hare krishna hare krishna krishna krishna hare hare hare rama hare rama rama rama hare hare

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

 

"Ensinamentos do Senhor Chaitanya"

(Original Sem "Correções")

de

Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya

 

São Paulo, segunda-feira, 30 de novembro de 2020
(Purnima)
Versão em Português
Visvavandya Dasa

 

     

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya

Fundador Acharya da Sociedade Internacional
para a Consciência de Krishna

 

Jaya Prabhupada! Jaya Prabhupada! Jaya Prabhupada!

Todas as Glórias à Sua Divina Graça Visvavarenya Om Vishnupada Paramahamsa Parivrajakacharya Ashtottara-shata Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Srila Prabhupada Thakur Mahashaya.

 

     

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

"Ensinamentos do Senhor Chaitanya"

 

(Original Sem "Correções")

de

Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya

 

(2ª Impressão de 1975 - 1ª Edição 1968)

 

Prefácio

Não há diferença entre os ensinamentos do Senhor Chaitanya apresentados aqui e os ensinamentos do Senhor Krishna no Bhagavad-gita. Os ensinamentos do Senhor Chaitanya são demonstrações práticas dos ensinamentos do Senhor Krishna. A instrução última do Senhor Krishna no Bhagavad-gita é que todos devem se render a Ele, Senhor Krishna. Krishna promete tomar cuidado imediato de tal alma rendida. O Senhor, a Suprema Personalidade de Deus, já é o responsável pela manutenção desta criação em virtude de Sua expansão plenária, Kshirodakashayi Vishnu, mas essa manutenção não é direta. Entretanto, o Senhor diz que Ele assume o controle de Seu devoto puro, na realidade Ele assume o controle direto. Um devoto puro é uma alma que é para sempre rendida ao Senhor, justamente igual uma criança é rendida a seus pais ou um animal a seu dono. No processo de rendição, a pessoa deve: (1) aceitar coisas favoráveis para executar serviço devocional, (2) rejeitar coisas desfavoráveis, (3) acreditar firmemente na proteção do Senhor, (4) sentir-se dependente exclusivamente da misericórdia do Senhor, (5) não ter interesse separado além do interesse do Senhor, e (6) sempre sentir-se tranqüilo e humilde.

O Senhor demanda que a pessoa se renda a Ele por seguir essas seis diretrizes, mas os assim chamados eruditos pouco inteligentes do mundo mal interpretam essas demandas e instigam a massa de pessoas em geral a rejeitá-las. Na conclusão do Nono Capítulo do Bhagavad-gita, o Senhor Krishna diz diretamente: "Ocupe sua mente sempre em pensar em Mim, ofereça reverências e Me adore. Quando estiver completamente absorto em Mim, certamente você virá a Mim". (Bg. 9.34). Entretanto, os demônios eruditos desencaminham as massas de pessoas por dirigi-las à verdade impessoal, não manifesta, eterna, não nascida em vez da Personalidade de Deus. Os filósofos Mayavadi impersonalistas não aceitam que o aspecto último da Verdade Absoluta é a Suprema Personalidade de Deus. Se alguém deseja entender o Sol como ele é, tem que primeiro olhar o brilho solar, depois o globo solar e, depois de entrar dentro desse globo, ficar face a face com a deidade predominante do Sol. Devido a um pobre fundo de conhecimento, os filósofos Mayavadis não podem ir além da refulgência Brahman, que pode ser comparada ao brilho solar. Os Upanishads confirmam que a pessoa tem que penetrar a refulgência deslumbrante do Brahman antes que possa ver a face real da Personalidade de Deus.

O Senhor Chaitanya portanto ensina adoração direta do Senhor Krishna, que apareceu como criança adotada do Rei de Vraja. Ele também sugere que o lugar conhecido como Vrindavana é tão bom quanto o Senhor Krishna porque não há diferença entre o nome, qualidade, forma, passatempos, ambiente e parafernália do Senhor Krishna e o Senhor Krishna em Pessoa. Assim é a natureza absoluta da Verdade Absoluta.

O Senhor Chaitanya também recomendou que o modo de adoração mais elevado no estágio de perfeição mais elevado é o método praticado pelas meninas de Vraja. Essas meninas (gopis, ou meninas pastoras de vacas) simplesmente amavam Krishna sem nenhum motivo por ganho material ou espiritual. Chaitanya também recomendou Srimad Bhagavatam como a narração imaculada do conhecimento transcendental, e Ele enfatizou que o objetivo mais elevado da vida humana é desenvolver amor imaculado por Krishna, a Suprema Personalidade de Deus.

Os ensinamentos do Senhor Chaitanya são idênticos àqueles dados pelo Senhor Kapila, o proponente original do sankhya-yoga, o sistema de filosofia sankhya. Esse sistema de yoga autorizado recomenda meditação na forma transcendental do Senhor. Não há questão de meditar em algo vazio ou impessoal. Pode-se meditar na forma transcendental do Senhor Vishnu mesmo sem envolver prática de posturas sentadas. Essa meditação é chamada samadhi perfeito. Esse samadhi perfeito é verificado no fim do Sexto Capítulo do Bhagavad-gita onde o Senhor Krishna diz: "E de todos os yogis, aquele que sempre permanece em Mim com grande fé, e Me adora em serviço amoroso transcendental, é o mais intimamente unido Comigo em yoga e é o mais elevado de todos". (Bg. 6.47).

O Senhor Chaitanya instruiu a massa de pessoas na filosofia sankhya de acintya-bhedabheda-tattva, a qual mantém que o Supremo Senhor é simultaneamente uno com e diferente de Sua criação. O Senhor Chaitanya ensinou essa filosofia através do cantar do santo nome do Senhor. Ele ensinou que o santo nome do Senhor é a encarnação de som do Senhor e porque o Senhor é o todo absoluto, não há diferença entre Seu santo nome e Sua forma transcendental. Assim por cantar o santo nome do Senhor a pessoa pode diretamente se associar com o Supremo Senhor por vibração sonora. À medida que alguém pratica essa vibração sonora, passa através de três estágios de desenvolvimento: o estágio ofensivo, o estágio de limpeza e o estágio transcendental. No estágio ofensivo, pode-se desejar todos os tipos de felicidade material, mas no segundo estágio a pessoa se torna limpa de toda contaminação material. Quando alguém está situado no estágio transcendental, obtém a posição mais cobiçada - o estágio de amar Deus. O Senhor Chaitanya ensinou que esse é o estágio mais elevado de perfeição para seres humanos.

Prática de yoga é essencialmente destinada para controle dos sentidos. O fator de controle central de todos os sentidos é a mente; portanto deve-se primeiro praticar controle da mente por se dedicar à Consciência de Krishna. As atividades grosseiras da mente são expressas através dos sentidos externos, ou para aquisição de conhecimento ou o funcionamento dos sentidos de acordo com a vontade. As atividades sutis da mente são pensar, sentir e desejar. De acordo com a própria consciência, o indivíduo ou é poluído ou limpo. Se sua mente está fixa em Krishna (Seu nome, qualidade, forma, passatempos, ambiente e parafernália), todas as atividades pessoais - tanto grosseiras quanto sutis - tornam-se favoráveis. O processo de purificação da consciência do Bhagavad-gita é o processo de fixar a mente em Krishna por falar de Suas atividades transcendentais, limpar o templo, ir ao templo, ver a bela forma transcendental do Senhor belamente decorada, ouvir Suas glórias transcendentais, saborear comida oferecida para Ele, associar-se com devotos, cheirar as flores e folhas de tulasi oferecidas a Ele, dedicar-se nas atividades para o interesse do Senhor, etc.. Ninguém pode trazer as atividades da mente e sentidos a uma parada. mas pode-se purificar essas atividades por meio de uma mudança na consciência. Essa mudança é indicada no Bhagavad-gita quando Krishna conta a Arjuna sobre o conhecimento do yoga pelo qual pode-se trabalhar sem resultados lucrativos. "Ó filho de Pritha, quando você age com essa inteligência, pode se livrar do cativeiro dos trabalhos". (Bg. 2.39). Um ser humano às vezes fica restrito na satisfação sensual devido a certas circunstâncias tais quais doenças, etc., mas essa não é a regra. Sem saber o processo verdadeiro pelo qual a mente e sentidos podem ser controlados, pessoas menos inteligentes ou tentam parar a mente e sentidos à força, ou se entregam a eles e são levados pelas ondas do prazer sensual.

Os princípios reguladores e as regras do yoga, as várias posturas sentadas e exercícios de respiração executados numa tentativa de retirar os sentidos dos objetos dos sentidos são métodos destinados àqueles que estão demasiadamente absortos no conceito corpóreo de vida. O homem inteligente que está situado em Consciência de Krishna não tenta forçosamente impedir seus sentidos de agirem. Ao invés, ele dedica seus sentidos no serviço de Krishna. Ninguém pode impedir uma criança de brincar por deixá-la inativa. Uma criança pode ser impedida de se engajar em tolice por ocupar-se em atividades superiores. A repressão à força das atividades dos sentidos pelos oito princípios do yoga é recomendada para homens inferiores. Dedicados às atividades superiores da Consciência de Krishna, homens superiores se retiram naturalmente das atividades inferiores da existência material.

Desse modo o Senhor Chaitanya ensina a ciência da Consciência de Krishna. Esta ciência é absoluta. Especuladores mentais secos tentam se restringir do apego material, mas é geralmente encontrado que a mente é muito forte para ser controlada e que ela os arrasta para baixo nas atividades sensuais. Uma pessoa em Consciência de Krishna não corre esse risco. A pessoa tem que dedicar sua mente e sentidos nas atividades da Consciência de Krishna, e o Senhor Chaitanya ensina como fazer isso na prática.

Antes de aceitar sannyasa (a ordem da renúncia), o Senhor Chaitanya era conhecido como Visvambhara. A palavra visvambhara se refere àquele que mantém o universo inteiro e que lidera todos os seres vivos. O mantenedor e líder apareceu como Senhor Sri Krishna Chaitanya para dar à humanidade estes ensinamentos sublimes. O Senhor Chaitanya é o professor ideal das necessidades primordiais da vida. Ele é o mais magnânimo doador do amor de Krishna. Ele é o reservatório completo de todas as misericórdias e boa sorte. Como está confirmado no Srimad Bhagavatam, Bhagavad-gita, Mahabharata e os Upanishads, Ele é a Suprema Personalidade de Deus, Krishna em Pessoa, e Ele é adorável por todos nesta era de desavença. Todos podem aderir a Seu movimento sankirtana. Nenhuma qualificação prévia é necessária, justamente por seguir Seus ensinamentos, qualquer pessoa pode se tornar um ser humano perfeito. Se a pessoa for afortunada o suficiente para ser atraída por Suas características, ela é certa de ser bem sucedida na missão de sua vida. Em outras palavras, aqueles que estão interessados em obter existência espiritual podem facilmente serem libertados das garras de maya pela graça do Senhor Chaitanya. Estes ensinamentos apresentados neste livro não são diferentes do Senhor.

Por estar absorta no corpo material, a alma condicionada incrementa as páginas da história por todos os tipos de atividades materiais. Os Ensinamentos do Senhor Chaitanya podem ajudar a sociedade humana parar tais atividades desnecessárias e temporárias. Com estes ensinamentos, a humanidade pode ser elevada à plataforma mais alta de atividade espiritual. Essas atividades espirituais na verdade começam depois da liberação do cativeiro material. Essas atividades liberadas em Consciência de Krishna constituem o objetivo da perfeição humana. O prestígio falso que alguém obtém por tentar dominar a natureza material é ilusório. Conhecimento que ilumina pode ser adquirido dos ensinamentos do Senhor Chaitanya, e por este conhecimento pode-se avançar na existência espiritual.

Todos têm que sofrer ou desfrutar os frutos de sua atividade; ninguém pode impedir as leis da natureza material que governam essas coisas. Enquanto a pessoa está engajada em atividade lucrativa, é certeza que será frustrada numa tentativa de alcançar o objetivo último da vida. Eu sinceramente tenho esperança que por entender os Ensinamentos do Senhor Chaitanya, a sociedade humana experimentará uma nova luz de vida espiritual que abrirá o campo da atividade para a alma pura.

om tat sat

A. C. Bhaktivedanta Swami

14 de março de 1968

Aniversário do Senhor Chaitanya

Templo Sri-Sri-Radha-Krishna

Nova York, NY, EUA

     

     

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

"Ensinamentos do Senhor Chaitanya"
(Original Sem "Correções")
de
Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya
(2ª Impressão de 1975 - 1ª Edição 1968)

 

Prólogo

de

Bhaktivinoda Thakura

[Este relato apareceu originalmente numa pequena obra de Srila Bhaktivinoda Thakura intitulada, "Sri Chaitanya Mahaprabhu: Sua Vida e Preceitos". (20 de agosto de 1896)]

Chaitanya Mahaprabhu nasceu em Mayapur na cidade de Nadia justamente depois do pôr-do-sol na noite de 23 Phalguna 1407 Shakabda, correspondente a 18 de fevereiro de 1486, da Era Cristã. A Lua estava em eclipse na hora do seu nascimento, e a população de Nadia estava engajada, como de costume nessas ocasiões, em se banhar no Bhagirathi com altos gritos de Haribol. Seu pai, Jagannatha Mishra, um pobre brahmana da ordem Védica, e Sua mãe, Shachi-devi, um modelo de boa mulher, ambos eram descendentes de linhagem brahmana originalmente residentes em Sylhet. Mahaprabhu era uma bela criança, e as senhoras da cidade vinham vê-lo com presentes. O pai de sua mãe, Pandita Nilambara Chakravarti, astrólogo renomado, predisse que a criança seria um grande personagem no devido tempo; e, por isso, ele lhe deu o nome Visvambhara. As senhoras da vizinhança o chamavam de Gaurahari por causa de sua tonalidade dourada, e sua mãe o chamava Nimai por causa da árvore nimba perto da qual ele nasceu. Belo como o menino era, todos adoravam vê-lo todo dia. À medida que crescia ele se tornava um menino caprichoso e divertido. Depois de seu quinto ano, ele foi admitido num pathasala onde captou Bengali em muito pouco tempo. A maioria de seus biógrafos contemporâneos mencionaram certas anedotas a respeito de Chaitanya que são registros simples de seus primeiros milagres. É dito que quando era um bebê no colo de sua mãe, ele chorava continuamente, e quando as senhoras da vizinhança gritavam Haribol ele costumava parar. Assim havia sempre a pronúncia de Haribol na casa, o que antevia a missão futura do herói. Também foi afirmado quando sua mãe certa vez deu doces para ele comer, ele comeu barro em vez da comida. Sua mãe perguntou qual a razão disso, ele respondeu que cada doce era nada mais do que barro transformado, assim ele também podia comer barro. Sua mãe que também era a consorte de um pandita, explicou que cada artigo num estado especial foi adaptado para um uso especial. Terra, quando no estado de uma jarra, podia ser usada como um pote de água, mas no estado de um tijolo, tal uso não era possível. Barro, portanto, na forma de doces era útil como comida, mas barro em seus outros estados não era. O menino foi convencido e admitiu sua estupidez em comer barro e concordou em evitar o erro no futuro. Outro ato milagroso foi relatado. É dito que um brahmana em peregrinação se tornou um hóspede em sua casa, ele cozinhou comida e deu graça com meditação em Krishna. Nesse meio tempo, o menino veio e comeu o arroz cozido. O brahmana, abismado com a atitude do menino, cozinhou novamente a pedido de Jagannatha Mishra. O menino novamente comeu o arroz cozido enquanto o brahmana oferecia o arroz para Krishna com meditação. O brahmana foi persuadido a cozinhar pela terceira vez. Dessa vez, todos os habitantes da casa caíram no sono, e o menino se revelou como Krishna para o viajante e o abençoou. O brahmana então se perdeu no êxtase com o aparecimento de seu objeto de adoração. Também é dito que dois ladrões roubaram o menino da porta de seu pai com o objetivo de roubar suas jóias e lhe deram doces pelo caminho. O menino exercitou sua energia ilusória e desviou os ladrões de volta para sua própria casa. Os ladrões, com medo da prisão, deixaram o menino e fugiram. Outro ato milagroso descrito foi quando o menino exigiu e pegou de Hiranya e Jagadisha todas as oferendas que eles coletaram para adorar Krishna no dia de Ekadashi. Quando ele tinha apenas quatro anos de idade, sentou em cima de panelas de barro descartadas que eram consideradas ímpias por sua mãe. Ele explicou para sua mãe que não há questão de santidade e impiedade no que diz respeito a panelas de barro jogadas fora depois que o cozimento acabou. Essas anedotas relatam sua tenra idade até o quinto ano.

Em seu oitavo ano, ele foi admitido no tola de Gangadasa Pandita em Ganganagara perto da vila de Mayapur. Em dois anos ele se tornou bem versado em gramática sânscrita e retórica. Seus estudos depois disso foram da natureza autodidata em sua própria casa, onde ele encontrou todos os livros os mais importantes pertencentes a seu pai, que era um autêntico pandita. Parece que ele leu o smrti em seu próprio estudo, e o nyaya também, em competição com seus amigos, que então estudavam com o célebre Pandita Raghunatha Shiromani.

Agora, depois do décimo ano de sua idade, Chaitanya se tornou um erudito reconhecido em gramática, retórica, o smrti e o nyaya. Foi depois disso que seu irmão mais velho Visvarupa deixou sua casa e aceitou o asrama (status) de um sannyasi (asceta). Chaitanya, apesar de ser um rapaz muito jovem, consolou seus pais, disse que ele os serviria com um objetivo de satisfazer Deus. Logo depois disso, seu pai deixou este mundo. Sua mãe ficou excessivamente triste, e Mahaprabhu, com sua aparência satisfeita de costume, consolou sua mãe viúva.

Foi com a idade de 14 ou 15 que Mahaprabhu foi casado com Lakshmidevi, a filha de Vallabhacharya, também de Nadia. Ele era nessa idade considerado um dos melhores eruditos de Nadia, o renomado berço da filosofia nyaya e erudição sânscrita. O que dizer dos smarta panditas, todos os Naiyayikas tinham medo de confrontá-lo em discussões literárias. Por ser um homem casado, ele foi para a Bengala Ocidental nas margens do Padma para aquisição de riqueza. Lá ele exibiu sua erudição e obteve uma boa soma de dinheiro. Foi nesse tempo que ele pregou Vaishnavismo nos intervalos. Depois de lhe ensinar os princípios do Vaishnavismo, ele ordenou Tapana Mishra para ir e viver em Benares. Durante sua residência na Bengala Ocidental, sua esposa Lakshmidevi deixou este mundo por causa dos efeitos de uma picada de serpente. Quando retornou para casa, ele encontrou sua mãe em estado de luto. Ele a consolou com uma aula sobre a incerteza dos assuntos humanos. E foi a pedido de sua mãe que ele casou com Vishnupriya, a filha do Raja Pandita Sanatana Mishra. Seus colegas se uniram a ele no seu retorno de pravasa ou afastamento. Agora ele era tão renomado que era considerado o melhor pandita de Nadia. Keshava Mishra de Kashmir, que chamou a si mesmo de Grande Digvijayi, veio a Nadia com o objetivo de discutir com os Panditas do lugar. Com medo do assim chamado pandita conquistador, os professores do tola de Nadia deixaram sua cidade com o pretexto de um Convite. Keshava encontrou Mahaprabhu no Barokona-ghata em Mayapur, e depois de uma discussão muito curta dos dois, ele foi derrotado pelo rapaz, e a mortificação o obrigou a fugir. Nimai Pandita agora era o mais importante erudito de seus tempos.

Foi com a idade de 16 ou 17 que ele viajou para Gaya com um grupo para cantar o santo nome de Hari nas ruas e bazares. Isso criou uma sensação e despertou diferentes sentimentos em bairros diferentes. Os bhaktas ficaram muito felizes. Os smarta brahmanas ficaram com inveja do sucesso de Nimai Pandita e reclamaram com o Chand Kazi contra o caráter de Chaitanya como não Hindu. O Kazi foi à casa de Shrivasa Pandita e quebrou uma mrdanga (tambor khola) lá e declarou a menos que Nimai Pandita cessasse de fazer barulho sobre sua religião esquisita, ele seria obrigado a impor Islamismo para ele e seus seguidores. Isso chegou ao conhecimento de Mahaprabhu. Ele ordenou a todas pessoas da cidade para aparecerem à noite cada um com uma tocha em sua mão. Houve o agrupamento, e em sua chegada à casa do Kazi, ele teve uma longa conversa com o Kazi e no fim comunicou dentro do coração dele sua influência Vaishnava por tocar o corpo dele. O Kazi então chorou e admitiu que sentiu uma influência espiritual intensa que clareou suas dúvidas e produziu dentro dele um sentimento religioso que lhe deu o êxtase mais elevado. O Kazi então aderiu ao grupo de sankirtana. O mundo estava abismado com o poder espiritual do Grande Senhor, e centenas e centenas de hereges se converteram e aderiram à bandeira de Visvambhara depois desse acontecimento.

Foi depois disso que alguns dos brahmanas invejosos e mesquinhos de Kulia provocaram uma desavença com Mahaprabhu e reuniram um partido para se opor a ele. Nimai Pandita era naturalmente uma pessoa de bom coração, apesar de vigoroso em seus princípios. Ele declarou que sentimentos partidários e sectarismo eram os dois grandes inimigos do progresso e enquanto ele tivesse que continuar a ser um habitante de Nadia pertencente a uma certa família, sua missão não encontraria o sucesso completo. Ele então resolveu ser um cidadão do mundo por cortar sua conexão com seus família, casta e credo particulares, e com essa resolução ele abraçou a posição de um sannyasi em Katwa, sob a guia de Keshava Bharati dessa cidade, no 24º ano de sua idade. Sua mãe e esposa choraram amargamente por sua separação, mas nosso herói, apesar de bom coração, era uma pessoa vigorosa em princípio. Ele deixou seu pequeno mundo em sua casa para o ilimitado mundo espiritual de Krishna com a humanidade em geral.

Depois de seu sannyasa, ele foi induzido a visitar a casa de Adwaita Prabhu em Shantipura. Adwaita organizou para convidar todos os seus amigos e admiradores de Nadia e trouxe Shachidevi para ver seu filho. Tanto o prazer quanto a dor invadiram seu coração quando ela viu seu filho na atitude de um sannyasi. Em sannyasi, Krishna Chaitanya usava nada mais do que uma kaupina e um bahirvasa (cobertura externa). Sua cabeça estava sem cabelo, e suas mãos seguravam uma danda (bastão) e um kamandalu (pote de água do eremita). O filho sagrado caiu aos pés de sua mãe amada e disse, "Mãe! Este corpo é seu, e eu devo obedecer suas ordens. Permita-me ir a Vrindavana para minhas realizações espirituais". A mãe, em consulta com Adwaita e outros, pediu a seu filho para residir em Puri (a cidade de Jagannatha) para que ela pudesse ter informação sobre ele agora e depois. Mahaprabhu concordou com a proposta e em poucos dias ele deixou Shantipura para Orissa. Seus biógrafos descreveram a jornada de Krishna Chaitanya (esse foi o nome que recebeu depois de seu sannyasa) de Shantipura para Puri em grande detalhe. Ele viajou ao longo do lado do Bhagirathi até Chatrabhoga, situada agora em Thana Mathurapura, Diamond Harbour, 24 Parganas. Lá, ele pegou um barco e foi até Prayaga-ghata no Distrito de Midnapura. De lá, ele andou através de Balasore e Cuttack para Puri, e viu o templo de Bhuvanesvara em seu caminho. Depois de sua chegada em Puri, ele viu Jagannatha no templo e residiu com Sarvabhauma a pedido do último. Sarvabhauma era um pandita gigantesco da época. Seus estudos não tinham fronteiras. Ele era o melhor naiyayika dos tempos e era conhecido como o mais erudito intelectual na filosofia Vedanta da escola de Shankaracharya. Ele nasceu em Nadia (Vidyanagara) e ensinou para inumeráveis pupilos a filosofia nyaya em seu tola de lá. Ele partiu para Puri algum tempo antes do nascimento de Nimai Pandita. Seu cunhado Gopinatha Mishra apresentou nosso novo sannyasi para Sarvabhauma, que estava impressionado com sua beleza pessoal e ficou temeroso que seria difícil para o homem jovem manter sannyasa-dharma durante a longa jornada da sua via. Gopinatha, que conhecia Mahaprabhu de Nadia, tinha muita reverência por ele e declarou que o sannyasi não era um ser humano comum. Nesse ponto, Gopinatha e Sarvabhauma tiveram uma discussão quente. Sarvabhauma então pediu a Mahaprabhu para ouvir sua recitação dos Vedanta-sutras, e o último se submeteu tácito. Chaitanya ouviu em silêncio o que o grande Sarvabhauma recitou com gravidade por sete dias, e no fim disso o último disse, "Krishna Chaitanya! Eu acho que você não entende o Vedanta, porque você não diz nada depois de ouvir minha recitação e explicações". A resposta de Chaitanya foi que ele entendia os sutras muito bem, mas não pôde decifrar o que Shankaracharya quis dizer com seus comentários. Abismado com isso, Sarvabhauma disse, "Por que você entende os significados dos sutras e não entende os comentários que explicam os sutras? Tudo bem! Se você entende os sutras, por favor deixe que eu tenha suas interpretações". Mahaprabhu então explicou todos os sutras de seu próprio modo sem tocar no comentário panteísta de Shankara. O entendimento perspicaz de Sarvabhauma viu a verdade, beleza e harmonia dos argumentos nas explicações dadas por Chaitanya e que o obrigou a declarar que foi a primeira vez que ele encontrou alguém que pudesse explicar os Brahma-sutras de uma maneira tão simples. Ele também admitiu que os comentários de Shankara nunca deram explicações tão naturais dos Vedanta-sutras como ele obteve de Mahaprabhu. Ele então se submeteu como um defensor e seguidor. Em poucos dias, Sarvabhauma se transformou num dos melhores Vaishnavas da época. Quando os relatos sobre isso surgiram, toda Orissa cantou o louvor de Krishna Chaitanya, e centenas e centenas vieram a ele e se tornaram seus seguidores. Nesse meio tempo, Mahaprabhu pensou em visitar a Índia do Sul, e ele partiu com o Krishnadasa Brahmana para a jornada.

Seus biógrafos nos deram um detalhe da jornada. Ele foi primeiro a Kurmakshetra, onde realizou um milagre por curar um leproso chamado Vasudeva. Ele encontrou Ramananda Raya, o Governador de Vidyanagara, nas margens do Godavari e teve uma conversa filosófica com ele sobre o assunto de prema-bhakti. Ele operou outro milagre por tocar (fez elas desaparecem imediatamente) as sete árvores tala através das quais Ramachandra, o filho de Dasharatha, disparou sua flexa e matou o grande Bali Raja. Ele pregou Vaishnavismo e nama-sankirtana por toda a jornada. Em Rangakshetra, ele permaneceu por quatro meses na casa do Venkata Bhatta a fim de passar a estação de chuva. Lá ele converteu toda a família de Venkata do Vaishnavismo Ramanuja para Krishna-bhakti, junto com o filho de Venkata, um menino de dez anos chamado Gopala, que depois veio para Vrindavana e se tornou um dos seis Goswamis ou profetas servidores sob seu líder Sri Krishna Chaitanya. Treinado em sânscrito por seu tio Prabodhananda Sarasvati, Gopala escreveu vários livros sobre Vaishnavismo.

Chaitanya visitou numerosos locais no Sul da Índia até o Cabo Comorin e retornou para Puri em dois anos por Pandepura sobre o Bhima [rio]. Nesse último lugar ele espiritualizou um certo Tukarama, que então se tornou um pregador religioso ele mesmo. Esse fato foi admitido em seus abhangas [poemas devocionais] que foram coletados em um volume pelo Sr. Satyendra Nath Tagore do Bombay Civil Service. Durante sua jornada, ele teve discussões com Budistas, os Jains e os Mayavadis em diversos lugares e converteu seus oponentes ao Vaishnavismo.

Depois de seu retorno a Puri, Raja Prataparudra-deva e diversos brahmanas pandita aderiram à bandeira de Chaitanya Mahaprabhu. Ele estava agora com vinte e sete anos de idade. Em seu vigésimo oitavo ano ele foi para Bengala até Gauda em Malda. Lá ele resgatou dois grandes personagens chamados Rupa e Sanatana. Apesar de descenderem das linhagens dos brahmanas Karnatic, esses dois irmãos se tornaram meio-islâmicos por seu contato contínuo com Hussain Shah, o então Imperador de Gauda. Seus nomes foram mudados pelo Imperador para Dabira Khasa e Sakara Mallika, e seu senhor os amava de coração porque os dois eram versados em Persa, Árabe e Sânscrito e eram servos leais do estado. Os dois cavalheiros não encontraram um caminho para voltarem a ser Hindus regulares e escreveram para Mahaprabhu por ajuda espiritual enquanto ele estava em Puri. Mahaprabhu escreveu em resposta que iria até eles e os desenredaria de suas dificuldades espirituais. Agora que ele veio a Gauda, ambos irmãos apareceram perante ele com seu louvor de longa duração. Mahaprabhu os ordenou para irem a Vrindavana e encontrá-lo lá.

Chaitanya retornou a Puri através de Shantipura, onde ele novamente encontrou sua querida mãe. Depois de uma curta estadia em Puri ele partiu para Vrindavana. Dessa vez, ele estava acompanhado do Balabhadra Bhattacharya. Ele visitou Vrindavana e desceu para Prayaga (Allahabad), e converteu um grande número de Islamitas para o Vaishnavismo com argumento do Alcorão. Os descendentes desses convertidos ainda são conhecidos como Pathana Vaishnavas. Rupa Goswami se encontrou com ele em Allahabad. Chaitanya o treinou em espiritualidade por dez dias e o direcionou para ir a Vrindavana em missões. Sua primeira missão era escrever obras teológicas para explicar cientificamente bhakti e prema puros. A segunda missão era reviver os locais onde Krishnachandra no fim de Dwapara-yuga exibiu Seu lila espiritual (passatempos) para o benefício do mundo religioso. Rupa Goswami partiu de Allahabad para Vrindavana, e Mahaprabhu veio para baixo a Benares. Lá ele residiu na casa de Chandrashekhara e aceitou sua bhiksa (refeição) diária na casa de Tapana Mishra. Ali que Sanatana Goswami se uniu a ele e recebeu instrução por dois meses em assuntos espirituais. Os biógrafos, especialmente Krishnadasa Kaviraja, nos deram detalhes dos ensinamentos de Chaitanya para Rupa e Sanatana. Krishnadasa não era um escritor contemporâneo, mas ele coletou sua informação dos Goswamis em pessoa, os discípulos diretos de Mahaprabhu. Jiva Goswami, que era um primo de Sanatana e Rupa e foi quem nos deixou sua obra inestimável o Sat-sandarbha, filosofou sobre os preceitos de seu grande líder. Nós coletamos e sumarizamos os preceitos de Chaitanya dos livros desses grandes escritores.

Enquanto em Benares, Chaitanya teve uma entrevista com os sannyasis eruditos dessa cidade na casa de um brahmana Maratha que convidou todos os sannyasis para entretenimento. Nessa entrevista, Chaitanya exibiu um milagre que atraiu todos os sannyasis para ele. Então assegurou conversação recíproca. Os sannyasis eram liderados pelo seu mais erudito líder Prakashananda Sarasvati. Depois de uma pequena controvérsia, eles se submeteram a Mahaprabhu e admitiram que foram desviados pelos comentários de Shankaracharya. Era impossível até mesmo para intelectuais eruditos se oporem a Chaitanya por um longo tempo, pois havia algum encanto nele que tocava seus corações e os fazia chorar por causa de seu aperfeiçoamento espiritual. Os sannyasis de Benares logo caíram aos pés de Chaitanya e pediram por sua graça (krpa). Chaitanya então pregou bhakti pura e induziu em seus corações amor espiritual por Krishna que os obrigou a abandonar sentimentos sectários. Toda a população de Benares, nessa maravilhosa conversação dos sannyasis, converteram-se Vaishnavas, e fizeram um sankirtana mestre com seu novo Senhor. Depois de mandar Sanatana para Vrindavana, Mahaprabhu foi para Puri novamente através das selvas com seu camarada Balabhadra. Balabhadra relatou que Mahaprabhu exibiu uns bons muitos milagres em seu caminho para Puri, tais quais fazer tigres e elefantes dançarem ao ouvirem o nome de Krishna.

Desse tempo, é isso, a partir de seu 31º ano, Mahaprabhu continuamente viveu em Puri na casa do Kashi Mishra até seu desaparecimento em seu quadragésimo oitavo ano na hora do sankirtana no templo de Tota-gopinatha. Durante esses dezoito anos sua vida era unicamente amor e piedade fixos. Ele estava rodeado de inúmeros seguidores, todos os quais eram da mais alta ordem dos Vaishnavas e eram distintos das pessoas comuns por seu caráter do mais puro e conhecimento, princípios religiosos firmes e amor espiritual de Radha-Krishna. Swarupa Damodara, que era conhecido como Purushottamacharya enquanto estava em Nadia, se juntou a ele em Benares e aceitou serviço como seu secretário. Nenhuma produção de qualquer poeta ou filósofo podia ser levada a Mahaprabhu a menos que Swarupa a aprovasse como pura e útil. Raya Ramananda era seu segundo companheiro. Tanto ele quanto Swarupa cantavam enquanto Mahaprabhu expressava seus sentimentos num certo ponto de adoração. Paramananda Puri era seu ministro em matérias de religião. Existem centenas de anedotas descritas por seus biógrafos as quais não achamos que seja adequado reproduzi-las aqui. Mahaprabhu dormia pouco. Seus sentimentos o carregavam longe e amplamente no firmamento da espiritualidade cada dia e noite, todos os seus admiradores o observavam por toda parte. Ele adorava, comunicava-se com seus missionários de Vrindavana, e conversava com aqueles homens religiosos que vinham recentemente para visitá-lo. Ele cantava e dançava, não cuidava de si mesmo e freqüentemente se perdia em beatitude religiosa. Todos que vinham a ele acreditavam nele como o todo-belo Deus que apareceu no mundo inferior para o benefício da humanidade. Ele amava sua mãe durante todo o tempo e mandava mahaprasada para ela agora e sempre por aqueles que iam para Nadia. Ele era o mais amável por natureza. Humildade era personificada nele. Sua doce aparência dava alegria para todos que vinham em contato com ele. Ele nomeou Prabhu Nityananda como o missionário encarregado da Bengala. Ele despachou seis discípulos (Goswamis) para Vrindavana para pregar amor na parte interior do país. Ele puniu todos os seus discípulos que se desviaram da vida sagrada. Isso ele acentuadamente fez no caso de Haridasa Júnior. Ele nunca faltou em dar instruções próprias na vida para aqueles que as solicitaram. Isso será visto nos seus ensinamentos para Raghunatha dasa Goswami. Seu tratamento para Haridasa (sênior) mostrará como ele amava homens espirituais e como ele desafiou distinção de casta na irmandade espiritual.

     

     

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

"Ensinamentos do Senhor Chaitanya"
(Original Sem "Correções")
de
Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya
(2ª Impressão de 1975 - 1ª Edição 1968)

 

Missão do Senhor Chaitanya

O Senhor Chaitanya Mahaprabhu instruiu Seus discípulos para escreverem livros sobre a Ciência de Krishna, uma tarefa a qual aqueles que O seguem continuam a cumprir até o dia presente. As elaborações e exposições sobre a filosofia ensinada pelo Senhor Chaitanya são de fato as mais volumosas, exatas e consistentes devido ao sistema de sucessão discipular. Apesar do Senhor Chaitanya ser amplamente renomado como intelectual em Sua juventude, Ele deixou somente oito versos, chamados Shikshastaka. Esses oito versos claramente revelam Sua missão e preceitos. Estas preces supremamente preciosas são traduzidas aqui.

1.

Glória a Sri Krishna sankirtana, que limpa o coração de toda poeira acumulada por anos e extingue o fogo da vida condicionada, de repetido nascimento e morte. Este movimento sankirtana é a bênção primordial para humanidade em geral porque propaga os raios da lua da bênção. É a vida do conhecimento transcendental. Ele incrementa o oceano de bem-aventurança transcendental, e nos habilita a saborear plenamente o néctar pelo qual nós estamos sempre ansiosos.

2.

Ó meu Senhor, somente Seu santo nome pode conceder toda bênção para os seres vivos, e assim Você possui centenas de milhões de nomes tais quais Krishna e Govinda. Nesses nomes transcendentais Você investiu todas Suas energias transcendentais. Nem mesmo existem regras rígidas e difíceis para cantar esses nomes. Ó meu Senhor, por Sua bondade, Você nos capacita a nos aproximarmos de Você pelos Seus santos nomes, mas eu sou tão desafortunado que não tenho nenhuma atração por eles.

3.

Deve-se cantar o santo nome do Senhor num estado mental humilde, por se considerar mais inferior que a palha na rua; deve-se ser mais tolerante do que uma árvore, desprovido de todo senso de prestígio falso e deve estar pronto para oferecer todo respeito aos outros. Nesse estado mental pode-se cantar o santo nome do Senhor constantemente.

4.

Ó Senhor todo-poderoso, não tenho desejo de acumular riqueza, nem desejo belas mulheres, nem eu quero nenhum número de seguidores. Eu só quero Seu serviço devocional sem causa nascimento após nascimento.

5.

Ó filho de Maharaja Nanda [Krishna], sou Seu servo eterno, mesmo assim de uma forma ou outra eu caí no oceano de nascimento e morte. Por favor resgate-me deste oceano de morte e coloque-me como um dos átomos em Seus pés de lótus.

6.

Ó meu Senhor, quando meus olhos estarão decorados com lágrimas de amor a fluir constantemente quando eu cantar Seu santo nome? Quando minha voz ficará embargada, quando os pêlos do meu corpo se arrepiarão com a recitação do Seu nome?

7.

Ó Govinda! Por sentir Sua separação, eu considero um momento igual a doze anos ou mais. Lágrimas escorrem dos meus olhos como torrentes de chuva, e eu sinto tudo vazio no mundo na Sua ausência.

8.

Eu não conheço ninguém além de Krishna como Meu Senhor, e Ele permanecerá assim mesmo se Ele me tratar proximamente com Seu abraço ou partir meu coração por não estar presente perante mim. Ele é completamente livre para fazer qualquer coisa e tudo, porque Ele é sempre meu Senhor adorado incondicionalmente.

     

     

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

"Ensinamentos do Senhor Chaitanya"
(Original Sem "Correções")
de
Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya
(2ª Impressão de 1975 - 1ª Edição 1968)

Introdução

[Proferida originalmente como cinco aulas matinais sobre o Chaitanya Charitamrita - a biografia autorizada do Senhor Chaitanya Mahaprabhu, por Krishnadasa Kaviraja Goswami - perante a International Society for Krishna Consciousness, Cidade de Nova York, 10 a 14 de abril de 1967].

A palavra caitanya significa força viva. Porque somos seres vivos, podemos nos mover, mas uma mesa não pode porque não possui força viva. Movimento e atividades podem ser considerados sinais ou sintomas de força viva. De fato, pode-se dizer que não pode haver nenhuma atividade sem a força viva. Apesar da força viva estar presente na condição material, não é amrta, imortal. As palavras caitanya-caritamrta, então, podem ser traduzidas como "o caráter da força viva em imortalidade".

Mas como essa força viva exibiu imortalidade? Não é exibida por humano ou qualquer outra criatura neste universo material, porque nenhum de nós é imortal nestes corpos. Nós possuímos a força viva, nós executamos atividades, e nós somos imortais por natureza e constituição, mas a condição material na qual fomos postos não permite que a nossa imortalidade seja exibida. É afirmado no Katha Upanishad que eternidade e força viva pertencem tanto a nós mesmos quanto a Deus. Apesar de ser verdade que ambos Deus e nós mesmos somos imortais, existe uma diferença. Como seres vivos, nós executamos muitas atividades, mas nós temos uma tendência para cair dentro da natureza material. Deus não tem essa tendência. Porque é todo-poderoso, Ele nunca vem sob o controle da natureza material. Na realidade, natureza material é apenas um exibição de Suas energias inconcebíveis.

Do chão, nós só podemos ver nuvens no céu, mas se voarmos acima das nuvens, podemos ver o Sol brilhar. Do céu, arranha-céus e cidades são vistos muito pequenos; similarmente da posição de Deus esta criação material inteira é insignificante. A tendência do ser vivo condicionado é descer das alturas de onde tudo pode ser visto em perspectiva. Deus, entretanto, não tem essa tendência. O Supremo Senhor não é sujeito a queda na ilusão (maya) não mais que o Sol é sujeito a cair abaixo das nuvens. Porque o Supremo Senhor não é sujeito a ilusão, Ele é incondicionado; porque nós, somos propensos a cair na ilusão, nós somos chamados condicionados. Filósofos impersonalistas (Mayavadi) mantêm que ambos o ser vivo e o Próprio Deus estão sob o controle de maya quando vêm a este mundo material. Isso pode ser verdade para o ser vivo, mas não é verdade para Deus, porque em todas as instâncias a energia material trabalha sob Sua direção. Aqueles que consideram o Supremo Senhor como sujeito ao condicionamento material são chamados de tolos pelo Próprio Krishna no Bhagavad-gita:

Bg. 9.11
avajananti mam mudha
manusim tanum asritam
param bhavam ajananto
mama bhuta-mahesvaram

"Os tolos Me menosprezam quando Eu descendo em forma humana. Eles não conhecem Minha natureza transcendental e Meu domínio supremo sobre tudo que existe".

O Senhor Chaitanya Mahaprabhu não deve ser considerado um de nós. Ele é o Próprio Krishna, o ser vivo supremo, e por isso Ele nunca vem abaixo da nuvem de maya. Krishna, Suas expansões, e mesmo Seus devotos superiores nunca caem nas garras da ilusão. O Senhor Chaitanya veio à Terra simplesmente para pregar Krishna-bhakti, amor de Krishna. Em outras palavras, Ele é o Senhor Krishna em Pessoa que ensina os seres vivos o modo apropriado de se aproximar de Krishna. Ele é como um professor que, ao ver um estudante indo mal, pega o lápis e escreve, e diz, "Faça assim desse jeito: A, B, C". Por isso, ninguém deve pensar tolamente que o professor está aprendendo seu ABC. Apesar de Ele aparecer no disfarce de um devoto, nós temos que lembrar sempre que o Senhor Chaitanya é Krishna (Deus) em Pessoa que nos ensina como nos tornarmos conscientes de Krishna, e devemos estudá-Lo nessa luz.

No Bhagavad-gita o Senhor Krishna apresenta o princípio religioso mais elevado deste modo:

Bg. 18.66
sarva-dharman parityajya
mam ekam saranam vraja
aham tvam sarva-papebhyo
moksayisyami ma sucah

"Abandone todas variedades de religião e simplesmente se renda a Mim. Eu vou libertá-lo de toda reação pecaminosa. Não tema".

Isso pode parecer uma instrução simples para seguir, mas invariavelmente nossa reação é, "Ó, render-se? Abandonar? Mas eu tenho tantas responsabilidades". E maya, ilusão, nos diz, "Não faça isso, ou você ficará fora das minhas garras. Justamente fique em minhas garras, e eu o chutarei". É um fato que estamos sempre sendo chutados por maya, justamente igual o asno macho que recebe coices na face da fêmea asno quando ele vem para sexo. Similarmente, gatos e cães sempre brigam e ganem quando têm sexo. Esses são os embustes da natureza. Até mesmo um elefante na selva é capturado pelo uso de uma elefanta treinada que o conduz a um fosso. Maya tem muitas atividades, e no mundo material sua algema mais forte é a fêmea. Claro que na realidade nós não somos nem feminino nem masculino, porque essas designações se referem somente à vestimenta externa, o corpo. Nós somos na realidade servos de Krishna. Na vida condicionada, entretanto, nós somos algemados com as correntes de ferro que tomam a forma de belas mulheres. Por isso todo macho é preso pela vida sexual, e por isso quando alguém tenta obter liberação das garras materiais, deve primeiro aprender a controlar o desejo sexual. Sexo irrestrito põe a pessoa plenamente nas garras da ilusão. O Senhor Chaitanya Mahaprabhu oficialmente renunciou essa ilusão com a idade de vinte e quatro, apesar de Sua esposa ter dezesseis e Sua mãe setenta, e Ele era o único membro masculino da família. Apesar de Ele ser um brahmana e não era rico, Ele aceitou sannyasa, a ordem de vida da renúncia, e assim Se libertou do enredamento familiar.

Se desejamos nos tornar plenamente conscientes de Krishna, temos que abandonar as algemas de maya, ou, se nós permanecemos com maya, devemos viver de modo tal que não seremos sujeitos à ilusão. Não é necessário a pessoa abandonar sua família, porque havia muitos casados entre os devotos mais íntimos do Senhor Chaitanya. O que tem de ser renunciada é a propensão para desfrute material. Apesar do Senhor Chaitanya ter aprovado um pai de família ter sexo regulado no casamento, Ele era muito estrito com aqueles na ordem da renúncia, e Ele até mesmo baniu Haridasa júnior por olhar luxuriosamente para uma jovem mulher. O ponto é que a pessoa tem que seguir um caminho particular e fixar-se nele, por obedecer as regras e regulamentos necessários para o sucesso na vida espiritual. Era a missão do Senhor Chaitanya que Ele ensinasse o caminho da Consciência de Krishna para toda a humanidade e assim habilitá-los a compartilhar a imortalidade da vida espiritual.

Do Chaitanya Charitamrita nós aprendemos como Chaitanya ensinou as pessoas a se tornarem imortais, e por isso o título pode ser propriamente traduzido como "o caráter imortal da força viva". A suprema força viva é a Suprema Personalidade de Deus. Ele também é a entidade suprema. Existem inúmeros seres vivos, e todos eles são individuais. Isto é muito fácil de entender: Nós somos todos individuais em pensamento e desejos, e o Supremo Senhor também é uma pessoa individual. Ele é diferente, apesar, em que Ele é o líder, aquele o qual ninguém pode excedê-Lo. Entre os seres vivos criados, um ser pode superar outro em uma capacidade ou outra. O Senhor é um indivíduo, justamente igual os seres vivos são individuais, mas Ele é diferente porque Ele é o supremo individual. Deus também é infalível, no Bhagavad-gita o Senhor é chamado de Achyuta, significa que, "Ele nunca cai". Isso é indicado porque no Bhagavad-gita Arjuna caiu em ilusão mas Krishna não. Nós ouvimos com freqüência que Deus é infalível, e no Bhagavad-gita Krishna afirma:

Bg. 14.19
nanyam gunebhyah kartaram
yada drastanupasyati
gunebhyas ca param vetti
mad-bhavam so 'dhigacchati

"Quando você enxergar que não existe nada além desses modos da natureza em todas atividades e que o Supremo Senhor é transcendental a todos esses modos, então poderá conhecer Minha natureza espiritual".

Assim nós não devemos pensar que Krishna é dominado pela potência material quando Ele está no mundo material. Krishna e Suas encarnações não estão sob o controle da natureza material. Eles são totalmente livres. Na verdade, no Srimad Bhagavatam aquele que possui uma natureza divina é realmente definido como aquele que não é afetado pelos modos da natureza material, embora na natureza material. Se até mesmo um devoto pode alcançar essa liberdade, o que falar então do Supremo?

A questão real é como nós podemos permanecer impolutos pela contaminação material enquanto no mundo material. Foi Rupa Goswami quem explicou que nós podemos permanecer incontaminados enquanto no mundo se nós simplesmente fizermos nossa ambição servir Krishna. Pode-se então perguntar justificadamente, "Como posso servir"? Obviamente isso não é simplesmente uma matéria de meditação, que é justamente uma atividade da mente, mas de trabalho prático. Amor pelo serviço de Krishna só pode ser obtido por trabalhar para Krishna. Nesse trabalho, não devemos deixar nenhum recurso sem ser usado. Qualquer coisa que esteja lá, qualquer coisa que tenhamos, deve ser usada para Krishna. Nós podemos até mesmo usar máquinas de escrever, automóveis, aviões, mísseis - qualquer coisa. Se nós simplesmente falarmos para as pessoas sobre Consciência de Krishna, nós também prestamos serviço. Se nossas mentes, sentidos, fala, dinheiro e energias estão assim dedicados no serviço de Krishna, não podemos ser considerados como existentes na natureza material. Por virtude da consciência espiritual, ou Consciência de Krishna, nós transcendemos a plataforma da natureza material. É um fato que Krishna, Suas expansões e Seus devotos - isto é, aqueles que trabalham para Ele - não estão na natureza material, apesar de pessoas com um pobre fundo de conhecimento acharem que estão.

O Chaitanya Charitamrita ensina que a alma espiritual é imortal e que nossas atividades no mundo espiritual também são imortais. Os Mayavadis, que sustentam a visão de que o Absoluto é impessoal e sem forma, argumentam que uma alma auto-realizada não tem necessidade de falar. Todavia, os Vaishnavas, que são devotos de Krishna, defendem que quando alguém alcança o estágio da realização, ele realmente começa a falar. "Previamente nós só falávamos de absurdos", diz o Vaishnava. "Agora, comecemos nossas verdadeiras falas, falas sobre Krishna". Os Mayavadis também gostam do exemplo do pote de água, que mantém quando um pote não está cheio de água, ele produz um som, mas quando está cheio, ele não produz nenhum som. Mas nós somos potes de água? Como podemos ser comparados a eles? Uma boa analogia utiliza o máximo de similaridades possíveis entre dois objetos. Um pote de água não é uma força viva ativa, mas nós somos. Meditação silenciosa perene pode ser adequada para um pote de água, mas não para nós. De fato, quando alguém realizou que tem tanto para dizer sobre Krishna, vinte e quatro horas por dia não é suficiente. O tolo que é celebrado enquanto ele não falar, mas quando ele quebra seu silêncio, sua carência de conhecimento é exposta. O Chaitanya Charitamrita mostra que existem muitas coisas maravilhosas para descobrir por glorificar o Supremo.

No começo do Chaitanya Charitamrita, Krishnadasa Kaviraja Goswami escreve: "Eu ofereço meus respeitos aos meus mestres espirituais". Ele usa o plural aqui para indicar a sucessão discipular. Não é que ele oferece reverências a seu mestre espiritual somente mas para o parampara inteiro, a corrente de sucessão discipular que começa com o Próprio Senhor Krishna. Por isso o guru é chamado no plural para mostrar o grande respeito do autor por todos os Vaishnavas. Depois de oferecer reverências à sucessão discipular, o autor presta reverências para todos os outros devotos, irmãos espirituais, as expansões do Supremo e a primeira manifestação da energia de Krishna. O Senhor Chaitanya Mahaprabhu (às vezes chamado de Krishna Chaitanya) é a corporificação de todos esses; Ele é Deus, guru, devoto e expansão de Deus. Como Seu associado, Nityananda, Ele é a primeira manifestação de energia; como Adwaita, Ele é uma encarnação; como Gadadhara, Ele é a potência interna; e como Shrivasa, Ele é o ser vivo marginal. Assim Krishna não deve nunca ser considerado sozinho mas deve ser considerado como eternamente existente com todas Suas manifestações, como descrito por Ramanujacharya. Na filosofia visistadvaita, as energias de Deus, expansões e encarnações são consideradas unidade na diversidade. Em outras palavras, Deus não é separado dessas energias, tudo junto é Deus.

Na realidade, o Chaitanya Charitamrita não é destinado ao noviço, porque é o estudo pós-graduado do conhecimento espiritual. Idealmente, começa-se com e avança-se através do Srimad Bhagavatam para o Chaitanya Charitamrita. Apesar de todas essas grandes escrituras estarem no nível absoluto, para o propósito de estudo comparativo o Chaitanya Charitamrita é considerado como situado na plataforma mais elevada. Cada verso em si é perfeitamente composto. De fato, o Senhor Chaitanya e Nityananda são comparados ao Sol e à Lua no sentido que Eles dissipam a escuridão do mundo material. Nesse exemplo, tanto o Sol quanto a Lua surgiram juntos, e é apropriado oferecer reverências diretamente para o Senhor Chaitanya e Nityananda.

No mundo Ocidental onde as glórias do Senhor Chaitanya são relativamente desconhecidas, pode-se perguntar, "Quem é Krishna Chaitanya"? A conclusão das escrituras em resposta a essa pergunta é que Ele é a Suprema Personalidade de Deus. Geralmente nos Upanishads a Suprema Verdade Absoluta é descrita de uma forma impessoal, mas o aspecto pessoal da Verdade Absoluta é mencionado no Ishopanishad, onde, depois de uma descrição do todo-penetrante, encontramos o seguinte verso:

hiranmayena patrena
satyasyapihitam mukham
tat tvam pusann apavrnu
satya-dharmaya drstaye

"Ó meu Senhor, sustentador de todas as vidas, Sua verdadeira face está coberta por Seu esplendor deslumbrante. Bondosamente remova essa cobertura e exiba-Se para Seu devoto puro". (Sri Ishopanishad, Mantra 15)

Os impersonalistas não têm o poder para ir além da refulgência de Deus e chegar à personalidade de quem essa refulgência emana. No fim do Ishopanishad, todavia, há um hino para a Personalidade de Deus. Não é que o Brahman impessoal é negado; também é descrito, mas esse Brahman é considerado como a refulgência deslumbrante do corpo de Chaitanya. Em outras palavras, Krishna Chaitanya é a base do Brahman impessoal. Também é afirmado por Krishna no Bhagavad-gita que o Brahman impessoal repousa Nele (brahmano hi pratisthaham, Bg. 14.27). O Paramatma, ou Superalma, que está presente dentro do coração de todos os seres vivos e dentro de cada átomo do universo, é somente a representação parcial de Chaitanya. Krishna Chaitanya é portanto a base do Brahman e também a Suprema Personalidade de Deus. Como o Supremo, Ele é pleno em seis opulências: riqueza, fama, poder, beleza, conhecimento e renúncia. Em resumo, nós devemos saber que Ele é Krishna, Deus, e nada é igual ou maior que Ele. Não existe nenhum superior para ser concebido. Ele é a Pessoa Suprema.

Foi Rupa Goswami, um devoto confidencial ensinado por mais de dez dias continuamente pelo Senhor Chaitanya, quem escreveu:

namo maha-vadanyaya
krsna-prema-pradaya te
krsnaya krsna-caitanya-
namne gaura-tvise namah
[Cc. Madhya 19.53]

"Eu ofereço minhas respeitosas reverências ao Supremo Senhor Sri Krishna Chaitanya, que é mais magnânimo do que qualquer outro avatara, mesmo o Próprio Krishna, porque Ele concede livremente o que ninguém mais nunca deu - amor puro de Krishna".

Não é que Chaitanya ensina um longo e elaborado caminho de realização de Deus. Ele é completamente espiritual, e Ele começa do ponto da rendição a Krishna. Ele não segue os caminhos de karma-yoga ou jñana-yoga ou hata-yoga mas começa no fim da existência material, no ponto onde se abandona todo apego material. No Bhagavad-gita Krishna começa Seus ensinamentos por distinguir a alma da matéria e no Décimo Oitavo Capítulo conclui no ponto onde a alma se rende a Ele em devoção. Os Mayavadis têm toda fala cessada aí, mas nesse ponto a verdadeira discussão somente começa. É o Vedanta-sutra que começa: athato brahma jijñasa: "Agora deixe-nos inquirir sobre a Suprema Verdade Absoluta". Rupa Goswami assim elogia Chaitanya como a encarnação mais magnânima de todas, porque Ele dá o maior dos presentes por indicar a mais elevada forma de serviço devocional. Em outras palavras, Ele responde as mais importantes perguntas que qualquer um possa fazer.

Existem diferentes estágios de serviço devocional e realização de Deus. Para falar estritamente, qualquer um que aceite a existência de Deus está situado em serviço devocional. Reconhecer que Deus é grande já é alguma coisa, mas não é muito. Chaitanya, que prega como um acarya, um grande professor, ensinou que nós podemos entrar dentro de um relacionamento com Deus e realmente nos tornarmos amigo de Deus. No Bhagavad-gita Krishna mostrou Sua forma universal porque Arjuna era Seu "muito querido amigo". Mas ao ver Krishna como o Senhor dos universos, todavia, Arjuna realmente pediu para Krishna perdoar sua familiaridade com seu amigo. Chaitanya vai além desse ponto. Através do Senhor Chaitanya nós podemos nos tornar amigo de Krishna, e não há limite para essa amizade. Nós podemos nos tornar amigos de Krishna não em reverência e adoração mas em completa liberdade. Nós podemos até nos relacionar com Deus como Seu pai. Essa não é somente a filosofia do Chaitanya Charitamrita mas do Srimad Bhagavatam também. Não existem outras literaturas no mundo nas quais Deus é tratado como o filho de um devoto. Geralmente Deus é visto como o Pai todo-poderoso que supri as demandas de Seus filhos. Os devotos, entretanto, às vezes tratam Deus como um filho

na sua execução do serviço devocional. O filho demanda, e o pai supri, e por suprir para Krishna o devoto se torna igual um pai. Em vez de tirar de Deus, nós damos para Deus. Foi nesse relacionamento que a mãe de Krishna, Yashoda, falou para o Senhor, "Aqui, coma isso ou Você morrerá. Coma bem". Desse modo Krishna, apesar de proprietário de tudo, depende da misericórdia de Seu devoto. Isso é um nível excepcionalmente alto de amizade no qual o devoto realmente acredita que ele é mesmo o pai de Krishna.

Contudo, a maior dádiva do Senhor Chaitanya foi Seu ensinamento que Krishna pode ser tratado realmente como seu próprio amante. Nesse relacionamento o Senhor fica tão apegado que Ele expressa Sua inabilidade para reciprocar. Krishna tinha tanta gratidão pelas gopis, as meninas pastoras de vacas de Vrindavana, que Ele se sentia incapaz de retribuir o amor delas. "Eu não posso retribuir o amor de vocês", Ele disse a elas. "Eu não tenho mais nenhum recurso para retribuir". Assim o serviço devocional é executado nessa plataforma excelente, e conhecimento da relação do devoto com Krishna como amante e amado foi dado por Chaitanya Mahaprabhu. Nunca foi dado antes por nenhuma encarnação prévia ou acarya. Assim Rupa Goswami escreveu sobre Chaitanya: "Serviço devocional em si é a plataforma mais elevada, a gloriosa plataforma que Você contribuiu. Você é Krishna numa tonalidade amarela, Você é Shachinandana, o filho da mãe Shachi. Aqueles que ouvem Chaitanya Charitamrita manterão Você dentro de seus corações. Será fácil entender Krishna através de Você". Assim Chaitanya Mahaprabhu veio para entregar Krishna. Seu método de libertação não foi meditação, atividades lucrativas ou estudo das escrituras, mas amor.

Nós ouvimos freqüentemente a frase "amor de Deus". Quão longe esse amor de Deus pode realmente ser desenvolvido, pode ser aprendido da filosofia Vaishnava. Conhecimento teórico do amor de Deus pode ser encontrado em muitos lugares e em muitas escrituras, mas o que esse amor de Deus realmente é e como é desenvolvido pode ser encontrado nas literaturas Vaishnavas. É o único e mais elevado desenvolvimento do amor de Deus que foi dado por Chaitanya Mahaprabhu.

Mesmo neste mundo material nós podemos ter um pequeno senso de amor. Como isso é possível? Isso é devido ao amor que é encontrado no Supremo. Qualquer coisa que encontrarmos dentro de nossa experiência dentro desta vida condicionada está situada no Supremo Senhor, que é a fonte última de tudo. Em nossa relação original com o Supremo Senhor existe amor de verdade, e esse amor é refletido pervertidamente através das condições materiais. Nosso amor real é contínuo e infindável, mas porque esse amor é refletido pervertidamente neste mundo material, ele carece de continuidade e é inebriante. Se nós queremos verdadeiro amor transcendental, nós temos que transferir o nosso amor para o supremo objeto adorável - a Suprema Personalidade de Deus. Esse é o princípio básico da Consciência de Krishna.

Na consciência material nós tentamos amar aquilo que não é nenhum pouco adorável. Nós damos o nosso amor para cães e gatos, e corremos o risco de na hora da morte podemos pensar neles e conseqüentemente nascer numa família de gatos ou cães. Assim o amor que não tem Krishna como seu objeto conduz para baixo. Não é que Krishna ou Deus é algo obscuro ou algo que somente algumas pessoas escolhidas podem alcançar. Chaitanya Mahaprabhu nos informa que em cada país e em cada escritura há indicação do amor de Deus. Infelizmente ninguém sabe o que o amor de Deus é realmente. As escrituras Védicas, entretanto, são diferentes porque podem direcionar o indivíduo para o caminho próprio do amor de Deus. Outras escrituras não dão informação sobre como alguém pode amar Deus, nem elas definem realmente ou descrevem o que ou quem o Supremo realmente é. Apesar de promoverem oficialmente amor de Deus, não têm idéia de como executar isso. Mas Chaitanya Mahaprabhu dá uma demonstração prática de como amar Deus numa relação conjugal. Por adotar o papel de Radharani, Chaitanya tenta amar Krishna como Radharani amava Ele. Krishna estava sempre abismado com o amor de Radharani. "Como é que Radharani Me dá tanto prazer"? Ele perguntava. A fim de estudar Radharani, Krishna viveu no papel Dela e tentou entender Ele mesmo. Esse é o segredo da encarnação do Senhor Chaitanya. Chaitanya é Krishna, mas Ele assumiu o modo ou papel de Radharani para nos mostrar como amar Krishna. Assim Ele é chamado: "Ofereço minhas respeitosas reverências ao Supremo Senhor que está absorto nos pensamentos de Radharani".

Isso traz a questão de quem é Radharani e o que é Radha-Krishna. Na realidade, Radha-Krishna é o intercâmbio do amor. Não é amor ordinário, Krishna tem potências imensas, das quais três são principais: interna, externa e marginal. Na potência interna existem três divisões: samvit, hladini e sandhini. A potência hladini é a potência de prazer. Todos os seres vivos possuem essa potência de busca por prazer, porque todos os seres tentam ter prazer. Essa é a própria natureza do ser vivo. No presente nós tentamos desfrutar nossa potência de prazer por meio do corpo nesta condição material. Pelo contato corpóreo nós tentamos obter prazer dos objetos sensuais materiais. Nós não devemos pensar, entretanto, que Krishna, que é sempre espiritual, tenta obter prazer neste mundo material igual a nós. Krishna descreve o universo material como um lugar não permanente cheio de misérias. Por que, então, Ele procuraria prazer na forma material? Ele é a Superalma, o espírito supremo, e Seu prazer está além da concepção material.

A fim de aprender como o prazer de Krishna pode ser obtido, devemos ler o Décimo Canto do Srimad Bhagavatam no qual a potência de prazer de Krishna é exibida nos Seus passatempos com Radharani e as donzelas de Vraja. Infelizmente, pessoas pouco inteligentes vão imediatamente ao divertimento de Krishna no Dashama-skandha, o Décimo Canto. Krishna abraçar Radharani ou Sua dança com as meninas pastoras de vacas na dança rasa são geralmente não entendidos por pessoas ordinárias porque consideram esses passatempos sob a luz da luxúria mundana. Elas incorretamente acham que Krishna é igual a elas e que Ele abraça as gopis justamente igual um homem ordinário abraça uma jovem moça. Algumas pessoas por isso ficam interessadas em Krishna porque acham que a religião Dele permite satisfação sexual. Isso não é Krishna-bhakti, amor de Krishna, mas prakrta-sahajiya, luxúria material.

A fim de evitar esses erros, nós devemos entender o que Radha-Krishna realmente é. Radha e Krishna exibem Seus passatempos através da energia interna de Krishna. A potência de prazer da energia interna de Krishna é um assunto muito difícil, e a menos que a pessoa entenda o que é Krishna, não pode entendê-la. Krishna não obtém nenhum prazer deste mundo material, mas Ele tem uma potência de prazer. Porque nós somos parte e parcela de Krishna, a potência de prazer está dentro de nós também, mas nós tentamos exibir essa potência de prazer na matéria. Krishna, entretanto, não faz essa tentativa tão vã. O objeto da potência de prazer de Krishna é Radharani, e Ele exibe Sua potência ou Sua energia como Radharani e então se absorve em relacionamentos amorosos com Ela. Em outras palavras, Krishna não obtém prazer dentro desta energia externa mas exibe Sua energia interna, Sua potência de prazer, como Radharani. Assim Krishna Se manifesta como Radharani a fim de exibir Sua potência de prazer interna. Das muitas extensões, expansões e encarnações do Senhor, a potência de prazer é a principal e líder.

Não é que Radharani é separada de Krishna. Radharani também é Krishna, porque não existe diferença entre a energia e o energético. Sem energia, não há sentido para o energético, e sem energético, não há energia. Similarmente, sem Radha não há sentido para Krishna, e sem Krishna, não há sentido para Radha. Por causa disso, a filosofia Vaishnava primeiro presta reverências para e adora a potência de prazer interna do Supremo Senhor. Assim o Senhor e Sua potência são sempre referidos como Radha-Krishna. Similarmente, aqueles que adoram o nome de Narayana em primeiro lugar pronunciam o nome de Lakshmi, Lakshmi-Narayana. Similarmente, aqueles que adoram o Senhor Rama primeiro pronunciam o nome de Sita. Em qualquer caso - Sita-Rama, Radha-Krishna, Lakshmi-Narayana - a potência sempre vem primeiro.

Radha e Krishna são um, e quando Krishna quer desfrutar prazer, Ele Se manifesta como Radharani. A troca espiritual de amor entre Radha e Krishna é a verdadeira exibição da potência de prazer interna de Krishna. Apesar de falarmos de "quando" Krishna deseja, justamente quando Ele desejou não podemos dizer. Nós só falamos desse jeito porque na vida condicionada nós consideramos que tudo tem um começo; entretanto, no absoluto ou vida espiritual não tem nem começo nem fim. Mesmo assim com o propósito de entender que Radha e Krishna são um e Eles também ficaram divididos, a questão "Quando"? automaticamente vem à mente. Quando Krishna desejou desfrutar Sua potência de prazer, Ele Se manifestou na forma separada de Radharani, e quando Ele quis entender Ele mesmo através da agência de Radha, Ele Se uniu a Radharani, e essa unificação se chama Senhor Chaitanya.

Por que Krishna assume a forma de Chaitanya Mahaprabhu? É explicado que Krishna desejou conhecer a glória do amor de Radha. "Por que Ela é tão apaixonada por Mim"? Krishna perguntou. "Qual é a Minha qualificação especial que A atrai tanto? E qual o verdadeiro modo com o qual Ela Me ama"? Pode parecer estranho que Krishna, que é o Supremo, fique atraído pelo amor de alguém. Nós procuramos o amor de uma mulher ou de um homem porque somos imperfeitos e falta algo. O amor de uma mulher, essa potência e prazer, é ausente no homem, portanto um homem quer uma mulher, mas esse não é o caso com Krishna, que é pleno em Si mesmo. Por isso Krishna expressou surpresa: "Por que estou atraído a Radharani? E quando Radharani sente Meu amor, o que Ela realmente sente"? Com o propósito de saborear a essência desse caso amoroso, Krishna apareceu justamente igual a Lua aparece no horizonte do mar. Justamente igual a Lua foi produzida do bater do oceano, pelo bater dos casos amorosos espirituais a Lua de Chaitanya Mahaprabhu apareceu. De fato, a tonalidade de Chaitanya era dourada, igual à Lua. Apesar de ser em linguagem figurada, transmite o significado por trás do aparecimento de Chaitanya Mahaprabhu. O significado completo de Seu aparecimento será explicado em capítulos posteriores.

As manifestações do Supremo também são explicadas no Chaitanya Charitamrita. Depois de oferecer respeitos ao Senhor Chaitanya, Krishnadasa Kaviraja depois os oferece a Nityananda. Ele explica que Nityananda é uma manifestação de Sankarshana, que é a origem de Maha-Vishnu. A primeira manifestação de Krishna é Balarama e depois Sankarshana, e depois de Sankarshana Ele é manifesto como Pradyumna. Dessa forma tantas expansões acontecem. Apesar de existirem muitas expansões, o Senhor Sri Krishna é a origem, como confirmado no Brahma-samhita. Ele é a vela original de onde muitos milhares e milhões de velas são acesas. Apesar de qualquer número de velas poder ser aceso, a vela original ainda mantém sua identidade como a origem. Desse modo, Krishna Se expande em tantas luzes, e todas essas expansões são chamadas Vishnu-tattva. Vishnu é uma luz grandiosa, e nós somos pequenas luzes, mas todos são expansões de Krishna.

Quando é necessário criar o universo material, Vishnu Se expande como Maha-Vishnu. Esse Maha-Vishnu deita no Oceano Causal e exala todos os universos de Suas narinas. Assim de Maha-Vishnu e do Oceano Causal todos os universos brotam, e todos esses universos flutuam no Oceano Causal. A esse respeito existe a história de Vamana, que, quando Ele deu três passos, tocou Seu pé através da cobertura do universo. Água do Oceano Causal fluiu pelo buraco que Seu pé fez, e é dito que esse fluxo de água se tornou o Rio Ganges. Por isso o Ganges é aceito como a mais sagrada água de Vishnu e é adorado por todos Hindus desde os Himalayas abaixo até a Baía da Bengala.

Esse Maha-Vishnu que deita no Oceano causal é na realidade uma expansão de Balarama, que é a primeira expansão de Krishna, e nos passatempos de Vrindavana, é o irmão de Krishna. No maha-mantra Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare, a palavra Rama se refere a Balarama. Porque Nityananda é uma expansão de Balarama, Rama também se refere ao Senhor Nityananda. Assim Hare Krishna, Hare Rama chamam não somente Krishna e Balarama mas também o Senhor Chaitanya e Nityananda.

O assunto do Chaitanya Charitamrita primeiramente lida com o que está além desta criação material. A expansão cósmica material se chama maya porque não tem existência eterna. Porque é às vezes manifesta e às vezes não manifesta, é considerada ilusória. Mas além desta manifestação temporária existe uma natureza superior, como indicado no Bhagavad-gita:

paras tasmat tu bhavo 'nyo
'vyakto 'vyaktat sanatanah
yah sa sarvesu bhutesu
nasyatsu na vinasyati

"Todavia, existe outra natureza, que é eterna e é transcendental a esta matéria manifesta e não manifesta. É suprema e nunca é aniquilada. Quando tudo neste mundo é aniquilado, aquela parte permanece como é". (Bg. 8.20).

Essa natureza superior está além da manifesta (vyaktah) e imanifesta (avyaktah). Essa natureza superior que está além tanto da criação quanto da aniquilação é a força viva que é manifesta nos corpos de todos os seres vivos. O corpo em si é composto de natureza inferior, matéria, mas é a natureza superior que faz o corpo mover. O sintoma dessa natureza superior é consciência. Assim no mundo espiritual, onde tudo é composto de natureza superior, tudo é consciente. No mundo material objetos inanimados não são conscientes, mas no mundo espiritual não é assim. Lá uma mesa é consciente, a terra é consciente, as árvores são conscientes - tudo é consciente.

Não é possível imaginar quão longe esta manifestação material se estende. No mundo material tudo é calculado por imaginação ou por algum método imperfeito, mas literaturas Védicas dão informação do que está além do universo material. Aqueles que acreditam em conhecimento experimental podem duvidar das conclusões Védicas, porque eles não podem calcular nem mesmo quão longe este universo se estende, nem eles podem alcançar longe dentro do próprio universo em si. Não é possível obter informação de nada além desta natureza material por meios experimentais. Aquilo que está além do nosso poder de concepção se chama acintya, inconcebível. É inútil argumentar ou especular sobre o que é inconcebível. Se é verdadeiramente inconcebível, não é sujeito a especulação ou experimentação. Nossa energia é limitada, e nossa percepção sensorial é limitada; portanto nós devemos contar com as conclusões Védicas a respeito desse assunto que é inconcebível. Conhecimento da natureza superior deve simplesmente ser aceito sem argumento. Como é possível argumentar sobre algo que nós não temos acesso? O método para compreender assunto transcendental é dado pelo Senhor Krishna Pessoalmente no Bhagavad-gita, onde Krishna diz para Arjuna no começo do Quarto Capítulo:

sri bhagavan uvaca
imam vivasvate yogam
proktavan aham avyayam
vivasvan manave praha
manur iksvakave 'bravit

"Eu ensinei esta ciência imperecível do yoga ao deus do Sol, Vivasvan, e Vivasvan a ensinou para Manu, o pai da humanidade, e Manu por sua vez a ensinou para Iksvaku". (Bg. 4.1).

Esse é o método de parampara, ou sucessão discipular. Similarmente, no Srimad Bhagavatam, Krishna transmitiu conhecimento dentro do coração de Brahma, a primeira criatura criada dentro do universo. Brahma transmitiu aquelas lições a seu discípulo Narada, e Narada transmitiu esse conhecimento para seu discípulo, Vyasadeva. Vyasadeva o transmitiu para Madhwacharya, e de Madhwacharya o conhecimento veio abaixo até Madhavendra Puri, para Ishvara Puri e dele para Chaitanya Mahaprabhu.

Pode-se perguntar se Chaitanya Mahaprabhu é o Próprio Krishna, então por que Ele precisou de um mestre espiritual? É claro que Ele não precisava de um mestre espiritual, mas porque Ele fazia o papel de acarya (aquele que ensina pelo exemplo), aceitou um mestre espiritual. Mesmo o Próprio Krishna aceitou um mestre espiritual, porque assim é o sistema. Desse modo o Senhor estabelece o exemplo para a humanidade. Nós não devemos pensar, entretanto, que o Senhor aceita um mestre espiritual porque está com falta de conhecimento. Ele simplesmente enfatiza a importância da aceitação de um mestre espiritual. O conhecimento dessa sucessão discipular na realidade vem do Senhor em Pessoa, e se o conhecimento descende intacto, é perfeito. Apesar de não estarmos em contato com a personalidade original que primeiro transmitiu o conhecimento, nós podemos receber o mesmo conhecimento por esse processo de transmissão. No Srimad Bhagavatam, é afirmado que Krishna, a Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus, transmitiu conhecimento dentro do coração de Brahma. Esse então é um modo que o conhecimento é recebido - através do coração. Então existem dois processos pelos quais se pode receber conhecimento: Um depende da Suprema Personalidade de Deus, que está situado como a Superalma dentro do coração de todos os seres vivos, e o outro depende do guru ou mestre espiritual, que é uma expansão de Krishna. Assim Krishna transmite informação tanto de dentro quanto de fora. Nós simplesmente temos que recebê-la. Se conhecimento é recebido desse modo, não importa se é inconcebível ou não.

No Srimad Bhagavatam há uma grande quantidade de informação dada sobre os sistemas planetários Vaikuntha que estão além do universo material. Similarmente, uma grande quantidade de informação inconcebível é dada no Chaitanya Charitamrita. Qualquer tentativa de chegar até essa informação através de conhecimento experimental não é possível. O conhecimento simplesmente tem que ser aceito. De acordo com o método Védico, sabda, ou som transcendental, é considerado evidência. Som é muito importante no entendimento Védico, porque, se for puro, é aceito como autoridade. Mesmo no mundo material nós aceitamos uma grande quantidade de informação que é enviada milhares de milhas por telefone ou rádio. Dessa forma nós também aceitamos som como evidência em nossas vidas diárias. Apesar de não podermos ver o informante, nós aceitamos a informação como válida com base do som. Vibração sonora portanto é muito importante na transmissão do conhecimento Védico.

Os Vedas nos informam que além da manifestação cósmica existem planetas extensos e o céu espiritual. Esta manifestação material é considerada como só uma porção pequena da criação total. A manifestação material inclui não somente este universo mas inumeráveis outros universos também, porém todos os universos materiais combinados compreendem só uma fração da criação total. A maioria da criação está situada no céu espiritual. Nesse céu, inumeráveis planetas flutuam, e são chamados Vaikunthalokas. Em cada Vaikunthaloka, Narayana preside na forma de Suas expansões com quatro braços: Sankarshana, Pradyumna, Aniruddha e Vasudeva.

Como afirmado antes, os universos materiais são manifestos pelo Senhor na forma de Maha-Vishnu. Justamente igual um esposo e esposa combinam para gerar descendência, o Maha-Vishnu combina com Sua esposa Maya, ou natureza material. Isso também é confirmado no Bhagavad-gita onde Krishna afirma:

sarva-yonisu kaunteya
murtayah sambhavanti yah
tasam brahma mahad yonir
aham bija-pradah pita

"Deve-se entender que todas espécies de vida, ó filho de Kunti, tornam-se possíveis pelo nascimento nesta natureza material, e Eu sou o pai que dá a semente". (Bg. 14.4)

Vishnu fecunda Maya ou natureza material simplesmente por olhar para ela. Esse é o método espiritual. Materialmente nós somos limitados a fecundar por só uma parte particular do nosso corpo, mas o Supremo Senhor, Krishna ou Maha-Vishnu, pode fecundar qualquer parte por qualquer parte. Simplesmente por olhar, o Senhor pode conceber incontáveis seres vivos no ventre da natureza material. O Brahma-samhita também confirma que o corpo espiritual do Supremo Senhor é tão poderoso que qualquer parte de Seu corpo pode executar as funções de qualquer outra parte. Nós só podemos tocar com nossas mãos ou pele, mas Krishna pode tocar simplesmente por olhar. Nós só podemos ver com nossos olhos, não podemos tocar ou cheirar com eles. Krishna, entretanto, pode cheirar e comer com Seus olhos. Quando alimentos são oferecidos para Krishna, nós não vemos Ele comer, mas Ele come simplesmente por olhar para a comida. Nós não podemos imaginar como as coisas funcionam no mundo espiritual onde tudo é espiritual. Não é que Krishna não come ou que nós imaginamos que Ele come; Ele realmente come, mas o comer Dele é diferente do nosso. Nosso processo de comer será similar ao Dele quando estivermos completamente na plataforma espiritual. Nessa plataforma, cada parte do corpo pode atuar em benefício de qualquer outra parte.

Vishnu não requer qualquer coisa a fim de criar. Ele não precisa da deusa Lakshmi a fim de dar nascimento a Brahma, porque Brahma nasce de uma flor de lótus que cresce do umbigo de Vishnu. A deusa Lakshmi senta aos pés de Vishnu e O serve. Neste mundo material sexo é requerido para produzir filhos, mas no mundo espiritual pode-se produzir quantas crianças quiser sem ter a ajuda de sua esposa. Porque não temos experiência com energia espiritual, pensamos que o nascimento de Brahma do umbigo de Vishnu é simplesmente uma história de ficção. Não somos cientes que a energia espiritual é tão poderosa que pode fazer qualquer coisa e tudo. Energia material depende de certas leis, mas energia espiritual é plenamente independente.

Brahma nasce do umbigo de Garbhodakashayi Vishnu, que é apenas uma manifestação parcial de Maha-Vishnu. Incontáveis universos residem iguais a sementes dentro dos poros da pele de Maha-Vishnu, e quando Ele exala, todos eles são manifestos. No mundo material, nós não temos experiência de algo assim, mas nós experimentamos um reflexo pervertido no fenômeno da transpiração. Não podemos imaginar, entretanto, a duração de uma respiração de Maha-Vishnu, porque dentro de uma respiração todos os universos são criados e aniquilados. O Senhor Brahma vive somente pela duração de uma respiração, e de acordo com nossa escala de tempo 4.320.000.000 anos constituem só doze horas de Brahma, e Brahma vive cem dos seus anos. Ainda assim, a vida inteira de Brahma é contada dentro de uma respiração de Maha-Vishnu. Por isso não é possível para nós imaginarmos o poder de respiração do Supremo Senhor. Esse Maha-Vishnu é apenas uma manifestação parcial de Krishna.

Assim Krishnadasa Kaviraja Goswami discute o Senhor Chaitanya Mahaprabhu como o Próprio Sri Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, e o Senhor Nityananda como Balarama, a primeira expansão de Krishna. Adwaitacharya, outro discípulo principal do Senhor Chaitanya Mahaprabhu, é aceito como uma expansão de Maha-Vishnu, Assim Adwaitacharya também é o Senhor, ou, mais precisamente, uma expansão do Senhor. A palavra advaita significa não dual, e o nome dele é assim porque ele não é diferente do Supremo Senhor. Ele também é chamado acarya, professor, porque ele disseminou a Consciência de Krishna. Dessa forma, ele é justamente igual Chaitanya Mahaprabhu. Apesar de Chaitanya ser Sri Krishna em Pessoa, Ele aparece como um devoto para ensinar as pessoas em geral como amar Krishna. Similarmente, Adwaitacharya apareceu justamente para distribuir o conhecimento da Consciência de Krishna. Assim também ele é o Senhor encarnado como devoto. Krishna é manifesto em cinco diferentes expansões, e Ele e todos os Seus associados aparecem como devotos do Supremo Senhor na forma Sri Krishna Chaitanya, Nityananda, Adwaitacharya, Gadadhara, Shrivasa e outros. Em todos os casos, Chaitanya Mahaprabhu é a fonte de energia para todos Seus devotos. Porque esse é o caso, se nos abrigarmos em Chaitanya Mahaprabhu para a execução bem sucedida da Consciência de Krishna, nós faremos progresso com certeza. Uma canção devocional de Narottama dasa Thakura afirma: "Meu querido Senhor Chaitanya, por favor, tenha misericórdia de mim. Não existe ninguém que é tão misericordioso como Você. Meu apelo é muito urgente porque Sua missão é liberar almas caídas, e ninguém é mais caído do que eu. Eu imploro prioridade".

O autor do Sri Chaitanya Charitamrita, Krishnadasa Kaviraja Goswami, era um habitante de Vrindavana e um grande devoto. Ele vivia com sua família em Katwa, uma pequena cidade no distrito de Burdwan na Bengala. Sua família também adorava Radha-Krishna, e certa vez quando houve algum desentendimento na sua família sobre serviço devocional, Krishnadasa Kaviraja Goswami foi aconselhado por Nityananda Prabhu num sonho para deixar o lar e ir para Vrindavana. Quando ele estava lá, ele encontrou alguns dos Goswamis, discípulos principais do Senhor Chaitanya Mahaprabhu. Ele foi solicitado a escrever Sri Chaitanya Charitamrita pelos devotos de Vrindavana. Apesar de começar essa obra com idade muito avançada, pela graça do Senhor Chaitanya ele a acabou. Hoje permanece o livro mais autorizado sobre a filosofia e a vida de Chaitanya.

Quando Krishnadasa Kaviraja Goswami viveu em Vrindavana, não havia muitos templos. Naquela época, Madana-mohana, Govindaji e Gopinatha eram os três templos principais. Como residente de Vrindavana, ele ofereceu seus respeitos para as Deidades nesses templos e pediu o favor de Deus: "Meu progresso na vida espiritual é muito lento, por isso eu peço Sua ajuda". No Chaitanya Charitamrita, Krishnadasa primeiro oferece suas reverências a Madana-mohana vigraha, a Deidade que pode nos ajudar em Consciência de Krishna. Na execução da Consciência de Krishna, nossa primeira obrigação é conhecer Krishna e nossa relação com Ele. Para conhecer Krishna é conhecer a si mesmo, e conhecer a si mesmo é conhecer sua relação pessoal com Krishna. Porque essa relação pode ser aprendida por adorar Madana-mohana vigraha, Krishnadasa Kaviraja Goswami primeiro estabelece sua relação com Ele.

Quando isso é estabelecido, Krishnadasa começa a adorar a Deidade funcional, Govinda. Govinda reside eternamente em Vrindavana. No mundo espiritual de Vrindavana as construções são feitas de pedra filosofal, as vacas conhecidas como surabhi, dão leite em abundância, e as árvores são conhecidas como árvores que satisfazem os desejos. porque elas produzem qualquer coisa que alguém desejar. Em Vrindavana, Krishna pastoreia as vacas surabhi, e Ele é adorado por centenas de milhares de gopis, meninas pastoras de vacas, que são todas deusas da fortuna. Quando Krishna descende no mundo material, essa mesma Vrindavana descende justamente igual um séquito acompanha um personagem importante. Porque quando Krishna vem, Sua terra também vem, Vrindavana não é considerada como existente no mundo material. Assim devotos se abrigam em Vrindavana na Índia, que é considerada como uma réplica da Vrindavana original. Apesar de alguém poder reclamar que nenhuma kalpa-vrksa, árvores que satisfazem desejos, existe lá, quando os Goswamis estavam lá, a kalpa-vrksa estava presente. Não é que alguém pode simplesmente ir até tal árvore e fazer demandas, ele deve primeiro se tornar um devoto. Os Goswamis viviam embaixo de uma árvore por uma noite apenas, e as árvores satisfaziam todos os desejos deles. Para um humano comum tudo isso pode parecer muito espantoso, mas à medida que que se faz progresso no serviço devocional, tudo isso pode ser realizado.

Vrindavana é realmente experimentada como ela é por pessoas que pararam de tentar obter prazer do desfrute material. "Quando minha mente ficará limpa de toda ânsia por desfrute material para que eu seja capaz de ver Vrindavana"? Um grande devoto pergunta. Quanto mais conscientes de Krishna nos tornamos e quanto mais nós avançamos, quanto mais tudo é revelado como espiritual. Assim Krishnadasa Kaviraja Goswami considerou Vrindavana na Índia como tão boa como a Vrindavana no céu espiritual, e no Chaitanya Charitamrita, ele descreve Radharani e Krishna sentados em baixo de uma árvore que satisfaz desejos em Vrindavana num trono decorado com jóias preciosas. Os amigos queridos de Krishna, os meninos pastores de vacas e as gopis, servem Radha e Krishna por cantar, dançar, oferecer nozes de bétel e refrescos e decorar Suas Divindades com flores. Mesmo hoje em dia na Índia pessoas decoram tronos e recriam essa cena durante o mês de julho. Geralmente nessa época as pessoas vão a Vrindavana para oferecer seus respeitos às Deidades de lá.

Krishnadasa Kaviraja Goswami mantém que as Deidades de Radha e Krishna nos mostram como servir Radha e Krishna. As Deidades Madana-mohana simplesmente estabelecem que "eu sou Seu servo eterno". Com Govinda, entretanto, há aceitação real do serviço, e portanto Ele é chamado de Deidade funcional. A Deidade Gopinatha é Krishna como mestre e proprietário das gopis. Ele atraiu todas as gopis, ou meninas pastoras de vacas, pelo som da Sua flauta, e quando elas vieram, Ele dançou com elas. Todas essas atividades são descritas no Décimo Canto do Srimad Bhagavatam. Essas gopis eram amigas de infância de Krishna, e todas elas eram casadas, porque na Índia as meninas são casadas com a idade de doze anos. Os meninos, entretanto, não se casam antes dos dezoito anos assim Krishna, que tinha quinze ou dezesseis na época, não era casado. Todavia Ele chamou essas meninas de seus lares e as convidou para dançar com Ele. Essa dança se chama a dança rasa-lila, e é o mais elevado de todos os passatempos de Vrindavana. Krishna por isso é chamado de Gopinatha porque Ele é o mestre adorado das gopis.

Krishnadasa Kaviraja Goswami suplica as bênçãos do Senhor Gopinatha. "Que esse Gopinatha, o mestre das gopis, Krishna, abençoe você. Que você seja abençoado por Gopinatha". Justamente igual Krishna atrai as gopis pelo doce som de Sua flauta, o autor do Chaitanya Charitamrita ora que Ele também atraia a mente do leitor por Sua vibração transcendental. Esse é o propósito deste livro, Ensinamentos do Senhor Chaitanya, transmitir a essência dessa vibração num estudo resumido de fácil leitura.

     

     

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

"Ensinamentos do Senhor Chaitanya"
(Original Sem "Correções")
de
Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya
(2ª Impressão de 1975 - 1ª Edição 1968)

Capítulo Um

Ensinamentos para Rupa Goswami

Srila Rupa Goswami, o irmão mais novo de Sanatana Goswami, foi para Prayaga, a cidade moderna de Allahabad, com seu irmão mais novo Vallabha. Quando os dois irmãos ouviram que o Senhor Sri Chaitanya Mahaprabhu estava lá, ambos ficaram muito felizes e foram ver o Senhor. Nesse momento, o Senhor estava em Seu caminho para visitar o templo Bindumadhava. No caminho para o templo, o Senhor cantava e dançava, e milhares de pessoas O seguiam. Algumas dessas pessoas choravam, e algumas sorriam. Algumas dançavam e algumas cantavam, e algumas caíam no chão, para oferecer reverências ao Senhor. Em todos os casos, todas elas cantavam o nome de Krishna em altos brados. É dito que apesar de estar na confluência dos rios Ganges e Yamuna, Prayaga nunca inundou até o aparecimento de Chaitanya Mahaprabhu, tempo quando a cidade foi inundada pelo amor de Krishna.

Os dois irmãos, Rupa Goswami e Vallabha, ficaram afastados num local sem aglomeração e testemunharam a grande multidão e cena maravilhosa. Quando o Senhor dançava, Ele levantava Seus braços e gritava "Haribol! Haribol"! Todas as pessoas encantadas com Ele estavam admiradas de ver Suas atividades maravilhosas. Depois de visitar o templo, o Senhor aceitou prasada (comida oferecida à Deidade) na casa de um brahmana Deccanista (do Sul). Enquanto estava na casa do brahmana, o Senhor foi visitado por Rupa Goswami e Vallabha. De uma distância, os dois irmãos caíram no chão para oferecer reverências, e eles cantaram muitos versos em sânscrito das escrituras. Quando o Senhor viu Rupa Goswami prestar reverências perante Ele, Ele ficou muito feliz e pediu-lhe para levantar. O Senhor então informou Rupa Goswami da misericórdia sem causa de Krishna para ele, porque Krishna acabou de liberá-lo do modo de vida materialista simplesmente sobre dinheiro-moeda-centavo [pound-shilling-pence].

O Senhor aceitou os dois irmãos como Seus próprios devotos, e Ele citou um verso das escrituras o qual afirma ser possível um brahmana, que estudou os quatro Vedas, não seja aceito como um devoto do Senhor e que um devoto puro pode ter vindo de uma família de classe baixa mas mesmo assim foi aceito por Ele. Então o Senhor abraçou os dois irmãos, e, por Sua misericórdia sem causa, tocou as cabeças deles com Seus pés de lótus. Abençoados desse modo, os irmãos ofereceram preces ao Senhor com suas próprias palavras. As preces indicavam que o Senhor Sri Krishna Chaitanya Mahaprabhu era o Próprio Krishna, que Ele assumiu a forma e semblante esplêndido de Chaitanya e por isso era conhecido como Gauranga (o dourado), e que Ele era a encarnação mais magnânima de Krishna porque distribuía amor de Krishna. Sri Rupa Goswami também citou um verso que posteriormente foi encontrado no livro Govinda-lilamrita (1.2):

yo 'jñana-mattam bhuvanam dayalur
ullaghayann apy akarot pramattam
svaprema-sampat-sudhayadbhuteham
sri-krsna-caitanyam amum prapadye

"Que eu me renda aos pés de lótus de Sri Krishna Chaitanya Mahaprabhu, que é a mais misericordiosa Personalidade de Deus. Ele libera aquelas almas que estão submersas na ignorância e oferece a elas o presente supremo, amor de Krishna, e assim as deixa loucas pela Consciência de Krishna".

Depois desse incidente, Vallabha Bhatta convidou o Senhor para ir ao outro lado do Ganges, e o Senhor foi. Desse momento em diante, onde quer que o Senhor ia, Rupa Goswami O seguia e ficava com Ele. Porque o Senhor Se sentiu incomodado em locais com aglomeração, Ele pediu a Rupa Goswami para acompanhá-Lo até um local na margem do Ganges conhecido como Dashashvamedha-ghata. Por dez dias, Ele instruiu Rupa Goswami sobre a verdade de Krishna, os princípios do serviço devocional e a relação transcendental com Krishna. Tudo isso foi descrito em detalhes plenos para que no futuro Rupa Goswami pudesse distribuir esta ciência de Krishna em seu livro Bhakti-rasamrita-sindhu. De fato, Srila Rupa Goswami descreveu esse incidente no primeiro verso do Bhakti-rasamrita-sindhu, no qual ele fala sobre a misericórdia sem causa do Senhor sobre ele.

O Supremo Senhor é onisciente e todo-poderoso, e por Sua misericórdia sem causa Ele dota de poder um ser vivo para receber Sua misericórdia. Sob o encanto da vida condicionada, as pessoas em geral são aversas a prestar serviço devocional e praticar Consciência de Krishna. De fato, a maioria das pessoas não tem conhecimento dos ensinamentos principais da Consciência de Krishna a respeito da sua relação eterna com a Suprema Personalidade de Deus e o objetivo último da vida, que é retornar ao lar, de volta ao Supremo. Nem as pessoas têm conhecimento sobre o processo pelo qual podem retornar ao mundo espiritual. Porque esses assuntos importantes são desconhecidos para a alma condicionada, o Senhor Chaitanya, por Sua misericórdia sem causa, instruiu Rupa Goswami sobre os princípios do serviço devocional. Depois, para o bem da população em geral, Rupa Goswami distribuiu essa informação da ciência do serviço devocional.

No prólogo do Bhakti-rasamrita-sindhu (1.1.2), Rupa Goswami escreveu o seguinte:

hrdi yasya preranaya
pravartito 'ham varaka-rupo 'pi
tasya hareh pada kamalam
vande caitanyadevasya

"Eu ofereço minhas respeitosas reverências aos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus, conhecido como Senhor Chaitanyadeva, por causa da inspiração Dele, eu sinto o desejo dentro do meu coração de escrever algo sobre serviço devocional. Por essa razão, eu estou dedicado a escrever este livro sobre a ciência da devoção conhecido como Bhakti-rasamrita-sindhu".

Quando Chaitanya começou Suas instruções para Rupa Goswami, Ele primeiro disse a ele, "Meu querido Rupa, a ciência do serviço devocional é justamente igual o grande oceano, e não é possível mostrar a você todo o seu comprimento e largura. Entretanto, Eu tentarei explicar a natureza do oceano por pegar apenas uma gota dele. Dessa forma você poderá saboreá-lo e entender o que o oceano do serviço devocional realmente é".

O Senhor então explicou que dentro deste brahmanda, ou universo, existem inumeráveis seres vivos que, de acordo com suas atividades lucrativas, transmigram de uma espécie a outra e de um planeta a outro. Desse modo, seu encarceramento na existência material continua desde tempos imemoráveis. Na realidade, esses seres vivos são partes e parcelas atômicas do espírito supremo. É dito no Srimad Bhagavatam que o comprimento e largura da alma individual é aproximadamente 1/10.000 parte da ponta de um cabelo - em outras palavras, é tão pequena que é invisível. Isso também é confirmado no Shwetashvatara Upanishad. No Décimo Canto do Srimad Bhagavatam, um dos quatro Kumaras, conhecido como Sanandana, fez o seguinte discurso durante a realização de um grande sacrifício: "Ó Suprema Verdade! Se os seres vivos não fossem fagulhas infinitesimais do espírito supremo, cada fagulha minúscula seria todo-penetrante e não seria controlada por um poder superior. Mas se o ser vivo for aceito como uma parte e parcela minúscula do Supremo Senhor, ele automaticamente se torna controlado por uma energia superior ou poder. A última é a sua verdadeira posição constitucional, e se ele permanecer nessa posição, pode alcançar liberdade plena". (Bhag. 10.87.30). Se alguém por engano considera sua posição como igual da Suprema Personalidade de Deus, torna-se contaminado pela doutrina da não dualidade, e seus esforços na vida transcendental se tornam ineficazes.

O Senhor Chaitanya elaborou sobre esses ensinamentos do Srimad Bhagavatam por apontar que existem dois tipos de seres vivos - o eternamente liberado e o eternamente condicionado. Os seres vivos eternamente condicionados podem ser divididos em dois tipos - móveis e não móveis. Aqueles seres que não podem se mover - como árvores, por exemplo - permanecem num lugar e são classificados como seres não móveis, e os que se movem - como os pássaros e animais - são chamados jangama (seres móveis) e são divididos mais ainda em três categorias: aqueles que voam no céu, aqueles que nadam na água, e os que andam sobre a terra. De muitos milhões e trilhões de seres vivos sobre a terra, seres humanos compreendem somente uma pequena porção. Desse número pequeno de seres humanos, a maioria é totalmente ignorante sobre vida espiritual, não são limpos em seus hábitos e não têm fé na existência da Suprema Personalidade de Deus. Em resumo, a maioria dos seres humanos vive como animais. Isso pode ser realmente deduzido do número de seres humanos que compreendem vida humana ou civilizada. É muito difícil encontrar poucos seres humanos que acreditam nas escrituras e na existência de Deus, ou, para esse propósito, em comportamento apropriado. Aqueles que acreditam no valor dessas coisas são conhecidos como arya, uma palavra que denota aqueles que acreditam no avanço da vida espiritual. Desses que acreditam no valor das escrituras e no avanço da civilização humana, existem duas classes - os justos e os injustos. Aqueles que são justos geralmente executam atividades lucrativas a fim de obter algum resultado benéfico para satisfação sensual, somente poucos chegam a saber sobre a Verdade Absoluta. Esses são chamados jñanis, filósofos empíricos. Entre muitas centenas e milhares desses filósofos empíricos, somente um punhado realmente alcança liberação. Quando alguém é liberado, ele teoricamente entende que o ser vivo não é composto de elementos materiais mas é alma espiritual, distinta da matéria. Por entender teoricamente essa doutrina, a pessoa pode ser liberada, mas na realidade um mukta, ou alma liberada, é aquela que entende sua posição constitucional como um servo eterno do Senhor. Essas almas liberadas se dedicam com fé e devoção no serviço do Senhor, e elas são chamadas krsna-bhaktas, ou pessoas conscientes de Krishna.

Os krsna-bhaktas estão livres de todos desejos materiais. Aqueles que são liberados teoricamente por conhecerem simplesmente que o ser vivo não é material, ainda podem ter desejos materiais, apesar que eles podem ser classificados tecnicamente entre as almas liberadas. Seu desejo principal é se tronarem unos com a Suprema Personalidade de Deus. Geralmente essas pessoas são muito apegadas a rituais Védicos e atividades justas, que eles as realizam a fim de desfrutar prosperidade material. Mesmo quando algum deles transcende desfrute material, eles ainda tentam desfrutar o mundo espiritual por imergirem na existência do Supremo Senhor. Alguns deles também desejam obter poderes místicos através da execução de yoga. Enquanto esses desejos estiverem dentro do coração da pessoa, ela não pode entender a natureza do serviço devocional puro. Quando alguém é constantemente agitado por esses desejos, não é tranqüilo. De fato, enquanto houver qualquer desejo por perfeição material em tudo, a pessoa não pode ficar em paz. Porque os devotos do Senhor Krishna não desejam nada material, eles são as únicas pessoas tranqüilas dentro deste mundo material. Isso é confirmado no Srimad Bhagavatam:

muktanam api siddhanam
narayana-parayanah
sudurlabhah prasantatma
koisv api mahamune

"Ó grande sábio, de muitos milhões de pessoas liberadas e pessoas que alcançaram sucesso no yoga místico, aquela que está completamente devotada à Suprema Personalidade de Deus e que está plena de paz é muito difícil de encontrar". (Bhag. 6.14.5).

Desse modo, o Senhor Chaitanya explicou que de muitos milhares e milhões de seres vivos que vagueiam no mundo material, aquele que pela graça do Senhor Krishna e do mestre espiritual obtém a semente do serviço devocional é muito raro e afortunado. Uma pessoa piedosa ou religiosa é geralmente inclinada a adorar deidades em vários templos, mas se por acaso, mesmo sem seu conhecimento, oferecer suas reverências ao Senhor Vishnu ou receber um favor de um Vaishnava, um devoto do Senhor, nesse momento ela adquire a habilidade necessária para se aproximar da Suprema Personalidade de Deus. Entende-se isso claramente na história da vida do grande sábio Narada, que é relatada no Srimad Bhagavatam. Por servir Vaishnavas em sua vida prévia, Narada foi favorecido pelos devotos do Senhor e se tornou um grande sábio. De fato, entre os sábios, Narada Muni é considerado o maior.

Vaishnavas, ou devotos, geralmente são muito compassivos com as almas condicionadas. Mesmo sem ser convidado, um devoto vai de porta em porta para iluminar as pessoas e trazê-las para fora da escuridão da ignorância por injetar conhecimento da posição constitucional do ser vivo como um servo do Senhor Krishna. Tais devotos recebem o poder do Senhor para distribuir consciência devocional, ou Consciência de Krishna, para as pessoas em geral. Eles são conhecidos como mestres espirituais autorizados, e é pela misericórdia deles que uma alma condicionada obtém a semente do serviço devocional. A misericórdia sem causa da Suprema Personalidade de Deus é primeiramente apreciada quando a pessoa entra em contato com um mestre espiritual fidedigno que pode trazer a alma condicionada para a posição mais elevada do serviço devocional. Por isso o Senhor Chaitanya disse que pela misericórdia do mestre espiritual a pessoa pode alcançar a misericórdia sem causa do Senhor, e pela misericórdia da Suprema Personalidade de Deus, a pessoa pode alcançar a misericórdia do mestre espiritual fidedigno.

Assim, pela misericórdia do mestre espiritual e Krishna, a pessoa recebe a semente do serviço devocional. Ela tem apenas que semear a semente no campo do seu coração, justamente igual um jardineiro semeia a semente de uma árvore preciosa. Depois de semear a semente, a pessoa tem que regá-la na forma do cantar e ouvir o santo nome do Supremo Senhor ou por participar de discussões sobre a ciência do serviço devocional numa sociedade de devotos puros. Quando a planta do serviço devocional brota da semente da devoção, começa a crescer livremente. Quando está plenamente crescida, sobrepassa a largura e comprimento deste universo e entra na atmosfera transcendental, onde tudo é banhado pela refulgência do brahmajyoti. A planta até mesmo penetra esse brahmajyoti e gradualmente entra no planeta conhecido como Goloka Vrindavana. Lá a planta se abriga nos pés de lótus de Krishna. Esse é o objetivo último do serviço devocional. Depois de alcançar essa posição, a planta produz fruto, que é conhecido como o fruto do amor de Deus. Entretanto, é necessário para o devoto, ou jardineiro transcendental, regar com água a planta diariamente por cantar e ouvir. A menos que a pessoa regue a planta por cantar e ouvir, há todas as chances dela secar.

O Senhor Chaitanya alertou Rupa Goswami que há um certo perigo a ser encontrado enquanto se rega a raiz da planta devocional. Depois que a planta crescer um pouco, um animal pode vir e comê-la ou destruí-la. Quando as folhas verdes são tiradas por algum animal, a planta geralmente morre. O animal mais perigoso é o elefante enfurecido, porque se um elefante enfurecido entrar num jardim, ele causará tremendos danos para plantas e árvores. Uma ofensa para um devoto puro do Senhor se chama vaisnavaparadha, a ofensa do elefante enfurecido. Na execução do serviço devocional, uma ofensa aos pés de lótus de um devoto puro pode criar destruição. Assim a pessoa deve defender a planta de bhakti por cuidar dela propriamente e tomar cuidado para não cometer ofensas. Se a pessoa for cautelosa, a planta pode prosperar propriamente.

Existem dez ofensas principais que podem ser cometidas contra o santo nome. A primeira é blasfemar os grandes devotos que tentaram propagar as glórias do santo nome por todo o mundo. O santo nome não é diferente de Krishna, e aquele que tenta propagar os santos nomes por todo o mundo é muito benquisto por Ele. Krishna Mesmo não tolera ofensas contra Seus devotos puros. A segunda ofensa é negar que o Senhor Vishnu é a Verdade Absoluta. Não há diferença entre Seu nome, qualidade, forma, passatempos e atividades, e aquele que vê uma diferença é considerado um ofensor. O Senhor é Supremo, ninguém é igual ou maior que Ele. Conseqüentemente se alguém pensar que os nomes do Senhor não são diferentes dos nomes dos semideuses, é um ofensor. O Supremo Senhor e os semideuses nunca devem ser considerados no mesmo nível.

A terceira ofensa é considerar o mestre espiritual fidedigno como um humano comum. A quarta ofensa é blasfemar a literatura Védica e escrituras autorizadas como os Puranas. A quinta ofensa é considerar as glórias atribuídas aos santos nomes como exageros. A sexta ofensa é inventar teorias pervertidas sobre o santo nome. A sétima ofensa é cometer atividades pecaminosas sob o poder do cantar do santo nome. Entende-se que por cantar os santos nomes a pessoa fica livre de reações pecaminosas, mas isso não significa que deve-se agir pecaminosamente sob o poder do cantar. Isso é uma grande ofensa. A oitava ofensa é considerar rituais religiosos, austeridade, sacrifícios ou outras formas de renúncia iguais ao cantar do santo nome. Cantar os santos nomes é tão bom quanto se associar com a Suprema Personalidade de Deus. Atividades piedosas são apenas meios de abordagem da Suprema Personalidade de Deus, e elas podem até ser executadas por alguma razão material. A nona ofensa é pregar as glórias do santo nome de Deus para uma pessoa sem fé que não está interessada em ouvi-las. A décima e última ofensa é manter apego material mesmo depois de ouvir e cantar os santos nomes de Deus. A idéia é que por cantar o santo nome sem ofensa, pode-se obter elevação para a plataforma liberada. Na plataforma liberada, a pessoa fica livre de todo apego material. Por isso que se alguém canta os santos nomes e ainda tem apegos materiais, ele deve cometer alguma ofensa.

Existem também outros fatores que perturbam a planta do serviço devocional. Junto com essa planta, as ervas daninhas dos desejos materiais também crescem. Quando a pessoa avança em bhakti, é natural que muitas pessoas venham até ele pedir para se tornarem seus discípulos e lhe oferecerão alguns ganhos materiais. Se alguém estiver atraído a um grande número de discípulos e conveniências materiais oferecidas por esses discípulos e esquece seu dever como um mestre fidedigno, o crescimento da planta é impedido. Simplesmente por aproveitar a vantagem das conveniências materiais, pode-se ficar viciado em desfrutar os confortos materiais.

Também é considerado desvantajoso desejar liberação. O único desejo tem que ser o desejo de prestar serviço. Negligenciar restrições e proibições também é desvantajoso. As proibições são mencionadas nas escrituras autorizadas: A pessoa não deve se entregar à vida sexual ilícita, intoxicação, comer carne ou jogos de azar. Essas coisas são proibidas para alguém que tenta o serviço devocional. Se a pessoa não segue esses princípios estritamente, pode ocorrer uma perturbação severa na execução do serviço devocional.

Se a pessoa não for particularmente cuidadosa, mesmo se continua a regar a planta do serviço devocional, ervas daninhas desnecessárias crescerão e impedirão o progresso. A idéia é quando alguém rega um jardim, não somente a planta desejada cresce mais rápido, mas as plantas indesejadas também crescem. Se o jardineiro não enxergar esses impedimentos e removê-los, eles cobrirão e sufocarão a planta da devoção. Se, entretanto, a pessoa for cuidadosa em proteger contra o crescimento de plantas indesejadas, a planta da devoção cresce exuberantemente e alcança o objetivo último, Goloka Vrindavana. Quando o ser vivo dedicado ao serviço devocional saboreia o fruto do amor do Supremo, ele esquece todos os rituais religiosos e melhorias em sua condição econômica. Ele não deseja mais satisfazer seus sentidos, e ele não mais deseja se tornar uno com o Supremo Senhor por imergir em Sua refulgência.

Existem muitas fases do conhecimento espiritual e bem-aventurança transcendental. Em uma plataforma, existem os sacrifícios ritualísticos recomendados nos Vedas, a execução de austeridades e deveres piedosos, e a prática do yoga místico. Todos esses concedem diferentes resultados para seu realizador. As recompensas dessas práticas, entretanto, parecem ser muito glamorosas enquanto a pessoa não está elevada para o serviço amoroso transcendental do Senhor. Amor de Deus está dormente em todos, e pode ser despertado de sua posição dormente pela execução do serviço devocional puro, justamente igual uma pessoa picada por uma serpente pode ser despertada com amônia.

Depois de falar desse modo sobre serviço devocional, o Senhor Chaitanya começou a descrever serviço devocional e seus sintomas para Rupa Goswami. Ele explicou que em serviço devocional puro não pode haver nenhum desejo outro do que o desejo de avançar em Consciência de Krishna. Em Consciência de Krishna não há escopo para adoração de nenhum semideus ou qualquer outra forma de Krishna, nem há espaço para se entregar a filosofia empírica especulativa, nem se entregar a atividades lucrativas. A pessoa tem que estar livre de todas essas contaminações. Um devoto deve aceitar somente aquelas coisas que são favoráveis para manter seu corpo e alma juntos e deve rejeitar aquelas coisas que incrementam as demandas do corpo. Somente as necessidades básicas para a manutenção corpórea devem ser aceitas. Por minimizar necessidades corpóreas, a pessoa pode primeiramente devotar seu tempo para o cultivo da Consciência de Krishna por meio do cantar dos santos nomes de Deus. Serviço devocional puro significa dedicar todos os sentidos do corpo no serviço do Senhor. No presente momento, nossos sentidos estão todos designados porque o corpo é designado. Conseqüentemente nós pensamos que este corpo pertence a uma sociedade particular ou um país particular ou uma família particular. Desse modo, o corpo é limitado por muitas designações. Similarmente, os sentidos pertencem ao corpo, e quando o corpo está sujeito a essas designações, os sentidos também estão. Assim os sentidos se dedicam em prol de família, sociedade, nação e assim por diante. Quando estão assim dedicados, não podem cultivar Consciência de Krishna. Os sentidos precisam ser purificados, isso é possível quando a pessoa entende puramente que ela pertence a Krishna e que sua vida pertence a Krishna. Desse modo, a pessoa pode dedicar seus sentidos no serviço do Senhor. Tal dedicação se chama serviço devocional puro.

Um devoto puro aceita o serviço amoroso transcendental do Senhor mas rejeita todos os tipos de liberação para seu prazer sensual pessoal. No Srimad Bhagavatam (3.29.11-13), o Senhor Kapila explica, logo que um devoto puro ouve as glórias e qualidades transcendentais da Suprema Personalidade de Deus, que está sentado no coração de todos, sua mente imediatamente flui em direção ao Senhor, justamente igual a água do Ganges flui em direção ao mar. Essa atração espontânea para o serviço da Suprema Personalidade de Deus é o mais importante para serviço devocional puro. Serviço devocional é puro quando a pessoa se dedica no serviço do Supremo Senhor sem nenhum motivo e sem ser dificultado por impedimentos materiais. O devoto puro não deseja viver no mesmo planeta que o Supremo Senhor, nem deseja a mesma opulência do Senhor, nem deseja ter a mesma forma do Senhor, nem viver com Ele lado a lado, nem imergir na existência Dele, etc.. Mesmo se foram oferecidas essas recompensas ao devoto pelo Senhor, ele as rejeita. O ponto é que um devoto é tão absorto no serviço amoroso transcendental do Senhor que não tem tempo para pensar em qualquer benefício além de sua ocupação imediata. Justamente igual um homem de negócios materialista ordinário pensa em nada mais quando está absorto em seu trabalho, um devoto puro, quando dedicado no serviço do Senhor, não pensa em nada além dessa ocupação.

Se alguém está absorto na prestação do serviço, deve ser entendido como elevado à posição mais alta de bhakti. Por esse serviço amoroso transcendental somente a pessoa sobrepassa a influência de maya e saboreia amor puro de Deus. Logo que alguém deseja benefício material ou liberação, que são chamadas as duas bruxas da sedução, não pode saborear o serviço amoroso transcendental para o Supremo Senhor.

Existem três estágios do serviço devocional. O primeiro é o estágio inicial de cultivo, o segundo é a realização do serviço, e o terceiro, o estágio supremo, é a realização do amor de Deus. Existem nove métodos de cultivo do serviço devocional - tais quais ouvir, cantar, lembrar, etc. - e todos esses processos são empregados no primeiro estágio. Se a pessoa se dedicar a ouvir e cantar com devoção e fé, suas apreensões materiais gradualmente se tornam aniquiladas. À medida que sua fé no serviço devocional incrementa, ela fica assegurada com uma posição de perfeição mais elevada. Desse modo, a pessoa pode ficar firmemente fixa na devoção, incrementar seu gosto por ela, tornar-se apegada e sentir êxtase. Esse êxtase ocorre no estágio preliminar de amor do Supremo. A obtenção do êxtase é produzida pela execução do serviço devocional. Quando a pessoa continua o processo de ouvir e cantar, o apego cresce e assume o nome de amor de Deus.

Quando a pessoa atinge o terceiro estágio do amor de Deus transcendental, ocorrem mais desenvolvimentos conhecidos como afeição, emoção, êxtase, e apego extremo e intenso transcendentais. Esses são conhecidos tecnicamente pelos termos raga, anuraga, bhava e mahabhava. O progresso de um estágio a outro pode ser comparado a engrossar o caldo de cana-de-açúcar. No primeiro estágio, o caldo de cana-de-açúcar é igual a um líquido ralo. Depois, pela evaporação, ele se torna mais e mais espesso, e se transforma em melado. Finalmente, ele se transforma em grânulos e se torna açúcar, cubos de açúcar e assim por diante. Justamente igual o caldo de cana-de-açúcar progride de um estágio a outro, similarmente amor transcendental pelo Supremo Senhor se desenvolve por estágios.

Quando a pessoa se torna realmente situada na plataforma transcendental, ela se torna fixa. A menos que esteja assim situada, sua posição pode não ser firme e ela pode cair. Esse estágio de compreensão é tecnicamente chamado sthayi-bhava. Existem estágios ainda além dessa posição, são conhecidos como vibhava, anubhava, sattvika e vyabhicari. Depois que a pessoa atinge esses, existe realmente um intercâmbio de rasa, ou atividade transcendental com o Supremo Senhor. Esse intercâmbio em reciprocidade amorosa entre o amante e o amado é geralmente chamado de krsna-bhakti-rasa. Deve-se notar que os intercâmbios amorosos transcendentais ficam na posição firme de sthayi-bhava, como explicado antes. Esse princípio básico de vibhava é sthayi-bhava, e todas as outras atividades são auxiliares para o desenvolvimento do amor transcendental.

O êxtase do amor transcendental tem dois componentes - o contexto e a causa da excitação. O contexto também é divido em duas partes - o sujeito e o objeto. O intercâmbio do serviço devocional é o sujeito, e Krishna é o objeto. As qualidades transcendentais são a causa da excitação. Isso significa que as qualidades transcendentais de Krishna excitam o devoto a servi-Lo. Os filósofos impersonalistas (Mayavadi) dizem que a Verdade Absoluta não tem qualidades específicas, mas os filósofos Vaishnavas dizem que a Verdade Absoluta é descrita como nirguna (sem qualidades) porque Ele não tem qualidades materiais. Isso não quer dizer que Ele não tem qualidades espirituais. Na realidade, as qualidades espirituais do Senhor são tão grandiosas e tão encantadoras que podem atrair até mesmo uma pessoa liberada. Isso é explicado no verso atmarama do Srimad Bhagavatam onde está dito, aqueles que já estão situados na plataforma da auto-realização são atraídos pelas qualidades transcendentais de Krishna. Isso significa que as qualidades de Krishna não são materiais e sim puras e transcendentais.

O estágio mais elevado de êxtase pode ser caracterizado pelas seguintes treze atividades transcendentais: (1) dançar, (2) rolar no chão, (3) cantar, (4) bater palmas, (5) arrepio dos pêlos do corpo, (6) brado retumbante, (7) bocejar, (8) respiração pesada, (9) esquecimento de convenções sociais, (10) salivar, (11) rir, (12) aflição, (13) tosse. Todos esses sintomas não são despertos simultaneamente, eles atuam de acordo com o intercâmbio das relações transcendentais. Às vezes, um sintoma é proeminente, e em outro momento, outro é proeminente.

Os rasas transcendentais, ou relações, podem ser divididos em cinco. O estágio inicial é chamado santa-rati, onde alguém que é liberado da contaminação material aprecia a grandeza da Suprema Personalidade de Deus. Alguém que alcança esse estágio não exatamente se dedica ao serviço amoroso transcendental do Senhor, pois esse é um estágio neutro. No segundo estágio, que é chamado dasya-rati, uma pessoa aprecia sua posição de ser para sempre subordinada ao Supremo Senhor, e ela entende que é eternamente dependente da misericórdia sem causa da Pessoa Suprema. Ao mesmo tempo há um despertar da afeição natural, igual a sentida por um filho que cresce e começa a apreciar as bênçãos de seu pai. Nesse estágio, o ser vivo quer servir o Supremo Senhor em vez de servir maya, ilusão. No terceiro estágio, chamado sakhya-rati, o amor transcendental é desenvolvido, e a pessoa se associa com o Supremo num nível igual de amor e respeito. Quando esse estágio se desenvolve mais, há brincadeiras e intercâmbios descontraídos desse modo tais quais rir e assim por diante. Nesse nível, existem intercâmbios fraternos com a Pessoa Suprema, e a pessoa fica livre de todo o cativeiro. Nesse estágio a pessoa praticamente esquece sua posição inferior como ser vivo, mas ao mesmo tempo ela tem o maior respeito pela Pessoa Suprema.

No quarto estágio, chamado vatsalya-rati, a afeição fraternal evidenciada no estágio precedente desenvolve em afeição paternal. Nesse momento, o ser vivo tenta ser pai ou mãe de Deus. Em vez de adorar o Senhor, o ser vivo, como pai ou mãe do Supremo, torna-se um objeto de adoração da Pessoa Suprema. Nesse estágio, o Senhor depende da misericórdia de Seu devoto puro e Se coloca sob o controle do devoto para ser criado. O devoto nesse estágio alcança a posição onde pode abraçar o Supremo Senhor e até mesmo beijá-Lo na cabeça. No quinto estágio, chamado madhura-rati, existe um verdadeiro intercâmbio transcendental de amor conjugal entre a amante e o amado. É nesse estágio que Krishna e as donzelas de Vraja olhavam um para o outro, porque nessa plataforma existe uma troca de olhares amorosos, movimentos dos olhos, palavras agradáveis, sorrisos atraentes, etc..

Além desses cinco rasas primários, ou relacionamentos, existem sete rasas secundários que consistem em rir, ter visões maravilhosas, entrar numa relação cavalheiresca, experimentar dó, sentir raiva e experimentar pavor e devastação. Por exemplo, Bhisma se relacionou com Krishna como um guerreiro em rasa cavalheiresca. Hiranyakashipu, entretanto, experimentou um intercâmbio dos rasas de pavor e devastação. Os cinco primeiros rasas permanecem constantemente dentro do coração do devoto puro, e os sete rasas secundários às vezes aparecem e desaparecem para enriquecer os sabores e gostos dos primeiros. Depois de enriquecerem os rasas primários, eles desaparecem.

Exemplos de santa-bhaktas, ou devotos no estágio neutro, são os nove yogis chamados Kavi, Havi, Antariksha, Prabuddha, Pippalayana, Avirhotra, Dravida ou Drumila, Chamasa e Karabhajana. Os quatro Kumaras (Sanaka, Sanandana, Sanatkumara e Sanatana) também são exemplos desse estágio. Exemplos de devotos no segundo estágio, o estágio dasya de servidão, são Raktaka, Chitraka e Patraka no rasa de Gokula. Todos esses têm a função de servos de Krishna. Em Dwaraka, há Daruka, e nos planetas Vaikuntha há Hanuman e outros. Devotos no terceiro estágio, o estágio da amizade, estão Shridama em Vrindavana, e Bhima e Arjuna em Dwaraka e no campo de batalha em Kurukshetra. Também existem muitos outros. No que diz respeito àqueles com relação de amor paternal e maternal com Krishna, inclui devotos como Yashoda e Maharaja Nanda - ou seja, pai, mãe, tio e parentes similares. No amor conjugal, existem as donzelas de Vraja, Vrindavana, e as rainhas e deusas da fortuna em Dwaraka. Ninguém pode contar o vasto número de devotos nesse rasa.

O apego a Krishna também pode ser quebrado em duas categorias. Numa plataforma existe apego com reverência e veneração. Esse tipo de apego pode ser caracterizado por uma certa carência de liberdade, e é exibido em Mathura e nos planetas Vaikuntha. Nessas moradas do Senhor, o espírito do serviço amoroso transcendental é restrito. Entretanto, em Gokula Vrindavana, o amor é intercambiado livremente, e apesar dos meninos pastores de vacas e as donzelas de Vrindavana saberem que Krishna é a Suprema Personalidade de Deus, eles não mostram reverência e veneração por causa da grande intimidade da sua relação com Ele. Nos cinco principais relacionamentos transcendentais, reverência e veneração às vezes são impedimentos que obscurecem a verdadeira grandeza do Senhor e às vezes impedem realmente o serviço da pessoa para o Senhor. Quando existe amizade, afeição paternal maternal e amor conjugal, todavia, essa reverência e veneração são reduzidas. Por exemplo, quando Krishna apareceu como filho de Vasudeva e Devaki, Seus pais oraram ao Senhor com reverência e veneração porque eles entenderam que o Supremo Senhor Krishna ou Vishnu apareceu perante eles como seu pequeno filho. Isso é confirmado no Srimad Bhagavatam (10.44.51). Apesar do Supremo Senhor estar presente perante eles como seu filho, Devaki e Vasudeva começaram a orar para Ele. Similarmente, quando Arjuna viu a forma universal do Senhor, ele ficou com tanto medo que implorou perdão por seus relacionamentos com Krishna como seu amigo íntimo. Como um amigo, Arjuna freqüentemente se comportava sem cerimônia com o Senhor, e quando viu a impressionante forma universal, Arjuna disse:

sakheti matva prasabham yad uktam
he krsna he yadava he sakheti
ajanata mahimanam tavedam
maya pramadat pranayena vapi

yac cavahasartham asatkrto 'si
vihara-sayyasana-bhojanesu
eko 'thavapy acyuta tat-samaksam
tat ksamaye tvam aham aprameyam

"Anteriormente no passado, eu O chamei "ó Krishna", "ó Yadava", "ó meu amigo", sem conhecer Suas glórias. Por favor perdoe qualquer coisa que fiz por loucura ou por amor. Eu O desrespeitei tantas vezes enquanto relaxava ou enquanto deitava na mesma cama ou comíamos juntos, às vezes sozinho e às vezes na frente de muitos amigos. Por favor me perdoe por todas minhas ofensas". (Bg. 11.41-42).

Similarmente, quando Krishna fez brincadeiras com Rukmini, ela temia que Krishna poderia deixá-la e ficou tão perturbada que largou o abano com que O abanava e desmaiou, caiu inconsciente no chão. Em relação a Yashoda, a mãe de Krishna em Vrindavana, está afirmado no Srimad Bhagavatam (Bhag. 10.8.45):

trayya copanisadbhis ca
sankhya-yogais ca satvataih
upagiyamana-mahatmyam
harim samanyatatmajam

A Personalidade de Deus, que é adorada por todos os Vedas e Upanishads, e também pelo sistema de filosofia sankhya e todas as escrituras autorizadas, foi considerado como nascido do ventre dela. Também é dito (Bhag. 10.9.12) que Mãe Yashoda amarrou a criança Krishna com uma corda, como se Ele fosse uma criança ordinária nascida do seu corpo. Similarmente, há outras descrições de Krishna sendo tratado como uma pessoa ordinária (Bhag. 10.18.24). De fato, quando Ele era derrotado em jogos com Seus amigos, os meninos pastores de vacas, Krishna os carregava - notavelmente Shridama - em Seus ombros.

Sobre os relacionamentos das gopis com Sri Krishna em Vrindavana, é descrito (Bhag. 10.30.36-40) que quando Sri Krishna levou Srimati Radhika sozinha da dança rasa, Ela pensou que Krishna deixou todas as outras gopis. Apesar de todas serem igualmente lindas, Ele A satisfez desse modo, e Ela começou a pensar orgulhosamente, "Meu querido Senhor Krishna deixou as lindas gopis, e Ele está satisfeito Comigo sozinha". Na floresta, Ela disse para Krishna, "Meu querido Krishna, Eu não consigo mais Me mover. Agora se Você quiser, pode Me levar para onde Você desejar". Krishna respondeu, "Venha e encoste no Meu ombro", e logo que disse isso, Ele desapareceu, e por isso Srimati Radhika lamentou imensamente.

Quando Krishna desapareceu da cena na dança rasa, todas as gopis começaram a se arrepender, e disseram, "Querido Krishna! Nós viemos aqui e deixamos de lado nossos esposos, filhos, familiares, irmãos e amigos! Negligenciamos os conselhos deles, e viemos até Você, e Você sabe muito bem a razão de nós virmos aqui. Você sabe que nós viemos porque estamos cativadas pelo som doce da Sua flauta. Mas Você é tão ardiloso que na calada da noite, Você abandonou meninas e mulheres como nós! Isso não é muito bom para Você".

A palavra sama significa controlar a mente e mantê-la de ser divergida em vários modos por fixá-la na Suprema Personalidade de Deus. Quando a mente da pessoa está fixa no Supremo Senhor, ela é reconhecida como situada na plataforma sama. Nessa plataforma, o devoto entende que Krishna é o princípio básico por trás de tudo que está dentro da sua experiência. Isso também é explicado no Bhagavad-gita (Bg. 7.19). Essa pessoa pode entender que Krishna está presente em tudo e é distribuído por toda a manifestação cósmica. Apesar de tudo estar sob o controle do Supremo Senhor e estar situado em Sua energia, tudo é no entanto diferente de Krishna em Sua forma pessoal. Também é afirmado no Bhakti-rasamrita-sindhu aquele que entende isso, cuja inteligência está fixa em Krishna, alcançou a plataforma de sama. Mais ainda, a Suprema Personalidade de Deus diz: samo mannisthata buddheh: A menos que a pessoa seja elevada à plataforma de santa-rati, não pode ser fixa no conhecimento da grandeza de Krishna ou da difusão de Suas diferentes energias, que são a causa de todas as manifestações. Esse mesmo ponto é explicado no Srimad Bhagavatam (Bhag. 11.19.36):

samo mannisthata buddheh
dama indriya-samyamah
titiksa duhkha-sammarso
jihvooastha jayo dhrtih

Estabilidade da mente pode ser alcançada por quem concluiu que a Suprema Personalidade de Deus é a fonte original de tudo. E quando a pessoa pode controlar seus sentidos, isso se chama sama. Quando a pessoa está pronta para tolerar todos os tipos de sofrimento a fim de controlar seus sentidos e manter a mente firme, isso se chama titiksa, ou tolerância. E quando alguém pode controlar os impulsos da língua e genitais, isso se chama dhrtih. De dhrtih, a pessoa se torna dhira, pacificada. Uma pessoa pacificada nunca é perturbada pelos impulsos da língua e dos genitais.

Se a pessoa puder fixar sua mente em Krishna sem desvio, pode alcançar uma posição firme em Consciência de Krishna, santa-rasa. Quando alguém alcança santa-rasa, fé inabalável em Krishna é estabelecida, e todos os desejos materiais cessam. Essas características específicas de santa-rasa - fé inabalável em Krishna e cessação de todos desejos materiais que não estão conectados com Krishna - são comuns para todos os outros rasas também, justamente igual o som é geralmente presente em todos os outros elementos (ar, fogo, água e terra) porque é produzido do céu. Similarmente, essas duas características de santa-rasa estão presentes em todas as relações transcendentais, como dasya (servidão), sakhya (fraternidade), vatsalya (afeição maternal paternal), e madhura-rasa (amor conjugal).

Quando falamos sobre não-Krishna, ou desejo que não tem conexão com Krishna, isso não significa que qualquer coisa exista sem Krishna. Na realidade, não pode existir nada "não-Krishna" porque tudo é produto da energia de Krishna. Porque Krishna e Suas energias são idênticos, tudo é Krishna indiretamente. Por exemplo, consciência é comum para todo ser vivo, mas quando a consciência é puramente centrada em Krishna (Consciência de Krishna), é pura, e quando a consciência é centrada em algo mais além de Krishna, ou quando é direcionada para prazer sensual, pode ser chamada de consciência de não-Krishna. Por isso que é no estado poluído que o conceito de não-Krishna vem. No estado puro, entretanto, não existe nada além da Consciência de Krishna.

Interesse ativo em Krishna - a compreensão de que Krishna é meu ou que eu sou de Krishna e que portanto minha obrigação é satisfazer os sentidos de Krishna - é típico de um estágio mais elevado do que a neutralidade de santa-rasa. Simplesmente por compreender a grandeza de Krishna, pode-se conquistar o status de santa-rasa, no qual o objeto adorado pode ser o Brahman impessoal ou Paramatma. Adoração do Brahman impessoal ou Paramatma é conduzida por aqueles engajados em especulação filosófica empírica e yoga místico. Todavia, quando se desenvolve mais ainda na Consciência de Krishna, ou compreensão espiritual, pode-se apreciar que o Paramatma, a Superalma, é o objeto adorável eterno, e se rende a Ele. Bahunam janmanam ante jñanavan mam prapadyate (Bg. 719): "Depois de muitos e muitos nascimentos de adoração a Brahman e Paramatma, quando a pessoa se rende a Vasudeva como o mestre supremo e se aceita como um servo eterno de Vasudeva, torna-se uma grandiosa alma realizada transcendentalmente". Nesse momento, devido à sua sólida e refinada relação com a Suprema Verdade Absoluta, a pessoa começa a render algum tipo de serviço amoroso transcendental à Suprema Personalidade de Deus. Assim a relação neutra conhecida como santa-rasa se transforma em dasya-rasa, servidão.

Na plataforma de dasya-rasa, a grande quantidade de reverência e veneração do Supremo Senhor é exibida. Isso é, no dasya-rasa, a grandeza do Supremo Senhor é apreciada. Deve-se notar aqui que na plataforma de santa-rasa não existe atividade espiritual, mas na plataforma de dasya-rasa, o serviço começa. Assim no dasya-rasa a qualidade de santa-rasa é exibida e, em adição, existe consciência do sabor transcendental do serviço.

Qualidades transcendentais estão certamente presentes em santa-rasa e dasya-rasa, mas além dessas existe outra qualidade, apego confidencial, que é amor transcendental puro. Essa confiança amorosa na Suprema Personalidade é tecnicamente conhecida como visrambha. Na plataforma de visrambha, fraternidade, não existe senso de reverência e veneração para a Suprema Personalidade de Deus. Assim na relação fraternal transcendental conhecida como sakhya-rasa, existem três características transcendentais: o senso de grandeza, o senso de serviço, e o senso de intimidade sem reverência ou veneração. Assim no sakhya-rasa, o relacionamento de fraternidade, as qualidades transcendentais são incrementadas mais ainda.

Similarmente, na plataforma de afeição maternal paternal (vatsalya-rasa) existem quatro qualidades. Em adição às três qualidades já mencionadas, existe o senso de que o Supremo Senhor é dependente da misericórdia do devoto. Como um pai ou mãe da Suprema Personalidade de Deus, o devoto às vezes castiga o Senhor e se considera como o mantenedor do Senhor. Esse senso transcendental de ser o mantenedor do supremo mantenedor é muito agradável tanto para o devoto quanto para o Supremo Senhor.

O Senhor instruiu Srila Rupa Goswami a escrever a literatura transcendental chamada Bhakti-rasamrita-sindhu, a ciência do serviço devocional, e indicou aqui a essência desses cinco relacionamentos transcendentais. É explicado nessa grandiosa literatura como o relacionamento transcendental de santa-rasa, que toma a forma de fé inabalável em Krishna, desenvolve-se mais em dasya-rasa com o espírito de serviço, e depois para sakhya-rasa ou fraternidade destemida, e mais ainda na plataforma transcendental de amor maternal paternal, onde a pessoa se sente como o mantenedor do Senhor. Todos esses relacionamentos culminam na plataforma mais elevada do amor conjugal (madhura-rasa), onde todos esses relacionamentos transcendentais existem simultaneamente.

     

     

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

"Ensinamentos do Senhor Chaitanya"
(Original Sem "Correções")
de
Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya
(2ª Impressão de 1975 - 1ª Edição 1968)

Capítulo Dois

Sanatana Goswami

vande 'nantadbhutaisvaryam
sri-caitanya-mahaprabhum
nico 'pi yat-prasadat syad
bhakti-sastra-pravartakah

Eu ofereço minhas respeitosas reverências ao Senhor Chaitanya Mahaprabhu, por cuja misericórdia mesmo uma pessoa na forma de vida mais baixa pode encontrar direção no serviço devocional transcendental do Senhor. [Cc. Madhya 20.1].

Depois que o Senhor Chaitanya aceitou a ordem de vida da renúncia (sannyasa), Ele viajou por toda a Índia. Durante esse período, Ele foi para Maldah, um distrito na Bengala. Nessa área havia uma vila chamada Ramakeli, onde dois ministros do governo do Nawab Hussain Shah viviam. Esses dois ministros eram Dabira Khasa e Sakara Mallika, que depois foram renomeados Sanatana Goswami e Rupa Goswami. Inspirados pelo Senhor Chaitanya, eles decidiram se retirar do serviço do governo e se juntar a Seu movimento sankirtana.

Ao tomarem essa decisão, os dois irmãos imediatamente deram passos para deixar suas obrigações materiais, e eles nomearam dois brahmanas eruditos para executarem certos rituais religiosos Védicos que os capacitaria a alcançar liberdade completa para o serviço devocional de Krishna. Essas atividades preliminares são conhecidas como purascarya. Essas funções ritualísticas demandam que por três vezes ao dia a pessoa adore e ofereça respeitos a seus antepassados, ofereça oblações ao fogo, e respeitosamente ofereça comida a um brahmana erudito. Cinco itens - adoração, oferecer respeito, oferecer oblação ao fogo e oferecer comida a um brahmana - compreendem purascarya. Esses e outros rituais são mencionados no hari-bhakti-vilasa, o livro autoridade das instruções.

Depois de executarem esses rituais religiosos, o irmão mais novo, Sakara Mallika (Rupa Goswami), voltou para casa com uma imensa quantidade de dinheiro que ele angariou durante seu serviço no governo. De fato, as moedas de prata e ouro que ele trouxe encheram um barco grande. Depois de chegar à sua casa, ele dividiu a riqueza acumulada primeiro ao meio e distribuiu uma parte aos brahmanas e Vaishnavas. Assim para a satisfação da Suprema Personalidade de Deus, ele distribuiu cinqüenta por cento de sua fortuna acumulada para pessoas dedicadas no serviço amoroso transcendental do Supremo Senhor. Brahmanas se destinam a compreender a Verdade Absoluta, logo que compreendem a verdade e realmente se dedicam no serviço amoroso do Senhor, podem ser chamados de Vaishnavas. Tanto os brahmanas quanto os Vaishnavas devem estar plenamente dedicados no serviço transcendental, e Rupa Goswami, por considerar a posição transcendental importante deles, deu-lhes cinqüenta por cento de sua fortuna. Os cinqüenta por cento restantes foram novamente divididos ao meio - ele distribuiu uma parte para seus familiares e membros da família dependentes, e a outra ele manteve para emergências pessoais.

Essa distribuição de fortuna pessoal é muito instrutiva para todos que desejam ser elevados em conhecimento espiritual. Geralmente uma pessoa deixa toda sua fortuna acumulada para seus membros familiares e depois se aposenta das atividades familiares a fim de fazer progresso no conhecimento espiritual. Aqui, todavia, encontramos o comportamento de Rupa Goswami como exemplar; ele doou cinqüenta por cento de sua fortuna para propósitos espirituais. Isso deve servir de exemplo para todos. Os vinte e cinco por cento de sua fortuna acumulada que ele guardou para emergências pessoais foram depositados numa boa empresa de negócios, porque naqueles dias não havia bancos. Dez mil moedas foram depositadas para despesas incorridas pelo seu irmão mais velho, Sanatana Goswami.

Nesse momento, Rupa Goswami recebeu informação que o Senhor Chaitanya Mahaprabhu Se preparava para proceder para Vrindavana de Jagannatha Puri. Rupa Goswami enviou dois mensageiros para obter informação real do itinerário do Senhor, ele fez seus próprios planos para ir a Mathura a fim de encontrar o Senhor. Parece que Rupa Goswami obteve permissão para se unir ao Senhor Chaitanya, mas Sanatana Goswami não conseguiu. Assim Sanatana Goswami confiou as responsabilidades de seu serviço governamental para seus assistentes imediatos, e permaneceu em casa para estudar Srimad Bhagavatam. De fato, ele contratou dez ou dozes brahmanas eruditos e começou um estudo intensivo do Srimad Bhagavatam na companhia deles. Enquanto estava assim ocupado, ele mandava atestados médicos para seu patrão, o Nawab. Contudo, o soberano estava tão ansioso pelo conselho de Sanatana Goswami nos assuntos governamentais que apareceu subitamente na casa dele. Quando o Nawab entrou na casa onde Sanatana Goswami e os brahmanas estavam reunidos, todos eles levantaram para recebê-lo respeitosamente, e ofereceram a ele um lugar para sentar.

"Você enviou atestados médicos", o Nawab disse a Sanatana Goswami: "Mas eu mandei meu médico para examiná-lo, e ele relatou que você não tem nenhuma doença mesmo. Eu não sei porque você mandou atestados médicos e não foi ao seu trabalho, por isso eu vim pessoalmente para vê-lo. Francamente, estou muito preocupado com seu comportamento. Como você sabe, eu sou completamente dependente de você e de seu trabalho responsável no governo. Eu era livre para atuar em outros assuntos porque dependia de você, mas se você não se unir a mim, sua devoção passada será arruinada. Agora, qual é a sua intenção? Diga-me por favor".

Ao ouvir isso, Sanatana Goswami respondeu que estava incapacitado para continuar no trabalho e seria muito gentil do Nawab apontar alguém mais para executar o trabalho que lhe foi confiado. Ao ouvir isso, o Nawab ficou muito bravo e disse, "Seu irmão mais velho vive como um caçador, e se você se retirar da administração, tudo estará acabado". Foi dito que o Nawab costumava tratar Sanatana Goswami como um irmão mais novo. Porque o Nawab estava principalmente engajado em conquistar diferentes partes do país e também em caçar, ele dependia imensamente de Sanatana Goswami para a administração governamental. Assim ele implorou a ele: "Se você também se retirar do serviço governamental, como será a administração"?

"Você é o governador de Gauda", Sanatana Goswami respondeu gravemente, "e você pune diferentes tipos de criminosos de diferentes modos. Assim você tem liberdade para punir qualquer um de acordo com sua atividade". Com essa resposta, Sanatana Goswami indicava porque o governador estava engajado e caçar animais e em matar pessoas para expandir seu reino, que ambos então sofressem pelos atos que realizavam.

O Nawab era inteligente, e ele entendeu o propósito de Sanatana Goswami. Ele saiu da casa num humor raivoso, e pouco tempo depois, saiu para conquistar Orissa. Ele ordenou a prisão de Sanatana Goswami e mandou que ficasse detido até seu retorno. Depois de saber que seu irmão mais velho foi preso pelo Nawab, Rupa Goswami mandou a informação que dez mil moedas estavam mantidas em custódia dum comerciante em Gauda (Bengal) e esse dinheiro poderia ser usado como resgate para seu irmão. Sanatana também ofereceu cinco mil moedas para o carcereiro da cadeia onde ele era mantido em custódia. Ele avisou o carcereiro para aceitar felizmente as cinco mil moedas dele e deixá-lo ir porque ao aceitar o dinheiro ele não apenas seria materialmente beneficiado mas também agiria muito nobremente por libertar Sanatana para propósitos espirituais.

"Claro que posso deixar você ir", o carcereiro respondeu, "porque você prestou muitos serviços para mim, e você está no serviço governamental. Entretanto, tenho medo do Nawab. O que fará ele quando souber que você está livre? Terei que explicar tudo a ele. Como posso aceitar esta proposta"? Sanatana então inventou uma história que o carcereiro podia contar para o Nawab - de como ele tinha escapado - e ele elevou sua oferta para dez mil moedas. Ganancioso pelo dinheiro, o carcereiro concordou com a proposta e o deixou ir. Nesse meio tempo, Rupa Goswami, com seu irmão mais novo Sri Vallabha, partiram para Vrindavana a fim de encontrar Chaitanya Mahaprabhu.

Sanatana então procedeu para ver o Senhor. Ele não viajou por estradas abertas mas através das selvas até que chegou a um lugar em Bihar chamado Patada. Lá, descansou num hotel, mas o hoteleiro foi informado por um empregado astrólogo que Sanatana Goswami tinha algumas moedas de ouro com ele. O hoteleiro, desejoso de pegar o dinheiro, falou para Sanatana com aparente respeito.

"Justamente descanse essa noite", disse a ele, "e na manhã arranjarei para você sair desta armadilha de selva". Todavia, Sanatana suspeitou do comportamento dele, e perguntou a seu servo Ishana se ele tinha dinheiro, Ishana disse a ele que tinha sete moedas de ouro. Sanatana não gostou da idéia do servo carregar tanto dinheiro. Ele ficou bravo com ele e disse, "Por que você carrega essa sentença de morte na estrada"?

Sanatana imediatamente pegou as moedas de ouro e as ofereceu para o hoteleiro. Então ele pediu para o hoteleiro ajudá-lo através da selva. Ele o informou que estava em viagem especial para o governo e porque não podia viajar em estrada aberta, seria muito bom se o hoteleiro o ajudasse através das selvas e sobre as montanhas.

"Eu entendo que você tinha oito moedas consigo, e eu pensei em matá-los para pegá-las", o hoteleiro confessou. "Mas posso entender que você é uma pessoa tão boa que não precisa me oferecer o dinheiro".

"Se você não aceitar estas moedas, alguém virá tirá-las de mim", Sanatana respondeu. "Alguém me matará por causa delas, por isso é melhor você ficar com elas. Eu as ofereço a você". O hoteleiro então deu a ele assistência, e naquela mesma noite o ajudou a passar pelas colinas.

Quando Sanatana emergiu das colinas, ele pediu que seu servo voltasse para casa com uma moeda que ainda tinha consigo. Pois Sanatana decidiu que iria sozinho. Depois da partida de seu servo, Sanatana sentiu-se completamente livre. Com roupa rasgada e um pote de água na mão, ele começou a proceder em direção ao Senhor Chaitanya Mahaprabhu. No caminho, ele encontrou seu cunhado rico que também estava no serviço governamental e que lhe ofereceu um excelente cobertor, que Sanatana aceitou pelo seu pedido especial. Assim se despediu dele e continuou sozinho para ver Chaitanya Mahaprabhu em Benares.

Quando chegou a Benares, entendeu que o Senhor estava lá, e ficou radiante. Ele foi informado pelas pessoas que o Senhor ficava na casa de Chandrashekhara Acharya, e Sanatana foi para lá. Apesar de Chaitanya Mahaprabhu estar dentro da casa, Ele pôde entender que Sanatana tinha chegado à porta, e Ele pediu a Chandrashekhara para chamar o homem que estava sentado lá. "Ele é um Vaishnava, um grande devoto do Senhor", Chaitanya Mahaprabhu disse. Chandrashekhara veio para fora para ver o homem, mas não viu nenhum Vaishnava na porta. Ele viu só um homem que perecia ser um mendigo. O Senhor então pediu para ver o mendigo, e quando Sanatana entrou no pátio, o Senhor Chaitanya com pressa veio vê-lo e o abraçou. Quando o Senhor o abraçou, Sanatana ficou arrebatado com êxtase espiritual, e ele disse, "Meu querido Senhor, por favor não me toque". Mas cada um deles abraçou o outro e começaram a chorar. Ao ver Sanatana e o Senhor Chaitanya agirem daquela forma, Chandrashekhara ficou admirado. Em seguida, Chaitanya Mahaprabhu pediu para Sanatana sentar com Ele num banco. Ele tocava o corpo de Sanatana com Sua mão, e Sanatana pediu-Lhe novamente, "Meu querido Senhor, por favor não me toque".

"Eu toco em você justamente para Minha purificação", o Senhor respondeu, "porque você é um grande devoto. Pelo seu serviço devocional você pode libertar o universo inteiro e capacitar todos para irem de volta ao Supremo".

O Senhor passou a citar um verso do Srimad Bhagavatam para o efeito de que uma pessoa que é um devoto do Senhor Krishna e é cem por cento dedicada no serviço devocional é muito melhor do que um brahmana versado em todas as literaturas Védicas mas que não se dedica ao serviço devocional do Senhor. Porque ele carrega o Supremo Senhor dentro do seu coração, o devoto pode purificar cada lugar e tudo.

Nas literaturas Védicas também é afirmado que a Suprema Personalidade de Deus não reconhece uma pessoa que é muito erudita em todas as divisões dos Vedas, mas, em vez disso, Ele gosta de uma pessoa que é um devoto, mesmo que ele possa ter nascido numa família baixa. Se alguém oferece caridade a um brahmana que não é um devoto, o Senhor não aceita; mas se algo for oferecido a um devoto, o Senhor aceita. Em outras palavras, qualquer coisa que alguém queira oferecer ao Senhor deve ser dada para Seus devotos. Chaitanya Mahaprabhu também citou o Srimad Bhagavatam para o efeito de que se um brahmana não é um devoto do Supremo Senhor, então ele é o mais baixo dos baixos, mesmo embora ele possa ser qualificado com as doze qualidades brahmanas e nascer numa família de classe alta. Um devoto, apesar de nascer numa família candala (comedor de cachorro), pode purificar toda sua família por cem gerações, passado e futuro, por serviço devocional, enquanto um brahmana orgulhoso não pode purificar nem ele mesmo. É dito no Hari-bhakti-sudhodaya (13.2):

aksnoh phalam tvadrsa-darsanam hi
tanoh phalam tvadrsa-gatra-sangah
jihva-phalam tvadrsa-kirtanam hi
sudurlabha bhagavata hi loke

"Ó devoto do Senhor, vê-lo é a perfeição dos olhos, tocar em seu corpo é a perfeição das atividades corpóreas, e glorificar suas atividades é a perfeição da língua, porque é muito raro encontrar um devoto puro igual a você".

O Senhor então disse a Sanatana que Krishna é muito misericordioso e é o libertador das almas caídas. "Ele salvou você do Maharaurava", disse o Senhor. Esse Maharaurava, ou inferno, é descrito no Srimad Bhagavatam como um lugar destinado a pessoas que estão engajadas na matança de animais, porque é dito lá que os açougueiros ou comedores de animais vão para esse inferno.

"Eu não conheço a misericórdia de Krishna", Sanatana respondeu, "mas eu posso entender que Sua misericórdia sobre mim é sem causa. Você me libertou do enredamento da vida material".

Então o Senhor perguntou: "Como você se livrou da custódia? Eu entendi que você estava preso". Sanatana então narrou toda a história da sua libertação. "Eu vi seus dois irmãos", o Senhor então o informou, "e Eu os aconselhei para procederem em direção a Vrindavana".

O Senhor Chaitanya então apresentou Chandrashekhara e Tapana Mishra para Sanatana, e Tapana Mishra com muito prazer convidou Sanatana para jantar com ele. O Senhor pediu a Chandrashekhara que levasse Sanatana a um barbeiro e o deixasse "cavalheiro", porque Sanatana cresceu uma longa barba que Sri Chaitanya Mahaprabhu não gostou. Ele não só pediu a Chandrashekhara providenciar um banho e barbear mas também uma muda de roupas.

Depois do banho, Chandrashekhara lhe deu algumas boas roupas. Quando o Senhor Chaitanya foi informado que Sanatana não aceitou roupas novas mas depois aceitou apenas algumas roupas usadas de Tapana Mishra, Ele ficou muito feliz. O Senhor foi à casa de Tapana Mishra para almoçar e pediu-lhe para guardar comida para Sanatana. Tapana Mishra não ofereceu a Sanatana comida imediatamente, todavia, mas depois que o Senhor terminou Sua refeição havia alguns restos de Sua comida, e que foi oferecida a Sanatana enquanto o Senhor fazia Seu descanso.

Depois do descanso, o Senhor Chaitanya apresentou um brahmana Maharashtriya, um devoto Dele, para Sanatana, o brahmana Maharashtriya convidou Sanatana para aceitar almoço diariamente em sua casa enquanto permanecesse em Benares.

"Enquanto eu permanecer em Benares, mendigarei de porta em porta", disse Sanatana. "Mas o Senhor será tão bom aceitar este convite para almoço diário na sua casa".

O Senhor Chaitanya ficou muito feliz com esse comportamento de Sanatana, mas Ele notou o cobertor valioso que lhe foi dado por seu cunhado durante a rota para Benares. Apesar do Senhor Chaitanya fazer vista grossa para o cobertor, Sanatana entendeu que Ele não aprovou uma vestimenta tão valiosa em seu corpo, por isso Sanatana decidiu se livrar dele. Ele imediatamente foi até a margem do Ganges, onde viu um mendigo que lavava uma manta velha. Quando Sanatana lhe pediu para trocar a manta velha pelo cobertor valioso, o pobre mendigo pensou que Sanatana brincava com ele. "Como é isso"? o mendigo o repreendeu. "Você parece ser um fino cavalheiro, mas zomba de mim neste modo malcriado".

"Eu não brinco com você", Sanatana o informou. "Falo muito sério. Você trocará essa manta velha por este cobertor"? Finalmente o mendigo trocou sua manta velha pelo cobertor, e Sanatana retornou para o Senhor.

"Onde está seu cobertor valioso"? o Senhor inquiriu imediatamente. Sanatana O informou sobre a troca, e o Senhor o amou por isso e o agradeceu. "Você é inteligente o suficiente, e agora você esgotou toda a sua atração por riqueza material". Em outras palavras, o Senhor aceita uma pessoa para serviço devocional somente quando ela está completamente livre de todas as posses materiais. O Senhor então disse a Sanatana: "Não pareceria bem para você ser um mendigo e mendigar de porta em porta com um cobertor tão valioso em seu corpo. É contraditório e as pessoas olhariam para isso com repugnância.

"Qualquer coisa que eu fiz para ficar livre do apego material é tudo por Sua misericórdia", Sanatana respondeu. O Senhor estava muito feliz com ele, e os dois juntos discutiram avanço espiritual.

Antes desse encontro entre o Senhor Chaitanya e Sanatana Goswami, o Senhor encontrou um devoto casado chamado Ramananda Raya. Nesse encontro, que é discutido num capítulo posterior, o Senhor Chaitanya fez perguntas a Ramananda Raya, e Ramananda as respondeu como se ele fosse o professor do Senhor. Todavia, nesse caso, Sanatana fez perguntas para o Senhor, e o Senhor as respondeu Ele mesmo.

As instruções e ensinamentos do Senhor Chaitanya são muito importantes para as pessoas em geral. Ele ensina o processo do serviço devocional, que é a ocupação constitucional de todo ser vivo, porque é dever do ser humano avançar na ciência espiritual. Muitos assuntos foram minuciosamente discutidos nas conversas entre o Senhor Chaitanya e Sanatana Goswami. Devido à misericórdia do Senhor Chaitanya, Sanatana foi capaz de pôr questões importantes perante Ele, e essas perguntas foram respondidas corretamente.

Pelo encontro de Sanatana e Senhor Chaitanya, aprendemos que a fim de compreender assuntos espirituais, temos que nos aproximar de um mestre espiritual igual o Senhor Chaitanya Mahaprabhu e fazer perguntas com submissão. Isso também é confirmado no Bhagavad-gita (Bg. 4.34) que uma pessoa tem que se aproximar de um homem de autoridade e aprender a ciência da vida espiritual dele.

      

     

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

"Ensinamentos do Senhor Chaitanya"
(Original Sem "Correções")
de
Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya
(2ª Impressão de 1975 - 1ª Edição 1968)

Capítulo Três

Ensinamentos para Sanatana Goswami

Das instruções do Senhor Chaitanya para Sanatana Goswami podemos entender a ciência de Deus no que se relaciona à forma transcendental de Deus, Suas opulências, e Seu serviço devocional. De fato, tudo é explicado para Sanatana Goswami pelo Senhor Ele mesmo. Nesse momento, Sanatana caiu aos pés do Senhor e com grande humildade perguntou sobre sua identidade real. "Eu nasci numa família de classe baixa", disse Sanatana. "Minhas associações são abomináveis, e eu sou caído, o mais desprezível da humanidade. Eu sofria no poço escuro do desfrute material, e eu nunca soube o verdadeiro objetivo da minha vida. Realmente, eu nem mesmo sei o que é benéfico para mim. Apesar de ser aquilo que é conhecido no mundo como um grande homem erudito, eu sou de fato tão tolo que até mesmo penso que sou erudito. Você me aceitou como Seu servo, e Você me libertou do enredamento da vida material. Agora por favor me diga qual é o meu dever neste estado liberado".

Por esse apelo, nós entendemos que liberação não é a palavra final em perfeição. Devem existir atividades na liberação. Sanatana diz claramente, "Você me salvou da existência material. Agora, depois da liberação, qual é meu dever"? Sanatana perguntou mais ainda, "Quem sou eu? Por que as misérias triplas sempre me dão sofrimento? E finalmente, diga-me como posso ser liberado deste enredamento material? Eu não sei como questioná-Lo sobre avanço na vida espiritual, mas imploro que Você gentilmente, misericordiosamente, deixe-me saber tudo que eu preciso saber".

Esse é o processo de aceitar um mestre espiritual. A pessoa deve se aproximar de um mestre espiritual, render-se a ele humildemente e então perguntar-lhe sobre o próprio progresso espiritual.

O Senhor estava feliz com o comportamento submisso de Sanatana, e Ele respondeu, "Você já recebeu a bênção do Senhor Krishna, e por isso você sabe tudo e está livre de todas as misérias". O Senhor indicou mais ainda porque Sanatana estava em Consciência de Krishna, ele era naturalmente, pela graça de Krishna, já proficiente em tudo. "Porque você é um devoto humilde", o Senhor continuou, "você Me pede para confirmar o que você já sabe. Isso é muito bom". Essas são as características de um verdadeiro devoto. No Narada-bhakti-sutra é dito, aquele que é muito sério sobre desenvolver Consciência de Krishna tem seu desejo de compreender Krishna satisfeito muito em breve pela graça do Senhor.

"Você é uma pessoa adequada para proteger o serviço devocional do Senhor", Chaitanya Mahaprabhu continuou, "portanto é Meu dever instruir você na ciência de Deus, e Eu lhe explicarei tudo passo a passo".

É o dever de um discípulo aproximar-se do mestre espiritual para inquirir sobre sua posição constitucional. Em conformidade com o processo espiritual, Sanatana já tinha perguntado, "O que sou eu, e por que sofro as misérias triplas"? As misérias triplas são chamadas adhyatmika, adhibhautika, e adhidaivika. A palavra adhyatmika se refere àquelas misérias causadas pela mente e corpo. Às vezes o ser vivo sofre corporalmente, e às vezes angustiado mentalmente. Ambas são misérias adhyatmika. Nós experimentamos essas misérias mesmo no ventre da nossa mãe. Como bem sabemos, existem muitos tipos de misérias que aproveitam a vantagem do corpo humano delicado para nos causar dor. Misérias infligidas por outros seres vivos são chamadas adhibhautika. Esses seres vivos nem mesmo precisam ser grandes, porque existem muitos - como insetos - que podem nos tornar miseráveis mesmo enquanto dormimos na cama. Existem muitos seres vivos insignificantes, tais quais baratas, que às vezes nos causam dor, e também existem outros seres vivos que nascem em diferentes tipos de planetas e que nos causam misérias. No que se refere às misérias adhidaivika, essas são desastres naturais que são originados pelos semideuses dos planetas superiores. Por exemplo, nós às vezes sofremos por frio severo ou clima quente, por um raio, ou por terremotos, tornados, secas e muitos desastres naturais. Em qualquer caso, nós sempre sofremos tanto por uma ou por uma combinação desses três tipos de misérias.

A pergunta de Sanatana foi portanto uma pergunta inteligente. "Qual é a posição dos seres vivos"? perguntou ele. "Por que sempre se submetem a esses três tipos de misérias"? Sanatana admitiu sua fraqueza. Apesar dele ser conhecido pelas massas de pessoas como um grandioso homem erudito (e realmente ele era um intelectual altamente erudito em sânscrito), e apesar dele aceitar essa designação, ele não sabia na verdade o que era a sua posição constitucional realmente e justamente porque ele era sujeito às misérias triplas.

Aproximar-se de um mestre espiritual não é apenas uma moda mas é uma necessidade para aquele que é seriamente consciente das misérias materiais e quer ser livre delas. É dever dessa pessoa se aproximar de um mestre espiritual. A esse respeito, devemos notar circunstâncias similares no Bhagavad-gita. Quando Arjuna ficou perplexo por tantos problemas que envolvia se lutaria ou não, ele aceitou o Senhor Krishna como seu mestre espiritual. Esse também é um caso do mestre espiritual supremo que instrui Arjuna sobre a posição constitucional do ser vivo.

No Bhagavad-gita, somos informados que a natureza constitucional da entidade individual é alma espiritual. Ela não é matéria. Porque é alma espiritual, é parte e parcela da alma suprema, a Verdade Absoluta, a Personalidade de Deus. Também aprendemos que é dever da alma espiritual se render, pois somente assim pode ser feliz. A última instrução do Bhagavad-gita é que a alma espiritual se renda completamente à alma suprema, Krishna, e desse modo realizar felicidade.

Aqui também, o Senhor Chaitanya, em resposta às perguntas de Sanatana, repete a mesma verdade. Há uma diferença, entretanto. Aqui o Senhor Chaitanya não dá a informação sobre a alma espiritual que já está no Bhagavad-gita. Em vez disso, Ele começa do ponto onde Krishna terminou Sua instrução. É aceito por grandes devotos que o Senhor Chaitanya é Krishna Ele mesmo, e desse ponto de vista, Ele começa Sua instrução para Sanatana do ponto onde Ele terminou Suas instruções para Arjuna no Bhagavad-gita.

"Sua posição constitucional é que você é uma alva viva pura", o Senhor disse a Sanatana. "Este corpo material não pode ser identificado com seu eu real; nem é sua mente sua identidade real, nem sua inteligência, nem ego falso. Sua identidade é de servo eterno do Supremo Senhor Krishna. Sua posição é que você é transcendental. A energia superior de Krishna é espiritual em constituição, e a energia externa inferior é material. Porque você está entre a energia material e a energia espiritual, sua posição é marginal. Por pertencer à energia marginal de Krishna, você é simultaneamente uno com e diferente de Krishna. Porque você é espírito, você não é diferente de Krishna, e porque você é apenas uma partícula diminuta de Krishna, você é diferente Dele".

Essa unidade e diferença simultâneas sempre existem no relacionamento entre os seres vivos e o Supremo Senhor. Da posição marginal dos seres vivos, esse conceito de "simultaneamente uno e diferente" pode ser entendido. O ser vivo é justamente igual uma partícula molecular do brilho solar, enquanto Krishna pode ser comparado ao próprio Sol radiante, resplandecente. O Senhor Chaitanya comparou os seres vivos a fagulhas ardentes de um fogo e o Supremo Senhor ao fogo radiante do Sol. Sobre essa conexão, o Senhor cita um verso do Vishnu Purana (1.22.52):

eka-desa-sthitasyagner
jyotsna vistarini yatha
parasya brahmanah saktis
tathedam akhikam jagat

"Tudo que é manifesto dentro deste mundo cósmico é somente a energia do Supremo Senhor. Igual o fogo que emana de um lugar difunde sua iluminação e calor por toda a volta, assim o Senhor, apesar de situado em um lugar do mundo espiritual, manifesta Suas diferentes energias em toda parte. De fato, toda a manifestação cósmica é composta de diferentes manifestações da Sua energia".

A energia do Supremo Senhor é transcendental e espiritual, e os seres vivos são parte e parcela dessa energia. Existe outra energia, entretanto, chamada energia material, que é coberta pela nuvem da ignorância. Essa energia, que é a natureza material, é dividida em três modos, ou gunas (bondade, paixão e ignorância). O Senhor Chaitanya citou o Vishnu Purana (1.3.2) para o efeito que todas as energias inconcebíveis residem na Suprema Personalidade do Senhor e que a manifestação cósmica inteira age devido à energia inconcebível do Senhor.

O Senhor também disse que os seres vivos são conhecidos como ksetrajña, ou "conhecedores do campo de atividades". No Décimo Terceiro Capítulo do Bhagavad-gita, o corpo é descrito como o campo de atividades, e o ser vivo como ksetrajña, o conhecedor do campo. Apesar do ser vivo ser constitucionalmente ciente da energia espiritual, ou tem a potência para entender energia espiritual, ele está coberto pela energia material e conseqüentemente identifica o corpo como o eu. Essa identificação falsa é chamada "ego falso". Iludida por esse ego falso, o ser vivo confuso na existência material muda seus diferentes corpos e sofre vários tipos de misérias. Conhecimento da verdadeira posição do ser vivo é possuído para extensões diferentes por diferentes tipos de seres vivos.

Em outras palavras, deve-se entender que o ser vivo é parte e parcela da energia espiritual do Supremo Senhor. Porque a energia material é inferior, seres humanos têm a habilidade de serem descobertos por esta energia material e utilizar a energia espiritual. Está afirmado no Bhagavad-gita que a energia superior é coberta pela energia inferior. Por causa dessa cobertura, o ser vivo fica sujeito às misérias do mundo material, e, em proporção aos diferentes graus de paixão e ignorância, ele sofre misérias materiais. Aqueles que são um pouco iluminados sofrem menos, mas no todo, tudo mundo é sujeito às misérias materiais devido à cobertura da energia material.

Chaitanya Mahaprabhu também citou o Sétimo Capítulo do Bhagavad-gita no qual está afirmado que terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e ego todas se combinam juntas para formar a energia inferior do Supremo Senhor. A energia superior, entretanto, é a verdadeira identidade do ser vivo, e é por causa dessa energia que o mundo material inteiro funciona. A manifestação cósmica, que é feita de elementos materiais, não tem poder para agir a menos que seja movida pela energia superior, o ser vivo. Pode ser dito realmente que a vida condicionada do ser vivo é devida ao esquecimento de seu relacionamento com o Supremo Senhor na energia superior. Quando o relacionamento é esquecido, vida condicionada é o resultado. Somente quando a pessoa revive sua real identidade, essa de servo eterno do Senhor, que se torna liberada.

     

     

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

"Ensinamentos do Senhor Chaitanya"
(Original Sem "Correções")
de
Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya
(2ª Impressão de 1975 - 1ª Edição 1968)

Capítulo Quatro

O Homem Sábio

Porque ninguém pode traçar a história do enredamento do ser vivo na energia material, o Senhor diz que é sem começo. Por sem começo, isso significa que a vida condicionada existe antes da criação; é simplesmente manifesta durante e depois da criação. Devido ao esquecimento de sua natureza, o ser vivo, apesar de espírito, sofre todos os tipos de misérias da existência material. Deve-se entender que também existem seres vivos que não estão enredados nesta natureza material mas estão situados no mundo espiritual. Eles são chamados almas liberadas e estão sempre dedicados na Consciência de Krishna, serviço devocional.

As atividades daqueles que são condicionados pela natureza material são levadas em consideração, e em sua próxima vida, de acordo com essas atividades, são oferecidos a eles diferentes tipos de corpos materiais. No mundo material, a alma espiritual condicionada é sujeita a várias recompensas e punições. Quando é recompensada por suas atividades justas, é elevada aos planetas superiores onde se torna um dos muitos semideuses, e quando é punida por atividades abomináveis, é jogada nos planetas infernais onde sofre as misérias da existência material mais agudamente. Chaitanya Mahaprabhu dá um ótimo exemplo dessa punição. Antigamente, um rei costumava punir um criminoso por mergulhá-lo no rio, depois o levantava para respirar e novamente o imergia na água. A natureza material pune e recompensa a entidade individual justamente do mesmo modo. Quando é punida, é imergida na água das misérias materiais, e quando é recompensada, é tirada daí por algum tempo. Elevação aos planetas superiores ou a um status de vida superior nunca é permanente. A pessoa tem que descer novamente para ser submersa na água. Tudo isso acontece constantemente nesta existência material; às vezes a pessoa é elevada aos sistemas planetários superiores, e às vezes é atirada na condição infernal da vida material.

A esse respeito, Chaitanya Mahaprabhu recita um verso do Srimad Bhagavatam tirado das instruções de Narada Muni para Vasudeva, o pai de Krishna (Bhag. 11.2.37):

bhayam dvitiyabhinivesatah syad
isad apetasya viparyayo 'smrtih
tan-mayayato budha abhajet tam
bhaktyaikayesam guru-devatatma

Nessa citação dos nove sábios que instruíam Maharaja Nimi, maya é definida como "esquecimento do relacionamento da pessoa com Krishna". Na realidade, maya significa "aquilo que não é". Não tem existência. Portanto é falso pensar que o ser vivo não tem conexão com o Supremo Senhor. Talvez ele não acredite na existência de Deus, ou ele pode pensar que não tem relacionamento com Deus, mas tudo isso são "ilusões", ou maya. Devido à absorção neste falso conceito de vida, a pessoa está sempre temerosa e cheia de ansiedades. Em outras palavras, um conceito de vida sem Deus é maya. Aquele que é realmente versado nas literaturas Védicas se rende ao Senhor com grande devoção e O aceita como o objetivo supremo. Quando um ser vivo esquece a natureza constitucional de seu relacionamento com Deus, ele é imediatamente confundido pela energia externa. Isso é a causa de seu ego falso, sua identificação do corpo com o eu. De fato, seu conceito inteiro do universo material surge dessa identificação falsa com o corpo, porque ele fica apegado ao corpo e seus subprodutos. Para escapar deste enredamento, ele só tem que executar seu dever e se render ao Supremo Senhor com inteligência e devoção e com Consciência de Krishna sincera.

Uma alma condicionada pensa falsamente que é feliz no mundo material, mas se for favorecida pelas instruções de um devoto puro, abandona seu desejo por desfrute material e se torna iluminada em Consciência de Krishna. Tão logo a pessoa entra em Consciência de Krishna, seu desejo por desfrute material é imediatamente vencido, e ela gradualmente se torna livre do enredamento material. Não existe questão de escuridão onde existe luz, e Consciência de Krishna é a luz que dissipa a escuridão do desfrute sensual material.

Uma pessoa consciente de Krishna nunca está sob o conceito falso de que é una com Deus. Ao saber que nunca será feliz por trabalhar para si mesma, ocupa todas suas energias no serviço do Senhor e assim ganha alívio das garras da energia ilusória material. Nessa conexão, Chaitanya Mahaprabhu cita o seguinte verso do Bhagavad-gita:

daivi hy esa guna-mayi
mama maya duratyaya
mam eva ye prapadyante
mayam etam taranti te

"A Minha energia divina, que consiste dos três modos da natureza material, é difícil de ser superada. Mas aqueles que se renderam a Mim podem atravessá-la facilmente". (Bg. 7.14)

Chaitanya Mahaprabhu continuou a ensinar, para cada e todo momento que está engajada em alguma atividade lucrativa, a alma condicionada esquece sua identidade real. Às vezes quando está fatigada, quando está cansada das atividades materiais, deseja liberação e anseia se tornar una com o Supremo Senhor, mas em outros momentos acha que por trabalhar duro para satisfazer seus sentidos será feliz. Nos dois casos, está coberta pela energia material. Para a iluminação dessas almas condicionadas confusas, o Supremo Senhor apresentou literaturas Védicas volumosas tais quais os Vedas, os Puranas e Vedanta-sutra. Todas elas são destinadas a guiar o ser humano de volta ao Supremo. Chaitanya Mahaprabhu deu mais instruções por explicar que quando uma alma condicionada é aceita pela misericórdia do mestre espiritual e é guiada pela Superalma e as várias escrituras Védicas, torna-se iluminada e faz progresso na realização espiritual. É porque o Senhor Krishna é sempre misericordioso com Seus devotos que Ele apresentou todas essas literaturas Védicas pelas quais a pessoa pode entender sua relação com Ele e pode agir sobre a base desse relacionamento. Desse modo a pessoa é abençoada com o objetivo último da vida.

Na realidade, todo ser vivo é destinado a alcançar o Supremo Senhor. De fato, é possível para todo mundo entender seu relacionamento com o Supremo. A execução de deveres para alcançar perfeição é conhecida como serviço devocional, e na maturidade esse serviço devocional se torna amor de Deus, o verdadeiro objetivo da vida para todo ser vivo. Realmente, o ser vivo não é destinado a alcançar sucesso em rituais religiosos, desenvolvimento econômico ou desfrute sensual. O ser vivo não deve desejar nem mesmo sucesso na liberação, o que falar de sucesso em religião, economia e desfrute sensual. O verdadeiro desejo deve ser somente alcançar o estágio de serviço amoroso transcendental para o Senhor. As características todo-atrativas do Senhor Krishna ajudam a pessoa a alcançar esse serviço transcendental, e é por esse serviço em Consciência de Krishna que a pessoa realiza o relacionamento entre Krishna e ela mesma.

Sobre a busca humana para o objetivo último da vida, Chaitanya Mahaprabhu relata uma história do comentário de Madhwa que ocorre no Quinto Canto do Srimad Bhagavatam (Madhwa-bhashya) Sarvajña para um homem pobre que veio até ele para ter seu futuro previsto. Quando Sarvajña viu o horóscopo do homem, ficou imediatamente admirado porque o homem era tão pobre, e disse a ele, "Porque você é tão infeliz? Do seu horóscopo eu posso ver que você possui um tesouro escondido deixado para você por seu pai. Todavia, o horóscopo indica que seu pai não pôde revelar isso a você porque morreu num país estrangeiro, mas agora você pode procurar esse tesouro e ser feliz". Essa história é citada porque o ser vivo sofre por causa de sua ignorância sobre o tesouro escondido de seu Pai Supremo, Krishna. O tesouro é amor do Supremo, e em cada escritura Védica a alma condicionada é aconselhada a encontrá-lo. Como está afirmado no Bhagavad-gita, embora a alma condicionada seja o filho da personalidade mais rica - a Personalidade de Deus - ela não realiza isso. Por isso que as literaturas Védicas são dadas a ela para ajudá-la a procurar seu pai e sua propriedade paterna.

O astrólogo Sarvajña aconselhou o homem pobre mais ainda: "Não cave no lado sul da sua casa para encontrar o tesouro, porque se fizer isso será atacado por uma vespa venenosa e ficará frustrado. A procura deve ser conduzida no lado leste onde existe luz verdadeira, que se chama serviço devocional ou Consciência de Krishna. No lado sul existem os rituais Védicos, e no lado oeste existe especulação mental, e no lado norte existe yoga meditativa".

O conselho de Sarvajña deve ser observado cuidadosamente por todos. Se alguém procura pelo objetivo último por meio do processo ritualístico, seguramente será frustrado. Esse processo envolve a realização de rituais sob a guia de um sacerdote que pede dinheiro em troca do serviço. Uma pessoa pode achar que será feliz com a realização desses rituais, mas na verdade se ganhar algum resultado deles, é apenas temporário. Seu sofrimento material continuará. Assim nunca se tornará feliz de verdade por seguir o processo ritualístico. Em vez disso, simplesmente incrementará suas dores materiais mais e mais. O mesmo pode ser dito por cavar no lado norte, ou procurar o tesouro por meio do processo de yoga meditativo. Por esse processo a pessoa pensa em se tornar um com o Supremo Senhor, mas essa fusão no Supremo é como ser engolida por uma grande serpente. Às vezes uma serpente grande engole uma menor, e imergir na existência espiritual do Supremo é análogo. Enquanto a serpente pequena procura pela perfeição, é engolida. Obviamente não há solução aqui. No lado oeste também existe um impedimento na forma de um yaksa, um espírito maligno que protege o tesouro. A idéia é que um tesouro escondido nunca pode ser encontrado por aquele que pede o favor de um yaksa a fim de obtê-lo. O resultado é que a pessoa simplesmente será morta. Esse yaksa é a mente especulativa, e nesse caso o processo especulativo de auto-realização, ou o processo jñana, também é suicida.

A única possibilidade então é procurar o tesouro escondido no lado leste pelo processo do serviço devocional em Consciência de Krishna plena. De fato, o processo do serviço devocional é o tesouro oculto perpétuo, e quando alguém o alcança, torna-se perpetuamente rico. Aquele que é pobre em serviço devocional para Krishna está sempre em necessidade de ganho material. Às vezes, sofre as picadas das criaturas venenosas, e às vezes é frustrado; às vezes segue a filosofia do monismo e assim perde sua identidade, e às vezes é engolido por uma grande serpente. É só por abandonar tudo isso e se tornar fixo em Consciência de Krishna, serviço devocional para o Senhor, que a pessoa pode realmente alcançar a perfeição da vida.

     

      

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

"Ensinamentos do Senhor Chaitanya"
(Original Sem "Correções")
de
Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya
(2ª Impressão de 1975 - 1ª Edição 1968)

 

Capítulo Cinco

Como Se Aproximar de Deus

Na realidade todas as literaturas Védicas direcionam o ser humano em direção ao estágio perfeito de devoção. Os caminhos de atividades lucrativas, conhecimento especulativo e meditação não conduzem ninguém ao estágio de perfeição, mas pelo processo do serviço devocional, o Senhor realmente se torna aproximável. Portanto todas as literaturas Védicas recomendam que se aceite esse processo. A esse respeito, Chaitanya Mahaprabhu citou das instruções do Senhor para Uddhava no Srimad Bhagavatam:

na sadhayati mam yogo
na sankhyam dharma uddhava
na svadhyayas tapas tyago
yatha bhaktir mamorjita

"Meu querido Uddhava, nem especulação filosófica, nem yoga meditativa, nem penitências podem Me dar tanto prazer quanto o serviço devocional praticado pelos seres vivos". (Bhag. 11.14.20). Krishna é querido somente pelos devotos, e Ele pode ser alcançado somente por serviço devocional. Se uma pessoa de nascimento baixo for um devoto, automaticamente se torna livre de toda a contaminação. Serviço devocional é o único caminho pelo qual se pode alcançar a Pessoa Suprema. Essa é a única perfeição aceita por toda literatura Védica. Justamente igual um homem pobre que se torna feliz quando recebe algum tesouro, quando alguém alcança serviço devocional, suas dores materiais são automaticamente aniquiladas. À medida que a pessoa avança em serviço devocional, obtém amor de Deus, e à medida que avança nesse amor, ela se torna livre de todo o cativeiro material. Não se deve pensar, entretanto, que o desaparecimento da pobreza e a liberação do cativeiro são os resultados finais do amor de Krishna. É em saborear a reciprocidade do serviço amoroso que o amor de Krishna existe. Em todas as literaturas Védicas encontramos que a obtenção desse relacionamento amoroso entre o Supremo Senhor e os seres vivos é a função do serviço devocional. Nossa função verdadeira é serviço devocional, e nosso objetivo último é amor do Supremo. Em todas as literaturas Védicas pode-se encontrar que Krishna é o centro último, porque através do conhecimento de Krishna todos os problemas da vida são resolvidos.

Chaitanya Mahaprabhu indicou (de acordo com o Padma Purana) apesar de haver diferentes escrituras para adoração de diferentes tipos de semideuses, essas instruções só confundem as pessoas no pensamento de que os semideuses são o supremo. Ainda mais se a pessoa cuidadosamente examinar e estudar os Puranas, encontrará que Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, é o único objeto de adoração. Por exemplo, no Markandeya Purana há menção da adoração a Devi, ou a deusa Durga ou Kali, nessa mesma candika também está afirmado que todos os semideuses - mesmo na forma de Durga ou Kali - são apenas diferentes energias do Vishnu Supremo. Assim o estudo dos Puranas revela Vishnu, a Suprema Personalidade de Deus, como o único objeto de adoração. A conclusão é que diretamente ou indiretamente, todos os tipos de adoração são mais ou menos direcionadas para a Suprema Personalidade de Deus, Krishna. No Bhagavad-gita está confirmado, aquele que adora os semideuses de fato só adora Krishna porque os semideuses são partes diferentes do corpo de Vishnu, ou Krishna. Que essa adoração dos semideuses é irregular, também é afirmado no Bhagavad-gita (Bg. 7.20-23, 9.23). O Srimad Bhagavatam confirma essa irregularidade por fazer a pergunta: "Qual é o objeto de adorar diferentes tipos de semideuses"? Na literatura Védica há várias divisões de atividades ritualísticas; uma é karma-kanda, ou atividades puramente ritualísticas, e outra é jñana-kanda, ou especulação sobre a Verdade Absoluta Suprema. Qual é então o propósito das seções ritualísticas das literaturas Védicas, e qual o propósito de diferentes mantras ou hinos que indicam adoração de vários semideuses? E qual o propósito da especulação filosófica sobre a matéria da Verdade Absoluta? O Srimad Bhagavatam responde que na realidade todos esses métodos definidos nos Vedas indicam a adoração do Supremo Senhor Vishnu. Em outras palavras, são só formas indiretas de adorar a Suprema Personalidade de Deus. Sacrifícios contidos nas porções ritualísticas dessas literaturas são destinados à satisfação do Supremo Senhor Vishnu. De fato, porque yajña, sacrifício, é especialmente destinado para satisfazer Vishnu, outro nome de Vishnu é Yajñesvara, ou o Senhor dos sacrifícios.

Porque os neófitos não estão no mesmo nível transcendental, são aconselhados a adorar diferentes tipos de semideuses de acordo com sua situação nos diferentes modos da natureza material. A idéia é que gradualmente esses neófitos possam se elevar ao plano transcendental e se dedicar no serviço de Vishnu, a Suprema Personalidade de Deus. Por exemplo, alguns neófitos que são apegados a comer carne são aconselhados pelos puranas a comer carne depois de oferecê-la à deidade Kali.

As seções filosóficas dos hinos Védicos são destinadas a capacitar uma pessoa para distinguir o Supremo Senhor de maya. Depois que a pessoa entende a posição de maya, pode se aproximar do Supremo Senhor em serviço devocional puro. Esse é o verdadeiro propósito da especulação filosófica, e isso é confirmado no Bhagavad-gita:

bahunam janmanam ante
jnanavan mam prapadyate
vasudevah sarvam iti
sa mahatma sudurlabhah

"Depois de muitos nascimentos e mortes, aquele que está realmente em conhecimento se rende a Mim, pois sabe que Eu sou a causa de todas as causas e de tudo que existe. Tal grande alma é muito rara". (Bg. 7.19).

Assim pode-se ver que todos os rituais e diferentes tipos de adoração e especulação filosófica ultimamente visam Krishna.

Chaitanya Mahaprabhu então disse a Sanatana Goswami sobre as múltiplas formas de Krishna e Sua opulência ilimitada. Ele também descreveu a natureza da manifestação espiritual, da manifestação material, e da manifestação do ser vivo. Ele também informou Sanatana Goswami que os planetas no céu espiritual, conhecidos como Vaikunthas, e os universos da manifestação material são na realidade diferentes tipos de manifestações porque são manifestações criadas de dois tipos de energia diferentes - a energia material e a energia espiritual. No que diz respeito a Krishna em Pessoa, Ele está diretamente situado na Sua energia espiritual, ou especificamente em Sua potência interna. Para nos ajudar a entender a diferença entre as energias espiritual e material, há uma análise clara das duas no Segundo Canto do Srimad Bhagavatam. Shridhara Swami também dá um estudo analítico claro em seu comentário sobre o primeiro verso do Décimo Canto do Srimad Bhagavatam. Shridhara Swami foi aceito pelo Senhor Chaitanya como um comentador autorizado sobre o Srimad Bhagavatam, e Chaitanya Mahaprabhu citou seus escritos e explicou que no Décimo Canto do Bhagavatam a vida e atividades de Krishna são descritas porque Krishna é o único abrigo de todas as manifestações. Por saber disso, Shridhara Swami adorou e ofereceu suas reverências a Krishna como o abrigo de tudo.

Neste mundo existem dois princípios de operação: Um princípio é a origem ou abrigo de tudo, e o outro princípio é deduzido desse princípio original. A Verdade Suprema é o abrigo de todas as manifestações e se chama asraya. Todos os outros princípios, que permanecem sob o controle do asraya-tattva, ou a Verdade Absoluta, são chamados asrita, ou corolários e reações subordinados. O propósito da manifestação material é dar à alma condicionada uma chance para alcançar liberação e retornar para o asraya-tattva, ou a Verdade Absoluta. Porque tudo na criação cósmica é dependente de asraya-tattva - a manifestação criativa ou a manifestação de Vishnu - os vários semideuses e as manifestações de energia, os seres vivos e todos os elementos materiais são dependentes de Krishna, porque Krishna é a Verdade Suprema. Assim o Srimad Bhagavatam indica que tudo é abrigado por Krishna diretamente e indiretamente. Conseqüentemente conhecimento perfeito só pode ser adquirido por um estudo analítico de Krishna, como confirmado no Bhagavad-gita.

O Senhor Chaitanya então descreveu os diferentes aspectos de Krishna e pediu para Sanatana Goswami ouvir atentamente. Ele então o informou que Krishna, o filho de Nanda Maharaja, é a Verdade Absoluta Suprema, a causa de todas as causas e a origem de todas emanações e encarnações. Ainda mais em Vraja, ou Goloka Vrindavana, Ele é justamente igual um jovem menino e é o filho de Nanda Maharaja. Sua forma, todavia, é eterna, plena de bem-aventurança, e plena de conhecimento absoluto. Ele é tanto o abrigo de tudo quanto o proprietário de tudo.

Chaitanya Mahaprabhu também dá evidência do Brahma-samhita sobre as propriedades transcendentais do corpo do Senhor Krishna:

isvarah paramah krsnah
sac-cid-ananda-vigrahah
anadir adir govindah
sarva-karana-karanam

"Krishna, que é conhecido como Govinda, é a Divindade Suprema. Ele tem um corpo espiritual eterno, bem-aventurado. Ele é a origem de tudo. Ele não tem nenhuma outra origem, e Ele é a causa primordial de todas as causas". (Bs. 5.1). Desse modo, Chaitanya Mahaprabhu dá evidência que Krishna é a Personalidade de Deus original, plena de todas as seis opulências. É de Sri Krishna cuja morada, conhecida como Goloka Vrindavana, é o sistema planetário mais elevado no céu espiritual.

Em adição, o Senhor Chaitanya também citou um verso do Srimad Bhagavatam (Bhag. 1.3.28):

ete camsa-kalah pumsah
krsnas tu bhagavan svayam
indrari-vyakulam lokam
mrdayani yuge yuge

Todas as encarnações ou são expansões diretas de Krishna ou, indiretamente, expansões das expansões de Krishna. Todavia, o nome de Krishna indica a Personalidade de Deus original. É Ele quem aparece nesta Terra, neste universo ou em qualquer outro universo, quando há um distúrbio criado pelos demônios, que sempre tentam perturbar a administração dos semideuses.

Existem três processos diferentes pelos quais Krishna pode ser entendido: o processo empírico de especulação filosófica, o processo de meditação de acordo com o sistema de yoga místico, e o processo da Consciência de Krishna, ou serviço devocional. Pelo método de especulação filosófica, o aspecto Brahman impessoal de Krishna é entendido. Pelo processo de meditação ou yoga místico, o aspecto da Superalma, a expansão todo-penetrante de Krishna, é entendido. E pelo serviço devocional em Consciência de Krishna plena, a Personalidade de Deus original é realizada. O Senhor Chaitanya também cita um verso do Srimad Bhagavatam (Bhag. 1.2.11):

vadanti tat tattva-vidas
tattvam yaj jñanam advayam
brahmeti paramatmeti
bhaga van iti sabdyate

"Aqueles que são conhecedores da Verdade Absoluta descrevem a Verdade Absoluta em três aspectos como Brahman impessoal, Superalma localizada todo-penetrante, e a Suprema Personalidade de Deus, Krishna". Em outras palavras, Brahman, a manifestação impessoal, Paramatma, a manifestação localizada, e Bhagavan, a Suprema Personalidade de Deus, são uma e a mesma. Entretanto, de acordo com o processo adotado, Ele é realizado como Brahman, Paramatma e Bhagavan.

Por realizar o Brahman impessoal, a pessoa simplesmente realiza a refulgência que emana do corpo transcendental de Krishna. Essa refulgência é comparada ao brilho solar. Existe o deus do Sol, o Sol em si e o brilho solar que é a refulgência resplandecente do deus do Sol original. Similarmente, a refulgência espiritual (brahmajyoti), Brahman impessoal, é nada mais além da refulgência de Krishna. Para suportar essa análise, o Senhor Chaitanya cita um verso importante do Brahma-samhita no qual o Senhor Brahma diz:

yasya prabha prabhavato jagadanda-koti-
kotisv asesa-vasudhadi-vibhuti-bhinnam
tad-brahma niskalam anantam asesa-bhutam
govindam adi-purusam tam aham bhajami

"Eu adoro a Suprema Personalidade de Deus, por cuja refulgência pessoal o brahmajyoti ilimitado é manifesto. Nesse brahmajyoti existem inumeráveis universos, e cada um é repleto de planetas inumeráveis". (Bs. 5.40).

O Senhor Chaitanya indica mais ainda que o Paramatma, o aspecto todo-penetrante situado no corpo de todos, é apenas uma manifestação ou expansão parcial de Krishna, mas porque Krishna é a alma de todas as almas, Ele é chamado Paramatma, o Eu Supremo. A esse respeito, Chaitanya citou outro verso do Srimad Bhagavatam a respeito das conversas entre Maharaja Parikshit e Shukadeva Goswami. Enquanto ouvia sobre os passatempos transcendentais de Krishna em Vrindavana, Maharaja Parikshit inquiriu de seu mestre espiritual, Shukadeva Goswami, porque os habitantes de Vrindavana eram tão atraídos por Krishna. A essa pergunta, Shukadeva Goswami respondeu:

krsnam enam avehi tvam
atmanam akhilatmanam
jagaddhitaya so 'py atra
dehivabhati mayaya

"Krishna deve ser conhecido como a alma de todas as almas, porque Ele é a alma de todas as almas individuais e a alma do próprio Paramatma localizado também. Em Vrindavana, Ele agia justamente igual um ser humano para atrair pessoas e mostrar que Ele não é sem forma". (Bhag. 10.14.55).

O Supremo Senhor é tão individual quanto outros seres vivos, mas Ele é diferente no sentido de que Ele é o Supremo e todos os outros seres vivos são subordinados a Ele. Todos os outros seres vivos também podem desfrutar bem-aventurança, vida eterna e conhecimento pleno espirituais na associação Dele. O Senhor Chaitanya cita um verso do Bhagavad-gita no qual Krishna, ao falar para Arjuna sobre Suas diferentes opulências, destaca que Ele em Pessoa entra neste universo por uma de Suas porções plenárias, Garbhodakashayi Vishnu, e também entra em cada universo como o Kshirodakashayi Vishnu, e então Se expande como a Superalma no coração de todos. O Senhor Krishna em Pessoa indica que se alguém quer entender a Verdade Absoluta Suprema em perfeição, deve adotar o processo do serviço devocional em plena Consciência de Krishna. Então será possível para ele entender a última palavra da Verdade Absoluta.

     

     

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

"Ensinamentos do Senhor Chaitanya"
(Original Sem "Correções")
de
Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya
(2ª Impressão de 1975 - 1ª Edição 1968)

Capítulo Seis

Suas Formas são Uma e a Mesma

Pelo serviço devocional a pessoa pode entender que Krishna primeiro de tudo Se manifesta como svayam-rupa, Sua forma pessoal, depois como tadekatma-rupa, e então como avesa-rupa. É nesses três aspectos que Ele Se manifesta em Sua forma transcendental. O aspecto svayam-rupa é a forma pela qual Krishna pode ser entendido por quem pode não entender Seus outros aspectos. Em outras palavras, a forma pela qual Krishna é entendido diretamente se chama svayam-rupa, ou Sua forma pessoal. A tadekatma-rupa é a forma que mais se assemelha com a svayam-rupa, mas existem algumas diferenças nas características corpóreas. A tadekatma-rupa é dividida em duas manifestações - a expansão pessoal (svamsa) e a expansão de passatempo (vilasa). No que diz respeito à avesa-rupa, quando Krishna dota de poder algum ser vivo adequado para representá-Lo, esse ser vivo é chamado avesa-rupa, ou saktyavesa-avatara.

A forma pessoal de Krishna pode ser dividida em duas: svayam-rupa e svayam-prakasa. Quanto à Sua svayam-rupa (ou forma de passatempo), é nessa forma que Ele sempre permanece em Vrindavana com os habitantes de Vrindavana. Essa forma pessoal (svayam-rupa) pode ser mais dividida nas formas prabhava e vaibhava. Por exemplo, Krishna Se expandiu em múltiplas formas durante a dança rasa a fim de dançar com cada e toda gopi que participou, e em formas a fim de acomodar Suas 16.108 esposas. Há alguns exemplos de grandes místicos que também expandem seus aspectos corpóreos em diferentes modos, mas Krishna não Se expandiu por nenhum processo de yoga. Cada expansão de Krishna era separada e individual. Na história Védica, Saubhari Rishi, um sábio, expandiu-se em oito formas pelo processo de yoga, mas Saubhari Rishi permaneceu um. Em relação a Krishna, quando Ele Se manifesta em diferentes formas, cada e toda forma era uma parte separada individual. Quando Narada Muni visitou Krishna nos diferentes palácios em Dwaraka, ele ficou admirado com isso, mesmo porque Narada nunca fica admirado ao ver expansões do corpo de um yogi, porque ele mesmo conhece o truque. Ainda assim, no Srimad Bhagavatam está afirmado que Narada ficou realmente admirado de ver as expansões de Krishna. Ele ficou maravilhado de ver como o Senhor estava presente com Suas rainhas em cada e todos os Seus 16.108 palácios. Com cada rainha, Krishna em Pessoa estava numa forma diferente, e agia de modos diferentes. Numa forma Ele estava entretido em brincar com Seus filhos, e ainda em alguma outra Ele realizava alguma tarefa doméstica. Essas diferentes atividades são conduzidas pelo Senhor quando Ele está em Suas formas "emocionais", que são conhecidas como expansões vaibhava-prakasa. Similarmente, existem outras expansões ilimitadas das formas de Krishna, mas mesmo quando estão divididas ou expandidas sem limite, elas ainda são uma e a mesma. Não existe diferença entre uma forma e outra. Essa é a natureza absoluta da Suprema Personalidade de Deus.

No Srimad Bhagavatam está afirmado que quando Akrura acompanhava ambos Krishna e Balarama de Gokula para Mathura, ele entrou nas águas do Rio Yamuna e pôde ver nas águas todos os planetas no céu espiritual. Ele também viu ali o Senhor em Sua forma de Vishnu e também Narada e os quatro Kumaras, que O adoravam. Como está afirmado no Bhagavata Purana (Bhag. 10.40.7):

anye ca samskrtatmano
vidhinabhihitena te
yajanti tvan-mayas tvam vai
bahumurty-ekamurtikam

Existem muitos adoradores que são purificados pelos diferentes processos de adoração - tais quais os Vaishnavas ou os Aryans - que adoram o Supremo Senhor de acordo com suas convicções de entendimento espiritual. Cada processo de adoração envolve a compreensão das diferentes formas do Senhor, como mencionado nas escrituras, mas a idéia última é adorar o Supremo Senhor em Pessoa.

Em Seu aspecto vaibhava-prakasa, o Senhor Se manifesta como Balarama. O aspecto de Balarama é tão bom quanto o Próprio Krishna, a única diferença é que a tonalidade corpórea de Krishna é escura e de Balarama é clara. A forma vaibhava-prakasa também foi exibida quando Krishna apareceu perante Sua Mãe Devaki na forma de quatro mãos de Narayana, justamente quando Ele entrou no mundo. A pedido de Seus pais, todavia, Ele Se transformou numa forma de duas mãos. Assim às vezes Ele manifesta quatro mãos e às vezes duas. A forma de duas mãos é realmente vaibhava-prakasa, e a forma de quatro mãos é prabhava-prakasa. Em Sua forma pessoal, Krishna é justamente igual um menino pastor de vacas, e Ele pensa em Si mesmo desse modo. Mas quando Ele está na forma Vasudeva, Ele pensa em Si mesmo como o filho de um ksatriya e age como um príncipe administrador.

Na forma de duas mãos, como o menino pastor de vacas filho de Nanda Maharaja, Krishna exibe plenamente Sua opulência, forma, beleza, riqueza, atratividade e passatempos. De fato, em algumas literaturas Vaishnavas se encontra que às vezes, na Sua forma de Vasudeva, Ele fica atraído pela forma de Govinda em Vrindavana. Assim como Vasudeva, Ele às vezes deseja desfrutar igual o menino pastor de vacas Govinda faz, apesar da forma Govinda e a forma Vasudeva serem uma e a mesma. Sobre isso, há uma passagem no Quarto Capítulo do Lalita-madhava (4.19), onde Krishna fala com Uddhava como se segue: "Meu querido amigo, a forma de Govinda, o menino pastor de vacas, Me atrai. De fato, Eu desejo ser igual às donzelas de Vraja, que também estão atraídas por essa forma de Govinda". Similarmente, no Oitavo Capítulo, Krishna diz: "Ó quão maravilhoso é isso! Quem é essa pessoa? Depois de vê-Lo, Eu estou tão atraído que agora Eu desejo abraçá-Lo justamente igual Radhika".

Também existem formas de Krishna que são um pouco diferentes, e essas são chamadas de formas tadekatma-rupa. Essas podem ser divididas ainda nas formas vilasa e svamsa, que por sua vez têm muitos aspectos diferentes e podem ser divididas em formas prabhava e vaibhava. Sobre as formas vilasa, existem inumeráveis prabhava-vilasas pelas quais Krishna Se expande como Vasudeva, Sankarshana, Pradyumna, e Aniruddha. Às vezes o Senhor pensa de Si mesmo como um menino pastor de vacas, e às vezes Ele pensa de Si mesmo como o filho de Vasudeva, um príncipe ksatriya, e esse pensamento de Krishna se chama Seus "passatempos". Na realidade, Ele está na mesma forma em Sua vaibhava-prakasa e prabhava-vilasa, mas Ele aparece diferentemente como Balarama e Krishna. Suas expansões como Vasudeva, Sankarshana, Pradyumna e Aniruddha estão na catur-vyuha original, ou formas de quatro mãos.

Existem inumeráveis manifestações de quatro mãos em diferentes planetas e diferentes locais, e elas são manifestas em Dwaraka e Mathura eternamente. Das quatro formas de quatro mãos originais (Vasudeva, Sankarshana, Pradyumna e Aniruddha) se manifestam as principais vinte e quatro formas chamadas vaibhava-vilasa, e são chamadas diferentemente de acordo com a colocação dos diferentes símbolos (búzio, maça, lótus e disco) em Suas mãos. As quatro manifestações principais de Krishna são encontradas em cada planeta no céu espiritual, e esses planetas são chamados Narayanaloka ou Vaikunthaloka. No Vaikunthaloka Ele é manifesto na forma de quatro mãos de Narayana. De cada Narayana, as quatro formas de Vasudeva, Sankarshana, Pradyumna e Aniruddha são manifestas. Narayana é o centro, e as quatro formas de Vasudeva, Sankarshana, Pradyumna e Aniruddha rodeiam a forma de Narayana. Cada uma dessas quatro formas novamente se expande em três, e todas essas têm diferentes nomes, a começar com Keshava. Essas formas são doze no total, e são conhecidas por diferentes nomes de acordo com a colocação dos símbolos em Suas mãos.

Sobre a forma de Vasudeva, as três expansões manifestas Dele são Keshava, Narayana e Madhava. As três formas de Sankarshana são conhecidas como Govinda, Vishnu e Sri Madhusudana. (Deve-se notar, entretanto, que essa forma Govinda não é a mesma forma Govinda que é manifesta em Vrindavana como o filho de Nanda Maharaja). Similarmente, Pradyumna também é dividido em três formas conhecidas como Trivikrama, Vamana e Shridhara; e as três formas de Aniruddha são conhecidas como Hrishikesha, Padmanabha e Damodara.

     

...

    

       

Continua em breve...

       

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

Todas as glórias à Sua Divina Graça Visvavarenya Om Vishnupada Paramahamsa Parivrajakacarya Ashttotara-shata Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Srila Prabhupada Thakur Mahashaya, aquele que escancarou as Portas do Tesouro Sublime de Krishna Prema de Sriman Mahaprabhu para todos no mundo inteiro, aquele que nos concedeu o Néctar Divino do Magnífico Abrigo aos pés de lótus dos Devotos Puros de Sriman Mahaprabhu, como nosso amado Srila Guru Maharaj Prabhupada

 

 

 

Nitai Gaura Hari Bol

 

 

 

 

 

     

Param Vijayate Sri Krishna Sankirtanam

     

 

 

 

Pela Divina Graça de Srila Prabhupada, Srila Guru Maharaj Prabhupada e todos os nossos Mestres Divinos da Família do Senhor Chaitanya Mahaprabhu

Insignificante Digitador
Visvavandya Dasa
(Guerreiro do Senhor Chaitanya pela Graça Divina de Prabhupada, Guru Maharaj Prabhupada, e meu amado Irmão Sri Srimad Avadhuta Maharaj)

 

     

Param Vijayate Sri Krishna Sankirtanam

     

     

       

      

Índice do Bhagavad-gita

Índice de Livros

 

 

Todas as Glórias a Sri Guru e Sri Gauranga

Nitai Gaura Hari Bol

 

"Ensinamentos do Senhor Chaitanya"
(Original Sem "Correções")
de
Sua Divina Graça
Sri Srimad Bhaktivedanta Swami Maharaj Prabhupada
Paramahamsa Thakura Mahashaya
(2ª Impressão de 1975 - 1ª Edição 1968)

 

     

...

    

 

 

     

Desde 18/julho/2000

(Última Edição: 28-fev-2021 )

home