a beatitude suprema, Nama é a permanência suprema, Nama é a devoção suprema, Nama é a maior inteligência. Nama é amor perfeito e Nama é a lembrança suprema. Nama é o Senhor dos Jivas. Nama é o maior preceptor.

Os Vedas descrevem toda a consciência de Nama e colocam Nama acima de todas as verdades: "Ó Deus! Sabendo que Seu Nome é o melhor depois de decisão cuidadosa, nós O adoramos. Não há nenhuma regra difícil ou estrita para a adoração a Nama. Nama transcende a todas as boas ações. Nama é um objeto onisciente, esplendoroso e auto-evidente. Todos os Vedas e tudo mais surgiram desse Nama. Nama é a personificação do Brahman Supremo e da Bem-aventurança Suprema, por isso adoramos Nama perfeitamente bem. Nama concebível é um aprendizado melhor do que o auto-conhecimento desconhecido. Portanto Nama! É tanto o meio quanto o fim. Ó Nama! Você é extremamente louvável. Ó Deus! Nama é Seus Pés. Assim, nós nos prostramos a Seus Pés de Lótus repetidamente. Os devotos discutem a verdade sobre Nama entre si para o seu progresso pessoal e declaram Sua Glória. Ó Deus! eles concebem Nama como auto-consciente. Quando ouvem o cantar de Seu Nama, eles ficam prontos a realizar o que anuncia Sua fama e glória. Assim eles se tornam puros. Nama é a personificação de Sat (existência), Chit (consciência) e Ananda (bem-aventurança). Ó Vishnu! somos capazes de recitar Seus hinos pela misericórdia de Nama. Portanto, só vamos adorar o Seu Nama". Sri Mahaprabhu declarou a glória de Nama em Seu próprio Shikshastaka. Ele deu instruções suficientes nesse poema de oito versos de que em Nama, há as etapas sucessivas de Bhajan. Ele instruiu como praticar Nama sem os dez tipos de ofensas contra Nama, na terceira estrofe Ele diz que se deve ser mais humilde que uma folha de grama etc.. Como praticar Nama-Bhajan com devoção abnegada? Ele mostrou na quarta estrofe: "Eu não aspiro por riqueza, nome e fama etc.". Como fazer a representação? Ele afirmou na quinta estrofe, "Ó filho de Nanda etc.". Nas duas últimas estrofes, Ele mostrou como se devotar à Srimati Radhika e praticar Nama adequado para o Bhajan de Vrindavan, em união bem como em separação. A glória de Nama é tamanha, citada em tantos Shastras, que se fôssemos descrever neste livro, seria tão volumoso quanto o Sri Haribhaktivilasa. Portanto, sem mais demora, deixe-me descrever em breve o método de Nama-Bhajan.

As pessoas no estágio ascendente de Prema sempre se lembram destas palavras antes de entrarem em Nama-Bhajan. Elas sabem muito bem que Swarupa (natureza intrínseca) de Krishna, Swarupa de Krishna-Nama, Swarupa do serviço a Krishna e Swarupa do servo de Krishna são todos eternamente liberados e espirituais. Krishna, Sua morada e consortes de Seu Lila são todos Chit (sensíveis), sem nenhum toque de Maya. Não há nada material em Seu serviço. O local de Krishna, Sua morada, jardim, floresta, o Yamuna e todas as outras coisas são plenamente Chit e transcendentais. Elas também sabem que essa fé não é uma fé cega material. Essa fé é a verdade suprema e eterna. O Swarupa (característica verdadeira) dessas coisas não pode ser refletido neste mundo mundano. Essa cognição existe sempre no coração dos devotos. É aí onde o fruto de Sadhana é obtido. Assim se constitui Swarupa-Siddhi, i.e. conhecimento perfeito da verdadeira característica, desses objetos transcendentais. As pessoas que alcançaram Swarupa-Siddhi também podem alcançar Vastu-Siddhi, i.e. alcance da Realidade, bem rápido, pela misericórdia de Krishna. Assim, a perspectiva real de "Vastu" eterno ou Realidade como resultado de Sadhana se reflete na mente do aspirante. Seu estágio primário é salvação e o estágio final é Prema.

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

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Processo de Nama-Bhajan

 

 A consciência sobre a característica da verdade transcendental constitui Swarupa-Siddhi. É o conhecimento sobre a verdadeira relação. Quando surge o conhecimento sobre relação, obtém-se Abhidheya na forma do cultivo de Prema e Prayojana, i.e. necessidade de Prema. O Chit-Dhama de Krishna, Chit-Lila de Krishna estão todos inclusos em Prema Tattva, que é a verdade da necessidade. No Prasna Upanishad, decide-se sobre Bhajan do Nome de Deus. O Nome Divino é afirmado como eternamente verdadeiro. O Nome de Krishna é aceito como Sua Manifestação neste mundo. Apesar de Nama consistir de uma combinação de letras, ainda assim é uma Manifestação especial de Krishna. Segundo o fato de que não há distinção entre Nama e Swarupa, Sri Krishna descendeu de Goloka-Vrindavana assumindo a forma de Nama. Assim o Nome de Krishna é a primeira informação com Ele. O Jiva deve portanto aceitar Seu Nama, se desejar obter Krishna. Sri Gopal-Guru Goswami, um dos discípulos mais queridos de Sri Swarupa Damodara Goswami, citou o Agni Purana em seu Harinamamrita-nirnaya, que diz, se alguém pronunciar "Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare" mesmo sem querer, não há dúvida de que vai obter seu objetivo desejado. O Brahmanda Purana diz, se alguém recitar "Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare", vai se livrar de todos os pecados. O maior pregador de Harinama e coletor de Seus dados relevantes é Sri Krishna Chaitanya Mahaprabhu. As palavras Hare Krishna que saem de Seus lábios inundaram o mundo com o vasto oceano de Prema. Sriman Mahaprabhu instruiu as pessoas para adotarem o rosário de Nama:

Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare
Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare

que consiste de dezesseis palavras e trinta e duas letras [em Devanagari]. Tudo isto está descrito no Sri Chaitanya Charitamrita e Sri Chaitanya Bhagavata. Sri Gopal-Guru Goswami explicou o significado desses Nomes da seguinte forma:

"Por meio da pronúncia de Hari, remove-se todos os pecados das pessoas de mentalidade pecaminosa. Quando se toca no fogo sem saber, vai se queimar. Quando se pronuncia Harinama, exibe-se a verdade de Deus como "Chit-Ghana-Ananda", i.e. personificação da bem-aventurança sensível eterna e extingue-se "Avidya" que é a raiz do mal. Por isso, chama-se Harinama, ou é Harinama porque expulsa os três tipos de sofrimento de todos os seres sensíveis e insensíveis, ou porque cativa a mente de todo o mundo por meio do ouvir e cantar de Suas boas qualidades transcendentais inerentes, ou porque rouba a mente das pessoas e de todos os Avataras pois sua doçura transcende à doçura e beleza de uma infinidade de cupidos do amor. "Hare" é caso indicativo do termo Hari, ou segundo o Brahmasamhita, Aquela que pode roubar a mente de Hari por causa de Seu amor e afeição inigualáveis se chama "Hara", e se aplica somente à Srimati Radhika, filha do rei Vrishabhanu, e no caso vocativo Ela é "Hare".

Segundo o Agama Shastra, o significado de Krishna é Quem atrai ou Quem cativa. Krishna é derivado da raiz "Krish", i.e. atrair, e com a aplicação do sufixo "Na", indica bem-aventurança suprema. Portanto, Ele é o Grande Atraente, Ele é o Brahman Supremo e a personificação da bem-aventurança eterna. Krishna no caso indicativo é Krishna. Shiva diz no Agama: "Ó deusa! Todos os pecados são retirados com a pronúncia de "Ra", e "Ma" é uma porta fechada que previne a entrada do pecado novamente". Este é o significado de "Rama". Os Puranas também afirmam: "O significado de "Rama" é Aquele que é o Deus do Lila amoroso conjugal e que está sempre ocupado em diversões amorosas com Sua companheira eterna Sri Radha". Portanto, "Rama" indica somente Krishna e ninguém mais. Mostraremos a implicação de cada Nome no curso da discussão sobre Nama-Bhajan.

Os devotos que estão no estágio ascendente de Prema cantam e memorizam séries de "Hare Krishna Nama" fazendo a contagem em contas. Durante a hora do cantar e memorizar, eles cultivam constantemente o Swarupa transcendental, pois sabem o significado do Nama. No curso do cultivo constante, todo o mal é removido bem depressa e o coração se torna puro. Por meio do recitar do semblante de Harinama e da ponderação constante sobre o Seu significado, o Nama transcendental vai aparecer naturalmente no coração puro deles.

As pessoas que adotam Nama são de dois tipos: (1) as que estão no estado inicial de desempenho. (2) as que estão no estado de realização. As que estão no estado inicial são novamente divididas em duas classes: Preliminar e diária. Além dessas, estão as pessoas liberadas eternamente que alcançaram o corpo espiritual. Os devotos preliminares com o contar nas contas, incrementam o número e adquirem constância. Ao obter constância, o recitar dos Nomes se torna diário. Os devotos preliminares não têm gosto pelo Nama, pois suas línguas foram amargadas com a bílis de Avidya. No curso de contar nas contas sempre de Tulasi-Mala, quando se obtém constância e o canto de Nama se torna diário, cresce um pouco de afeição por Nama. Nesse estado, o aspirante não gosta de permanecer ocioso sem pronunciar Nama. Assim sempre pronunciando Nama com afeto, surge o gosto por Nama. Nesse momento, Avidya que fica na raiz do pecado e que é a semente do pecado, remove-se automaticamente e o coração se torna puro. No estágio preliminar, é absolutamente necessário cantar Nama com avidez e sem nenhuma ofensa. Isso só é possível com o abandono da má companhia e com a obtenção de instruções salutares na companhia de Sadhus. Quando o estágio preliminar termina, o gosto por Nama e a benevolência pelos Jivas incrementam naturalmente. Nesse caso, não há necessidade de aceitar nenhuma ajuda de nenhum procedimento de Karma, Jñana e Yoga, etc.. Ao cantar Nama com a mente fervorosa junto com esses procedimentos, o coração se purifica logo e Avidya se reduz gradualmente. Quanto mais Avidya se destrói, mais se aplica a renúncia e o conhecimento da relação aparece, e torna o coração puro. Isso já foi testado muitas vezes entre os sábios. Durante a adoção de Nama, o significado verdadeiro de Nama deve ser cultivado com afeto, e deve-se dirigir as preces a Krishna com súplica comovente. Assim com a Misericórdia de Krishna, Bhajan melhora gradualmente. Se isso não for feito, vai demorar muitos nascimentos para alcançar o sucesso, da mesma forma como os Karmis e Jñanis.

 Aqueles que se ocupam em Bhajan são divididos em duas classes, entre eles alguns carregam carga e outros pegam a essência. Aqueles que desejam o prazer e a emancipação e estão presos ao mundo material ficam sobrecarregados com o esforço para a obtenção das quatro metas, Dharma, Artha, Kama e Moksha. Eles não têm consciência de que o essencial é Prema. Assim as pessoas que carregam carga apesar de seus melhores esforços e melhor cuidado não podem progredir em Bhajan. Os que são inquisitivos sobre a essência, concentram sua mente na verdade de Prema e conseguem seu objetivo desejado rapidamente. Eles estão no estágio ascendente de Prema. Eles podem alcançar Prema rapidamente e se tornar um Paramahamsa natural. Por outro lado, se a pessoa que carrega carga tiver a sorte de entrar em contato com Sadhus e aprender como considerar o item essencial, poderá em breve ascender ao estágio de Prema.

Depois de muitos nascimentos, se a pessoa tiver a sorte de ter a tendência para a devoção, ela obtém consideração pelo caminho da devoção, e essa consideração gera o gosto dela pela companhia de devotos. Se a prática de Bhajan for feita com devotos puros, ela obtém Sadhana-Bhakti, com inclinação para Prema. Se as lições sobre Bhajan vierem de devotos mestiços ou daqueles que possuem aparência da devoção, Prema fica distante e não pode ser sincero. Nesse estado prevalece Anartha (mal) que fica no caminho como um empecilho em mostrar a consideração aos devotos puros. Surge a maldade e o coração se torna enganoso. Nesse estágio, os aspirantes caem na classe primária e assim passam muitos nascimentos. Os primários têm consideração pela devoção, só que é muito frágil e sempre guiada pela tentação. A fórmula para tirar a inquietação do coração é aprender lições sobre adoração segundo o Agama Shastra com um professor genuíno. Depois de praticar a adoração por um longo tempo, eles podem obter a consideração por Nama. Quando surge a consideração por Nama, cresce a inclinação para a prática de Nama-Bhajan na companhia de Sadhus.

As práticas das pessoas afortunadas que têm consideração inabalável por Krishna-Nama desde o nascimento são bem diferentes. Pela Misericórdia de Krishna, elas se refugiam no preceptor que é consciente sobre o significado da Verdade sobre Nama. Sriman Mahaprabhu decidiu sobre o direito e qualificação desse preceptor que é conhecedor de Nama-Tattva. Apesar de não haver necessidade de iniciação em relação ao Nome, ainda assim, a importância de um Guru que conhece o significado da Verdade sobre Nama é auto-evidente. As letras de Nama podem ser obtidas em qualquer parte, mas a Verdade oculta sobre Nama só pode ser desvendada pela misericórdia de um Guru que é puramente devotado. Pela misericórdia dele, o estágio preliminar do aspirante, i.e. aparência de Nama, é removido e ele fica protegido das ofensas contra o Nome.

Aqueles que aceitaram Nama-Bhajan como seu voto, pertencem à classe média desde o início. Pois estão cientes do Swarupa de Nama. Na verdade, eles estão no estágio ascendente de Prema. Seu comportamento religioso consiste de amor por Krishna, amizade e fraternidade com os Vaishnavas puros e santos, solidariedade e gentileza com os Vaishnavas primários que têm consideração fraca, e indiferença com aqueles que desconsideram a Srimurti onisciente de Deus. Os primários não são capazes de distinguir um "Vaishnava" por isso caem em uma situação lastimável, de tempos em tempos. Os devotos no estágio ascendente de Prema que estão na categoria da classe média mostram três tipos de comportamento às três classes de Vaishnavas respectivamente. Eles alcançam Prema rapidamente, e se tornam os melhores devotos no decorrer do tempo. Eles se tornam pessoas dignas de se ter a companhia.

Os devoto de classe média, no decorrer do cantar de Nama com a contagem em contas, completa o número de três lakhs (cem mil) durante dia e noite. Eles sentem tanto prazer que não podem abandonar Nama nem por um momento. Como não conseguem completar o número fixado durante o sono, eles cantam Nama sem parar, pelo menos. No decorrer do pensamento constante no significado de Harinama, explicado por Sri Gopal Guru Goswami, todo o mal que é natural para os seres humanos é gradualmente eliminado e eles podem encontrar o Swarupa bem-aventurado mais elevado de Nama. Quando o Swarupa de Nama aparece vividamente, o Chit-Swarupa de Krishna se torna identificado com o Swarupa de Nama. Quanto mais aparece a característica pura de Nama, e Bhajan é executado com a recapitulação de Sua Forma e Beleza, mais desaparece os Gunas materiais, e Sattva puro, i.e. a qualidade transcendental de Krishna, aparece. Quanto mais puro é o Bhajan, combinado com Nama, Forma e Qualidade, mais vívido fica o Lila de Krishna, refletido no coração puro, com a meditação espiritual e com a misericórdia de Krishna. Nama com contagem, ou Nama incontável, vai ser cantado na língua, a Beleza e Forma de Krishna serão vistos na mente, as Qualidades de Krishna serão notadas no coração e Krishna-Lila aparece vividamente na alma, absorta em meditação. Assim, nota-se os seguintes cinco estágios em um aspirante: (1) Sraban-Dasha (estágio de aprendizado). (2) Baran-Dasha (estágio de rendição). (3) Smaran-Dasha (estágio de lembrança). (4) Apan-Dasha (estágio do eu verdadeiro). (5) Prapan-Dasha (estágio de satisfação).

Ao ouvir Nama como o meio e o fim, de um preceptor, o estado mental agradável que surge nesse momento é chamado Sraban-Dasha (estágio de ouvir). Tudo que foi dito sobre aceitar Nama sem ofensa e qualquer método e habilitação prescritos, todos são derivados durante o estágio de ouvir. Dele, surge a constância em Nama. Quando a pessoa digna recebe o rosário, feito com o cordão de Nama e Prema de Sri Gurudev, i.e. quando o discípulo digno se rende aos pés de lótus do Guru com extrema satisfação e veneração com a aceitação do puro Bhajan dele e com sua inspiração, esse estágio do devoto se chama Baran-Dasha (estágio de rendição). Lembrança, concepção, meditação, recapitulação e absorção em contemplação profunda, esses são os cinco processos de lembrança do Nome. Lembrar o Nome, lembrar a Forma e Beleza, concepção das Qualidades, lembrança constante do Lila e absorver-se na doçura de Krishna, penetrando profundamente em Seu Lila que se chama Rupa-Samadhi, se esses processos forem seguidos, Apandasha, i.e. surge o estado do verdadeiro eu. Durante Smarana e Apan-Dasha se for executada a recapitulação no Astakaliya-Lila eterno de Krishna, e se conseguir a concentração profunda, aparecerá o Swarupa-Siddhi. Os devotos que alcançam Swarupa-Siddhi são Paramahamsas naturais.

Depois, se Krishna for misericordioso, o aspirante nesse momento de deixar seu enrolamento material, pode entrar com seu corpo transcendental no Reino Divino e se tornar uma consorte no Vraja-Lila, o que se chama "Vastu-Siddhi", ou obtenção da Realidade. Este é o fruto supremo de Nama-Bhajan ou supra-sumo da vida do aspirante. Esta é a conquista máxima de seu Sadhana e se chama Prapan-Dasha.

Todos os aspirantes no estágio ascendente de Prema deixam sua vida doméstica e adotam o ascetismo? A resposta é: Os devotos no estágio ascendente de Prema praticam Bhajan em qualquer Ashram que achar favorável. Não importa se é vida doméstica ou vida na floresta, ou vida asceta. Mas qualquer Ashram que ele achar desfavorável para seu Bhajan, ele vai deixá-lo em tempo. A vida e conduta daqueles que estão tendo o sentimento conjugal com Deus, como Gadadhar Pandit, Sri Pundarik Vidyanidhi, Sri Ramananda, etc., são exemplos. Todos eles são Paramahamsas. Antigamente, muitos que tinham vida doméstica, como Ribhu etc., eram desse tipo de Paramahamsa. Por outro lado, considerando a vida doméstica contrária ao Bhajan sem perturbação, muitas pessoas de alma elevada, como Ramanuja Swami, Sri Swarup Damodar Goswami, Sri Madhavendra Puri Goswami, Sri Haridas Thakur, Sri Sanatan Goswami, Sri Rupa Goswami, Sri Raghunath Das Goswami, etc., deixaram a vida doméstica e adotaram o ascetismo.

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

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Objetivo de Pessoas no Estágio Ascendente de Prema

 

Quando o aspirante obtém a semente da trepadeira da devoção como resultado do favor do Guru e de Krishna, i.e. quando ele obtém a consideração pela verdade devocional, ele tem que se esforçar ao máximo para extrair o fruto disso. Sriman Mahaprabhu instruiu Sri Rupa Goswami em Prayag sobre isso, com uma parábola. O aspirante é um jardineiro que vai plantar a semente que recebeu no seu coração. O coração do aspirante é o campo. Se a semente deve ser plantada no campo, é preciso deixar o campo bom para o cultivo, antes de semear ou plantar. O Jiva afortunado, seguindo estritamente a lição aprendida com seu preceptor genuíno, sobre como abandonar o desejo por proveito ou emancipação, e desprezando as conquistas mundanas ou celestiais, vai poder assim limpar o campo em todos os sentidos. Esse é o resultado de sua companhia com Sadhus. Ele deve se considerar inferior a uma folha de grama pisoteada. Ele deve considerar seu coração imperturbável com o espírito de tolerância igual ao de uma árvore clemente. Sem ansiar pelo próprio nome ou fama, ele tem que respeitar devidamente todos os Jivas. Se ele tiver essas qualidades, ele será qualificado para aceitar Harinama. Essa é a forma do desempenho para deixar o campo limpo. Do mesmo jeito como se controla um cavalo, é seu dever mais sagrado retrair a mente, desviando-a dos objetos dos sentidos. Isso se chama renúncia aplicada, ou o verdadeiro tipo de abnegação pessoal. Isso é muito útil para Bhajan. A renúncia seca não ajuda tanto.

Então, a trepadeira da devoção cresce gradualmente, sendo regada com a água do ouvir, cantar e lembrar do Nome divino, etc.. A virtude sensível da trepadeira da devoção é de tal forma que não pode ser confinada neste mundo mundano. Ela transcende este mundo material, que consiste de 14 Lokas [sistemas planetários], bem rápido, cruza o rio Viraja [limite entre os mundos material e transcendental] e penetrando em Brahma-Loka [plano supremo do universo, bondade pura] sobe até o Paravyoma [Céu Transcendental]. Assim é a virtude transcendental ou poder do sentimento transcendental. Com o mínimo de esforço e anseio, o devoto pode obter o conhecimento sobre o seu verdadeiro eu, o que conduz a alma do devoto e a trepadeira da devoção a seu próprio reino sensível que transcende a matéria.

Gradualmente, alcança Goloka-Vrindavana que está acima do Paravyoma. Quando alcança a Árvore dos desejos dos Pés de Lótus de Krishna, a trepadeira se expande e produz o fruto delicioso de Prema. Aí, o jardineiro tem sempre que regar com a água do ouvir, cantar, etc.. Se a trepadeira conseguir atravessar o rio Viraja, não haverá mais receio de declinar. Enquanto estiver confinada neste mundo material, que consiste de Maha-Tattva (natureza), Ahamkara (egoísmo), Rupa ou beleza (forma), Rasa (sabor), Gandha (aroma), Sparsha (tato), Shadba (som), etc., que são os produtos dos órgãos sensuais e cinco órgãos da volição, coração, terra, água, lustre [fogo], ar, éter [espaço] e as qualidades de Sattva, Raja e Tama, etc., tudo isso pode ser causa de impedimento para seu progresso. Se a trepadeira puder alcançar o campo imaterial, ela se torna impenetrável e indivisível devido a seu próprio mérito e vai para cima. Enquanto estiver situada na terra material, o jardineiro deve ficar alerta com duas coisas. O elefante da ofensa a Vaishnava não deve ameaçar a trepadeira. Para isso, o jardineiro tem que criar uma proteção por meio do Bhajan íntimo e aderir à companhia de Sadhus como seu abrigo. Esse mal não pode acontecer na companhia de Sadhus [devotos puros]. O outro cuidado do jardineiro é: Quanto mais a trepadeira cresce, há a possibilidade do crescimento de ramificações junto com ela no mundo material, e isso é devido ao erro de manter más companhias. Muitas ramificações, como o desejo por prazer ou salvação, atos proibidos, hipocrisia, falsidade, astúcia, crueldade com os animais, esforço pelo proveito próprio, aspiração pelo próprio nome e fama etc., podem crescer junto com ela. Com o regar da água de ouvir e cantar, essas ramificações crescem e retardam o crescimento do tronco principal. Essas ramificações crescem devido ao contato com más companhias, cujo desejo é prazer ou salvação. Por causa do erro de manter más companhias, podemos ver a queda de aspirantes em toda parte. Portanto, o jardineiro deve seguir a orientação do Guru verdadeiro, e sempre tomar cuidado para erradicar essas ramificações daninhas logo que comecem a crescer, para que o tronco principal da trepadeira da devoção possa alcançar o Dhama onisciente e pleno de bem-aventurança de Sri Vrindavana, com seu corpo crescendo a cada dia. Lá, o fruto da trepadeira, i.e. Prema, amadurece e o jardineiro permanece nesse Dhama saboreando-o para a satisfação de seu coração. Com o acompanhamento da trepadeira, apesar do jardineiro ser infinitesimal e potência divina marginal, ele recebe a árvore dos desejos, i.e. os Pés de Lótus de Sri Krishna. Então, o jardineiro, pelo serviço à árvore dos desejos, pode saborear o fruto delicioso e suculento de Prema que é seu benefício final.

O coração da pessoa que está no estágio ascendente de Prema, com o constante ouvir, cantar e lembrar de Harinama, fica purificado e obtém então o estágio de Bhava. Simultaneamente ao surgimento de Bhava, nasce a aptidão para Rasa. Todos os Rasas no Lila de Krishna são doces. Shanta, Dasya, Sakhya, Vatsalya são todos deliciosos conforme sua própria esfera. Os devotos de acordo com sua aptidão absorvem-se profundamente em seu próprio Rasa desejado. Mas segundo a instrução de Sriman Mahaprabhu, entretanto, Madhura-Rasa é o único Rasa que é o mais doce e mais saboroso, e portanto deve ser adorado pelos devotos mais aptos. Esse Rasa não pode ser saboreado sem a devoção à Sri Radha. A verdade de Sat, Chit e Ananda é o fator constituinte de Para-Brahman. Sri Krishna em Sua característica inerente é Sat e Chit, e Sri Radhika é Sua Ananda-Swarupini, i.e. Sua Personalidade de bem-aventurança. Radha-Krishna é uma Verdade indivisível mas, para a expansão de Rasa, Eles se dividem em dois. Radha e Chandravali são superiores a todas as outras Gopis. Mas entre as duas, Radha é a mais elevada em todos os aspectos.

Já foi dito antes, aqueles que praticam Bhajan no sistema de Raganuga-Bhakti que têm atração pelos sentimentos dos Vrajabasis (habitantes de Vraja) devem executar práticas, mostrando devoção completa a eles, e não conforme a sua vontade própria. Portanto, devem aprender com seu Gurudev misericordioso, o método que é prescrito para o ingresso no Nitya (eterno) Lila de Sri Sri Radha-Krishna. O aspirante a esse tipo de Rasa entra no grupo de Sri Radhika, pensando em seu corpo sentimental de Gopi. Mesmo se o aspirante for do sexo masculino, ele deve possuir em sentimento um corpo espiritual de Gopi. Isso não deve ser considerado impraticável. O Jiva é em essência a potência marginal de Krishna (Tatastha-Shakti). Concebe-se a distinção de sexo em seu corpo material grosseiro. O corpo espiritual é eternamente puro e sensível [com plena consciência]. Neste caso, não há distinção de sexo. O corpo espiritual é independente e não está sujeito à Maya. Ele está sempre ansiando para obter o puro Kama. Quando surge qualquer sentimento transcendental, ele se reflete no corpo do Jiva puro, e faz com que apareça masculino ou feminino conforme o caso. No Shanta-Rasa (Rasa neutro), prevalece o estado de impotência (i.e. inatividade ou falta de serviço), em Dasya e Sakhya prevalece a infância, na afeição maternal a feminilidade, e na afeição paternal a masculinidade. Em Madhura de Ujwala-Rasa, todos os Jivas são femininos. Elas servem a Krishna que é o Masculino Supremo Absoluto.

Determina-se qual Rasa é adequado para o Jiva pelo seu gosto íntimo. Quando ele obtém consideração em um Bhajan específico, seu gosto pode ser entendido por esse tipo de Bhajan. Com a decisão sobre esse gosto, o Guru espiritual irá iniciá-lo apropriadamente.

O Swarupa de Sringara-Rasa é descrito no Brihat Aranyak Upanishad. A essência íntima de Krishna é Sringara-Rasa, que é a Sua própria característica. Ninguém pode entrar nesse Rasa sem a misericórdia de Sri Radha. Após obter a misericórdia de Sri Gurudev, e com a lembrança do sentimento que desperta de tempo em tempo na mente de Sri Gaura Chandra em Seu Lila de Sri Radhakrishna, o sentimento de Madhura-Rasa ou Ujwala-Rasa irá surgir em nossa mente. Mesmo se o aspirante vive neste mundo material e tem a sua rotina diária de trabalho com seu corpo, ainda assim ele pode adquirir o sentimento espiritual de seu corpo eternamente liberado e puro. Pensando e pensando que está servindo o Astakaliya Lila de Sri Sri Radha e Krishna com esse corpo, ele irá obter mais cedo ou mais tarde Swarupa-Siddhi, ou seja, ele será capaz de identificar seu eu verdadeiro com o corpo espiritual de uma Gopi.

O aspirante, absorto na contemplação de si mesmo como uma Gopi, deve se concentrar com o seguinte pensamento: "Estou na companhia de Sri Lalita etc., que pertence a seu próprio grupo de Gandharvika. Eu sou uma serva de Sri Rupa Mañjari e moro na vila Zavat. Sou muito bem-aventurada, alegre e graciosa. Sou adolescente, minha cor é como a cor do ouro puro. Eu fico sempre ao lado de Sri Radha-Krishna". Há onze características na perfeição do Siddha-Deha: Nome, forma, idade, vestes, relação, grupo, comando, serviço, Parakastha (eu compartilho do serviço que as Shakhis e Mañjaris determinadas estão prestando a Sri Radha-Krishna), atendente ou serva protegida, e residência (local do Lila de Radhakrishna). Por meio dessa contemplação repetida em seu Swarupa exclusivo, por fim irá crescer a vaidade para o mesmo e isso irá gerar o sentimento claro de prestação de serviço. Permanecer na matéria para o devoto vai durar só até o fim da sua vida, e isso é devido ao hábito. Preservação, manutenção e nutrição do corpo grosseiro devem ser considerados e levados como trabalho favorável a seu Sadhana. Se alguém tiver a ânsia pelo caminho de Raganuga, irá implorar a seu bom preceptor religioso que, após examinar o seu gosto, irá determinar o tipo de Bhajan, adequado a ele, e dará a ele o entendimento sobre seu Siddha-Deha.

Conforme o seu entendimento, o aspirante ou pessoa no estágio ascendente de Prema viverá na companhia do Guru e, obtendo todo o entendimento dele, irá praticar Bhajan diariamente com o máximo de cuidado e avidez, situado em seu próprio local. Com a lembrança de seu Nama, Rupa etc., concedidos pelo seu Guru repetidamente, ele vai possuir a vaidade para o mesmo. Esta vaidade é o conhecimento de seu eu verdadeiro que é chamado Swarupa-Siddhi. O processo de lembrar e cantar a Forma, Qualidades e Lila que foi citado antes está desabrochado nesse estágio. O significado desse tipo de Sadhana é entrar no Lila Transcendental de Sri Radha-Krishna e lembrar-se de Seu Nome, Beleza e Qualidade eternos por meio da aplicação da relação do aspirante com Eles de acordo com seu próprio nome e forma, concedidos pelo seu Guru. Quando a trepadeira da devoção cruza o rio Viraja e penetra em Brahma-Loka, alcança Goloka-Vrindavana que se situa acima do Paravyoma e sobe na árvore dos desejos dos pés de Sri Krishna, aí o jardineiro, o aspirante, pode obter a residência transcendental. Alguns devotos explicam esse Swarupa-Siddhi como um nascimento na casa de uma Gopi, antes do término de seu Sadhana. Isso também não é falso. Deve ser entendido como o segundo nascimento de um Vaishnava devotado, antes do alcance de Vastu-Siddhi. O recebimento do Gopi-Deha de um devoto é o recebimento da pura e completa qualidade brâmane, Apan-Dasha. Nesse estado, o corpo material qualificado é removido, aí o aspirante pode obter Vastu-Siddhi, e quando há o desabrochar pleno da lembrança do Nome, Forma, Qualidades e Lila de Krishna, o aspirante pode alcançar a Vrindavana eterna (Goloka). Que há uma diferença mínima entre a Vrindavana da Terra (Bhouma Vrindavana) e Goloka-Vrindavana está descrito no Sri Brihat Bhagavatamritam compilado por Srila Sanatana Goswami.

Na descrição do Chit-Dhama, está afirmado que não há nenhum Raja-Guna, nenhum Tama-Guna e nenhum Sattva-Guna misturado. Não há influência, ou limitação, do tempo. Não há nenhuma influência ou poder de Maya. Assim é a residência eterna de Sri Krishna e Suas consortes. Mas como é isso? Agora nós sabemos que Krishna-Dhama, apesar de estar situado acima de Brahma-Dhama, é a base do Astakaliya-Lila. Portanto, há indubitavelmente uma distinção de tempo e espaço. Que espantoso é isso! Encontramos nos escritos dos Vedas e Puranas que tudo o que existe no mundo mundano também existe em Vaikuntha em uma forma purificada. A verdade principal sobre isso é que este mundo é um reflexo pervertido do Chit-Jagat. Tudo aqui foi corrompido por Maya. Porque não tem nenhum toque de Maya e seus três Gunas aliados, tudo lá é pleno de bem-aventurança, e pleno de Sattva puro. O tempo também é assim. Krishna-Lila é transcendental e livre dos três Gunas de Maya. Por isso, chama-se Nirguna. Para a nutrição de Krishna-Lila, tudo de lá é perfeito, Tempo e Espaço, céu, água etc., tudo é ingrediente de Seu Lila. Assim, nesse Tempo Chinmoy onisciente, (onde não há nenhum poder do tempo mundano) acontece o Astakaliya-Lila. O dia e a noite se dividem em oito partes cada, i.e. fim da noite, manhã, antes do meio-dia, meio-dia, depois do meio-dia , tarde, crepúsculo e noite e todos contribuem para a nutrição do Krishna-Lila integral e indivisível, conforme a aptidão dos diferentes Rasas.

O Lila que surgiu em Bhouma-Vrindavana, pelo Desejo Eterno de Krishna, também existe eternamente e de forma similar na Goloka-Vrindavana Transcendental (Aprakat-Dhama). O Padma Purana descreve que Sri Narada Goswami pediu ao Senhor Sadashiva: "Ó Prabhu! Eu já ouvi de você tudo o que eu queria saber. Agora, quero saber qual é o mais elevado e melhor curso de Bhava (i.e. caminho das emoções e sentimentos eróticos)"? Sri Mahadeva respondeu: "Ó Narada! Servos de Krishna, Seus amigos e companheiros, Seus pais, Suas amantes queridas são todos eternos e possuem as mesmas qualidades de Krishna. Tudo que foi citado nos Puranas também existe no ciclo do Tempo Eterno em Bhouma-Vrindavana. Indo e vindo pelas florestas, indo aos campos de pastagem com Seus amigos e companheiros etc., é tudo do mesmo tipo. Os trabalhos de matança de demônios que vemos no Bhouma-Jagat existem no Aprakat-Dhama como uma mera vaidade, e é para a nutrição de Rasa. Essa vaidade se revela no Prakat-Lila como trabalho de destruição de demônios. Suas meninas queridas dão prazer a Krishna, possuem a vaidade de Parakiya, i.e. amam Krishna como seu 'Amante'. Você que, vai servir Krishna devotado a elas, tem que possuir a vaidade que também as qualifica da mesma forma. Você vai entender isso lendo os Slokas contidos nos Puranas". Sri Narada disse: "Como é então que aqueles que não viram ou sentiram o Aprakat-Lila prestem serviço a Krishna da mesma forma”? Sri Sadashiva respondeu: "A verdade é que não conheço essa verdade. Minha vaidade por masculinidade impede o caminho. Se você for até Vrinda Devi, ela pode lhe dizer. Ela mora perto de Keshi-Tirtha, acompanhada de suas companheiras que são todas atendentes femininas de Sri Krishna". Narada foi até ela e perguntou: "Ó Deusa! Se achar que sou digno, conte-me sobre a conduta de Krishna".

Essa conversa serve como guia para os devotos sobre como e de que forma devem conduzir seu Bhajan diário etc..

Não é adequado dar a descrição do Astakaliya-Lila de Sri Radha-Krishna por escrito pois pode não causar a consideração na mente de todos os leitores. Eles devem ler portanto os Slokas contidos no Padma Purana, Patal-Khanda. Esses Slokas são simples e precisos, e facilmente entendidos. Por esses motivos, a descrição detalhada desses Lilas esotéricos não é dada aqui.

Nem todos estão autorizados a lerem o Lila diário transcendental de Sri Radha-Krishna. Ele é extremamente maravilhoso e misterioso, e deve ser mantido em segredo cuidadosamente. Portanto, aqueles que não estão autorizados, não devem ter permissão para ouvir. Enquanto o Jiva estiver cativo na matéria grosseira, seu coração não está limpo, e ele não tem atração por Raga-Marga, a descrição do Lila amoroso deve ser mantida em segredo para ele. Enquanto a natureza transcendental desse Lila de Nama, Rupa e Guna, i.e. sua característica sensível pura não surge no coração, o Jiva que está nesse ponto não obtém nenhum direito para ouvir esse Lila. Além do mais, aqueles que não estão qualificados, se lerem, vão considerar esse Lila puro como o de Maya, e vão pensar em suas mentes como luxúria grosseira entre machos e fêmeas, e assim vão causar a sua própria destruição. Os leitores devem portanto tomar cuidado, e se puderem transformar sua existência material grosseira espiritualmente pela influência do Sringara-Rasa transcendental como Sri Narada, então vão poder entrar nesse Lila, senão vão surgir discussões de Maya e escurecerão seus corações. Mas aqueles que obtiveram a elegibilidade vão sempre ler esse Lila e se absorver na sua doçura. Ele erradica todos os pecados e produz o sentimento transcendental. Apesar desse Lila parecer como humano, ele é todo poderoso e conduz ao benefício espiritual, maravilhoso e encantador para as pessoas elegíveis. O sumário desse Lila que foi escrito pelos Goswamis deve ser sempre lembrado pelos devotos sinceros, e por isso que foi registrado. Sri Govinda Lilamritam e muitos desses Rasa-Granthas foram compilados com a descrição desse Lila. As pessoas elegíveis obterão a beatitude do Bhajan por lerem esses livros. Com a compreensão plena de Sringara-Rasa etc., que foi discutido no capítulo sete deste livro, os devotos que seguem Raga-Marga meditam na doçura desse Lila esotérico diariamente e pensam em seu próprio serviço como participante desse Lila. Esse é o Bhajan diário deles. Nosso Senhor nos instruiu para decidirmos bem sobre esse Lila e cantar sempre a estrofe final do Rasa Pañchadhyayi, i.e. contém cinco capítulos do Rasa-Lila:

bikriditam braja vadhuviridancha vishno
sraddhanvitonu srinuadatha barnayeth ya
bhaktim param bhagavati pratilabhya kamam
hridrogamashuapahinothy achirena dhirah

A conduta de Sri Krishna é de dois tipos, eterna e ocasional. Em Goloka, a conduta eterna e o Astakaliya-Lila existem o tempo todo. Em Bhouma-Vrindavana o Astakaliya-Lila está misturado com o Lila ocasional. Sair de Vraja e voltar, e matar Asuras são Lila ocasional. Esse trabalho é inevitável para o aspirante enquanto viver no mundo material. O Lila ocasional existe em Goloka de forma negativa. Só neste mundo que é exibido praticamente. Para os aspirantes, os Lilas ocasionais que são adversos ao Lila eterno foram refletidos para a instrução dos devotos, os aspirantes se apóiam nesses Lilas para destruir seus próprios males.

Os Lilas ocasionais são: (1) Matança de Putana [nome de uma demônia, não tem nada a ver com o termo em português]. Putana é o Guru enganador, que ensina prazer e salvação. Assim, os Sadhus astutos que são chegados a isso, representam Putana-Tattva. Para dar misericórdia a Seus devotos puros, o bebê Krishna mata Putana para salvaguardar o sentimento recém-nascido em seus corações.

(2) Sakat-Bhajan (quebra do carro). Representa carga pesada, que surge de velhos e novos maus hábitos, letargia e vaidade. O sentimento do bebê Krishna remove esse mal por quebrar Sakat (carro de mão).

(3) Matança de Trinavarta. Demonstra a presunção pedante, i.e. vangloriar-se por educação, que resulta em má argumentação, raciocínio seco, lógica seca e companhia de pessoas chegadas a esses males, dos quais surgem opiniões diabólicas. O sentimento do bebê Krishna, aflito devido à humildade de Seus devotos, mata Trinavarta e remove o tormento que atrapalha o Bhajan deles.

(4) Yamalarjuna-Bhajan (derrubada das árvores Arjuna gêmeas). O orgulho e a arrogância, que surgem do nascimento e riqueza aristocráticos, produz o ódio em relação aos seres, corrupção e alcoolismo, que por sua vez causa a língua solta, crueldade devido à indelicadeza e sem-vergonhice. Krishna com Sua misericórdia derruba a árvore desse mal.

(5) Matança de Vatsasura. Atividades maléficas feitas por avareza, que se originam da mentalidade infantilizada que é guiada por outros, é um mal que se chama Vatsasura. Krishna, por ser muito misericordioso, destrói isso.

(6) Bakasura-Vadha (matança de Bakasura). Esperteza, astúcia, hipocrisia e comportamento falso representam Bakasura. A devoção pura a Krishna não pode surgir sem destruir isso.

(7) Aghasura-Vadha (matança de Aghasura). Representa a remoção da mentalidade pecaminosa. Violência a outros seres e causar problemas para outros devido ao ódio, malícia etc.. Esta é uma das ofensas contra Nama.

(8) Brahma-Mohan (encantamento de Brahma). Ceticismo que surge do cultivo de Karma e Jñana etc., e redução da doçura do amor à luz da majestade. Esta também é uma ofensa que deve ser evitada.

(9) Dhenuka-Vadha (matança de Dhenuka). Intelecto grosseiro, falta de conhecimento puro e ignorância sobre Tattva devido à idiotice. Contradição do Swarupa-Jñana (auto-conhecimento).

(10) Kaliya-Daman (conquista da serpente Kaliya). Remoção da vaidade, da malícia, fazer mal a outros, perversidade e indelicadeza.

(11) Dabagni-Vinasha (extinção do incêndio ou fogo na selva). Luta contra a opinião de outros, ódio íntimo contra outra comunidade, desrespeito aos deuses adorados por outros, batalha ou qualquer tipo de conflito e choque. Evite tudo isso.

(12) Pralamba-Vadha (matança de Pralamba). Remoção da libertinagem, proveito, adoração e honra pessoais.

(13) Davanal-Pan (devorando Davanal ou o incêndio). Causar perturbações à religião e às pessoas religiosas por meio da propagação do ateísmo. Isso deve ser evitado.

(14) Yagnika-Bipra (sacrifícios das esposas dos Brahmanas). Indiferença a Krishna devido ao orgulho do Varnasharma-Dharma. Deve ser evitado.

(15) Indrapuja-Varana (proibição da adoração a Indra). Representa o abandono da idéia de vários deuses e a remoção do conceito "eu sou Brahman".

(16) Liberação de Nanda de Varuni. Remoção da idéia de que a beatitude do Bhajan vem de beber vinho.

(17) Salvamento de Nanda das presas da serpente. Restauração da verdade devocional, que foi engolida pelos Mayavadis, e o abandono da companhia deles.

(18) Matança de Sankhachud e o corte da jóia de seu coque. Evitar a cobiça por nome e fama, e o desejo mórbido pela companhia do sexo oposto.

(19) Matança de Aristasura. Negligenciar Bhakti por causa do deslumbramento e pompa das religiões enganosas, que a destroem.

(20) Keshi-Vadha (matança de Keshi). Destruição da vaidade de que "eu sou um grande devoto e preceptor", e orgulho por causa de riqueza e conquistas mundanas.

(21) Matança de Vyomasura. Abandono da companhia de devotos enganadores, ladrões etc..

Devemos considerar o item (11) Dabagni-Vinasha e o item (13) Davanal-Pan iguais, assim o número de males é 20.

O capítulo oito do Sri Krishna Samhita cita, do 13º Sloka até o fim, dezoito obstáculos a Vraja-Bhajan. Se acrescentarmos a derrubada de Yamalarjuna e a vaidade dos Brahmanas que executam sacrifícios, somará 20 obstáculos. Todos eles são Tattvas adversos a Vraja-Bhajan. O aspirante devotado a Nama-Bhajan, desde o começo, deve implorar alto ao Todo-poderoso Senhor Hari, e sempre suplicar para que Ele remova esses males. Se fizer assim, seu coração vai se purificar. Se o devoto implorar com o máximo de humildade e súplica a Hari, para expulsar dos domínios do coração a perturbação desses Asuras que Krishna destruiu, Hari em pessoa vai remover todos esses males. Mas ele terá que remover por conta própria os problemas causados pelos Asuras que foram mortos pelo Senhor Baladeva. Assim é o mistério de Vraja-Bhajan. Dhenukasura é o mal da sobrecarga de preconceito e superstição. Pralamba é o mal da libertinagem, proveito, honra e aspiração por fins egoístas. O aspirante vai remover esses males por meio de seu próprio cuidado e esforço, e com a misericórdia de Krishna. Perda do conhecimento sobre o Swarupa do eu, Swarupa de Nama e a relação com o Swarupa da Deidade adorável, ignorância e Avidya constituem Dhenukasura. O aspirante com o maior cuidado e esforço deve remover esse mal, e restaurar o conhecimento sobre seu eu. Lascívia [sensualidade] masculina ou feminina, avareza por riqueza, esforço para obter prosperidade material, incremento da própria honra, fama ou reputação etc. são males muito perniciosos, e com o conhecimento de que são fortes empecilhos a Nama-Bhajan, o aspirante, com o máximo de cuidado e esforço, deve removê-los. Se a humildade se tornar muito profunda e intensa, Krishna vai ser misericordioso. Nesse caso, o sentimento de Baladeva vai surgir na mente, e tudo isso vai ser destruído rapidamente. Então, o cultivo favorável e perfeito de Bhajan vai melhorar gradualmente. Este processo é naturalmente muito secreto e deve ser aprendido de um bom preceptor com mente clara.

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

Parte II

 

 

Capítulo VII

 

1

 

Decisão Preliminar sobre Rasa

 

Agora nós vamos nos concentrar na decisão sobre Rasa. O que é Rasa? A resposta é a seguinte; é bem-aventurança. A característica principal de Rasa é que é algo imperecível. É eterno. Nesse caso, surge alguma dúvida de quando a origem de Rasa está fora da aplicação de Bhava, assim não estava em existência antes da aplicação e quando a aplicação se quebra, ele não existe. Então como pode ser chamado de eterno e como pode ser entendido como indivisível? A resposta é que o Rasa que estamos decidindo aqui não tem começo nem fim. Todos os Sthayi (permanente) Bhavas, Vibhava, Anubhava e Sanchari-Bhava que são ingredientes de Rasa são eternos e suas aplicações também são eternas. Onde há Chit-Vastu, há Rasa eterno. Da mesma forma como Deus que é Chit essencialmente e também o Jiva e Vaikuntha são eternos, assim, Rasa também é eterno. Por isso, os Upanishads dizem: "Esse Ser Supremo é Rasa-Swarupa. O Jiva que O alcança fica pleno de felicidade". Depois da aquisição de Prema, o Rasa que o Jiva obtém se deve eternamente ao princípio de Prema e só aparece no caso de algum Jiva em particular muito afortunado. A descoberta da relação eterna do Jiva com Deus causa o nascimento de "Rasa".

Os retóricos comuns mencionaram algum tipo de "Rasa". O que é esse "Rasa"? É Rasa material. O Jiva em cativeiro aceitou o corpo material e nesse ego, intelecto, coração e mente; todos são Tattvas distintos. Por causa dessa vaidade nós nos consideramos masculino ou feminino e por causa do intelecto nós achamos o que é bom ou ruim. Por causa do coração, sentimos prazer e dor. Com a mente, ficamos conscientes da matéria e meditamos nisso. Assim surge a dúvida de que o Jiva em cativeiro adquiriu esses quatro aspectos recentes ou no Tattva principal existem sementes puras latentes dessas verdades? A resposta é que esses Tattvas não são novos. O Jiva que é Chit essencialmente tem a vaidade de que é um servo de Deus e possuía esses sinais, conforme sua natureza particular. A vaidade se apoiava somente na vaidade pura do Jiva cuja natureza é somente Chit. Ao se apoiar em Chit-Swarupa ele tinha o senso para determinação do certo e errado e também intelecto puro para aproveitar a felicidade. Ele tinha conhecimento de que Deus é o Ser Supremo e O aceitava como Vishaya, assim tinha a mente capaz de meditar. Mas quando entrou em contato com a matéria, isso se transformou em corpo grosseiro e mente materiais dessa forma suas propensões originais se tornaram impuras. Assim, o Rasa que se apóia em Chit-Swarupa era o Bhava puro antes de ser pervertido por seu reflexo impuro, e esse Rasa impuro é considerado Rasa pelos retóricos. Portanto, Rasa é um só, quando permanece no estágio puro eterno, é êxtase e felicidade, mas quando permanece no estágio material, é prazer ou dor que surge da matéria. Por isso, nome, relação, ação, processo e fruto que se notam no Rasa material grosseiro como suposto pelos retóricos também se encontram no estágio puro de Chit-Rasa. Assim a distinção de "tipo" de Jada-Rasa não pode ser aceita mas somente a sua natureza é aceitável. Chit-Rasa é eterno. Rasa material é transitório. Chit-Rasa é saboroso enquanto Jada-Rasa é repugnante. O Vishaya e Ashraya de Chit-Rasa é Deus e o Jiva respectivamente, e de Jada (material) Rasa é a detestável beleza do corpo e mente materiais. O Swarupa de Chit-Rasa é êxtase e de Jada-Rasa é prazer e dor materiais.

Não é necessário aplicar implicação metafórica de palavra para decidir sobre Rasa. Seu significado primário pode realizar esse trabalho. Se não fosse assim, então o Srimad Bhagavatam não poderia descrever todo Krishna-Lila como o Rasa supremo. Aqui neste mundo, no processo abominável de Sringara-Rasa do herói com a heroína, no comportamento entre pai e filho, no tratamento egoísta mútuo entre amigos e parentes, na relação pervertida recíproca de mestre e servo, etc., o Rasa que se nota e que é tratado pelos retóricos, é o vil e impuro reflexo de Rasa, ainda assim é o que mostra ao Jiva em cativeiro todos os sinais, ingredientes necessários, modo de trabalho e processo do Rasa puro. O motivo é que esse Rasa é auto-evidente. Portanto, o que mais pode mostrar esses sinais? Como Rasa é a forma da bem-aventurança suprema, pode mostrar todas as suas características, qualidade e sinal, mesmo pervertido. Assim não há dificuldade em descrever Rasa pelo seu próprio significado primário. Ao ouvir esses sinais, aqueles que desejam despertar o puro Rasa devem ter muito cuidado para que todos os maus elementos de Jada-Rasa não possam entrar no Rasa que desejam obter. Pessoas que pertencem a algumas seitas de religiões depravadas se apóiam no Rasa material, como um pretexto para animar Chit-Rasa. Isso só serve para ajudar as pessoas a se desviarem. Desse jeito, a queda das pessoas é inevitável. No corpo espiritual, obtido com Sadhana, Rasa pode ser animado. Não há nenhuma outra forma possível para estabelecer Rasa no corpo material. Algumas seitas tentam despertar Sringara-Rasa pelo contato com mulheres. Mas é somente a desgraça deles. Eles fazem o que é proibido. E assim causam a sua queda total. Por isso, o aspirante deve ter sempre muito cuidado. Ele não deve ouvir o conselho nocivo dos ditos pregadores religiosos que são chegados à satisfação sensual. Aqueles que adquiriram Prema não adulterado pela abstenção do prazer material são elegíveis para o cultivo de Rasa. Se aqueles que não adquiriram o Rati puro e a abstinência dos objetos mundanos tentarem esse cultivo, vai resultar em grande erro e eles continuarão somente ocupados em práticas danosas. O sentimento natural de uma pessoa que adquiriu Prema é Rasa. A decisão sobre Rasa é somente a descrição de como os vários sentimentos surgiram. Rasa não faz parte de Sadhana. Por isso, se alguém disser: "Venha, que vou lhe ensinar Rasa", isso é só a perversidade ou insensatez dessa pessoa.

Nota-se distintamente em Rasa os cinco Bhavas seguintes: (1) Sthayi-Bhava, (2) Vibhava, (3) Anubhava, (4) Sattvic-Bhava, (5) Sanchari ou Vyabhichari-Bhava.

Sthayi-Bhava é a raiz de Rasa. Vibhava é a causa de Rasa. Anubhava é o efeito de Rasa. Sattvic-Bhava é a expressão externa. Sanchari ou Vyabhichari-Bhava ajuda Rasa. Vibhava, Anubhava, Sattvic e Vyabhichari Bhavas tornam Sthayi (permanente) Bhava saboroso por convertê-lo em Rasa. Todos serão ilustrados totalmente no devido tempo. Mas enquanto o aspirante não saborear Rasa, isso não vai ser compreensível para ele. Rasa não é questão de conhecimento, mas de gosto. Curiosidade e coleta, ambas são as duas matérias preliminares do conhecimento. A menos que sejam completadas, o gosto que é o ápice do conhecimento não é possível. O que chamamos de conhecimento preliminar ou é curiosidade ou coleção mas não é gosto.

Primeiro vamos decidir sobre Sthayi-Bhava. Com todos os outros Bhavas mantidos sob seu controle, o Bhava que comanda todos eles se chama Sthayi-Bhava. O Rati que se encontra em uma pessoa que alcançou o estágio de Bhava é a afeição sincera por Krishna e quando até certo ponto se torna profunda, pode ser Sthayi-Bhava, adequado a Rasa. Apesar do Rati por transcender seu próprio limite, i.e. sua singularidade não misturada pôs o pé no compartimento de Prema, ainda assim será denominado como Rati, em qualquer circunstância. Em algum estágio, Prema incorpora o clímax de Rasa e se revela. Nesse caso, deve-se compreender que Rati avançou. As pessoas em que Rati cresceu, seja Sadhaka ou Siddha, são elegíveis para saborear Rasa. O significado de usar o termo "Sadhaka" é o seguinte: Em algumas pessoas acontece o crescimento de Rati mas o obstáculo não foi superado. Assim, ela é denominada Sadhaka ou está no estágio ascendente de Prema. Quando ela obtém constância, gosto e apego profundo, seu obstáculo vai se removendo gradualmente. Mesmo se o apego à matéria for embora, mesmo assim, enquanto ela viver, seu contato com a matéria permanece. Pela misericórdia de Krishna isso também vai embora rápido. Contato com a matéria, i.e. corpo, chama-se obstáculo. Enquanto houver esse obstáculo ou mal, o Jiva não pode obter a satisfação de Vastu. Mas se o seu Rati ascendeu ao estágio de Prema, ele se torna então elegível para saborear Rasa e daí acontece Swarupa-Siddhi.

Esse Rati obtido com o nome de Sthayi-Bhava se torna saboroso por meio dos outro quatro Bhavas, Vibhava, Anubhava, Sattvic e Vyabhichari, e logo quando vai se tornar saboroso, aceita cinco tipos distintos de natureza que são as características de Vibhava. Os cinco tipos de natureza são os seguintes:

(1) Shanta Swabhava, (2) Dasya Swabhava, (3) Sakhya Swabhava, (4) Vatsalya Swabhava e (5) Madhura Swabhava.

Esse cinco tipos de natureza permanecem originalmente em Vibhava. Vishaya e Ashraya (onde Rati age) estão inclusos em Alambana. Os cinco tipos de natureza citados se referem a Vishaya e Ashraya. Rati para saborear seu próprio Rasa admite a natureza de Vishaya e Ashraya. Pelo poder específico de Deus, que possui potência infinita inescrutável, esses cinco tipos de natureza que seguem Vishaya e Ashraya criam a variedade de Rasa. Ao aceitar esses cinco tipos de natureza, Rati se torna quíntuplo:

(1) Shanta Rati, (2) Dasya ou Prita Rati, (3) Sakhya ou Preyo Rati, (4) Vatsalya ou Rati compassivo e (5) Kanta ou Madhura Rati.

Conforme a natureza de Vibhava, Rati se torna quíntuplo. Vibhava é o ingrediente predominante ou principal no cenário de Rasa. Por esse motivo, esses cinco tipos de Rati são chamados de Rati principal. Os Sanchari-Bhavas etc. que são bons para Rasa são considerados ingredientes secundários. Quando os outros sete estados relacionados a Sanchari-Bhava entram na natureza de Rati e o dividem, aí o Rati secundário se torna sétuplo:

(1) HasyaHasa Rati (riso), (2) AdbhutVishmoy Rati (admiração), (3) ViraUtsaha Rati (energia ou bravura), (4) KarunaShoka Rati (tristeza), (5) RudraKrodha Rati (ira), (6) Bhaya-NakaBhaya Rati (temor) e (7) BibhatsaJugupsa Rati (desgosto).

A realidade é que a natureza principal de Rati é quíntupla somente. Para ajudar a variedade do desempenho do Rati principal, os sete Ratis mencionados acima funcionam como secundários. Onde Bhakti principal atua, às vezes um ou às vezes mais Rasas secundários também agem. Apesar do Rasa secundário não ter permanência, deve-se admitir que eles possuem sinais distintos de Rasa. Assim, nota-se em cada um desses Rasas secundários como Hasya (riso) etc. sinal do sabor combinado de Sthayi-Bhava, Vibhava, Anubhava e Sanchari-Bhava. Os retóricos que são versados na verdade material descreveram principalmente cada um desses Rasas, mas eles permanecem como secundários na faculdade do coração. Nas divisões sul e norte do Grantha Sri Bhakti-rasamrita-sindhu, discute-se suficientemente a permanência e operação deles. No Krishna-Rasa devocional, os sete tipos de Rasa secundário também são saboreáveis, pois nutrem o Rasa principal de Krishna-Lila. Em Vyabhichari de Sanchari-Bhava em Krishna-Bhakti Rasa, os sete Rasas, como Hasya etc., estão inclusos. No tempo certo, eles surgem e como ondas incrementam a beleza do oceano de Rasa e realizam a nutrição. Alguns que não conseguem penetrar no Rasa-Tattva transcendental podem questionar que esses Hasa (riso), Vishmaya (admiração) e Utsaha (coragem ou energia) podem estar inclusos no puro Rasa, mas como tristeza, ira, medo e desgosto podem entrar no Rasa que é nectáreo, extático, impávido e sem sofrimento? Assim, eles estão tomando Rasa como material. A resposta é que na variedade de Rasa-Tattva, que é a bem-aventurança suprema, cada um de seus ingredientes é felicidade e não tristeza material. De onde surge tristeza, ira e desgosto que são condenados no mundo material? O mundo material não tem existência separada. Ele é apenas o reflexo corrompido de Chit-Jagat. No Ideal, tudo o que existe é puro e conduz ao bem. Tudo aqui foi refletido como mal. Assim o reflexo das virtudes que fazem o bem eterno lá, são tomadas aqui como virtude, mas aquelas que da forma negativa estão fazendo bem lá mas estão sendo refletidas aqui produzem mal portanto são consideradas como pecado. Por exemplo, terror e tristeza em relação a Krishna estão fazendo lá um bem indescritível e nutrindo Rasa, a característica do que é Ananda puro. Esses termos refletidos aqui significam o mal futuro para os Jivas. Deve-se saber que, no reino transcendental, todas as virtudes encontram seu clímax máximo no Supremo Senhor Krishna. Mas aqui esses sentimentos que foram refletidos só causam o prazer dos sentidos apenas. Aqui o mundo produz mal e é transitório. Portanto, os Tattvas refletidos daqueles que nutrem felicidade e alegria no modo negativo lá, produzem tristeza direta no mundo. Aqueles que ainda não despertaram no coração a forma essencial da bem-aventurança transcendental não podem compreender facilmente seu significado. Não queremos discutir mais sobre Rasa secundário, assim deixamos a matéria aqui. Agora vamos discutir sobre Rasa principal.

Depois de aproveitar por um longo tempo o prazer material, quando o Jiva alcança o retiro e descansa, dizendo "Ó! Agora eu me salvei de perigo tão grande"! Daí, esse estado de coração estabelecido se chama Shanta-Rati. Quando a sinceridade é adicionada nesse Rati, aí se torna Dasya ou Prita-Rati. Nesse Rati, o Jiva considera Deus como o Mestre e estabelece a relação com Ele como Seu servo eterno. Dasya-Rati é de dois tipos, um surge da honra e respeito a Deus e o outro, por Sua glória infinita. Na servidão com respeito, o Jiva considera que recebeu graça e favor Dele, e por causa da glória ele considera que está sendo cuidado por Ele. Os servos seguem Dasya por respeito e os filhos seguem pela glória. Em Dasya-Rasa, Sthayi-Bhava é Prema, i.e. Rati nutrido com afeição se torna Prema. Há alguns sinais de Sneha (afeição) e Raga (consideração e apego) nele.

Em Sakhya ou Preyo Bhakti-Rasa, Sthayi-Bhava (sentimento permanente) é amizade ou Pranaya. Nele, Rati e Prema também estão inclusos. O respeito e a glória que existem em Dasya amadurecem e criam a convicção firme chamada Vishrambha em Sakhya. Ele inculca Rati, Prema, Pranaya, afeição forte e sinal rudimentar de Raga.

Em Vatsalya-Rasa, esse Vishrambha fica maduro e vira compaixão. Nele, há sinais de Rati, Prema, Pranaya, e Sneha poderoso, e Raga também.

Em Sringara ou Madhura Bhakti-Rasa, o encanto é o fator predominante e faz a transformação devida de Sambhram, Gourava, Vishrambha e Anukampa (compaixão) por inculcar em sua própria identidade. Seu Sthayi-Bhava é o encanto que nutre Rati, Prema, Pranaya, e Sneha e Raga também, i.e. afeto extremo. Bhava e Mahabhava surgem dele.

Qualquer desejo que o Jiva cogita durante sua prática devocional, transforma o Rati de acordo. Segundo o auto-interesse ou desinteresse, Rati se torna ordinário, claro, tranqüilo puro, misturado etc., mas essas divisões não vão ser mostradas elaboradamente neste livro. Não é a intenção deste livro ensinar tudo sobre essa matéria. Só daremos a descrição geral para mostrar qual é a natureza essencial de Rasa.

Vibhava tem dois tipos: Alambana e Uddipana. Alambana também tem dois tipos: Ashraya e Vishaya. Aquele onde o apego está centrado é o refúgio (Ashraya) do apego. Aquele para onde o apego é direcionado é o Objeto (Vishaya) do apego ou Rati. O Jiva é o Ashraya (abrigo) de Rati. Krishna é o Vishaya, i.e. Objeto do apego. Por esse motivo, o Rati que está sob discussão aqui pode ser chamado de Krishna-Rati, i.e. apego a Krishna.

Quando Rati fica saturado de Rasa, esse Rasa se chama Krishna-Bhakti-Rasa. A qualidade de Krishna, Sua idade adolescência, Sua graça, beleza, forma, proeza, roupas, ornamentos, sorriso, fragrância, flauta, búzio, locais de Suas pegadas, árvore, devotos etc., todos são Uddipana, i.e. fatores estimulantes de emoção.

Quando percebemos a manifestação de Rasa por certos atos de emoção, esses atos se chamam Anubhava. São as expressões externas da emoção mental. São treze em número: (1) Dançar, (2) rolar no chão, (3) cantar, (4) gritar alto, (5) torção e estiramento dos membros, (6) berro, (7) bocejo, (8) suspiro, (9) indiferença à etiqueta formal, (10) secreção de saliva, (11) risada alta, (12) mover-se em círculos [redemoinho] e (13) soluço.

Não é que esses sinais de Anubhava aparecem ao mesmo tempo, um ou mais vão aparecer, o sinal correspondente, do jeito que Rasa funciona na mente.

Sattvic-Bhava, i.e. emoção pura, tem oito tipos. Todos os tipos de Bhavas se dividem em três categorias diferentes: Singdha (suave), Digdha (ardente) e Ruksha (em brasa). Obstinação, transpiração, horripilação, rouquidão, tremor, palidez, lágrimas e desmaio (cair sem sentidos no chão) são oito marcas características de Sattvic, i.e. perturbações espirituais. Algumas pessoas as incluem em Anubhava. O motivo para fazer divisões é que as perturbações mencionadas acima são expressões corpóreas e cada uma delas surge pelo exercício de algum membro do corpo. As perturbações Sattvic compreendem o Sattva inteiro e se expressam externamente. Expressões externas são Anubhava e expressões internas são Bhava. Essas duas divisões são encontradas nas perturbações Sattvic por isso satisfazem aos atos tanto de Anubhava como de Bhava. Esses oito Sattvic-Bhavas, em alguns casos, se expressam como fumegante, ardente, flamejante e chamejante. Apesar de serem notados em algumas pessoas, não precisam ser necessariamente considerados sempre como Sattvic-Bhava puro. Em alguns casos, eles aparecem como o detestável Ratyabhasa, i.e. aparência de Rati (amor), ou Sattvabhasa, i.e. emoção de liberdade e negligência, ou Nissattva, i.e. emoção exibida somente por obtenção de objetos mundanos, ou Pratipa, i.e. emoção que surge de atitude hostil. Lágrimas e horripilação que se encontram naqueles que adoram a Deus por salvação surgem de Ratyabhasa. Aqueles que têm mente preguiçosa são cheios de alegria e admiração sem nenhum motivo. Isso se deve aos Sattvabhasas, aparência da emoção pura, mas não por sentimentos devocionais.

A perturbação daqueles que têm mentalidade enganosa por natureza ou daqueles que praticam exibições hipócritas de derramar lágrimas e horripilação etc. é Nissattva, i.e. para obtenção de algum ganho externo. Quando surge ira, medo e algumas emoções imaginárias devido a ações hostis feitas contra Deus Krishna, chama-se Pratipa. A atitude de Kamsa em relação a Krishna é um exemplo desse tipo de emoção. São triviais e inúteis.

Sanchari ou Vyabhichari Bhavas são trinta e três em número. Eles são indiferença, tristeza, humildade, remorso, labor, vaidade, orgulho, apreensão, temor, ansiedade, loucura, epilepsia, enfermidade, fascinação, morte, preguiça, estupidez, timidez, encobrimento do sentimento, lembrança, debate, reflexão, temperamento, paciência, deleite, curiosidade, melancolia, malícia, inconstância, sonolência, consciência, violência e sono profundo.

Esses Bhavas, às vezes singularmente e outras juntos com outros Bhavas, tornam-se úteis para Sthayi-Bhava, i.e. emoção permanente de Rati, e útil para a obtenção de Rasa. Eles nutrem o Rati principal como secundários pelas expressões externas.

Jiva e Deus ambos saboreiam Rasa. Quando o Jiva saboreia, Deus é saboreado. Quando Deus saboreia, o Jiva (devoto) é saboreado. Ambos são recíprocos. Na verdade, Rasa é o único objeto a ser saboreado. O processo de Rasa é somente para ser saboreado e só a Sensibilidade pode saboreá-lo. Rasa é eterno, indivisível, inconcebível e pleno de bem-aventurança suprema. A partir do Rati puro, ele pode se elevar até o limite mais alto de Mahabhava. Mas quando o Rati puro cai neste mundo mundano, mistura-se com a matéria e fica pervertido. Aí então ele cria a paixão material. As pessoas que têm intelecto puro podem perceber isso. A verdade de Rasa não pode ser percebida pela mera razão. Muito além de compreender Rasa transcendental com a razão, mesmo o Rasa material grosseiro não pode ser entendido.

A verdade de Rasa se exibe por conta própria pela aplicação apropriada dos quatro Bhavas como Vibhava, Anubhava, Sattvic e Vyabhichari Bhavas. Aqueles que são capazes de saborear Rasa podem entender a importância do Rasa transcendental. Aqueles que estão absortos em Jada do Rasa impuro não são elegíveis para a apreciação do Rasa supremo.

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

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Deliberação sobre Rasa como o Espírito de Adoração

 

Aqueles que adoram Deus devem discernir qual trabalho é Upasana. É um trabalho material ou trabalho de pensamento, ou constitui algum outro processo de trabalho? Apesar do trabalho de Upasana ter relação com a matéria, é ainda muito superior ao cultivo da matéria grosseira. Mas como isso é possível? Porque o pensamento não pode transcender a matéria, se Upasana for considerado apenas como um processo de pensamento, então será uma imaginação, nascida da matéria. Se não é um processo de matéria nem de pensamento, então o que é? Na vida humana comum, nada se percebe exceto matéria e pensamento. Então teremos de nos tornar ateus ou aceitar a teoria da indeterminação? O estado oposto direto de matéria e pensamento se chama estado de indeterminação. Ao aceitar assim a teoria do seco Brahman indeterminado, teremos que seguir outro sinal concomitante de ateísmo? Nesse caso, não há escopo para Upasana. Aquilo que todos os Jivas aspiram, avidamente se torna irreal no fim como um castelo no ar. Que grande decepção, com certeza!

Por isso é preciso inquirir dentro da característica da consciência interior, i.e. a natureza Chit do Jiva, penetrando nos três Tattvas acima aparentemente notados nos Jivas, como matéria, pensamento da matéria e alguma coisa indistinguível que não é matéria. O significado da minha afirmação "inquira por penetrar" é este, esses três tipos aparentes de pensamentos prenderam você por cobrirem seu próprio Swarupa. Se você não penetrar, como vai poder se livrar das garras deles? É como se houvesse três coberturas em seus olhos e ao penetrar essas coberturas; você vê lá fora. Da mesma forma, três coberturas; matéria, pensamento da matéria e o pensamento de alguma coisa indistinguível; cobriram sua visão interior. Essas três coberturas são o seu mal; ao removê-las, vai abrir seu olho natural. Se você puder descobrir seu olho espiritual, i.e. onisciente, não haverá Upasana da matéria, pensamento da matéria e alguma coisa indistinguível contrária à matéria. A verdadeira consciência Upasana será percebida então. Esse tipo de Upasana transcendental é Rasa. Aqueles que adoram cultivam somente Rasa. De fato, aqueles que são elegíveis para Rasa são muito raros. Por isso, Rasa deve ser mantido em segredo.

Há dois tipos de adoradores a saber, adoradores que são versados na verdade de Rasa e aqueles que são desprovidos desse conhecimento. Mesmo se cultivarem Rasa e qualquer que seja o Rasa que cultivem praticamente até certo ponto, eles denominam sua própria meditação, concepção, concentração, meditação profunda, prece, adoração etc. como Rasa devido à falta desse conhecimento sobre a verdade. Quando o adorador fica absorto na adoração e prece, nesse momento, um sentimento que surge em sua alma íntima emociona sua mente como eletricidade e produz horripilação etc. no corpo. Então ele pensa que se esse sentimento se tornar permanente, aí será o fim da tristeza. Então o que é esse sentimento? É produto da matéria, ou pensamento em algo mais que não é matéria? Se você investigar no mundo inteiro, não vai encontrar isso em nenhum lugar na matéria. Esse estado não pode ser encontrado nem mesmo na eletricidade ou no magnetismo que existe minuciosamente na matéria. Se você analisar o pensamento, não vai encontrar isso lá. Pensamento em algo indiscriminado é sem sentido. Então, de onde veio isso? Se cogitar sobre isso, vai poder entender que esse sentimento brotou do Chit-Swarupa íntimo do Jiva que foi coberto por Jada ou matéria. Durante o tempo de Upasana, vai perceber isso sem dúvida mas não vai poder julgar minuciosamente. Portanto, vamos decidir agora sobre isso.

Esse sentimento inconcebível é uma faculdade especial. Faculdade não pode existir sem Ashraya ou Abrigo. A alma pura do Jiva que foi coberta pelo corpo e mente materiais é o abrigo (Ashraya) dessa faculdade. Quando entramos na discussão sobre a pequenez e subordinação do Jiva em relação a um Tattva superior, essa faculdade se manifesta, do mesmo modo como uma centelha se acende ao riscar de fósforos ou da pedra de isqueiro. A pessoa em quem ela se direciona é seu único Vishaya ou objeto. Ao se aproximar desse Vishaya, durante o tempo de Upasana, essa faculdade que surge de Ashraya risca para Vishaya, i.e. objeto de seu apego. Essa faculdade é o estado permanente. O adorador e o adorado são ambos Alambana e sua qualidade notável é seu Uddipana, ou fator estimulante da emoção. Essa divisão se nota em ambos. Quando a faculdade se junta a Ashraya e Vishaya, instantaneamente nesse momento observa-se algumas marcas características de Anubhava no Ashraya. Entre os trinta e três tipos de Vyabhichari-Bhava citados acima, serão visíveis um ou mais sinais, e serão úteis para a operação da faculdade. Horripilação, lágrimas ou algumas perturbações Sattvic devem aparecer. Agora pense e decida o que é Upasana. Eu mostrei partes de Upasana separadamente. Agora você deve entender que a matéria que estou tratando é Upasana. Upasana é o ato de saborear Rasa por meio de Sthayi-Bhava que cria Rasa, em colaboração com as emoções quádruplas, Vibhava, Anubhava, Sattvic-Bhava e Vyabhichari-Bhava, i.e. emoções auxiliares. Assim, Upasana é nada mais que cultivo de Rasa. O trabalho material ou o pensamento do indistinto nunca devem ser chamados de Upasana. Essas ações são secas e desprovidas de Rasa. Finalmente, devo mencionar que todas as seitas de adoradores religiosos praticamente só adotam Rasa em seu Upasana. Mas, devido à falta de conhecimento sobre a ciência de Rasa, eles não podem explicar suas ações cientificamente. Esse mal é devido às suas más companhias anteriores e más práticas anteriores.

Upasana, relacionado ao sentimento de Rasa, cai em três categorias:

(1) Fechado; (2) Levemente aberto; (3) Aberto ou desabrochado.

Aqueles cuja adoração é fechada percebem Rasa de forma bem limitada. Logo que fazem o trabalho de adoração, Rasa some. O motivo é que eles são chegados ao prazer do Rasa material. A vida não pode existir sem Rasa. O Chit-Rasa atua em suas vidas temporariamente do mesmo jeito como um clarão de relâmpago. No devido curso, ao obter o Guru verdadeiro e ao valer-se de boa companhia, suas condições podem melhorar e desabrochar gradualmente. Por causa da falta de boa companhia e pela obtenção de instruções sobre ateísmo e Brahman indistinto, esse Upasana fechado fica gradualmente limitado até que no fim, fica extinto. O que é um grande infortúnio para o Jiva. No estado levemente aberto ou estado desabrochado, Upasana se espalha por várias partes do corpo. Sempre que ouvirem palavras sobre o Rasa transcendental, suas mentes se atraem a esse lugar, e assim obtêm prazer. Enquanto os que são ateístas e seguidores do Brahman indistinto, tornam-se indiferentes.

No estado desabrochado de Upasana, Rasa pode ser percebido na perspectiva real. Com o conhecimento plenamente perfeito de Rasa, eles continuam o trabalho de Upasana sem restrição. No estado desabrochado, Rasa se percebe em cinco formas a saber, Shanta, Dasya, Sakhya, Vatsalya e Madhura. Há muito poucas pessoas que são elegíveis para Sakhya, Vatsalya e Madhura Rasas. Só por imensa boa ventura, o Jiva obtém o gosto por esses tipos de Rasa.

 

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 Discussão sobre Shanta Rasa

 

O Ser adorado não é indistinto mas Pessoal. Esse tipo de convicção firme sobre a verdade de Deus se chama "Sama". Quando Sama, i.e. estado mental estável, se estabelece no coração de um adorador e quando ele obtém apego a isso, seu Rati se chama Shanta-Rati. O Shanta-Jiva, i.e. auto-digno, é como o raio de Shanta-Rati. O Shanta-Jiva não mantém que a verdade de Deus seja material. A prática para a obtenção de prazer transcendental é o sinal de sua adoração. Após descartar a avidez para obter prazer material, ele se estabelece no êxtase do seu próprio ser. Assim, Krishna aparece para ele como Paramatma ou algum tipo de Brahman pessoal que se torna o Vishaya do seu Rati. Apesar do Brahman absoluto indeterminado não ter nenhum Rati. O Brahman, para todas as intenções e propósitos, é pessoal para ele, que adquiriu Rati. Mas sua mente permanece em um estado indefinido, mesmo que esse Brahman seja eternamente pessoal. Assim, algumas vezes surge em sua mente que esse Brahman tem quatro mãos, às vezes Krishna possui toda a majestade, e às vezes o Brahman consiste de Paramatma-Swarupa etc.. Sábios como Sanaka, Sanatana, Sanandana e Sanata Kumara [os quatro Kumaras] etc. são os ideais dessa devoção. O devoto Shanta não pode decidir qual é a característica eterna de Deus, por isso ele não tem afeição por Krishna. A afeição é um sentimento especial que surge do Swarupa natural de Deus. Portanto, o Rati do Shanta-Bhakta permanece no estado sem mistura mas não tem relacionamento com Deus. Deus com as qualidades a saber, personificação de Sat, Chit e Ananda, jóia suprema dos Atmaramas (auto-satisfeitos), Paramatma (alma de todas almas), sempre assumindo novas e novas formas, doador do benefício final, que é misericordioso e onipresente etc., é o Vishaya ou Alambana de Shanta-Rati. O Jiva que é o Ashraya desse Rati ou é Atmarama (Jiva auto-realizado) ou sábio.

O Rati que é capaz de ver algum tipo de Ser com o nome Mukunda, que é inteiramente Chit, auto-revelado além de todos os sentidos e desprovido de todas as qualidades, é o Sthayi-Bhava desse Rati. Ouvir os Upanishads principais, viver em local solitário, brilho da faculdade especial interior, decisão sobre a verdade espiritual, influência do saber, ver Visvarupa de Deus, ler e decidir a verdade do Vedanta, Upanishad, Brahma-Sutra etc. com devotos que são versados nessas verdades são considerados como Uddipana de Shanta-Rati. Mirar a ponta do nariz, esforçar-se como mendigo, olhar quatro cúbitos à frente enquanto anda, mostrar sinal de conhecimento tocando o dedo indicador com o polegar, ausência de ódio contra aqueles que são aversos a Deus, mostrar respeito ordinário aos devotos, grande avidez para obter sucesso na destruição do apego mundano, alta estima pela liberação em vida, ser indiferente em relação ao corpo sutil e grosseiro, neutralidade, ausência de orgulho, ser silencioso etc. são Anubhava de Shanta-Rati. Todos os Sattvic-Bhavas como horripilação etc., exceto desmaio, surgem no caso dos Shanta-Bhaktas. Mas como não têm vaidade pelo corpo, todos esses permanecem em um estado fumegante ou nebuloso. Algumas vezes soltam chamas, mas nunca inflamam. Nota-se às vezes em Shanta-Rasa, Vyabhichari ou Sanchari Bhavas como indiferença, paciência, júbilo, apreensão, lembrança, curiosidade, fascinação, debate etc.. Nesses casos, Shanta-Rasa é reconhecido na categoria de Rasa. Mas na descrição de Chit-Rasa em Vraja-Lila não se nota Shanta-Rasa, pois esse Rasa não pertence a nenhum Swarupa especialmente definido. Por esse motivo, Shanta-Rasa é desprovido de afeto. Devido à imensa boa sorte, o Jiva pode adquirir tal afeto pelo Swarupa Divino. Quando esse afeto cresce, o puro Rati se nutre e aparece como Prema. Aí há a manifestação de Priti-Bhakti-Rasa.

 

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Julgamento de Priti-Bhakti-Rasa

 

Muitas pessoas chamam Priti-Bhakti-Rasa, devoção combinada com prazer e alegria, de Dasya-Rasa. Mas Priti-Bhakti-Rasa tem dois tipos: Priti-Rasa reverencial e outro misturado com glória e dignidade.  Priti-Rasa que se origina da honra é denominado Dasya-Rasa, mas o outro que se origina da glória, chama-se Gourava-Priti-Bhakti-Rasa e não Dasya-Rasa. Isso se restringe aos superiores de Krishna, que Krishna considera como Seus pais etc., e que são objetos de Sua glória e dignidade, e que O servem com graça e afeição filial. Pessoas comuns não devem cultivar Upasana sobre o princípio de Rasa sem honra ou reverência. Só por imensa boa sorte, alguém pode adquirir Krishna-Rati desprovido de honra e dignidade, mas completamente saturado de amor e confiança, pleno de compaixão e afeição que se pode ver em muitos Shastras, relacionados à verdade de Rati. Especialmente, aqueles que atingiram esse estágio não esperam por Shastras. Suas naturezas e condutas são Shastras divinos. Apesar da pessoa que despertou Rati não esperar nem mesmo os Shastras, para regular as pessoas comuns, o Rasa-Tattva aqui explicado vai até o limite de Rati que surge por honra e reverência. Por isso, não é a intenção deste livro ir mais além do que isso, nós não vamos descrever aqui nada mais além de Dasya-Rasa (sentimento devocional de servo).

Em Priti-Bhakti-Rasa, i.e. devoção misturada com prazer, tem-se de aceitar a Personalidade de Deus definida. Essa Personalidade de Deus tem dois tipos, uma é cheia de Majestade e poder, e a outra, cheia de doçura e encanto. A esse respeito, pode-se dizer que somente em Krishna-Swarupa, o Swarupa do Supremo, graciosidade e encanto podem ser encontrados, na decisão científica. Claro que toda a riqueza e poder estão latentes em Krishna-Swarupa. Mas divindade e majestade estão quase ocultos pelo poder espantoso da doçura. Quando surge a necessidade, a divindade trabalha incógnita às vezes, para servir ao Swarupa da doçura, i.e. para agravar Madhurya (doçura e beleza). Se você estiver curioso para saber sobre esse Tattva especificamente, deve ler o Satsandharbha de Sri Jiva Goswami e o Sri Krishna Samhita de nossa compilação. Tal doçura não é vista em nenhuma parte, como experimentada por Vrajanatha (Senhor Krishna). Portanto, a servidão pura, i.e. servidão em relação a Vraja, é a matéria da nossa discussão.

Quando o sentimento de servidão a Krishna, que é a Personificação da doçura e bem-aventurança por excelência, surge, o Jiva possui a vaidade de que é o favorito de Krishna. Nesse Rati de prazer reverencial, o sinal da vaidade de ser servo de Krishna se nota e é considerado como orgulho nobre.

A descrição desse tipo de Dasya-Rasa é como se segue:

1) Vishaya Alambana: Krishna como o Vishaya é dotado das seguintes qualidades:

Ele tem em cada poro de Seu Corpo milhões e milhões de mundos, Ele é um Oceano de Misericórdia, Sua proeza infinita está além da concepção humana. Todos os tipos de satisfação ou sucesso servem a Seus pés. Ele é a origem de todos os tipos de Avataras, i.e. Encarnações que descendem à Terra. Ele é o único Atrativo de todos os Atmaramas (Munis auto-satisfeitos). Ele é o Senhor de todos os senhores, Ele é o único objeto de adoração de todos os seres e deuses, Ele é Onisciente, Resoluto, sempre Clemente, Protetor de todos que se refugiam Nele. Ele é liberal, veraz, bondoso e especialista em todos os trabalhos, Ele é Todo-poderoso, sagrado e justo. Ele é o Amigo dos devotos, Benevolente, espirituoso, e pleno de todo poder e esplendor. Ele é grato e conquistado pelo amor. Estas são algumas características de Krishna-Swarupa que é o Vishaya Alambana desse tipo de Rasa, i.e. Dasya-Rasa.

2) Ashraya Alambana: Receptáculos de Dasya-Rati. Eles têm quatro tipos como, seguidor Adhikrita (privilegiado), Ashrita (protegido), Parishada (companheiro reconhecido) e Anuga (obediente). Eles são os receptáculos desse Rati.

i) Deuses e deusas como Brahma, Shiva, Indra etc. estão na categoria de servos e criados Adhikrita. Eles são privilegiados para a condução dos diversos afazeres da criação etc., e assim servem ao Senhor Krishna por obedecerem Sua vontade.

ii) Os servos Ashrita possuem três grupos: Sharanya (rendido), Jñanichar (iluminado ou sábio) e Seva-Nistha (sempre devotado ao serviço). Kaliya, os reis aprisionados por Jarasandha etc. estão inclusos nessa categoria de serventes rendidos. Santos como Shaunaka etc., que renunciaram a seu desejo de liberação e se renderam a Sri Hari, caem na categoria de serventes sábios. Chandradhwaja, Harihara, Bahulashwa, Iksvaku, Pundarik etc., que se inclinaram à adoração de Sri Hari desde o começo de suas vidas, são considerados serventes rendidos em serviço de todo o coração.

iii) Uddhava, Daruka, Nanda, Upananda e Bhadraka são seguidores Parishada. Há horas que eles se ocupam em servi-Lo.

iv) Os servos Anuga se dividem em duas classes: Os que vivem em Dwaraka e os que vivem em Vrajapura. Eles se ocupam constantemente no serviço ao Senhor com devoção concentrada. Suchandra, Mandana, Stambha e Sutanava que pertencem a Dwaraka são serventes "Pura". Raktaka, Patraka, Patri, Madhukantha, Madhuvrata, Rasal, Suvilas, Premakanda, Maranda, Ananda, Chandrahasa, Payoda, Bakul, Rasada, Saroda etc. pertencem a Vraja e são serventes "Vraja".

Todos servos são "Prashrita", i.e. sempre presentes perante o Senhor com seus olhos abaixados, sempre obedientes, fervorosos e polidos perante o mestre. Entre os servos de Vraja, Raktaka é superior. Conforme a natureza de cada um, alguns são esmerados, alguns são pacientes e alguns são heróicos. Entre as quatro classes citadas acima, alguns atingiram o fim supremo a partir da eternidade e alguns, do começo de suas vidas, e alguns estão aspirando.

3) Uddipana (estímulo) de Dasya-Rasa.

Som da flauta de Krishna, som do berrante, Seu semblante sorridente, ouvir sobre Suas qualidades mais excelentes, ver a lótus em Suas pegadas, nova nuvem de chuva, fragrância do Seu corpo, esses são fatores ordinários de estímulo. A graça de Krishna, Tulasi em Seus pés, alimento cozinhado oferecido a Ele e Charanamrita (água que enxaguou Seus Pés) são fatores especiais de excitação para os devotos de Krishna.

Esta é a descrição do Vibhava de Dasya-Rasa. A respeito do Anubhava (emoção) desse Rasa, menciona-se aqui que são descritos trinta e três tipos de Anubhava em Rasa geralmente. Mas no caso de devotos serventes, nota-se os seguintes adicionais:

(1) Obedecer as ordens em todos aspectos, (2) ausência de malícia no serviço a Deus, (3) amizade com todos os seguidores obedientes de Krishna e (4) devoção inabalável a Krishna. Também admite-se oito tipos de perturbações físicas em Dasya-Rasa chamadas Sattvic-Vikara, i.e. sintomas espirituais como obstinação etc..

Alguns Bhavas auxiliares funcionam nesse Rasa: Deleite, orgulho, lembrança, indiferença, humildade, ansiedade, apreensão, disposição, curiosidade, inconstância, ilusão, enfermidade, encobrimento do sentimento íntimo, sensibilidade, sonho, exaustão, doença e desejo de morrer.

Nesse Rasa, respeito, tremor e ternura no coração, que surgem do conhecimento sobre o mestre quando identificado com amor, agem como emoção permanente. O Rati se produz no coração dos Ashritas (serventes protegidos) conforme a ordem citada acima. Para os Parishadas e Anugas, seu hábito é o excitante. Nesse Dasya-Priti, o amor cresce até a afeição e até a extensão de Raga, i.e. apego profundamente enraizado. Todos os tipos de Rasa são superiores, bons e excelentes sucessivamente. Segundo a natureza da avidez do aspirante, ele se torna elegível para seu Rasa favorito. Durante o período do desempenho, seja qual for o Rasa que o aspirante esteja tentado, ele obtém o lugar permanente aí, durante o sucesso. Devoção em relação a Rasa se chama "Ragatmika" Bhakti. Na cultura de Bhakti, o que se conhece por "Raganuga" Bhakti é simplesmente a imitação de "Ragatmika" Bhakti. Devotos "Raganuga" devem seguir a conduta e comportamento daqueles que são devotados a Rasa e alcançaram o sucesso. Esse tipo de Rasa que é considerado como a linha de vida do Bhakta e que é saboroso para ele deve ser seguido. Durante o período do sucesso, ele vai obter a vida similar.

Priti reverencial vai até esse ponto. Consideração pelos superiores e prestar reverências a eles em relação ao corpo é conhecido como "Gourava". Aí, a afeição filial se chama "Gouravapriti". Isto está explicado em detalhes no Sri Bhakti-rasamrita-sindhu. Eu não acrescentei mais nada sobre essa matéria.

 

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Prema Bhakti Rasa – Sakhya Rasa

 

O Rasa que se nutre com Sthayi-Bhava (emoção permanente), aprovado por pessoas santas, que traz à mente do devoto uma sensação de ternura estimulada pelo seu Vibhava respectivo etc., chama-se Sakhya ou amizade. Sri Krishna que tem duas mãos que seguram uma flauta é o Vishaya Alambana, i.e. objeto de adoração principal. Nota-se todas as qualidades divinas Nele. Ele está bem vestido, possui todo poder, versado em vários idiomas maravilhosos, eloqüente, erudito, talentoso, experto, misericordioso, inteligente, espirituoso, clemente, objeto de toda consideração, exuberante, feliz e grandioso, etc.. Seus amigos também são similares a Ele em relação à beleza, qualidade e vestimenta, mas são de natureza bem distinta e possuem o sinal de Vishrambha, significa que embora haja escopo para o respeito eles possuem a vaidade de que são iguais a Krishna em todos aspectos. Esses amigos se dividem em duas classes: Os de Dwaraka e os de Vraja. Arjuna, Bhimasena, Droupada, Sudama-Brahmana etc. são amigos de Dwaraka. Entre eles, Arjuna é superior. Mas aqueles que não conseguem descansar nem um momento sem vê-Lo, Ele que é o sentido e objetivo de suas vidas, são os amigos de Vraja. Esses amigos de Vraja são os mais proeminentes de todos. Suhrid (benquerente e ajudante), Sakha (amigo), amigo querido, e amigo íntimo e amigo do peito, esses quatro tipos servem a Krishna eternamente em Vraja. A amizade de Suhrit tem uma mistura de afeição filial. Eles são um pouco mais velhos em idade do que Krishna. Eles estão sempre em guarda para proteger Krishna dos maus elementos com armas em seus braços. Subhadra, Mandali Bhadra, Bhadrabardhan, Gobhata, Yaksha, Indrabhata, Bhadranga, Mahaguna, Vijaya, Virabhadra, Balabhadra etc. são chamados de amigos ajudantes de Krishna, i.e. protetores contra os inimigos. Os que são mais novos em idade do que Krishna são amigos íntimos. A amizade deles tem um toque de atitude servil. Eles são Vishala, Brishabha, Ojaswi, Devaprastha, Varuthapa, Maranda, Kusumapida, Manibandha, Karandama etc.. Eles têm atração pelo serviço amoroso a Krishna. Entre eles, Devaprastha é considerado superior. Sridam, Dam, Vasudam, Vitanla e Kalavinda etc., que têm a mesma idade de Krishna, são considerados como amigos queridos e favoritos. Eles agradam a Sri Krishna com vários jogos, brincadeiras, lutas etc.. Os amigos íntimos e amigos do peito ultrapassam todos os tipos de amigos citados acima. A superioridade está no fato de que eles são versados nos anseios e desejos íntimos de Krishna. Eles são Subal, Arjuna, Gandharva, Vasanta, Ujjal etc.. Entre eles, Subal e Ujjal são proeminentes. Ujjal é especialmente hábil em fazer piadas e fazer brincadeiras durante os jogos. Os amigos mencionados acima admitem três classes a saber, pertencentes a Vraja, os que são residentes do céu e os que são aspirantes. Entre eles, alguns são adoradores naturais de Krishna com a execução de Seu trabalho sacerdotal etc.. Alguns têm mentalidade volúvel, alguns são peritos em contar piadas, alguns agradam a Krishna pelo seu comportamento simples. Alguns surpreendem Krishna com um comportamento estranho de modo fingido. Alguns discutem com Ele. Alguns O agradam com palavras doces e polidas. Todos amigos e companheiros fazem uma variedade de trabalhos fenomenais conforme sua doce disposição íntima.

Idade, beleza, berrante, flauta, búzio, diversão da mente, gracejo, poder etc. que são Suas qualidades inerentes combinadas com a imitação dos trabalhos dos mais velhos, reis, deuses, Avataras (Encarnações) etc. são o estímulo do sentimento de amizade.

Em Sakhya-Rasa, admite-se a eternidade da idade, como infância, meninice, pré-adolescência e adolescência, e em Dwaraka, o princípio estimulante é a adolescência. Infância e pré-adolescência são adequadas para Vatsalya-Rasa. Pouganda, i.e. pré-adolescência, tem três estágios: início, meio e fim. No meio, Sri Krishna é brincalhão. Na primeira parte da adolescência, a doçura e beleza magníficas reinam em todo o corpo de Sri Krishna.

Lutas, jogos com bolas, jogos de dados ou com bastões, subir nas costas, agradar Krishna com lutas, balançar o berço, sentar ou deitar no mesmo colchão ou berço, gracejo e brincar na água etc., dançar e cantar junto com Krishna são afazeres comuns. Os deveres especiais dos amigos mais velhos que são chamados Suhrid são dar bons conselhos e ir na frente em todos os trabalhos. Os deveres especiais dos amigos mais novos são oferecer nozes-de-bétel, decorar Krishna com Tilaka, untar Seu corpo com pasta de sândalo etc., os amigos queridos de Krishna O derrotam em lutas, brigam com Ele, arrancam flores da mão Dele e são decorados por Ele, e Krishna sente muito prazer com esses atos. Os amigos do peito e amigos mais íntimos, que conhecem os anseios e desejos mais íntimos do coração de Krishna, ajudam Krishna em todas as atividades amorosas como fazer o papel de espionar as esplendorosas meninas de Vraja para a união. Apoiar o amor delas por Krishna, no caso de brigas, ficam do lado de Krishna, mas na ausência delas, exibem a esperteza por aprovarem o lado de Sri Radhika e Seu grupo etc.. Os trabalhos ordinários dos companheiros são decorar Krishna, dançar e cantar para Ele, pastorear as vacas, massagear Seu corpo, fazer grinaldas de flores, fazer o trabalho de abanar etc., como criados.

Nesse Rasa, há todos Vyabhichari-Bhavas exceto violência, medo e preguiça. Na separação, nota-se todos os sentimentos comoventes, i.e. Vyabhichari-Bhavas, exceto vaidade, orgulho, deleite, sonolência e paciência. Na união, todos os outros Bhavas se manifestam exceto morte, fatiga, doença, convulsão e humildade.

Nesse Rasa, Rati (apego) que consiste de fé e confiança firmes mas sem reverência é o Sthayi-Bhava (emoção permanente). Fé profunda e firme se chama Vishrambha. Esse Rati incorpora amor, afeição, amor profundo e se eleva ao ponto de Pranaya, i.e. amor confidencial. O termo "Pranaya" implica o estado mental onde ainda há escopo para respeito mas este elemento está absolutamente ausente. No Lila terrestre, nota-se a separação mas no verdadeiro sentido, não há separação entre os residentes de Vraja. O relacionamento amistoso entre Krishna e Seus companheiros cria um estado magnífico de prazer interior. Nesse sentimento de amizade e no de afeição filial, a relação entre Krishna e Seus devotos é de natureza diferente. Entre todos os sentimentos, o doce sentimento de camaradagem é muito apreciado por Krishna e é muito bem compreendido por aqueles que são devotados a esse tipo de Rasa.

 

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Vatsala Bhakti Rasa

 

Quando Vatsalya, i.e. afeição filial, é nutrido com Vibhava etc., as pessoas sábias o chamam de sentimento devocional permanente de afeição filial. Krishna e Seus velhos são Alambana (recantos) desse Rasa. Krishna que é bonito e belo com têz azul-escuro dotado com todos bons sinais, que é polido, de palavras amáveis, franco e tímido, que respeita os mais velhos devidamente, modesto e generoso é o Vibhava desse Rasa. Krishna adquire o estado de Vibhava quando Se sente criado pelos Seus pais que possuem mais força e dão instruções a Ele. O rei e a rainha de Vraja, Rohini, as mães dos colegas de Krishna que Brahma escondeu durante o pastoreio são todos objetos da reverência de Krishna. As Gopis mais velhas bem como Devaki, Kunti, Vasudeva, Sandipani etc. são superiores de Krishna, entre eles, Nanda e Yashoda ocupam o lugar mais alto.

Nesse Rasa, as idades de infância e meninice, beleza, roupa, capricho, palavras doces, sorriso e hábitos jocosos etc. são o Uddipana, i.e. princípios estimulantes. A meninice tem três partes: início, meio e fim. Pérola na ponta do nariz, manteiga na palma rosada e pequenos sinos em volta da cintura são sinais da primeira parte da meninice. Na última parte, o corpo fica mais alongado no meio, o tórax um pouco mais largo e a cabeça embelezada com cachos laterais. Pastorear as vacas na floresta mais perto, brincar com os amigos e colegas fazendo som com a pequena flauta, berrante e címbalos, esses são os esforços da última parte da meninice.

Cheirar a cabeça, pressionar o corpo com as mãos, abençoar, ordenar, levantar, dar bons conselhos, essas são as expressões externas (Anubhava) de Vatsalya-Rasa. Beijar as faces afetuosamente e abraçar no colo, chamar pelo nome são ações comuns desse sentimento. Todas as condições mencionadas no sentimento de servidão bem como epilepsia se manifestam no sentimento de afeição filial. Os oito Sattvic-Bhavas e adicionalmente escorrer leite dos seios estão presentes no amor filial.

Amor paterno [materno] ao objeto de compaixão daqueles que favorecem e são compassivos se chama Vatsalya e essa é a condição permanente desse sentimento. A afeição filial de Yashoda é naturalmente madura. O curso da emoção permanente desse sentimento corre até o amor, afeição e apego profundo que se chama Raga. Embora na separação haja a possibilidade da manifestação de várias outras emoções, nesse caso, só são proeminentes ansiedade, pesar, indiferença, preguiça, humildade, inquietação, enfermidade e obsessão. Os sábios, ficam perplexos, descrevem Vatsalya como o Rasa proeminente. Nesse Rasa, a afeição é a emoção permanente e o filho é o Alambana (refúgio).

No caso de desagrado da parte de Krishna, Sakhya-Rati se extingue, mas isso não acontece no caso de Vatsalya-Rasa. Por isso, Vatsalya-Rasa é superior. Os três tipos de Rasa: Dasya, Sakhya e Vatsalya são admiráveis sem dúvida, mas em alguns casos, a superioridade de Vatsalya-Rasa se restringe pela mistura de outro Rasa. Por exemplo, o sentimento de Baladeva é uma mistura de amor paternal, i.e. sentimento filial, e Sakhya-Rasa, i.e. amizade. O sentimento de Ahuka é Dasya e Vatsalya misturados. A afeição filial dos Gopas mais velhos residentes da vila de Vraja é misturada com amizade. A intimidade de Nakula, Sahadeva, Narada etc. é misturada com servidão. O sentimento de Shiva, Garuda, Uddhava etc. é uma mistura de servidão com amizade. Os netos de Krishna como Aniruddha etc. têm um sentimento misto como o de Garuda etc.. Também se nota esse tipo de sentimento misturado em outros devotos. Aqueles que são adoradores de Dasya (amor Prita), Sakhya (Preya) e Vatsalya-Rasa consideram seu próprio Rasa como sendo o melhor, mas no julgamento imparcial, Madhura-Rasa é o mais proeminente de todos, e os três Rasas citados acima são auxiliares e úteis ao Rasa principal, i.e. Madhura-Rasa. Isso será ilustrado quando tratarmos de Madhura-Rasa.

 

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Madhura Bhakti Rasa

 

Agora vamos descrever a glória transcendental dessa verdade em benefício daqueles que são elegíveis para o elemento devocional do Amor de Amante. Vamos citar aqui a conversa entre Vijaya e Srimad Gopal Guru Goswami, descrita no Capítulo 31 do Jaiva Dharma de nossa compilação, para explicar esse Rasa: Que os ilustres leitores julguem o seu mérito cuidadosamente e devotem suas mentes a esse Rasa. Vijaya Kumara disse: - "Ó meu amado mestre! O sentimento de Madhura-Rasa é tido como o mais misterioso em comparação com os outros Rasas principais dessa linha. Por que não seria assim? Quando todos os méritos de Shanta (tranqüilidade divina), Dasya (servidão devocional), Sakhya (amizade sagrada) e Vatsalya (afeição filial) estão presentes eternamente nele e apesar de qualquer deficiência encontrada, todas são belamente ajustadas, então qual é a dúvida sobre a superioridade do sentimento de Madhura-Rasa? O sentimento do agradável amor enamorado é incompatível com aqueles que seguem o caminho seco da renúncia pela observação de severas austeridades etc., nem é fácil para aqueles que estão presos a atividades sensuais. Portanto, é muito difícil obter esse sentimento. Agora, minha pergunta é, se for assim mesmo, como o amor transcendental do tipo mais elevado é similar ao abominável sentimento do prazer físico entre homem e mulher"?

Guru Goswami disse: - "Meu querido Vijaya, você sabe muito bem que todas as características materiais que encontramos neste mundo são nada mais que o reflexo pervertido de Chit-Jagat. O mistério é que a realização desses reflexos que são na realidade puros faz a perversão material. Assim, o que é mais elevado no ideal é o mais baixo no reflexo, e tudo que é mais baixo no ideal se torna o mais alto no reflexo. Pode-se entender isso muito bem quando você olha o reflexo pervertido de seus membros em um espelho. O Ser Supremo, com o exercício de Seu poder inescrutável, pôs sombra sobre Sua Virtude Suprema e quando são refletidas neste mundo, tornam-se pervertidas, entram em contato com a matéria e aparecem como coisas materiais. A esplêndida felicidade sem precedentes que é a marca característica do Ser Supremo é Seu sentimento real e esse sentimento quando se reflete na matéria, faz o Jiva em cativeiro considerar sob a luz do materialismo os sentimentos originais e os sentimentos refletidos como similares, e não podem compreender a diferença entre eles. De fato, o Objeto Supremo do sentimento transcendental é o Madhura-Rasa. Há o admirável aspecto da espiritualidade [transcendência] nele. A posição de Madhura-Rasa está na seguinte ordem:

Na parte mais baixa de Chit-Jagat ou mundo transcendental, está situado Brahma-Loka indeterminado, onde o sentimento de calma e paz reina sempre. Acima dele, está Vaikuntha-Loka onde há o sentimento de servidão. Acima dele, há o sentimento de amizade sagrada que se chama Goloka-Sakhya-Rasa. Acima dele, há o sentimento de afeição filial de Nanda e Yashoda, e acima de todos, está o reino dos Gopas e Gopis onde o Transcendental Madhura-Rasa reina Supremo.

Agora compare a posição no mundo material. Aqui você vai ver que o sentimento de Madhura-Rasa em seu reflexo pervertido veio até a posição mais baixa. Acima dele, está o sentimento de afeição filial. Acima desse, o sentimento de amizade, acima desse o sentimento de servidão, e acima de todos, o sentimento de calma e paz. Assim a excelência natural no mundo material é bem oposta à excelência prevalecente no mundo transcendental. Aqueles que pensam em termos de materialismo chegam à conclusão que Madhura-Rasa é repulsivo, vergonhoso e desprezível. Mas no Chit-Jagat, esse Rasa é puro, sagrado e saturado de doçura admirável. No mundo transcendental, o relacionamento de Sri Krishna com Gopas e Gopis que são parte e parcela de Sua própria Divindade é o mais sagrado e significativo da verdade transcendental. Enquanto no mundo material, esse relacionamento que é meramente para o prazer sensual é realmente muito indecente na sociedade e não possui verdade. Especialmente porque Sri Krishna é a única Pessoa Suprema e as Gopis, que são Suas potências, são as parceiras femininas no jogo do Amor Divino, que se chama Madhura-Rasa, portanto não há nenhuma contradição na verdade. No mundo material, alguns seres são desfrutadores e outros são desfrutados. Conseqüentemente, há contradição na verdade original e portanto se tornou objeto de vergonha e aversão.

Na verdade, nenhum ser mundano é o desfrutador de outro ser. Todos os seres são desfrutados e criados como Prakriti. O Ser Supremo Krishna é o único Desfrutador (Purusha). Qual é a dúvida de que a contradição da verdade eterna será objeto de vergonha e ódio? Veja, na consideração do ideal no reflexo, há uma semelhança inevitável do prazer sensual entre masculino e feminino no mundo material com o jogo divinamente experto de Krishna com suas parceiras femininas: as Gopis do mundo transcendental (Goloka). Ainda assim, um é o pior e o outro é o melhor".

Vijaya disse: - "Ó meu amado mestre! Você me respondeu muito bem. Sua doce conclusão confirmou meu auto-conhecimento e removeu minha dúvida. Agora estou entendendo a situação de Madhura-Rasa do mundo transcendental. Ah! O sentimento eternamente agradável de Madhura-Rasa! Como a palavra é sempre agradável, seu sentimento transcendental também é sempre agradável. Ao evitar esse Rasa, aqueles que se saciaram com Shanta-Rasa são realmente muito desafortunados, meu mestre, agora eu fiquei muito ansioso para aprender o sentimento misterioso de Madhura-Rasa. Por favor, seja bondoso comigo e satisfaça minha pobre alma".

Ó leitores devotos! Ao compreender a glória transcendental desse Rasa como Vijaya Kumara, que é versado na verdade, imponha sua confiança reverencial nele. Quanto mais cultivar Vraja-Lila com fé e reverência, mais vai surgir o seu sentimento transcendental.

Guru Goswami disse a Vijaya: - "Ó meu querido, ouça. Sri Krishna é o objeto do sentimento de Madhura-Rasa e Suas amadas amantes femininas são o receptáculo. Sri Krishna é o único Herói que é adornado com muitas qualidades excelentes. Sua própria aparência parece com uma nuvem de chuva iminente, muito belo, dotado com todas as boas qualidades sempre agradáveis, o mais forte, adolescente, eloqüente, de linguagem doce, inteligente, gênio, calmo, sábio, espirituoso, feliz, grato, hábil, conquistado pelo amor, grave, o melhor de todos, famoso, deleite do coração da amante, novo a cada momento, sem paralelo no desempenho de jogos amorosos, muito encantador, o mais querido e muito virtuoso em tocar flauta. Toda a glória de Cupido (deus do amor) esmorece ao sinal do lustre de Seus Pés. Seu magnífico olhar encantada o coração de todos. Ele é a jóia suprema do jogo Divino bem como o fruto da fortuna desejado pelas jovens Gopis. Krishna que possui beleza e qualidade transcendentais é o único Herói. No coração santificado pela devoção, há a realização constante da revelação de Krishna". Vijaya prostrado aos pés de seu preceptor ouvia humildemente. - "Agora me diga a diferença entre Shuddha (puro) Sattva e Sattva misturado, i.e. excelência pura da existência da coisa e sua excelência misturada".

Vijaya: - "Aquilo cuja existência se percebe se chama Sattva. A coisa que tem a existência de sua posição, forma, qualidade e ação se chama Vastu-Sattva, i.e. excelência existente. Mas a existência que não tem começo, nem fim, que é infinita e permanece sempre presente em sua nova e nova forma, que não é presa pelas divisões de tempo, presente, passado e futuro, e sempre plena de maravilhas encantadoras é a excelência pura (Shuddha-Sattva). Qualquer excelência de poder espiritual puro é a excelência pura. Mas a coisa que se influencia pela ilusão (Maya) e se perverte pelas divisões de tempo com passado e futuro é excelência misturada. A Sattva, i.e. a existência que tem começo e é guiada pela influência de Maya, possui os três Gunas de Prakriti onde somente Rajas e Tamas predominam em princípios. Portanto, essa existência tem seu fim. Este tipo de existência é excelência misturada. Mas o Shuddha-Jiva é Sattva puro de excelência. A alma Jiva quando está no cativeiro tem Rajas e Tamas misturados com Sattva".

O Goswami disse: - "Meu querido, você deu uma conclusão bem precisa. Agora fale-me como o coração do Jiva puro se influencia pela excelência pura".

Vijaya: - "Meu venerado preceptor! Enquanto o Jiva está em cativeiro no mundo material, a excelência pura não pode surgir vividamente em seu coração. Ele obtém sua própria realidade no limite da proporção do surgimento da excelência pura. Nenhuma tentativa de sabedoria material ou de atividade material pode produzir qualquer resultado a esse respeito. Quando o corpo de uma pessoa se torna impuro com sujeira, nenhum outro tipo de sujeira vai poder limpá-lo, a atividade material em si é uma sujeira. Como vai poder remover outra sujeira? O conhecimento material é igual ao fogo. Se foi aceso por um indivíduo pervertido por matérias profanas, ele vai queimar ou arruinar toda a existência. Nesse caso, como vai poder dar felicidade da limpeza em pureza? Assim a excelência pura só surge por reverência devocional, obtida pela graça do preceptor espiritual, do Supremo Senhor Sri Krishna e pela graça do santo devoto (Vaishnava). Quando surge, a excelência pura em si anima o coração. Agora me diga senhor, quantos tipos de Heróis existem lá"?

Goswami disse: - "Há quatro tipos de heróis em Madhura-Rasa a saber, Dhirodatta, i.e. generoso, Dhira-Lalita – belo e espirituoso, Dhira-Shanta – calmo e tranqüilo, e Diroddhata – arrogante. Com os méritos desses quatro tipos de heróis, Sri Krishna exibe Seu Lila em duas formas, uma como esposo e a outra como namorado".

Vijaya disse: - "Ó meu amado mestre! Qual é o tipo de Krishna como Senhor ou esposo e como amante ou namorado"?

Goswami disse: - "Meu querido, é um grande mistério. À primeira vista, o mestre espiritual é uma jóia de mistério e depois o sentimento de Amor abnegado ou Parakiya Madhura-Rasa se torna especialmente a Jóia mais preciosa como "Kaustubha". Se o pensamento indiscriminado for anexado à realidade Suprema, então o sentimento do nada existe aí. 'Ele é raso vai sah'. Essa afirmação védica então se torna fútil e sem sentido. Porque há extrema necessidade de prazer, o pensamento indiscriminado é o mais sem gosto possível. Quanto mais pensamentos ou idéias particularizadas sobre a Alma Suprema se estabelecerem, mais o sentimento de amor é apreciado pelos devotos. Devemos considerar Rasa como a verdade mais elevada.

O pensamento um pouco particularizado sobre a Alma Suprema é bem melhor que o pensamento indiscriminado radical sobre Ele. Pensar Nele como o mestre bem-amado em conexão com o sentimento de serviço devocional a saber, Dasya, é melhor do que o sentimento sobre Deus como sendo o Todo-poderoso, Onipresente etc., daqueles que são seguidores de Shanta-Rasa, i.e. calma divina. Em comparação com esse sentimento, amizade sagrada é melhor. O sentimento de afeição filial é melhor ainda do que o de amizade. Acima desse, ainda está o estágio superior do sentimento de Amor Divino (Madhura-Rasa). Do mesmo modo como o sentimento de Amor Divino é Superior ao sentimento de afeição filial e a superioridade gradual é observada nesses sentimentos mencionados acima, o sentimento de Amante erótica (Parakiya) é bem superior ao sentimento de Svakiya, i.e. amor matrimonial. Amor matrimonial e amor enamorado são as duas Verdades transcendentais. Amor matrimonial é o prazer egoísta onde o sentimento real de amor divino não tem suporte particular e prático. Embora a virtude de Sri Krishna de prazer auto-centrado seja eterna, ainda a virtude contraditória do prazer do egoísmo também é eterna. Consistência de virtudes ou qualidades opostas é natural no caso da Alma Suprema. Essa é Sua divindade natural. Em um centro do jogo transcendental de Sri Krishna está o prazer do amor matrimonial (Svakiya) e no centro oposto, está uma perfeição excelente do amor de Amante seduzida (Parakiya). Quando o herói e a heroína (amantes masculino e feminino) se unem pela influência da atração do amor, revela-se um sentimento maravilhoso e é chamado Parakiya-Rasa. Quando se volta em direção ao amor egoísta, i.e. Svakiya, o Rasa gradualmente perde o gosto. Mas quando se volta ao amor erótico, o prazer de Rasa aumenta em intensidade e contentamento. Quando Krishna em Pessoa é o Herói, Parakiya-Tattva não pode ser objeto de vergonha e ódio. Quando um ser ordinário se acha o herói ou a heroína, aí vem o julgamento de virtude e vício. Assim o prazer de amor erótico é o pior de tudo. Por isso, as pessoas sábias condenam a união de amantes masculinos e femininos além do matrimônio legal. Sri Rupa Goswami disse: 'No código ordinário da Retórica, a inferioridade de um herói galante é determinada, mas no caso de Sri Krishna que encarnou pessoalmente para o prazer da essência do sentimento de amor abnegado do mundo espiritual, esta questão de virtude e vício não pode surgir'.

Aquele que se casa com uma moça com a observação dos ritos matrimoniais é o esposo dela no termo legal. Mas aquele que tem atração por uma mulher casada com amor excitante, transgredindo a injunção dos Shastras, é o amante dela. A esposa que, violando as injunções dos Shastras e desprezando as virtudes deste mundo e do próximo, se rende a outra pessoa por amor apaixonado é Parakiya. A esposa que é casada de acordo com os códigos matrimoniais, que obedece as ordens do esposo implicitamente e que não se move um centímetro da virtude da caridade é Svakiya. As esposas de Krishna em Dwaraka são Svakiya e as Gopis de Vraja são Parakiya". Pulando algumas partes da conversa entre Vijaya e Gopal Guru Goswami, eu citei até este ponto.

Aqui está uma descrição sobre a situação das amantes femininas de Sri Krishna, Svakiya e Parakiya, no Lila realizado no reino transcendental de Vraja. O Lila não revelado de Goloka é eterno. Do mesmo modo como o Lila diário eterno é realizado em Vraja deste mundo, ele é realizado similarmente em Goloka também. Os devotos residentes de Goloka podem ver o Lila na perspectiva verdadeira pois estão além do alcance de Maya e seus olhos estão limpos. O desempenho do Lila eterno neste mundo também é similar, mas os olhos e ouvidos dos observadores neste lugar estão cobertos com a qualidade de Maya, por isso sofrem de defeito invariável nos órgãos dos sentidos e vêem isso de forma material. A vaidade eterna de Parakiya que existe em Goloka parece ser naturalmente material neste mundo. Não há nada material ou não espiritual no Lila de Krishna. Mas porque nossos sentidos são materiais ou defeituosos, esse tipo de mal-entendido surge naturalmente em nossa mente. Sri Krishna mostrou esta verdade aos Gopas quando vieram a este mundo. O sentimento de Parakiya das Gopis não é nem um pouco vergonhoso ou abominável. Os retóricos mundanos condenam o amor de uma mulher casada por outro senão o legítimo esposo e desprezam o amor infame da mulher como horrível. Mas isso não pode se aplicar às brilhantes Gopis de Vraja cujo amor por Krishna é único e abnegado. Embora as jovens Gopis de Gokula sejam na verdade parte e parcela da própria divindade de Krishna, ainda Parakiya-Rasa que elas desfrutam é o melhor. Sri Krishna as trouxe de Goloka para Gokula para exibir a super excelência do Amor Esotérico. A esse respeito, qual é a falta de Krishna? Sri Krishna não é um Herói material. Isso foi feito para o bem das pessoas mundanas. De outro modo, como o Jiva poderia saber sobre esse Rasa supremo e ter fascinação por ele? É dever dos devotos de Krishna servi-Lo com esse tipo de amor transcendental erótico, com dedicação ao sentimento amoroso das Gopis. Mas aquele que assumir o papel de Krishna e tentar imitar Seu Lila amoroso está condenado ao inferno para sempre. Aqueles que são astutos, enganadores e lascivos cometem essa ofensa.

Entre uma infinidade de emancipados [auto-realizados], um Krishna-Bhakta [devoto de Krishna] é muito raro. Mesmo aqueles que são devotos do Senhor da majestade e poder, Sri Narayana, não podem ver Gokula. Livres da matéria grosseira, eles servem ao Senhor da opulência e glória em Vaikuntha, o reino sem pesar, segundo seu sentimento devocional. Entre eles, aqueles que servem a Krishna com Vraja-Rasa e que Krishna concede Sua misericórdia e quem Ele salva do cativeiro se tornam elegíveis para ver Goloka.

Os devotos que alcançaram o sucesso na obtenção da Realidade (Vastu-Siddhi) são levados a Gokula diretamente pela misericórdia de Krishna. Aqueles que são bem sucedidos no Ideal (Swarupa-Siddhi) permanecem em Bhouma Vraja (Vraja mundana) com a vaidade de Gopi observando o ideal eterno de Goloka-Dhama. Os aspirantes possuídos por Tama-Guna extremo vêem tudo de modo material mesmo durante a prece e meditação. Aqueles que são de Raja-Guna vêem Goloka um pouco melhor. Aqueles que estão em Sattva-Guna percebem o reflexo de Goloka em Gokula. Os devotos de Vraja que se livraram dos três Gunas de Maya podem alcançar Goloka, por motivo da graça de Krishna, no corpo inigualável de Gopi. Quanto mais se remove os Gunas de Maya, mais a visão de Goloka se torna clara e perfeita. A liberação de Yashoda, Krishna descansando em casa, casamento das Gopis auto-evidentes com Abhimanyu, Govardhana etc. e a vaidade conseqüente por Parakiya se percebem na forma material grosseira em Vraja. Tudo isso é realizado por Yogamaya (o Poder da Vontade de Krishna) em conexão com o misterioso Rasa-Tattva principal. Nada é falso ou irreal. Tudo é perfeito em Goloka. Mas as observações só são diferentes devido à obstrução sensual dos observadores em Gokula. Em Goloka, o sentimento em suporte dessas verdades está presente eternamente. Aqueles que se devotaram aos passatempos dos oito períodos do dia com a vaidade de Gopi devem seguir a mesma rotina que observam no desempenho devocional de Vrajadham. À medida que recebem a misericórdia de Krishna, a pureza do serviço será percebida automaticamente. Se perguntar: "Durante a dissolução universal, o Vraja-Lila se extingue"? A resposta é que nesse período, todos os Lilas estão presentes em Goloka porque os Lilas são eternos. Por servir e lembrar-se dos oito períodos do Lila cotidiano, obtém-se o Lila diário eterno. Durante a existência, Vraja-Lila revolve de um mundo para outro em rotação cíclica. Assim, se o Lila ficar invisível em um mundo, fica visível em outro. Dessa forma, a eternidade de Vraja-Lila é mantida. Durante a dissolução universal, todos os Lilas estão presentes em Goloka. Mas pela bondade de Krishna para Seus devotos, o Mathura Dhama que é favorável ao desempenho devocional não desaparece durante a dissolução. Ele revolve na região mundana em ordem cíclica. Portanto, Bhouma Vraja-Lila é eterno como o Lila de Goloka. Agora vamos parar por aqui e voltar à matéria.

Nós não temos nenhum outro Herói além de Krishna. Esse Krishna é perfeito em Dwaraka, mais perfeito em Mathura e o mais perfeito em Vraja. Krishna é Esposo e Amante duplamente. Assim o Seu heroísmo tem seis tipos nesses três reinos. Ao considerar os quatro tipos de herói como Dhirodatta etc., Seu heroísmo tem vinte e quatro tipos. Novamente ao considerar quatro tipos como Anukula (favorável), Dakshina (cortês), Shatha (falso) e Dhristha (impertinente) e multiplicando vinte e quatro por quatro, o heroísmo chega em noventa e seis. Em Svakiya-Rasa, o heroísmo tem vinte e quatro tipos e em Parakiya também vinte e quatro. Em Vraja, os vinte quatro tipos de heroísmo de Krishna como Amante são sempre manifestos. Esta é uma descrição breve do heroísmo de Krishna em Vraja.

Krishna como Herói tem cinco tipos de ajudantes: Cheta (agente secreto), Vita (especialista em vestir), Vidushaka (palhaço), Pitha-Mardaka (massagista das costas, do corpo etc.) e Priyatama-Sakha (colegas amigos do peito mais queridos). Todos eles são hábeis no uso de palavras espirituosas, profundamente devotados, têm conhecimento adequado para tempo e lugar, ágeis e espertos em agradar as jovens leiteiras como Sri Radhika quando Ela está brava e dão conselhos em segredo para acalmar a ira Dela. Bhangura, Bhringara etc. que são peritos em inquéritos, capazes para realizar as tarefas secretas e possuem inteligência audaz ou arrogância executam as atividades Cheta para Sri Krishna em Gokula. Kadara, Bharatibandha etc. que são expertos no trabalho de vestir, astutos, hábeis em manter uma conversação e capazes de trazer outros sob seu controle são Vitas (roupeiros) de Sri Krishna. O leiteiro Vasanta, o Brahmana Madhumangal etc. são Vidushakas ou palhaços de Krishna. Eles gostam de comer comidas deliciosas, gostam de brigas de brincadeira, peritos em fazer os outros rirem com os movimentos de seus membros do corpo e por suas palavras espirituosas e roupas atraentes. Sridam faz o trabalho de massagear Sri Krishna (Pitha-Mardaka), apesar de ser tão qualificado quanto o herói. Ele realiza a atividade de subserviência em conexão com Krishna. Subal, Arjuna e outros são colegas mais queridos e amigos do peito de Krishna (Priyatama-Sakha). Eles podem mergulhar na profundidade do segredo oculto do namoro e são bem conscientes dos sentimentos das amantes femininas de Krishna. Por isso, eles são os melhores de todos os amigos mais queridos de Krishna. De todos esses cinco tipos de companheiros, os Chetas têm o sentimento de prestar serviço, os massagistas têm sentimento heróico e todos os outros têm o sentimento de amizade. Há também companheiras femininas. Elas são as mensageiras femininas. Há dois tipos de mensageiras femininas: Svayam (auto-revelada) e Aptaduti nomeada. Olhar lateral e a música melodiosa da flauta são as mensageiras femininas auto-reveladas. Estes dois tipos de mensageiras são extraordinários. Além destas, Lingini, Daibajana, Shilpakarini e outras são mensageiras femininas ordinárias.

As amantes femininas mais queridas de Krishna são o refúgio desse Rasa. Elas têm dois tipos, Svakiya (esposa doméstica) e Parakiya (amante). O último tipo de devotas de Krishna servem a Ele da melhor forma com seu sentimento de Erotismo. Em Vraja, as esposas (Svakiya) são poucas, quase todas são Parakiya. Isso porque a extrema excelência do sentimento sempre agradável do amor não pode ser completa sem o aspecto erótico do amor. O Rasa das esposas domésticas, é restrito devido ao relacionamento. O puro sentimento de amor erótico é plenamente desabrochado e pode dar mais prazer ao Senhor Krishna.

Rudra, o grande retórico que era versado na psicologia divina do amor disse: "A prevenção ou a obstrução por causa da oposição e escassez de mulheres amadas é a arma mais afiada do Amor de Cupido". Vishnugupta também tocou a mesma música. Quando as meninas leiteiras devocionais, que se casaram com outros leiteiros por Yogamaya, desejam a alegre companhia de Sri Krishna, elas ficam naturalmente com encanto e beleza sem iguais e adornadas com a pungência de toda a melhor obsessão. Esses sintomas de felicidade e atração extáticas não são vistos no corpo de Lakshmi Devi e outras que são Svakiyas.

Há três tipos de Gopis em Vrajadham: Sadhanpara (aspirantes), Devi e Nityapriya (mais queridas eternamente). Sadhanpara tem dois tipos: Yauthiki (amantes de grupo) e Ayauthiki (sem grupo).

Como diz o Padma Purana: Havia alguns santos ou sábios em Dandakaranya que adoravam Gopala. Eles aspiravam por servir sua Deidade com o mesmo tipo de sentimento do amor erótico como as Gopis auto-evidentes fazem em Vrajadham. Mas eles não conseguiram sucesso em seu objetivo desejado. Mas quando Sri Ramachandra, durante Seu exílio veio a Dandakaranya, eles viram Sua têz azul-escuro que parecia com a de sua Deidade adorada, e vendo Sita junto com Ele também, a paixão deles em servir com amor erótico veio à tona. Sri Ramachandra pôde entender a mente deles e com Sua bênção, eles nasceram em suas próximas vidas em Gokula como Gopis com seu espírito devocional adquirido.

Os perspicazes Upanishads ficaram apaixonados, ao ver a grande fortuna das Gopis e aspiraram pelo nascimento como Gopis realizando austeridades devocionais com amor sincero. Em resultado, eles nasceram como Gopis em Vrajadham com sua pungência de amor.

As duas classes mencionadas acima, os santos e os Upanishads, são Gopis Sadhanpara Yauthiki pois tentaram cumprir sua missão pela prática de ritos devocionais em seus nascimentos anteriores e nasceram como Gopis em grupos separados conforme seu sentimento de amor. Elas se chamam Amantes de Grupo.

A lenda conta que quando Krishna fez Sua encarnação parcial como progênie dos Devatas do céu, algumas de Suas queridas eternas nasceram dos deuses e serviram a Ele com muito ardor. Novamente, quando Sri Krishna revelou Sua encarnação plena em Gokula, elas também foram mandados por Brahma para nascerem como Gopis a fim de servir a Krishna com amor apaixonado. Essas Gopis se chamam Devis devido a seu nascimento prévio, e consideradas do grupo das seguidoras mais queridas de Sri Radhika.

Gayatri, a mãe dos Vedas, ao ver a fortuna dos Upanishads ficou tentada em ter um nascimento como Gopi e praticou ritos devocionais. Então ela nasceu em Vrajadham como Gopalatapani Shruti. Ela apreciou a doce união com Krishna e assumiu a forma de Kama-Gayatri.

Sobre as eternamente auto-evidentes Gopis, os afazeres matrimoniais etc. em Vraja que são planejados por Maya, não é a Maya material. Ela é Yogamaya, a Chit-Shakti de Sri Krishna que está realizando esses feitos pela vontade de Krishna. Ao entrar em contato com as Gopis auto-evidentes eternamente, Upanishads, Gayatri e as Devis citadas acima serviram a Krishna com amor erótico apaixonado. Radha e Chandravali que são as mais exaltadas entre as amantes femininas eternas (Gopis) possuem beleza e atração como o Senhor Krishna.

O Sri Brahmasamhita diz: Govinda, a Realidade Suprema e Senhor Primordial que é essencialmente Sat, Chit e Ananda está sempre Se divertindo em Sua própria morada, com Suas consortes femininas eternas de Goloka que estão saturadas e vitalizadas pelo Rasa sempre bem-aventurado e que é a Personificação da potência extática que possui sessenta e quatro atividades artísticas. Nos Shastras, Skanda Purana, Prahlada Samhita etc., menciona-se os nomes das Gopis com se segue: Radha, Chandravali, Vishaka, Lalita, Shyama, Padma, Shaibya, Bhadra, Tara, Vichitra, Gopali, Dhanishtha, Pali e outras. O outro nome de Chandravali é Somabha e o de Radhika é Gandharvika. Khanjanakshi, Manoramá, Mangalá, Bimalá, Krishná, Shari, Bisharadá, Taravali, Chakorakshi, Sankari, Kumkumá e algumas outras Gopis de Vrajadham são muito famosas. Essas Gopis são líderes de grupo. Os grupos são infindáveis. Todas essas Gopis em seus grupos respectivos têm um número de cem mil em cada grupo.

Vishaka, Lalita, Padma e Shaibya são as mais queridas. Entre as líderes de grupo, as oito líderes de Sri Radha são amantes e por isso são chamadas de Pradhana ou as superiores. Embora Vishaka, Lalita, Padma e Shaibya sejam especialmente qualificadas para serem líderes de grupo, Vishaka e Lalita, estão tão encantadas com os movimentos e modos agradáveis de Srimati Radhika que não desejam se tornar líder de grupo, mas querem ser as companheiras mais queridas de Radha. Padma e Shaibya também se devotaram a Chandravali. Isso está descrito nos Shastras de acordo. Srimati Radhika é a suprema e líder de todas as líderes de grupo. Algumas delas que são chegadas a maneiras e movimentos especiais são apresentadas como pertencentes à companhia ou grupo de Lalita, e algumas à companhia ou grupo de Vishaka. Somente pelo resultado de imensa fortuna, alguém obtém o acesso ao grupo de Sri Lalita.

Entre Radha e Chandravali, Srimati Radha é a personificação de Mahabhava, i.e. o sentimento mais elevado do amor. Ela é superior em todos os aspectos. O Tapani Shruti e o capítulo de conclusão do Rik descrevem a glória de Radha-Madhava. Radhika representa a essência da potência extática chamada Hladini-Shakti. Ela é a perfeição do cupido querido do coração de Krishna. Todos os dezesseis tipos de formosura e os doze tipos de embelezamento resplandecem em Sua pessoa com excelência plena. A beleza da Forma de Srimati Radha é tão resplandecente que nenhuma aplicação de perfume ou ornamento com jóias pode aumentar Sua beleza. O cabelo ondulado Dela, face resplandecente como a lótus, olhos alongados, Seu seio com mamilos elevados, cintura fina, belos ombros, belas unhas que são como jóias são os sinais de Sua beleza. Esse desempenho festivo de encanto alegre não existe em nenhuma outra pessoa nos três mundos. Portanto, Ela é a namorada mais querida de Krishna, que brilha como a Jóia central de todas as Suas consortes. Banho agradável, o brilho da jóia na ponta do nariz, usando roupas azul-escuro, grande cinta na cintura, trança agradável, brinco muito belo, massageada com ungüento de sândalo no corpo, com flores atrás no cabelo, lótus plenamente desabrochada na mão, mascando bétel de fragrância doce, marcas de gotas de almíscar na face, colírio nos olhos, faces decoradas, marcas de pasta de sândalo na testa, pés decorados com laca, e linha vermelha, como símbolo de Sua castidade, esses são os dezesseis tipos de Sringara, i.e. embelezamento do corpo.

Magnífica jóia brilhando na coroa na cabeça, brincos de ouro, grande cinta no quadril, medalhão de ouro no pescoço, pino de ouro no orifício na parte superior das orelhas, braceletes nos pulsos, colar no pescoço, anéis nos dedos, colar de estrela no pescoço, bracelete de estrela no pescoço, braceletes na parte superior dos braços, tornozeleiras de jóias nos pés e anéis nos dedos dos pés, esses são os doze embelezamentos da pessoa de Sri Radhika.

As qualidades transcendentais de Sri Radha, a grande rainha de Sri Vrindavana, são inumeráveis como as de Sri Krishna. Entre elas, há vinte e quatro qualidades principais:

(1) Ela é a mais graciosa e encantadora de se ver. (2) Ela está na tenra idade ou adolescência. (3) Seu olhar parece com as olhadelas do veado. (4) Sua face sorridente é sempre bem-aventurada. (5) Ela tem linhas da fortuna brilhantes como a Lua belamente gloriosas e imaculadas em Suas palmas das mãos bem como nas solas dos pés. (6) Ela enlouquece e encanta Madhava com a doce fragrância da graciosidade. (7) Ela é uma artista excepcional na arte de encantar Sri Krishna com a doce melodia de Sua lira. (8) Suas palavras são muito agradáveis e doces. (9) Ela é perita em contar anedotas para o deleite de Seu Amado. (10) Ela é excepcionalmente humilde. (11) Ela é a própria personificação da misericórdia e compaixão. (12) Sua inteligência ou perspicácia ultrapassam tudo. (13) Ela é uma perita no desempenho de todas as atividades do amor. (14) O recato das damas é a jóia brilhante de Seu caráter. (15) Ela é o exemplo da modéstia e nunca Se desvia do caminho da honestidade. (16) Ela nunca é perturbada em nenhum estado por sofrimento ou miséria mundanos. (17) Sua grandeza e gravidade não têm limites em todos os mundos. (18) Ela está sempre fascinada para Se encontrar com Sri Krishna, o único Amante Erótico Transcendental. (19) Ela é a possuidora do sentimento mais elevado de Amor chamado Mahabhava. (20) Ela é a personificação de Prema e só em vê-La, os habitantes de Vraja se afundam no oceano bem-aventurado de Prema. (21) Suas Glórias transcendentais sempre crescentes brilham em todos os mundos. (22) Ela é a mais querida e a mais afetuosa com Seus superiores. (23) Ela é muito submissa ao amor e afeição sinceros de Suas amigas mais velhas. (24) Ela é a Jóia central de todas as Gopis – as Amantes Apaixonadas de Sri Krishna. (25) E mais o quê, até o Senhor do Amor Sri Krishna que atrai os Atmaramas (Paramahamsas) é tão apaixonado pelo amor Dela que não hesita em obedecer submisso ao comando Dela.

O Varaha-Samhita, Jyotih-Shastra, Kashikhanda, Matsyapurana e Garudapurana mencionam as seguintes marcas esplêndidas da Fortuna na pessoa Dela:

(1) Na ponta do dedão do pé esquerdo brilha uma marca de grão de cevada (yava). (2) Logo abaixo, um disco. (3) Abaixo do dedo médio, uma lótus. (4) Logo abaixo, uma torre de templo de Vishnu, (5) e uma bandeira. (6) Um lindo sinal vai do dedo médio até o centro da sola, (7) abaixo do dedo mínimo, um bastão de conduzir bois. Novamente, na perna direita: (1) na ponta do dedão do pé tem um búzio, (2) um peixe na superfície do calcanhar, (3) um altar abaixo do dedo mínimo, (4) uma quadriga acima do peixe, (5) um monte, (6) um brinco, (7) uma maça, (8) um sinal de lança de ferro.

Depois na palma da mão esquerda: (1) Uma linha da vida que vai da junção do indicador com o médio até abaixo do dedo mínimo. (2) Abaixo dessa linha, outra linha começa em uma extremidade da palma até entre os dedos indicador e o polegar. (3) Abaixo do indicador, uma outra linha que nasce no pulso com um movimento pouco curvo e se junta à linha do meio até chegar na região entre os dedos indicador e polegar. Essas três, e cinco marcas de roda ou disco na ponta dos cinco dedos somam oito. (9) Elefante abaixo do dedo anular, (10) cavalo abaixo da linha da vida, (11) touro abaixo da linha do meio, (12) um laço abaixo do dedo mínimo, (13) um abano [leque], (14) árvore Sri, (15) um pilar do triunfo, (16) uma flecha, (17) maça ou clava, (18) grinalda.

A palma direita também tem as três linhas principais inclusive a linha da vida como na mão esquerda. Um búzio na ponta de cada um dos cinco dedos. Assim, há um total oito marcas na palma direita. (9) Um abano para espantar moscas [chamara] abaixo do dedo indicador, (10) um laço abaixo do dedo mínimo, (11) palácio, (12) tambor, (13) raio, (14) carro de bois, (15) arco, (16) espada, (17) pote de água com jorro.

Há sete marcas no pé esquerdo, oito no direito. Dezoito na palma esquerda e dezessete na palma direita. Assim, há um total de cinqüenta marcas conhecidas como linhas da fortuna.

Há gotas dessas qualidades, i.e. porção extremamente pequena, no Jiva. Encontram-se um pouco mais nos deuses. Todas se manifestam em Sri Radhika de modo resplandecente pleno. Todas as qualidades Dela são transcendentais. Deusas como Gouri, Lakshmi etc. não possuem essas qualidades de forma tão pura e perfeita. Em Radhika, todas brilham ao máximo com pureza e superexcelência transcendentais.

O grupo de Sri Radha é o melhor. Todas amantes femininas que pertencem ao Seu grupo são adornadas com todas as qualidades excelentes transcendentais e seus embelezamentos pessoais sempre encantam Madhava. As amigas de Sri Radha têm cinco tipos a saber, amigas ordinárias (Sakhis). (2) Amigas eternas (Nitya-Sakhis). (3) Amigas íntimas (Prana-Sakhis). (4) Amigas queridas (Priya-Sakhis). (5) Amigas mais amadas e queridas (Parama-Prestha-Sakhis).

Kusumika, Vrinda e Dhanishtha etc. são amigas ordinárias (Sakhis). Kasturi, Manimañjari, etc. são amigas eternas (Nitya-Sakhis). Sashi, Mukhi, Vasanti, Lasika e outras são conhecidas como amigas íntimas (Prana-Sakhis). Elas têm um pouco de igualdade com Sri Radha, a Rainha de Vrindavana. Kurangakshi, Sumadhya, Madanalasa, Kamala, Madhuri, Mañjukeshi, Kandarpasundari, Madhavi, Malati, Kamalata, Sashikala etc. são amigas queridas (Priya-Sakhis). Lalita, Vishakha, Chitra, Champakalata, Tungavidya, Indulekha, Rangadevi e Sudevi, essas oito são as mais elevadas de todas e são conhecidas como as mais queridas e amadas (Parama-Prestha-Sakhis). Elas estão no zênite do amor espiritual de Radha-Krishna. Mas às vezes demonstram parcialidade no amor para Krishna e às vezes para Radha a fim de aumentar o Rasa erótico. A subdivisão irrelevante ou indireta que existe em cada grupo é uma facção ou Gana. Por exemplo, as amigas do grupo de Srimati Radhika que são muito obedientes à Lalita são conhecidas como do partido ou Gana da Lalita etc..

Não existe casamento convencional no Vraja-Lila como aqui neste mundo mundano que é de Maya. Por isso, o amor conjugal entre masculino e feminino neste mundo se restringe à maior obrigação legal do matrimônio. Mas quando Sri Krishna, o Supremo por excelência de Goloka, trouxe Seu próprio sentimento espiritual superexcelente do amor de Cupido para Gokula projetada na Terra, aí a pureza da característica transcendental desses amantes cupidos de Vraja não pode ser questionada. Pois é completamente livre da impureza mundana pela conexão ilícita. As amantes de Gokula conhecem Sri Krishna como o Querido de Nanda, e nada mais. O Amor natural espontâneo e apaixonado delas por Sri Krishna é tão intenso que os agnósticos ficam perplexos para entender, nem mesmo os maiores devotos. O sentimento amoroso das Gopis de Vraja é tão arrebatador que Sri Krishna, o Senhor dos senhores, não conseguiu manter Sua majestade perante elas. Numa ocasião quando Ele mostrou Sua Forma Majestosa de quatro braços para as Gopis, não foi reverenciado por elas. Depois, quando Sri Radha se aproximou, Seu poder majestoso por maior que fosse não conseguiu reter Sua forma de quatro braços, e Ele teve que reaparecer em Sua Forma da Doce Beatitude de dois braços perante Sri Radha, que é a jóia mais preciosa de todas as amantes de Krishna.

As amantes de Sri Krishna têm três tipos a saber, casadas, amantes cupidos e as ordinárias que se apaixonam acidentalmente. Eu já falei sobre as características espirituais de Suas esposas casadas, bem como das amantes cupidos ou eróticas. Agora vou falar sobre as amantes ordinárias. Os retóricos materialistas chamam o amor incasto da mulher pelo seu amante como extremamente egoísta e por isso são mulheres públicas. Para elas, não há nenhuma consideração de companheiro bom ou ruim. Elas são tão avarentas que para satisfazer seu proveito egoísta, não hesitam em escolher quem quer que seja. Assim, esse sentimento de prazer luxurioso é nada mais que pseudo amor e nem é erotismo no verdadeiro sentido do termo. É apenas o reflexo pervertido de Sringara. Quando Kubja se apaixonou por Sri Krishna ao vê-Lo em Mathura foi sem dúvida para o prazer da luxúria apaixonada dela, ainda assim, quando ela abraçou o Supremo Amante Sri Krishna que foi possível a ela devido a seu sentimento espiritual desconhecido, considera-se seu amor como amor erótico espiritual mas do tipo ordinário que se chama Birangsa-Pradhan.

Kubja era uma mulher feia. Ela nunca teve o desejo de satisfazer sua paixão com ninguém. Mas ao ver a linda aparência de Sri Krishna, desejou passar pasta de sândalo em Seu corpo e somente aí, brotou seu verdadeiro sentimento de amor. Portanto, o amor dela também é Parakiya erótico por Sri Krishna. Mas é do tipo mais ordinário pois há uma mistura do desejo egoísta com seu sentimento de amor, ao ver a beleza de Krishna, seu desejo de passar creme no corpo de Krishna é o caráter transcendental de seu amor. Mas o Rati dela é inferior ao das esposas casadas com Krishna.

Sobre as amantes, seja Svakiya ou Parakiya, as heroínas têm três tipos: Mugdha, Madhya e Pragalbha. Com a consideração de outros aspectos, as amantes ao todo são de quinze tipos.

Mugdha: A característica principal de Mugdha, i.e. amante feminina apaixonada, é: Ela é uma mulher na flor da juventude, uma mulher apaixonada mas finge que não deixa Sri Krishna abraçá-la quando Ele quer, mas é bem submissa a suas amigas. Ela sente vergonha para se encontrar com Sri Krishna, mas ao mesmo tempo, tenta de tudo secretamente para segurá-Lo em seu seio. Depois quando vê que seu galante amor Sri Krishna está aproveitando o seio de outras ignorando-a, ela fica na frente Dele com lágrimas nos olhos. Mas ela nunca faz gracejos nem O insulta, nem demonstra nenhum sinal de ira.

Madhya: Esses são os sinais de Madhya Nayika (amantes femininas moderadas). Seu sentimento de união com Sri Krishna é muito grande mas quando Ele vem, ela se sente extremamente tímida. Às vezes ela é meiga ou gentil em sua sensibilidade e às vezes áspera. Quando seu sentimento de amor por Krishna é moderado, ela se chama Dhiradhira. Quando vê que seu galante amor veio a ela depois de apreciar outra, ela sorri para Ele faz gracejos etc.. Assim ela é conhecida como Dhira-Madhya. Mas em seu humor irado quando usa palavras rudes e cruéis contra Krishna perante Ele com lágrimas nos olhos, então essa Nayika se chama paciente-impaciente média (Dhiradhira-Madhya).

Pragalbha – uma amante apaixonada arrogante.

Quando a amante fica enlouquecida por seu amante apaixonado no início de sua juventude e curiosa para se encontrar com seu namorado Sri Krishna imediatamente e abraçá-Lo em seu seio. Quando ela tenta despertar emoção excessiva no coração de seu amado e Sri Krishna não corresponde a seu amor, ela fica brava, esse tipo de amante feminina se chama Pragalbha.

(1) Abhisarika, amante feminina que vai se encontrar com seu Namorado em um lugar marcado. (2) Vasaka-Sajja, a amante que está vestida com maior elegância para receber seu amante. (3) Utkanthita, aquela que está em grande ansiedade para encontrar seu Namorado e ao ver Sua demora em chegar, fica apreensiva devido a algum perigo. (4) Khandita, fica ofendida com seu Namorado por causa da infidelidade. (5) Bipralabdha, que está perdida de amor ou abandonada pelo Ente amado. (6) Kalahantarita, que se arrepende por ter dispensado seu Namorado. (7) Proshitabhartrika, cujo Namorado foi para longe. (8) Swadhinabhartrika, cujo Namorado é totalmente obediente a ela e não hesita em cumprir uma ordem dela.

Quando Krishna fica cativado pelo amor supremo de Sua amante ao ponto de não poder deixá-la nenhum momento, essa heroína Swadhinabhartrika se chama "Madhavi". Entre os oito tipos de amantes cupido, Swadhinabhartrika, Vasaka-Sajja e Abhisarika, essas três se decoram com roupas e adornos brilhantes e têm mentalidade alegre. Enquanto os outro cinco tipos de amantes cupido a saber, Khandita, Bipralabdha, Utkanthita, Proshitabhartrika e Kalahantarita não usam suas roupas adequadas. Elas se arrependem dolorosamente e ficam ansiosas, pondo a mão esquerda no queixo. Tristeza e alegria são o aspecto maravilhoso de Krishna-Prema que é transcendental, espiritual e sempre bem-aventurado. Em relação à conduta de Sri Krishna, Suas amantes se dividem em três grupos: (1) Uttama (superior), (2) Madhyama (moderado) e (3) Kanistha (ordinário). Conforme o sentimento das Gopis, Krishna corresponde de acordo. Uttama Nayika (principal) abandona todo seu trabalho só para o prazer de seu Namorado Sri Krishna. Ao ver a angústia de Sri Krishna, seu coração fica despedaçado. O coração da Madhyama é sem dúvida comovente mas não nessa extensão. A dama cupido ordinária sempre suspeita que pode haver alguma outra no caminho da união com seu Namorado.

As damas amantes eróticas são no total trezentas e sessenta em número. Os quinze tipos que foram mencionados anteriormente se multiplicados pelos três mencionados no fim, o número vai para cento e vinte. Novamente, quando multiplicados pelos três últimos mencionados, o número total vai para trezentos e sessenta apenas. Esses são os sentimentos das amantes eróticas para servir a Sri Krishna.

As líderes de grupo atuam em três posições diferentes para a união com Krishna. Algumas são congeniais (Swapaksha), algumas antagônicas (Bipaksha) e algumas são amistosas ou neutras (Tatastha).

Para poder aliviar a agonia das Gopis perdidas de amor que estão com o coração ansiando pela união com Sri Krishna, há a necessidade das casamenteiras. Há dois tipos a saber, Swayam-Duti e Apta-Duti. Elas ficam fascinadas ou enlouquecidas de amor, quando se expressam com a intensidade sedutora em direção ao Namorado desavergonhadamente, elas são conhecidas como Swayam-Duti. Isso se manifesta de três formas: (1) Gesticulando o sentimento corpóreo, (2) ataque físico ou comentários espirituosos e (3) ataque com olhar de lado.

Os comentários espirituosos são de dois tipos, direto e indireto. Quando a intenção da mente se indica pela expressão de palavras diretamente para Krishna em pessoa, isso é direto e quando se refere a outra coisa, é indireto. Assim, os comentários espirituosos para Sri Krishna agem de duas formas: Direto e Byapadesh, i.e. fingido. O significado interno é que o sentido claro de uma afirmação é uma coisa mas em seu outro sentido, implica em uma súplica disfarçada a Krishna por Sua união. Isso se divide novamente em dois tipos, para proveito próprio ou para proveito da colega acompanhante. Para ganho próprio, ela conta a sua própria história por si mesma, mas para proveito da colega acompanhante, a história pessoal é contada pela outra.

A mais afetuosa, eloqüente e fervorosa Duti que não comete quebra de confiança em face a problemas infindáveis é a Apta-Duti confidencial. Todas as casamenteiras (Dutis das Vraja-Gopis) são desse tipo. Há três tipos de Dutis, i.e. Amitartha (possuidora de táticas excepcionais), Nisrishtartha (possuidora de argumentos espirituosos) e Patrahari (portadora da carta confidencial). Shilpakarini (artista feminina), Daivajña (leitoras da fortuna), Lingini (peritas nos casos de amor em união), Paricharika (ajudantes femininas), Dhatreyi (pajens peritas femininas), Vanadevi (deidade presidente de Vrindavana), Sakhi (amigas queridas) etc. são consideradas Apta-Duti, i.e. mensageiras confidenciais.

Chitrakarini, i.e. pintoras que expressam o coração perdido de amor das Gopis em seus quadros artísticos para a união com seu namorado querido Krishna. Daivajña-Duti, i.e. a mensageira leitora da fortuna, faz a união dos amantes com a leitura dos resultados de seus Zodíacos respectivos. Lingini como Pournamasi que aceitou a veste asceta feminina faz a união. Algumas amigas como Lavanga Mañjari, Bhanumati e alguma outra Paricharika (ajudante feminina) dão o tratamento de beleza à Sri Radhika etc.. Vanadevi é a deidade presidente de Sri Vrindavana. As Sakhis cujos nomes já foram mencionados anteriormente também agem como Duti. Como mensageiras, elas dão referência direta ao ato de cupidez da Gopi respectiva para quem aceitou a missão. Outras usam palavras espirituosas com duplo sentido ou fazem sinais dando a entender o coração ardente daquela que estão ajudando. Elas também experimentam palavras com fingimento, comentários espirituosos, palavras de duplo sentido, glorificação ou repreensão etc.. A fidelidade da amiga querida é tamanha que quando se encontra com Krishna secretamente, se Krishna quiser a união com ela, orgulhosamente e bravamente ela recusa. Há dezesseis tipos de atividades das Sakhis:

(1) Falar bastante sobre a excelência recíproca do Herói e heroína perante cada um. (2) Aumentar a intensidade da atração entre o casal para a união. (3) Decorar a heroína com o máximo de esplendor para o prazer supremo de Krishna e marcar um encontro para a união. (4) Conduzir a Gopi apaixonada para Sri Krishna. (5) Fazer brincadeiras. (6) Dar consolo. (7) Fazer a roupa para o encontro. (8) Revelar o sentimento íntimo do casal para cada um com o máximo de eficiência. (9) Esconder a falha de qualquer um dos dois. (10) Ensinar à Gopi amante cupido como enganar seu dito esposo e outros. (11) Fazer com que o Herói e a heroína se unam em um momento oportuno. (12) Fazer o serviço de ventilar com um abano de espantar moscas. (13) Repreender o Herói ou heroína às vezes quando estão a se examinar. (14) Enviar a mensagem de amor. (15) Durante a dor da separação, quando a Gopi entra em um estado de "vida sem esperança", nesse momento a dura tarefa da Sakhi ajudante é salvar a vida dela com conforto e consolo. (16) Cuidado e atenção em todas as matérias da esportividade do amor cupido para Krishna.

As Sakhis que têm amor tanto por Krishna quanto por Radha em proporção igual ainda assim se consideram admiráveis e dizem "Nós somos as mais queridas de Sri Radhika", elas são as superexcelentes e são chamadas Priya-Sakhis e Parama-Prestha-Sakhis. Todas as Gopis de Vraja se dividem em quatro categorias como Svapaksha (partido próprio), Suhrid-Paksha (partido amigável), Tatastha (partido neutro) e Vipaksha (partido antagônico). O significado dessa divisão é somente criar e aumentar Rasa. O sentimento de orgulho, vaidade, malícia etc., que são características do partido antagônico, não são nada além de nutrição de Rasa. Na realidade, todos esses sentimentos são correntes diferentes do único oceano indivisível de Amor. Para mais detalhes, leia o Sri Ujjvala Nilamani, e o Jaiva Dharma de nossa compilação também pode ser consultado. Não vou avançar mais pois aqueles que não são elegíveis para esse Rasa podem não entender a pureza dessas verdades e se perderem.

Em Madhura-Rasa, beleza, glória, nome, caráter, embelezamento, relatividade e neutralidade da Metade Predominante Sri Krishna e também da Metade Predominada representada em Sri Radha e Seus outros egos projetados, as Gopis de Vraja, são objetos de estímulo. Esses Gunas têm três tipos: da mente, da fala e do físico.

Nesse Rasa, os Anubhavas têm três tipos: Alankar, Udbhasvar e Vachik. Alankar, i.e. embelezamentos, tem vinte tipos como Bhava (começo de Rati), Hava (sinais físicos) etc.. Quando o sentimento interno do coração faz uma leitura do físico da Nayika (heroína), chama-se Udbhasvar. Anubhavas Vachik (falados) têm doze tipos como Alapa (comentários lisonjeiros espirituosos muito agradáveis). Vilap (expressão da tristeza do coração) etc.. Em Madhura-Rasa, há oito tipos de Sattvik-Bhavas como a letargia proveniente da alegria, medo, remorso e ira, transpiração etc.. Com exceção de ferocidade e preguiça, todos os outros sentimentos comoventes chamados Vyabhichari-Bhavas se manifestam nesse Rasa.

Madhura-Rati é o sentimento permanente desse Rasa. Esse Rati se origina de alegação, possessão, relação, xingamento, semelhança, afinidade especial, i.e. pelos pés de lótus etc., e natureza. O Rati que cresce da natureza é o melhor. A virtude característica que se expressa sem esperar por nenhum outro motivo se chama natureza própria (i.e. Swabhava). Há dois tipos de Swabhava: Nisarga (hábito auxiliar) e Swarupa (hábito inato ou natural). Os hábitos auxiliares são misturados devido à forte afinidade. A glória, beleza e audição, etc. coagulam algum tipo de hábito auxiliar, isso devido a todos eles em inumeráveis nascimentos anteriores com o forte apego do Jiva ao objeto material que cria naturalmente um hábito conhecido como auxiliar ou natural mas não o Swarupa natural. Por isso, o sentimento de Amor inato e sem causa é Swarupa ou a própria natureza. O sentimento de Amor natural e imaculado tem três tipos. Ele pode ser irresistivelmente ligado a Sri Krishna ou Suas amantes cupido ou a Ambos. As amantes cupido de Gokula possuem o sentimento de amor natural, i.e. sem causa e inato, em relação a Sri Krishna. O Rati dos aspirantes é derivado e adquirido. Surge por alegação etc.. Se o aspirante for bem sucedido em se habituar com esse sentimento, pode obter o amor inato das amantes cupido.

Há três tipos de Rati: Sadharani (ordinário), Samanjasa (consistente) e Samartha (amante). O Rati da Gopi de Vraja é Samartha, i.e. não tem nenhuma restrição, transcende todas as fronteiras sócio-religiosas. O Rati da rainha é consistente, i.e. é amor matrimonial. O Rati de Kubja é ordinário, i.e. há desejo por prazer egoísta em seu Rati. O Rati das Gopis é chamado Samartha pois em relação à transcendência, é perfeitamente apropriado e inequivocadamente justo. É o poder mais elevado que pode esquecer tudo mais. Madhura Rati fica extremamente forte quando desafiado por alguma caracterização antagônica mas se permanecer invencível nesse momento, recebe o nome Prema. Esse Prema fica cada vez mais doce ao se misturar com Sneha, Mana, Pranaya, Raga, Anuraga e Bhava. Há uma superioridade gradual no sabor da cana-de-açúcar, em seu caldo, melado, açúcar-demerara, açúcar, açúcar-cande e o tipo superior chamado Sitotpala, assim, Rati, Prema, Sneha, Mana, Pranaya, Raga, Anuraga e Bhava são as classificações superiores graduais do mesmo supremo Krishna Prema. Aqui, Bhava indica Mahabhava, i.e. o arrebatamento mais extático. Quando alguma absorve um tipo particular de Prema, Sri Krishna alimenta o Bhava dele de acordo, ao Se apresentar como o Objeto recipiente. Em Madhura-Rasa, mesmo quando há um motivo claro para a dissolução do amor entre o Herói e a heroína, e seu vínculo de sentimento não enfraquecer, esse sentimento se chama Prema. Prema admite três tipos: Praudha (desabrochado), Madhya (início da maturação) e Manda (inferior).

Ao adquirir supremacia, Prema anima e derrete o coração, esse estado de Prema se chama Sneha. Há dois tipos de Sneha. Um se chama Ghrita-Sneha e o outro, Madhu-Sneha. Quando a Nayika serve seu Herói com mais dignidade e consideração, isso se chama Ghrita-Sneha. Quando surge na mente a sensibilidade de que o galante amado Krishna é só seu, esse sentimento é Madhu-Sneha, a Beatitude super excelente. O caráter de Rati se expressa de duas maneiras: um que possui a vaidade "eu pertenço a Krishna" e o outro, "Krishna é meu". O primeiro é Ghrita-Sneha onde predomina dignidade e consideração, e o último é Madhu-Sneha, i.e. que é o mais nectáreo e onde o prazer extático é predominante e quente em sua dignidade. O primeiro é o sentimento de Chandravali e o outro é o sentimento de Radha.

Quando o Sneha encantador e gracioso de Sri Radha atua em duplicidade com Seu galante amado Sri Krishna, chama-se Mana. Udatta e Lalita são dois exemplos de Mana. Uma se refere ao sentimento Ghrita-Sneha de Chandravali e a outra se refere ao sentimento Madhu-Sneha de Sri Radha. Sentimento ininterrupto de unidade de coração com o Galante Amado Sri Krishna é Pranaya, que é livre de todo medo e dúvida.

Em alguns casos, Sneha gera Pranaya e finalmente se forja em Mana. Novamente em alguns casos, Sneha primeiro apresenta Mana e finalmente conduz a Pranaya. Quando Pranaya entra em seu zênite e quando o sofrimento extremo é considerado felicidade, esse estágio de Pranaya se chama Raga. Raga tem dois tipos como Nilima e Raktima. Permanente (Sthayi) Madhura Bhava, trinta e três Vyabhichari Bhavas e sete Bhavas secundários, i.e. no total, quarenta e uma mudanças de Bhavas. O Raga que incrementa naturalmente e espontaneamente e deixa o galante Sri Krishna mais e mais satisfeito e quando Ele fica totalmente subjugado a Ela, chama-se Anuraga. Isso faz com que tanto Sri Radha quanto Sri Krishna fiquem mais dependentes um do outro, cria um encanto maravilhoso e produz êxtase no coração. Quando entra em seu zênite, causa a sensação, como se estivesse para nascer como um ser não sensível e em Vipralambha, i.e. Amor em separação, Ela sente a união com Sri Krishna. Esse tipo de Vipralambha (Amor em separação) é Prema-Vaichitya. Ou na união, quando Ela sente que Krishna A deixou e foi para outro lugar, isso também é Prema-Vaichitya (i.e. na união, o senso de amor em separação).

Quando esse Anuraga alcança seu clímax e obtém Yavada-Asrava-Vritti (limite máximo permitido em Anuraga) e Sama-Vedya-Dasa, i.e.  quando Anuraga causa o esquecimento de Suas duas identidades separadas ao fundi-Los em uma só e Os deixam conscientes somente sobre Seu transe extático de Seu amor divertido, esse sentimento de Anuraga se chama Bhava e Mahabhava. Isso é exibido pelo puro Sattvik-Bhava com resplendor pleno para que também possa ser conhecido por outras pessoas competentes em particular.

Para uma melhor compreensão, podemos consultar os comentários de Sri Jiva Goswami e Srila Visvanatha Chakravarti Thakur também. Sri Rupa Goswami comparou os corações de Sri Radha e Krishna a dois pedaços de laca. Quando os dois pedaços de laca são derretidos juntos pelo calor, eles se tornam um. Nesse momento, não é possível distinguir Suas marcas distintas prévias. Assim, quando os corações de Sri Radha e Krishna se fundem com o calor de Anuraga, não é possível distinguir quem é a Metade Predominante Krishna como Vishaya e quem é a Metade Predominada Radha como Ashraya. Durante o transe extático sem precedentes de Vilasa, Eles se esquecem completamente de Suas identidades e mergulham profundamente na doçura de Vilasa. Sua atenção fica completamente absorta em como incrementar a excelência da destreza em Seus passatempos de Amor. Isso se chama Vilasa Vaibarta, a grandeza e dignidade de Vilasa. "na sva ramana, na ham ramani, duhu mana-mana bhava peshal jani" etc. como diz o poema de Sri Ramananda Raya, que recitou para Sriman Mahaprabhu no local conhecido como Kovur na margem do rio Godavari durante a discussão sobre os valores relativos de sentimentos religiosos, esse é o melhor exemplo. A marca característica de Mahabhava só se vê em Sri Radha e em ninguém mais.

No amor matrimonial de Sri Krishna, Mahabhava é raro. É propriedade pessoal das Vraja Devis especialmente Sri Radhika. Há dois tipos de Mahabhava chamados Rudha e Adhi-Rudha. Quando todos os Sattvik-Bhavas se manifestam plenamente, é Rudha.

Inquietação extrema a cada momento, as dores resultantes, perturbam extremamente os corações das companheiras queridas, sensação de tremor nos olhos durante Kalpa, esquecimento de tudo inclusive seu próprio eu, assim são alguns Anubhavas em Mahabhava que passa no coração a cada instante, e isso acontece tanto em separação quanto em união. Em Adhi-Rudha, Mahabhava, i.e. o zênite do amor, tem dois tipos: Madana e Mohana. De Mohana surge a extrema dor de separação como Diyonmada, i.e. loucura divina aguda, que faz surgir Udghurna, Chitrajalpa, i.e. no momento da dor aguda de separação, ela se encontra com um amigo de Sri Krishna, então com muito ciúme no coração, ela confessa a ele seu sentimento para dar-lhe um pouco de compreensão sobre seu coração. Isso é Chitrajalpa. Esses dois Mahabhavas surgem na ocasião quando Krishna vai para Mathura. Chitrajalpa tem os sintomas: 1) Prajalpa. 2) Parijalpa. 3) Vijalpa. 4) Ujjalpa. 5) Sanjalpa. 6) Avajalpa. 7) Abhijalpa. 8) Aajalpa. 9) Pratijalpa. 10) Sujalpa. O Décimo Capítulo do Srimad Bhagavatam chamado Brahmara-Gita os descreve.

Prema é a essência da potência Hladini. Quando todas as características transcendentais de Prema se manifestam plenamente com o supremo brilho resplandecente super excelente, chama-se Madana. Isso está presente eternamente em Radha somente e em nada mais. Esse é o zênite de Vraja Prema, o Erotismo final de Vraja Lila. O termo "Madana" significa que tem a potência de apaixonar e inebriar Sri Krishna, o Senhor dos senhores.

Krishna exclusivamente é a fonte original de Rasa, "raso vai sah". Ele é infinito, onisciente e onipotente. Nada está fora da Sua visão. Nada está além do Seu alcance e obtenção. Mas como Sua virtude maravilhosa é "da inconcebível coexistência distinta e não distinta ", Ele possui um Rasa mas ao mesmo tempo, Ele possui Rasas inumeráveis. De Sua própria Divindade, quando Ele saboreia Rasa, aí é Atmarama ou auto-satisfeito. Aí Ele é tudo em tudo mesmo. Nesse instante, nenhum Rasa separado emana Dele. Além disso, quando Ele Se sente inclinado a saborear diferentes aspectos eróticos da beatitude do amor, Ele separa Sua própria Hladini Shakti na pessoa de Sri Radha. Apesar de ontologicamente a Metade Predominante Sri Krishna e a Metade Predominada Sri Radha serem uma e a mesma, morfologicamente Elas Se tornam duas Entidades diferentes para saborear Rasa. Então o amor de Sri Radha em Sua Supremacia, i.e. Erotismo, traz a destreza plena da Filosofia do Amor Transcendental para a satisfação completa de Sri Krishna. Isso se expande totalmente desabrochado em Vrindavana. Assim o Rasa que Ele saboreia de Seu próprio Eu pode ser agradável, mas o Parakiya-Rasa de Sri Radha se eleva ao limite de Madana que é a característica suprema final do Amor. Isso permanece sempre com toda sua pureza em Goloka, o reino transcendental permanente do Amor. O mesmo se reproduz em Vraja em sua forma inadulterada, mas para os olhos iludidos, parece de Maya.

Ó devotos aspirantes por Prema! Vocês adquiriram o sentimento por Prema pela prática dos nove princípios da Bhakti ritualística (Vaidhi-Bhakti) e cruzaram os quatorze mundos grosseiros. Agora prossigam adiante ao deixar para trás seu Haradham situado no topo desses quatorze mundos. Então vão penetrar nos dois Stratas do Viraja que consiste de Sattva puro. Esses são Brahma-Dhama e Vaikuntha-Dhama. Aí vão alcançar a fronteira de Goloka-Vrindavana. Cinco tipos de sentimentos brilham supremos em Goloka. Eles são Shanta, Dasya, Sakhya, Vatsalya e Madhura. Ao entrar em Madhura-Rasa, vocês convertem o corpo de Maya no corpo de uma Gopi que é sempre eterno e transcendental. Então, você pertence ao grupo de Sri Radhika através do grupo de Lalita, você eleva seu sentimento permanente em Rasa por meio dos sentimentos puros e transcendentais de Vibhava, Sattvik-Bhava e Vyabhichari-Bhava pela misericórdia de Sri Rupa Mañjari. Se sentir atração em recitar Nama e em ser versado na filosofia de Rasa, pode cumprir sua missão por adquirir Prema até o limite de Mahabhava. Ao decidir sobre sua elegibilidade presente, você adota Vairagya devocional (renúncia e sempre beber a doçura nectárea de Nama). Aí vai obter o direito Supremo de cumprir a sua missão.

No julgamento sobre Madhura-Rasa, eu não coletei mais detalhes. Pois aqueles que forem elegíveis para este Rasa, podem consultar "Sri Ujjvala Nilamani" de Sri Rupa Goswami, "Jaiva Dharma" de nossa compilação, etc. para mais detalhes. Ao conhecer todos os tipos de Rasa e entrar no Lila eterno de Krishna que consiste nas oito partes do dia (Astakaliya-Lila) , você serve de acordo com sua elegibilidade, com seu próprio sentimento e ação. Assim você obterá rapidamente o sucesso na Realidade. Se adotar austeridades devocionais, surgirá a característica da vida religiosa de um Paramahamsa.

Aqueles que têm atração por prazeres sensuais e dão preferência a eles e que não são cientes sobre a bem-aventurança transcendental não devem ouvir, lembrar ou cultivar esses Passatempos Divinos de Amor. Porque vão considerar esses Lilas como materiais e irão condená-los terrivelmente. Senão, eles vão tomar o caminho dos Sahajiyas e condenarem-se à sua própria destruição.

O poeta erótico Sri Jayadeva Goswami escreveu em seu Gita Govinda:

"Se você tem cabeça para manter Krishna em sua memória imediata, se você tem curiosidade em conhecer a destreza do Lila transcendental de cupido, então deve ouvir as canções doces e delicadas do poeta Jayadeva Sarasvati".

Sobre o Rasa-Lila que compreende cinco capítulos descritos no Srimad Bhagavatam, Sri Shukadeva alerta da seguinte forma:

"Se qualquer Jiva composto de carne e sangue quiser imitar o puro e agradável Lila Erótico, vai condenar-se à sua própria destruição. O deus Rudra pode engolir veneno, mas se alguma criatura terrestre por sua própria tolice tentar fazer isso, sua morte é inevitável".

Sriman Mahaprabhu instruiu os Jivas para estudarem o caráter de Sri Krishna como descrito no Srimad Bhagavatam, assim vai ser possível obter a bem-aventurança Suprema.

No Sloka conclusivo do Srimad Bhagavatam com quatro versos, afirma-se: "Entre todos os tipos de verdade espiritual, o melhor conhecimento é 'Amor é a única necessidade'". Isso aparece no caráter de Sri Krishna de duas maneiras, uma indireta e outra direta. O sabor direto de Rasa pode ser obtido por meio do Lila diário eterno que é Astakaliya-Lila, i.e. o Lila que consiste de oito partes do dia. A verdade espiritual de Krishna também pode ser obtida por meio do Lila de matança de demônios. A começar com a matança de Putana até a morte de Kamsa, é o Lila de matar demônios. Esses Lilas existem em Vraja na forma oposta ou indireta. Mas em Goloka não qualificado, existem como uma mera vaidade. Para falar a verdade, eles não existem lá e nem podem existir. Quem gostar de Rasa, pode purificar seu coração por meio da leitura desses Lilas opostos ou auxiliares, e saborear o Astakaliya-Lila direto pode dar a visão de Goloka. Aqui eu disse até esse limite muito brevemente. O devoto que desejar obter Prema vai entendê-lo por meio do cultivo mais cuidadoso. O terceiro Sloka do Srimad Bhagavatam diz o seguinte:

"O Srimad Bhagavatam é o fruto maduro suculento da árvore-dos-desejos dos Vedas. Ele caiu do céu para esta terra através da boca de Shuka Muni que saturou-o totalmente com a doçura de Rasa. Krishna-Lila é o Rasa desse fruto. A peculiaridade desse fruto é que não tem nem caroço nem casca ou qualquer substância seca. Ele não tem nada além de Rasa. Ó devotos, que gostam do Lila Transcendental de Amor! Bebam sempre para a saciação de seus corações a doçura nectárea desse fruto, mesmo após a sua emancipação. Aqueles que fazem isso são realmente afortunados".

Enquanto houver necessidade de cultivar Lila auxiliar, i.e.  matança de demônios etc., para a purificação do coração, até esse ponto não é possível mergulhar profundamente em Maha-Rasa. Tão logo surja o resultado do cultivo do Lila adverso, até esse momento, é necessário cultivar ambos os Lilas descritos no Srimad Bhagavatam. Então saboreie Rasa, ao entrar em Astakaliya-Lila e saborear os outros Lilas de Vraja, você destrói todos os males, que obstruem o caminho para a obtenção do Rasa real. Assim, a visão e obtenção de Goloka fica fácil.

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

 

Capítulo VIII

 

1

Conclusão

 

Este nosso livro deve ser tratado como um estudo comparativo das verdades do Vaishnavismo. Não deve ser tratado como Lila Grantha que é para saborear. Se fosse assim, o Lila amoroso de Sri Radha e Krishna que é doce por excelência teria sido descrito. Em vários livros, Décimo Canto do Srimad Bhagavatam, Sri Gita Govinda, Sri Govinda Lilamritam etc., descreve-se uma grande variedade de Lilas para os devotos saborearem. Além do mais, é difícil escrever neste livro a verdade que é matéria para saborear. Este livro é simplesmente um livro sobre devoção pura.

Pessoas sábias afirmam que há cinco órgãos de decisão, a saber: 1) Sujeito. 2) Dúvida. 3) Reconciliação. 4) Oposição. 5) Conclusão. Alguém pode perguntar: Qual é o sujeito da sua discussão. Nossa resposta é a seguinte: A vida do Jiva é a matéria da discussão. Qual é a dúvida? A dúvida que nos confronta é: O que é a vida e qual é o seu objetivo? Nossa resposta é: A vida do Jiva tem dois lados. Um é o da vida pura e o outro é o da vida em cativeiro. A vida pura existe no reino sensível eterno, i.e. Chit-Dhama, que é eterno, puro e bem-aventurado, onde não existe carência, nem sofrimento, nem medo, nem morte. A vida em cativeiro só existe neste mundo mortal e também tem dois lados, externo e interno. A vida externa não se destina a Chit-Dhama, não tem afinidade com isso. A vida com tendência interna embora pareça com a externa, ainda assim tem inclinação a Chit-Dhama, e curiosidade sobre isso.

A vida em cativeiro (i.e. que tem mentalidade externa) tem quatro tipos: 1) Vida em cativeiro que é desprovida de moralidade e crença na Transcendental Suprema Personalidade de Deus. 2) Vida em cativeiro que possui moralidade mas não tem fé em Deus. 3) Vida em cativeiro que tem senso de moralidade bem como de Deus. 4) Vida pervertida que se deturpa no pensamento de algum Ser indeterminado que se considera como a Realidade Última.

Vida em cativeiro que é desprovida de moralidade e crença em Deus tem dois tipos: 1) Vida sem ser humana e 2) vida humana. A vida de animais, pássaros etc. é a vida dos que não são seres humanos. A faculdade intelectual nesse tipo de vida é praticamente extinta. A vida humana desprovida de moralidade intelectual novamente se subdivide em duas categorias. No estágio incivilizado primitivo, o ser humano vive na floresta. Nessa vida, os seres humanos fazem trabalhos conforme sua livre vontade ou instinto, como na vida dos animais. Os de vida selvagem, guiados por medo e expectativa, consideram o Sol, a Lua e todos objetos brilhantes como deuses separados. Nesse estágio, não há moralidade ou realização sobre a Divindade real. A faculdade natural de devoção do Jiva, quase extinta aí, ainda mostra sua existência dessa forma e isso é tudo. Há certas pessoas que adquirem o conhecimento sobre a matéria e seu poder, e incrementam a ciência material com o exercício de seu intelecto e assim servem ao prazer de seus sentidos mas não possuem moralidade ou fé em Deus. Elas se situam na categoria de vida humana que é desprovida do senso de moralidade. Elas não ligam para moralidade nem para a Divindade.

Esse tipo de vida quando se interessa por moralidade, cai na segunda categoria, i.e. vida em cativeiro que possui moralidade sem fé em Deus. Novamente, quando essa vida indica a fé em Deus, passa para o terceiro estágio, i.e. vida em cativeiro que possui fé em moralidade bem como em Deus. Mas nesse tipo de vida, o dever a Deus se torna subordinado a regras normais de conduta e não atua livremente, portanto sua mentalidade externa não é removida. Esse é o terceiro estágio de vida em cativeiro.

De novo, nesse estágio de vida, algum tipo de pensamento Indeterminado sobre Deus ocupa o seu lugar e o Jiva se torna subjugado por esse tipo de pensamento que arrebata sua moralidade e transforma gradualmente a fé no Deus Pessoal em algum tipo de fé na Indeterminação, essa é a vida com mentalidade externa que se chama pervertida. É o quarto tipo de vida externa em cativeiro.

Mas aqueles que consideram Deus como a Causa total e Objetivo total da vida, e trazem toda ciência, arte, moralidade, teoria sobre Deus e todos os tipos de pensamentos para o controle da devoção a Deus e conduzem sua vida cotidiana de acordo, apesar dessa vida ser em cativeiro, ela é introspectiva. Assim, essa vida se chama a vida devotada de um aspirante.

O objetivo principal da vida é mergulhar profundamente em Chit-Rasa do Jiva enquanto mantém o relacionamento com a virtude serena iluminada da alma e se livra de todos os tipos de conexão com o mundo material. Esse é o fruto da vida introspectiva.

Ao ouvir esse nosso argumento, os quatro tipos de Jiva prejudicados com mentalidade externa mencionados acima podem contra-argumentar a partir da plataforma de seu próprio ponto de vista, i.e. do ponto de vista de seu próprio apego ou estima. Sentados em seus compartimentos separados e com seus próprios pontos de vista, eles chegam em alguma outra decisão com a ajuda da razão e em consideração a sujeito, dúvida, reconciliação, arrependimento etc. como dito antes. Essas decisões vão servir como nossas decisões contrárias. O significado inerente disso é que qualquer decisão tomada pelo Jiva situado em um nível inferior é geralmente contra-atacada por um Jiva situado em um nível imediatamente superior, e eles tomam alguma decisão diferente. Se mencionarmos essas decisões, será palpável que a decisão anterior feita pelo Jiva de vida inferior seja repelida. Nós vamos seguir o mesmo curso aqui. Ou seja, será nosso dever contra-atacar o argumento do Jiva que é claramente distinto como pertencente a um nível de vida inferior. Neste livro, as decisões foram ilustradas em alguns lugares ou outro. A fim de facilitar a compreensão, vamos recapitulá-lo brevemente.

Jivas com mentalidade externa que são desprovidos de moral avançam na concepção de que este mundo maravilhoso foi criado pela conjunção e separação de átomos segundo a lei eterna da natureza. Não existe um criador para isso. A crença que temos em Deus não passa de preconceito. Se há necessidade de uma grande consciência como Deus, então isso envolve outra necessidade de uma consciência maior, para a criação de Deus. Assim a crença em Deus não permanece fixa e constante. Segundo a formação do cérebro material, que existe no corpo físico, surge o intelecto. Quando essa formação se quebra, o intelecto não pode existir. O que acreditamos ser a alma é apenas fé cega. Quando o corpo cair, não vai haver existência, ou vai se dissolver na causa primária. Por isso, desde o nascimento até a morte, você deve aproveitar o prazer ao máximo que puder. Mas lembre-se que deve ser cuidadoso somente em relação ao aproveitamento do prazer, para que não conduza no futuro a alguma forma de desagrado mundano que consista de convicção, punição capital, matança de vida, inimizade com outros, doença, infâmia etc.. Prazer corpóreo é a necessidade, pois além disso, não existe outro prazer. Você tem que tentar progredir ao máximo para a promoção de seu prazer corpóreo, por meio de diligência e intelecto, ciência, indústria, artes e manufaturas etc.. Remover a vida selvagem, incrementar a beleza de suas roupas, corpo e civilização externa. Aprecie o prazer ao comer boas comidas, usar artigos perfumados, dedilhar instrumentos com timbre doce, colecionar belos quadros, criar coisas adequadas a seu prazer corpóreo. Incrementar a beleza com a construção de palácios magníficos, fabricar vários meios de transporte e usá-los. A civilização é a excelência da vida humana. Registrar a história para uso na vida. Preservar verdades que você descobrir por meio de pesquisas. Não acredite em coisas sobrenaturais ou irracionais, e assim por diante. Sempre que o prazer coletivo e o seu prazer individual entrarem em conflito, abandone o prazer coletivo e melhore o seu. Quando ouvem essas palavras racionais, as pessoas incivilizadas e ignorantes que levam vida selvagem desistem de seus trabalhos anteriores e se ocupam em melhorar a condição de vida. Sua fé no Sol e na Lua, manter a subsistência com a morte de animais e viver na floresta como animais, todos esses trabalhos bárbaros são removidos. As pessoas com mentalidade externa que são desprovidas de moral mas que são grandes defensoras de seu próprio raciocínio são soberbas e orgulhas ao abraçarem essa visão. Charvak, Sardeneplas etc. que defendem somente o prazer dos sentidos são exemplos desse tipo de vida.

Mas os Jivas com mentalidade externa que têm fé em moral podem derrotar facilmente os citados acima com a expressão de seu intelecto. Eles dizem: Bem, irmãos, nós aceitamos qualquer coisa que disseram mas não admitimos a sua arbitrariedade. Você supõe o prazer da vida, mas como pode haver prazer na vida sem moral? Não considere a sua vida como a única vida. Você afirma que essa vida social é a vida. As regras que podem promover a prosperidade da vida social são preferíveis, e se chamam moral. Segundo essa moral, o aproveitamento do prazer confirma a predominância do ser humano sobre o animal. Por isso, o seu sofrimento, obtém-se o bem-estar social quando seu sofrimento é próprio e justificado, e esse é o dever da humanidade. Isso se chama lei da abnegação ou desinteresse. Essa é a virtude do ser humano. Cultivar os sentimentos principais como amor, fraternidade, misericórdia, etc. para a promoção do bem-estar e prosperidade social. Assim, as propensões malignas como inveja, malícia, etc. não podem poluir sua mente. Amor universal é prazer universal. Adote esse meio para assim promover esse bem-estar social. Esse é o ponto de vista de otimistas como Compte, Mill, etc. e socialistas como Herbert Spencer, e também o ponto de vista oculto geralmente mantido pelos Bouddhas e ateístas. Os moralistas que têm fé em algum tipo de Deus imaginário aceitam essas coisas mas acrescentam algo mais. Eles afirmam que a fé em Deus também é uma moral. Enquanto não acreditar em Deus, sua moral permanece incompleta. Com a crença em Deus, nota-se claramente algum deus moral.

1) Mesmo se o senso de moralidade ficar forte, os sentidos das pessoas são mais fortes o suficiente para exceder a mente até dos maiores moralistas e atraí-los aos objetos dos sentidos. Caso não seja notado, se houver alguma oportunidade de aproveitar o objeto dos sentidos, a fé em Deus é apenas preventiva. Aqueles que têm convicção de que o que não é visto por nós é visto por Deus, evitam fazer qualquer trabalho imoral mesmo em segredo. 2) Se houver fé em Deus, mesmo durante a hora da morte, essa fé traz felicidade e remove o sofrimento em grande parte. 3) Todos admitem que a fé em Deus é mais útil para o incremento da propensão em fazer virtude na Terra do que o mero senso de moralidade. 4) Pessoas que têm fé em Deus podem obter mais paz mental do que as pessoas versadas apenas em moralidade. 5) Fé em Deus. Se Ele existir vai ser muito bom. Se Ele não existe, mesmo assim essa fé não vai fazer mal. Por outro lado, se Ele existir, vai haver muita perda para os descrentes. Por isso, a fé em Deus é extremamente necessária para quem é um profundo moralista. 6) Existe prazer na adoração a Deus e esse prazer é puro em comparação com outros prazeres que são culpáveis. Não existe problemas no prazer divino mas no prazer material há sempre problemas. 7) A propensão da faculdade mental em ir pelo caminho correto se nutre rapidamente com a fé em Deus, mais do que qualquer moral. 8) A fé em Deus dará mais força para a bondade e o perdão. 9) A fé em Deus dará mais entusiasmo para o trabalho abnegado. 10) Se há fé em Deus, surge o senso de pós vida.

Nesse caso, o ser humano não fica desapontado com nenhum tipo de evento. Ó irmão, se você acha que Deus não existe, mesmo assim, por causa das razões ditas acima, e também por várias outras razões, é absolutamente necessário acreditar em algum Deus mesmo que imaginário. Ao ver os resultados diretos, quem não acredita em Deus é derrotado por quem acredita em pelo menos algum Deus imaginário. Pelo menos, admitem alguma verdade imaginária de adoração como Compte. Apesar de haver diferenças em certos aspectos entre o Karma-Kandha (trabalhos cerimoniais) de Jaimini, meditação em Deus de Patañjali, adoração imaginária recomendada por Compte, ainda assim, o produto final de todos é o mesmo. Compte expressou seu sentimento claramente. Mas Jaimini e todos os outros que acreditam em Karma (trabalhos cerimoniais) são mais cuidadosos e não tornaram público claramente seus sentimentos.

Quando a teoria do Deus imaginário fica forte, a pessoa fica suscetível a acreditar na existência da Divindade. Quem acredita na Divindade real, diz, "Irmão, não chame Deus de verdade imaginária. Deus existe mesmo. Cultive as seguintes verdades ocultas com muito cuidado".

1) A lei e ordem do mundo é tão perfeita que por meio do exame, não há dúvida de que este mundo foi criado pela Consciência Suprema. O poder racional do ser humano é a faculdade mais elevada por cujo exercício adequado, descobre-se a verdade. Se você evitar alguma minúcia, em algum lugar vai ter erro com certeza. No ato do raciocínio, a compenetração é urgentemente requisitada, senão a razão não vai muito longe. Com a adoção de dois lados quando você procede em determinar o fim, terá que escrutinar se esses dois lados eram puros inicialmente. Por exemplo, a montanha está queimando, deduz-se ao ver a fumaça. Nesse caso, quando há fumaça, há fogo, esses dois lados devem ser corretos. Em segundo lugar, o que você vê como fumaça tem que ser fumaça real e não névoa ou outra coisa. Se essas duas coisas estiverem corretas, então o fato da montanha queimar deve estar correto. A determinação relacional é o processo principal de dedução. No caso da criação, a beleza e a perfeição são notadas tão claramente que você aceita isso como o primordial, e depois saiba bem que tudo o que acontece por acidente não é tão perfeito. Essa perfeição foi alcançada pela consciência de habilidade superior. Pela comparação dessas duas coisas, você agora deduz que uma consciência superior criou este mundo.

2) Não existe trabalho sem autor. Se você afirma que tem de existir o autor dos autores, mas para isso pode-se afirmar com boa razão que todo autor material necessita de outro autor. Uma forma se concebe por meio do intelecto no estágio inicial, mas depois quando essa forma se transfere em uma ação, torna-se um trabalho material. A sensibilidade que se caracteriza pela consciência é o autor primordial da coisa material. Mas o autor desse intelecto não se vê, portanto, quem pode dizer que há necessidade de uma autor para a consciência? Com o ângulo do ponto de vista materialista, você formou algum hábito e devido à extensão errada dele, você procura o autor da consciência e esse é seu preconceito. Você deve evitar isso e acreditar em Deus por meio da razão pura e inadulterada.

3) Se Chaitanya ou consciência se torna o produto da conjunção de átomos em processo especial, então uma ilustração de sua origem deve ter sido registrada na História em algum país ou local. O ser humano nasce do ventre da mãe. Não tem nenhuma outra origem a não ser essa. A ciência avançou bastante, mas tantos milhares de anos se passaram e a ciência não consegue ver nada mais além disso. Se você afirma que o ser humano surgiu por acidente mas agora ele adotou o sistema de nascer do ventre da mãe. A resposta é: Nesse caso, como no primeiro incidente, deveria haver outro incidente também. Mesmo hoje, também deveríamos ter a sorte de ver alguma pessoa auto-revelada como Swayambhu que não tem origem no nascimento. Assim a criação original com pai e mãe não pode ser solucionada por nenhum outro meio além da Consciência Universal exclusivamente.

4) Onde quer que haja ser humano, há a crença inata em Deus. Crença em Deus é a virtude natural da humanidade. Se você afirma que no estágio primitivo havia crença em Deus mas depois, como o exercício da razão, foi removida. Sua resposta: Ilusão não é a mesma em toda parte. Somente a verdade que permanece a mesma. Por exemplo, ao adicionar dez em dez, o resultado é vinte. O resultado dessa adição permanece o mesmo em todos os países porque é verdade. A crença em Deus é encontrada até em países remotos, mas no curso da assim chamada educação, semeia-se o preconceito e dá início a tantas teorias imperfeitas, mas isso não é objeto da nossa discussão aqui.

5) Se a vida humana desejar se elevar, então é absolutamente necessário admitir Deus e o pós-vida, não se tem esperança ou confiança na vida que termina em um curto período de tempo. Na natureza humana, a crença em Deus é uma virtude natural, assim a pessoa pode ter aspiração, fé e confiança superiores, e objetivo de longo alcance. A natureza da pessoa que não tem crença em Deus é de mentalidade estreita e desprezível.

6) Crença no Deus que é real, e conquistada por razão firme e gratidão a Ele, se essa discussão religiosa não acontecesse, então há falta de adoração a Deus, que é a fonte original de toda a moralidade. Dessa forma, a vida humana se torna incompleta e a pessoa se torna uma pecadora.

Com esses argumentos, você melhora seu conhecimento e com a ajuda desse conhecimento, você eleva sua vida por incrementar a ciência, arte, moral e crença em Deus, e fazer bem ao mundo. Então, isso lhe dará paz e felicidade no pós-vida. Com o desprezo a Deus, seja lá o que faça, não lhe dará felicidade no pós-vida. Veja irmão, você esperou tantas coisas de seu Deus imaginário, mas agora vai ver que Deus que é verdadeiro e real vai fazer o bem para você numa extensão infinita. É dever obrigatório da humanidade cultivar ciência, arte, moral etc., junto com o conhecimento sobre Deus. Tal cultivo tem dois tipos, um é o cultivo adequado e justo, e o outro, o injusto. Chama-se cultivo injusto quando a pessoa sem esperar sua própria capacidade pratica de forma imprópria e sem merecer. É bom para ela fazer o cultivo na medida em que merecer e de acordo com sua capacidade. Se fizer mais ou menos, não vai produzir bom fruto. A habilidade cresce conforme a natureza. A natureza também é o estágio preliminar, revive-se pela educação e companhia. Irmão, portanto decida sua natureza primeiro e depois adote religião de forma científica com base em casta e ordem sociais estabelecidas na Índia. Se fizer isso então poderá realizar trabalhos de acordo com a sua elegibilidade propriamente e obter bons resultados. Novamente me deixem dizer, você conhece sua alma imortal por meio da sua razão clara e fé natural. Então sua vida lícita será perfeita e bela. Você sem dúvida observa a alma desde o exato momento do nascimento dentro do ventre da sua mãe, mas agora a decorou com sua visão divina e sentimentos mais elevados. Você existia antes deste nascimento e vai permanecer depois da morte. Se não conseguir chegar a essa conclusão, sua crença em Deus não vai ser pura nem estável. Você considera se uma pessoa nasceu em uma família de pessoas piedosas, que sua honestidade e piedade se tornaram fáceis. Mas se uma pessoa nasceu em uma família impiedosa, tem toda a possibilidade de se tornar desonesta e impiedosa. Sua educação e companhia adquiridas comprovam a favor ou contra. Mas quando seus intelectos se tornam firmes, então suas naturezas se tornam determinadas. Executar trabalhos de acordo com elas, se uma obtém resultado infinito em uma vida então uma pode obter finalmente o céu e a outra, o inferno eterno. Mas será que é o trabalho justo de Deus, que é onipotente, todo misericordioso e todo justo? Nas religiões triviais onde se admite todos os trabalhos em uma vida, essa religião finalmente é incompleta e injusta. Não se confine nesse tipo de religião, admita os valores superiores da vida e adote Varnashrama-Dharma, i.e. religião com base em casta e ordem sociais. Nesse caso, você obterá imenso prazer. O dever principal do ser humano é executar trabalho. Há dois tipos de trabalho: um é egoísta e o outro, abnegado. Você não deve ter gosto por trabalhos egoístas que só satisfazem aos sentidos. O nome do trabalho abnegado é cumprimento do dever. Durante o cumprimento do dever, se houver satisfação dos sentidos ou não, não há desejo por luxúria pois egoísmo se chama Kama ou desejo carnal. Com a intenção de cumprimento do dever, não há egoísmo. O cumprimento do dever satisfaz o prazer de Deus. Se Deus está satisfeito, obtém-se tanto o prazer real quanto a salvação.

Os moralistas com essa razão e o estabelecimento de Varnashrama-Dharma com fé em Deus passam suas vidas com prazer. Então surge gradualmente a curiosidade para determinar bem a missão da vida. Qual é a relação entre Jiva e Deus? Então esse pensamento ocupa a sua mente. Assim é o estado de vida nova do moralista que tem fé em Deus. Aí eles se arrependem, depois de tomarem tantas decisões, ainda não solucionaram o verdadeiro problema. Depois de refletirem, surgem certas questões em suas mentes. Quem sou eu? Qual é a minha relação com o mundo? Qual é a minha relação com Deus e finalmente qual será minha posição?

Com a deliberação contínua sobre essas dúvidas, eles se reconciliam de três formas: 1) Execução de trabalho que conduz à felicidade pessoal. 2) Aquisição de conhecimento indeterminado com a destruição do interesse pessoal. 3) Aquisição de devoção pura com o cultivo de sua própria virtude ou religião da alma.

Com a primeira reconciliação, os moralistas com fé em Deus chegam à conclusão: "Sou uma criatura insignificante, sou conduzido por religião ou irreligião. Estou atrás de minha felicidade pessoal. Minha relação com o mundo é de aproveitador e aproveitado. Eu sou o aproveitador e o mundo é o objeto de proveito. Neste mundo, em algum lugar, há espaço para o puro prazer. Irei para lá e gozarei da felicidade pura. Minha relação com Deus é essa: Deus é o Criador, eu sou a criação. Deus é o Doador, eu sou o receptor. Deus é o Protetor, eu sou o protegido. Deus é o Salvador, eu sou o salvado. Deus é Poderoso, eu sou fraco. Deus é o Destruidor, eu sou o objeto da destruição. Deus é o Reservatório, eu estou sob controle do destino. Deus é justiça, eu sou o objeto a ser julgado. Se Deus ficar satisfeito, haverá a destruição do sofrimento e eu vou obter o lugar apropriado para a obtenção da felicidade no final". O Yoga espiritual também se inclui nessa categoria de reconciliação, meditação íntima obtida pelos oito sistemas de Yoga é sua ilustração, pois Yama (restrição), Niyama (cumprimento religioso), Asana (postura), Pranayama (prática do controle da respiração), Dhyana (meditação), Dharana (concepção com o direcionamento mental), esses são os órgãos desse Karma. Pratyahara ou retração é a tentativa de obter o fruto. Samadhi (meditação profunda) é a destruição do sofrimento e obtenção da felicidade que é o ganho último.

A segunda reconciliação é que o moralista com fé em Deus descarta o trabalho e fica envolvido no pensamento de alguma indeterminação. Assim ele afirma: "Eu sou conhecimento puro e o Brahman também é conhecimento. Eu sou parte e parcela de Brahman. A matéria grosseira é meu infortúnio. Brahman é diretamente oposto à matéria. Esqueci-me que sou Brahman por isso adquiri um título estranho chamado Jiva devido à ilusão. Não existe nada além de Brahman. O mundo que vejo perante mim é o produto de Avidya. Se houver conhecimento firme de que eu sou Brahman, vou obter Nirvana, i.e. liberdade do prazer e sofrimento. O Nirvana é a missão última da vida".

A terceira reconciliação é que o moralista com fé em Deus afirma: "Eu sou Chit (consciência) na real mas sou Chit da porção menor (i.e. a menor gota) e Deus é o vasto oceano da consciência. O mundo material grosseiro não é falso mas é transitório. O fato de eu ter admitido "eu-ismo" ou "meu-ismo" é devido à minha pobreza de conhecimento. Eu sou um servo eterno de Deus. Minha relação com o mundo material não é duradoura. Mas essa relação nasceu também pela vontade de Deus. Quanto maior for minha aversão pelo mundo material, mais a corrente se afrouxará e a relação Chit crescerá com força. Em minha existência há uma faculdade eterna, a saber, servidão a Deus que é minha virtude própria e todas as outras virtudes são estranhas. Com o cultivo da virtude real, os frutos irrelevantes que nasceram da matéria serão libertados e o fruto eterno de Prema (amor de Deus) será obtido. Então surge o senso de que minha relação com Deus é a de mestre para servo.

Os que estão obrigados à primeira reconciliação dão preferência a Karma (ação) e estabelecem Deus como o todo executivo. O resultado deles não se nota como um sinal eterno. Sua reconciliação não é sem falhas. Deus não tem liberdade de ação em suas vidas. Nota-se várias subordinações em toda parte. Eles se chamam Karmis.

Os que estão obrigados à segunda reconciliação tomam a destruição do eu como o fim e recorrem à reconciliação falsa. Eles se concentram em certas matérias auxiliares e passam sua vida em vão. Eles se chamam Jñana-Kandhis ou falsos buscadores do conhecimento.

Os que estão obrigados à primeira reconciliação consideram a vida da terceira reconciliação como contrária a seu ponto de vista. Eles afirmam: "Você abandona todo prazer material e recorre à devoção e além do mais, conclui que o céu é o lugar da verdadeira felicidade e prazer, e o que nós aspiramos é inferior e insignificante. Ao obter renúncia nesse ponto, i.e. desde Brahma a um objeto móvel do mundo, então não vai tentar melhorar a condição do mundo, e vai separá-lo completamente. Este mundo é nosso campo de trabalho. A execução de trabalhos que são estimados por Deus nos dá a felicidade neste mundo e no próximo. Ao destruir essas coisas, você se põe como um obstáculo na obtenção do nosso prazer".

A resposta é a seguinte do ponto de vista de um devoto: Irmão! Apesar de não haver ganho espiritual na melhoria do mundo, se examinar a vida devotada cuidadosamente, vai ver que qualquer bem feito ao mundo é feito só por devotos. Você melhora ciência, arte, indústria etc. até o ponto que puder, não temos nada a dizer contra isso, ao invés, achamos que isso vai ser vantajoso para nosso próprio cultivo da devoção. Não somos ascetas secos. Nosso ascetismo é saturado com a doçura nectárea da devoção. Somente vamos dizer que todos os trabalhos sejam feitos para o prazer de Deus e não com o motivo da satisfação sensual que é o fruto irrelevante do Karma. Que todos os trabalhos sejam feitos para a melhoria do espírito devocional. Em relação ao trabalho, não há a menor diferença entre a sua vida e a nossa vida. A diferença é que vocês executam trabalhos guiados pelo senso de dever e nós também, misturados com o sentimento de servidão a Deus. Às vezes, devido à nossa aversão, o esforço no trabalho pode afrouxar mas isso é paralelo à sua condição, i.e. quando descansa do trabalho. Mas você descansa para nada enquanto nós evitamos o trabalho para melhorar a devoção a Deus. Para você, o mundo é o campo de trabalho, para nós, ele é o campo de cultivo da devoção. Nós consideramos todos os seus trabalhos como externos, pois vocês executam trabalhos para o bem do trabalho e não para o bem de Deus. Vocês se chamam moralistas com fé indireta em Deus. Portanto vocês são Karmis. Nós somos almas devotadas. Essa é a diferença.

Na vida dos devotos e dos moralistas que têm fé em Deus, os trabalhos em vários lugares são o mesmo, mas em relação à consideração e inclinação, sua natureza é diferente. O moralista com fé em Deus fica sempre absorto em trabalho material mas não se destina à verdade transcendental. Isso é extremamente odioso. Apesar de acreditarem em Deus, eles não estão familiarizados com a característica de Deus ou com a característica natural do Jiva. Eles não podem escapar do ciclo do Karma. Os moralistas que têm fé em Deus quando podem entender que este mundo material é insignificante e aspiram por Chit-Jagat, tentam determinar três caminhos para sair do cativeiro dos trabalhos materiais:

1) Pensar levemente no hábito de executar trabalho material e gradualmente trazer a mente a seu estado de espírito determinado.

2) Oferecer trabalhos executados a Vishnu que é a Personificação de Chit. Deve haver resolução em satisfazer o desejo de Vishnu durante a execução do trabalho, e depois de acabar, oferecê-lo a Sri Krishna.

3) O trabalho que é absolutamente necessário tem de ser feito com a mistura da devoção a Sri Krishna em todos os aspectos. Mas o trabalho que sem ser feito ainda permite a manutenção da vida, deve ser abandonado.

Os que adotam o primeiro caminho são eremitas ou Yogis. Os eremitas querem afrouxar os nós do Karma com grande dificuldade. Pañchagni-Vidya védico, meditação profunda, etc. são processos dos Yogis védicos. Vários Yogas, como os oito órgãos do Yoga, Dattatraya-Yoga, Gorakhanathi-Yoga etc. são prescritos, entre esses, Hata-Yoga como descrito nos Tantras e Raja-Yoga mencionado por Patañjali tiveram uma certa preferência no mundo. Na filosofia de Patañjali, Astanga-Yoga é predominante.

O significado desse tipo de Yoga é que o Jiva atado ao trabalho deve praticar no estágio inicial cinco tipos de rituais como não violência, verdade, teísmo, controle dos sentidos e não aceitar doações de outros, e cinco regras como pureza, auto-contentamento, austeridade, cultivo dos Vedas e meditação em Deus. Assim, os trabalhos malignos serão evitados e quando os trabalhos benignos forem naturais, adquire-se assento, hábito e depois Pranayama, i.e. controle da respiração. Nesse estágio, você medita em Vishnu-Murti e assim imagina Ele. Antes de meditar, você tem de retrair sua mente de todos objetos materiais. Então, quando sua mente estiver completamente em repouso, você pratica Samadhi, i.e. meditação profunda. O significado principal desse processo é que Karma vai sendo abandonado pelo hábito gradual e finalmente, haverá a extinção de Karma. Mas isso leva um tempo anormal e envolve muita obstrução.

Os que adotam o segundo caminho consideram que durante a discussão do objeto ao qual a mente está devotada, é o dever principal de todos desejarem o prazer de Vishnu e depois oferecer a Sri Krishna. Mas isso é contra a natureza. Será que a mente que é guiada pelo desejo por objeto material pode resolver satisfazer Vishnu naturalmente? Se fizer meramente por exibição, nunca pode ser considerado como trabalho sincero da sua mente. Isso é só um engano para a mente, e nada mais. As mulheres que adoram Devi Annapurna com a esperança de obter fartura de alimentos, sua resolução é nada mais que palavra em vão. É apenas egoísmo. Nem é preciso dizer que esse tipo de injunção e oferenda não são capazes de salvá-los das garras do Karma.

O terceiro caminho é razoável, pois o trabalho se faz aqui sendo favorável ao apego da mente. A mente está sempre atrás de felicidade e quando se origina do favor de Deus, há plenitude de cultivo do sentimento de devoção bem como a operação mundana. Os dois trabalhos seguem simultaneamente. Assim, gradualmente, por meio do sabor do Rasa superior, o Rasa inferior se transforma rapidamente em um superior. Claro que isso é devoção auxiliar mas coloca o trabalho separadamente. Em resultado, apesar do trabalho, é naturalmente possível causar a extinção da existência do Karma.

Quando todos os trabalhos corpóreos e mentais são feitos de acordo com essa inclinação, eles trabalham subordinados a esse tipo de devoção auxiliar que serve à devoção principal em todos os aspectos. Todos os outros moralistas com fé em Deus têm sempre mentalidade externa.

Até aqui, refutamos o argumento avançado pelo lado oposto e estabelecemos que a devoção é a única coisa que deve ser praticada pelo Jiva. Devoção é a excelência da vida. Ela não é contrária à melhoria e benefício do mundo. Ela proporciona eternidade aos Jivas ao conceder paz e beatitude. Vida devotada é a verdadeira vida humana. É completa e plena de bem-aventurança. Somente esse é o único princípio neste mundo.

Quando a vida devotada no curso da prática de Sadhana-Bhakti, cruza Bhava-Bhakti e chega na vida de Prema-Bhakti, então Deus, Srinivas, chama Seus devotos assim: "Ó queridos amigos, Eu abri Meu depósito de Rasa Supremo. Eu guardei esse depósito para vocês com muito cuidado. Vocês são os únicos que o merecem. Vocês se esqueceram de Mim por tanto tempo, e caíram na ilusão de Minha Maya. Eu cuidei de vocês dia e noite. Vocês chegaram nesse estágio com seu próprio cuidado e esforço, os quais Me satisfazem muito. Agora, vocês servem Meu Vigraha sempre novo e sempre agradável, e brincam Comigo, mergulhados no incomensurável oceano de felicidade. Vocês não têm medo, nem sofrimento, vocês saborearam o néctar. Vocês eliminaram todos os grilhões e conexões estranhas por Mim. Eu não posso retribuir seu crédito de amor por Mim. Assim, fiquem satisfeitos com seu próprio trabalho". Para aqueles que desconsideram o Sri Chaitanya Shikshamritam e preferem outras lições, Rishabhadeva dá a seguinte instrução adequada no Srimad Bhagavatam (Bhag. 5.5.18). Irmãos, mantenham essa lição em suas cabeças e lembrem-se dela cuidadosamente:

Ele não é um preceptor ou pessoa de família
Não é pai nem mãe,
Não é deus, nem é esposo
Quem não pode salvar alguém da morte iminente.

 

Fim

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

 

 

Abreviações:

Abreviação

Descrição

Autor

Bg

Srimad Bhagavad-gita

Srila Vyasadeva

Bhag.

Srimad Bhagavatam

Srila Vyasadeva

Brsms

Sri Bhakti-rasamrita-sindhu

Srila Rupa Goswami Prabhupada

Cc

Sri Chaitanya Charitamrita

Srila Krishnadas Kaviraj Goswami

i.e.

isto é

 

N.T.

Nota do Tradutor

 

Sw.Up.

Swetasvatara Upanishad

Srila Vyasadeva

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

 

 

Fim da tradução quinta-feira, 25 de outubro de 2001 - 25/10/01 16:21:09
Visvavandya das - São Paulo - SP - Brasil

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