Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

Sri Chaitanya Shikshamritam

 

de
Thakur Bhaktivinode

Fim da tradução quinta-feira, 25 de outubro de 2001

(Está em dois arquivos)

(Índice)

Sri Chaitanya Shikshamritam

de

Thakur Bhaktivinode

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

 

Sri

Chaitanya Shikshamritam

(em duas partes)

de

 

Srila Sachidananda Bhakti Vinode Thakur

(Pioneiro do Culto de Bhakti do Século 19)

em Bengali

 

Prabhupad Srila Bhakti Siddhanta Sarasvati Goswami

(Fundador da Sri Chaitanya Math e suas filiais Sri Gaudiya Maths)

Tem seu mais querido discípulo

Srila Bhakti Vilas Tirtha Goswami Maharaj

(Presidente-Acharya anterior)

Que pediu a publicação deste livro em Inglês

para

Sri Bijoy Krishna Rarhi, M. A.

Sri Gaudiya Math - Madras - 1983

Edição em Inglês

Sri Nityananda Brahmacari, Gitikovid

Sri Gaudiya Math - Madras - 1983

 

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Tradução e Edição em Português
Visvavandya Dasa
São Paulo - (início da tradução: maio de 1990)
(505 - Era de Sri Chaitanya)
Fim da tradução quinta-feira, 25 de outubro de 2001
(516 - Era de Sri Chaitanya)
São Paulo - SP - Brasil

 

Índice

Nota do Tradutor

Prefácio de Srila Bhaktivinoda Thakur

 

Parte I

Capítulo I

  1. Introdução Geral de Paramartha-Dharma
  2. Sistema de Ensinamentos do Senhor Chaitanya
  3. O Senhor Krishna, Suas Potências e Sentimentos Saboreáveis
  4. Jivas Individuais - Caídos e Liberados
  5. Doutrina da Distinção e Não-Distinção
  6. Estabelecimento dos Meios a serem praticados
  7. Objeto de Alcance Final

Capítulo II

  1. Deliberação sobre Injunções Subordinadas - Suas Divisões
  2. Atos Virtuosos
  3. Competência de Karma e Distinção de Casta
  4. Descrição dos Ashramas (estágios de vida)
  5. Culto Cotidiano

Capítulo III

  1. Sinal de Vaidhi Bhakti
  2. Códigos da Cultura de Bhakti
  3. Determinação dos Males
  4. Decisão sobre Relações Mútuas entre Injunções Diretas e Indiretas

Capítulo IV

  1. Discussão sobre Raganuga Bhakti

Capítulo V

(Próxima Parte - Volume 2)

Capítulo V

  1. Bhava Bhakti
  2. Sinais do Bhava Bhakta
  3. Determinação do Conhecimento
  4. Determinação de Rati ou Inclinação

Capítulo VI

  1. Discriminação na Decisão sobre Prema-Bhakti
  2. Sobre o Nascimento do Prema
  3. Decisão sobre Nama-Bhajan conforme o grau de elegibilidade do Prema
  4. Processo de Nama-Bhajan
  5. Objetivo de Pessoas no Estágio Ascendente de Prema

 

Parte II

Capítulo VII

  1. Decisão Preliminar sobre Rasa
  2. Deliberação sobre Rasa como o Espírito de Adoração
  3. Discussão sobre Shanta Rasa
  4. Julgamento de Priti-Bhakti Rasa
  5. Prema Bhakti Rasa - Sakhya Rasa
  6. Vatsala Bhakti Rasa
  7. Madhura Bhakti Rasa

Capítulo VIII

  1. Conclusão

Abreviações

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

Nota do Tradutor

 

O Senhor Supremo aparece de tempos em tempos aqui neste universo material , em Suas várias formas transcendentais (sem toque de matéria). Todas essas aparições são descritas na literatura Védica. Ele vem, por Sua misericórdia infinita para restabelecer os princípios religiosos e para dar chance de liberação do cativeiro material a todos os seres vivos. Ele vem nas diferentes eras da criação para ensinar pessoalmente o Sistema de Yoga (religião) para a era específica. Ninguém pode alcançar o Supremo através de métodos elaborados pelo intelecto humano material, por mais perfeitos que possam parecer, nem seguindo partes de sistemas de outras eras. A única maneira é através da misericórdia do Supremo, que Se manifesta Pessoalmente ou pelos Seus enviados transcendentais.

Sri Chaitanya Mahaprabhu é esse Senhor Supremo, a Suprema Personalidade de Deus. Ele é conhecido como Sri Krishna Chaitanya, ou Gaura Hari - a Forma Suprema Dourada do Senhor Supremo, ou Gauranga, ou Chaitanyachandra, ou Shachinandana, ou Mahaprabhu, entre Seus infinitos Nomes Transcendentais. Ele e Sri Krishna são a mesma Pessoa Suprema. Ele é Krishna na forma de Seu próprio Devoto, ou seja, Chaitanya é Krishna saboreando o amor que Seus devotos sentem por Ele próprio. O êxtase dos devotos de Sri Krishna é tão intenso e maravilhoso que o próprio Krishna sente atração por experimentá-lo, aí, Ele é Sri Chaitanya Mahaprabhu, como afirma o primeiro verso do Sri Chaitanya Chandramrita de Srila Prabodhananda Sarasvati:

"Glorifiquemos a Suprema Personalidade de Deus incomensuravelmente misericordiosa, o príncipe de Vraja. Para saborear as doces ondas inebriantes do néctar de amor transcendental por Krishna, bem como para dar esse néctar a outros, Ele apareceu na transcendental morada de Navadwip como o Senhor Chaitanya Mahaprabhu".

Na presente era, Kali-Yuga, a era do ferro, apesar de ser a era da degradação e degeneração total, tem-se a grande boa fortuna da Vinda do Próprio Sri Krishna em Sua Forma mais Sublime, Sri Krishna Chaitanya Mahaprabhu. Ele é o Próprio Krishna disfarçado como a personalidade de Sua Energia Amorosa Devocional Suprema, Sri Radha (Hare). Chaitanya é Krishna internamente e Radha externamente. Ele vem nos ensinar o método para alcançar a Perfeição Última, o despertar do Amor Puro Transcendental ao Senhor Supremo, Sri Krishna, pelo Seu exemplo Pessoal. Também é conhecido como a Encarnação Disfarçada do Senhor Supremo, o Avatara Dourado.

A vinda de Sri Chaitanya Dev a este planeta é um fato raríssimo, que acontece em milhões e milhões de anos. É o acontecimento mais sublime e auspicioso da manifestação cósmica. Ele distribuiu gratuitamente, e sem discriminações, o Néctar sublime de Krishna-Prema, ou seja, o relacionamento íntimo amoroso do ser vivo com Deus, que é a perfeição máxima, como Srila Prabodhananda Sarasvati escreveu no seu Sri Chaitanya Chandramrita (verso 7):

Que benefício o mundo obteve quando o Senhor Rama, o Senhor Nrisimha e tantas outras encarnações de Deus mataram vários Rakshasas e demônios Daitya? Qual a importância do Senhor Kapila e outras encarnações terem revelado os caminhos de Sankhya e Yoga? Que glória há na criação, manutenção e destruição dos universos materiais pelo senhor Brahma e outros Guna-Avataras? Quão auspicioso foi o ato do Senhor Varaha levantar a Terra do oceano Garbhodaka? Nós não consideramos nenhuma dessas atividades muito importantes. O fato mais importante é que o Senhor Chaitanya revelou o grande esplendor do amor puro por Krishna. Glorifiquemos esse Senhor Chaitanya Mahaprabhu!

Sri Chaitanya Mahaprabhu permaneceu na Terra por 48 anos (1486-1534) e causou uma total revolução espiritual em toda a Índia. Ele veio acompanhado de Seus companheiros transcendentais eternos, na forma de grandes sábios santos e outras personalidades, como Sri Rupa Goswami e Prabodhananda Sarasvati, entre inumeráveis outros, os quais escreveram vários livros sobre a Ciência Transcendental do Amor Puro Divino, em Sânscrito e Bengali. Todos esses livros não são livros comuns inventados pelo intelecto humano, eles são o puro néctar, são o tesouro mais valioso de toda a humanidade, e são muito mais importantes que a própria literatura Védica, ou outras escrituras.

Esses ensinamentos maravilhosos de Sri Chaitanya Mahaprabhu destroem toda a ilusão e ignorância no coração dos seres vivos, e são o alívio refrescante para todo o sofrimento e miséria deste mundo. Eles foram mantidos até hoje pela graça de grandes almas que passam por este planeta, pela misericórdia infinita de Sri Chaitanya Mahaprabhu, tais como Visvanatha Chakravarti, Baladeva Vidhyabhushana, Jagannatha Prabhu, Bhaktivinoda Thakur, Srila Gaura Kishor Babaji, Bhaktisiddhanta Sarasvati, Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada, Bhaktirakshaka Sridhar Dev Maharaj, entre vários outros, como o autor do livro afirma no Capítulo V, Item 4 (Determinação de Rati ou Inclinação):

"Nós discutimos durante um bom tempo sobre conhecimento. Agora deixem-me dizer algo mais sobre Bhava Bhakti. Mesmo se Bhava Bhakti originar-se de Sadhana Bhakti ou for derivada da graça de Krishna ou de Seus devotos, nunca pode ser nutrida sem a companhia dos devotos de Krishna. Se for cometida qualquer ofensa aos Bhaktas de Krishna, este tesouro inestimável de Rati diminui gradualmente e no fim se aniquila ou se degenera em alguma forma de qualidade inferior".

Srila Bhaktivinoda Thakur (1838-1914), o autor deste livro, é um desses companheiros eternos do Senhor, e um dos grandes mestres santos na linha de Mahaprabhu (Gaudiya Vaishnava Sampradaya). Este livro é uma prova concreta do néctar sublime dos ensinamentos de Sri Chaitanya Mahaprabhu. Bhaktivinoda significa aquele que vivencia e sente prazer nos passatempos do serviço amoroso devocional.

Sri Chaitanya Mahaprabhu, o Supremo Senhor, teve seis discípulos íntimos conhecidos como os Seis Goswamis de Vrindavana, liderados por Rupa e Sanatana. Srila Bhaktivinoda Thakur é companheiro íntimo desses Goswamis, e apareceu na era contemporânea por sua misericórdia infinita, para conceder o néctar de Bhakti às pessoas atuais. Bhaktivinoda foi chamado de o Sétimo Goswami, pois sua vida só se compara à dos Seis Goswamis de Vrindavana.

Bhaktivinoda teve vários filhos santos, entre eles, o grande Srila Prabhupad Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakur, mestre de Srila Sridhar Dev Goswami Maharaj e de Srila Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada.

Srila Bhaktivinoda Thakur predisse que uma grande personalidade viria no futuro para propagar pelo mundo o néctar das instruções transcendentais de Sri Chaitanya Mahaprabhu.

Essa grande personalidade é Sua Divina Graça Visvavarenya Bhaktivedanta Swami Maharaj Srila Prabhupada, a encarnação do Senhor Nityananda Prabhu, que pela graça de seu Gurudev, nos concedeu o acesso ao néctar sublime da Lua Nectárea de Sri Gaurachandra. Aos pés de lótus dele, este insignificante tradutor oferece suas mais respeitosas reverências milhões e milhões de vezes, repetidamente:

Prabhupada Pranati

namah om visnupadaya krsna-presthaya bhutale
swami sri bhaktivedanta prabhupadaya te namah
gurvajnam sirasi-dhrtva saktyavesa sva-rupine
hare-krsneti mantrena pascatya-pracya-tarine

visvacarya prabaryaya divya karunya murtaye
sri bhagavata-madhurya-gita-jnana pradayine
gaura-sri-rupa-siddhanta-sarasvati nisevine
radha-krsna-padambhoja-bhrngaya gurave
namah

"Ofereço minhas humildes reverências à Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada, que é um companheiro querido de Krsna e que descendeu de Goloka para este plano. Concentrado na instrução de seu Guru, ele é Shaktyavesa (dotado de poder) Avatar de Nityananda Prabhu personificado. Ele distribuiu o mantra Hare Krsna em todo o mundo Oriental e Ocidental, assim liberou e elevou todos os seres caídos.

Ele é o melhor entre milhões de Jagat-Gurus, pois ele é a personificação da misericórdia divina. Ele distribuiu o doce néctar do Srimad Bhagavatam e o conhecimento transcendental do Bhagavad-gita por todo o mundo. Ele está constantemente ocupado no serviço exclusivo a Srila Bhakti Siddhanta Sarasvati Prabhupad, Srila Rupa Goswami e Sri Gauranga Mahaprabhu. Ofereço minhas humildes reverências a Srila Prabhupada, ele é como uma abelha que sempre tenta saborear o néctar dos pés de lótus de Sri Sri Radha e Govinda".

Ofereço minhas humildes reverências também a meu amado Guru Maharaj Srila Bhakti Rakshak Sridhar Dev-Goswami Maharaj, repetidamente, bem como a todos os irmãos queridos de meu Gurudev, Srila Prabhupada, bem como a todos meus irmãos queridos.

Apesar de reverenciar todas essas grandes personalidades que são devotos puros de Sriman Mahaprabhu bem como Seus companheiros eternos transcendentais, não tenho nenhuma competência para representá-los, sou apenas um aspirante desqualificado e fracassado a servo do servo do servo dos devotos dessas personalidades.

Peço desculpas aos nobres leitores por eventuais erros de digitação ou redação. Não sou nenhum perito em Português, tentei manter o espírito da tradução original em Inglês, por isso, não facilitei muito a linguagem. Este livro exige reflexão no ato da leitura, como o próprio autor recomenda no Prefácio. Não segui a linha de Srila Prabhupada para traduzir certas palavras, como no caso de "sentience" (sensibilidade), ou "Highest Entity" (Entidade Suprema). Isso, tentando manter a originalidade do texto. O tradutor em Inglês usou a palavra "Sports" para Lila, mas eu mantive a linha de Prabhupada nesse caso, ou seja, "Passatempos". Devido à minha ignorância, considerei a maioria das palavras em Sânscrito como masculinas, pois em Inglês o gênero não varia. Tentei pôr o significado de todas as palavras em Sânscrito entre colchetes, em consideração aos leigos, há também um pequeno glossário no final do livro. As palavras entre parênteses são do texto original em Inglês.

Sobre Srila Bhaktivinoda Thakur e este livro, que é como uma bomba que destrói toda a ilusão e ignorância, cito um verso do Sri Chaitanya Chandramrita de Srila Prabodhananda Sarasvati (verso 19):

Se um devoto, que é como uma abelha bebendo o néctar dos pés de lótus do Senhor Chaitanya, não aparecer, não serão amargas as conversas sobre liberação impessoal, não se soltarão as correntes da adesão cega a convenções sociais védicas, e continuarão os debates tumultuados sobre os méritos de vários caminhos espirituais inúteis.

(Esse devoto é o autor do livro, Srila Bhaktivinoda Thakur).

O leitor leigo se quiser saborear este livro, deve admitir a existência de Deus, mesmo que hipoteticamente. Krishna é esse Deus Supremo. Além de ler com esse espírito, ele deve adotar uma postura humilde de coração, pois ler com propósitos de desafio não será frutífero.

A palavra Krishna tem vários significados, como a maioria das palavras em Sânscrito. Um dos significados de Krishna é o Todo-Atrativo. O Senhor Supremo é a fonte original e inesgotável de toda beatitude, toda bem-aventurança, toda beleza, conhecimento, fama, riqueza, poder, prazer, renúncia, abnegação, misericórdia, bem como, todo Amor Extático Transcendental, e todos os Passatempos e Diversões sublimes, por isso, Ele é Krishna, o Todo-Atrativo.

O leitor leigo, após se familiarizar um pouco mais com o Pensamento Védico Gaudiya-Vaishnava (na linha de Sri Chaitanya Mahaprabhu), verá que Deus é apenas um dos muitos aspectos secundários de Sri Krishna.

Meu conselho é que o livro seja lido destemidamente, ou seja, mesmo que surjam dúvidas, continue a ler que a resposta virá em seguida. A verdade pode doer às vezes, seja honesto consigo mesmo. Este livro não é para ser lido simplesmente, mas sim estudado, cada frase tem que ser refletida e assimilada. E não é para ler só uma vez, quanto mais ele for lido, mais aumentará o néctar.

 

A seguir um prefácio nectáreo do próprio autor, Srila Bhaktivinoda Thakur.

 

Visvavandya Dasa
São Paulo, maio de 1990

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Alguns versos do Sri Chaitanya Chandramrita de Srila Prabodhananda Sarasvati Thakur:

(34) O advento do Senhor Chaitanya Mahaprabhu é como um oceano de néctar expandido. Quem não coleta as jóias valiosas desse oceano é certamente o mais pobre dos pobres.

(117) Agora que a Suprema Personalidade de Deus, cujos pés de lótus os semideuses aspiram por servir e que tem o nome Chaitanya, descendeu neste mundo, as doces ondas nectáreas de amor puro por Krishna estão inundando o mundo inteiro. Quem é criança agora? Quem é velho? Quem é tolo? Quem é mulher? Quem é caído e desafortunado? Todos alcançaram o mesmo destino. Todos obtiveram o mesmo néctar continuamente saboreado pelos devotados aos pés do Senhor Hari.

(130) Em quais orifícios auriculares entraram as palavras maravilhosas "amor puro por Krishna"? Quem conheceu as glórias dos santos nomes? Quem penetrou na grande doçura das florestas de Vrindavana? Quem compreendeu Sri Radha, plena das mais maravilhosas doçuras nectáreas do amor puro por Krishna? Só o Senhor Chaitanyachandra é quem revelou misericordiosamente tudo isso.

 

Nitai Gaura Hari Bol !!!

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

Prefácio

(de Srila Bhaktivinoda Thakur)

Quaisquer ensinamentos ou instruções que Sri Chaitanya Dev concedeu às pessoas deste mundo, quando encarnou como o filho da mãe Shachi em Sridham Navadwip-Mayapur , são chamados Sri Chaitanya Shikshamritam. Esses Shikshamritam são como néctar, e são o tesouro mais valioso de toda a humanidade.

A primeira edição deste livro surgiu no ano 400 da era Chaitanya, o que corresponde a 1886 da era Cristã. Esta já é a terceira edição em Bengali. Informamos humildemente aos nobres leitores, que se cultivarem o livro com profunda seriedade, realizarão plenamente todos os seus propósitos.

Se cultivarem bem o livro, verão que Sri Chaitanya Shikshamritam é a essência de todos os Shastras [escrituras sagradas]. Qualquer verdade profunda tratada no Rik, Sama, Yaju e Atharva Vedas [os quatro Vedas], e nos Vedanta Shastras [conclusões sobre a Verdade], tem sua parte essencial também contida no Shikshamritam.

Os dezoito Puranas [História transcendental], as vinte escrituras religiosas, o Ramayan, o Mahabharata, os seis sistemas de filosofia, ou qualquer outro Tantra-shastra [procedimentos religiosos] disponível, todos são considerados como verdades básicas pelo Shikshamritam. Tudo que há de bom nas escrituras religiosas estrangeiras, ou em nossos livros religiosos, também é encontrado neste livro. E mais ainda, tudo aquilo que não se encontra em nenhuma outra parte, será obtenível neste livro agradável.

A religião pregada neste livro é muito simples e sublime. Simples no sentido de que qualquer um pode entendê-la, seja ignorante, espiritualmente cego, estúpido ou iletrado. É séria porque está de acordo com os sábios versados no conhecimento de Shastras, conhecedores da determinação de julgamento.

O melhor Jaiva Dharma (religião das almas puras) que é o supremo Dharma [religião], para qual todos são elegíveis pode ser encontrado aqui neste livro. Se os Pandits [sábios eruditos] mantiverem sua imparcialidade, poderão realmente serem elegíveis para este livro.

Os praticantes de Varnashrama-Dharma [procedimentos sociais] ou outros podem obter instruções deste livro. Pessoas indecisas e pessoas simplórias, após saborearem o livro, poderão obter liberação da vida mundana com pureza e reverência.

Por outro lado, intelectuais e Pandits, peritos em determinar a Verdade, se cultivarem imparcialmente, ficarão atraídos pelas instruções saudáveis do livro, e facilmente alcançarão o plano supremo. Aqueles presos a diversos princípios e doutrinas se livrarão de seus conceitos falsos, por aprenderem deliciosas lições deste livro, causando assim a abertura de suas mentes. Digo novamente que as instruções nectáreas do Senhor Chaitanya são o maior tesouro dos Jivas [seres vivos].

Quem não tem fé em assuntos sobrenaturais, não terá gosto para saborear essas instruções. Sobre eles, nosso comentário é o seguinte: Se a boa sorte sempre alvorece, no devido curso do tempo, eles também se tornarão elegíveis para estas instruções.

Há muitos casos em que pessoas pervertidas, seguidoras da irreligião ou de religiões fraudulentas, as fazem passar como veredicto do Senhor Chaitanya. E quem não tem discriminação de julgamento e aceita essas instruções sem reservas, acaba ficando desprovido das pregações de Sri Chaitanya Dev. Expressamos nosso desapontamento para o pesar deles.

Que Mahaprabhu os redima por terem seguido o caminho errado.

 

Sri Kedarnath Bhakti Vinode

Godrum (Nadia)

[Bengala Ocidental - Índia]

420 - Era de Sri Chaitanya

[1906 d.C.]

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

 

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

Sri Chaitanya Shikshamritam

 

Parte I

 

 

Capítulo I

 

1

 

Apresentação Geral de Paramartha-Dharma

 

Três tipos de coisas são percebidas neste mundo. Deus, os seres vivos e os objetos materiais. Tudo aquilo que não possui o poder de vontade é um objeto material. Terra, pedra, fogo, ar, céu, casa, madeira, milho, pano, corpo, etc. não têm vontade (desejo), por isso são denominados matéria. Animais, pássaros, vermes, insetos, possuem sensibilidade, e os poderes de pensar e volição. Nenhum ser sensível tem a capacidade de pensar e vontade no mesmo nível que o homem. Por esse motivo, o homem é tido por alguns como o líder de todas as coisas animadas e inanimadas. Deus é o criador de todos os seres animados e inanimados. Não podemos vê-Lo porque Ele não tem um corpo material. Ele é o ser pleno e perfeito com sensibilidade pura. Ele é o nosso Criador, Mantenedor e Controlador. Obtemos bem-estar ou desgraça de acordo com o Seu desejo. Ele eternamente é o Rei Supremo em Vaikuntha (região além deste mundo e do céu). Ele é o Senhor de todos os senhores, e o universo funciona de acordo com Sua Vontade.

Deus não tem aparência grosseira como a dos corpos materiais, por isso não podemos percebê-Lo com nossos sentidos. Por esse motivo, os Vedas [escrituras reveladas] O chamaram de sem-forma. Cada coisa possui sua natureza essencial, Deus também tem a Dele. Essa natureza é material para os objetos materiais e sensível para os seres sensíveis. Embora sejamos seres sensíveis, fomos providos com corpos materiais, e nossa natureza sensível fica escondida sob a cobertura da natureza material. Mas Deus é Sensibilidade Pura. Ele não tem outra natureza além de Sua Natureza Sensível. Essa Natureza Sensível é Sua Forma. Podemos ver essa Forma somente com nossos olhos sensíveis, isto é, os olhos da devoção , e não com os olhos materiais.

Alguns homens desafortunados não acreditam em Deus, seus olhos sensíveis estão totalmente fechados. Não sendo capazes de verem a forma de Deus com seus olhos materiais, concluem que não há nenhum Deus. Do mesmo modo como cegos de nascença não podem perceber a luz do sol, os ateus não são capazes de acreditar em Deus. Por natureza, todo homem acredita em Deus. Somente aqueles que aprendem discussões desleais com idéias tolas de más companhias, gradualmente se tornam vítimas do controle de procedimentos errados e não reconhecem a existência de Deus. Eles são os únicos perdedores, que mal há para Deus devido à descrença deles!

Quando falamos sobre a região de Vaikuntha (mundo espiritual), não devemos concebê-la como um lugar material. Locais como Madras, Bombaim, Cashmere, Calcutá, Londres, Paris etc. são materiais (terrestres). Temos que atravessar vários países e regiões para ir até eles, o que leva muito tempo através de navios ou de trens. Também temos que mover nossos corpos materiais para esse propósito. Mas em Vaikuntha não é assim. É uma região além de todo o mundo material. Ela é Chit (sensível, não material), eterna (imutável) e perfeita (sem falhas). Não pode ser percebida, por estes olhos, nem concebida por esta mente.

Há quatro motivos para que homens em diferentes condições de vida, tentem assegurar o prazer Divino. Eles são: medo, esperança, senso de dever, ou apego. Os estimulados pelo medo, adoram a Deus por temerem o inferno, domínio econômico, doenças e a morte. Os impulsionados pela esperança, servem a Deus com preces para obterem prazeres mundanos e melhoria das condições de suas vidas mundanas. O serviço a Deus produz muita bem-aventurança, por isso, muitos que estão ocupados nesse serviço devido ao medo ou à esperança, após algum tempo, abandonam esse medo ou esperança e ficam apegados à devoção pura. Há outros que adoram o Criador, com sentimento de gratidão, devido ao apego. A preferência que faz a mente ir em direção a alguma coisa assim que a vê, sem nenhuma deliberação a respeito, é chamada apego. Quando essa preferência surge na mente de alguém por estar meditando em Deus, significa que ele serve a Deus sob influência do apego. O serviço a Deus não é tão puro nos casos sob influência de medo, esperança ou sentimento de dever. Os verdadeiros servos devotados são aqueles ocupados no serviço a Deus através do caminho da devoção pura.

O Senhor Supremo vive nessa Morada Transcendental. Se conseguirmos agradá-Lo através do serviço, seremos levados a esse Mundo Divino, e eternamente desfrutaremos do Serviço Bem-aventurado a Ele. No mundo mundano a felicidade não é permanente, mas sim, altamente efêmera, como bolhas na água. Para falar a verdade, tudo na Terra é cheio de sofrimento. O próprio nascimento já é muito doloroso. Após o nascimento temos que trabalhar para o sustento do corpo, o que também é um sofrimento. Além do mais, o corpo é um reservatório de todos os tipos de doenças. Somos sujeitos às estações do ano, como inverno e verão, temos que nos submeter a algum trabalho físico para nos protegermos delas. Para conseguir riqueza é necessário trabalho árduo. Há muitos problemas na formação de um lar. A vida matrimonial é aparentemente feliz e promissora, mas quando surgem filhos, os problemas vêm um após o outro. Na velhice tudo se torna vazio. Não só isso, vida em comunidade sempre produz muitas intrigas. Considerando tudo isso, chegamos à conclusão de que não existe verdadeira felicidade no Samsara [ciclo da vida material - repetidos nascimento-velhice-doença-morte]. Obter alívio temporário dos sofrimentos e pesares é considerado como felicidade aqui neste mundo. O fato é que a vida no Samsara é cheia de problemas, se conseguirmos alcançar Vaikuntha Dhama, a Morada do Senhor Supremo, não haverá mais Sukha [felicidade mundana] Dukha [sofrimento], lá desfruta-se eternamente da Bem-aventurança Perene. Por isso, nosso dever sagrado é servir ao Senhor.

Ao obter o conhecimento da Verdade, a partir desse mesmo dia, devemos ir atrás do serviço ao Senhor Supremo, que é o verdadeiro propósito da vida. Geralmente, a mentalidade é a seguinte: vamos desfrutar do mundo, e quando ficar velho, aí é que procuraremos servir ao Senhor Supremo. Maldição! Perdemos o Objetivo de nossas vidas! O tempo é precioso. Por isso, no dia em que sabemos da Verdade, a partir desse mesmo momento, devemos nos esforçar para conseguir o Objeto. Obter nascimento como um ser humano é um feito extremamente raro, e mais ainda, a morte é imprevisível, podemos encontrá-la a qualquer momento.

É errado pensar que durante a infância não se pode servir ao Senhor. A História mostra que Druva e Prahlada adoraram o Senhor na infância, e O encontraram pessoalmente, sendo assim abençoados. Se eles conseguiram isso, por que outros também não podem? Não deve haver nenhuma dúvida a esse respeito. Tudo aquilo que praticamos na infância, acaba sendo a natureza de nossa vida.

Há uma profunda relação entre Jiva e Deus, que pode ser percebida com o alvorecer do apego amoroso. Apesar dessa relação ser eterna, ela permanece oculta nos Jivas presos à matéria. Ela se revela sempre que tem uma oportunidade. Do mesmo modo como o fogo surge quando riscamos um fósforo ou uma pedra de isqueiro, através do Sadhana (prática de métodos adequados) essa relação desperta, e oferece serviço a Deus através de medo, esperança, ou sentimento de dever. Druva serviu a Deus, primeiramente, com esperança de conseguir um reino, mas quando despertou o apego amoroso através da prática, devido à relação sagrada, não aceitou mais benefícios para desfrute mundano.

Entretanto, medo e esperança são desprezíveis. Quando um praticante incrementa sua sensibilidade, abandona o medo e a esperança, e o sentimento de dever se torna sua única base. Ele não abandona o sentimento de dever, até que haja o despertar do apego amoroso a Deus. O sentimento de dever produz a confirmação sobre o apego amoroso a Deus. O sentimento de dever produz a confirmação sobre os mandamentos das escrituras e a rejeição a atos proibidos. Os procedimentos para serviço a Deus, que grandes sábios do passado escreveram nas escrituras após deliberações, são conhecidos como regras ou mandamentos. O honrar das regras e mandamentos escriturais cresce pelo gerenciamento do sentimento de dever.

Através de uma consideração cuidadosa sobre os fatos históricos dos povos de diferentes países e continentes, será evidente que a fé em Deus é naturalmente comum entre os homens. Tribos selvagens se sustentam com a carne de animais, mesmo assim, adoram o Sol e a Lua, montanhas e rios, ou grandes árvores, pois acreditam que são os supridores de suas necessidades, e seus controladores. Qual o motivo disso? A natureza da sensibilidade do Jiva, embora profundamente presa à matéria, mostra sinais de suas características, como na forma da fé divina em qualquer grau que seja, isso é perfeitamente percebido se a sensibilidade não estiver muito coberta. Somente depois de alcançar o status de civilização, através do cultivo de vários tipos de conhecimento, é que o homem encobre a fé com raciocínios errôneos, e se apega mentalmente ao ateísmo, ou a alguma doutrina de aniquilação como o monismo absoluto. Devemos concluir que tal mentalidade absurda é sintoma da condição doentia da sensibilidade debilitada. Existem três estágios intermediários, que se percebem na vida humana, entre o totalmente incivilizado e aquele possuidor de uma ótima fé em Deus. É nesses três estágios que as doenças do ateísmo, cepticismo, niilismo etc. obstruem o progresso gradual do Jiva e conduzem alguns homens a posições muito rudes. Os que sofrem essas doenças permanecem confinados nessa situação e não obtêm competência para se elevarem a formas de vida superiores. Não é sempre que todos os homens nesses estágios sofrem o ataque dessas doenças. O progresso gradual natural da humanidade faz com que tribos incivilizadas, através da civilização, moralidade e educação, adotem o Varnashrama-Dharma (procedimentos para as quatro classes e ordens principais da vida social) e assim se tornem devotos, através da prática de devoção a Deus. Por outro lado, quando aparecem obstáculos na forma dessas doenças, surge uma condição de vida muito artificial.

Os homens em diferentes países e continentes adquiriram naturezas distintas. A natureza humana original é a mesma em qualquer lugar. As naturezas secundárias são diferentes.

Embora a natureza principal seja a mesma, ainda assim, não encontraremos dois seres humanos que tenham naturezas secundárias iguais em todos os sentidos. Como é que homens nascidos em países distintos têm a mesma natureza, ao passo que dois irmãos de uma mesma mãe são diferentes em aparência e natureza, nunca iguais em todos aspectos? As águas, atmosfera, cordilheiras, florestas, alimentos e vestimentas são todos diferentes em diversos países. Devido a isso, a estrutura corpórea, cor da pele, hábitos, roupas e comidas originais de cada país se tornaram diferentes, de acordo, com as diferentes naturezas desenvolvidas em compatibilidade com os respectivos ambientes. A condição mental também é diferente em cada país em particular. As inclinações em relação a Deus, incluídas aí, embora iguais em princípio, tornam-se diferentes por causa das distinções de linguagem, vestimentas, alimentos, temperamentos etc.. Essas diferenças secundárias não causam nenhum dano quando consideradas sob um ponto de vista imparcial. Não há nada de errado na hora da realização, se existir unidade em relação ao objeto de adoração principal. Portanto, o Senhor Chaitanya Mahaprabhu ordenou que adoremos a Deus, que é essencialmente Sattva Puro (plenamente livre de qualquer toque material), e não caluniemos os sistemas de outros adoradores.

Devido às razões acima, nota-se as seguintes diferenças nas diversas religiões promulgadas por homens em países distintos: 1) os Acharyas [mestres espirituais] ou preceptores, 2) preferências mentais e conceitos, e dos adoradores, 3) os sistemas de adoração, 4) conceitos e atos convencionais em relação ao objeto de adoração, e 5) nomes e palavras de acordo com os diversos idiomas.

Sobre a diferença referente aos preceptores, Rishis, ou sábios em alguns países (como o nosso), ou profetas como Maomé em outros, ou ainda grandes almas como Jesus em outros, e muitos eruditos de vários países têm sido recipientes de reverências especiais e honra. É dever sagrado das pessoas em seus países respectivos, veneram corretamente seus Acharyas. Mas não é certo propagar insistentemente controvérsias sobre a superioridade dos Acharyas de seu país em relação aos de outro, embora possa cultivar tal crença, a fim de adquirir firmeza em sua fé. Essas desavenças não trarão nenhum benefício para a humanidade.

Sobre as preferências mentais e conceitos dos adoradores respectivos, a adoração em alguns países é feita pelo processo de sentar-se em assentos adequados, manter as mãos e dedos em posições específicas, controlar a respiração num certo modo, etc., noutros, pelo processo de usar vestes soltas, e de forma alternada levantar e cair ao chão cinco vezes por dia, com a face voltada para o templo principal de adoração de acordo com a fé em particular; ainda em outros países, através de se ajoelhar com mãos postas, em casa ou em locais públicos de adoração, oferecendo preces com humildade e pronunciando orações ao Senhor. Nestes, existem várias especializações regionais em matéria de vestimentas para a adoração, comestíveis, comportamento, santidade, tipos de profanações, etc.. Ao observar os modos de adoração prevalecentes em regiões distintas, suas diferenças serão notadas claramente.

As diferenças são singulares entre os conceitos e atos convencionais em relação ao objeto de adoração nas diversas regiões. Uns têm os corações cheios de devoção, Figuras e Imagens de Deus concebidas na alma, na mente e no mundo, as quais adoram com a percepção interna de que sendo mais inclinados à razão, concebem Deus mentalmente, e O adoram assim, não admitindo nenhuma imagem ou figura. Na realidade, as figuras são as mesmas de uma forma ou de outra.

Sobre as diferenças de linguagem, alguns dão certos nomes a Deus e denominam sua religião diferentemente, usando palavras distintas na hora da adoração.

Devido a essas cinco diferenças, as diversas religiões do mundo produziram uma grande desunião, a qual é bem natural. Mas o que não é direito são as desavenças e brigas causadas por essa desunião, que fazem um grande mal para a humanidade. Se acontecer de estarmos presentes nos locais de adoração de outra religião, no ato da adoração, devemos ter uma atitude respeitosa, com a seguinte mentalidade: "Aqui está sendo adorada minha Entidade Suprema adorável (Deus numa forma diferente da minha). Por ser uma prática diferente da minha, não posso compreendê-la plenamente, mas por observar, sinto um maior apego pelo meu sistema. A Entidade Suprema (i.e., Deus) não é mais que uma. Prostro-me com reverência perante Sua imagem, como estou vendo aqui, e oro ao Senhor que adotou esse aspecto diferente, para que incremente meu amor por Ele, na forma aceita por mim". (Vide as preces de Sri Hanuman que afirmam Sri Ramachandra como seu Senhor exclusivo, embora ontologicamente não haja diferença entre Ramachandra e Sri Narayana).

Aqueles que não agem dessa forma e caluniam os sistemas diferentes, com sentimentos de inveja, ódio ou malícia, são altamente tolos e lamentáveis. Eles não têm amor pelo seu objeto de busca, tanto quanto têm por desavenças e brigas inúteis.

Só há uma ressalva sobre esse ponto. É lamentável caluniar processos diferentes de adoração, mas quando existem falhas reais, elas nunca devem ser respeitadas , muito pelo contrário, é benéfico para os Jivas, tomarem providências para erradicá-las de forma concreta. Foi por isso que Sri Chaitanya Mahaprabhu argumentou com Budistas, Jainistas e professores da não-distinção, e os fez adotar o caminho adequado. O comportamento do Senhor deve ser modelo para Seus devotos.

As religiões onde prevalecem os males do ateísmo, cepticismo, materialismo, negação da alma, como epicurismo, panteísmo, politeísmo e monismo da não-distinção, não devem ser consideradas pelos devotos. Devem ser vistas como anti-religiões, pseudo-religiões e religiões falsas. Seus seguidores são muito desafortunados. Os Jivas devem tentar se proteger ao máximo contra esses males. Amor puro é a virtude eterna dos Jivas. Mesmo se apresentar essas cinco diferenças, uma religião é verdadeira, se o seu objetivo for a obtenção do amor puro por Deus. Não é direito brigar sobre diferenças externas. Se o objetivo for o amor puro, então todas as outras circunstâncias dessa religião devem ser aceitas como adequadas. As doutrinas do ateísmo etc., citadas acima, não são naturais, e são antagônicas ao amor.

O amor por Krishna é que considera-se como puro, amor imaculado. A natureza do amor exige que ele se abrigue em alguma entidade (Ashraya) e aceite outra entidade como seu objeto (Vishaya). Não pode existir amor sem Ashraya e Vishaya. O coração do Jiva é o Ashraya do amor. E somente Krishna é o Vishaya do amor. Quando o amor imaculado surge em sua plenitude, faz com que o caráter da entidade adorável, por meio do Brahman, Ishvara e Narayana, culmine em Sri Krishna. O néctar do caráter de Sri Krishna tratado no Srimad Bhagavatam, a jóia suprema de todas as escrituras, é a verdade obtida pelo grandioso sábio, Srila Vyasadeva, no seu Samadhi ou meditação profunda, com controle dos sentidos e concentração da mente na contemplação de Deus. Srila Vyasadeva teve o Bhakti-samadhi [vivência devocional de Deus] inato, ao ser aconselhado por Sri Narada, o sábio celestial, e viu a Natureza Plena de Sri Krishna. Ele narrou o caráter da Entidade Suprema, Sri Krishna, através do qual gera-se a devoção amorosa a Ele nos Jivas, e acaba-se com todas suas aflições, distrações e temores. Os Jivas obtêm dois tipos de concepção, de acordo com suas respectivas competências, quando estudam ou ouvem sobre o Caráter de Sri Krishna: elas são conhecidas como Vidvat-Pratiti (concepção pelo saber) e Avidvat-Pratiti (concepção pelo que não é verdadeiro saber). O caráter de Sri Krishna é visível aos olhos mundanos durante Sua existência no mundo, mesmo assim, causa Vidvat-Pratiti nos verdadeiros sábios e Avidvat-Pratiti em homens de mentalidade material. Quem desejar entender plenamente esses dois tópicos deve procurar o Sat-samdarbha (de Sri Jiva Goswami), o Bhagavatamritam (de Sri Sanatana Goswami e Sri Rupa Goswami), ou o Sri Krishna-samhita [do próprio autor, Srila Bhaktivinoda Thakur], para um estudo cuidadoso sob a guia de professores competentes. Seria impraticável tratar sobre eles aqui neste livro. Em resumo, pode-se dizer que a concepção com a ajuda de Vidhya-shakti (poder verdadeiro do saber) é Vidvat-Pratiti, e com a ajuda de Avidya é Avidvat-Pratiti.

Todas controvérsias que surgem sobre o Caráter de Sri Krishna são devidas a Avidvat-Pratiti, enquanto que nenhuma surge por causa de Vidvat-Pratiti. Quem desejar obter a verdadeira bênção espiritual, deve imediatamente adquirir Vidvat-Pratiti. Qual a necessidade de perder o verdadeiro interesse pessoal, por causa de discussões controvertidas sobre Avidvat-Pratiti.?

A partir daqui, vamos dar orientações sobre Vidvat-Pratiti. Vidvat-Pratiti só é possível para aqueles capazes de ultrapassar o pensamento sobre a matéria, e entendem o que é Chit, isto é, sensível ou supra-material. Eles enxergam a Beleza de Krishna com seus olhos-Chit, ouvem as descrições de Seus Passatempos com seus ouvidos-Chit, saboreiam-No em todos aspectos com sua Chit-Rasa (faculdade supra-material de saborear). Todos passatempos de Sri Krishna são Aprakrita (transcendentais) e além do âmbito da matéria. Krishna pode se tornar Objeto da visão material por Sua potência inconcebível, mas os olhos e outros órgãos materiais não podem naturalmente recebê-Lo em seu campo de percepção. Os passatempos de Deus que ficam ao alcance dos órgãos dos sentidos durante Seu período de estadia neste mundo, também, não podem produzir o fruto da visão etc. de Deus, a menos que o observador tenha obtido Vidvat-Pratiti. O fato é que geralmente só Avidvat-Pratiti está disponível. Muitos pensam que a Entidade de Krishna não é eterna, devido a Avidvat-Pratiti, assim imaginam o nascimento, o crescimento, a degeneração etc. do corpo de Sri Krishna. Por causa de sua Avidvat-Pratiti, o estado Nirvishesha (não-distinção) parece ser real, e o de Savishesha (distinção), parece material ou mundano. Assim, ao pensarem que há distinção na Entidade de Krishna, decidem que é mundana. Não é função da faculdade da razão averiguar o que é a Entidade Suprema. Como o poder humano da razão, que é limitado, será capaz de agir a respeito da Entidade Ilimitada? Conseqüentemente, só se pode conhecer e vivenciar (saborear) a Entidade Suprema por meio da faculdade de Bhakti (devoção), que está latente nos Jivas. O que denominamos como Nirmala-Prema (amor puro imaculado), chama-se Bhakti em seu estado preliminar. Vidvat-Pratiti não surge sem a graça de Sri Krishna, e por Sua graça, Vidvat-Shakti [poder do verdadeiro saber] se torna ajudante dos Jivas.

Entre todas concepções sobre a Entidade Suprema prevalecentes no mundo, a única adequada para Vimala-Prema é aquela sobre a Natureza de Sri Krishna. As concepções sobre Alá, encontradas nas escrituras Muçulmanas, não são adequadas para aplicação em Vimala-Prema. Até mesmo Seu amigo mais querido, o Payagambara (Profeta), não é capaz de encontrar Sua Natureza, visto que a Entidade Adorável mantém uma distância de Seu adorador devido à Sua Majestade, mesmo que Se dispondo amigavelmente. Deus concebido na religião Cristã, também Se mantém longe do adorador, que dizer então sobre Brahman. Sri Narayana também não é acessível ao livre amor dos Jivas. O único Objeto para Vimala-Prema direto (vide Bhakti-rasamrita-sindhu 1.1.11) está presente em Vraja (Vrindavan, etc.) da natureza Chit (transcendental).

A Dhama (região) de Krishna é repleta de bem-aventurança. Embora a majestade exista em sua totalidade, ela não tem predominância. Lá, tudo é pleno de doçura e bem-aventurança por natureza. A riqueza consiste de frutas, flores e galhos. Os únicos súditos são o rebanho bovino, os meninos pastores de vacas são os amigos, as meninas pastoras de vacas são as companheiras, a alimentação consiste de leite, manteiga e coalhada. Todas as florestas e bosques estão saturadas de amor por Krishna. O rio Yamuna ocupa-se no serviço a Krishna, e toda a natureza O serve. A Entidade que é recipiente de veneração e adoração como Para-Brahman em qualquer outra parte, é a única Riqueza da vida nessa região, e em algumas vezes é igual ao adorador, e em outras, inferior ao adorador. Se não fosse assim, como é que o insignificante Jiva pode fazer amor com a Entidade Suprema? Ele é altamente esportivo, Mestre do desejo, e intensamente deseja o Vimala-Prema dos Jivas. Ele é o Senhor por Natureza, será que Ele anseia pelo amor das pessoas, ou obtém prazer em satisfazer-Se com a adoração delas? Sri Krishna, que é a fonte da mais primorosa e saborosa doçura excelente da esportividade, obtém bem-aventurança na Vrindavan transcendental, ao admitir Sua igualdade e inferioridade em relação aos Jivas, que são o receptáculo de tal doçura saborosa, ao manter toda Sua majestade oculta sob Sua encantadora doce suavidade. Para aqueles que determinaram como objeto de suas buscas o puro e imaculado amor em sua plenitude, quem mais além de Sri Krishna pode ser o Vishaya desse amor? Embora, termos como Krishna, Vrindavan, Gopa, Gopi, Yamuna, Kudamva-salumva etc. possam não ser citados em algumas partes, devido a diferenças lingüísticas, ainda assim, os termos que se usam para nomes, regiões, e tudo necessário que se usa para os denominar terá de ser admitido pelos cultivadores do amor puro. Portanto, não há outro Vishaya para o amor puro além de Sri Krishna.

Se a tendência ao apego de Raga puro ainda não despertou, o praticante deve se devotar a Krishna por sentimento de dever , e adotar os Vidhis (observação das injunções e proibições ordenadas nos Shastras) principais e secundários. Se considerarmos com profundas deliberações, veremos que existem apenas dois caminhos para cultivar amor por Krishna, isto é, Vidhi e Raga. Raga é raro, e quando surge, Vidhi não se aplica mais ao cultivador. O dever principal dos seres humanos é estar sob a direção de Vidhi até que Raga seja gerado. É por esse motivo que os Shastras mencionam dois caminhos, ou seja, o caminho de Vidhi e o caminho de Raga. O caminho de Raga é bem auto-suficiente, por isso não existem regras. Somente pessoas extraordinariamente afortunadas e altamente competentes é que são capazes de andar nesse caminho. Por esse motivo, somente as regras para o caminho de Vidhi é que foram estabelecidas sistematicamente.

Até mesmo aqueles que desafortunadamente negam a existência de Deus, formulam alguns "Vidhis" ou regras para o gerenciamento dos meios de subsistência e preservação da vida. Esses "Vidhis" são chamados de moralidade ou regras morais. A moralidade que não possui nenhum sistema estabelecido para meditação em Deus, mesmo que seja muito boa em outros aspectos, não é adequada para o propósito de tornar a vida humana frutífera e eficaz. Ela é uma moralidade aversa, ao avesso. A moralidade pode ser aceita como Vidhi para a vida humana, quando for dotada de sistemas para a fé em Deus e para a execução de deveres para Ele.

Há dois tipos de Vidhis: Mukhya (principal ou primário) e Gauna (subordinado ou secundário). O desempenho para o prazer de Deus é o único objetivo de nossas vidas, portanto, o "Vidhi" que se destina a isso, diretamente (sem nenhuma intervenção), é chamado de "Mukhya-Vidhi". E o "Vidhi" com o mesmo objetivo, mas com algumas intervenções, é o Gauna. Isso será mais claro com um exemplo. Banhar-se de manhã é um "Vidhi". A mente se acalma, quando o corpo se refresca e fica livre de doenças, com o banho matinal. A adoração a Deus só é possível quando a mente está tranqüila. Nesse caso, a adoração a Deus que é o objetivo da vida, não está sem intervenções, pois o efeito direto (sem intervenções) do banho é o frescor do corpo. Se o fruto final desse Vidhi for aceito como refrescar o corpo, então a adoração a Deus não será obtida como seu fruto. Quando houverem outros frutos entre o fruto da adoração a Deus e o "Vidhi" do banho, esses outros frutos serão fatores de intervenção. Quando há intervenções, existe uma grande chance de surgirem obstáculos.

O fruto direto de Mukhya-Vidhi é Upasana (adoração) a Deus. Não há frutos intermediários entre esse Vidhi e o Upasana. O cantar dos Nomes e Glórias de Hari [Deus], ou o ouvir sobre eles, podem ser chamados de Mukhya-Vidhi, pois o fruto direto desses Vidhis é Upasana a Deus. Entretanto, se os Gauna-Vidhis não forem adotados, mesmo que Hari-Bhakti esteja sempre presente na mente, a característica normal de Gauna-Vidhi é a garantia para que a alma tenha capacidade para beber o néctar dos Pés de Deus sem pretensões, e incluir dentro de si toda educação secular, arte, indústria, civilização, ordem metódica, perseverança, e as regras de moralidade físicas, mentais e sociais. Na verdade, seguindo Mukhya-Vidhi e com graça, a vida humana se torna plena de bem-aventurança, com o néctar dos Pés de Deus, tanto no período de prática como no período de frutificação.

Existem diferentes categorias de vida humana. Tais como, 1) os que vivem em florestas, 2) os que vivem em sociedade, 3) os que vivem com amenidades científicas, 4) os que são idealistas, mas ateus, 5) os que são realistas e têm fé em Deus, 6) os que levam uma vida devocional, e seguem estritamente as injunções dos Shastras, e 7) os que são devotos Premika, devotos místicos de Deus. É um fato que aqueles nascidos como seres humanos e não possuem fé em Deus, não são genuinamente seres humanos no verdadeiro sentido. Quem não tem fé autêntica em Deus, mesmo que seja muito culto, ou possua todas as amenidades científicas, e seja um grande idealista, ainda assim, ele não pode ser superior a um animal, pois não pode controlar suas propensões animais. O ser humano deve conduzir a vida com fé em Deus e seguir os ditos do Shastra. Por isso, neste livro, nós começamos a narração a partir da vida do ser humano que acredita em Deus, e conduz a vida de acordo com as injunções dos Shastras. O que entendemos como cultura, é a vida de quem acredita em Deus, e sob essa óptica, valoriza as amenidades científicas e os pontos de vista idealistas. Quando tal modo de vida for ultimamente conduzido para a devoção pura ao Senhor Supremo, será o mais elevado prospeto de vida - esses serão os assuntos tratados neste livro. A vida do ser humano deve ser dotada espiritualmente. A característica principal e essência da vida é Dharma. Dharma é dividido em dois, principal e secundário. Quando a alma estiver iluminada e dotada com a bem-aventurança divina, de acordo com a sabedoria intuitiva, a pessoa levará uma vida de devoção, e essa é a verdadeira religião, ou Jaiva Dharma (religião da alma). A religião secundária é aquela onde ainda há influência das três qualidades de Maya [energia ilusória]. Quando a pessoa transcende o Guna [qualidade] triplo de Maya, somente assim, ela cultivará Jaiva Dharma, ou a religião da alma. Na religião secundária, deve-se saber o que é Punya [virtude] e Papa [pecado]. Por outro lado, quando o amor governa o coração, o devoto nunca comete pecado, nem aspira por qualquer virtude, mas presta devoção imaculada a Bhagavan [Deus] somente.

No primeiro estágio discutiremos religião secundária, e finalmente abordaremos Prema-Bhakti.

Neste primeiro capítulo sobre divindade, primeiro usamos a palavra Ishvara [Controlador], depois Bhagavan [Fonte das Opulências], e finalmente Krishna. Mas os leitores não devem pensar que Ishvara é diferente de Bhagavan, e Bhagavan é diferente de Krishna, e assim por diante. Krishna é a única realidade, e o Objeto de adoração de todas as almas liberadas. Krishna é a manifestação final da Realidade Suprema. O senhor da Beatitude. Em geral, quando Krishna é usado para se referir à Realidade, preferimos usar a palavra Ishvara. Neste capítulo em particular abordamos a criação, por isso usamos a palavra Ishvara em vez de Krishna, e queremos dizer que Ishvara é o Supremo Controlador. Além do mais, sempre que são discutidos assuntos espirituais, geralmente são usados os três termos Chit, Achit e Ishvara.

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

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O Sistema de Ensinamentos do Senhor Chaitanya

 

Devemos estudar o Sri Chaitanya Charitamrita para conhecer o sistema de ensino de Sriman Mahaprabhu. O Senhor não deixou nenhum livro composto por Ele próprio. Não existe nenhuma outra obra composta por Ele além do grupo de oito Slokas [versos] chamados Shikshastaka. No Padyavali (antologia de poemas de Sri Rupa Goswami) foram coletados por volta de dois Slokas Dele, mas não encontramos nenhum grupo de instruções sistemáticas neles. Além disso, atribui-se a Ele a autoria de alguns livretes, mas após um estudo minucioso concluímos que isso é mera falácia. Os Goswamis de Vrindavan compuseram várias obras, nas quais podemos obter Seus ensinamentos amplamente, mas eles não mencionaram nada como sendo composição de Sriman Mahaprabhu. O Sri Chaitanya Charitamrita (de Sri Krishnadas Kaviraj Goswami) é um livro autêntico. Podemos encontrar nele muito sobre Sua Vida e Ensinamentos, e esses Ensinamentos foram plenamente confirmados pelos livros dos Goswamis. É por esse motivo que o Sri Chaitanya Charitamrita é tão altamente estimado em toda parte. Sri Krishnadas Kaviraj Goswami viveu logo após Sriman Mahaprabhu, e compôs esse livro. Os discípulos de Mahaprabhu, como Sri Raghunatha Das Goswami, Sri Rupa Goswami etc., ajudaram-no a compor o livro. Antes disso, Sri Kavi Karnapur e Sri Vrindavan Das Thakur escreveram o Sri Chaitanya Chandrodaya Nataka e o Sri Chaitanya Bhagavata respectivamente, dos quais Sri Kaviraj Goswami obteve ajuda em muitos aspectos. Fomos compelidos a recorrer ao Charitamrita após considerar diversos pontos.

Sriman Mahaprabhu propagou amplamente a glória do Hari-Nama e a necessidade de Hari-Kirtan (cantar os Nomes e Glórias de Hari), em Srivasangan, nas margens do Ganges, na escola e nas ruas, mesmo durante Seus vinte e quatro anos de vida como chefe de família. Depois, o Senhor adotou Sannyasa (ascetismo), e deu muitas instruções a Sri Sarvabhoum Bhattacharya, etc., em Purushottam Kshetra (Jagannatha Puri), a Sri Raya Ramananda em Vidyanagar, a Sri Venkata Bhatta, etc., no Sul da Índia, a Sri Rupa Goswami e acidentalmente a Raghupati Upadhyaya e Vallabha Bhatta em Prayag, A Sri Sanatana Goswami e Prakashananda Sannyasi, etc., em Varanasi [Benares], etc., etc.. Os ensinamentos do Senhor podem ser adquiridos corretamente através de todas essas instruções. Nós elaboramos o sistema de Seus ensinamentos, através da deliberação a respeito desses ensinamentos.

Sri Sri Mahaprabhu propagou por toda a Índia o puro Vaishnava Dharma (religião para todos, independente de tempo e lugar), assim deu vazão à Sua imensa misericórdia para com os Jivas do mundo. Ele visitou pessoalmente algumas regiões do país em Suas viagens de pregação, e enviou missionários às várias outras partes. Eles trabalhavam por amor e não esperavam nenhum salário como remuneração. A propagação da religião pura não é possível, se o propagador não possuir um caráter puríssimo. Por esse motivo, hoje em dia, a propagação de diversas religiões por missionários mercenários, não é bem sucedida. O Sri Chaitanya Charitamrita (Adi 8.163-167) afirma: "Sri Krishna Chaitanya abençoou o mundo com a dádiva do amor. Ele enviou Rupa e Sanatana para Mathura, e esses Seus dois generais propagaram a devoção em várias formas. Ele visitou pessoalmente o Sul da Índia, onde pregou Sri-Krishna-Nama de vila em vila até Setumbandha (Ponte de Adan, a extremidade sul da Costa Coromandal), e concedeu o presente do amor por Krishna a todas as pessoas".

A essência dos ensinamentos de Sri Sri Mahaprabhu é que o amor por Krishna é o tesouro da religião eterna para os Jivas (seres). Um Jiva não pode ficar separado do tesouro da religião para sempre. Mas essa religião gradualmente se escondeu na célula mais interior da alma do Jiva, por causa de seu apego a outras coisas, e sob o feitiço de Maya [energia ilusória] devido a seu esquecimento de Krishna. Esse é o motivo para o sofrimento da miséria dos Jivas neste mundo. Entretanto, se ele afortunadamente lembrar - "Sou um servo eterno de Krishna", a religião vai reaparecer e o fará recuperar a saúde.

A fé nessa verdade é a raiz para a bênção plena. A vida mundana de um ser humano entra em decadência em resultado à boa fortuna adquirida através de atos meritórios executados em vários nascimentos, sua fé natural em sua natureza verdadeira reaparece como foi dito : "Se pela boa fortuna um Jiva recupera Shraddha, aí ele obtém a companhia de Sadhus (santos sagrados)". Outro nome para Shraddha é fé, como foi dito : "Shraddha significa fé com a firme determinação de que quando há devoção a Krishna, todos os atos estão executados". "Shraddha" é o nome dado à firme convicção de que todos os atos são executados quando o Jiva se devota a Krishna. Quando a alma se purifica com tal boa fortuna, o Shraddha auto-realizado surge do Dharma eterno da alma. Quem despertou Shraddha, obtém a companhia de Sadhus autênticos , adota o sistema de Bhajan (prática da devoção) deles, avança, e obtém sucessivamente Nistha (constância), Ruchi (sabor), Aasakti (apego) e então Bhava (estágio de êxtase).

Quando o Shraddha auto-realizado surge, começa a caminhada no caminho da sede de amor (vide Bhag. 11.20.9). Dessa forma, a pessoa se capacita a progredir no caminho do êxtase de amor por Krishna sem nenhum temor, e sem ter que considerar deliberações e injunções dos Shastras. Mas se o Shraddha que surgiu ainda está num estágio frágil, aí o progresso é feito através das instruções de um Guru (preceptor) genuíno. Visto que a definição de Shraddha é a fé nas palavras do Shastra, as deliberações do Guru sobre o Shastra são absolutamente necessárias, como Sri Mahaprabhu afirmou a Sri Prakashananda : ´Ó senhor, ouça o motivo. Meu Guru Me considerou um tolo, e Me repreendeu assim - 'Você é um tolo, e não tem competência para estudar Vedanta, por isso, sempre pronuncie Krishna-Nama, que é a essência de todos os Mantras. Através de Krishna-Nama se obtém os Pés de Krishna. Não há méritos religiosos na Kali-Yuga (era do ferro) [era atual], exceto o Nama, e isso é a essência de todos os Mantras, e o segredo dos Shastras'. Ao dizer isso, ele Me ensinou um Shlokha, e disse: 'Ponha esse Shlokha na garganta (i.e., pronúncia vocal), delibere sobre ele - harer nama, harer nama, harer namaiva kevalam; kalou nastyeva, nastyeva, nastyeva gatiranyatha - i.e., é absolutamente certo que na Kali-Yuga, o único meio de se obter o verdadeiro bem estar é o Nome de Deus Hari, e não existe nenhuma outra maneira'. Comecei a pronunciar o Nama e a obedecer esse mandamento, e em conseqüência, Minha mente enlouquece. Não tenho mais paciência. Fiquei louco, a rir, chorar, dançar e a cantar como um bêbado. Então, quando consegui Me recompor, pensei Comigo mesmo, Meu juízo foi encoberto por Krishna-Nama, e por isso, fiquei louco e perdi a paciência. Pensando dessa forma, perguntei ao Meu Guru - que Mantra o senhor Me deu, Meu mestre, e qual é o poder dele? Quando o pronuncio fico enlouquecido, ele Me faz rir, dançar e chorar? Ao ouvir isso, Meu Guru disse - 'Essa é a natureza de Krishna-Nama Mahamantra, quem o pronuncia, obtém sentimentos extáticos por Krishna; Amor por Krishna é a realização mais elevada, perante a qual todos os outros quatro objetos de busca [religiosidade, prosperidade, prazer sensual e liberação] são tão triviais quanto a grama".

Consideremos uma expressão dessa fala de Sri Mahaprabhu, ou seja, "Ponha esse Shlokha na garganta, delibere sobre ele, nós sabemos que Shraddha incrementa quando é alimentado com as deliberações sobre o Shastra". De acordo com Ele, o Shastra é a única autoridade, e os Shastras que lidam com logomaquia (argumentação seca) não são autoridade, como Ele disse quando ensinava aos Sannyasis de Varanasi: "A maior autoridade é o Veda auto-demonstrativo". Ele também disse em Seus ensinamentos a Sanatana Goswami: "O Jiva sob o feitiço de Maya não tem mais memória, nem conhecimento sobre Krishna; Krishna fez os Vedas e os Puranas por misericórdia a eles (o Jiva)".

É evidente que Shraddha tem dois tipos: delicado ou fraco, e firme ou forte. A devoção que nasce da fé firme é muito forte e de estado extático por natureza. O Shikshastaka (instruções óctuplas) do Senhor (Sri Chaitanya Mahaprabhu) dão amplas instruções sobre isso. O Senhor falou sobre a fé delicada a Sri Sanatana (Seu devoto companheiro sênior em Sri Vrindavan): "Se um Jiva é afortunado suficientemente para obter fé, ele entra em companhia de Sadhus (santos sagrados) onde pratica Shravana-Kirtana (audição e narração das glórias de Deus), como resultado vem a cessação de todos os males, depois adquire constância na devoção, da qual se obtém o sabor por Shravana etc., que por sua vez, desperta o apego em abundância. Desse apego, cresce o gérmen do apego amoroso, que se torna espesso na forma de Prema (amor), e esse é o verdadeiro objeto de busca (a necessidade verdadeira), o depósito de deleite bem-aventurado.

No caso de fé firme, não há necessidade do suporte das deliberações das escrituras. Mas as escrituras e boa companhia são indispensáveis para homens de fé delicada; para eles é inevitável a inclinação preceptoral. Eles obterão avanço gradual, ao receberem decisões sobre as escrituras e o Mantra (fórmula mística) de um bom preceptor, e pela prática da adoração, etc., de acordo com as instruções dele. No Dasamula-Shiksha (treino nos dez compromissos radicais); uma das dez raízes é Pramana (prova ou fonte autorizada do verdadeiro conhecimento), e as outras nove são os Prameyas (objetos de prova), i.e., os sujeitos que devem ser provados.

Somente pela prática de Hari-Nama, que tem sua origem na fé auto-realizada, todos os Prameyas surgem espontaneamente na mente dos devotos dotados de fé, pela graça de Hari-Nama (Nomes do Senhor Hari). Eles não têm necessidade de cultivar Pramana.

Os homens de fé delicada freqüentemente correm o risco de cair em má companhia e dessa forma perdem seu lugar, se não seguem Pramana. O Veda, considerado como o amplificador do Brahman, é o único Pramana para eles. Mas o Veda, que é muito extenso e contém muitas injunções para homens de diferentes tipos de competência, como os Karmis (executantes de ritos e cerimônias) e Jñanis (cultivadores do conhecimento filosófico), faz com que as instruções para devotos puros não sejam facilmente extraídas dele. O significado das diversas partes do Veda é dado como Abhidheya (meios para obter o objeto de busca) de acordo com a escritura Védica específica, por esse motivo, os Satvik-Puranas (literatura antiga sobre a natureza da piedade e probidade, que ensina religião através da História tradicional) aparecem para mostrar esse sentido mais claramente. O Srimad Bhagavatam é o melhor entre todos eles (vide Bhag. 12.13.15) e o Garuda Purana no texto sobre (Arthoyam-Brahmasutranam), etc., e ("granthashtadasasahashram" etc.), é o mais eficiente em dar o significado do Veda sobre a natureza da piedade e probidade. É por esse motivo que o Bhagavatam e os Tantras como os Pancharatras são considerados Pramanas.

Sriman Mahaprabhu disse no Sanatana-Shiksha (Cc Madhya 20.124-125): "Os Vedas ensinaram Sambandha, Abhidheya e Prayojana. Obter relacionamento com Krishna é Sambandha, e os meios para isso são Abhidheya. O meio é a devoção imaculada, e o prospeto é Prema. O Purushartha, i.e., summum bonum da vida, mais elevado, é Prema".

Sambandha significa o relacionamento entre Jiva, Jada e Ishvara, e vice versa. Krishna é unicamente a Realidade. A Realidade possui Suas potencialidades: 1) Achit ou Maya, 2) Jiva. O mundo é criado através de Achit ou Maya-Shakti, e os seres sensíveis são criados pelo Jiva-Shakti. Sambandha significa ser consciente de Krishna. Encontramos nas lições dadas por Sriman Mahaprabhu a Sri Sarvabhoum Bhattacharya: "Onde não há afinidade com as qualidades triplas de Maya, e ser sempre consciente de Krishna, essa é a declaração dos Vedas". Vemos no Sanatana-Shiksha que ser consciente de Krishna é Sambandha, e os meios para isso são Abhidheya. Os Vedas prescrevem sete métodos para se obter compreensão plena sobre Sambandha Tattva: 1) conhecer a ontologia de Krishna, 2) estar plenamente ciente das diferentes potências de Krishna, 3) conhecer sobre Rasa-Tattva, 4) conhecer as Características da alma pura, 5) saber como a alma se envolve no Samsara, 6) conhecer o processo para se livrar de Maya, e 7) conhecer a filosofia da inconcebível distinção e não-distinção simultâneas entre Bhagavan e Jiva.

Sambandha é conhecer plenamente esses sete tópicos. Podemos obter conhecimento pleno sobre Sambandha através do Srimad Bhagavatam, que é mencionado no Garuda Purana: "O mais sagrado dos sagrados é o Srimad Bhagavatam que contém 18.000 Shlokhas. Nele encontramos toda a essência de todos os Vedas, ética, etc., é no Srimad Bhagavatam que o aspecto esotérico dos Vedanta-Sutras é exposto, e esse Srimad Bhagavatam é a melhor literatura sobre Rasa-Tattva. Aquele que o saboreia uma vez apenas, não terá interesse em mais nada".

Abhida-Vritti é uma obra composta de pensamentos, onde a compreensão direta é conhecida, i.e., o significado é facilmente compreendido no contexto, por exemplo, quando se diz dez elefantes, facilmente se entende que há dez elefantes em número. Existem certas palavras técnicas usadas nos Shrutis, que não podem transmitir o significado adequado. Aí temos que recorrer à Lakshana-Vritti, como em Gangayam Ghoshapalli, um significado direto seria, dentro do Ganges há uma vila habitada por vaqueiros. Mas o bom senso não permite que pessoas vivam dentro d'água. Nesse caso, temos que recorrer a Lakshana-Vritti, com a compreensão de que há uma vila nas margens do Ganges...

Quando discutimos sobre os Vedas, primeiramente temos que recorrer a Abhida-Vritti, e por Abhida-Vritti fica claramente entendido que quando seguimos os Vedas, Abhidheya (meio) significa diretamente Bhagavat-Bhakti (devoção a Deus). Karma e Jñana, todos esses processos não podem ser meios diretos de realização divina. O que os Shastras prescrevem é conhecido como Sadhana-Bhakti. O meio que conduz ao fim é o prospeto de vida Prayojana. O prospeto mais elevado de vida é Krishna-Prema. Encontramos no Sanatana-Shiksha (Cc Madhya): "Até agora falei sobre Sambandha-Tattva sobre o qual o Veda-Shastra estabelece Krishna como a única Suprema Realidade a ser conhecida. Agora, falarei sobre Abhidheya, os meios pelos quais podemos obter Krishna, bem como Krishna-Prema".

Assim, Sriman Mahaprabhu ensinou Jaiva-Dharma, a religião da alma pura.

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

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O Senhor Krishna, Suas Potências e Sentimentos Saboreáveis

 

O Deus Supremo é Krishna com Sua Forma Natural de Existência Eterna, Sensibilidade Pura e Beatitude Perfeita. Ele não tem início, e é a Causa Primordial de tudo. Nos Shastras, Ele é conhecido como Govinda, a Causa de todas as causas, como é dito no Sanatana-Shiksha : "Ó Sanatana, ouça sobre a descrição da Natureza Própria de Krishna. Ele é Advaya-Jñana (personificação da sabedoria única), e é filho do líder de Vraja (aldeia dos pastores de vacas). Ele é a causa de tudo, o conglomerado de todas as partes, o auge da adolescência. Seu corpo é Chit (sensível) e Ananda (beatitude). Ele é o refúgio de todos, e o Senhor de tudo. Ele é Deus em Pessoa, chamado Krishna, Govinda. Ele é o Possuidor de tudo, Goloka é Sua morada eterna".

Nota-se a concepção sobre a Natureza de Deus no mundo dos Jivas. Os Jivas de ordem superior podem conceber a Natureza de Deus com a ajuda da faculdade de percepção, com a qual os homens foram dotados por Deus. Há três tipos de faculdade humana de percepção: 1) os órgãos de percepção do corpo material grosseiro, 2) o corpo sutil ou poder mental da concepção, e 3) a faculdade sensível de discernimento intrínseca na natureza da alma. O olho, o ouvido, o nariz, a língua e a pele são os cinco órgãos de percepção. A percepção externa por meio deles é unicamente sensação material. Com o auxílio de meditação, concentração, abstração fixa da mente, etc., refletidas na mente por meio da sensação material, consegue-se unicamente sensação material, e um vestígio da sensibilidade espiritual. Por isso, essas duas faculdades de sensação são de natureza material. Através delas não é possível conceber a verdadeira natureza de beatitude da sensibilidade, que é a Natureza de Deus. Não é possível ver a Natureza de Deus a menos que se recorra à faculdade espiritual. Homens que tentam conseguir uma visão da Natureza de Deus com a ajuda dos órgãos sensuais, recorrem a Astanga-Yoga (processo óctuplo necessário para a concentração da mente), como Asana (modo de postura para contemplação religiosa), Pranayama (controle da respiração com o mesmo propósito), Dhyana (concentração da mente), Dharma (abstração fixa da mente) etc., e eles pensam que tiveram uma visão de Paramatma [Superalma], e concebem Deus como a alma da criação, pelo processo de modo negativo de pensamento. Até mesmo por esse processo, eles não obtêm perfeitamente a visão transcendental (supra-material). Eles conseguem apenas uma compreensão parcial, meramente por rejeitar o conhecimento da natureza material. Há outros que aplicam o princípio da negação mais amplamente para censurar as formas e figuras da natureza material, e imaginam um Senhor Supremo sem forma, ao não admitirem nenhuma variedade, e consideram isso como a visão do Brahman. Na realidade, essa visão do Brahman é apenas aparência. Por isso, o Senhor Chaitanya disse a Sri Sanatana : "Através da prática de Jñana, Yoga e Bhakti surgem as três manifestações Brahman, Paramatma e Bhagavan respectivamente". O Veda indica unicamente Krishna, tanto direta como indiretamente, tanto positiva como negativamente, e esse é o seu propósito".

O fato é que quando o Jiva quer ter uma visão de Deus como um observador, exercita seu poder de visão de acordo com sua plataforma, e vê Deus de acordo com sua visibilidade. Deus aparece para nós como Paramatma através de Karma-Yoga, como Brahman através de Jñana-Yoga, e como Bhagavan através de Bhakti-Yoga. Os sábios, que conhecem a realidade, chamam Advaya-Jñana (personificação da Verdade Única) de Tattva (Verdade Última). Essa Forma Única de Sensibilidade Pura é visualizada diferentemente, através dos diferentes instrumentos respectivos de diferentes observadores. Mas ultimamente, Brahman, Paramatma e Bhagavan são na realidade a mesma Verdade Última. Cada observador determina como verdade mais elevada, aquilo que vê de acordo com seu modo de alcance.

Esse Bhagavan é Krishna. O poder de apreciação da verdadeira realidade parece ser muito pequeno, quando possuído por aqueles que consideram Krishna como um mero ser humano, dado à sensualidade excessiva, como os homens. Sri Sri Mahaprabhu ensinou a Sri Sanatana que Krishna é o Próprio Deus , de acordo com o significado do Srimad Bhagavatam, etc.: Bhagavan é apreciado plenamente através de Bhakti, há inumeráveis fases em Seu mesmo Corpo. Primeiramente, Ele permanece em três formas, 1) Svayam-Rupa (Forma que não depende de nenhuma outra), 2) Tadekatma (Forma que não é diferente de Svayam-Rupa, mas é distinta em aparência e características), 3) Avesha (grandes almas, nas quais o Senhor penetra com Jñana, Shakti etc.). Svayam-Rupa Se expressa em duas Formas: 1) Krishna na forma de pastor de vacas em Vraja (Vrindavan, etc.) e 2) Svayam-Prakasha. Essa última Forma se expressa de dois jeitos, a) Prabhava, e b) Vaibhava. Há seis tipos de Avataras (advêm ao mundo) de Krishna, 1) Purushavatara, 2) Lilavatara, 3) Gunavatara, 4) Manvantara, 5) Yugavatara, e 6) Shaktiaveshavatara. Brahma e Shiva são Bhaktavataras que cumprem mandamentos, e para sustentar o mundo há Vishnu, a Própria Forma de Krishna.

As excelências divinas Bhaga são seis em número: Majestade plena Aishvarya, poder pleno Virya, glória plena Yasah, prosperidade plena Sri, ciência plena ou conhecimento Jñana, e abnegação plena Vairagya. Quem possuir todas essas é o próprio Bhagavan, visto que todas as excelências divinas encontram seu auge Nele naturalmente. Não existe ninguém superior a Krishna, ou igual a Ele. Krishna na Sua Própria Forma Svayam-Rupa habita Goloka eternamente. Os Tadekatma-Purushas (embora não diferentes do Svayam-Rupa de Krishna têm outra aparência como a de Sri Narayana, e os Avataras agem de acordo com o desejo de Krishna. Mahavishnu é o primeiro Purusha-Avatara. Ele Se deita em repouso no oceano Karana (das causas). Suas partes (Amsa) são Garbhodaka-sayi-Purusha (deitado no oceano da geração), e Kishirodaka-sayi-Purusha (deitado no oceano de leite, ou sustentação). Rama, Nrisimha e outros Avataras são Partes do Purusha-Avatara. Mas Krishna é Bhagavan em Pessoa, a raiz do Purusha-Avatara. Apesar de habitar acima de tudo, Krishna pode simultaneamente descender como Vrajendra-Nandana (Filho de Nanda, o líder dos pastores de vacas), através de Sua potência inconcebível. Como foi delineado nos Upanishads (Vedas), Brahman é o brilho do Corpo de Krishna ; Paramatma, mencionado no Yogashastra e no Veda, é uma Parte de Krishna. Essas duas afirmações possuem várias confirmações nas escrituras a seu favor, as ciências da logomaquia e argumentação não podem compreendê-las. Da mesma forma, como a luz que emana da natureza do Sol se espalha por todo sistema solar, o feixe luminoso do brilho ilimitado do sol Krishna, que é por natureza Chit (sensibilidade) e Ananda (bem-aventurança), dotado com todo poder transcendental, se propaga por tudo, difunde-se universalmente, e aparece como o Brahman nas mentes dos sábios acadêmicos cheios de pensamentos negativos, por meio das propriedades negativas, tais como amorfia, etc.. Os Yogis estão à procura de Parte de Krishna, Paramatma, que penetra em Sua criação. Propriedades como amorfia (Nirakar ou incorporeidade), insensibilidade (Anirvikarad), etc., que são vícios de Sattvaguna (primeira das três qualidades inerentes da natureza) mundana, se tornam objetos adoráveis para os sábios acadêmicos com conhecimento limitado. Pessoas de conhecimento limitado, que se consideram grandes sábios acadêmicos, com receio de que a adoração humana (antropoteísmo) ou adoração da virtude predomine sobre nós, recorrem às propriedades de Niraka e Nirvikara, e com o tempo ficam desprovidas da riqueza do amor a Deus.

Tais revoluções, invadem o Jaiva-Dharma (qualidades inerentes universais dos Jivas) puro, devido a impressões errôneas. Aqueles em cujos corações surgem as Glórias e Beleza de Sri Krishna, estão salvos das concepções negativas de Nirakar, etc., e visualizam o reino transcendental. O Jiva pode experimentar tal bem-aventurança eterna como resultado da boa fortuna. Infelizmente, o intelecto iludido pelo conhecimento (empírico) torpe mundano não pode se estender à região transcendental. Embora Krishna seja o Senhor da região mais elevada de Goloka, no tempo transcendental sem começo e sem fim, através de Sua potência inconcebível Ele traz a Si mesmo e à Vraja de Goloka a este mundo mundano, de acordo com Sua livre vontade, e até mesmo, permanece aqui com Suas qualidades distintas (sem nenhum toque de matéria mundana). O Jiva vem a conhecer esses passatempos de Krishna pela contemplação pura da alma (e não confundido por qualquer aberração mental). Isso não é perceptível pelos olhos físicos. Krishna pode às vezes Se expor aos olhos físicos por meio de Sua potência pessoal, mas Se mantém não-visível a eles. Os passatempos de Krishna são eternos, e não se limitam a tempo e espaço. Eles são visíveis somente aos olhos espirituais puros da devoção, e contemplados na mente purificada pela devoção. Enquanto a mente procurar pela Verdade Suprema com o orgulho do conhecimento empírico e da ciência da natureza mundana, essa Verdade vai naturalmente manter distância. Quando alguém invoca Krishna num estado mental comovido e com a maior humildade, inferior à grama, assim, ele será suficientemente afortunado para obter visão direta Dele, e será possuidor de felicidade ilimitada. Quando Shraddha (fé) desperta, pela boa fortuna, não se comete mais a ofensa espiritual de permanecer enamorado pelo orgulho mundano. Raça, casta, saber mundano, beleza, força, conhecimento empírico, alto status, riqueza, domínio, etc. não têm nada a ver com o cultivo da verdade sobre Sri Krishna. Por esse motivo é que a verdade sobre Krishna se mantém afastada daqueles orgulhosos de seu nascimento elevado, etc.. Por essas razões fica claramente evidente o motivo pelo qual, na presente era, a verdade sobre Krishna é motivo de indiferença para as pessoas.

A causa da condição miserável da ciência mundana é querer indagar sobre todas as verdades que estão além de seu alcance. Ela não tem competência para assuntos transcendentais, ainda assim, corre atrás disso impudentemente, e se detém em conclusões insignificantes para desistir da longa busca e não se submeter a transformações. Quando o Jiva se torna humilde, em resultado da boa companhia, se transforma no objeto da graça da misericórdia de Krishna, e assim, adquire competência para as verdades transcendentais, e não simplesmente por deliberações empíricas.

As potências de Krishna são ilimitadas. Não podemos saber quais potências funcionam em quais partes do universo sem limites, com o nosso conhecimento limitado de Jivas. Na região Chit, i.e., além do Viraja (a linha de discriminação entre os mundos mundano e supra-mundano) está Vaikuntha (de Narayana) e acima está Goloka Vraja (de Krishna). Todo Aishvarya (majestade) se manifesta em Vaikuntha na forma de Sri Narayana com quatro braços; em Goloka, toda majestade se esconde sob a manifestação de Shaktiman (mestre de todas as potências Nele próprio). Há uma grande potência inconcebível Dele, Svarupa (Natureza). As escrituras chamaram essa potência de Maya em várias partes, pelo seu significado derivado, isto é, aquilo pelo qual é feita a medida ou limitação (a raiz "maa" significa medida). Maya é chamada de indicação externa de Krishna, visto que não há outra indicação de Krishna além de Maya. Os conhecedores da verdadeira verdade chamam Sua Maya de Svarupa-Shakti (potência natural) de Krishna, e eles explicaram que Chit-Shakti e Maya-Shakti são diferentes uma da outra, uma é Para (superior) e a outra, Apara (inferior). Na realidade, Para-Shakti é a única Shakti inconcebível de Krishna. Seu reflexo é chamado de Apara-Shakti. Essa Maya refletida é quem controla o universo material. A Maya-Shakti refletida que é censurada em casos Chit, e não Svarupa-Shakti Maya. Por esse motivo, Sri Chaitanya Mahaprabhu disse a Sri Sanatana : "A potência natural de Krishna assume três formas, Chit-Shakti, Jiva-Shakti e Maya-Shakti". O Senhor disse mais ainda : "Há três potências principais entre as Shaktis ilimitadas de Krishna: Ichcha-Shakti (potência de vontade), Kriya-Shakti (potência ativa) e Jñana-Shakti (potência cognitiva)". O Senhor também disse a Sarvabhoum Bhattacharya. "A Natureza de Deus é composta por Sat (existência eterna), Chit (sensibilidade pura) e Ananda (beatitude perfeita); a Chit-Shakti possui três formas em suas três partes, isto é, na parte "Ananda" é Hladini (felicidade), na parte "Sat" é Sandhini (essencialidade ou natureza existente), e na parte "Chit" é Sambit (cognição), o conhecimento sobre Krishna. Depois, Chit-Shakti é Antaranga (interna), Jiva-Shakti é Tatastha (permanece na fronteira) e Maya-Shakti é Jada (externa), as três formam Prema-Bhakti", (a idéia aqui é que quando Jiva-Shakti é castigada por Maya-Shakti, fica sob a influência de Chit-Shakti, e resulta no amor a Deus).

Em suma, Atma-Shakti (potência própria) ou Svarupa-Shakti (potência natural) ou Para-Shakti (potência superior) de Krishna são iguais. Três tipos de concepção, três tipos de influência e três tipos de percepção de Para-Shakti foram desdobradas pelo desejo de Krishna. Chit-Shakti, Jiva-Shakti e Maya-Shakti formam a concepção; Ichcha-Shakti, Kriya-Shakti e Jñana-Shakti formam a influência; Sandhini, Sambit e Hladini formam a percepção. 1) Pela influência da potência volitiva se desdobraram: Chit-Shakti, Goloka, Vaikuntha e outras plataformas para atividades de passatempos, os Nomes de Krishna, Govinda, etc., os Vigrahas (Corpos) com dois, quatro, seis Braços, etc.; os passatempos com os companheiros eternos nas regiões de Goloka, Vrindavan, Vaikuntha, etc.. 2) Pela influência de Jñana-Shakti surgiram: a majestade, a suavidade e beleza de Vaikuntha do Chit-Shakti. Ninguém mais possui a potência volitiva. O agente controlador de Jñana-Shakti é Vasudeva manifesto. O agente controlador de Kriya-Shakti é Baladeva-Sankarshana manifesto; sob a influência de Ichcha, Jñana e Kriya Shaktis na potência marginal Jiva-Shakti, surgiram os companheiros eternos de Deus, as deidades encarregadas, homens, demônios, canibais, etc.. 3) A percepção de todas as atividades de Krishna é influenciada por Sua própria Kriya-Shakti. Sandhini, Sambit e Hladini são as variedades em Chit-Shakti. Todas essas combinadas realizam inspirações extáticas de amor diretas e indiretas, o mais elevado objeto de busca. A Shakti de Krishna é ilimitada, sem fim e sem fronteiras. Todas as atividades de Chit-Shakti são eternas. O Sanatana-Shiksha afirma que embora os Chit-Shakti-Vilasas (Goloka, Vaikuntha, etc.) não são capazes de serem criados, lá, todas as manifestações acontecem pelo desejo de Sankarshana. Outro nome para Chaya (ou Maya) Shakti é Jada-Prakriti (natureza mundana), como foi descrito (Cc Madhya 20.259-261): "Sankarshana cria os vários mundos através de Maya, a natureza mundana não é a causa. Sem a potência de Deus não há a criação dessa natureza. Sankarshana é quem põe Shakti nela. Essa natureza cria pelo poder de Deus, do mesmo modo como o ferro adquire o poder de queimar quando esquentado pelo poder do fogo".

O nome da Kriya-Shakti de Krishna é Sankarshana-Shakti. O mundo mundano é a transformação efêmera de Maya-Shakti. Isso será explicado um pouco mais claramente na próxima Chuva (capítulo) em relação a Tatastha ou Jiva-Shakti.

O Próprio Sri Krishna é Rasa-Tattva (verdade sobre sentimento saboreável). Assim foi dito no Veda. A verdadeira natureza de Rasa será apreciada em sua descrição elaborada na Primeira Chuva (capítulo) do Sexto Aguaceiro (seção). Os mundos são mundanos, por isso, tudo que se diz aqui também será mundano, por mais cuidadosamente que seja dito. Na realidade, se o leitor possuir Shraddha (fé forte), o Rasa transcendental (supra-mundano) poderá ser concebido em sua mente purificada. Isso é possível através de boas companhias graças à boa fortuna. Rasa não poderá ser compreendido através de recorrer repetidamente à pressão da logomaquia. Através de más companhias, Rasa conduz a inquirir em direção à queda, na forma de pseudo-devotos insinceros. Rasa-Tattva deve ser concebido com muito cuidado.

Sri Krishna é o próprio Rasa pleno, com Seus sessenta e quatro atributos transcendentais (vide Brsms 3). Cinqüenta desses são notados diminutamente nos Jivas.

Numa escala um pouco maior, esses cinqüenta atributos adicionados a mais cinco são encontrados em Shiva, Brahma, Ganesha, Surya e outras deidades. Por esse motivo, eles são chamados de "deuses", embora sejam partes separadas Dele. Esses cinqüenta e cinco atributos adicionados a mais outros cinco aparecem em sua totalidade em Narayana, Vishnu e Seus Avataras (encarnações). Esses sessenta e quatro atributos de Vishnu e mais quatro atributos transcendentais extraordinários estão presentes em Krishna. Por isso, somente Sri Krishna é o Todo-Poderoso Senhor Supremo acima de tudo, e a fonte original de todos os Rasas. Todas as formas variadas de Svarupa-Shakti tomaram a forma dos ingredientes dos Rasas de Krishna: Shanta (tranqüilidade), Dasya (servidão), Vatsalya (amor paternal/maternal), Sakhya (amizade) e Madhura (doçura amorosa). Sri Radha, a essência de Hladini, é a líder de todas. Embora a Vraja de Goloka seja a residência eterna desse Rasa, ainda assim, pelo Desejo de Krishna, Chit-Shakti como Yoga-Maya manifestou esse Rasa em sua totalidade na Vraja mundana. Aqueles cujo o intelecto não adquiriu poder para ultrapassar os atributos mundanos, não serão capazes de deliberar sobre esse Rasa-Tattva ilimitado, nem concebê-lo. Eles negligenciarão o Rasa de Vraja como sendo mundano. O Srimad Bhagavatam disse : "Aqueles que narram ou ouvem Vraja-Rasa com Shraddha, logo obterão amor por Deus que é Bhakti pura, e se livrarão da doença de seus corações (i.e., luxúria)". Esse é o ensinamento final de Sri Chaitanya Mahaprabhu.

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

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Jivas Individuais - Caídos e Liberados

 

Recebemos as seguintes instruções, como foram pronunciadas pelo Próprio Sri Mahaprabhu : "Krishna, que é o Próprio Deus, é Advaya-Jñana-Tattva (verdade última da personificação da sabedoria única); Sua natureza é Svarupa-Shakti. Ele executa Seus passatempos esportivos no Vaikuntha ilimitado e no universo mundano, ao Se expandir em Partes-Próprias e partes separadas. A expansão em Partes-Próprias resulta nos Chaturvyuha-Avataras (Encarnações de Vasudeva, Sankarshana, Pradyumna e Aniruddha); as partes separadas são os Jivas, tidos entre Suas Shaktis. Essas partes separadas, Jivas, são de dois tipos, as sempre livres, e as sempre presas ao Samsara (vida mundana com sucessão de nascimentos). Os Jivas sempre livres estão voltados aos Pés de Krishna, e são chamados "Krishna-Parishada" (companheiros de Krishna), e desfrutam da bem-aventurança do serviço a Ele. Os Jivas sempre presos têm aversão permanente a Krishna, e se submetem permanentemente ao Samsara, e sofrem as misérias tais como inferno, etc.. A Maya diabólica os pune por causa dessa ofensa, e sofrem excessivamente por causa dos três tipos de sofrimentos, 1) próprios, i.e., do corpo e mente, 2) pelos deuses, e 3) pelas criaturas. Eles se tornam servos da luxúria e ira, e são vítimas de seus golpes. Enquanto vagueiam (de nascimento a nascimento), se conseguirem obter a ajuda de algum exorcista, i.e., Santo, o demônio de Maya os abandonará imediatamente, sendo expulso pelo encanto, i.e., instruções espirituais, que causam o despertar da devoção a Krishna e a aproximação a Ele".

Em outra parte do Sri Sanatana-Shiksha (Cc Madhya 20.108-109), encontramos: "O Jiva é um servo eterno de Krishna, em sua verdadeira natureza, Sua Tatastha-Shakti (potência delimitadora) se manifesta tanto diferencialmente como indiferencialmente (Dele); os Jivas são como os raios do sol Krishna, ou como as centelhas do fogo Krishna".

Novamente no Rupa-Shiksha, instruções a Sri Rupa Goswami, encontramos : "Dessa forma, os inumeráveis Jivas vagueiam pelo universo mundano através de 84 lakhs [8.400.000] de tipos de nascimentos. A natureza do Jiva atômico é considerada como a décima-milésima parte do diâmetro de um fio de cabelo".

O Senhor disse no Sri Sarvabhoum-Shiksha. "Há distinção entre Deus e o Jiva, o primeiro é o Senhor de Maya, e o outro está sob o controle dela. Você fala sobre indiferenciação entre tal Jiva e Deus. No Gita (Bg 7.5) o Jiva é descrito como potência Dele, e esse Jiva está sendo diferenciado de Deus por você".

A essência dessas afirmações fundamentais é que Krishna, dotado de potência inconcebível e que atua conforme Sua Doce Vontade, mantém dois tipos de passatempos com Suas Partes Próprias e partes separadas, através de Sua Chit-Shakti. Ele expande o Chatur-Vyuha (Vasudeva, etc.) e inumeráveis Avataras através de Suas Partes Próprias, e o agregado dos Jivas através das partes separadas. A Chit-Shakti age na sua totalidade para propagar as Partes Próprias; todas são o Vishnu Onipotente. As Partes obtêm potência plena da Entidade Plena. Do mesmo modo como uma vela acesa acende várias outras sem sofrer nenhuma diminuição , e cada vela individual fica igual à original, assim é a expansão das Partes Próprias. Os Purushas (Entidades Divinas) Auto-manifestos não experimentam o fruto do Karma, e embora ajam por Suas próprias vontades, são sujeitos unicamente à Vontade de Krishna.

As partículas diminutas da Chit-Shakti são os Jivas, partes separadas. São conhecidas como a potência divisória entre Chit-Shakti e Maya-Shakti. Maya-Shakti não tem manifestação de existência nelas, mas elas têm uma tendência em direção à Maya. Essa Shakti surgiu da potência inconcebível de Krishna. O desejo irrefreável de Krishna é a raiz dela. As partes separadas Jivas são sujeitas à experiência do Karma. Elas não ficam sujeitas à Maya ou Karma enquanto forem conscientes do serviço a Krishna, conforme sua vontade independente. Mas quando despertam desejo para o auto desfrute e se esquecem de sua função no serviço a Krishna, devido à volição independente, aí ficam encantadas por Maya e sujeitas ao Karma. Tão logo recuperem a lembrança de que o serviço a Krishna é sua função natural, Mukti (liberação) vem para resgatá-las do cativeiro do Karma e dos problemas causados por Maya. Elas [partes separadas] vêm ao mundo mundano de acordo com a dimensão de seu cativeiro anterior, por isso, esse cativeiro é chamado de sem começo, e elas são conhecidas como sempre presas. Aquelas que não estão presas assim, são chamadas de sempre livres, e as outras que estão presas são chamadas de sempre presas.

Nota-se uma grande diferença entre a natureza de Deus e a dos Jivas. Deus é o Controlador de Maya, enquanto os Jivas são inclinados à Maya e virtualmente presos por ela. Os Jivas são chamados de entidades distintas de Krishna, quando julgadas de forma discriminada, pois são partes de Krishna, o Chit Pleno. Também são considerados não distintos Dele, pois pertencem à potência de Krishna. Por isso, Sri Chaitanya Mahaprabhu afirmou que o Jiva é uma manifestação distinta e não distinta, e ensinou Achintya Bheda Abheda Tattva (doutrina inconcebível da distinção e não distinção simultâneas). Ele estabeleceu os Jivas como eternamente diferentes, partes separadas de Krishna, por meio de dois exemplos metafóricos sobre os raios do sol e as centelhas do fogo. A identidade dos Jivas como Para-Brahman nunca se estabelece através das afirmações contextuais locais do Veda, tal como "Aham Brahmasmi" (eu sou Brahman) etc., Krishna, ou a Entidade de Vishnu, é o único Para-Brahman. Logicamente, considera-se o Jiva como Brahman, por ser uma entidade Chit. A entidade de Brahman, que é o brilho resplandecente da Natureza de Krishna, o Para-Brahman, propaga-se no mundo separado como Paramatma, e se espalha fora deste mundo como o esplendor indiretamente concebido como o não distinto, inconcebível, invisível e inalcançável Brahman. As partes inconcebíveis de Krishna se expandem em várias formas, tais como, Devas (deuses), demônios, seres humanos, animais, pássaros, insetos, vermes, fantasmas, etc.. Entre todos os Jivas (seres), o homem é o melhor, pois essa forma é adequada ao cultivo da devoção a Krishna. Os Jivas experimentam prazer e dor no céu e no inferno, mesmo como humanos, de acordo com seu Karma. Esquecidos de Krishna, os Jivas vagueiam à procura do fruto de suas várias esperanças, sob as garras de Maya.

Pela sua natureza, o Chit-Jiva atômico é servo do Chit Pleno, Krishna. A natureza do Jiva é servidão a Krishna. O Jiva permanece preso, devido ao esquecimento de sua própria natureza eterna. Ele obtém a condição de liberdade, quando sua natureza eterna desperta em sua lembrança. A potência que se possui naturalmente por todos os seres sensíveis é encontrada no Chit-Jiva atômico numa quantidade atômica. Por esse motivo, os Jivas são quase sempre sem potência do próprio Krishna, quando estão no estado liberado. Quando o Jiva se considera um ser meramente Chit (sensível), não pode obter potência; o Mukti (liberdade) que adquire tem a natureza de emancipação da vida mundana. Mas quando se considera servo de Krishna, pode até mesmo conseguir bem-aventurança positiva, por obter a potência de Krishna, e o medo causado por Maya é totalmente removido.

Há várias formas de almas condicionadas (Jivas presos), de acordo com o fruto de seu Karma (ação). Não existe Guna (qualidade) ou Dharma (qualidade inerente) de Maya na constituição dos Jivas. A afirmação de que os Jivas são constituídos por Dharma de Maya é Mayavada (doutrina da ilusão mundana). Na realidade, os Jivas são seres Chit puros, constituídos de qualidades Chit. Eles têm a tendência de serem presos pela qualidade de Maya, devido à sua posição marginal (como potência divisória). Isso só ocorre quando esquecem sua função natural como servos de Krishna. A existência, forma e transformação do Shuddha (puro) Jiva são de natureza Chit. Os Jivas por serem Chit atômico, tão atômicos que quando presos por Maya, primeiramente, o corpo sutil, i.e., a mente, cobre sua forma pura, e quando vêm ao campo de ação, o corpo material grosseiro também cobre o corpo sutil, e o torna adequado para a ação material (mundana). Esses corpos grosseiro e sutil são perversões da natureza Chit pura, através de Maya. Há uma similaridade entre eles. Terra, água, fogo, ar e céu, esses cinco Bhutas (elementos materiais grosseiros) formam os corpos grosseiros dos Jivas presos. Manah (mente), Buddhi (intelecto) e Ahamkara (egoísmo), esses três Linga-Tattvas (faculdades discriminadoras) formam o Linga-Deha (corpo sutil). Quando essas duas coberturas são removidas, O Jiva alcança liberação das garras de Maya. Aí então, o seu Chit-Deha (corpo espiritual) é revelado. As almas livres agem com sentidos do próprio corpo espiritual. No corpo espiritual não há nada do mundo material, como, comer, passatempos, relações sexuais, excrementos de urina e fezes, machucados físicos, doenças, etc.. Os Jivas sentem prazer e dor, ao admitirem como pessoais as ações que executam com seus corpos grosseiros, sob o conceito ilusório de que o corpo grosseiro é o ego. A esse respeito, mesmo os seres livres trabalham sob um certo inconveniente. Eles não obtêm um corpo devocional adequado à verdadeira devoção, mesmo após a liberação, enquanto mantiverem os conceitos da sabedoria material mundana e da obsolescência da matéria mundana. O despertar do corpo devocional puro se capacita nesse estado de liberação, que está envolvido no resultado da associação com pessoas de caráter santo. A liberação disponível na companhia de cultivadores de Jñana (especulação para o monismo absoluto) é o único conceito para a auto-liberação; e é, também, uma condição miserável para os Jivas.

Deliberamos brevemente aqui sobre as naturezas dos Jivas como pura, presa e liberada. Posteriormente, deliberamos sobre os atos que devem ser e que não devem ser executados por eles.

 

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A Doutrina da Distinção e Não-Distinção

 

As "chuvas" (subseções) anteriores trataram dos seis sujeitos de prova, Krishna, Potências de Krishna, Krishna-Rasa (sentimentos saboreáveis em relação a Krishna), Jiva-Swarupa (natureza intrínseca dos Jivas), Jivas-presos e Jivas-livres. Nesta seção vamos lidar brevemente com Achintya-Bhedabheda-Tattva (verdade inconcebível sobre a distinção e não-distinção).

Sri Sri Mahaprabhu disse durante Seus ensinamentos aos Sannyasis de Kasi : "O princípio adequado é Parinama-Vada (teoria da transmutação) conforme os Vyasa-Sutras, porém os Mayavadis dizem que ele (Vyasadeva) está errado, pois o Brahman fica sujeito a transformações de acordo com essa teoria. Por isso, eles formularam o Vivarta-Vada (teoria da ilusão). Na realidade, a teoria da transmutação é a prova correta, enquanto a da ilusão é adequada somente, quando indica a identificação da alma com o corpo. Sri Bhagavan possui potência inconcebível e Ele se transmuta na forma do universo. Ainda assim, devido a Sua potência inconcebível Ele se mantém intacto, imutável. Encontramos essa situação até mesmo na Chintamani (pedra filosofal) mundana. A Chintamani produz várias gemas e jóias, e permanece inalterada em sua natureza. Não há vestígio de Maya na Natureza de Deus; todos os Vedas se referem a Ele. Se O chamarmos "Nirvishesha" (sem admitir qualquer distinção) e negarmos Sua potência-Chit, afetaremos a totalidade, metade da Natureza será negada".

O Senhor disse novamente no Seu Sarvabhoum-Shiksha : "Os Vyasa-Sutras (Vedanta) aceitam os significados proeminentes das palavras dos Upanishads como significados verdadeiros. Você está imaginando significados indiretos em preferência aos proeminentes, e está abandonando o sentido principal das palavras e adotando suas implicações secundárias".

O Senhor disse mais ainda em Seu Sannyasi-Shiksha : "O Pranava (sílaba mística "OM") é o Mahavakya (expressão védica fundamental), e é a própria origem dos Vedas. O Pranava é tão bom quanto o Próprio Deus, e é o depósito de todo o universo. Procuramos por Deus, o Sustentador de tudo, através da pronúncia do Pranava, enquanto "Tattvamasi" (você é Ele) limita-se a uma parte dos Vedas. Vocês estabeleceram "Tattvamasi" no alicerce de Mahavakya". O Senhor disse mais : "Os Vedanta-Sutras são a palavra de Deus, pois Sri Narayana os compôs assumindo a forma de Sri Vyasadeva. Não existem defeitos, tais como erros, omissões devido à inadvertência, decepções e fraqueza dos sentidos, nas palavras de Deus. A verdade dita nos Sutras (aforismos do Vedanta) de acordo com os Mantras do Upanishad, explicada com o significado proeminente das palavras, deve ser aceita com o maior respeito. Mas se der ouvidos aos comentários de Sri Shankaracharya com a ajuda das implicações secundárias das palavras, tudo dessa pessoa será destruído. Shankaracharya não é culpado, pois está agindo sob a ordem de Deus (vide Padma Purana, Uttara-Khanda Sahashranama), ele escondeu o significado principal e mostrou os secundários inferiores. A palavra "Brahman" se refere a "Bhagavan", aquele que possui as seis majestades em sua plenitude e não possui outro igual ou superior, conforme o sentido proeminente principal. Todo Seu poder sobre-humano e Corpo são Chits (sensíveis, transcendentais), mas Sri Acharya [Shankaracharya] encobriu Seu poder Chit e O chamou de sem corpo. Tudo Dele, i.e., Corpo, residência, séquito etc. é Chidananda (beatitude da sensibilidade), e ele os chama de perversões do Sattva (qualidade inerente do conhecimento) mundano. Ele é inocente, por ser um servo obediente de Deus. Mas quem lhe der ouvidos estará arruinado".

O significado dessas palavras magníficas do Senhor Sri Chaitanya Dev é o seguinte: Pranava ou sílaba mística "OM" é Nome Sagrado secreto de Krishna, a semente primordial dos Vedas e Shabda-Brahman (Logos), e está presente em todos os Vedas. A palavra "Pranava" significa elogio de forma derivada. Portanto, Omkara é a encarnação verbal do Para-Brahman (Bhagavan) que sempre deve ser adorado com hinos de elogio. Todos os Vedas aparecem através do Omkara. Na realidade, o Pranava é o Mahavakya, que contém a própria semente dos Vedas; as outras partes dos Vedas contêm sentenças que são unicamente regionais, que se relacionam a partes particulares. Sri Shankaracharya, o criador do sistema Mayavada, revelou os quatro Mantras regionais dos Vedas, e desprezou as características do Pranava como Mahavakya, eles são: 1) Aham Brahmasmi (eu sou Brahman), 2) Prajñanam Brahman (sabedoria é Brahman), 3) Tattvamasi (você é Ele), e 4) Ekameva-advitiyam (não há dois, mas um), a posição elevada de Mahavakya. Devido à necessidade de manter a devoção verdadeira escondida na escuridão, junto com seu revelador, o Pranava, a própria semente dos Vedas, ele denominou algumas outras afirmações Védicas de Mahavakya, a fim de promulgar a doutrina Kevala-Adwaita-Vada (monismo absoluto).

A escola de Sri Shankaracharya aceita que a existência dos Jivas sob o controle de Maya é feita por ela, o Brahman é Ishvara somente por meio dela, e o Jiva só obtém emancipação através de Brahmanirvana ou disjunção de Maya. Assim, a relação pura do Jiva com Para-Brahman (Bhagavan) fica escondida. Essa teoria não considera os Vedas inteiramente, por esse motivo, Sri Madvacharya estabeleceu Dwaita-Vada (doutrina do dualismo, i.e., Deus, o mundo dos Jivas e a matéria são distintos), por meio de alguns Shrutivakyas (afirmações Védicas). Nessa, também, não há uma consideração plenamente compreensiva, a verdade real sobre a relação não se revela totalmente. Da mesma forma, Sri Ramanuja não revelou a verdade completa em seu Vasistadwaita-Vada (doutrina do monismo com a característica especial na qual se admite uma certa distinção). Sriman Nimbaditya também propagou outra filosofia incompleta no seu Dwaitadwaita-Vada (doutrina da unidade em dualidade na qual Deus, o mundo dos Jivas e a matéria são distintos e unos em essência). Sriman Vishnuswami também deixou alguma obscuridade no seu Shuddhadwaita-Vada (doutrina da unidade em uma forma mais pura do que a de Srimad Shankaracharya, que considera os Jivas como atômicos e eternos, embora capazes de se fundirem no Brahman). Mas Sriman Mahaprabhu salvou o mundo da escuridão de hesitação e dúvida, por ensinar plenamente o conhecimento da relação (entre Jivas, o mundo e Deus) através de Seu Achintya-Bhedabheda-Vada (doutrina inconcebível da distinção e não-distinção simultâneas), com o objetivo de demonstrar a eternidade de Prema-Dharma (princípio do amor). O Senhor diz que o Mahavakya (expressão fundamental) é unicamente o Pranava (sílaba mística OM), seu significado está esplendidamente proeminente nos Upanishads. Os Vyasa-Sutras (Vedanta) adotam plenamente o que se ensina nos Upanishads. O comentário sobre os Vyasa-Sutras é o Srimad Bhagavatam. Logo no início do Vyasa-Sutra (1.1.1), "de onde surgiu etc.", ensina-se que Parinama-Vada (doutrina da transformação) é a verdade. Isso também é ensinado no Veda-Mantra , i.e., "de onde essas criaturas surgiram etc.". Esse significado também se estabelece no Bhagavatam. Sri Shankara promulgou Vivarta-Vada (doutrina da ilusão), ao perceber que o Brahman seria sujeito a transformação no Parinama-Vada. Na realidade, a ilusão do Brahman está na raiz de todos os males. Os Shastras reconhecem Parinama-Vada como a verdade pura e real. Se não for aceita a eternidade da potência de Deus, aí aparecerão os defeitos de ilusão, transformação, etc. em Deus; mas se a potência eterna superior natural do Para-Brahman for aceita, esses defeitos não poderão afetá-Lo, a verdade real é que o universo surgiu através das transformações. Este mundo material e o Jiva-Jagat são o resultado da transformação da potência de Brahman. Através do exemplo dado pelo Senhor sobre a jóia Chintamani que permanece intacta mesmo após produzir ouro, fica claramente evidente que mesmo sendo a potência de Krishna que cria tudo, ainda assim, Krishna não é adulterado por isso. Tudo cresce pela transformação da potência Chit. Através da transformação total da potência Chit existem as regiões de Vaikuntha, etc., os Nomes, Formas, Atributos, Passatempos, e transformações atômicas, os Jivas. Os mundos materiais compreendem os quatorze mundos (nas regiões infernal, terrestre e celestial). Esse Parinama-Vada encontra-se em todas as partes, i.e., nos Vedanta-Sutras e Upanishads. A doutrina da transformação de Parinama-Vada (ou teoria da evolução cósmica) contém o desdobramento gradual ou desenvolvimento de Mahatattva (o primeiro passo em direção à criação, que é o primeiro princípio desenvolvido da natureza), Ahamkara (egoísmo ou autoconsciência), céu, fogo, ar, água e terra. Nada surge eventualmente do Kevala-Adwaita-Vada (doutrina do monismo absoluto), por mais que se force, na expectativa da concepção de que o Jiva e o mundo são produzidos por Avidya. De acordo com o puro Parinama-Vada, é verdade que o Jiva-Jagat e o mundo material surgiram pelo Desejo de Krishna, e a criação não é imaginária; mas pode ser chamada de efêmera, pois pode ser destruída pelo desejo de Krishna. Deus, cuja Natureza é Chit, habita o mundo após tê-lo criado, ainda assim, Ele se mantém à parte dele, como Krishna de Desejo Auto-Independente, servido pela potência plena. Somente aqueles que conhecem a fundo essa verdade maravilhosa é que são capazes de saborear a majestade e doçura ilimitadas de Krishna. Essa é a verdadeira relação entre Krishna e Jiva. A relação do Jiva com o mundo transitório é como a de um viajante com a hospedaria. O trato do Jiva com o mundo material devido à sua relação mútua é Yukta-Vairagya (abnegação adequada). A atividade adequada para um Jiva preso não desperta, enquanto a concepção sobre as relações permanentes e temporárias não crescer.

De acordo com essa doutrina (Achintya-Bhedabheda), a diferença e não-diferença do Jiva e também do mundo em relação a Krishna estabelece-se como verdade simultânea. Ela é denominada "Achintya" (inconcebível ou inescrutável), pois essa verdade da diferença e não-diferença eternas não pode ser conciliada pela razão humana limitada. Ela é realmente racional para Deus, com Suas potências inconcebíveis. Tudo que se estabelece pela potência é a verdade obtida pela graça de Deus. Os sábios antigos nos aconselharam a não adicionar logomaquia (argumentação seca) em tudo que for Achintya ; pois logomaquia nunca pode ser aceita como prova em tópicos incompreensíveis. A má sorte das pessoas que não podem manter essa verdade na memória é ilimitada.

 

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Estabelecimento dos Meios a serem Praticados

 

A verdade sobre Sambandha (relação entre a entidade Jiva e a Entidade Suprema) foi determinada através da deliberação sobre os sete objetos de prova. Nós aprendemos do conhecimento desse Sambandha, que o Jiva, ao esquecer sua relação eterna com Krishna, cai no oceano de Samsara (vida mundana com sucessão de nascimentos) plena dos três tipos de misérias ardentes, e sofre com muita aflição. Através da deliberação sobre os meios de como esse sofrimento pode ser prevenido, sabemos que se a relação acima for estabelecida, todos os problemas serão removidos, e alcança-se a maior bem-aventurança. O Jiva é uma entidade Chit sempre auto-realizada; ele não fica cativo realmente, nem sofre. Ele se submeteu a tamanho tormento, somente por causa do seu Vivarta (erro ilusório) de aceitar o corpo como o eu. Há dois exemplos Védicos sobre a ilusão, o conceito da serpente numa corda, e o da prata na pérola. Os Mayavadis (monistas absolutos), incapazes de compreenderem esses dois exemplos, cometem o erro de considerar a natureza interna do Jiva como Brahman sob ilusão. Quando o Jiva for capaz de entender, pela graça do Guru (preceptor), que esses dois exemplos não se referem à existência interna do Jiva, mas sim ao conceito do Jiva em relação ao eu nos corpos grosseiro e sutil, aí ele estará no caminho certo. Essa é a diferença entre Parinama (transformação) e Vivarta. Quando algo assume outra forma, isso é chamado Parinama ou Vikara. Quando se adiciona ácido no leite, ele vira coalhada, isso é Parinama. Mas quando confundimos algo com outra coisa que não está presente, o nome é Vivarta, como no caso de confundir uma corda com uma serpente que não está no local. O Jiva é uma entidade puramente Chit. Na realidade, ele não é preso por Maya, somente quando seu conceito ilusório se torna forte o suficiente para desviá-lo ao pensamento de que é idêntico ao corpo, aí sim diz-se que está sob erro ilusório. Quando esse conceito ilusório será removido? Ao receber boas instruções de um bom preceptor, seu conceito como servo de Krishna obtém confirmação suficiente, então não haverá mais lugar para o conceito ilusório. Assim, quando se abandona o desejo de alcançar Moksha (emancipação), através do cultivo da devoção a Krishna, pode-se livrar facilmente do conceito ilusório. Pode-se executar os deveres espirituais com desejo por Moksha, aí será uma cultura indireta. Dessa forma, Bhakti é o único Sadhana (prática de meios para obter o objeto de busca). Homens de compreensão falha abandonam Bhakti, e decidem que Sadhana é Karma ou Jñana. Entretanto, Jñana e Karma podem servir como Sadhana de certa forma indiretamente, mas nunca poderão ser o Sadhana principal.

O Senhor Sri Chaitanya Mahaprabhu disse no Seu Sanatana-Shiksha : "Devoção a Krishna é o principal Abhidheya (meios para obter o objeto de busca); Karma, Jñana e Yoga procuram por Bhakti (para seu próprio sucesso em dar frutos). O fruto da prática desses meios é insignificante, eles não têm o poder de frutificar sem a ajuda de Bhakti a Krishna. Sem Bhakti, Jñana não pode dar Mukti (emancipação); mas Mukti está disponível para aqueles que se voltaram para Krishna (i.e., começaram a devoção a Ele) sem Jñana. O Jiva se esqueceu que é servo eterno de Krishna; Maya o prendeu até o pescoço por causa dessa falha. Se servir a Krishna e ao Guru nesse estado, corta-se a rede de Maya em pedaços e obtém-se os Pés de Krishna. Se os homens pertencentes aos quatro Varnas (castas) e Ashramas (estágios da vida) não servirem a Krishna, cairão no inferno, com o desempenho de seu próprio Karma. O Jñani se considera Mukta mesmo nessa vida; entretanto, na realidade, seu intelecto não está puro sem devoção a Krishna".

O Senhor (Sri Chaitanya Mahaprabhu) diz que alguns Shastras prescrevem Karma (ação para obter o fruto desejado), Astanga-Yoga (oito processos necessários para concentração da mente) e Jñana (especulação para o monismo absoluto) como Sadhana (prática para alcançar o objeto de busca); dessa forma, pessoas com inteligência limitada, incapazes de compreender o verdadeiro sentido dos Shastras, estabeleceram esses meios como o principal Abhidheya (meios para obter o objeto de busca). Há vários tipos de seres humanos conforme a competência, mas só existem dois tipos em relação a ter apegos mundanos ou cessação desses apegos. O Sadhana que um ser humano com um padrão particular de competência deve praticar para obter o próximo estágio superior é somente secundário, e não o Sadhana ou Abhidheya principal. O resultado desses Sadhanas é unicamente subir um degrau, que conseqüentemente é um resultado trivial e muito pequeno, quando se considera a altura a alcançar. Karma, Jñana, Yoga e outros métodos secundários subordinados a eles não têm poder para dar frutos, se não tiverem o apoio de Bhakti (devoção a Krishna). Se finalmente recorrerem à Bhakti, aí então, darão algum fruto secundário. Mukti é o resultado de Sambandha-Jñana (conhecimento sobre a relação entre Krishna, a Entidade Suprema, e outras entidades) obtido com a ajuda de Bhakti. Quem dá seu próprio fruto fácil, indireto e trivial na forma de Mukti é Bhakti. Sobre Karma, dizemos que os atos prescritos para os Varnas (castas) e os quatro Ashramas (estágios da vida) são denominados Dharma. Esse Dharma é chamado de Traivargic (pertencente a Trivarga, i.e., Dharma, Artha, Kama). Trataremos sobre Traivargic Dharma elaboradamente no segundo capítulo. As instruções do Senhor (Sri Chaitanya Mahaprabhu) a esse respeito são que os seres humanos com apego mundano obtêm força para executar as principais práticas prescritas, enquanto agem facilmente para a subsistência do corpo e manutenção da família. Nessas circunstâncias, indivíduos com grande apego mundano se tornam competentes para observar Varnashrama (deveres rituais prescritos para as castas e estágios de vida respectivos), e tornam o crescimento de Krishna-Bhakti adequado. Mas, aqueles que praticam o Varnashrama sem o objetivo de Krishna-Bhakti, vão para o inferno, mesmo se executarem seus deveres prescritos. No terceiro capítulo descreveremos Sadhana-Bhakti (Bhakti que serve como meio). Quando o Vaidha (prescrito) Sadhana-Bhakti é devoção pura e não adulterada, será adequada para a prática de Prema-Bhakti (devoção que culmina em Prema - amor por Krishna).

A característica natural eterna do Jiva é amor por Deus, que é o verdadeiro objeto a alcançar através da prática. Surgirá a seguinte dúvida a esse respeito: Se o objeto de alcance pela prática é auto-realizado eternamente, como pode ser alcançado pela prática? O Senhor Sri Chaitanya Mahaprabhu disse sobre isso : "Ó Sanatana, agora ouça sobre a característica de Sadhana-Bhakti (Bhakti que serve como meio), pela qual se obtém a jóia preciosa de Krishna-Prema (amor por Krishna). Sua característica principal consiste dos atos de Shravana (audição), etc., a jóia do amor cresce por meio das práticas marginais [de fronteira]. O amor por Krishna, eternamente auto-realizado, nunca se alcança pela prática, ele aparece na mente purificada por meio da audição, etc.". O significado dessa afirmação do Senhor é o seguinte: "O amor por Krishna é o objeto Siddha (realizado). Esse amor é disponível para os Jivas, na condição de estarem presos por Maya, através das práticas marginais (i.e., práticas para remover obstáculos), ainda assim ele não aparecerá na forma de lembrança. O principal caminho de Sadhana-Bhakti são os atos de Shravana (audição), Kirtana (reprodução), Smarana (lembrança), etc.. Durante a execução dessa prática, Prema aparecerá primeiramente na forma marginal, e se manifestará na forma principal na hora da dissolução do corpo sutil, i.e., a mente, aí haverá a realização do objeto. Assim, amor por Krishna é o objeto realizado, e não é gerado por Sadhana, ele só aparece na mente purificada pela audição, etc.. Por isso, fica claramente evidente a necessidade de Sadhana.

Há dois tipos de Sadhana-Bhakti, como o Senhor disse : Vaidhi (prescrito) e Raganuga (seguindo os devotos que têm apego amoroso). O Senhor explicou : "Os seres humanos sem apego amoroso adoram de acordo com as prescrições dos Shastras, e todos os Shastras chamam isso de Vaidhi-Bhakti".

Quando uma alma (Jiva) condicionada ou caída tem apego forte por outras coisas além de Krishna, parece quase sem nenhum apego por Krishna. Então, se desejar seu bem estar, executa a adoração a Krishna ordenada nos Shastras exclusivamente. Esse Bhajan (serviço) é Vaidha-Bhajan. Executar seus deveres, com a consideração dos mandamentos dos Shastras como guia, com obediência às prescrições e proibições, ajudará o crescimento preliminar de seu bem estar. Nesse caso, o propulsor será Shraddha (fé) nos mandamentos dos Shastras. Essa fé é bem delicada no início, e se torna média depois, e finalmente fica forte e capaz de produzir frutos. Quando estiver forte, a fé se aproxima sucessivamente do Bhajan na companhia de devotos santos, dos estados de Nistha (constância), Ruchi (desejo saboreável), Aasakti (apego ou dedicação), até Bhava (estado extático) - então Vidhi também assume uma boa aparência; aí o Sadhaka (praticante) se convence de que somente Krishna deve ser sempre lembrado e nunca esquecido; todas as outras prescrições e proibições estão sob o controle dessas duas regras principais de prescrição e proibição. Nessa hora, o praticante de Bhakti abandona o seu ardor pela aderência estrita às prescrições e proibições, e de acordo com sua competência, abandona algumas prescrições e aceita algumas proibições.

Obtemos uma idéia detalhada sobre Sadhana-Bhakti (Bhakti que serve como meio) das seguintes palavras do Senhor : "Há vários tipos de Sadhana-Bhakti, dos quais vou descrever os principais: 1) aceitar abrigo aos pés do Guru; 2) Diksha (iniciação); 3) prestar serviço ao Guru; 4) questionar sobre instruções para a verdadeira retidão; 5) seguir o caminho de santos sagrados; 6) abandonar prazeres para a satisfação de Krishna; 7) residir em locais sagrados em relação a Krishna; 8) aceitar somente as necessidades básicas; 9) observar jejum no Ekadasi (décimo-primeiro dia da quinzena lunar); 10) adoração pública à Dhatri (árvore mirobálano) [amendoeira da Índia], Aswattha (figueira sagrada da Bengala), às vacas, aos Brahmanas e Vaishnavas; 11) abandonar totalmente Aparadhas (ofensas espirituais) em relação à adoração à Deidade e Vaishnavas, a ao Nama (Nomes Divinos); 12) abandonar a companhia de não Vaishnavas; 13) não aceitar muitos discípulos; 14) deixar o estudo e discurso sobre vários livros e artes; 15) eqüidade em relação a ganho e perda; 16) livrar-se do controle da lamentação, etc.; 17) evitar falar contra outros deuses e Shastras; 18) não ouvir nem fazer calúnias contra Sri Vishnu e Vaishnavas; 19) não ouvir conversas mundanas; 20) não causar nenhuma ansiedade mental ou verbal a qualquer Jiva; 21) audição; 22) reprodução; 23) lembrança; 24) culto; 25) adoração; 26) serviço; 27) servidão; 28) amizade; 29) auto-rendição; 30) dançar em frente; 31) cantar canções; 32) orar por graça pessoal; 33) saudações prostradas; 34) levantar-se em respeito; 35) seguir atrás; 36) visitar templos sagrados; 37) andar em volta; 38) recitar preces; 39) recitar os livros sagrados; 40) murmurar Mantras; 41) canto congregacional; 42) oferecer incensos; 43) oferecer grinaldas; 44) oferecer perfumes; 45) honrar Sri Mahaprasadam; 46) acenar a lâmpada; 47) celebrações festivas; 48) visualizar Sri Murti; 49) oferecer os objetos pessoais favoritos; 50) contemplação; 51) serviço aos Seus companheiros; 52) artigos e atos necessários a Seu serviço; 53) servir à Tulasi; 54) aos Vaishnavas; 55) à Mathura e; 56) ao Bhagavatam, sendo que esses quatro são os favoritos de Krishna; 57) todas as ações para Krishna; 58) esperar por Sua graça; 59) e 60) reunir-se com devotos e celebrar com eles Seu aniversário, etc.; 61) submeter-se a Ele em todos os aspectos para Seu abrigo; 62), 63) e 64) Kartika-Vrata, Magha-banho e Vaisakha-Vrata, bem como decorar o corpo com as marcas Vaishnavas, beber a água que lavou Seus pés e tocar a cabeça com as flores usadas por Ele. Esses são os sessenta e quatro itens de maior estima do Sadhana-Bhakti. Os cinco especiais, i.e., associação com santos, recapitulação de Sri Nama, audição do Srimad Bhagavatam, residir em Mathura etc., e adorar Sri Murti de Krishna com fé firme, são os melhores Sadhanas, mesmo um pequenino contato com qualquer um desses, produz Amor por Krishna".

Nove itens do Sadhana são principais entre os sessenta e quatro Sadhanangas, e os outros são concomitantes. Os dez primeiros são a porta de entrada. Os próximos dez proíbem o que é antagônico à Bhakti e aceitam o que é favorável. O décimo, adoração à Dhatri etc., compreende os deveres sociais em particular, eles também são favoráveis à Bhakti no início. Quanto mais maduro se tornar o Sadhana, mais intensamente se observará os cinco itens finais dos sessenta e quatro.

Há um mistério em relação ao Sadhana. Conhecimento Transcendental, Bhakti e abstinência de tudo que não for Bhakti incrementam simultaneamente. Sempre que houver exceção a essa regra, deve-se saber que há algo errado na própria raiz do Sadhana; nesse caso não existe possibilidade de proteção contra desvios para o caminho errado, exceto na associação de santos sagrados e pela graça do Guru em todos os casos.

O Senhor disse: "Uns praticam um item e outros, muitos itens". O Senhor citou os seguintes exemplos entre os praticantes de um item: Parikshit (audição), Shuka (recapitulação), Prahlada (lembrança), Lakshmi (serviço aos Pés), Akrura (saudação com prece), Hanuman (servidão), Arjuna (amizade), Bali (auto-rendição), etc.. O rei Ambarisha é o exemplo que o Senhor citou sobre a execução de vários itens.

Deve-se praticar o Varnashrama-Dharma enquanto existir Kama (desejo mundano no coração) durante o Sadhana (prática). Quem executar Sadhana após abandonar Kama, estará livre dos três deveres. Como o Senhor disse: "Aquele que servir a Krishna com obediência aos mandamentos dos Shastras, após abandonar Kama, não estará em débito com os Devas (deidades), os Rishis (sábios), os Pitris (antepassados), etc.".

Quando Nishkama-Sadhana (prática livre de desejos) aparecer gradualmente, as regras escriturais se atenuam, pois a mente não estará mais propensa a atos proibidos. É possível que um praticante da devoção pura cometa alguns atos pecaminosos. Mesmo se cometer algum pecado sem conhecimento, não será necessário expiação através de Karma.

Alguns acham apropriado praticar Jñana (conhecimento) e Vairagya (abstinência) no início para incrementar Bhakti. Isso é um erro. O Senhor afirmou : "Jñana, Vairagya etc. nunca são membros de Bhakti", Bhakti é uma faculdade separada; Jñana, Vairagya etc. agem freqüentemente à distância como servos da deusa Bhakti. As virtudes de Ahimsa (aversão a causar dor), Yama (auto controle), Niyama (prática de austeridade) etc. são os companheiros naturais de Bhakti. Não há necessidade de treinamento ou esforços separados para consegui-los.

O Senhor disse mais : "Consideramos sobre a prática de Bhakti prescrita. Agora, Ó Sanatana, ouça sobre os sintomas de Raganuga-Bhakti (Bhakti que segue os devotos possuidores de apego amoroso em sua plenitude), que se encontra principalmente nos habitantes de Vraja (Vrindavan etc.). Bhakti dessa forma é conhecida como Raganuga. O sintoma natural de Raga é a sede intensa pelo seu Istha (entidade amada) e o sintoma neutro é a absorção da mente nessa entidade amada. Bhakti cheia de Raga chama-se Ragatmika. Pessoas afortunadas ficam atraídas, ao ouvirem sobre isso; atraídas assim, seguem as características de habitantes de Vraja em particular (em serviço amoroso a Krishna), sem obedecer mandamentos escriturais; essa é a natureza de Raganuga-Bhakti. Sua prática possui dois lados, externo e interno; externamente se pratica Shravana e Kirtana com o corpo do praticante, enquanto que mentalmente, pela concepção de possuir um corpo como o do devoto realizado, e assim servir a Krishna em Vraja dia e noite. Ele se fixa sempre no caminho do servo mais querido de Krishna de sua escolha, e realiza o serviço no âmago de sua mente. No Raga-Marga (caminho da sede por amor), cada um escolhe seu próprio ideal entre servos, amigos, pais e outras personalidades de relação similar, e amantes (damas) mais queridas de Sri Krishna. Aquele que executar Raganuga-Bhakti dessa forma, obtém amor pelos Pés de Krishna. Quando esse amor está num estágio inicial, como um broto de planta, possui dois nomes, Rati e Bhava (apego amoroso com êxtase); Sri Bhagavan Krishna fica sob o controle dessa pessoa pela influência deles. Assim, fiz uma avaliação sobre Abhidheya (meios para alcançar o objeto de busca)". O Senhor concluiu a ciência de Abhidheya-Sadhana (prática para alcançar o objeto de busca, amor por Krishna), ao mostrar a diferença entre Vaidhi-Sadhana-Bhakti (Bhakti prescrita que serve como meio) e Raganuga-Sadhana-Bhakti (Bhakti que segue os devotos possuidores de apego amoroso em sua plenitude).

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

7

 

O Objeto de Alcance Final

 

O Senhor Sri Chaitanya Mahaprabhu disse a Sri Sanatana Prabhu: "Agora ouça sobre o sujeito da necessidade, Prema (Amor), o fruto de Bhakti, ao ouvir sobre ele, obtém-se conhecimento sobre Bhakti-Rasa (sentimento extático saboreável através de Bhakti). Quando Rati (apego amoroso por Krishna com êxtase) torna-se concentrado, adquire o nome de "Prema". Esse é o caráter permanente de Bhakti-Rasa em direção a Krishna". O sentido dessa afirmação do Senhor é: O primeiro estágio de Bhakti, Sadhana (prática), chama-se "Bhakti" em geral; depois, essa Bhakti na hora de produzir frutos, alcança o estágio de Bhava, inspiração extática, e Bhakti em seu longo caminho culmina em Prema. O limite de Sadhana-Bhakti (Bhakti que se pratica como meio) vai até Bhava-Rati (apego amoroso com êxtase) ou o brotar do amor. A diferença entre a natureza da prática de Vaidhi (prescrita) Bhakti e da prática de Raganuga, que segue as atividades de devotos perfeitos, é que a primeira causa muita demora para alcançar o estágio de Bhava, enquanto Raganuga-Bhakti amadurece facilmente ao estágio de Bhava. Shraddha (fé forte) aparece como Ruchi (sabor), que compreende em si a devoção fixa nos corações dos devotos que seguem aqueles possuidores de apego amoroso em sua plenitude. Assim, não haverá demora para se transformar em Bhava.

Quando surge Bhava no coração do Sadhaka (praticante), serão visíveis os seguintes sintomas como o Senhor disse : "Aquele, em cuja mente cresceram os brotos do amor, 1) não se perturbará com as agitações mundanas; 2) seu tempo nunca é desperdiçado em vão, exceto em relação a Krishna; e 3) Bhukti (prazer), Siddhi (poder sobrenatural) e satisfação sensual não concordam com sua mente; 4) mesmo se for o melhor entre os homens, considera-se o mais baixo, e 5) acredita convicto que Krishna lhe concederá Sua graça; 6) sente-se incomodado até mesmo com a tentação (devido ao amor por Krishna), 7) sempre adota Krishna-Nama com entusiasmo constante ou apreciação saborosa, 8) tem sempre uma atenção impecável sobre a narração dos atributos de Krishna, e 9) habita sempre nos locais dos passatempos de Krishna.

É muito difícil entender o sintoma de Prema e o Senhor deu a seguinte instrução: "Essas são as descrições dos sinais de Rati (apego amoroso com êxtase), agora, Sanatana, ouça sobre a característica de Krishna-Prema; mesmo um sábio não compreende as palavras, atos e Mudras (gestos) de alguém em cuja mente cresceu Krishna-Prema".

Há cinco tipos de Prema: Shanta (tranqüilo), Dasya (servil), Sakhya (amistoso), Vatsala (paternal/maternal) e Madhura (amoroso). O amor amoroso ou Madhura-Rasa (sentimento amoroso extático saboreável) é o melhor de todos. A suavidade de Sri Krishna alcança seu clímax em Madhura-Rasa. O devoto com estabilidade em Madhura-Rasa obtém o mais alto grau de amor. Os sessenta e quatro atributos de Krishna, citados no terceiro capítulo e descrito no Bhakti-rasamrita-sindhu 3.1, são percebidos plenamente no Madhura-Rasa de Vraja (Vrindavan etc.). Aparece como doçura ilimitada nos devotos de Vraja em relação a Sri Radhika, a jóia sublime de todos os devotos, o Senhor disse: "Há vinte e cinco principais entre os atributos ilimitados de Sri Radhika, pelos quais Krishna fica fascinado".

Somente aqueles que afortunadamente adquiriram competência para Madhura-Rasa, podem saborear esse Rasa (sentimento extático saboreável). Ele não pode ser explicado, e ninguém pode se convencer dele por meio de argumentações. Portanto, o Senhor disse: "Esse Rasa não se encontra nos não-devotos, somente os devotos de Krishna é que podem tê-lo".

O Senhor após conceder todos esses ensinamentos a Sri Sanatana Prabhu, por último, instruiu-o para abandonar Sushka-Vairagya (indiferença estéril), que é antagônico à aquisição de Prema, e adotar Yukta-Vairagya (apatia balanceada em relação ao mundo), que é favorável. Algumas pessoas decidem interiormente por meio de algumas afirmações Védicas através de Lakshana (modo de interpretação indireto) - "Na realidade, eu sou Brahman, mas estou preso no Prapancha (mundo fenomenal), caí bem longe da concepção de Brahman. Qual a fórmula para se livrar do Prapancha? Aqui, tudo é Prapancha - corpo, casa, esposa, filho, alimentação etc.. Como poderei assegurar a cura dessa peste de Prapancha"? Ocupados com tais pensamentos, eles cobrem seus corpos com cinzas, usam trapos para cobrir as partes íntimas, comem alimentos insípidos, abandonam esposa e filhos, renunciam a seus lares, e vagueiam por florestas, ou vivem em monastérios, e professam buscar a emancipação. Eles contemplam unicamente com especulação seca, sem deliberação suficiente sobre o benefício que obterão dessa prática, mantêm indiferença a Hari, por Quem a verdadeira liberação é assegurada. Eles não entendem qual foi o benefício que lhes resultou, enquanto pensam que seus pecados se foram; seus atos meritórios, eles próprios e tudo deles também foi embora. Passaram seu tempo com as subdivisões de objetos particulares do Vedanta. Aí vem a morte, e outros membros da mesma seita quebram cocos em suas cabeças e os enterram no solo. Qual foi o ganho? O Senhor Hari não foi alcançado. Assim é a limitação de se tornar Brahman. Em vez disso, se eles tivessem estabelecido uma relação com Hari, com corpo, lar, alimento, tempo, residência etc., cultivados em relação a Ele, com o incremento gradual da devoção, finalmente, teriam obtido com certeza o amor por Deus, o melhor fruto disponível. O Vairagya deles é chamado Falgu-Vairagya (inútil, ascetismo impotente). O Senhor proibiu isso e ensinou a Sanatana Yukta-Vairagya. O Senhor também ensinou a Sri Raghunatha Dasa Goswami : "Fique tranqüilo e calmo e vá para casa, não seja louco. Uma pessoa chega na margem do oceano mundano somente de modo gradual. Não pretenda ser um asceta ostensivo como um macaco perante a visão pública. Use os objetos de desfrute aproximadamente sem sentir apego por eles. Pratique devoção austera no coração, mas externamente observe a conduta apropriada. Assim, Krishna vai liberá-lo sem demora".

Se Bhajan (serviço a Deus) for executado com devoção austera pelo menos, com a aceitação dos objetos de desfrute sem sentir apego por eles, na companhia de esposa e filhos no lar, para viver o dia a dia sem nenhuma dificuldade, gradualmente Prapancha (o mundo fenomenal) desaparece. Quando a alma adquire força suficiente de Bhakti, torna-se firmemente fixa em relação a Deus. Por outro lado, se for atrás de emancipação, abandona os degraus sucessivos, e fica sob o domínio de Markat-Vairagya (ascetismo símio) e arruína tudo. O significado da ordem do Senhor é, "use os objetos dos sentidos somente o necessário para estabelecer a relação da alma com Krishna". Esses mesmos objetos deixarão livre a alma além do Prapancha, dando a ela sua aprovação. Corpo, lar, sociedade, artigos de adoração a Krishna, todos podem ser objetos de Yukta-Vairagya. Tudo pode ser proveitoso ou benéfico, se pelo menos o praticante tiver devoção austera. Dedicação ao comportamento externo diz respeito somente ao relacionamento com o público. Se a constância da devoção for sincera, as fechaduras da prisão mundana e a conexão com o mundo fenomenal desaparecerão logo. Sensibilidade pura e abnegação pura devem incrementar na mesma proporção em que a devoção adquire seu crescimento puro.

O melhor Sadhana na vida de um devoto sincero é a adoção de Krishna-Nama. O Senhor disse a Sri Sanatana : "O melhor de todos os tipos de Sadhana é Bhakti de nove tipos, que é muito poderosa para conceder amor por Krishna e até mesmo o Próprio Krishna. O melhor de todos os tipos é Nama-Sankirtana (canto dos Nomes de Sri Krishna em companhia de outros devotos). Se alguém adotar Krishna-Nama livre de todos os Aparadhas (ofensas espirituais), obterá a riqueza do amor". O Senhor também disse : "Deve-se executar Shravana-Kirtana (audição e recapitulação dos Nomes de Krishna) com o abandono da compreensão pervertida, assim, a riqueza de Krishna-Prema estará disponível sem demora. Um ser humano de nascimento baixo não é indigno para Krishna-Bhajan (serviço a Krishna), enquanto um Brahmana de alta classe não é digno para isso ; quem quer que O sirva é mais elevado do que quem não O serve, sendo o último inferior e vil. Não há distinção de casta ou estado civil no serviço a Krishna".

O significado das instruções do Senhor Sri Chaitanya Mahaprabhu sobre distinção de casta de um devoto é que se alguém adquiriu fé em Deus, com a adoção de Hari-Nama na companhia de Sadhus (santos), não deve perturbar sua mente com tentativas por Karma e Jñana. Ele deve se esforçar para sempre cantar os dezesseis nomes, "Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare - Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare", de acordo com as regras para contá-los. Deve se esforçar apenas o necessário para preservar o corpo, lar e sociedade, e torná-los favoráveis ao culto de Sri Nama, e em seguida, sinceramente oferecê-los em rendição a Sri Krishna. Ele não deve se esforçar por mais nada, e também não deve se esforçar muito por isso. Não deve usar nada que seja agradável aos órgãos sensuais, para alimentação ou qualquer outro propósito. Deve proteger o corpo com alimento Sattvika (de natureza piedosa e virtuosa) na medida necessária para manter a vida, assim, o verdadeiro conhecimento e os desejos favoráveis não desaparecem, ou crescem defeituosos nos sentidos internos como a mente etc.. Deve morar num local solitário que não demande esforço, nem crie muita dificuldade. Deve viver numa sociedade não antagônica à devoção a Krishna, e deve tentar incrementá-la. O motivo disso tudo é poder executar Bhajan em solidão com muito cuidado, livre de ansiedade. Deve renunciar completamente a companhia de mulheres e de companheiros de mulheres. Deve ter muito cuidado com a companhia de não-devotos. Deve abandonar reflexões sobre outras pessoas. Deve se considerar sinceramente caído e humilde, e deve ser benéfico ao mundo, e suportar tudo com espírito indulgente. Também deve respeitar a todos, sem se considerar possuidor de alta casta, fortuna, servos, beleza, saber mundano, posição exaltada etc.. Se viver dessa forma, com a prática constante de Hari-Nama com sentimento amoroso, vai adquirir amor puro pela graça de Krishna. Dharma, Artha, Kama e Moksha - todos vão atuar como seus servos. Se ainda permanecer algum Kama (desejo mundano), deve aceitar com humildade, com espírito de repugnância e continuar seu Bhajan sinceramente, até que num curto período, Deus, localizado em seu coração, vai expulsar o Kama e aceitar seu amor. Há duas fases proeminentes na religião ensinada pelo Senhor Sri Chaitanya Mahaprabhu, sentir o sabor de Hari-Nama e bondade para com os Jivas. A pessoa é um Vaishnava na medida em que possuir essa consciência religiosa. Não é necessário possuir outros méritos. Todos os méritos de um devoto surgem desses mesmos. Os devotos naturalmente sentem prazer em praticar boa conduta. Ninguém fica sujeito a misérias e sofrimento quando se torna servo de Krishna. É preciso cuidado para saber se o Guru ou os parentes são dignos de associação. A vida dos devotos com sentimento extático é muito pura e seus sentimentos saboreáveis são sempre santificados. O Senhor Sri Chaitanya Mahaprabhu deu um resumo da essência desses ensinamentos a Sri Raghunatha Dasa Goswami : "Sorrindo, o Senhor disse a Raghunatha: Indiquei Swarupa como seu instrutor, aprenda com ele tudo sobre Sadhya (o que deve ser alcançado como nosso bem estar) e Sadhana (a prática de meios para tal); ele sabe até mesmo o que Eu não sei. Se você tiver fé na minha ordem, saiba que o que Eu disse agora é certo. Nunca ouça ou fale sobre assuntos sociais (que não estejam diretamente ligados a Krishna), não se alimente nem se vista com coisas agradáveis (saborosas ou ostentosas); abrigue-se em Krishna-Nama, abandone a consciência de sua honra pessoal, mas respeite os outros apropriadamente, e dentro da mente sirva a Sri Radha Krishna em Vraja. Essa é minha instrução resumida. Você obterá conselhos detalhados de Swarupa". O Senhor concedeu a Sri Dasa Goswami nessas instruções o processo secreto de prestar serviço durante as oito partes do dia e da noite. Em outra parte deste livro serão dados os conselhos detalhados recebidos de Sri Swarupa. Os devotos têm que adquirir competência para receber isso.

Quando o intelecto que cultiva Vaidhi-Bhakti (devoção prescrita), fica bom o suficiente e exclusivamente, alcança Bhava-Bhakti (devoção extática), e em seguida, Prema-Bhakti (devoção amadurecida em amor por Krishna), esse intelecto cultivador de Bhava-Bhakti com ardor persistente e avidez pode ser chamado de Nirbandhini-Mati (mente zelosamente devotada). Quem o possuir alcançará a realização de Bhakti rapidamente. Seu outro nome apropriado é Yatna-Graha (cuidado energético e ardente). Os praticantes devem adotar esse Nirbandhini-Mati logo no início, e não devem ser indiferentes e nem relaxarem em relação a Yatna-Graha.

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

Capítulo II

 

1

 

Deliberação sobre Injunções Subordinadas

Suas Divisões

 

O Primeiro Capítulo mostrou que Bhakti é o único meio prescrito nos Shastras para alcançar Prema (amor por Deus), a necessidade ou objeto de busca dos Jivas. Também foi mostrado que Karma e Jñana não são meios diretos ou principais. É claro que há alguma necessidade deles. Eles são chamados de meios indiretos ou subordinados, sendo que os principais compreendem audição, recapitulação ou canto etc., os quais são Bhakti, a injunção principal. Karma e Jñana devem ser chamados de meios para o objeto de busca para Jivas presos à matéria, apesar de serem somente indiretos. Karma e Jñana servem como meios para alcançar Bhakti, e Bhakti serve como meio para alcançar Prema. Karma e Jñana podem servir como meios para alcançar o objeto de busca, somente se o corpo, mente e sociedade puderem se ajustar favoravelmente à Bhakti; se não for assim, os Shastras condenam repetidamente tal Karma e Jñana.

Há três tipos de injunções: 1) em relação às pessoas, 2) em relação à sociedade e 3) em relação ao próximo mundo. As injunções relacionadas às pessoas são novamente divididas em duas partes: a) as ligadas ao corpo e b) as ligadas à mente. As regras estabelecidas com o propósito de nutrir e manter a saúde do corpo humano são físicas, relacionadas ao corpo. As regras para dignidade e moderação no comer, beber, dormir, exercícios físicos etc., e para o tratamento de doenças através da ciência médica, todas são injunções relacionadas ao corpo. O ser humano não pode viver tranqüilo nem confortável, a menos que siga essas regras.

As faculdades mentais de concepção, retenção, imaginação, meditação e deliberação não podem se desenvolver totalmente e estarem aptas a executar suas funções, se as injunções relacionadas à mente não forem observadas, e não haverá progresso científico ou artístico, não será removida a escuridão de preconceitos ignorantes e nem será adquirido conhecimento adequado para negócios. Além do mais, o intelecto não estará livre de pensamentos materiais e não terá condições de se aplicar na meditação em Deus. Em suma, pensamentos malignos e agnósticos controlam a mente e mantêm o homem tão mal quanto um animal. Por isso, as injunções relacionadas às pessoas são extremamente necessárias ao sucesso da vida humana.

O homem vive em sociedade e elabora regras para a vida social, a fim de melhorar sua sociedade e livrá-la de defeitos. O sistema matrimonial é uma das injunções mais importantes em relação à sociedade. Se ele não existisse, a sociedade não seria tão avançada quanto é. Os homens agiriam a seu bel prazer. Há vários países sem sistema matrimonial. Devido a vários distúrbios sociais, o sistema se tornou prevalecente neles. O matrimônio significa que o homem abandona sua conduta descontrolada e arbitrária, ao estabelecer o alicerce de sua família, por aceitar uma esposa, com Deus de testemunha e com o consentimento da sociedade. Quando os filhos nascem, ele os sustenta e providencia sua educação para que sejam capazes de estabelecer suas próprias famílias. Os homens de família incrementam a vida familiar através do cultivo de sentimentos fraternos, pelo alívio do sofrimento de outros, ganhar a subsistência por meios justos e honestos, sempre com atenção à retidão, por subjugar a falsidade, etc.. A aptidão social é uma grande virtude da raça humana. Podemos notar a função dessa virtude em todos os países e em todas as épocas. As injunções relacionadas à sociedade estão maduras e estabelecidas firmemente num país de acordo com o efeito do avanço social e desenvolvimento civil causado em seus habitantes. Admite-se unanimemente que entre todas as raças, os Arianos são os mais civilizados, e alcançaram o maior progresso social. Não há dúvida de que entre os vários troncos e ramos da raça Ariana, os Arianos indianos alcançaram o maior progresso em conhecimento e na condição intelectual social. Não se deve depreciar o respeito social ao ramo indiano da raça Ariana pelo fato de estar dominado atualmente por países estrangeiros (final do século 19 quando este livro foi escrito), devido a estar enfraquecido pela idade avançada. O ramo indiano da raça Ariana não será realmente depreciado por pessoas inexperientes que criticam seu progresso e civilização devido à ignorância. Pode-se saber sobre o progresso dos códigos das injunções relacionadas à sociedade, que o ramo indiano da raça Ariana alcançou, através da leitura de escrituras religiosas baseadas nos Vedas. Para falar a verdade, todo homem de boa vontade, dotado de modo deliberatório científico, admitirá que as injunções relacionadas à sociedade alcançaram seu clímax de progresso nas mãos dos Rishis (sábios indianos). Eles dividiram essas injunções em duas partes: 1) Varna (o sistema de casta) e 2) Ashrama (o sistema de estágios da vida). A condição do homem ligado à sociedade é de dois tipos: 1) natureza e 2) estado. A natureza depende da virtude relacionada à pessoa, e o estado, da relacionada à sociedade. A virtude relacionada à pessoa não deixa de existir tão logo se torne social, além do mais, nutre-se pela sua conexão com a sociedade. O Varna (sistema de casta) se estabelece de acordo com a natureza do homem, e o Ashrama (sistema de estágios da vida) com o estado. As funções físicas e mentais do homem se desenvolvem gradualmente através de exercício num estado constante. A predileção que predomina sobre as outras, nesse estado, torna-se sua natureza. Essa natureza possui quatro tipos, natureza-Brahmana, natureza-Kshatriya, natureza-Vaishya e natureza-Shudra. Essas quatro naturezas crescem por causa das melhores predileções do indivíduo, e a natureza Antyaja (classe mais baixa) cresce das piores predileções. Não há outra prescrição para um homem de natureza Antyaja além de abandoná-la. Do nascimento até o surgimento da predileção forte, suas sementes, brotos e árvores crescem e recebem nutrimento de acordo com o caráter da companhia e do cultivo. Os compiladores dos Shastras escreveram que o crescimento da natureza é de acordo com os atos prévios. É natural que a natureza da família onde a pessoa nasce, determine a qualidade de sua própria natureza pela companhia, depois ela progride ou se deteriora conforme o treinamento e influência de outras companhias. Espera-se que a prole de um indivíduo de natureza Shudra, seja de natureza Shudra, e a de um com natureza Brahmana seja da mesma forma. Mas não existe certeza sobre isso. Os compiladores dos Shastras estabeleceram regras para rituais purificatórios a fim de ajustar o Varna, após determinar a natureza. Atualmente, as regras de rituais purificatórios sofreram mudanças, e o país sofreu uma queda, devido ao desuso em que caíram os rituais purificatórios nos tempos modernos. Não há dúvida de que o sistema de casta é realmente uma virtude social. O modo de estado (estágios da vida) possui quatro tipos, na análise científica: 1) Brahmacharya (vida de celibato de um estudante que reside com o Guru - preceptor), 2) Grihasthya (vida matrimonial), 3) Vanaprastha (vida eremita) e 4) Sannyasa (vida de monge). Os que estão a adquirir conhecimento ou a vaguear pelo país antes do casamento são chamados Brahmacharis, os que têm vida familiar no lar após o casamento são chamados Grihasthas, os que estão em idade avançada e se retiraram do trabalho e vivem solitários são chamados Vanaprasthas, e aqueles que cortaram as conexões com a vida familiar e vagueiam são os Sannyasis. O sistema de religião que se estabelece com a consideração da relação entre os diferentes Varnas e Ashramas é conhecido como Varnashrama-Dharma, e é o sistema social do ramo indiano dos Arianos. O país que deixa a desejar nesse sistema não pode ser chamado de avançado.

 

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2

 

Atos Virtuosos

 

Determina-se o fruto de desfrute no próximo mundo através do Karma (atos) que o indivíduo executou, de acordo com as regras em relação ao próximo mundo. Aquele que vive em sociedade e pratica boas ações, assegura o céu após a morte, e aquele que pratica más ações, sofrerá no inferno. O nome para boas ações é Punya (mérito religioso) e para as más, Papa (pecado). Quando juntamos as regras para adquirir Punya e as outras para prevenir pecados, formamos as regras em relação ao próximo mundo. Os Varnashrama-Dharmas (deveres rituais prescritos para as respectivas castas e estágios de vida), que serão discutidos para todas as boas ações, são notados como Shraddha (fé) Tamasa (de Tamah, o Guna mais baixo), Rajasa (de Rajah, o segundo Guna) e Sattvika (de Sattva, o Guna superior) conforme a competência do praticante. Essas fés se conduzem por Pravriti (apego a prazeres), ou Nivriti (desapego ao prazer). Os indivíduos de competência inferior adotam o Shraddha de Pravriti. Os de competência média adotam ambos os Shraddhas, enquanto os de competência superior agem somente com o Shraddha de Nivriti. Sempre que houverem regras para a adoração a muitas deidades, nesses atos, as regras prescrevem que somente pessoas Sattvika adorem a Deus. Não há indicações para desfrute com prazer sensual para os Vaishnavas dentro das castas. Eles devem aceitar somente o Karma (atos) que os ajudem a obter o status espiritual transcendental. Outro nome para Karma é gerenciamento da auto-sobrevivência. O Senhor aconselha no Gita a respeito do Karma para quem conhece a verdade real : "Faça o que é favorável à Bhakti e abandone o que é desfavorável".

Consideraremos brevemente as descrições dos Punyas e Papas que surgem perante nós. É muito difícil classificá-los cientificamente. Alguns sábios os dividiram em físicos, mentais, sociais e espirituais. Outros, em físicos, verbais e mentais. Ainda outros, em físicos, sensuais e internos. Na realidade, vimos que essas classificações não são perfeitas em todos os aspectos. Nós dividimos os Punyas em duas classes, natural e relativa. Justiça, bondade, veracidade, caráter puro, comportamento amistoso, franqueza e cordialidade amável são chamados "Punyas naturais". Esses Punyas estão presentes na natureza intrínseca do Jiva e permanecem para sempre como seus ornamentos. O nome Punya deixa de ter efeito quando se torna rude devido à condição do cativeiro material. Todos os outros Punyas são simplesmente relativos, e crescem pela relação do Jiva com a matéria. Eles não são necessários no estágio de auto-realização devocional. Papa (pecado) nunca é natural, ele penetra no Jiva condicionado no cativeiro. Os Papas que se opõem aos Punyas naturais são contrários à natureza. Inveja, injustiça, falsidade, perturbação mental, crueldade, malícia e corrupção são pecados contrários à natureza. Todos os outros pecados são contrários a seus Punyas relativos. Vamos deliberar sobre Papa e Punya brevemente, por isso, não vamos mostrá-los conforme a naturalidade e relatividade. Nós apenas os enumeramos e deliberamos brevemente. Os leitores poderão classificá-los facilmente, com a breve explicação dada aqui.

Há dez tipos de atos de mérito virtuoso (Punya): 1) beneficência (fazer o bem a outros), 2) servir aos superiores, 3) munificência (caridade), 4) hospitalidade, 5) conduta santificada, 6) celebrações festivas, 7) penitências, 8) proteção aos animais, 9) incremento da população universal e 10) probidade. Há dois tipos de beneficência: 1) alívio ao sofrimento dos outros e 2) melhoria da condição de outros. Deve-se praticar o bem a todos na medida do possível e sem distinções entre conhecidos e estranhos. Todos os pesares que nos afligem, também acontecem aos outros. Quando alguma doença me incomoda, quero que outros me ajudem e me livrem do problema. Da mesma forma, devemos nos preocupar profundamente com o alívio dos sofrimentos de outros, como se fossemos nós mesmos. Interesses pessoais podem obstruir isso, mesmo assim, devemos nos esforçar para remover o sofrimento de outros, e pôr nossos interesses pessoais de lado. Temos que nos esforçar para aliviar todos os pesares dos outros, sejam eles físicos, mentais, sociais ou espirituais. Os problemas físicos são doenças, fome etc.; os mentais são ansiedade, inveja, privação, medo etc.; os sociais são impossibilidade de manter a família, incapacidade de prover a educação dos filhos ou casá-los adequadamente, carência de dinheiro ou de pessoal para cremação dos mortos etc.; e os espirituais são dúvidas, ateísmo, desejos pecaminosos etc.. Também devemos nos esforçar para melhorar a condição de vida de outros, do mesmo modo que é nosso dever aliviar seu sofrimento. Devemos tentar melhorar as condições físicas, mentais, sociais e espirituais dos outros, ao máximo, através de dinheiro, ajuda física, bons conselhos, e também devemos ajudar nossos parentes.

Há três tipos de serviço aos mais velhos e pessoas respeitáveis: 1) aos pais, 2) aos professores e 3) outras pessoas respeitáveis. Os filhos têm o dever sagrado de servir aos pais, principalmente na velhice, o dever essencial dos filhos é procurar o conforto dos pais. Não há necessidade de conselhos para tal. Todos aqueles que nos ensinaram algo, professores da escola ou faculdade, devem ser respeitados e servidos apropriadamente, e aqueles que nos deram iluminação espiritual estão acima de todos e devem ser servidos em todos os sentidos. Os mais velhos devem ser devidamente respeitados, e se for o caso, temos que servi-los adequadamente. Isso não significa que devemos obedecer aos mais velhos que nos enganam, ou tentam nos conduzir a caminhos errados. De qualquer modo, em todas as circunstâncias, não devemos ferir o coração de ninguém por causa de ódio ou malícia. Mesmo os que tentam nos enganar, devem ser corrigidos com palavras suaves e humildade, e mostrar-lhes o erro cometido.

Dar dinheiro ou objetos a pessoas certas é chamado Dana (caridade). O que for dado a pessoas indignas será desperdiçado em vão, e é considerado um pecado.

Há doze tipos de caridade: 1) fornecer água através da perfuração de poços, tanques etc., 2) plantar árvores em locais adequados para dar sombra e refrescar, 3) iluminar locais escuros com lâmpadas, 4) fornecer remédios, 5) educar, 6) alimentar, 7) fornecer estradas ou caminhos, 8) construir plataformas para banho em rios ou lagos, 9) fornecer casas, 10) dar objetos, 11) dar a melhor parte de alimentos deliciosos, 12) dar a filha em casamento.

1) É dever de todos fornecer água a pessoas sedentas, a água deve ser fresca e suave. Cavar poços, tanques, lagos etc. para fornecer água ao público é um ato virtuoso. Deve-se fazer Ishta-Purta (construir para o bem do povo) em locais selecionados adequadamente. É dever construir poços, lagos etc. em locais onde a água é escassa e extremamente necessária.

2) Deve-se plantar árvores grandes, como a Aswattha (figueira sagrada), ao longo de estradas, rios e locais de descanso para transeuntes. É bom plantar Tulasi (o arbusto sagrado) em casa e locais adequados, pois é benéfico tanto fisicamente quanto espiritualmente.

3) Deve-se pôr lâmpadas para o benefício dos transeuntes em plataformas, ruas e locais perigosos. É um grande serviço proteger essas lâmpadas com vidro para que não se apaguem com o vento. É bom fornecer luz em dias sem lua cheia ou com o céu encoberto. Quanto mais lâmpadas forem fornecidas maior será o mérito virtuoso. A injunção Shastrica para pôr lanternas no céu não é apenas para o mês de Kartika (outubro/novembro), mas é indicada para esse mês. Se a lanterna for colocada muito alto, servirá apenas como decoração, sem benefício algum.

4) Há dois tipos de fornecimento de remédios: 1) fornecer remédio a um paciente em sua própria casa ou na casa do médico, e 2) fornecer remédios para hospitais. Todos devem fazer o que for a seu alcance sinceramente.

5) Pode-se educar um aluno na própria casa ou em escolas com o pagamento das despesas. É um dever importante educar adequadamente meninos e meninas.

6) Há dois tipos de fornecimento de alimentos: 1) pode-se alimentar pessoas famintas na própria casa, e 2) no Chatra (locais onde são distribuídos alimentos gratuitos aos pobres).

7) Construir estradas em locais de difícil trânsito chama-se presentear caminhos. Estradas pavimentadas com tijolos ou pedras concedem virtude meritória de acordo com sua durabilidade.

8) A construção de Ghats ou plataformas em rios ou balneários para o público chama-se presentear plataformas. O mérito virtuoso aumenta se as plataformas tiverem locais de descanso, jardins, abrigos permanentes (construídos com teto suportado por pilares) e templos para adorar Deidades.

9) Fornecer casas aos necessitados, que não têm dinheiro para construí-las.

10) Fornecer objetos significa dar o que for necessário ou dinheiro a pessoas adequadas.

11) É dever de todos dar a melhor porção de iguarias aos outros antes de comer.

12) Deve-se dar a filha em matrimônio adornada apropriadamente a um noivo digno.

Há dois tipos de hospitalidade: 1) individual e 2) social. Um chefe de família nunca deve ser indiferente e não servir dignamente aos visitantes em sua casa. É um mandamento sair na porta de casa e gritar três vezes para perguntar se alguém está sem comida, após preparar uma refeição. Se vier alguém, deve-se alimentar esse convidado, aí então poderá comer com a família. A regra diz que o convidado deve ser chamado uma hora e meia depois do meio dia. Nos dias presentes é um pouco difícil ficar sem comer até essa hora, mas o convidado pode ser chamado logo antes da refeição, e o dever será cumprido. "Alguém está sem comida" não significa um mendigo profissional. A hospitalidade social deve ser feita através de atos sociais.

Há quatro tipos de conduta santificada, o quinto item: 1) auto-purificação, 2) limpeza de ruas, balneários públicos, currais, mercados, locais residenciais, templos etc., 3) remover o mato, e 4) peregrinações a locais sagrados. A auto-purificação tem dois tipos, interna e externa. Auto-purificação interna significa manter a mente pura. Evitar pecados e praticar atos virtuosos mantêm a mente pura. Alimentação pura, leve e moderada é um meio para a pureza mental. A mente se torna impura através de alimentação com comida ou bebida tocada por usuários de substâncias entorpecentes. A memorização do Senhor Vishnu é o meio principal para a pureza mental. Há expiações prescritas para a purificação da mente. Os efeitos de atos pecaminosos podem deixar o pecador através de expiações de Karma (atos), como Chandrayana (penitência expiatória regulada pelas fases da Lua) etc., mas a raiz dos pecados, o desejo intenso por atos pecaminosos, não some com essas coisas. Remove-se isso por expiação através de Jñana (consciência), como o remorso do arrependimento. Ainda assim, a semente dos pecados, disposição antipática a Deus, só pode ser removida pela memorização de Hari. As técnicas de expiação são muito elaboradas, deve-se consultar outros livros. A mente também se purifica através de banhos nas águas de rios sagrados, como o Ganges etc., e pela visualização de Deidades. A purificação externa é feita através de banhos em água morna, uso de roupas limpas, comer e beber alimentos Sattvika, que nos conduzem à piedade. Devemos lavar os membros do corpo que entram em contato com coisas sujas, como urina, fezes etc.. Mantemos a santidade de conduta através da limpeza do lixo nas ruas etc.. É dever de todos manterem suas casas, quintais, entradas etc. sempre limpos; além disso, os locais públicos, ruas, templos etc., também devem permanecer limpos. Quando a vila for muito grande, seus habitantes devem combinar e juntar dinheiro para cumprir as necessidades públicas. Deve-se limpar o mato da própria casa. Deve-se manter as florestas em locais públicos limpas através da cooperação mútua. O indivíduo adquire conduta santificada quando peregrina em locais sagrados. Embora o motivo principal de tais peregrinações seja a associação com Sadhus (santos sagrados). Ainda assim, todos os peregrinos se sentem santificados quando estão nos locais sagrados, e por isso, sua tendência a cometer pecados diminui de certo modo.

Há três tipos de grandes festivais (sexto item): 1) festivais para eventos de adoração às Deidades, 2) sacrifícios e outros rituais cerimoniosos para grandes eventos especiais familiares, e 3) festividades para agradar o público. As festividades para adoração às Deidades se vêem com freqüência. Que dúvida poderá haver quanto ao mérito delas? Além do mais, elas geralmente causam encontros de muitas pessoas, banquetes, cultura musical, melhoria de quadros e imagens etc., alimento aos pobres, dinheiro para os sábios eruditos, e a alegria da sociedade, sem dúvida, são atos virtuosos, benéficos ao mundo. Aqueles que são negligentes e indiferentes à realização desses festivais, apesar de terem habilidade para tal, são culpados de conduta negligente. Esses festivais são especialmente ligados a sentimentos divinos, por isso, nunca devem ser abandonados em nenhuma circunstância. Há muitas ocasiões para grandes festivais em relação a diversos rituais familiares, como o nascimento de um filho, cerimônia do primeiro arroz, cerimônia do cordão sagrado, casamento, ritos funerais etc., etc.. Eles devem ser feitos com o máximo de recursos disponíveis. Também é bom executar adoração custeada por várias pessoas, organização de feiras e exibições para incrementar o prazer popular. Essas funções realizadas através de pequenas contribuições de muitas pessoas as ensinam a realizar grandes empreendimentos. Existem vários festivais sociais desse tipo, receber o genro, suspensão da cozinha com apenas refeições frias, encontro com irmãos, festival do bolo, etc., etc..

Há três tipos de votos religiosos: 1) físico, 2) social e 3) espiritual. Os votos físicos são geralmente esforços físicos, como o banho matinal, circundamento, saudações prostradas etc.. Quando algum elemento fundamental do corpo (muco, bílis e ar) fica excitado, ocorre uma inquietação no sistema, existem regras escriturais para prevenir isso, como a observação de Darsha (Lua nova), Pournamasi (Lua cheia), Soma (dia, sagrado da Lua) etc.. A ordem para esses dias, fixados dessa forma, como apropriado e benéfico, é a meditação em Deus com controle dos sentidos, jejum, mudanças na dieta e conduta. A observação dessas regras produz mérito e virtude religiosos, em casos de necessidade. Os rituais religiosos como cerimônia do cordão sagrado, primeiro corte de cabelo, casamento, etc. são prescritos com modificações adequadas para as castas sociais em particular de acordo com a competência, e alguns só para os homens em geral. A cerimônia do casamento é prescrita para todas as castas, o homem deve se casar com uma mulher da mesma casta. O voto de monogamia (ter só uma esposa) é apropriado, um segundo casamento na presença da esposa é apenas luxúria. Isso é para homens de natureza inferior. Em casos especiais é permitido um segundo casamento se não houver o cônjuge do primeiro casamento. Os Vratas (votos) mensais são mencionados no Mahabharata, e os outros destinados ao progresso espiritual são os votos espirituais. Os vinte e quatro Ekadasis (jejum no décimo primeiro dia lunar, dois por mês) e os seis aniversários de Deus, Janmastami ou Jayanti (de Sri Krishna, Ramachandra, Nrisimha, Vamana, Varaha e Balarama) são os Vratas mensais. O principal motivo desses Vratas é unicamente o exercício espiritual. Haverá uma descrição detalhada desses Vratas quando deliberarmos sobre Bhakti. Esses Vratas são descritos no Sri Haribhaktivilasa.

A proteção aos animais é um ato virtuoso (item 8). Possui dois tipos: (1) melhorar a vida dos animais e (2) sustentá-los e protegê-los. É muito bom tornar melhor a vida de todos os animais úteis. Os negócios familiares não podem ser bem conduzidos sem ajuda deles. Devem-se tomar providências para incrementar seu tamanho, força e natureza. Essas melhorias acontecem através de condições específicas para a reprodução. É dever obrigatório melhorar o rebanho bovino mais do que qualquer outro animal. Com a ajuda deles os trabalhos de cultivo e transporte de cargas podem ser bem conduzidos. Deve-se fazer com que as vacas gerem bons bezerros, escolhendo touros fortes e de boa aparência para o cruzamento. É por esse motivo que os touros jovens são mantidos em liberdade e livres de trabalho durante cerimônias Shraddha (ritos) aos espíritos dos antepassados. Os touros perambulando livremente crescem bastante e ficam fortes, capazes de manter a procriação de uma raça bovina forte. Os animais prestam muitos serviços às famílias, por isso devem ser bem alimentados com boa forragem e abrigados em bons currais. A criação e proteção do gado bovino na Índia sempre foi reconhecida como uma virtude meritória da mais alta ordem.

[N.T.: Criar animais para matá-los depois, bem como simplesmente matar, é uma atividade das mais pecaminosas possíveis, como será visto adiante, e esse é o motivo principal para todas as desgraças e violência que acontecem com a humanidade atualmente. A natureza fornece uma quantidade infinita de alimentos para a subsistência humana, sem que haja necessidade de atos tão brutais e impiedosos. Atualmente fala-se tanto em ecologia e destruição da natureza, mas a violência aos animais continua sendo um ato perfeitamente natural para o homem moderno, o qual é totalmente desprovido de "sensibilidade", intoxicado pelo orgulho gerado pelo pseudo-avanço científico/tecnológico que rejeita Deus, e automaticamente, a natureza.

As vacas são animais muito especiais. Elas representam a religião, pois fornecem o alimento principal para o despertar da sensibilidade encoberta, o leite. Elas são uma das sete mães naturais do homem. Quando a criança deixa de ser amamentada pela mãe, quem continua essa amamentação é a vaca. O boi é o pai da sociedade, pois faz com que a terra produza os cereais etc. [puxam arado]. Eles são animais completamente dóceis e bondosos, que se alimentam de grama. O homem moderno é tão insensível e impiedoso, a ponto de esquartejar animais divinos sem nenhum remorso. Além do mais o Senhor Supremo, Sri Krishna, é conhecido como Govinda e Gopala, Aquele que dá prazer às vacas e o Benquerente das vacas, Ele em Seu aspecto mais Sublime é o Eterno e Bem-Aventurado Menino-Vaqueiro na terra transcendental de Vraja.]

Há quatro tipos de incremento da população mundial: (1) procriação de acordo com as leis matrimoniais, (2) manutenção e proteção das crianças nascidas, (3) capacitá-las a conduzirem suas próprias famílias, e (4) dar-lhes treinamento espiritual. Deve-se casar com uma noiva digna, após alcançar a idade adequada, e conduzir os afazeres familiares com amizade mútua, observando as regras para preservação da saúde, tanto física quanto mental. Os filhos nascerão pelo Desejo de Deus. Deve-se protegê-los e criá-los cuidadosamente. Eles devem ser educados no devido tempo e também dar-lhes outros treinamentos. À medida em que crescem, devem ser ensinados a ganhar dinheiro e a se casarem dignamente, a fim de conduzirem suas próprias vidas familiares. Eles devem ter treinamento físico, religioso e espiritual conforme a idade. Devem aprender a ter indiferença pela vida mundana, enquanto executam essas tarefas.

Há vários tipos de probidade (décimo item virtuoso), mencionaremos alguns apenas: (1) perdão, (2) gratidão, (3) veracidade, (4) sinceridade, (5) indiferença por roubar, (6) não aceitação de presentes indevidos, (7) bondade, (8) abnegação, (9) respeito a boas escrituras, (10) visita a locais sagrados, (11) aderência constante a sua própria posição conforme a competência, etc..

(1) O abandono da intenção de punir um ofensor é conhecido como perdão. Não é impróprio punir um ofensor, mas é uma virtude perdoá-lo. Sri Prahlada e Sri Haridas Thakur são adorados no mundo por terem perdoado seus inimigos.

(2) O reconhecimento constante de benefícios recebidos de outros é chamado gratidão. Os Arianos (seguidores estritos do Hinduísmo) são tão agradecidos, que servem as seus pais com o máximo de suas habilidades durante a vida, e depois da morte deles, também aceitam privações e sacrifícios, como a observância do período de Asoucha (auto-penitência devido à essa morte), abandonando todos os confortos de alimentação, cama etc., e propiciam a execução da cerimônia Shraddha com presentes e banquetes, dedicada aos antepassados. E continuam executando essas Shraddhas (ritos funerais e oblações) anualmente ou periodicamente. Esse é um ato meritório para todos devido ao reconhecimento da gratidão.

(3) Dizer apenas o que considera verdade é chamado de veracidade. Os indivíduos verazes são adorados mundialmente como virtuosos e abençoados.

(4) O nome da sinceridade franca é candor. Quanto mais franco e sincero, maior será a virtude.

(5) Não se apoderar ilegalmente do que pertence a outros é conhecido como indiferença por roubar. A menos que se ganhe algo pelo trabalho próprio ou aceitando um presente devidamente oferecido, não se tem direito sobre isso.

(6) Pessoas incapazes de trabalhar, como cegos, aleijados etc., têm competência para receber esmolas; aqueles que são capazes devem conseguir as coisas pelo seu próprio trabalho honesto. Se aceitarem esmolas, estarão enquadrados na aceitação indevida de presentes. Deve-se evitar isso.

(7) É adequado ser bondoso para com todas as criaturas. Ser bondoso com senso de conveniência é a bondade certa. A função da bondade aplicável no caminho do apego amoroso será discutida em outra parte. A idéia de que a bondade deve ser só em relação aos seres humanos e se deve tratar os animais com crueldade, é totalmente errada. Devemos nos preocupar para que aqueles suscetíveis à dor, não sejam sujeitos à ela.

(8) Quando o apego a prazeres mundanos é removido por meio de Sama (tranqüilidade), Dama (controle sensual), Titiksa (tolerância) e Uparati (abstinência), isso é abnegação. Tranqüilidade é o controle de desejos maléficos; o hábito de se submeter a penitências e o abandono da sede por prazeres mundanos é abstinência. A abnegação é uma virtude meritória. Se possuir abnegação, o pecado raramente se aproximará de você. A virtude da abnegação deve ser praticada gradualmente na forma prescrita. A abnegação se torna facilmente alcançável no caminho da sede por amor Divino. Isso será considerado posteriormente. A prática de abnegação é um ato virtuoso. A abnegação é praticada gradualmente observando penitências físicas, como Chaturmasya (voto de abstinência nos quatro meses de chuva), Darsa (nos dias de lua nova), Pournamasi (nos dias de lua cheia) etc.. Controlando gradualmente o desejo por prazeres confortáveis, como comida, cama etc., quando finalmente todos esses desejos forem abandonados e estiver amadurecido em aceitar somente o que for estritamente necessário à manutenção da vida, a abnegação estará plenamente assegurada. Nesse estágio, o indivíduo terá competência para entrar no quarto estágio de vida, Sannyasa.

(9) É dever de todos prestar o devido respeito a boas escrituras. Boas escrituras são aquelas nas quais é descrito tanto o bem (i.e., adequado à pratica) quanto o mal (i.e., tópicos proibidos). Os que publicaram boas escrituras são aqueles que compuseram Shastras autênticos após terem adquirido suficiente mérito. Os que publicaram más escrituras são os que compuseram Shastras, ocupados em discursar sobre os Shastras e sobre as regras de proibição. Os Shastras onde encontramos princípios impróprios e ateus, são originários de argumentações erradas e maléficas. Não se deve considerá-los. É muito bem sabido que quando um cego guia outro cego, ambos caem no abismo.

(10) Similarmente, aqueles que compõem maus Shastras junto com seus seguidores buscam pelo caminho errado e maléfico, e são realmente miseráveis. Quando dizemos bons Shastras nos referimos aos Vedas e Shastras que os seguem. Deliberar sobre esses Shastras e ensiná-los a outros é um ato virtuoso. Pode-se aprender muitas coisas e se livrar de preconceitos errados através de peregrinar a locais sagrados, dedicando todo o tempo no serviço a Hari. Tentar se manter ocupado em más atividades sob a força do cantar do Nome de Deus é uma ofensa. Essa inclinação pecaminosa sob o poder do Nome é uma grande ofensa espiritual. A leitura do Bhagavatam compreende uma das várias boas atividades a serem praticadas, como andar por dez minutos, tomar refeições em 15 minutos, manter conversas por vinte minutos e assim por diante. Se o serviço for exclusivamente o serviço ao Srimad Bhagavatam, então, estará servindo a cada passo, a cada bocado de comida e a cada inalação e exalação da respiração. Um leitor profissional ou remunerado não pode explicar o Bhagavatam. Antes de mais nada, evite se aproximar de pregadores profissionais. Veja se ele devota seu tempo exclusivamente ao Bhagavatam realmente.

(11) É muito bom sempre cultivar boas deliberações discriminadoras. Um indivíduo não pode ser considerado um ser humano realmente, se não possuir a deliberação discriminadora sobre qual é o seu dever e qual é a conseqüência da execução desse dever. O que distingue o homem dos animais é que esses são desprovidos da boa deliberação discriminadora, enquanto o homem possui habilidade para tal deliberação. O resultado dessa deliberação é a auto-realização.

(12) Cortesia é um ato virtuoso. Os homens piedosos da antigüidade obedeceram à cortesia e aconselharam outros a obedecerem. Com o tempo, a cortesia sofre transformações, por exemplo, haviam atos prevalecentes nas eras piedosas, Satya, Treta e Dwapara, como a morte de espécimes bovinos em sacrifícios, mas isso é proibido em Kali-Yuga. Deve-se adotar regras antigas somente após examiná-las minuciosamente.

[N.T.: Nas eras piedosas os Brahmanas tinham o poder de rejuvenescer animais velhos, como bois ou cavalos, através desses sacrifícios, nos quais o animal era morto e posteriormente revivido com juventude. Mas em Kali-Yuga, esse poder desaparece. O Senhor Buddha veio justamente para acabar com a violência aos animais em nome de sacrifícios Védicos.]

O principal civismo consiste em respeitar os indivíduos conforme a classe. Isso se chama Maryada (honra). Quando houver quebra dessa honra, acorrerá uma transgressão em relação a grandes almas. É bom respeitar conforme a seguinte ordem, normalmente deve-se respeitar a todos. Deve-se respeitar mais ainda pessoas de ordem superior; o maior respeito deve ser dado aos devotos.

O respeito aos Brahmanas e Vaisnavas é notado em todas as partes. (1) respeito a todos os indivíduos, (2) respeito pela civilização e respeito pela realeza que se inclui aí, (4) respeito pelo saber, (5) respeito pelas altas qualidades, que inclui respeito aos Brahmanas, aos Vaisnavas e aos devotos, (6) respeito à casta, (7) respeito aos Ashramas ou estágios da vida, e (8) respeito à devoção a Deus.

[N.T.: O autor se refere à realeza antiga, de natureza Kishatrya, bem diferente da moderna. Os Kishatryas eram protetores da sociedade, e não exploradores.]

O respeito à realeza se refere à classe, respeito aos Pandits (sábios) é devido ao saber, aos Brahmanas é devido à casta, respeito aos Sannyasis é devido aos estágios da vida e respeito aos devotos verdadeiros é devido à devoção.

(13) Adoração a Deus se chama Ijya. É um ato virtuoso para todos. Essa é a principal entre todas as regras. A forma de adoração varia conforme a competência.

(14) Atos virtuosos produzem virtude, maléficos produzem pecado. Os Shastras distinguiram Karma, Akarma e Vikarma. Todo ato virtuoso é Karma. Akarma significa não fazer aquilo cuja não execução é condenável, pecados são conhecidos como Vikarma. Há três tipos de Karmas, Nitya (diário), Naimithika (para ocasiões particulares) e Kamya Karma (destinado a frutos desejados). Os Kamya Karmas devem ser abandonados. Deve-se praticar Nitya e Naimithika Karmas; adoração a Deus é um Nitya Karma. Oblações aos ancestrais é Naimithika.

 

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Competência do Karma e Distinção de Casta

 

Determinar o direito de ação é simplesmente uma questão de prática. Competência é conhecida como aquilo que constitui o direito. Há dois tipos de competência, i.e., para que ato a pessoa é competente e o quanto ela é competente para esse ato. Todas as pessoas não são competentes para executar todos os atos virtuosos. Alguém pode até ser competente para uma ação em particular, mas não para executá-la plenamente. Se alguém executar uma ação sem averiguar sua competência para tal, o resultado dessa ação será duvidoso. Por esse motivo, o direito para a ação deve ser determinado logo no início. O praticante de uma ação deve primeiramente questionar a um Guru (preceptor) competente sobre sua execução, por ser incapaz de determinar seus próprios direitos. É dever do sacerdote encontrar o melhor método para executar a ação aconselhada pelo Preceptor. Por isso, todos devem escolher sacerdotes e preceptores competentes para ajudá-los. Atualmente, o modo de escolha dos sacerdotes e preceptores não está de acordo com o pensamento dos compiladores dos Shastras. A aceitação de preceptores e sacerdotes meramente por nome é infrutífera, como a aceitação de ídolos para representar Deidades. Por isso, deve-se procurar as pessoas mais competentes da sua vila, se elas não estiverem disponíveis, deve-se procurar em outras vilas. Daremos um exemplo sobre competência, senão, não ficará muito claro. Cavar poços é um ato virtuoso. Se alguém quiser cavar um pessoalmente, será competente para tal, se possuir força suficiente, ferramentas, terra e ajudantes. Se fizer isso através de pagar o trabalho, terá que possuir dinheiro suficiente. Ela terá competência na mesma proporção que possuir força, ferramentas, terra e ajudantes. Os frutos não surgirão para uma pessoa incompetente.

A pessoa sem direito não pode adquirir nenhum fruto e incorre em pecado quando executa o Karma. Um homem para executar ações matrimoniais deve ter competência física, habilidade para sustentar as despesas familiares e ter treinamento mental adequado à consumação da relação conjugal. Aquele que desejar tudo isso, deve primeiramente determinar se possui o devido direito para executá-las. Há dois tipos de direito, natural e circunstancial. A vida humana pode ser dividida em três partes, período de educação, de atividade e de descanso. Durante o período de treinamento, adquire-se conhecimento. A inclinação de alguém que se torna forte através do estudo de livros, da companhia, da observação do trabalho de outros e das instruções recebidas determinam sua natureza particular. A cultura, instruções e companhia que alguém adquire da família podem por acaso serem diferentes da natureza da família; assim, sua natureza será bem contrária à da família. A natureza que se nota em alguém, após seu período de treinamento e no início de suas atividades, se torna sua natureza. Os personagens intelectuais, capazes de classificar matérias, dividiram a natureza em quatro tipos: natureza Brahmana, natureza Kishatrya, natureza Vaishya e natureza Shudra.

A natureza que gera a tendência ao controle sensual interno e externo, mérito da paciência e tolerância, pureza de conduta, perdão, candor, cultivo do conhecimento, adoração a Deus etc. foi estabelecida como Brahma Swabhava (natureza do Brahmana).

A natureza que faz crescer o heroísmo, energia, poder de retenção, destreza, coragem em batalhas, caridade, proteção ao mundo, governo com controle do mundo, adoração a Deus etc. é chamada natureza Kishatrya.

A natureza que faz surgir a tendência ao cultivo da terra, criação de animais, comércio etc. é chamada natureza dos Vaishyas. A natureza que gera a tendência a ganhar a vida através do serviço a outros etc. é chamada de natureza Shudra. A natureza de pessoas desprovidas do senso de distinção do certo e errado, falha em conduta digna, sempre inclinada a desavenças, extremamente egoísta, que não observa as regras matrimonias etc. é conhecida como Antyaja, natureza Mleccha. Não se possui natureza humana real, a menos que se abandone essa natureza (Mleccha). Por causa disso, a natureza humana só tem quatro tipos.

É bom aceitar inclinação e qualificação, bem como Karma, de acordo com elas [as quatro naturezas]. Se for executado Karma contra a própria natureza, não será bem praticado e não frutificará. Algumas vezes a natureza é chamada parcialmente de "gênio".

Os Arianos de nosso país são muito mais antigos do que os Romanos ou Gregos, ainda assim, eles mantêm a glória de seus heróis prévios. Qual é o motivo disso? Simplesmente porque seu sistema de distinção de casta ainda permanece forte e seu nacionalismo não foi perdido. Mesmo os Ranas, conquistados pelos Muçulmanos, clamam até hoje serem descendentes de Sri Ramachandra. Por mais caídos que estejam os indianos, devido à velhice da nação, eles permanecem Arianos, e não não-Arianos, enquanto o sistema de distinção de castas prevalecer entre eles. Os Arianos europeus, os Romanos etc. se misturaram com os Hunos e Bhandals. Quando consideramos a sociedade moderna da Europa, vemos que tudo o que existe de bom nela atualmente depende de seu Varnashrama natural (castas e estágios de vida). Aqueles que possuem natureza de comerciante na Europa, são inclinados ao comércio, e estão progredindo somente por esse motivo. Os que possuem natureza Kishatrya adotam a vida militar, e os de natureza Shudra são inclinados ao serviço geral.

Não é fácil mudar a natureza que se tornou natureza. Por isso, deve-se manter a vida tentando fazer progresso espiritual, executando ações conforme a natureza. Há quatro castas na Índia, originárias dos quatro tipos de natureza citados anteriormente. Se vivemos em sociedade e adotamos o sistema de distinção de castas, as funções sociais se tornarão naturalmente frutíferas e o mundo será beneficiado. A sociedade que adotou as regras de distinção de castas tem seu alicerce baseado na ciência e é adorada por todas as nações. Existe a seguinte dúvida: Se os habitantes do continente europeu se capacitaram para realizar grandes feitos e se tornaram respeitados em outros países, não há necessidade real de admitir a distinção de castas. Essa dúvida não é verdadeira, pois as nações européias são recentes e modernas. Geralmente os habitantes de nações jovens são muito fortes e audazes. Eles asseguraram o saber, ciência e destreza, através desse poder e audácia, e realizaram todos esses feitos através deles. Quando uma nação se torna gradualmente velha, sofre uma rápida queda, devido à carência de uma sociedade científica. A Índia sempre teve um sistema de distinção de castas entre seus Arianos, e mesmo na condição de sua idade avançada, os sintomas das castas ainda são prevalecentes. Os Romanos e Gregos de períodos antigos eram muito mais fortes e heróicos do que os Europeus modernos. Qual é a condição deles agora? Eles foram reduzidos a diferentes tipos de outras nações modernas, além do que, eles nem se orgulham mais da glória de seus heróis antigos.

Na realidade, nenhuma sociedade progride tranqüilamente, a menos que o sistema de casta seja mais ou menos adotado. A natureza e condições, altas ou baixas, da distinção de castas são testadas também em rituais como matrimônio etc.. Embora a sociedade das nações européias foi estabelecida com a adoção do sistema de castas num certo nível, esse sistema não tomou uma forma plenamente científica entre eles. Quanto mais avançado é o sistema de castas, mais avançado será a civilização e o conhecimento. Existem dois métodos para qualquer ação, o científico e o não-científico. Uma ação continua a ser executada pelo método não-científico enquanto o método científico não for adotado. Por exemplo: os meios de transporte sobre a água construídos sem o método científico continuam a ser o barco etc.. O mesmo acontece com a sociedade, i.e., até que o sistema de casta seja prevalecente, a condição prévia não-científica continuará governando. O estágio prévio não-científico do sistema de casta tem guiado a Europa (vale para todos os países exceto Índia). Por esse motivo a Índia foi chamada de Karma-Ksetra (campo de ação).

Agora, devemos perguntar se o sistema de casta é capaz de preservar sua condição saudável nos dias presentes. A resposta é negativa. O sistema de casta foi plenamente estabelecido na Índia e mesmo assim, nota-se muitos problemas e muita degradação na Índia, por causa da condição doentia do sistema. Se não fosse assim, os indianos após terem se retirado da vida militar devido à velhice seriam capazes de viverem felizes como instrutores de outras nações como velhos irmãos aposentados. É preciso considerar qual é a doença. O sistema de casta foi estabelecido no início de Treta-Yuga (segunda era), nessa época prevalecia uma grande cultura científica. A regra era que cada indivíduo aceitava a casta conforme sua natureza, e efetuava seus deveres destinados à casta, tendo adquirido competência para tal. As funções do mundo eram conduzidas belamente com a divisão do trabalho e a determinação da natureza. Alguém que tivesse pai sem casta, era aceito numa casta por causa da sua própria natureza. Há vários exemplos na História Védica como Jabali, Goutam, Janashruti e Chitrarath.

A casta era considerada pela natureza-Swabhava da criança e não somente pelos pais. Encontramos no clã de Narishyanta que Agnivesya formou um ramo Maharshi conhecido como Jatukarna do qual surgiu uma linha Brahmana de nome Agnivesya. Jahnu, filho de Hotraka do clã Aila, se tornou Brahmana. O rei Baradwaja, conhecido como rei Vitatha do clã Bharata, formou dois grupos de clãs em sua progênie, um clã Kishatrya chamado Nara, e outro Brahmana chamado Garga. Satananda e Kripacarya do Maudgalya Gotra nasceram no clã do rei Bharjaswa. E como essas, existem inumeráveis referências nos Shastras, citamos apenas algumas. Naquela época, o nascimento de um clã em particular não considerava apenas o Varna da pessoa, mas sim as qualidades e ações. Por esse motivo, [Índia] teve naquele período a sua maior glória e personalidades tão brilhantes quanto o Sol. O mundo inteiro respeitava a população de Bharatavarsha como pessoas ideais em todos os aspectos. O Egito, China e todos os outros países procuravam orientação adequada na Índia.

O Varnashrama-Dharma foi observado puramente, mas gradualmente, na época de Jamadagni e seu filho Parashurama, que possuíam mentalidade Kishatrya mas clamaram serem Brahmanas, começou a se degenerar pela malícia e ódio. Naturalmente, começou uma batalha entre Brahmanas e Kishatryas. Depois disso, notamos que a consideração principal era dada ao nascimento num clã em particular, para determinar o Varna. A prova é que esses princípios foram escritos no Manu Shastra e outros. Os Kishatryas não tendo chance de se promoverem a Brahmanas criaram o Bauddha-Dharma maliciosamente, tentando causar a queda da religião Brahmana. Por outro lado, os Brahmanas sem dar muita importância a suas qualidades e modo de vida, pretendiam manter seu orgulho por causa do nascimento e alta linhagem. De um lado, os Brahmanas caíram de suas posições exaltadas, e por outro, os Kishatryas perderam seu patriotismo, e assim, os Arianos causaram sua própria queda. Os Brahmanas perdendo suas altas qualidades Brahmanas se tornaram egoístas e obtusos, e criaram os Dharmashastras para seu auto-benefício egoísta e negligenciaram os outros. Os Kishatryas perderam seu poder, e foram derrotados, perdendo seus tronos, e gradualmente começaram a propagar o insignificante Bauddha-Dharma, e os Vaishyas começaram a pregar Jaina Dharma. E assim, houve uma queda por todos os lados, também os Shudras, que eram obedientes a seus mestres, assumiram profissões de assaltantes e ladrões etc.. Gradualmente as pessoas esqueceram sua cultura e Dharma Védico. Nessa situação, os reis de países Mlecchas atacaram a Índia e gradualmente dominaram as diferentes partes do nosso país. Assim, todos os vícios de Kali-Yuga gradualmente se tornaram prevalecentes entre nós. Maldição! Os Arianos de Bharatavarsha que eram as jóias entre as pessoas de todo mundo, em todos os aspectos, agora estão na pior situação. Isso não foi totalmente por causa da velhice, mas devido à negligência aos princípios fundamentais estabelecidos nos Vedas. Agora a única esperança é o Senhor Supremo, o proponente do Shastras, o Guia de todos os Jivas e Aquele que procura pelo bem-estar de todos, se Ele desejar, poderá enviar alguém poderoso para reintegrar a glória da ordem social do sistema de casta. Os Puranas afirmam que Kalideva fará Seu Advento e recuperará a glória da ordem social do sistema de casta. Agora discutiremos sobre os Vidhis (ritos) prescritos.

Os Dharma-Shastras prescreveram sobre o direito ao Karma pelo Varna. É impossível discutir sobre tudo nesse campo. O principal é (1) receber um eventual convidado oferecendo alimento, manter a pureza do corpo, banhar-se três vezes ao dia, adorar aos deuses e deusas, ler os Vedas, aprender com a classe sacerdotal erudita, usar cordão sagrado, observar Brahmacharya, aceitar a ordem de Sannyasa, esses são prescritos para Brahmanas. (2) Lutar em batalhas justas, proteger os súditos, realizar grandes sacrifícios e caridade, são prescritos para o Kishatrya-Varna. (3) Proteger e manter os animais domésticos, cuidar do cultivo da terra, cuidar do comércio, são prescritos para os Vaishyas. E (4) executar Deva-Puja, servir aos deuses sem Mantras Védicos e servir às outras classes superiores, são os deveres dos Shudras.

Casar-se e conduzir uma vida piedosa, adorar a Deus, caridade aos necessitados e destituídos, Guruseva, hospitalidade aos convidados para manter a pureza mental e de ações, observar os festivais ocasionais, manter as vacas, produzir progênie e levar uma vida ideal, esses são os ritos para todas as classes incluindo a mulher. É dever sagrado de uma mulher casada servir ao esposo. O método fundamental é que se deve seguir o Shastra e conduzir a vida conforme a influência da própria natureza. É preciso se aproximar de um Guru, que vai instruir como conduzir a vida. Os Vaishnavas, devotos do Senhor Vishnu no verdadeiro sentido, devem procurar o "Satkrya saradipika" de Gopala Bhatta Goswami para instruções de como conduzir a vida.

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

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Descrição dos Ashramas (estágios da vida)

 

O Karma cresce da natureza do indivíduo. O Karma do indivíduo está situado no Ashrama em que ele se abrigou. Por isso, casta e Ashrama estão mutuamente inter-relacionados. Por esse motivo, é dito que Karma é Varnashrama-Dharma (dever de casta e Dharma). Há quatro classes de Ashrama: (1) Brahmacharya (abstenção sexual), (2) Grihasthya (vida matrimonial), (3) Vanaprastha (retiro da vida familiar - eremita) e (4) Sannyasa (mendigo ou vida de monge). Homens de natureza Brahmana são competentes para Brahmacharya. O Brahmachari deve observar Brahmacharya com a mente controlada, mantendo conduta pura, com grande humildade, submetendo-se a várias penitências físicas e deve viver na casa do Guru até completar sua educação. Depois, ele deve adotar a vida matrimonial, após ter pago o Guru-Daksina (honorários).

É dito no Sri Chaitanya Charitamrita, elogiando Srila Murari Gupta: Ele não aceitava nenhum presente, nem pegava a riqueza de ninguém, mantinha sua família ganhando dinheiro pelo seu próprio trabalho. Todos os indivíduos de todas as castas são competentes para o matrimônio. Os Brahmanas adotam a vida matrimonial após a vida de Brahmacharya, os Kishatryas quando voltam da casa do Guru após terem estudado os Shastras destinados a eles, os Vaishyas se casam depois de estudarem as partes dos Vedas que ensinam reprodução e criação de gado e animais. Os Shudras podem se casar quando atingem a maioridade, ou vida adulta.

O pai, o sacerdote familiar, as pessoas respeitáveis ou seniores da comunidade devem decidir sobre a competência de um indivíduo em particular, quando chega a hora de sua educação. A criança deve ser ocupada nesse estudo, considerando sua natureza. Quem não possui inclinação para os estudos, mas é hábil e inclinado a serviços, deve ser permitido a se aperfeiçoar nas habilidades para serviços, e deve ser considerado um Shudra. Quando alguém casa, é preciso ganhar dinheiro. Há vários meios de ganhar dinheiro, aconselhados para as diversas castas. Adoração a Deus e ajudar outros nessa adoração como sacerdote, estudar e ensinar, oferecer presentes, bem como aceitá-los, são os seis Karmas ou deveres de um Brahmana. Entre esses, pode-se ganhar dinheiro através do trabalho como sacerdote, como professor e aceitando presentes, e o dinheiro ganho por esses meios deve ser gasto na manutenção familiar através de adoração, estudo e caridade. Os indivíduos da casta Kishatrya devem manter a família e a subsistência com o dinheiro de impostos, pedágios e do uso de exércitos e armas. Os Vaishyas devem ganhar a subsistência através da criação de gado, comércio e agricultura. Os Shudras ganham a vida servindo às outras castas. Os Brahmanas podem adotar as ocupações dos Kishatryas ou Vaishyas em períodos de catástrofes e calamidades públicas de natureza desastrosa, mas em outros casos, as três castas nunca devem adotar as ocupações dos Shudras.

Um chefe de família deve aceitar a esposa conforme as ordens dos Shastras. Deve mostrar gratidão aos ancestrais, oferecendo-lhes oblações, adorar aos deuses com sacrifícios, servir aos convidados oferecendo alimentos e deve adorar todos os Jivas (criaturas) com relacionamento veraz. Os mendicantes errantes e Brahmacharis são mantidos com a ajuda dos Grihasthas, por esse motivo, o estágio da vida matrimonial é o melhor de todos os Ashramas.

O terceiro estágio de vida é Vanaprastha (residência na floresta). O chefe de família deve adotar Vanaprastha, terceiro estágio da vida na idade madura, deixando a esposa sob os cuidados dos filhos, e se não houver prole deve levá-la consigo para a floresta. Lá, ele deve controlar seus desejos completamente. Os deveres de um Vanaprastha são: dormir no chão, vestir-se com cascas de árvores e manto, deixar de se barbear ou cortar cabelo, adotar a função de Muni (eremita), evitar conversas, a não ser relacionadas com o serviço a Deus, banhar-se nos três períodos do dia com preces (manhã, tarde e noite), servir a estranhos ao máximo possível, subsistir comendo frutas e raízes, e adorar a Deus em locais solitários nas florestas. Os membros de todas as castas são competentes para o terceiro estágio de vida.

O quarto estágio da vida é Sannyasa (ascetismo). O asceta é chamado de Bhikshu (pedinte ou mendigo) ou Parivrajaka (não tem residência fixa). Quando as pessoas pertencentes aos três estágios de vida citados acima se tornam completamente indiferentes aos afazeres mundanos, sempre penitentes, experientes com a verdade última, sem nenhum desejo por companhia e com a mente sempre situada em Deus, indiferentes ao prazer e dor, sendo equânimes com todos, bondosos, não-invejosos e ligados à meditação, serão elegíveis para o quarto estágio, Sannyasa. Os Sannyasis estão sempre ocupados na contemplação. Não devem permanecer num local por mais de cinco noites, a não ser em casos especiais como Chaturmasya [quatro meses de chuva] etc.. No primeiro estágio, eles devem pedir esmolas em casas de Brahmanas. Só os Brahmanas podem aceitar esse estágio.

Aqueles que são desprovidos de força física ou mental não são elegíveis para nenhum estágio de vida. Os fracos não têm estágio. Devem passar os dias dependendo da graça dos Ashramins (pertencentes ao Ashrama). É dever dos Ashramins ajudá-los ao máximo possível.

As mulheres não devem aceitar nenhum Ashrama além do matrimônio, ou Vanaprastha em casos especiais. Mesmo uma mulher de caráter excepcional, que tenha adquirido conhecimento sobre religião e poder e habilidades perfeitos de abstinência, não será sábio aceitar Sannyasa, pois as mulheres são naturalmente fracas fisicamente, de mente delicada e de fé delicada.

Se especularmos corretamente, será evidente que a domesticidade é o único Ashrama do qual dependem os outros três estágios de vida. A humanidade é geralmente doméstica. Alguns têm o privilégio de aceitar Brahmacharya, Vanaprastha e Sannyasa, mas são muito reduzidos em número. Há certos modos discriminadores e méritos nos Ashramas seguidos por diferentes indivíduos, e se não conhecermos as diferenças, a verdade espiritual da sociedade não poderá ser estimada corretamente.

Os vários deveres da vida doméstica foram descritos nos vinte tratados religiosos, nos Puranas e Smriti-Shastras. Os Manus, os Rishis e Prajapatis registraram nos Shastras os trabalhos que devem ser abandonados e os deveres a serem executados diariamente, quinzenalmente, mensalmente, semestralmente e anualmente. Por isso, não é necessário adicionar mais nada neste livro, damos apenas uma consideração abreviada.

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

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Culto Cotidiano

 

Deve-se acordar no Brahma-Muhurta, i.e., momento antes do nascer do sol [1 hora e 36 minutos antes do nascer do Sol], e refletir sobre os afazeres mundanos e espirituais a serem efetuados durante o dia e à noite. Deve lavar suas bacias em locais higiênicos de manhã cedo, lavar a face, as mãos e outros órgãos. Deve tomar banho em água limpa e transparente, e se vestir. Depois, deve ir ganhar dinheiro seguindo sua profissão, prescrita pela casta e cor. Dependendo da saúde o banho pode ser ao meio dia, com adoração a Deus e oblações de água aos ancestrais e deuses. Quando as refeições estiverem prontas, separe uma parte para outros seres, um pouco para pessoas caídas e miseráveis, e vá até a porta verificar se vem algum convidado. Se vier um convidado, ele deve ser servido com toda a atenção e cuidado. Não há necessidade de mostrar hospitalidade extra aos habitantes de sua própria vila. Deve ser hospitaleiro com pessoas que vieram de outros lugares e não têm nenhum vínculo parentesco e que seja pobre e esteja faminta. Não seja curioso sobre a casta ou fé dessa pessoa. Se acontecer de vir um Brahmana sagrado à sua casa, ele deve ser servido com reverência. Tome suas refeições, sentando-se voltado para o Leste ou Norte. Coma arroz ou qualquer outra dieta pura num prato grande e sagrado, intocado por indivíduos pecaminosos.

Não coma em horas inauspiciosas. Pense em Deus no final da refeição. Abandone a preguiça e se ocupe em trabalho leve que não cause extenuação. Passe a última parte do dia discutindo os Shastras sagrados. Quando a noite se aproxima, faça sua prece vespertina absorto em profunda meditação. Tome sua refeição noturna após dar uma parte aos convidados da mesma forma que durante o dia. Ofereça quarto e cama para o convidado dormir. Durma num quarto limpo e asseado, num colchão sem insetos, com a cabeça voltada para o Leste ou Sul. Você ficará doente se dormir com a cabeça voltada para o Oeste ou Norte. Não se junte com sua esposa de forma imprópria. Resumindo, você deve se manter, bem como a família, superiores, convidados e pessoas necessitadas, ganhando dinheiro de forma honesta, com diligência e observando as regras para o corpo e mente.

As regras para execução de deveres sagrados diários, encontrada nos Shastras, não podem ser seguidas estritamente nos dias de hoje. É muito difícil observar regras antigas, em face ao comportamento e política dos estrangeiros modernos. Nos dias presentes, todos os trabalhos são feitos ao meio dia. Por isso, não é adequado tomar as refeições muito tarde, ou se banhar três vezes ao dia, ou ficar acordado até tarde na noite etc.. O significado das afirmações dos Rishis é que se deve efetuar todos os deveres de comer, banho, dormir e todos os trabalhos corpóreos, de tal forma que sejam feitos em segurança e sem pecados. Portanto, os Brahmanas devem fazer seus deveres prescritos diariamente com a devida consideração, prestando muita atenção nas circunstâncias individuais.

As regras a respeito do corpo, mente, sociedade e pós-vida estão incluídas na execução de deveres diários. Levantar-se de manhã cedo, limpar o corpo, trabalhar dignamente, comer na hora certa, alimentar-se com comida revigorante, saudável e nutritiva, beber água limpa, andar, usar roupas limpas e asseadas, não dormir mais do que oito horas por noite etc., estão na categoria de execução diária de trabalho físico. Também devemos praticar trabalhos mentais, como refletir sobre os deveres diários, aprendizado da meditação, afazeres domésticos, geografia, astronomia, história, geometria, aritmética, química, física, medicina e movimento dos Jivas etc., conforme a necessidade.

A vida matrimonial deve ser virtuosa e livre de pecados, é assim que o estado virtuoso é mostrado. Discutiremos os vícios principais com o propósito de ensinar virtude.

Há onze tipos de vícios:

(1) Violência ou inveja, (2) Crueldade, (3) Ira ou perversidade ou confusão mental, (4) Devassidão [libertinagem], (5) Falsidade, (6) Desrespeito aos superiores, (7) Lascívia [sensualidade], (8) Egoísmo, (9) Impureza, (10) Indelicadeza e (11) Destruição.

Há três tipos de violência. Violência aos seres humanos, violência aos animais e violência aos deuses. O desejo de matar outros é violência. Inveja gera violência. Ser apegado a alguma coisa se chama Raga. Ser indiferente a qualquer coisa é desdém. O Raga apropriado é uma virtude, mas o Raga (afeição) impróprio é sensualidade. Desdém é a virtude oposta a Raga. Desdém adequado também é considerado uma virtude. Desdém impróprio é a raiz da inveja. Todos que vivem neste mundo devem se comportar com os outros de forma afetuosa. Indivíduos pecaminosos são inclinados a odiar e invejar outros, comportando-se de maneira oposta. A violência é um grande pecado. Todos devem abandonar o ódio. Violência aos seres humanos é o maior pecado. A violência a um indivíduo é determinada como sendo mais ou menos séria, considerando a qualidade do indivíduo que a sofreu. Violência aos Brahmanas, violência a parentes, violência a Vaishnavas e violência ao Guru são os pecados da mais alta ordem. Violência aos animais não é menos pecaminosa. Pessoas vorazes que prescrevem a matança de animais por egoísmo são guiadas por suas baixas propensões animais. A natureza humana não brilhará, se não parar com a matança de animais.

O significado de sacrifícios animais com morte, prescrito nos Vedas, é a redução gradual da propensão animal do homem, até que seja erradicada completamente. O fato é que sacrifício animal é religião de animais, e não religião de homens. Inveja ou ódio a deuses também é um grande pecado. As pessoas prescrevem diferentes práticas para meditação em Deus nos diferentes países. Através de segui-las, obtém-se gradualmente a virtude suprema de adorar a Realidade última. Mas os religiosos inexperientes, não versados na verdade espiritual, consideram seus métodos adequados e odeiam os métodos de outros. Chegam até mesmo a destruírem templos e imagens de Deus. Deus é um só, não há dois. Eles estão simplesmente odiando o Deus Supremo através desses atos. Todos os homens de bem devem evitar esses atos impróprios e animalescos.

Há dois tipos de crueldade, aos homens e aos animais. Crueldade a homens e mulheres causa um grande perigo ao mundo. A bondade desaparecerá e o vício da crueldade reinará o mundo. Pessoas do pior tipo, como Siraj-ud-doula e Nero, causam um grande mal ao mundo. Se alguém tiver crueldade escondida na mente, deve removê-la gradualmente cultivando a bondade e aprendendo como dirigi-la a outros. As religiões inferiores modernas prescrevem crueldade aos animais. Isso é apenas para mostrar a infâmia desses prescribentes funestos. Um coração solidário se derrete quando vê a crueldade praticada por algumas pessoas cruéis e avarentas a seus cavalos ou bois de tração. Devemos evitar tais atos cruéis.

A hipocrisia é um pecado. Comportar-se insinceramente com outros, por interesse pessoal, se chama hipocrisia ou insinceridade. A hipocrisia que causa ansiedade profunda é crueldade. Pessoas dedicadas a esse vício são chamadas de mentirosas.

Há quatro tipos de ilusão mental: Intoxicação, predominância dos seis inimigos do coração, ateísmo e obtusidade ou estupidez. É difícil estimar o dano causado ao mundo pelos tóxicos. Todos os tipos de males impregnam as substâncias necessárias à fabricação de intoxicantes. Todos os tipos de bebidas alcoólicas, haxixe, maconha, charas [cera de maconha], ópio, tabaco, noz-de-bétel etc. estão incluídos no grupo de substâncias tóxicas. Alguns tóxicos perturbam a mente e danificam a saúde. O ópio deixa o coração apertado e animaliza a mentalidade. O tabaco além de causar esses dois males, deixa a natureza humana obtusa e faz com que o indivíduo seja subordinado a ele, o fumo é um vício severo. O homem não deve se refugiar no fumo. Os seis inimigos do coração são a luxúria, ira, avareza, orgulho, paixão e malícia. Se eles pressionarem o coração, farão da pessoa um pecador. Se desejamos riqueza ou qualquer outra coisa útil à fácil manutenção do corpo e sem pecado, isso não será luxúria. Desejo é luxúria, a não ser nesses casos. A luxúria nos arrasta em direção a vários perigos. Se o desejo não for satisfeito, se transformará em ira. Quando surge a ira, decorrem desavenças, palavras infames, ferir os sentimentos de outros etc.. A avareza vem gradualmente e cria o pecado. Considerar-se superior é orgulho. Para falar a verdade, quanto mais nos consideramos inferiores, mais aparecerá a afeição. Não só isso, deve-se abandonar a superioridade, qualquer bom conselho recebido deve ser seguido. Especialmente se nos consideramos servos de Deus, não pode haver nenhum toque de orgulho. A paixão é sempre ruim. Não causar a prosperidade dos outros é malícia. Ela permanece na raiz de todos os males. Se alguém estiver apegado a qualquer um desses vícios, ficará com a mente perturbada. Da ilusão surge o ateísmo. Há dois tipos de ateísmo, um é determinar que Deus não existe e o outro é suspeitar sobre Deus. Tal ateísmo é uma ilusão mental e é visto freqüentemente. Pessoas apegadas com a insanidade da ilusão são geralmente atéias e suspeitosas. Algumas acreditam em Deus enquanto estão saudáveis e cordiais, mas se lhes acontecer algum mal, perdem sua crença. Quando se livram do mal, recuperam a fé. Algumas pessoas fanáticas pronunciam "Hare Krishna" dia e noite, mas não sofrem nenhuma mudança no coração. Tudo isso é ilusão. Estupidez e preguiça estão entre os pecados. Pessoas virtuosas devem expulsar a obtusidade.

Há quatro tipos de comportamento falso: (1) Mentir, (2) Hipocrisia religiosa, (3) Engano ou comportamento mentiroso e (4) Parcialidade. É estritamente proibido mentir. Mentir jurando é considerado um grande vício. Portanto, não minta em nenhuma circunstância. Ninguém confia na pessoa de comportamento falso, e ela é até odiada por todos. Hipocrisia na religião é um grande pecado. Os que estão implicados nesse tipo de pecado são falsos devotos. Aqueles que decoram o corpo com marcas religiosas, como pasta na testa, guirlanda, usam pedaços de pano para cobrir as partes íntimas, manto e cordão sagrado etc., mas não possuem mentalidade devocional, são hipócritas. Aqueles que se comportam falsamente com outros e se expressam diferentemente de seu pensamento, são desconsiderados pelas pessoas como astutos e ladinos. Parcialidade significa apoiar o lado errado por qualquer motivo sem tomar partido do lado certo, isso deve ser evitado de qualquer jeito.

Há três tipos de desrespeito aos mais velhos: (1) Negligência com os pais, (2) Negligência com os conselheiros e (3) Negligência com outros superiores. Mesmo se os superiores agirem impropriamente ou erroneamente, não devem ser negligenciados. Tenha cuidado para obter o favor deles habilmente e com humildade. Desobedecer os bons conselhos dos mais velhos é um tipo de negligência.

Há três tipos de lascívia: (1) Lascívia por dinheiro, (2) Lascívia por mulheres, (3) Lascívia por fama. Lascívia por riqueza e propriedade é a lascívia monetária. Essa lascívia torna a pessoa próspera com o tempo, dando-lhe gradualmente riqueza e propriedades, mas ao mesmo tempo a torna pobre por tirar sua felicidade. Devemos abandonar a lascívia por dinheiro. O objetivo é se manter, bem como a família, com dinheiro e propriedade ao mínimo possível para que não despertemos esse desejo no coração. Lascívia por mulheres é um grande pecado. Nunca se deve relacionar com a esposa de outros ou com prostitutas. Mesmo no relacionamento com a esposa, deve-se observar certas regras a respeito do corpo e sociedade. Ninguém deve ser luxurioso. Se o relacionamento matrimonial for indevido, haverá perda de memória e capacidade intelectual, e se tornarão pais de filhos fracos com duração de vida reduzida. Nos dias presentes na Índia, parece impróprio o relacionamento para mulheres antes dos 16 anos e para homens antes dos 21 anos. É nosso dever sagrado remover a lascívia sexual através da tendência religiosa. Todas as ações de alguém que procura por fama e reconhecimento se tornam grossamente egoístas. Portanto, remova esse pecado de lascívia. Devemos praticar religião sinceramente [candidamente].

Egoísmo grosseiro é um grande pecado. Tudo que incrementa a vida pessoal, bem como o bem pós-vida, é chamado de interesse. Não existe nenhuma injunção que insinue o abandono de tal interesse. O verdadeiro e maravilhoso interesse é em relação a Deus, cuja realização será benéfica ao indivíduo e ao mundo simultaneamente. Se abandonarmos esse interesse, desistiremos de fazer bem ao mundo. O interesse condenável é aquele destinado a causar o mal a outros. Vários pecados surgem dele, mesquinhez com aqueles que temos que manter, mesquinhez para realizar boas ações, disputa, roubo, insatisfação, orgulho, malícia, inveja, lascívia e desperdício. Na mesma proporção que encontramos egoísmo em alguém, será o mal causado a ele mesmo e aos outros. Portanto, se o pecado do egoísmo não for erradicado do coração, a pessoa não poderá se ocupar em nenhum bom trabalho.


A impureza se divide em relação ao corpo e em relação à mente. Há três tipos de impurezas, sejam elas mentais ou físicas: impureza devido ao local, impureza devido ao tempo e impureza devido ao recipiente. Ao irmos a lugares impuros somos contaminados com a impureza local. Isso é devido aos atos impuros praticados pelas pessoas do local. Encontramos em tratados religiosos, que seremos sujeitos a contaminação de impurezas locais se formos a países sem religião ou se vivermos neles. Mas não existe nenhuma proibição de ir até eles a fim de obter conhecimento ou lhes fazer o bem, salvando-os das mãos dos perversos, lutando ou por qualquer outra tática, ou para pregar religião. Seria uma queda para a raça Ariana, ir até eles para aprender assuntos triviais, suas religiões imperfeitas ou se relacionar com eles. Aquele que entra em contato com esse pecados está sujeito à penitência. Não se deve começar trabalhos nos meses intercalados, pois será impureza em relação ao tempo. Os deveres sagrados devem ser efetuados em momentos auspiciosos, por isso será vantajoso distribuí-los em divisões adequadas. O tempo que sobra na divisão e alguns grandes eventos fenomenais, como eclipse etc., não são auspiciosos. Efetuar trabalhos nesses períodos será ação impura. Relacionar-se em períodos impróprios, comer ou dormir em períodos impróprios e fazer trabalhos práticos em períodos indevidos estão na categoria de impureza devido ao tempo. Se o trabalho for feito por meio de vias impuras, será impuro devido à impureza de recipiente. Se o alimento foi cozinhado por um bêbado ou pessoa voluptuosa, mesmo se for oferecido aos deuses, será impuro devido ao toque da pessoa impura. Se o corpo, as roupas, cama e casa forem mantidos sujos, isso também está na categoria de impureza. Ilusão e malícia também produzem impureza. Devemos remover essas coisas.

A indelicadeza é um pecado. Se alguém adotar a postura desconsiderando as boas maneiras e costumes aprovados pelas pessoas de bem, seguindo os passos dos não-Arianos, isso será indelicadeza. Abandonar a religião baseada na casta e ordem social, tornando-se despótico como os não Arianos, vivendo em companhia dos não-Arianos, é contra a boa conduta e causará a queda da pessoa. Ela também será sujeita à penitência.

Há cinco tipos de trabalho destrutivo para o mundo: (1) Impedir boas ações, (2) ascetismo fingido, (3) introduzir trabalho errado em nome da religião, (4) guerras injustas e (5) desperdício ou esbanjamento. Pôr obstáculos no caminho de bons trabalhos realizados por outros de propósito ou não, será um trabalho destrutivo para o mundo. É bom ficar livre do apego mundano, despertando a devoção a Deus ou Conhecimento Espiritual, se tentarmos ser indiferentes por esforço próprio, isso será raiz de vários males.

É dever das pessoas que vivem neste mundo, efetuar seus deveres domésticos eficientemente. Se a verdadeira apatia for desperta, deve praticar austeridade conforme as regras prescritas do estoicismo. Ou então, deve reduzir gradualmente a avareza da domesticidade, devotando-se a Deus. Essa é a verdadeira vida de mendigo [Sannyasa]. Muitos abandonam seus lares devido à aflição causada por problemas domésticos ou devido a algum infortúnio. Mas isso é pecado. A indiferença [apatia] temporária não dá o direito de abandonar o Ashrama. Algumas pessoas ficam sob a impressão errônea de que obterão devoção posteriormente, e assumem a postura falsa de mendigo, usando certas marcas no corpo. É ilusão, pois não é produto do sentimento natural de ascetismo, mas sim um subproduto de algum sentimento temporário de indiferença. O resultado final é que esse sentimento desaparece no curso do tempo e arrasta a pessoa à prática do mal e à volúpia. Somente o direito de ascetismo é o campo adequado para a mudança de comportamento. O costume e comportamento fixados no Ashrama individual são a boa conduta para a pessoa. Se ela seguir qualquer outra conduta sem o devido direito, isso não será maléfico somente para ela, mas para o mundo inteiro. Se alguém seguir a conduta de algum Ashrama superior, tanto erroneamente quanto habilmente, sem ser digno para esse estágio superior, causará a destruição gradual do mundo. Vemos freqüentemente certas práticas maléficas serem pregadas em vários lugares, em nome da religião. Introduzir religião abolindo os deveres baseados no Varnashrama, por ascetas fingidos, e forçar a contravenção desses deveres da parte de alguns Vaishnavas inferiores, como Nera, Baul, Katabhaja, Derbesh, Kumbhapatia, Atibari e seguidores arbitrários de Brahmo, causará um grande dano. A prática desses trabalhos [ação] produz o pecado [reação] que constrói o caminho para a destruição do mundo. O relacionamento indevido com mulheres, praticado pelos Nera, Baul, Kartabhaja etc., é completamente contra a religião sagrada. As guerras injustas travadas por extensão territorial são irreligiosas e são uma ação para a destruição do mundo. A religião não aprova nenhuma guerra, exceto a que seja por uma causa justa. A religião prescreve que gastemos o tempo, dinheiro e outras coisas, bem como o exercício do poder, para causas justas. Mas se forem gastos de forma errada, será o pecado do desperdício. Todos os tipos de pecados são leves ou pesados conforme o objeto. O pecado assume vários nomes, como grande pecado, maior, ou máximo pecado conforme a seriedade ou leveza. Se for cometido em relação a Deus ou a um homem piedoso, será uma ofensa séria. Esse é o mais abominável e deve ser evitado. A injunção sobre a inclinação essencial do indivíduo será considerada na próxima exposição.

Eu dei um pequenino vislumbre sobre religião e irreligião, virtude e vício, e injunção e proibição, neste pequeno tratado. Quem quiser saber mais sobre isso, deve ler o que foi relatado em detalhes nas vinte escrituras compiladas pelos sábios, na História e Puranas. A vida religiosa é o melhor que se pode aspirar neste mundo mortal. Essas boas ações são de dois tipos, i.e., a que concede os três objetivos da vida humana, e a que concede salvação. A religião que concede os três objetivos humanos é transitória, cheia de ações triviais e auto-interesse. A religião que tem como objetivo a salvação é superior. Ela concede a emancipação da alma. A religião do mais puro tipo de salvação, devoção a Sri Krishna, é superior a todas, e deve ser seguida. Ela elimina o desejo por Moksha. Somente a devoção possui essa característica.

 

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

Capítulo III

 

1

 

Sinal de Vaidhi Bhakti

 

A religião baseada na injunção do Shastra é chamada Vaidha-Dharma. Possui dois tipos, um é Artha ou Traivarga, e o outro é espiritual ou Apavarga. A religião que se direciona aos três objetivos da vida humana, que são Dharma, Artha e Kama, é chamada Traivarga-Dharma. Isso é em relação ao progresso do corpo, mente e sociedade, conduzindo uma vida honesta e alcançando a felicidade no céu. O prazer celestial também é transitório. O Jiva tem que retornar a este mundo após desfrutar do prazer celestial. O Varnashrama-Dharma que foi explicado anteriormente é realmente Artha. Virtude, riqueza e desejo vêm em conseqüência. Dessa forma, o Jiva não pode obter emancipação do ciclo de Karma material. O propósito dessa religião é riqueza, i.e., obtenção de objeto mundano. Por isso é chamada de "Artha". Os frutos irrelevantes que o Karma pode produzir são pertencentes a Artha. Esse Artha novamente toma a forma de Karma e gera outro Artha. Quando essa piedade que envolve o ciclo do Karma termina, então o Artha final é chamado Paramartha ou Apavarga (salvação). A religião que tem por objetivo as virtudes triplas pode professar a adoração a vários deuses ou a um deus. Cito um exemplo. O casamento é um ato, cujo objetivo é gerar filhos, que é Artha. Gerar filhos toma a forma de Karma e indica outro Artha, ou seja, oferecimentos funerais de bolo aos antepassados. Esse oferecimento novamente toma a forma de Karma e se destina à satisfação dos ancestrais que é outro Artha do Karma. Os ancestrais satisfeitos geram outro fruto ou Artha na forma de bênçãos aos filhos. Essas bênçãos produzem outro Karma que é a fonte de outro Artha. Mas todos esses frutos ou Arthas são transitórios. A felicidade dos filhos, e ultimamente o assim chamado Moksha, e até mesmo a felicidade gerada pelo Brahman, todos estão dentro do círculo de Dharma e Artha. Quando a felicidade originária do Brahman se torna palpável e se transforma em felicidade pelo serviço ao Ser Supremo, o ciclo de Artha chega ao fim, aí então, somente Paramartha, o fruto final, é obtido. Apavarga possui dois significados: Moksha (emancipação) e Bhakti (devoção). Se Moksha for alcançado, a alma fica livre da matéria e em seguida obtém Bhakti, a virtude eterna do ser humano.

Uma religião é chamada Artha enquanto indicar Artha. Será chamada de Paramartha-Dharma quando indicar o bem último. Outro nome para Artha-Dharma é ética ou Smarta-Dharma. O Vaidha-Dharma que se destina ao bem último é chamado Bhakti. Sacrifício, adoração, preces nos três períodos (Trisandhya) e adoração a Deus etc., encontrados no Smriti-Dharma ou ética, não são espirituais, pois através deles somente a natureza do adorador é nutrida causando progresso sociológico. Esses tipos de adoração compartilham da natureza do Karma, pois elas acabam produzindo mero Artha. A adoração a Deus é simplesmente uma política no Smarta-Dharma, entre várias outras. Não é sinal de dedicação eterna a Deus, que é a injunção de Paramartha-Dharma. O trabalho que se destina meramente ao bem do mundo, corpo, mente e sociedade é moral. Existe a possibilidade de adoração a Deus como um ato moral de purificação mental, mesmo recusando aceitar Deus como a verdade última, no Traivarga-Dharma. Augusto Comte, que está à frente dos ateus, adotou uma política de adoração a Deus para purificação da mente. A adoração a Deus no Karma-Marga é similar a essa. Tudo que é prescrito no Yoga-Shastra para meditação em Deus também é a mesma coisa. O objetivo é alcançar sucesso em Yoga. Mas nos Bhakti-Shastras, todas as injunções indicadas são para alcançar o bem último que é puramente Apavarga. Se considerarmos profundamente ficará claro o abismo de diferença entre os deveres sagrados prescritos pelos Smartas ou moralistas e a eterna dedicação a Deus, que é a injunção de Paramartha-Dharma. Essa diferença na realidade não depende do modo de ação, mas se relaciona com a devoção da alma. Os moralistas ateus e Smartas, dedicados ao Karma, consideram a moralidade como virtude suprema, restringem o limite de Vaidha-Artha-Dharma até a virtude, riqueza e desejo, desenhando aí a linha demarcatória. E assim, eles dão a forma a Traivarga-Dharma. Mas os devotos de Vaidha-Dharma, aspirantes do bem final – Paramartha, também adicionam um outro fruto, i.e. Apavarga (salvação), incluindo também o estágio rudimentar de amor desqualificado, aos três objetos de Artha-Dharma, i.e. virtude, riqueza e desejo, e assim, estendem o limite, e dão forma ao Dharma que aparece de forma diferente. Falando a verdade, a virtude moral já está incluída em Paramartha-Dharma. Quando Vaidha-Dharma alcança sua consumação, é definido como injunção essencial e se transforma em Paramartha-Dharma. Se a dedicação a Deus, virtude eterna do ser humano, for adicionada a Artha-Vaidha-Dharma, esse Artha-Vaidha-Dharma florescerá como Paramartha-Vaidha-Dharma. Se as pessoas mundanas adotarem Paramartha-Dharma, não terão que abandonar seu Vaidha Artha-Dharma, i.e. o Varnashrama-Dharma. Seu corpo, mente e sociedade poderão ser nutridos com a ajuda de Varnashrama-Dharma. Quando ficarem satisfeitos com a nutrição do corpo, mente e sociedade, sua alma obterá beatitude eterna adorando a Deus. Vaidha-Artha-Dharma pode ser chamado de Karma-Kandha, e Vaidha-Paramartha-Dharma pode ser chamado de Devoção ou Sadhana-Bhakti. Portanto, se julgarmos cientificamente, notaremos que Karma, surgindo de injunção indireta, é um capítulo, e Bhakti, surgindo de injunção essencial, é outro.

Devemos considerar outro tópico a esse respeito. Há duas maneiras para os Jivas alcançarem Bhakti. Um é o Karma ou evolução, e o outro é a teoria do acaso. Sriman Mahaprabhu instruiu Sri Rupa Goswami sobre o seguinte processo de evolução, no Madhya-Lila do Sri Chaitanya Charitamrita.

Os Jivas em cativeiro são incontáveis, e possuem dois tipos, móvel e imóvel. Há duas divisões entre os móveis, os que vivem na terra e os que vivem na água. Entre eles, o número de seres humanos é pequeno. Entre os homens, existem diferentes tipos, Mlecchas (descrentes nos Vedas), Pulinda (cortadores de árvores), Budistas (ateus) e Sabara (caçadores). Entre aqueles que acreditam nos Vedas, metade só acredita verbalmente. Eles cometem atos pecaminosos proibidos pelos Vedas e não se preocupam com virtude. Entre os virtuosos, muitos são inclinados ao Karma. Entre milhões de pessoas inclinadas ao Karma, há um sábio superior. Entre milhões de sábios, um é liberado. Entre milhões de liberados, até mesmo um único devoto de Krishna é extremamente raro. O devoto de Krishna é abnegado e em conseqüência, calmo e quieto, enquanto os outros que procuram por desfrute, liberação e sucesso (Siddhi) são impacientes e inquietos.

Os seres imóveis, como árvores, têm consciência encoberta. As criaturas de movimento ziguezague, as que vivem na água e terra têm consciência restrita. Selvagens, cortadores de árvores, caçadores etc., todos os Mlecchas (descrentes nos Vedas), que são civilizados em arte, ciência etc. são desprovidos de moral. Ateus como Budistas etc. são somente moralistas. Os que acreditam nos Vedas só verbalmente são devotados a Deus pela sua própria imaginação. Os que observam Dharma acreditam em Deus e são controlados por leis morais. Entre eles há alguns que cultivam o puro Tattva-Jnãna ou metafísica. Entre os metafísicos, alguns estão livres do materialismo. Entre milhões desses, um aceita devoção. Entre os moralistas que aceitam Deus guiados por leis morais, alguns aceitam desfrute – o fruto do Karma, salvação – o fruto do conhecimento, e sucesso – o fruto do Yoga. Todos eles são inquietos, somente o devoto de Krishna é pacífico. O significado desse ensinamento de Sriman Mahaprabhu é o seguinte: Deixe os bárbaros serem civilizados e sábios. Depois disso, deixe-os seguirem as regras morais, e então terem fé em Deus e praticar virtude. Após praticarem virtude, não os deixem se absorver no desfrute mundano ou salvação ou sucesso, que são os frutos irrelevantes da virtude, mas deixe-os se devotarem a Krishna. Esse é o verdadeiro passo de evolução da vida humana. Essa á a injunção de todos os Shastras e é o caminho adequado para o bem último.

Sriman Mahaprabhu aconselhou Sri Sanatana Goswami sobre a teoria do acaso.

"Enquanto vagueia pelo mundo mundano, alguém pode afortunadamente atravessá-lo, do mesmo modo como um pedaço de madeira flutuando num rio pode chegar na margem pelo fluir das águas".

Quando acontece o processo acidental, como Misericórdia de Krishna, misericórdia de homens piedosos e remoção dos obstáculos devido a Sadhana prévio, não há necessidade do processo evolutivo. O Desejo independente de Sri Krishna é o poder motivador. Isso não pode ser compreendido pela razão. Mesmo a disputa que surge racionalmente entre lei e favor, que não pode ser solucionada pelo intelecto humano, encontra sua reconciliação na Verdade Última, onde virtudes opostas podem ser muito bem reconciliadas. Um caçador imoral obteve a vida devocional pela misericórdia de Narada, mesmo sem aceitar a moral. Sabari (uma mulher caçadora selvagem) obteve a vida de sentimentos divinos pela misericórdia de Sri Ramachandra. Eles não praticaram as virtudes relevantes entre a vida selvagem e a vida devocional. Toda beleza gerada pela vida civilizada e moral se tornou ornamento nas vidas deles, tão logo obtiveram a vida devocional.

O processo acidental é raro e inconcebível, devemos adotar o processo evolutivo sem depender do acidental, é claro que será melhor se ocorrer o acidental em qualquer momento.

Considerando a teoria da evolução, é dever sagrado dos Jivas tentarem seriamente entrar num estágio superior ao que estiverem no momento. Há uma semente de bondade na Natureza do eu, que capacita os Jivas a alcançarem um estágio de vida superior naturalmente no curso do tempo. Mas os obstáculos são tantos, que em muitos casos não é possível obter o objetivo final. Portanto, aqueles que aspiram por uma vida superior devem ser cuidadosos a esse respeito. Se desejamos subir os degraus da vida, devemos considerar duas coisas: devemos ter constância em estabelecer os passos firmemente no estágio atual. E segundo, se queremos entrar num estágio superior, abandonando a constância prévia, devemos por um pé no próximo degrau da escada, e quando estiver bem firme, aí poderemos subir o outro pé que estava em baixo. Nesse movimento, o abandono da constância prévia e o alcance da superior devem ser feitos simultaneamente. Se for às pressas, há chance de queda. E se for demorado, o resultado ficará distante. Vida selvagem, vida civilizada, vida somente moral, vida moral com Deus imaginário ou algum tipo de Deus pessoal, e vida totalmente dedicada à prece e adoração são os diferentes degraus na escada, os Jivas vão em direção ao templo do Amor pelo processo evolucionário de subi-los. Se houver pressa em algum estágio, produzirá um obstáculo e o Jiva cairá. Se houver demora, virá a preguiça e impedirá o caminho do progresso. Portanto, os Jivas devem progredir adquirindo constância gradual e abandonando a prévia, considerando pressa e demora como obstáculos. Muitos expressam seu pesar dizendo que não conseguem obter devoção por Krishna, o fato é que eles não estão tentando seriamente se elevarem ao degrau que conduz a devoção a Krishna. Talvez, eles não estejam tentando progredir por estarem confinados injustamente tanto na vida incivilizada quanto na civilizada, iludidos pela ciência material, ou moralidade sem Deus, ou alguma forma de Deus imaginária. Se estiverem confinados num degrau, como será possível alcançar o degrau supremo, a torre do edifício? Há muitos Vaidha-Bhaktas que não tentam obter sentimentos religiosos, mas expressam seu pesar por falta desses sentimentos. Há muitos Varnashramis que estão apegados unicamente ao Varnashrama-Dharma e são indiferentes à aquisição da paixão amorosa e sentimentos. Isso danifica suficientemente o seu progresso gradual. Aqueles que obtiveram afortunadamente as instruções nectáreas de Sri Chaitanya progredirão logo. Eles podem obter a jóia preciosa do amor incondicionado, em suas vidas humildes, mesmo seguindo o seu Varnashrama-Dharma. Aqueles que adotam o método evolucionário podem esperar o renascimento em muitos casos. Aqueles que dedicaram suas vidas ao curso do destino, como um peixe morto no fundo do oceano horrível do mundo, algumas vezes vão para frente pela maré alta e outras vezes vão para trás pela maré baixa. Onde não poderão por nenhum meio alcançar seu local desejado.

Os sinais básicos encontrados nos dois tipos de Bhakti, mencionados acima também são notados em Vaidhi-Bhakti. O sinal básico de Bhakti é que não deseja nada exceto a nutrição de sua própria faculdade. Não é coberta por conhecimento e Karma. Assim, a súplica constante a Sri Krishna de modo favorável é chamada Bhakti. Isso significa que aplicação ou cultura é a essência de Bhakti. A dedicação a Deus prescrita no Karma-Marga é uma questão de política moral, e não Bhakti. A regra moral é mestre e dedicação a Deus é serva. O cultivo do Brahman indeterminado, considerado no Jñana-Marga, tem como objetivo somente o conhecimento. O conhecimento é o mestre e a dedicação ao Brahman é o servo. Isso também não é Bhakti. A conclusão é que só dedicação a Deus é Bhakti. E deve ser sempre de modo favorável. A dedicação também pode ser desfavorável, mas não será Bhakti. Devemos cultivar Bhakti tornando nossa vida favorável a ela. É claramente inevitável efetuar trabalho em relação ao corpo, bem como distinguir o que é material do que não é material, vivendo no mundo atual. Mas se o cultivo a Deus for encoberto por tal trabalho e conhecimento, a existência de Bhakti não permanecerá. Se a faculdade do cultivo a Deus puder ultrapassar Karma e Jñana, a existência de Bhakti poderá ser aceita.

Os seguidores de Vaidhi-Bhakti devem considerar o cultivo a Deus como o trabalho principal de suas vidas. Devem sempre se ocupar no cultivo a Deus de modo favorável. Não devem cultivar, guiados pelo medo ou malícia, mas sim com amor. Esse é o modo favorável. Não devem permitir que a política principal adotada no Varnashrama-Dharma para manutenção da vida predomine sobre o cultivo a Deus, em vez disso, devemos ocupar os princípios morais como servos desse cultivo. Cultivem conhecimento do jeito que quiserem, para determinar que a alma está além da matéria e é essencialmente Chit, mas não deixem essa discussão filosófica predominar sobre a cultura de Bhakti, mas sim ser serva dela. Qualquer trabalho realizado neste mundo ou qualquer decisão tomada devem ser dirigidas à promoção de Bhakti. Essa é a vida dos Vaidha-Bhaktas.

 

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Códigos da Cultura de Bhakti

 

Os Vaidha-Bhaktas devem sempre tentar trazer seus corações aos Pés de Lótus de Krishna, enquanto passam a vida situados no Varnashrama-Dharma. Isso é Bhakti-Yoga.

O dever essencial de um Vaidha-Bhakta é o cultivo a Deus. Esse cultivo possui cinco formas:

Cultivo em relação ao corpo, (2) cultivo em relação à mente, (3) cultivo em relação à alma, (4) cultivo em relação à natureza, e (5) cultivo em relação à sociedade. Explicaremos essas cinco formas gradualmente. Há sete tipos de cultivo em relação ao corpo. Todos os sentidos externos estão incluídos nele.

(1) Cultivo em relação à audição, (2) cultivo em relação ao cantar, (3) cultivo em relação ao olfato, (4) cultivo em relação à visão, (5) cultivo em relação ao tato, (6) cultivo em relação ao paladar, e (7) cultivo em relação aos membros do corpo.

Há três tipos de cultivo da audição: ouvir os Shastras, ouvir canções sobre Deus ou Seus Nomes, e ouvir aulas devocionais. Ouvir discussões sobre as verdades divinas, ouvir o sagrado Srimad Bhagavatam descrevendo os Lilas Divinos, ouvir as narrações das vidas dos devotos e ouvir histórias antigas de famílias Vaishnavas estão na categoria de ouvir os Shastras. Será um ato nobre ouvir os livros que contêm as verdades espirituais finais concluídas pelos devotos supremos, rejeitando as decisões que são incorretas e contrárias ao pensamento Vaishnava, explicando o significado profundo das afirmações Védicas. O significado de todos os Shastras é a devoção. A iniciação nos Shastras, sua conclusão, prática de resultado incomum, significado da palavra e resolução são os seis sinais de compreensão do significado interno dos Shastras. O verdadeiro significado de todos os Shastras é devoção a Hari, que indica esses sinais.

Devemos ouvir canções que não sejam meramente sensuais, mas que contribuam com a promoção da devoção por descreverem o doce Lila Divino. Devemos tomar distância de canções destinadas unicamente ao prazer auditivo e que incrementam o apego a prazeres mundanos e paixão mundana. Devemos ouvir música devocional, preces etc. durante a adoração à Deidade.

O melhor é cultivar Kirtan (cantar). Há cinco tipos de Kirtan: Cantar os Shastras, como foi mencionado, cantar o Lila e Nomes Divinos, cantar hinos, cantar representações e preces. O cantar do Nome e Lila pode ser feito através de aulas, pregação, explanação e música. Há três tipos de representação: prece, expressão de humildade e aspiração. Murmurar Mantras é Japa.

Devemos cultivar Deus, cheirando as flores, folhas de Tulasi, sândalo, incenso, guirlandas, cânfora etc. que foram oferecidos a Ele. Cheirar perfumes que não foram oferecidos a Deus satisfaz apenas aos sentidos triviais. Devemos cultivar Deus com nosso sentido da visão, vendo Sua Deidade, vendo Seu olhar misericordioso, vendo Seus devotos, vendo Seu local sagrado, vendo Seu templo, vendo peças teatrais etc. e vendo quadros que nos lembrem sobre a Sua verdade eterna. Ver a beleza externa mundana, faz com que a faculdade da visão jogue os Jivas cativos no poço fundo da paixão mundana. Isso deve ser abandonado. Tudo que vemos no mundo tem que ser misturado em alguma relação com o Divino.

O ato do tato é feito pela pele. É dever sagrado dos Vaidha-Bhaktas evitarem o toque dos ateus e coisas externas, mas devem desfrutar da beatitude de tocar a imagem de Deus durante o serviço. Eles obtêm uma alegria indescritível quando tocam os devotos de Deus e os abraçam. O sentido do tato é muito forte. Os Jivas cometem muitos pecados por causa dele, pelo mal toque no sexo oposto. Os devotos devem se preparar psicologicamente para não tocar nada, seja qual for a relação, além dos devotos. Entrar em contato com um corpo não é "toque", mas se o prazer sensual surgir devido ao toque, aí será "toque". Não só em relação ao toque, mas essa decisão deve ser tomada em relação a todos os órgãos sensuais.

Há dois tipos de cultivo do paladar: saborear Prasadam, i.e., alimento oferecido a Deus, e a água oferecida a Seus Pés de Lótus. Os devotos não devem saborear nada além de Prasadam. Se dirigirmos a faculdade do paladar a coisas externas, nossa propensão externa incrementará gradualmente. Devemos saborear o Prasadam de Deus e o Prasadam dos devotos, isso causará o nutrimento da faculdade da devoção.

Há doze tipo de cultivo corpóreo: Dançar extaticamente, deitar-se em prostração, levantar-se, seguir atrás, ir a locais destinados, circundamentos, servir ao Guru e Vaishnavas, servir às Deidades, adoração, banho em águas sagradas com sentimentos divinos, usar os sinais Vaishnavas no corpo e as letras do Harinama. Devemos nos curvar, deitando prostrados. Levantar-se em honra ao ver as Imagens de Deus, bem como os devotos, é "Abhyutam". Seguir atrás é "Anuvraja". O templo sagrado, locais sagrados de peregrinação e a residência de Vaishnavas são locais de Adhistana. Devemos ir até eles. Devemos cultivar e adorar a Deus com vários materiais, devemos nos banhar nas águas sagradas do Ganges e Yamuna, e devemos usar os sinais Vaishnavas, aceitando Tilaka e Mala dados pelo preceptor e pintar o corpo com as letras do Harinama usando pasta de sândalo etc..

O cultivo a Deus com o corpo através desses meios foi prescrito como dever sagrado dos Vaidha-Bhaktas. Os Jivas cativos são apegados ao corpo. No que diz respeito ao corpo, devemos efetuar os trabalhos de forma que não prejudiquem o cultivo a Deus, contudo, devemos efetuar todos os trabalhos necessários à manutenção do corpo, sendo que misturados com sentimentos divinos, para que o cultivo a Deus seja nutrido. Esse é o significado. Agora discutiremos sobre o cultivo mental.

A ação da mente se encontra em todas as discussões corpóreas, mas ela tem alguns trabalhos especiais, que podem existir mesmo sem se expressar no corpo. Esses trabalhos são mentais e são considerados diferentes dos físicos. Memória, pensamento, brandura do coração, sentimento, indagação e coleta de conhecimento, são considerados atos mentais. Há cinco tipos de cultivo mental: (1) memória, (2) meditação, (3) dedicação, (4) servidão, e (5) indagação. Há dois tipos de memória: memória do Nome e memória do Mantra. Murmurar o Harinama contando nas contas de Tulasi é memória do Nama. O Mantra que lembramos contando nas juntas dos dedos que servem como contas é memória do Mantra. A diferença entre memória e meditação é que na memória o Nama, Mantra, Forma, Atributos e Lila aparecem na mente em pequena proporção. Na meditação, a beleza e Forma, virtudes e Lila são concebidos de forma desenvolvida. Se a meditação for mantida por muito tempo, será atenção profunda (Dharana). Se a meditação for profunda, será concentração ou contemplação profunda (Nididhyasa). Portanto, a meditação traz consigo a atenção profunda e a concentração. A dedicação também é uma faculdade mental. Sacrificar toda religião e irreligião para procurar a proteção Divina é um ato especial de devoção. Os devotos Vaidha ainda não alcançaram esse ponto, mas firme convicção de que Deus é o único protetor é a dedicação para eles. Eles não dependem de Karma e Jñana. Servidão a Deus é um sentimento mental. Os devotos Vaidha não podem saborear a doçura contida nesse serviço. A indagação é o trabalho principal dos devotos. Quando a indagação surge na mente, o devoto primeiro procura o abrigo nos pés do Guru (preceptor), depois vem a iniciação, e por último aprende o modo de Bhajan. Como será possível para os Jivas cativos alcançarem o bem último sem indagar sobre a verdade divina? Os Bhakti-Shastras consideram o desejo de indagação como um dos mistérios da boa religião e como um ato especial de devoção.

Há seis tipos de cultivo da alma: (1) amizade, (2) dedicação do eu, (3) todos os tipos de esforços direcionados a Deus, (4) aceitar coisas mundanas somente na medida do necessário, (5) sacrifício do desfrute dedicado a Deus, (6) seguir os passos dos santos.

No que se refere a alma dos Vaidha-Bhaktas, devemos saber que eles não estão livres da matéria, mas estão no estado de cativeiro. A alma pura está no estado de cativeiro. A alma pura é desprovida de vaidade material. A alma dos Vaidha-Bhaktas está sendo liberada da matéria, e mesmo diminuindo a relação material, a vaidade material ainda não foi removida. Eles consideram alguns tipos de sentimentos especiais da alma durante a prática de Vaidha Bhakti, e isso é o cultivo a Deus deles, conforme cada um em particular. No começo, Deus é considerado como o amigo favorito. Mas essa amizade é um pouco diferente da amizade que surge de Rasa. Essa amizade é a semente da Rasa de amizade. O Vaidha-Bhakta não se preocupa com sua proteção pessoal, considerando que já dedicou tudo que possui. Qualquer esforço físico ou mental que faça é direcionado para Deus. Ele sabe que sua esposa, filhos, casa, animais, riqueza, propriedade, corpo e mente, todos são materiais para o serviço a Deus. Tudo que possui pertence a Deus, e ele aceita somente o que for absolutamente necessário como um favor, para capacitá-lo ao serviço a Deus. Em adição, ele realiza que não há necessidade de outras coisas. Ele sacrifica seu próprio prazer para a causa Divina. Ele indaga sobre o caminho sagrado estabelecido pelos devotos prévios, e segue com o máximo de sua habilidade.

O Vaidha-Bhakta não se satisfaz com o cultivo a Deus somente por meio do corpo, mente e alma, pois vê o mundo material à sua volta como uma cobertura. Ele afirma que seu corpo, mente e alma são uma pequenina partícula deste mundo. Que o mundo inteiro seja uma fonte de cultivo ao seu Mestre. Que o tempo infinito, espaço e a variedade de coisas que vê à sua volta sirvam como materiais para a adoração a seu Mestre. Que seu Mestre esteja sempre dançando perante seus olhos, e que todas as coisas estejam ocupadas na adoração a Ele. E assim, com o coração embebido, ele inicia a adoração a Deus, considerando tempo, espaço e todas as coisas mundanas. Há três tipos de cultivo da natureza: (1) cultivo corpóreo, (2) cultivo conforme o tempo, e (3) cultivo conforme as coisas.

Peregrinações a lugares sagrados dos Vaishnavas, onde as Deidades estão instaladas, e ir visitar as casas e estabelecimentos dos Vaishnavas é cultivo a Deus relacionado a lugares. Dwaraka, Purushottam, Kanchi, o círculo de Mathura, Sri Navadwip etc. são lugares sagrados dos devotos Vaishnavas. Deve-se viajar a esses locais ou residir em algum deles, ouvindo os Lilas Divinos realizados neles. Deve-se tomar banho com reverência nas águas sagradas do Ganges, que vêm dos Pés de Lótus nectáreos Divinos, ou no Yamuna, que está constantemente servindo a Deus. Deve-se ir aos locais onde Srimurti de Deus está sendo adorada. Os Vaishnavas devem freqüentar sempre as casas, vilas e locais de pessoas altamente divinas. Deve-se ver com o maior cuidado e reverência os locais de nascimento e as residências dos companheiros íntimos de Sriman Mahaprabhu. Quando se vai a esses lugares, sempre se pode ouvir sobre os feitos de Deus, bem como os feitos de Seus companheiros, e assim despertar atração por Sri Krishna. Também é preciso cultivar a Deus em relação ao tempo. É dever sagrado dos Jivas observar o jejum Sri Harivasara. É recomendado deixar de lado alimentação e sono no décimo primeiro dia da quinzena lunar e meditar em Deus após efetuar vários trabalhos mundanos por uma quinzena. Também é um dever essencial observar Nyama-Seva, serviço a Deus conforme a regra do mês de Kartika. Também é extremamente benéfico honrar os dias festivos de Hari Lila. É dever sagrado honrar os dias ou Tithis de eventos especiais importantes das vidas das pessoas supremamente sagradas. Cultivar a Deus com vários tipos de coisas. É muito difícil descrever todas, mas se mencionarmos algumas ficará mais claro. A árvore é uma coisa, através de adorar árvores sagradas como a figueira sagrada, Tulasi etc. cultivamos Deus. A imagem é uma coisa, é um dever servir à Srimurti, que é uma encarnação do Swarupa Divino, os devotos devem refleti-La no coração puro. Há vários exemplos de cultivo a Deus, Govardhana entre as montanhas, o Ganges e Yamuna entre os rios, a vaca e o bezerro entre os animais etc.. Existe a regra para oferecer a Deus coisas como pasta de sândalo, perfume, roupas, utensílios, assento, cama para deitar etc.. Oferecer a Deus o que temos com mais apreço é o melhor ato de serviço conforme a regra formal. Há oito tipos de Srimurti: pedra, madeira, ferro, barro, pintura, escrita, mental e jóias.

A mente do Vaidha-Bhakta se enche de alegria quando vê que o cultivo a Deus está sendo vivenciado com seu corpo, mente e alma, bem como utilizando lugar, tempo e objetos. Mas sua mente está inquieta, achando que falta alguma coisa. Ele obterá felicidade plena se o cultivo a Deus puder ser realizado na companhia de outros indivíduos a quem é relacionado socialmente. Pensando assim, elabora as regras para cultivo social. Há quatro tipos de cultivo social: (1) Realizar festivais com seus companheiros de bem, (2) trabalhar para o progresso do mundo Vaishnava, (3) formar família Vaishnava, e (4) preocupar-se em conceder o Vaishnava-Dharma a todos os Jivas.

Deve-se realizar grandes festivais fazendo trabalhos alegres, como viver na companhia daqueles devotados a Deus, tomar Prasadam (comida sagrada oferecida a Deus), cantar Harinama e falar sobre Hari. Deve-se saborear os significados de Rasa-Shastras, como Srimad Bhagavatam etc., com peritos em Madhura-Rasa. A respeito de boas companhias, devemos entender bem duas coisas, para que não surja nenhuma ofensa aos Vaishnavas. Sriman Mahaprabhu nos instruiu para tomar cuidado especial com isso. Devemos abandonar a companhia de pessoas com comportamento mentiroso. Há duas formas de comportamento em relação a pessoas de mente simples, serviço e honra. No caso de Vaishnavas verdadeiros, devemos manter sua companhia intimamente e servi-los corretamente. Devemos honrar todos os Vaishnavas comuns. Honra e respeito é claro que são mostrados como serviço externo. Há três tipos de falsos Vaishnavas.

(1) Aqueles que aceitam as decisões Vaishnavas como supremas, mas não são Vaishnavas.

(2) Aqueles que usam os símbolos e modos Vaishnavas mas não são Vaishnavas realmente. Contudo, respeitam os Vaishnavas.

(3) Aqueles que nasceram em famílias de preceptores Vaishnavas, usam sinais Vaishnavas e possuem vaidade, mas não são Vaishnavas verdadeiros. O verdadeiro Vaishnava é considerado na proporção em que sua devoção a Krishna se torna clara e profunda, e na medida em que pode inspirar outros e incutir-lhes poder. Se a devoção clara surgir na mente em pequena quantidade, a pessoa adquire o verdadeiro estado Vaishnava. Decidiremos sobre associação com Vaishnavas e honrar pseudo-Vaishnavas etc.. Honrar não Vaishnavas como Vaishnavas e manter sua companhia é um obstáculo no caminho da devoção. Devemos evitar as pessoas que usam sinais Vaishnavas e as que têm vaidade por serem Vaishnavas. Honrar todos os seres é uma injunção indireta dos Shastras, devemos agradá-los seguindo essa regra. Não os considere na categoria de Bhaktas. Mesmo os Vaishnavas que levam vida mundana e se tornam devotos puros, podem ser objetos da companhia de Vaishnavas puros.

Vaishnavas hipócritas são: (1) os que ostentam sinais Vaishnavas cuidadosamente.(2) Os que agem falsamente, afirmando que são fiéis aos preceptores Vaishnavas a fim de ganhar espaço entre os Vaishnavas. (3) Os que se consideram pertencentes ao Vaishnavismo por cobiça monetária ou reputação ou algum tipo de desfrute. Não converse intimamente com eles, exceto os que pertencem ao seu próprio credo e concordam com você, e são da sua companhia pessoal. Sobre o incremento no mundo Vaishnava, não mantenha companhia com outros, além dos Bhaktas. Converta a esposa ao Vaishnavismo e a instrua sobre o fruto do Vaishnavismo, na medida do possível. Uma esposa Vaishnava é disponível pela boa fortuna suprema. Se incrementamos o mundo Vaishnava com a ajuda de uma esposa Vaishnava, não poderá existir nenhuma discussão sobre propensões externas. Consideraremos todos os filhos nascidos como servos de Deus. Você deve ficar feliz em poder incrementar o número de servos de Deus. Existe apenas uma distinção sobre o apego entre família mundana e família Vaishnava, mas nenhuma distinção em aparência da natureza. Pessoas de mentalidade externa se casam, ganham dinheiro, levam a vida doméstica, constroem casas, executam todos os trabalhos em nome da justiça, geram filhos. O apego deles significa que por fazer tudo isso, promovem a felicidade do mundo e ao mesmo tempo desfrutam do prazer, vivendo no mundo. Por outro lado, os Vaishnavas realizando esses trabalhos, são aversos aos frutos do desfrute gerados pelo trabalho, eles fazem tudo isso como servos de Deus. No final das contas, os Vaishnavas desfrutam da paz. Mas as pessoas de mentalidade externa não obtêm paz, pois são guiadas pela avareza e ira, produzidas pela alta ambição ou desejo de desfrutar ou alcançar Mukti (salvação). Os Vaidha-Bhaktas formam famílias Vaishnavas e as incrementam com a idéia de que através delas podem promover discussões sobre a devoção. Bondade para com todos os seres é o ornamento dos Vaishnavas. Eles elaboram vários planos par converter todos os Jivas ao Vaishnavismo com muito cuidado e ansiedade. Há quatro tipos de relacionamento recíproco entre os Jivas: amor, amizade, gentileza e indiferença, conforme o assunto. O amor é oferecido a Deus. A amizade é direcionada para os devotos de Deus e gentileza com os juniores ou pessoas externas. As pessoas divinas demonstram bondade infinita a quem se tornou digno para andar no caminho da devoção, tendo obtido companhia sagrada pela boa fortuna. Eles lhes concedem conhecimento espiritual e os liberam incutindo poder espiritual em suas mentes. Certamente, existem pessoas desafortunadas que não aceitam o auto-desenvolvimento, com argumentos triviais e parciais. Devemos ser indiferentes com eles.

 

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Determinação dos Males

 

Os deveres sagrados dos Vaidha-Bhaktas são os cinco tipos de cultivo da devoção a Deus mencionados anteriormente. Existem certos atos proibidos que são obstáculos na execução desses deveres. Eles devem ser abandonados cuidadosamente.

Há dez tipos de atos proibidos: (1) companhia de pessoas com mentalidade mundana, (2) relacionamento mútuo, (3) tentar começar o trabalho com grande pompa, (4) estudo parcial de inumeráveis Granthas e fazer inumeráveis explanações, (5) avareza, (6) ficar possuído por pesar e lamentação, (7) desprezo a outros deuses, (8) causar ansiedade em outros seres, (9) ofensas na adoração (Seva) ou no cantar do Nama, (10) aprovar ou ajudar blasfemar os deuses e devotos sagrados.

Há seis tipos de pessoas com mentalidade mundana: (1) os desprovidos de moralidade ou fé em Deus, (2) os moralistas desprovidos de fé em Deus, (3) os moralistas que acreditam num deus sob o controle de regras morais, (4) hipócritas com vaidade gloriosa, i.e., hipocrisia em aceitar votos animalescos, enganando outros com isso, (5) crentes no Brahman indeterminado e (6) crentes em inumeráveis deuses.

Os que não acreditam em moral ou em Deus são inclinados a atos proibidos, e sem moral, eles se tornam arbitrários. Os ateus e os desprovidos de moral causam um grande mal para o mundo, tentando satisfazer seus interesses egoístas e obtenção de prazeres corpóreos. Alguns acreditam na moral mas não em Deus. Eles professam que a moral sem fé em Deus é destemor e é certa. Eles não sabem que a parte principal da moral é a gratidão a Deus. Vemos que o resultado da moral sem crença em Deus não é efetivo. Qual a certeza de que moralistas sem fé em Deus, não sacrificarão sua moral por interesses pessoais? Se estudarmos a conduta deles, notaremos a futilidade de suas opiniões. Sempre que o auto-interesse surgir na frente, eles violarão as regras morais, afirmando que será tão insignificante quanto matar um verme. Os pertencentes à segunda classe são "elevacionistas" agnósticos. As pessoas mundanas pertencentes à terceira classe são considerados Karmis, e afirmam que Deus está sujeito a regras morais. Eles são de duas classes. Os que dizem que gratidão a Deus está entre as regras morais mas não aceitam a existência de Deus. Se a boa conduta que é resultado da moral for obtida imaginando Deus e meditando Nele, não haverá nenhuma perda se a existência de Deus for descartada. Essa é a opinião da primeira classe de pessoas que acreditam em Deus e acham que Ele está sob o controle de regras morais. A segunda classe que acredita num deus controlado por regras morais diz que adorar a Deus com preces noturnas etc. purifica a mente. Quando a mente se purifica, ocorre consciência do Brahman. Aí não haverá mais trabalho para o Jiva. A relação com Deus é como a relação de um viajante com a hospedaria, não é eterna, segundo essa afirmação. Essas duas classes de pessoas são aversas à devoção e são hipócritas. Há dois tipos de pessoas pertencentes à quarta classe de indivíduos de mentalidade mundana: os que aceitam falsos votos de tendência animal, e os que são enganados por eles. Os ascetas animalescos não aceitam a realidade e eternidade da devoção, mas expressam externamente sinais de devoção. A necessidade deles é satisfazer um objetivo secreto. Se esse objetivo for descoberto serão xingados por pessoas honestas. Os ascetas animalescos enganam o mundo e pavimentam o caminho do vício. Muitas pessoas tolas são enganadas pela aparência externa deles e aceitam seu caminho. E finalmente se tornam aversas a Deus. Eles ostentam bons sinais Vaishnavas externamente, murmuram o Nome de Deus, mostram indiferença pelo mundo e falam muito bem, podemos notar todas essas características neles. Seus sentimentos internos são em cometer excessos secretamente, procurando riqueza, mulheres etc.. Esses tipos de comunidades são vistos em alguns lugares. Os que acreditam num deus indeterminado pertencem à quinta classe de pessoas mundanas. Eles são da opinião de que praticando devoção a mente é purificada, e assim a verdade espiritual ficará clara para eles. Salvação é a verdade final: aniquilação da função da alma é Mukti. Tudo que conseguirão por descartar o estado de distinção do Jiva será o estado de indeterminação. Segundo eles, Deus e devoção não são eternos. Consciência de servidão é um meio e não o fim. As opiniões deles não podem ser decididas claramente aqui, mas em suma, os Bhaktas devem abandonar a companhia dessas pessoas, as considerando mundanas, senão perderão o mérito devocional. Os que acreditam em vários deuses não têm firmeza. Manter a companhia deles afrouxa a constância da devoção. Os Vaidha-Bhaktas devem evitar a companhia desses seis tipos de pessoas. Companhia não significa sentar juntos em reuniões, ou atravessar o rio no mesmo barco, ou tomar banho no mesmo balneário, ou comprar ou vender coisas no mesmo mercado. Companhia significa comportamento sincero e amigável. Não mantenha companhia com pessoas mundanas desse jeito.

A correlação (Anubandha) é estritamente proibida para os Vaidha-Bhaktas. Há quatro tipos: (1) correlação com discípulos, (2) correlação com companhia, (3) correlação com amigos e parentes e (4) correlação com servos. Será um grande escândalo na comunidade se forem aceitos discípulos indignos devido à tentação por seguidores e riqueza. Os Vaidha-Bhaktas não devem aceitar nenhum discípulo, se não houverem pessoas dignas. Companhia de outros, exceto devotos, gera o mal. Se a boa companhia não for disponível, é melhor não ter nenhuma, as más companhias devem ser sempre abandonadas. Aceitar servos, com exceção daqueles devotados, não será bom. Se quiser estabelecer qualquer relação, verifique cuidadosamente se a pessoa é um Vaishnava.

Devemos abandonar a tentativa de realizar trabalhos com grande pompa em três circunstâncias. Se houver falta de dinheiro desde o início, não deve realizar o trabalho. Se sentir que a vida está chegando ao fim, não deve assumir um grande trabalho. Não deve tentar realizar um trabalho que exija a ajuda de várias pessoas, as quais não podem ser obtidas facilmente. Essa tentativa não é boa e impede o caminho de Bhajan. Se o Math, monastério, templo, clube ou qualquer outro grande trabalho for considerado muito difícil, não devemos nos esforçar por ele, segundo as regras acima.

Os devotos devem aprender somente os Shastras que lidam com a devoção, e Shastras subordinados de Jñana e Karma de acordo com eles. Quando ler partes de muitos Shastras, não os abandone por falta de tempo. Qualquer livro que começar a ler, deve ser lido completamente. Senão você se envolverá em debates inúteis, enquanto for considerado pelos debatedores. Há um tipo de pessoa que rejeita qualquer explanação sem julgar seu mérito ou demérito. Isso é completamente proibido para os devotos.

A mesquinhez é muito abominável para um devoto. Há três tipos: (1) mesquinhez de comportamento, (2) mesquinhez de riqueza e (3) mesquinhez de trabalho. Comporte-se com os Vaishnavas, levantando-se para vê-los, e tomando cuidado especial com eles. Comporte-se com os Brahmanas com honra formal e dando-lhes recompensas. Comporte-se com aqueles que tem de sustentar, dando-lhes alimentação e vestimentas adequadas. Tome as coisas dos outros através de pagá-las devidamente. Ajude o rei, pagando seus impostos e taxas. Comporte-se mostrando gratidão àqueles que o beneficiaram, e dê alimento aos pobres, remédios aos doentes, agasalhos para os que sofrem com o frio etc.. Quando todas as pessoas no mundo forem objetos do bom comportamento, se o comportamento adequado for praticado, não surgirá a mesquinhez de comportamento. Se não tiver condições de prover nenhum alívio, será suficiente comportar-se com palavras agradáveis. Comporte-se bem dizendo palavras doces a alguém, dando riqueza a outros e ajudando outros com trabalho. A mesquinhez de comportamento é proibida para os devotos.

A dependência é um grande mal. Há quatro tipos: (1) entregar-se à dor e tristeza, (2) entregar-se a um hábito, (3) entregar-se à intoxicação etc., e (4) entregar-se à superstição.

Existem centenas de causas mundanas para o Jiva vivendo no mundo atual ser dominado por tristeza, dor, ira, medo, avareza e paixão, mas os Vaidha-Bhaktas não devem se render a elas, quando surgirem. Elas causam a dispersão mental e impedem o caminho do cultivo da devoção. Eles devem sempre ter muito cuidado com isso. Dormir de dia ou na manhã, mascar nozes-de-bétel desnecessariamente, comer em horas inauspiciosas, ir à latrina em horas inauspiciosas, deitar em camas macias, comer alimentos fortes etc., no mínimo causam doenças. Devemos aceitar somente as coisas e hábitos essenciais às necessidades básicas da vida, e não devemos nos entregar ao hábito de usar coisas supérfluas. O uso de substâncias intoxicantes causa muito dano, e se entregar a esse hábito torna a devoção impura. Para não falar de bebidas alcoólicas, haxixe, ópio, "charas" e outras preparações do ópio, mesmo fumar tabaco é proibido para os Vaishnavas. Render-se a esses hábitos é contrário às regras dos Vaishnava Shastras. O Jiva que fuma tabaco se torna tão viciado que fica propenso a se juntar com más companhias. Entregar-se à superstição é um grande mal. Submissão à superstição gera a parcialidade. Se existir parcialidade não haverá consideração pela verdade. Usar os sinais Vaishnavas é tido como uma parte de Vaidhi-Bhakti. O cultivo corpóreo a Deus é feito por meio disso. Pensar que o sinal principal de um Vaishnava é superstição, gera a parcialidade na comunidade. Alguns guiados pela parcialidade desconsiderarão Vaishnavas santos que não estão usando esses sinais. De fato, se a associação santa não for obtida na sua própria comunidade, guiados pela superstição, será possível que eles se interessem em obter bons devotos de outras partes? Não será bom se a boa companhia não for obtida. Portanto, entregar-se à superstição é um grande mal. E por outro lado, eles freqüentemente não terão inclinação para alcançar princípios devocionais superiores devido ao confinamento no Varnashrama-Dharma. Às vezes, a malícia que é suicida aparece em seus corações.

É estritamente proibido desprezar outros deuses. Há quatro tipos de deuses: encarnações especiais de Deus, e alguns Jivas dotados com poder e autoridade por Deus. É absolutamente necessário não desprezar as Encarnações. Não há necessidade de argumentar a esse respeito. Jivas inumeráveis estão adorando esses deuses, que receberam o poder e autoridade para governar e proteger o mundo, pela misericórdia de Deus, e são considerados deuses por natureza. Os Vaishnavas não devem desprezá-los por malícia. Adore-os adequadamente e ore pelo benefício da devoção a Sri Krishna. Não devemos desprezar nem mesmo nenhum Jiva. Também devemos honrar as imagens adoradas nos diferentes países, pois essas réplicas são um meio de elevação da devoção dos seus adoradores respectivos. Se você desprezá-las, aumentará sua vaidade, o senso de humildade diminuirá, e seu coração não estará adequado para o cultivo da devoção.

Nunca cause ansiedade a outros Jivas. Matar Jivas para alimentação é um trabalho de crueldade para com o Jiva. Existem muitos trabalhos que causam crueldade aos Jivas, como fazer agitações sobre maus trabalhos de outros, fazer escândalos sobre outros, desavenças, dizer palavras duras, dar falso testemunho, manipular os interesses de outros para seu próprio benefício etc.. Inveja, roubo, desperdício do dinheiro de outros, ferir outros, tentação pela esposa de outro etc., essas são as causas da ansiedade dos Jivas.

Agora, é preciso considerar um pouco sobre as causas da ansiedade dos Jivas. Bondade com todas as criaturas é uma faculdade natural daqueles que recorreram exclusivamente à devoção. A bondade não tem existência separada da devoção. A mesma faculdade conhecida como devoção e amor, quando oferecida a Deus, se torna amizade, bondade ou indiferença, quando aplicada aos Jivas. Esse é um tipo de sentimento incluído na virtude natural dos Jivas. A bondade incluída na virtude eterna do Jiva assume vários nomes, no estágio de liberação é amizade somente, e no cativeiro é amizade, bondade ou indiferença a diferentes objetos. Considerando os Jivas mundanos, a bondade é restrita a seu próprio corpo no estágio inicial, se florescer um pouco, ela se direciona à família, e se florescer um pouco mais ainda, vai para a comunidade, se florescer mais, irá para todos os parentes de seu país, se florescer mais ainda, irá para todos os seres humanos do país, quando desabrocha completamente, ela se transforma num sentimento intenso em relação a todos os Jivas. O que chamamos de patriotismo na língua inglesa [ou portuguesa no caso] é um tipo de sentimento de apego pelos seres humanos do mesmo país. O que chamamos de filantropia também é um sentimento de afeição por todos os seres humanos. Entretanto, os Vaishnavas não devem se confinar na estreiteza desses sentimentos. Eles devem abandonar a propensão de causar ansiedade a qualquer criatura, e abraçar a bondade que é um sentimento embebido do coração, aplicado a todos os Jivas.

Os Vaidha-Bhaktas devem tomar cuidado com as ofensas no serviço a Deus e no cantar do Nama. As ofensas que surgem durante o serviço a Deus e durante o cantar do Nama são consideradas separadamente. Segundo o Varahapurana e Padmapurana, há cinco tipos de ofensas no serviço: (1) falta de atenção conforme a capacidade pessoal, (2) negligência, (3) impureza, (4) falta de dedicação e (5) orgulho. Todas as ofensas à Deidade relatadas nos vários Shastras estão na categoria desses cinco tipos. É muito difícil descrever todas as ofensas em detalhe. Daremos uma descrição resumida das ofensas citadas no Varahapurana e no Padmapurana.

Há riqueza disponível mas não se executa festival de época para a Deidade. O serviço é feito com tipos de materiais inferiores, apesar da habilidade. O material ou fruta disponível da estação não é oferecida a Deus com atenção. Permanecer perante Deus sem orar, adorar, prostrar-se e sem acender a lâmpada (lâmpada de "gui") para entrar no templo. Todas essas geralmente estão na categoria de falta de atenção.

Entrar no templo com sapatos ou num palanquim, sem se prostrar à Deidade, saudar só com uma mão ou com o dedo, andar na frente da Deidade, estirar as pernas perante a Deidade, ler hinos sentado numa almofada, deitar-se ou comer perante a Deidade, alguns tipos de ações corpóreas, falar alto, conversar com alguém, chorar, pensar em coisas mundanas, discutir, discutir sobre outros, soltar gases, dar alguma parte do material a outros e manter o resto em Naiveda para a Deidade, virar as costas para a Deidade, ver a Deidade fora de hora (em horários proibidos), todos esses trabalhos são negligência no serviço.

Entrar no templo de Deus com o corpo impuro, coberto com restos de comida ou coisa parecida, servir à Deidade usando roupas feitas de pêlos animais, cuspir na hora da adoração, pensar em outras coisas durante o serviço, esses são os vários tipos de impureza descritas nos Shastras.

Tomar o desjejum antes de adorar a Deidade, comer alimentos ou água que não foram oferecidos a Deus, não ver sempre a Deidade e o serviço a Ela, não oferecer as coisas preferidas e boas frutas etc. disponíveis nas diferentes estações do ano, não observar jejum no décimo primeiro dia da quinzena lunar (Ekadasi), esses são falta de dedicação.

Você deve se considerar o servo mais humilde de Deus durante o serviço. Caso contrário, se você se auto elogiar ou se considerar o adorador superior, isso será orgulho durante o serviço. Se você adorar usando muitos materiais com pompa, e achar que é grande, também será orgulho durante o serviço.

Portanto, sirva à Deidade, tomando muito cuidado com esses cinco tipos de ofensas. Essas ofensas no serviço são divididas respectivamente entre o instalador da Deidade, os servos e devotos comuns. Todos aqueles devotados a Bhajan devem abandonar cuidadosamente as ofensas que surgem durante o cantar do Nome Divino. Elas são de dez tipos: (1) Blasfemar pessoas santas, (2) considerar Shiva e outros deuses como entidades separadas da Suprema Personalidade de Deus, (3) desprezar o preceptor, (4) blasfemar os Vedas e outras escrituras correlatas, (5) considerar a glória do Harinama como meras palavras de elogio, (6) imaginar significados para o Harinama em diferentes modos, (7) propensão a praticar pecados sob a proteção do Harinama, (8) considerar o valor do Harinama como sendo igual a outros trabalhos auspiciosos, (9) recomendar Harinama a pessoas que não têm a devida consideração por ele, e (10) aversão ao Harinama mesmo tendo ouvido Suas glórias.

Falar mal dos outros foi descrito como uma ofensa na ciência moral. Se julgarmos o peso comparativo da ofensa, falar mal de pessoas santas é considerado como a ofensa principal nos Bhakti-Shastras que lidam com a Verdade Última. Aqueles que blasfemam pessoas santas nunca promoverão sua devoção, devido à falta de pessoas santas. Da mesma forma como a Lua diminui na quinzena minguante, dia após dia, a faculdade da devoção no coração do Vaishnava diminui, devido a blasfêmia a pessoas santas. Mesmo se o Varnashrama-Dharma for efetuado muito bem, a faculdade da devoção ficará escondida, por falta de pessoas santas, e por cometer a ofensa de blasfemar pessoas santas. Notamos em muitos casos, que pessoas dedicadas ao Varnashrama-Dharma caem de seus Ashramas por terem ofendido ou blasfemado Vaishnavas, e se tornam ateus, e por último alcançam o estágio animal, desprovidos de moral. Portanto, a blasfêmia a pessoas santas deve ser sempre evitada.

Aqueles que consideram Shiva e outros deuses como sendo diferentes ou separados da Suprema Personalidade de Deus estão na categoria de crentes em vários deuses. Eles são desprovidos de constância e em conseqüência, não são devotados. Na realidade, Deus é Uno, e é a verdade final. Eles são ignorantes, pois não estão a par das verdades espirituais, e conseqüentemente são pecaminosos. A pronúncia do Harinama não exclui o nome de Shiva e outros deuses. Portanto, devemos considerar Shiva e os outros deuses como devotos verdadeiros de Deus. Nesse caso, há possibilidade de surgir um protesto. Alguns dirão que Shiva é a Pessoa Suprema e Vishnu é seu Avatar. Por isso, a fé no nome de Shiva não deve ser separada do nome de Vishnu. Esse tipo de contenda cria uma disputa descomunal que não produz nenhum fruto no fim. É necessário somente adorar a Deus. Fé no Harinama é a única necessidade. Devemos considerar os outros deuses, dotados com qualidades de Sattva, Raja e Tama, que são os atributos da Natureza, como servos de Deus, mas sem ter nenhuma malícia em relação a eles, devemos adorar somente a Hari, que é Nirguna, mas dotado de Vishuddha-Sattva (Sattva-Guna transcendental). Se imaginar qualquer outra coisa, desprezando o caminho mostrado nos Shastras Védicos e Shastras correlatos, haverá a chance de confrontar obstáculos.

Os Shastras que recomendam a adoração a deuses, como Shiva, Natureza, Ganesh, Sol, Indra etc., os chamaram de deuses Saguna, e dão o método imaginário para obtenção do Nirguna-Brahman. Os Shastras Vaisnavas determinaram Hari como a Realidade Última, que é a Personificação de Sat, Chit e Ananda. Não existe nenhuma decisão de que através do serviço a Hari será obtido o Brahman indeterminado. Portanto, não pode haver nenhuma comparação de deuses imaginários com a Suprema Personalidade de Deus, que deve ser servida. A instalação de Shiva etc. como deuses com o propósito de obter sucesso, arruína tanto Adwaita-Vada quanto Bhakti-Vada (culto do Brahman indeterminado bem como o culto da devoção). As pessoas sábias devem considerar outros deuses como devotos de Deus ou encarnações de Seus atributos, sem mudar o significado dos Shastras. Se isso não for feito, haverá ofensa.

Desprezo aos Gurus é uma grande ofensa. Se o aspirante não tiver firme convicção sobre o Guru, não terá fé plena em suas instruções. Não poderá haver nenhuma ação de Bhajan etc. sem fé. Portanto, acredite firmemente no Diksa-Guru (que inicia) e no Shiksa-Guru (preceptor). Aqueles que transgridem as instruções dos preceptores etc. e se envolvem na ofensa de desprezo aos Gurus não podem adquirir constância [fé] na Verdade Última.

Os quatro Vedas e seus Puranas correlatos, o Mahabharata, os vinte tratados religiosos e Sattva-Tantras como Pancharatra etc. cantam a supremacia do Harinama e a glória da devoção a Hari. Esses são Shastras verdadeiros. Se encontrar falhas neles, nunca poderá incrementar o estado de devoção. Aqueles que descobrem algum caminho novo para alcançar Haribhakti, desprezando os Shastras, transformam-se gradualmente num mal para o mundo. As opiniões sem base sobre Deus são um exemplo. Será mais claro se discutirmos as opiniões de Dattatreya, Buddha, Brahmos, Teosofistas etc.. O significado interno dos Shastras é que os meios para alcançar o fim serão notados como iguais em todos os casos. Pode haver uma diferença na operação dos meios, devido a diferenças de língua, costumes e comportamento nos diferentes países, mas o significado é o mesmo. Não há nenhuma diferença para os olhos da ciência espiritual. Os Shastras Védicos são eternos. As operações escritas em outros Shastras, alteradas dos Vedas, também são aprovadas pelos Vedas. A opinião de pessoas guiadas pela vaidade, que desejam descobrir novos processos de operação, será considerada imaginária e produto da vaidade. Não possui nenhuma essência, essa assim chamada devoção a Hari será um mal.

Existem muitos atos virtuosos, sendo que seus resultados não são reais. Mas esses resultados foram cantados gloriosamente para encontrar a propensão externa das pessoas. Quando ouvem sobre esses resultados, os consideram como elogios a seus atos. Há muitas pessoas desafortunadas que quando ouvem sobre a glória do Harinama, acham que é um mero elogio. Todos os frutos do Harinama são reais, mas existem muitos outros frutos que os Shastras não podem descrever. Qualquer indicação de Bhajan que exista, a essência de todos é Harinama. Portanto, quem considerar a glória de Harinama como mero elogio, cometerá uma ofensa.

Imaginar significados alternativos para o Harinama também é uma ofensa. A palavra Hari indica Sri Krishna, a essência de todos os Rasas e a personificação de Sat, Chit e Ananda. Alguns têm a tendência de pensar que Hari é sem forma e consideram a palavra Hari e a palavra Brahman como unânimes, e imaginam um Hari sem forma, sendo incapazes de entender bem a verdade sobre Vigraha. Alguns adicionam termos como "Chidananda" e "Nirakar" antes de Hari, quando pronunciam o Nome de Hari, para que Hari indique Krishna. E assim, imaginam outro significado, que também é uma ofensa. O coração das pessoas que cometem essa ofensa se enche de conhecimento seco e eles se tornam ateus gradualmente.

Considerar o Harinama poderoso para expiação de pecados, e ousar cometer pecados, é uma ofensa. As pessoas se livram dos pecados e se abstêm de prazeres mundanos na mesma proporção em que se devotam ao Harinama. Aqueles que se abrigaram no Harinama não são naturalmente inclinados a cometerem pecados. Mas se cometerem pecados secretamente, sempre segurando as contas do rosário, isso será um ato de hipocrisia causado pelo seu infortúnio. Existem pessoas desafortunadas que cometem pecados achando que serão expiados pela pronúncia de Harinama na hora certa, deixem eles obterem seus objetos desejados, refugiando-se no pecado. Os Jivas devem se abrigar no Harinama, livres de todas essas ofensas.

Existem incontáveis atos virtuosos, como sacrifício, austeridade, penitência, meditação, cultivo dos Shastras Védicos, religião de Ashramas etc.. Pessoas apegadas ao trabalho material consideram Harinama como um ato ordinário, equivalente a outros trabalhos virtuosos. Isso é um ofensa. Aonde leva o trabalho material transitório, aonde leva o Harinama, que é bem-aventurança eterna!

Ateus, moralistas radicais e pessoas apegadas a Karma não são dignas para Harinama, a menos que seu coração se purifique. Instruir pessoas indignas ou que não têm fé sobre Harinama é um trabalho inútil, como plantar sementes em terra estéril. Aquele que concede Harinama a pessoas infiéis, por avareza monetária, é um vendedor do Harinama. Ele vai se desviar de Hari Bhajan, trocando uma jóia de preço inestimável por coisas triviais.

Quem ouve as glórias do Harinama e não fica atraído, devido à vaidade e apego mundano, é extremamente desafortunado. Ele não obterá nenhum benefício. Ele é um ofensor.

Os devotos puros devem praticar Bhajan livres dessas dez ofensas. Os Vaidha-Bhaktas nunca devem apoiar blasfêmias a Deus ou a Seus devotos. Se isso acontecer em alguma reunião, eles devem protestar imediatamente, se tiverem força. Se o protesto não for efetivo, eles devem permanecer surdos e não prestar atenção em mais nada. Se não tiverem força para protestar, devem deixar o local imediatamente. Se ouvirem tal blasfêmia da boca do Guru, devem cuidadosamente torná-lo consciente com o máximo de humildade. Se em último caso, ele se tornar averso aos Vaishnavas, deve ser abandonado, e outra pessoa digna deve ser selecionada como Guru.

Os Vaidha-Bhaktas devem abandonar esses dez tipos de atos proibidos, e devem tomar o máximo de cuidado em incrementar a condição da devoção, por meio dos cinco tipos de cultivo a Deus, explicados na segunda divisão deste capítulo.

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

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Decisão sobre Relação Mútua entre Injunções Diretas e Indiretas

 

Qual é a diferença entre os atos cerimoniais de pessoas materialistas e a devoção pura dos Vaidha-Bhaktas? Há uma enorme diferença entre os dois. Os que obtiveram indiferença pelos objetos materiais são competentes para Sannyasa pertencente à teoria do conhecimento. Os que despertaram interesse pela verdade Divina mas ainda não alcançaram a aversão plena, e por outro lado não têm muito apego por Karma, são dignos para devoção. O trabalho social, nove estados do corpo, manutenção do corpo e observância de trabalhos cerimoniais prescritos pelo Dharma pessoal estão incluídos nos Shastras que lidam com Karma, bem como no culto da devoção. Ainda assim, a diferença é que no Karma-Kandha existem certas recomendações para adoração a vários deuses, desejo por satisfação sensual, honra a objetos materiais, danos aos Jivas de uma forma ou de outra, respeito aos nascidos em famílias superiores etc., que são contrários ao culto devocional. Os sinais proeminentes na vida dos Vaidha-Bhaktas são o serviço a Vishnu, sentir prazer com os objetos transcendentais, serviço aos Brahmanas e Vaishnavas dotados com os sinais de Bhakti, não inveja e bondade para com todos os seres.

Agora devemos considerar qual a relação entre Varnashrama-Dharma, mencionado anteriormente, e Vaidhi-Bhakti? A dúvida é se Vaidhi-Bhakti deve ser adotada seguindo ou abandonando os princípios do Varnashrama-Dharma, o caminho de Vaidhi-Bhakti tem que ser seguido para o cultivo da devoção. O objetivo principal do Varnashrama-Dharma, como foi dito anteriormente, é obedecer as leis de boa saúde, cultivo e incremento da faculdade mental, cultivo do bem social e aprender a verdade espiritual a fim de cultivar devoção. Ninguém pode negar a necessidade de Varnashrama-Dharma, enquanto o indivíduo estiver confinado ao corpo material. Se isso acontecer, a vida dos Jivas será desperdiçada, por falta de conhecimento sobre esses quatro princípios, e não será bom. Portanto, os princípios do Varnashrama-Dharma devem ser estritamente seguidos, bem como as injunções para melhorar a condição do corpo, mente etc., para o bem da sociedade e obtenção da vida espiritual. Isso não significa que a única necessidade seja a observância do Varnashrama-Dharma. Devemos cultivar devoção com a ajuda desse Dharma. Concluímos que a observância de Varnashrama-Dharma é necessária para o cultivo da devoção. Agora devemos considerar se haverá tempo para o cultivo da devoção, durante a observação do Varnashrama-Dharma, que é muito absorvente, e qual será a medida a ser tomada quando houver conflitos entre os dois? A primeira resposta é que se o corpo, mente, sociedade e vida espiritual não são protegidos e nutridos, como a devoção poderá ser praticada, sendo um estágio superior? Se a morte vier logo, se surgirem doenças ou distúrbios mentais, ou se houverem más companhias e atos maléficos devido a revolução social e sem a educação adequada sobre a verdade espiritual, como a fé, que é a semente da devoção, vai brotar no coração? Se o Varnashrama-Dharma for abandonado e a arbitrariedade for seguida, os esforços corpóreos e mentais conduzirão o indivíduo à libertinagem e obstinação, e nenhum sinal de devoção será visível. Os Jivas ficarão viciados em trabalhos abomináveis continuamente. Por isso, temos que admitir que o Varnashrama-Dharma será muito benéfico para o cultivo da devoção, apesar de conduzir a um longo caminho, de certo modo. O cultivo de Vaidhi-Bhakti vai encurtar esse caminho. Os praticantes de Varnashrama-Dharma serão gradualmente convertidos à prática da devoção. Devemos cultivar os cinco tipos de devoção conforme as instruções do preceptor com máximo de nossa habilidade, após observar os ritos do Varnashrama-Dharma. Devemos abandonar gradualmente a parte do trabalho do Varnashrama-Dharma que é contrária à devoção. A vida do Vaishnava no final fará com que o Varnashrama-Dharma seja santificado pela devoção e convertido em Sattva-Bhava, e se tornará servo do Sadhana-Bhakti acabando com a disputa entre Karma e Bhakti. O desenvolvimento gradual de Bhakti faz com que a vida do Brahmana seja iluminada e admita a igualdade espiritual com a vida Shudra devotada. A vida do Shudra será iluminada pelo serviço a Deus e pelo sentimento de servidão a pessoas divinas. Assim, ele obterá igualdade com o Brahmana, que se considera um servo humilde de Deus. Desse modo, a pureza da amizade Vaishnava iluminará as quatro castas tão intensamente, que aproximará a porta da vida Divina. Se o obstáculo da vaidade corpórea for removido, a grande similaridade entre os Jivas será possível.

A vida moral desprovida de fé em Deus quando entra em contato com a vida moral com fé em Deus pelo Varnashrama-Dharma, se funde nele impecavelmente, similarmente, quando a vida moral entra em contato com a devoção se transforma miraculosamente na vida de Vaidhi-Bhakti sem nenhuma das falhas prévias. A adoração a Deus feita por pessoas pertencentes ao Varnashrama-Dharma é uma política similar a de outros religiosos. Mas quando é refletida na vida devocional, a adoração a Deus predomina sobre os outros deveres. O devoto sempre considera as outras políticas do Varnashrama-Dharma como servas da adoração a Deus. Essa mudança parece ser muito pequena à primeira vista, mas quando a constância crescer mais, dará uma forma excelente a essa vida. Essa é uma distinção marcante entre a vida dos seguidores de Varnashrama-Dharma e a vida do Vaidhi-Bhakta.

Os Shastras dizem que todos os seres humanos são elegíveis para a devoção. A devoção é a virtude natural do ser humano, por isso, devemos nos preocupar muito com isso. Admite-se que todas as pessoas apegadas às quatro castas do Varnashrama-Dharma, ou seguidoras dos quatro estágios da vida (Ashrama-Dharma) são dignas para a devoção. Mesmo os indivíduos de classe baixa são dignos para a devoção. Mesmo sendo verdade, ainda assim, os indivíduos fora das castas não têm facilidade para obter a devoção. Seu nascimento, companhia, trabalho e propensão são tão baixos, que a vida se torna tão rude e voltada à matéria grosseira, que se compara à vida animal. Eles são sempre extremamente egoístas, maliciosos e cruéis, a fim de encher seus estômagos. Seus corações são muito duros. Por isso, o caminho da devoção é de certa forma difícil para eles. A prova de que eles têm direito de entrar no culto da devoção pode ser vista nas histórias de devotos como Haridas Thakur, o caçador discípulo de Sri Narada, Jesus e São Paulo etc.. Mas também veremos que eles entraram no caminho da devoção com muita dificuldade, e até mesmo não tiveram oportunidade de protegerem suas vidas devocionais durante muito tempo. É verdade que todos têm direito para a devoção, mas os que seguem o Varnashrama-Dharma têm privilégio e autoridade especiais. Mas mesmo assim, notamos a aversão pela devoção na vida de muitos que professam o Varnashrama-Dharma.

O Jiva possui tendência natural de subir o degrau superior do estágio em que está situado. Mas de acordo com a natureza, ele não deve subir o degrau superior apressadamente ou fora de hora. Isso significa que ele deve manter o pé firme no degrau atual para depois subir o próximo. Foi por isso que explicamos o mérito a respeito da constância para um estágio. Podemos deixar a constância atual somente quando obtemos o direito de subir outro degrau. O desejo de subir outro degrau é uma superstição que surge da determinação de convenção inferior. Essa superstição faz com que a classe mais baixa despreze a vida moral sem fé em Deus, os moralistas sem fé em Deus desprezem os moralistas crentes num Deus imaginário, o moralista com fé no Deus pessoal despreze a devoção e por último, o Vaidha-Bhakta despreze Ragatmika Bhakti. Muitas pessoas que professam Varnashrama-Dharma não louvam Vaidhi-Bhakti por causa dessa superstição. Mas isso não pode causar nenhum mal para a devoção, somente mostra a má sorte deles. As pessoas situadas em degraus superiores desejam naturalmente o bem estar dos que estão em degraus inferiores, que por sua vez, não desejam alcançar degraus superiores deixando sua constância atual, se não forem afortunados.

A vida moral com fé em Deus do Varnashrama-Dharma quando tocada pela devoção se transforma em vida devotada. Mas enquanto não descartar o Swarupa prévio e aceitar o Swarupa da vida devocional, tudo que fizer será denominado Karma. Karma não é uma parte indispensável de Bhakti. Mas quando o Karma é assimilado por Bhakti a vida de vivências devocionais será desperta. Quando surge a fé firme com dedicação a Deus, desaparece o direito do Karma. As preces vespertinas e adoração, pertencentes aos ingredientes do Karma, também são Karma (dever sagrado) serventes da política desse Dharma. Mas esse não é o caso, quando a devoção desperta pela fé em Deus. Quando surge a estima por Deus, todos os trabalhos efetuados pelo apego a Deus são honrados conforme a significação. Assim, se em alguma noite estiver acontecendo discussão sobre Hari, o aspirante à devoção não se sente inclinado a efetuar as preces vespertinas etc., deixando essa discussão. Ele compreende que a significação de efetuar preces vespertinas já está presente, e por isso não há necessidade de fazer outros trabalhos abandonando o atual.

Jñana e Vairagya não são partes e parcelas de Bhakti. Pois deixam o coração duro e conseqüentemente são contrários à devoção. Eles são úteis ao cultivo da devoção em alguns casos, antes do praticante ter entrado na devoção, e em outros casos, eles se tornam companheiros para ajudar o iniciante em Bhakti no começo. A relação de Jñana (conhecimento) e Vairagya (abstinência) com Bhakti será mostrada separadamente.

Várias partes de Vaidhi-Bhakti foram discutidas no Haribhaktivilasa. E foram muito bem agrupadas na forma dos nove tipos de Bhakti no Bhakti-Sandarbha. O Bhakti-rasamrita-sindhu mostra os sessenta e quatro tipos de Vaidhi-Bhakti. Entre esses, cinco foram descritos como essenciais:

(1) Prazer em servir a Srimurti. (2) Saborear a doçura dos significados do Srimad Bhagavatam com pessoas devocionais versadas. (3) Companhia com aqueles que pertencem afetuosamente à mesma classe de devoção e com os superiores em mérito. (4) Cantar os Santos Nomes. (5) Viver em Vraja.

O aspirante da devoção deve seguir especialmente a parte da devoção pela qual sente maior sabor. Mas deve ter muito cuidado em não odiar outras partes. Devemos admitir duas coisas para determinar os princípios principais de Vaidhi-Bhakti: Deus tem que ser sempre lembrado pelos Jivas. (1) O trabalho que é favorável à lembrança de Deus é a injunção principal e superior para o aspirante. (2) Esquecimento de Deus é o maior dos males. O trabalho que impede a lembrança de Deus é a proibição que está acima de todas as outras.

Os aspirantes devem considerar profundamente esses dois aspectos em relação à sua tenacidade às regras, podendo aceitar alguns princípios num momento e abandoná-los em outro.

Os Vaidha-Bhaktas são aspirantes verdadeiros. Eles possuem três estágio: (1) Sadhaka com fé firme. (2) Sadhaka com constância. (3) Sadhaka que obteve sabor.

Os Sadhakas com fé firme se abrigam aos pés do Guru, e sendo iniciados por ele, praticam Bhajan na companhia de pessoas santas. Os males são removidos pela prática de Bhajan com pessoas santas. A fé se torna pura e alcança constância com a remoção dos males. A constância se transforma gradualmente em apego, que é denominado "Ruchi" (sabor). Esse é o limite do desenvolvimento de Sadhana Bhakti. Após o sabor vem Aasakti (inclinação amorosa ou apego), que se transforma em Bhava. Isso será discutido separadamente.

 

 

Sri Chaitanya Shikshamritam - Thakur Bhaktivinode

Capítulo IV

 

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Discussão sobre Raganuga Bhakti

 

Até agora discutimos sobre Vaidhi-Bhakti. Há uma outra parte do Sadhana-Bhakti chamada Raganuga-Sadhana-Bhakti, em complementação a Vaidhi-Bhakti. Nós dissemos antes que a satisfação de Hari pode ser causada de dois modos. Podemos alcançar um tipo de Sadhana através de regras e regulações, e podemos obter outro tipo de Sadhana através de Raga. Precisamos agora fazer a distinção entre Vidhi e Raga. O processo de adoração a Deus determinado através da decisão gerada pelo sentimento de dever é chamada Vaidhi-Bhakti. A regra que é decidida pelo sentimento de dever é chamada Vidhi. A faculdade que é motivada pela inclinação natural ou apego amoroso é chamada Raga. O objeto que é procurado pela inclinação de Raga é o objeto desejado. Não é necessário fazer nenhum julgamento consciente sobre o que é dever ou não, no caso de Raga. Raga é uma faculdade estabelecida. A doença da alma encontrada nos Jivas em cativeiro, perverte suas mentes e causa a falsa vaidade da identificação do corpo com a alma, e os fazem abraçar objetos sensuais como Vishaya. Alguns têm Raga (apego) por flores, outros por comida, outros por bebidas, outros por intoxicantes, outros por roupas, outros por construções, outros por sexo, e esses tipos de apegos afundam os Jivas perpetuamente no eterno Samsara. É por esse motivo que o Raga por Deus dos Jivas em cativeiro ficou isolado. A devoção gerada por Raga é muito rara entre os Jivas. Por isso, eles têm o dever sagrado de adorar a Deus após discriminarem sobre o que é bom e o que é ruim. Essa discriminação faz surgir Vidhi. Vidhi deve inquirir sobre a saúde de Raga. Vidhi nunca é uma verdade contrária a Raga. Vidhi pode ser denominada como regra, rito ou ritualismo, e Raga como apego Livre e Espontâneo. Embora Vidhi e Raga sejam Tattvas diferentes, ainda assim, quando são puros sua significação se torna a mesma. Vidhi puro é útil a Raga, e Raga puro segue Vidhi, que segue o desejo de Deus. No caso de Deus, Vidhi (Seu Desejo) é forte. No caso do Jiva, Raga é querido. A oposição entre Vidhi e Raga encontrada no mundo material é devida à saúde doentia de Raga. Quando Raga recupera a saúde, Vidhi sai de seu retraimento para cumprir seu trabalho. Portanto, Raga em estado de boa saúde é o principal para os Jivas. Raga por coisas ruins é o pior, e Raga por coisas boas é o melhor. A mesma relação entre o corpo e o remédio é a relação entre Raga e Vidhi. Os trabalhos de Raga são muitos, mas o trabalho de Vidhi é a proteção de Raga. Quando Raga está nutrido não espera por Vidhi. Não há nenhum outro Ashraya para Raga puro além dos Jivas puros, que estão livres do cativeiro da matéria externa. Raga não adulterado por Deus é chamado "Ragatmika-Bhakti". Somente os Jivas puros são dignos para Ragatmika-Bhakti, como ingredientes do Lila Divino. Quando estivermos determinando Tattva-Jñana (verdade espiritual) mostraremos que ninguém além dos habitantes de Vraja são dignos para Ragatmika-Bhakti. Aqui, só daremos uma indicação. Os Jivas que ficam atraídos por ouvirem as descrições dos Shastras sobre as Vraja Gopis oferecendo seu Ragatmika-Bhakti a Sri Krishna e são tentados a segui-las, a devoção que surge dessa tentação é Raganuga-Bhakti. Nesse caso, a cobiça por uma coisa espiritual superior é o fato excitante da devoção. Os ritos e regras dos Shastras não são os fatores animadores. Vidhi age através de vários recursos para excitar a devoção dos Jivas, enquanto a tentação excede seu próprio poder, e a devoção que surge dela não pode ser chamada de Vaidhi-Bhakti durante a adoração. Isso se chama Raganuga-Bhakti. Nós descrevemos Vaidhi-Sadhana-Bhakti. Agora deixem-me narrar Raganuga-Sadhana-Bhakti.

Alguém que sente tentação em ter o mesmo sentimento vivenciado pelo amor do Ragatmika-Bhakta por Sri Krishna, será digno para Raganuga-Bhakti. Raganuga-Bhakti aceita todos os meios e caminhos descritos no Vaidhi-Sadhana Bhakti. Os Vaidha-Bhaktas aceitam esses métodos inspirados pelas injunções dos Shastras, mas os Raganuga-Bhaktas as aceitam pela sua inclinação por Raga. Manutenção do corpo, trabalhos mentais, trabalhos sociais etc. são necessários para sobrevivência dos Jivas em cativeiro. Esses ritos são necessários aos aspirantes de Raganuga-Bhakti, para não permitir que a vida seja de mentalidade externa e a fim de tornar os ritos descritos anteriormente em instrumentos para a promoção de Bhakti. A execução de Raganuga-Bhakti é íntima. Qual será o curso tomado pela vida durante tal execução? Os ritos de Vaidha-Dharma devem ser aceitos, a fim de tornar a vida adequada para adoração íntima. Senão a vida chegará ao fim de hora, ou se a vida for desperdiçada pode obstruir a faculdade de Raganuga-Bhakti. Especialmente se o cultivo a Deus não for aceito com todos os caminhos e meios, a execução íntima não poderá ser nutrida nem protegida. Mesmo se Raganuga-Bhakti for nutrida, os princípios da devoção como ouvir, cantar etc. não podem ser abandonados. Do mesmo modo como a consumação da vida de moralidade com fé em Deus na vida de um Vaidha-Bhakta é encontrada e assume outra forma de certo modo, a vida do Raganuga-Bhakta faz com que Vaidhi-Bhakti mostre certos sinais e siga diferentes sentimentos de certo modo. O resultado em certos casos é uma disparidade entre regras e princípios prescritos, e em outros casos, eles são transformados. Isso será claro quando observarmos o comportamento desse tipo de Bhaktas. Mas o único exemplo é que eles são constantes em princípios aprovados sejam quais forem, a classificação e relação encontrada em Ragatmika-Bhakti são conseqüentemente refletidas em Raganuga-Bhakti. Daremos uma descrição sobre isso nos próximos capítulos. Se descrevermos agora em detalhes incorreremos na falha de repetição. Abreviando, devemos saber que Raganuga-Bhakti tem dois tipos do mesmo modo como Ragatmika-Bhakti, que são: (1) Kama-Rupa (originário do desejo) e (2) Sambandha-Rupa (originária da relação).

Sede por desfrute do "Vishaya" é chamada Kama. Os objetos dos sentidos são o Vishaya dos Jivas em cativeiro. Por isso, os sábios denominaram a satisfação sensual como Kama. Quando Deus, que é a Realidade Última, é abraçado como Vishaya, a sede por desfrute do Vishaya se chama Prema. Não há distinção entre Kama e Prema em característica, a única diferença está no Vishaya. O Prema das Vraja-Gopis que são partes e parcelas de Krishna Swarupa é considerado como Kama em Vraja-Tattva porque não tem nenhum outro Vishaya além, da Suprema Personalidade de Deus Sri Krishna. Portanto, não há distinção entre tal Kama e Prema. O Ragatmika-Bhakti delas é Kama em essência. Raganuga-Bhakti dos Jivas que seguem a característica de Ragatmika-Bhakti das Vraja-Gopis também é denominado como Kama-Rupa. Pois não há outra relação entre o Servido e o servente, além da mesma relação existente entre a água e a sede, isso não é Sambandha-Rupa. Não há nenhuma outra dúvida ou tentativa de satisfação em Kama-Rupa-Raganuga-Bhakti do que satisfazer a Krishna.

Há quatro Sambandha-Rupa-Ragatmika-Bhakti essenciais: relação entre mestre e servo, relação entre amigos, relação entre pai e filho, relação entre marido e mulher. O Sambandha-Rupa-Raganuga-Bhakti dos Jivas é notado durante a prática, seguindo essas quatro.

Se algum aspirante fica naturalmente tentado a ter o sentimento de um devoto habitante de Vraja, deve se considerar como seu seguidor e dirigir sua dedicação a ele, deve praticar Bhajan conforme essa sensação e sentimento intimamente no seu corpo espiritual. Enquanto não possui sentimentos divinos, anteriores ao alcance de Prema, deve aceitar todos os ritos de Vaidhi-Bhakti favoráveis a seu Bhajan como execução externa. Deve cultivar os Shastras e aceitar as decisões que forem favoráveis a seu Bhajan, prestar serviço reverencial a Krishna e Seus devotos, discutir sobre eles e viver em locais onde há prática de devoção, ou viver mentalmente em Vraja.

As causas principais de Vaidhi-Bhakti são o Shastra e as decisões sobre os Shastras. Os fatores predominantes em Raganuga-Bhakti são a misericórdia de Krishna ou de Seus devotos. Alguns consideram Vaidhi-Bhakti como Maryada Swarupa (característica respeitosa) de Prema-Bhakti e a denominaram como Maryada-Marga. Eles consideraram Raganuga-Bhakti como o nutrimento de Prema-Bhakti. Vaidhi-Bhakti é sempre relacionada à Majestade. Raganuga-Bhakti é sempre livre do sentimento de Majestade Divina. Há alguns casos onde os Raga-Bhaktas recorrem a suas propensões Vaidhi. O capítulo seguinte discutirá os sinais dos devotos que estão seguindo Raga.

 

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